segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A África no contexto da economia globalizada

Os governos que se estruturaram após os processos de independência foram, de modo geral, marcados pelo autoritarismo e pela corrupção. Além disso, as disputas pelo poder entre nações rivais, a carência de recursos financeiros e a economia fortemente voltada para a exportação, aliadas aos interesses econômicos e político-militares das grandes potências (incluindo Estados Unidos e ex-União Soviética no pós-Segunda Guerra Mundial), entre outros fatores, dificultaram reformas na organização política e socioeconômica da maioria dos países africanos.
Esse quadro, associado aos longos períodos de seca e à pressão demográfica sobre os recursos naturais, tem ocasionado situações de fome crônica e disseminação de doenças em vários países da África. Além disso, a utilização de muitas terras férteis do continente para a produção de gêneros de exportação impactou a produção de alimentos. Entre 1960 e 2010, enquanto a produção de gêneros alimentícios no mundo cresceu 150%, no continente africano caiu 10%.

Novos paradigmas 

Desde a segunda metade do século XX, muitos países africanos buscaram sua independência em relação às potências coloniais da Europa. Com o fim da Guerra Fria, a África integrou-se à Nova Ordem Mundial como uma espécie de nova fronteira para os negócios internacionais. 
Após violento processo marcado por guerras civis e conflitos entre grupos étnicos locais, em que a antiga URSS e os EUA tomaram partido em função de seus interesses, governos dos países africanos foram se estabelecendo, ora eleitos, ora instituídos por golpes de Estado, e abriram-se para a entrada de investimentos internacionais.
No contexto da economia globalizada – caracterizada por intensos fluxos financeiros, desenvolvimento de tecnologia avançada e busca de mão de obra qualificada e mercados consumidores para produtos de alta tecnologia –, a maioria dos países africanos, sobretudo os subsaarianos (que se situam ao sul do deserto do Saara), tem o desafio de melhorar e ampliar a infraestrutura energética, de telecomunicações e de transportes, além de qualificar mão de obra a fim de atrair investimentos. A participação do continente africano no PIB global é de apenas 2,7%. 
A maioria dos países subsaarianos dispõe basicamente de matérias-primas minerais e agrícolas, cujos preços apresentaram alta na primeira década do século XXI, porém sofreram redução na demanda e nos valores na segunda década deste século. A alta de preços alavancou o crescimento econômico de alguns países, como Angola, Guiné Equatorial e Nigéria, cujas taxas chegaram a se manter superiores a 5% ao ano.
Os setores produtores de matérias-primas minerais e energéticas (petróleo e gás), embora gerem expressivas receitas por meio da exportação para alguns países, não contribuem expressivamente para a geração de empregos. Daí a necessidade de diversificação econômica nos países da região, cuja exceção é a África do Sul (que faz parte do Brics).
Ações no sentido de atrair mais investimentos e diversificar a economia africana têm sido empreendidas por países como a Etiópia, na África Oriental, cujo governo montou parques industriais em alguns setores da economia (agroalimentar, farmacêutico, têxtil e de curtume), e o Quênia, que em 2015 aprovou uma nova legislação para atividades econômicas, que inclui a criação de uma Zona Econômica Especial para a estruturação de empresas da indústria de transformação. No entanto, os investimentos estrangeiros ainda se concentram em boa parte nos setores de produção de matérias-primas.
Com a ascensão do bloco econômico denominado Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), alguns países africanos foram favorecidos com acordos comerciais em um contexto de fortalecimento das relações políticas sul-sul, isto é, entre economias emergentes e em desenvolvimento. 
Ainda assim, muitos países do continente figuram entre as piores colocações no ranking mundial de desenvolvimento humano e entre algumas das economias mais enfraquecidas do mundo. De modo geral, a economia dos países africanos é baseada no setor primário, sendo a agricultura a principal atividade. A África também se destaca na produção mundial de minérios. 
A África do Sul é o país mais industrializado do continente, a maior economia africana e um dos países com o maior índice de desigualdade econômica e social do mundo.

Agropecuária 

As potências coloniais não tinham interesse em desenvolver economias locais fortes, e sim man tê-las atreladas ao antigo modelo de exploração. Assim, como herança do Período Colonial, permanece no continente africano o modelo de pequenas lavouras de subsistência, nas quais trabalha grande parte da população, bem como as monoculturas voltadas para a exportação.
principalmente nas áreas de florestas e nas savanas. Esse tipo de prática agrí cola – baseada no uso coletivo da terra – tem como finalidade o autoabastecimento, ocupando grande parcela da mão de obra feminina na África. Em geral, esse sistema de cultivo – fundamental para a segurança alimentar dos países africanos – desenvol ve-se em pequenas e médias propriedades, nas quais se utilizam técnicas mais simples, com menores rendimentos. 
A monocultura exportadora foi introduzida no continente pelos colonizadores com a finalidade de exportar os produtos tropicais para abaste cer os mercados internos da Europa. Esse tipo de prática agrícola comercial denomina--se plantation.
As plantations predominam na África Subsaariana e, atualmente, são controla das, sobretudo, por investimentos estrangeiros, com estrutura de beneficiamento de produção e sistemas ferroviários que atendem às exportações. 
Por serem essencialmente agrícolas, os países africanos têm uma economia frágil, uma vez que dependem de fatores ambien tais (períodos de seca e de cheia), bem como dos preços das commodities no mercado internacional. 
As condições desiguais de produção agrícola e de investimentos existentes entre as nações ricas ou emergentes e os países africanos causam desvantagem aos governos locais africanos, impedindo muitas vezes uma boa lucratividade oriunda da comercialização de sua produção agrícola.
Além disso, muitos países ricos costumam subsidiar seus produtores para incentivar a produção agrícola local, medida que garante preços mais atrativos de certos produtos no mercado mundial. Essa concorrência desi gual impede uma maior expansão na exportação de produtos agrícolas produzidos na África e, consequentemente, dificulta o crescimento da economia no continente. 
Por causa das desigualdades sociais, as melhores terras e a tecnologia são empregadas em grande parte na agricultura destinada à exportação, que, por sua vez, ocupa cada vez mais as áreas onde a agricultura de subsistência era praticada. Alguns países já buscam desenvolver a agricultura local por meio de projetos que misturam a aplicação de tecnologia de ponta, conhecimen tos tradicionais e estratégias de ascensão social, como é o caso do Instituto Queniano de Agricultura Orgânica, que atua na inclusão social de camadas empobrecidas da população por meio do fomento de técnicas orgânicas de cultivo de alimentos.
Quanto à atividade criatória, destaca-se no continente africano a pecuária extensiva. Na África do Sul estão alguns dos maiores rebanhos de ovinos do mundo. Alguns dos projetos internacionais de incentivo à economia africana direcionam seus investimentos para a agropecuária, uma vez que o desenvolvimento do setor é fundamental no combate à desnutrição e à fome.

Mineração

O continente africano conta com metade das reservas mundiais de ouro e com dois terços das reservas mundiais de diamante e cobalto. Além disso, no subsolo africano existem grandes reservas de fontes energéticas, como o petróleo, cuja extração está destinada, na maior parte, à exportação. 
Nigéria e Angola são os maiores produtores de petróleo no continente. Na produção de carvão mineral, destacam-se África do Sul e Moçambique. Desde o Período Colonial, as reservas minerais africanas foram motivo de cobiça e interesse. Nas últimas décadas, a maior parte dos investimentos estran geiros empregados em países africanos foi direcionada à exploração mineral.
A maioria dos polos de crescimento econômico atuais no continente con centra-se na exploração mineral. Em 2009, a China se tornou o maior parceiro comercial da África, superando os Estados Unidos, e, recentemente, intensificou o comércio com os países africanos. Além dos empréstimos concedidos, os chineses constroem estradas, usinas hidrelétricas e termelétricas, hospitais e escolas no continente. Observe no mapa ao lado as taxas de trocas comerciais entre os países africanos e a China.
O controle e a extração dos recursos minerais da África (sobre tudo petróleo e diamantes) causam muitos conflitos; e a abundância desses recursos não se reverte em qualidade de vida para a população. Países que direcionaram a economia para a exportação de petróleo (Nigéria, Gabão, Sudão, Congo, Guiné Equatorial e Chade) registram uma longa história de conflitos civis e golpes militares.
Parte das riquezas minerais do conti nente foi usada para financiar a violência contra as próprias populações africanas, como os “diamantes de sangue” (nome dado às pedras contrabandeadas para fora do país que financiavam grupos envolvidos em conflitos) de Angola, Congo e Serra Leoa. A outra parte enriqueceu grandes investidores estrangeiros, por causa dos governos instáveis e corruptos do continente apoia dos por empresários corruptores de muitos outros países.

Indústria

Atualmente, as indústrias de bens de consumo são as que mais se desen volvem no continente. Nos últimos 10 anos, os produtos manufaturados dupli caram na África, tendo como destino principal as economias emergentes, em detrimento das potências tradicionais, o que fortaleceu as relações políticas e comerciais sul-sul. 
Responsável por quase metade de toda a produção industrial africana, a África do Sul é o país mais industrializado do continente. Pertence ao grupo dos países de economia emergente, sendo o único da África Subsaariana a se destacar no setor industrial, além de ter o mais avançado e diversificado parque industrial do continente. Sobressai-se nas indústrias automobilística, petroquímica, têxtil, siderúrgica e alimentícia.
A Nigéria e o Senegal também são países da África Subsaariana em que a indústria começa a ter relevância no setor econômico. No Norte da África, por sua vez, há países com importantes áreas industriais, com destaque para os gêneros alimentícios, têxteis, petroquímicos e siderúrgicos.
A estrutura geológica bastante antiga do continente possibilitou a formação de um subsolo rico em recursos minerais. Isso proporcionaria ao continente o desenvolvimento de amplas atividades industriais, que ainda não ocorreu em consequência da falta de investimento dos Estados africanos em desenvolvimento tecnológico por causa da frágil situação econômica, da corrupção de alguns governantes e da falta de interesse das maiores potências do mundo em estabelecer parcerias; além desses motivos, a falta de maiores investi mentos na indústria também é consequência da herança colonial, que desprezava a industrialização na África.

INVESTIMENTOS, INOVAÇÃO E COOPERAÇÃO


Considerando as diretrizes das grandes empresas multinacionais, os países africanos atraíram investimentos em diversos setores. A região do Golfo da Guiné, rica em petróleo, passou a atrair empresas do setor petrolífero. As primeiras a chegar foram as empresas europeias, que ainda dominam a extração de petróleo e gás natural na região. 
A britânica Royal Dutch Shell é a maior produtora de petróleo na Nigéria. No Gabão, está a francesa Total. Há também empresas dos Estados Unidos na Guiné Equatorial (Exxon) e em Angola (Chevron). Mais recentemente, a competição pelo petróleo africano passou a incluir empresas dos chamados países emergentes, como Índia, Brasil e, principalmente, China.
Além disso, muitas empresas à procura de oportunidades de investimento veem na África um mercado promissor no setor de tecnologia e de inovação. 
Os problemas socioeconômicos e de infraestrutura em muitos países africanos atraem investidores do setor de inovação para desenvolver soluções adaptadas à realidade local, especialmente na África do Sul, na Nigéria e no Quênia. 
De acordo com o estudo da African Private Equity and Venture Capital Association, em 2021, empresas do setor privado investiram mais de 5 bilhões de dólares em startups africanas que desenvolvem inovações para o setor agrícola, energético, de telefonia celular, acesso à internet e serviços digitais.

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