quarta-feira, 2 de setembro de 2026

ORIGENS E DISPERSÃO DOS SERES HUMANOS

Evidências arqueológicas indicam que o Homo sapiens originou-se na África há pelo menos 200 mil anos. Cem mil anos atrás, ele começou a se espalhar pelos outros continentes. O primeiro destino foi a atual região do Oriente Médio.
No entanto, muito antes dessas descobertas, os seres humanos tentavam desvendar suas origens mais remotas, bem como as do planeta. Quem somos? De onde viemos? Como começou a vida na Terra? Em busca de respostas, povos antigos propuseram explicações religiosas e científicas para as origens do ser humano.

Explicações de nossas origens


Vários povos do mundo desenvolveram explicações para a questão da origem humana. Elas podem ser encontradas nos mitos, nas religiões e nas ciências. 
As explicações mitológicas ou religiosas são baseadas em crenças. Já as da ciência são obtidas por meio de um conjunto de procedimentos conhecido como método científico
Ao empregar esse método, o cientista observa e analisa evidências para formular hipóteses que o ajudem a solucionar determinada questão. Em seguida, realiza testes e experimentos e, depois, apresenta a outros cientistas as conclusões que obteve. Após debater essas conclusões, os cientistas podem chegar a consensos e elaborar teorias. No entanto, os resultados podem gerar outras dúvidas. Nesse caso, a pesquisa deve ser retomada até que se produza consenso. Algumas vezes, ela dá origem a pesquisas científicas diferentes, em um ciclo constante de produção de conhecimento.
Os mitos são narrativas cheias de elementos sobrenaturais, como deuses, animais falantes e acontecimentos mágicos. Por meio delas, as pessoas tentam explicar o porquê de as coisas serem como são e como os integrantes de cada sociedade devem se comportar.
As explicações religiosas, nas quais um ou mais seres divinos teriam criado o ser humano e todo o Universo, são chamadas de criacionistas. Para cristãos e judeus, por exemplo, essa criação levou seis dias para ser concluída; no sétimo dia, o criador teria descansado.
De acordo com os iorubás, povo originário da África, o deus supremo Olodumarê deu vida, com seu sopro, a homens e mulheres feitos de barro. Para ajudá-lo a conceber tudo o que existe no mundo, Olodumarê também criou as divindades chamadas de orixás.
Na explicação dos indígenas guaranis sobre a concepção do mundo, Tupã, o deus do trovão, colocou as estrelas no céu e moldou tudo sobre a Terra, como oceanos, florestas e animais. Tupã então criou os guarani, e deles descenderam todos os outros povos.
Já entre os maias, o deus Hunab Ku criou a si mesmo, o céu e a Terra; depois, misturou terra e água e moldou o primeiro ser humano.
De acordo com um mito chinês, por exemplo, a origem do Universo, da Terra e dos seres humanos teria ocorrido de um “ovo cósmico”; dentro dele esta riam yin e yang, as duas forças opostas que compõem o Universo. Um dia, essas energias conflitantes quebraram o ovo: os elementos mais pesados formaram a Terra, os mais leves formaram o céu e, entre eles, surgiu o primeiro ser. 
Narrativas como essas são consideradas explicações mítico- religiosas. Elas têm em comum uma ideia mágica ou sobrenatural de que os humanos foram criados pela vontade de um ou de vários deuses. 
No Brasil, onde vivem mais de duzentos povos indígenas, há inúmeros mitos que explicam como o mundo e a humanidade foram criados.
Essas explicações, também conhecidas como mitos de fundação, são bastante variadas e dependem do povo, do lugar e da época em que foram desenvolvidas. Os mitos de fundação fazem parte da cultura dos povos e dão fundamentação às práticas religiosas e celebrações diversas ao redor do mundo. 
É importante valorizar essa diversidade, respeitando as diferentes tradições e culturas. No Brasil, onde convivem pessoas de diferentes religiões, uma das explicações religiosas mais conhecidas é o Criacionismo, para o qual a origem do mundo, dos animais e das pessoas é resultado da ação de um criador.
Os mitos que contam a origem dos seres humanos variam bastante de uma cultura para outra, porém quase sempre atribuem a criação da humanidade à iniciativa de deuses e de outros seres fantásticos, que teriam criado os homens e as mulheres moldando-os no barro, esculpindo-os na madeira, utilizando milho ou outros materiais.
A mitologia de um povo traz sentido às suas tradições e influencia sua visão de mundo e seus valores. Ela é transmitida por meio da tradição oral de geração a geração e mantém viva a identidade do povo. Como os relatos orais mudam ao longo do tempo, um mesmo mito pode ter várias versões; contudo, sua essência permanece.

Mitologia grega


A mitologia grega tem algumas histórias para explicar a origem dos seres humanos. Em uma delas, o titã Prometeu criou os homens a partir do barro. Para terminar sua criação, ele decidiu roubar uma centelha do Sol (fogo divino) e entregá-la aos homens. De acordo com a mitologia grega, porém, o fogo celeste era privilégio apenas dos deuses, seres imortais. Zeus, soberano dos deuses, ficou então furioso, punindo Prometeu e os homens. Como punição, Prometeu foi acorrentado a um rochedo e ali uma águia devorava seu fígado, que, no entanto, se regenerava a cada dia. Depois de sofrer por muito tempo, Prometeu foi libertado.
Já os mortais foram punidos com a criação de Pandora, que representa a primeira mulher. Como muitos personagens da mitologia grega, Pandora era repleta de virtudes e defeitos. Ela foi criada por vários deuses e cada um deles lhe deu um talento especial. Ao final, Zeus confiou a Pandora uma caixa, recomendando que ela jamais a abris se. Porém, um dia, Pandora decidiu abrir essa caixa e dela saíram todos os males do mundo. Assustada, ela fechou a caixa rapidamente, tendo restado ali dentro apenas o último consolo dos mortais: a esperança.
Segundo especialistas, as histórias da criação dos seres humanos não ocupam um lugar de destaque na mitologia grega. Mas existem algumas narrativas sobre a criação humana, bem como mitos que mostram interações dos seres humanos com os deuses e os heróis. Na maioria dessas narrativas, os humanos são caracterizados como mortais, ambíguos e contraditórios, conscientes de suas limitações. E, por isso, eles reverenciam os deuses buscando ajuda e proteção.

Criacionismo judaico-cristão 


O criacionismo defende que a vida e toda matéria existente no universo são resultados O criacionismo defende que a vida e toda matéria existente no universo são resultados da ação direta de um Criador. 
A perspectiva criacionista está presente em várias culturas da ação direta de um Criador. A perspectiva criacionista está presente em várias culturas e religiões, como o judaísmo, o islamismo e o cristianismo. 
No mundo ocidental, marcado pelas tradições do judaísmo e do cristianismo, a narrativa criacionista mais conhecida está contida no livro do Gênesis, que integra o Antigo Testamento da Bíblia.
Observe trechos desse livro:

“No princípio, Deus criou o céu e a terra. [...] 
Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança, e que ele domine sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra’. [...] 
Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou.”

A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulinas, 1989. Gn 1: 1, 3, 4, 5, 24, 26, 27.

Os trechos citados trazem a ideia de que o ser humano é uma criação especial de Deus, diferenciando-se dos outros animais por sua espiritualidade. Essa espiritualidade se revela, por exemplo, na consciência, na linguagem simbólica, na imaginação artística e no senso ético.
O criacionismo é uma explicação para a origem do universo e da vida que se baseia na fé. Para os criacionistas, todas as coisas existentes foram criadas exatamente como são por uma ou mais entidades sobrenaturais superiores, ou seja, um deus ou vários deuses.
O criacionismo não é uma teoria porque não está amparado em evidências. Trata-se de uma narrativa mítica cuja aceitação depende das crenças religiosas das pessoas.

Teoria da Evolução 


Ao longo dos séculos XVIII e XIX, os cientistas passaram a dar mais atenção ao estudo de fósseis. Eles ficaram intrigados com o grande número de fósseis de animais desconhecidos e que não podiam ser encontrados vivos na natureza. Entre esses animais havia répteis e mamíferos que guardavam semelhanças com alguns animais conhecidos. Os fósseis de mamutes, por exemplo, tinham grande semelhança com os elefantes.
Um dos cientistas que ofereceu explicações para esses fatos foi o naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882), que em meados do século XIX elaborou a chamada Teoria da Evolução. Para Darwin, os fósseis de animais desconhecidos eram, na verdade, restos de animais que já haviam sido extintos.
Em meados do século XIX, a explicação criacionista para a origem da vida em geral e dos seres humanos em particular foi contesta da pelas descobertas de dois naturalistas britânicos: Alfred Russel Wallace e Charles Darwin. Suas ideias deram origem à teoria da evolução, também conhecida como evolucionismo.
Em 1831, Darwin participou de uma expedição científica a bordo do navio Beagle. Durante a viagem, ele estudou e comparou espécies de animais e de plantas de diferentes regiões. Também coletou fósseis e percebeu semelhanças entre organismos extintos e vivos. Com base nessas observações, Darwin concluiu que todas as espécies de seres vivos passam, no decorrer do tempo, por um processo natural de transformação.
Wallace viajou para o Brasil, para a Indonésia e para a Malásia entre 1848 e 1852, e, assim como Darwin, coletou plantas e animais para suas pesquisas. Com seus estudos, chegou às mesmas conclusões que Darwin a respeito das transformações das espécies.
A base dessa teoria consolidou-se com os estudos do naturalista francês Jean-Baptiste de Lamarck (1744-1829) e do botânico austríaco Gregor Mendel (1822-1884), que realizaram pesquisas sobre hereditariedade e genética. Influenciado por esses estudos e pelas próprias observações, o naturalista inglês Charles Darwin (1809-1882) publicou, em 1859, o livro A origem das espécies, no qual propôs que os seres vivos compartilham um mesmo ancestral e que as espécies mudaram, evoluíram e se diferenciaram por meio de uma seleção natural. 
Nessa obra, ele apresentou um amplo estudo sobre a formação, a evolução e a extinção das espécies. Essa explicação para a origem dos seres vivos foi chamada de Teoria da Evolução.
Para Darwin, a Teoria da Evolução também se aplica à espécie humana. Isso significa que nós, como todos os seres vivos, somos resultado de um longo processo de seleção natural, no qual os indivíduos mais adaptados às condições do meio em que vivem obtêm melhores chances de produzir descendentes e, assim, transmitir suas características.  
Depois de muita pesquisa, ele concluiu que os seres vivos passaram por uma seleção natural ao longo de milhões de anos e que as espécies mais adaptadas ao ambiente eram as que deixavam descendentes. As que não se adaptavam desapareciam.
Nas sociedades cristãs do século XIX, essa teoria provocou grandes polêmicas – Darwin foi criticado por religiosos e cientistas cristãos. Na época, era difícil aceitar a ideia de que os seres humanos tinham um “parentesco” com outros animais.
Essa teoria, ao apresentar uma explicação científica para as origens do ser humano, entrou em choque com as interpretações de caráter religioso. Segundo os cientistas que reconhecem a teoria da evolução, evidências como fósseis de ancestrais humanos e ferramentas de pedra produzidas por eles, assim como pegadas de animais gigantes extintos, reforçam as ideias defendidas por Darwin.

Seleção natural


Charles Darwin percebeu que indivíduos da mesma espécie se relacionavam com o ambiente de acordo com as características que apresentavam. Assim, dependendo das condições ambientais, alguns se tornavam mais aptos a sobreviver do que outros de sua espécie. 
Aqueles que melhor se adaptam às mudanças no ambiente são os que têm maiores chances de sobrevivência e, consequentemente, de se reproduzir e transmitir suas características aos descendentes. Por outro lado, os seres vivos que não conseguem se adaptar ao ambiente têm mais dificuldade de se reproduzir e, com o passar do tempo, podem ser extintos.
Com base nessas observações, Darwin e o naturalista britânico Alfred Wallace propuseram a denominada teoria da seleção natural.
De acordo com a teoria evolucionista, há muitas variações entre indivíduos da mesma espécie. Algumas características aumentam as chances de reprodução ou de sobrevivência de um indivíduo, que, por isso, consegue deixar mais descendentes. 
Os indivíduos que não têm essas características vivem menos tempo e, portanto, têm menos descendentes. Após várias gerações, as características que aumentam as chances reprodutivas e de sobrevivência dos indivíduos da espécie estarão cada vez mais acentuadas e presentes na população. Darwin chamou esse processo de seleção natural.
Para explicar como funciona a seleção natural, Darwin utilizou o exemplo da girafa. Os ancestrais das girafas tinham pescoço de comprimentos variados: algumas nasciam com o pescoço mais comprido; outras, com o pescoço mais curto. Essas variações eram hereditárias, ou seja, passavam de uma geração a outra. 
Ao longo do tempo as girafas de pescoço mais longo, com melhores condições de sobrevivência, deixaram mais descendentes e foram se tornando predominantes, enquanto as girafas de pescoço curto foram desaparecendo.
Situações parecidas com esse exemplo aconteceram com vários outros animais ao redor do mundo. Esse processo de seleção natural foi chamado de evolução das espécies. E, assim como os outros animais, o ser humano passou por ele.
A seleção natural sucessiva, em uma escala extensa de tempo, pode levar a um acúmulo significativo de características selecionadas, resultando em novas espécies de seres vivos.
Darwin não conhecia a causa dessas variações entre os indivíduos da mesma espécie. Atualmente, os cientistas reconhecem que a variação de características em uma espécie é causada por mutações nos genes de alguns indivíduos. Essas mutações acontecem ao acaso na natureza, mas podem resultar também da intervenção humana.
A Terra passou por consideráveis mudanças ao longo do tempo: houve períodos mais quentes, outros frios; alguns mais chuvosos, outros secos. Além disso, a história do planeta é marcada por eventos como erupções vulcânicas e terremotos.
Em um mundo em constante transformação, algumas espécies ancestrais do ser humano sobreviveram por apresentar determinadas características vantajosas, enquanto outras acabaram sendo extintas. Isso mesmo: no passado, existiram várias espécies de hominídeos, a família de espécies que incluía a humana.

A teoria e a polêmica


Doze anos depois, Darwin publicou A origem do homem e a seleção sexual, que trata da evolução da espécie humana. Nesse livro, o naturalista inglês defendeu a ideia de que os seres humanos e os grandes primatas, como os gorilas e os chimpanzés, evoluíram de um ancestral comum. 
Algumas polêmicas ocorreram em virtude de interpretações incorretas da Teoria da Evolução, como a ideia de que os seres humanos descendem dos macacos. O que a Teoria da Evolução sugere é que humanos e demais primatas (macacos, chimpanzés, gorilas etc.) compartilharam, em algum momento, um mesmo ancestral. 
Ele nunca afirmou que descendíamos diretamente dos macacos, embora alguns críticos de seu trabalho tenham lhe atribuído equivocadamente essa ideia.
Mas atenção: não se deve pensar na evolução das espécies como um “aperfeiçoamento” em linha reta. A situação se parece mais com uma teia complexa. 
Atualmente, a Teoria da Evolução é estudada nas ciências e, assim como todas as teorias científicas, é continuamente questionada, revista e aprimorada. 

A EVOLUÇÃO DO SER HUMANO 


A teoria evolucionista de Darwin e Wallace resolveu um grande mistério científico. Desde o século XIX, arqueólogos e outros estudiosos encontravam em suas pesquisas ossos muito semelhantes aos de humanos modernos, mas nenhum ser humano conhecido tinha ossos exatamente como aqueles.
Utilizando a teoria evolucionista, os cientistas ligaram a origem do ser humano a um grupo de mamíferos chamado primatas, que surgiu na África há cerca de 70 milhões de anos.
Um grupo de primatas deve ter originado os primeiros hominídeos, ou seja, seres que já apresentavam características semelhantes às do homem moderno. Os mais antigos hominídeos de que se tem evidência foram os australopitecos. Eles viviam no sul da África, já andavam eretos sobre os dois pés e tinham habilidade com as mãos, mas não fabricavam instrumentos. 
Em 1974, descobriu-se na Etiópia o esqueleto de um australopiteco quase completo, de 3,2 milhões de anos. Depois de se comprovar que se tratava de uma mulher, o esqueleto foi batizado com o nome de Lucy, porque no momento da descoberta os arqueólogos estavam ouvindo a canção Lucy in the sky with dia monds, dos Beatles.
Em 2010 foi descoberto, também na Etiópia, um esqueleto 400 mil anos mais velho que o de Lucy, mas da mesma espécie que ela, um Australopithecus afarensis. Denominado pelos pesquisadores de Kadanuumuu, o esqueleto teria 3,6 milhões de anos.
As contínuas descobertas de esqueletos de hominídeos muito antigos na África levaram os cientistas a concluir que o ser humano provavelmente surgiu na África e de lá se espalhou para os outros continentes.

Os primatas 


Segundo o evolucionismo, os seres humanos pertencem à ordem dos primatas, isto , isto é, mamíferos com capacidade de agarrar objetos e de perceber visualmente a distância em que eles se encontram. Acredita-se que uma família de primatas deu origem aos primeiros hominídeos, indivíduos com algumas características humanas.
Com base em estudos científicos, os pesquisadores concluíram que os seres humanos são primatas, grupo do qual fazem parte os chimpanzés e os gorilas. Os primatas que deram origem ao ser humano se desenvolveram no continente africano há mais de 70 milhões de anos.
Ao longo do processo de evolução, eles adquiriram características específicas que os diferenciaram dos demais primatas, como o cérebro maior e o modo ereto de andar sobre duas pernas. Assim, há evidências de que os primeiros humanos também tiveram origem na África.

A hominização 


Com base na Teoria da Evolução, os cientistas passaram a analisar o processo de hominização, isto é, o desenvolvimento de características típicas do ser humano. 
Durante o processo de hominização, nossos ancestrais (hominídeos) desenvolveram uma grande capacidade de adaptação aos mais diferentes ambientes. Entre essas adaptações estão a forma ereta de andar, sobre duas pernas, e o desenvolvimento de um cérebro maior, capaz de elaborar pensamentos mais complexos.
Os cientistas denominam a espécie humana como Homo sapiens. Os Homo sapiens surgiram no continente africano há cerca de 300 mil anos e há cerca de 100 mil anos começaram a migrar para outros continentes. Os seres humanos modernos são chamados Homo sapiens sapiens.

Os primeiros humanos 


Um dos primeiros exemplares de hominídeos de que foram encontrados vestígios era do gênero Australopithecus. Existiram várias espécies desse gênero. Esses hominídeos viveram na África, ao sul do deserto do Saara, há cerca de 5,5 milhões de anos e andavam eretos sobre os dois pés. Com o tempo, algumas espécies sobreviveram, e outras se extinguiram. 
Cerca de 2 milhões de anos atrás surgiu um novo gênero de hominídeos mais semelhante aos seres humanos atuais. A esse novo gênero, chamado de Homo, pertence a espécie humana.
O esqueleto de Australopithecus mais conhecido foi descoberto na Etiópia, país do leste africano, em 1974. Era de uma fêmea da espécie Australopithecus afarensis e foi batizado de Lucy, porque, no momento da descoberta, os arqueólogos estavam ouvindo a canção Lucy in the sky with diamonds, dos Beatles, grupo musical britânico. Na época, a descoberta causou sensação, pois se tratava de um ancestral humano com cerca de 3,2 milhões de anos.
Lucy tinha um pouco mais de um metro de altura e compartilhava com os humanos algumas características, como andar sobre duas pernas (bipedismo). No entanto, apresentava características de outros primatas, como os chimpanzés: braços longos e curvados e mandíbula inferior saliente, mais adaptada para mastigar vegetais crus. 
Ao longo de milhões de anos, muitas espécies de hominídeos apareceram e foram extintas. Algumas deram origem aos seres humanos atuais; outras aos gorilas, chimpanzés e orangotangos. 

O gênero Homo 


Por volta de 2,5 milhões de anos atrás, surgiu o gênero Homo, do qual faz parte a espécie Homo sapiens. É provável que esse gênero tenha evoluído do Australopithecus, mas isso ainda está em investigação. Conheça a seguir características de algumas das espécies do gênero Homo.

• Homo habilis (2,4-1,4 milhão de anos): É considerado o primeiro representante do gênero Homo; sabia fazer utensílios de pedra, com os quais caçava pequenos animais, o que lhe permitiu incluir a carne em sua dieta. Daí o seu nome que, em latim, significa “homem hábil”, “habilidoso”, “engenhoso”. Os indivíduos dessa espécie desenvolveram a habilidade de produzir instrumentos cortantes de pedra, que utilizavam para preparar alimentos. 


• Homo erectus (1,9 milhão-110 mil anos): É descendente direto do Homo habilis. Aperfeiçoou instrumentos de pedra, com os quais caçava animais grandes. Foi o primeiro a aprender a usar o fogo, conseguindo, com isso, adaptar-se a regiões frias da Europa e da Ásia.
Os indivíduos dessa espécie eram caçadores-coletores e usavam ferramentas de pedra lascada, como machados. Foram os primeiros a sair da África, ocupando regiões da Ásia e da Europa.

• Homo neanderthalensis (400-40 mil anos): Muitos dos restos do homem de Neandertal foram encontrados em cavernas, daí a expressão “homem das cavernas”. Acredita-se que ele tenha evoluído ao mesmo tempo que o humano moderno. Seu desaparecimento ainda é objeto de debates. O homem de Neandertal praticava a coleta e a caça em grupos de 20 ou 30 pessoas, fazia sepulturas para seus mortos cobertas com pedra e terra. Por isso, acredita-se ter sido a primeira espécie a realizar cerimônias religiosas.
Os neandertais viviam na Europa e na Ásia Ocidental em grupos de caçadores-coletores. Vestiam-se com peles de animais, fabricavam instrumentos de ossos, galhos e pedras e realizavam pinturas rupestres.  

• Homo sapiens: surgiu há cerca de 300 mil anos. É a espécie da qual fazemos parte. Originou-se na África há pouco mais de 100 mil anos e depois se espalhou por todos os continentes, adaptando-se a qualquer ambiente.
Eles produziram instrumentos e desenvolveram técnicas elaboradas, como as da cerâmica, da metalurgia e do curtume. Isso demonstra que eles tinham alta capacidade inventiva e de aprendizagem, atributos favorecidos pelo desenvolvimento da linguagem verbal.

A espécie Homo sapiens 


Fósseis de diferentes espécies de hominínios foram encontrados em várias regiões do planeta e receberam nomes específicos, conforme suas características físicas ou o lugar onde seus vestígios foram descobertos. Essas espécies desenvolveram particularidades próprias de acordo com o ambiente e as diferentes necessidades de sobrevivência, evoluindo ao longo de milhões de anos. Algumas delas conviveram entre si, às vezes de forma pacífica, às vezes nem tanto. 
Sabemos que, ao longo do tempo, as espécies de hominínios desapareceram, menos a Homo sapiens. Por que só a nossa espécie sobreviveu? Ainda não temos certeza, mas a maioria dos cientistas concorda que desenvolvemos características cerebrais específicas que nos diferenciaram de outras espécies. 
Os cientistas acreditam que, por ter um cérebro maior que o das outras espécies de Homo, o Homo sapiens era também mais inteligente. Foi graças à sua inteligência que desenvolveu a fala, além de outras habilidades,  como costurar, tocar, esculpir, desenhar. Assim, conseguiu sobreviver.
Adquirimos, por exemplo, as inovadoras capacidades de criar símbolos, de comunicar e de trocar informações. Essas habilidades permitiram, por exemplo, que um indivíduo alertasse seu grupo sobre a aproximação de um tigre-dentes-de-sabre ou sobre os efeitos prejudiciais provoca dos pela ingestão de uma fruta ou semente.
Assim, com o passar do tempo, os Homo sapiens conseguiram acumular e partilhar conhecimentos, realizar atividades colaborativas mais complexas, organizar-se em grupos maiores e cuidar do grupo com mais eficiência. Isso permitiu a eles que se alimentassem melhor, caças sem grandes mamíferos, se protegessem de predadores e de outros hominínios, garantindo a sobrevivência para um número cada vez maior de descendentes. 
A ciência sugere que essas vantagens, em milhares de anos, tiveram um efeito surpreendente para o crescimento dos grupos de Homo sapiens e, em algumas regiões, esse crescimento colaborou para o desaparecimento de outros hominínios menos adaptados.
Os cientistas ainda não conseguiram fazer a árvore genealógica completa da nossa espécie. Com base nas técnicas e nos materiais utilizados pelos nossos ancestrais, os pesquisadores dividem a chamada Pré-História em dois períodos: o Paleolítico, da pedra antiga  ou pedra lascada; e o Neolítico, da pedra nova ou pedra polida.

Discussões sobre a origem do gênero Homo


Entre os cientistas dos diversos ramos do conhecimento, há uma longa discussão sobre a origem do gênero Homo. A polêmica gira em torno dos locais onde surgiu a espécie Homo sapiens. Embora essa questão pareça ser meramente científica, foi com base em uma dessas explicações que certas teorias racistas foram desenvolvidas, especialmente no século XX. 
A ideia de que o ser humano, tal como ele é hoje, surgiu na África não foi muito bem aceita, especialmente por alguns europeus. Ainda no século XVIII, o naturalista sueco Carl Linnaeus (1707-1778) apresentou uma classificação da espécie humana separada em raças e as qualificou segundo o que alegava ser as características próprias das raças. 
Leia a seguir um trecho da classificação proposta por Linnaeus, apresentado pelo médico geneticista e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Sergio Danilo Pena.

[…] 
Homo sapiens europaeus: Branco, sério, forte 
Homo sapiens asiaticus: Amarelo, melancólico, avaro 
Homo sapiens afer [africanus]: Negro, impassível, preguiçoso Homo sapiens americanus: Vermelho, mal-humorado, violento 

[…] 
Sergio Danilo Pena. O DNA do racismo. Revista Ciência Hoje.

Os argumentos da teoria criada por Linnaeus serviram de base para outras teorias racistas ao longo dos séculos XIX e XX. 
A ideia de raça serviu de argumento para o extermínio de diversas populações ao longo da história e para a discriminação que ainda persiste, especialmente contra os afrodescendentes. 
A ciência atual reconhece que não existem raças humanas, já que todos os seres humanos pertencem a uma única espécie: o Homo sapiens.

DA ÁFRICA PARA O MUNDO 


Todas as evidências indicam que os seres humanos surgiram na África e, a partir dela, se espalharam para os outros continentes. Durante muito tempo, acreditou-se que essa dispersão havia se dado em uma única migração, ocorrida há 50 mil anos, com os grupos humanos seguindo até o norte da África e atravessando a península Arábica também pelo norte, em direção à Ásia central. 
Estudos recentes, contudo, concluíram que muito antes dessa migração houve outra, há cerca de 130 mil anos, quando grupos humanos deixaram a região nordeste da África em direção ao sul da península Arábica.


              



O TEMPO E A HISTÓRIA

Relógios, calendários e agendas são alguns exemplos de invenções feitas pelas sociedades humanas para medir e controlar o tempo. 
Mesmo sem relógios e calendários, desde os tempos mais antigos os seres humanos notavam que depois do dia vinha a noite, que as plantas, os animais e as pessoas, com o tempo, envelheciam e um dia morriam, que a Lua mudava de fases. Ou seja, os grupos humanos percebiam a passagem do tempo observando a natureza, da qual eles também faziam parte.
O tempo é fundamental para os estudos históricos. Existem, no entanto, diferentes maneiras de compreendê-lo. Vamos conhecer a seguir algumas delas.

Tempo da natureza


Existe o tempo que passa naturalmente e não depende da vontade humana, ou seja, não é cultural. Esse é o chamado tempo da natureza, que pode ser percebido, por exemplo, pelo crescimento das árvores e pelo envelhecimento das pessoas.
Entre as formas de pensar e organizar o tempo estão a observação e a marcação de eventos naturais, como as estações do ano, as fases da lua, a posição das estrelas no céu, a dinâmica de seca e chuva, de cheia e vazante dos rios, de plantio e colheita nos campos, etc. Esse tempo é conhecido como tempo da natureza.

Tempo cronológico


Diferentemente do tempo da natureza, o tempo linear, que podemos medir e organizar sequencialmente, é conhecido como tempo cronológico. Esse tempo é organizado em unidades de medida, como horas, dias, meses, anos, séculos, etc. Para calculá-lo, utilizamos instrumentos de medição de tempo, como o relógio, que assinala as horas, e o calendário, que demarca os dias, as semanas, os meses e os anos.
Esse tempo é um elemento cultural, pois foi o ser humano que criou as diversas formas de medição do tempo. 
O tempo cronológico pode ser dividido em unidades de medida: segundo, minuto, hora, dia, mês, ano etc. Atualmente, os principais instrumentos usa dos para medir a passagem do tempo cronológico são o relógio e o calendário.

Tempo histórico


O tempo cronológico, como vimos, pode ser marcado por instrumentos de medição, por exemplo, o relógio e o calendário, pois sua contagem é feita com unidades fixas de medida, como a hora, o dia ou o ano. 
O tempo histórico, por sua vez, apresenta diferentes ritmos e durações e pode ser verificado principalmente por meio das permanências e transformações que ocorrem nas sociedades. São os historiadores que, em seu trabalho, analisam os elementos que caracterizam o tempo histórico.
O tempo histórico é o tempo da experiência de um povo, de um país ou de uma época. Diz respeito, por exemplo, ao tempo da democracia no Brasil ou da globalização no mundo. A noção de tempo histórico possibilita dar significado às transformações vividas pelas sociedades humanas em suas relações com seu entorno. 
Um dos principais vícios que podem contaminar a análise histórica é o anacronismo (do grego, ana = “contra” + cronismo = “relativo ao tempo”). O anacronismo nos leva a julgar pessoas utilizando critérios atuais, como se fossem válidos para todas as épocas. Desse modo, o anacronismo consiste em atribuir aos sujeitos do passado razões ou sentimentos que não faziam parte de seu tempo histórico.
Por exemplo, não faz sentido dizer que o colonizador português desprezava a Ecologia ao derrubar árvores da Mata Atlântica. O motivo é que, entre os europeus do século XVI, prevalecia a noção de que os recursos naturais eram tão abundantes que podiam ser explorados de forma descontrolada ou indiscriminada. Afinal, a Ecologia é uma área do conhecimento que se desenvolveu, sobretudo, a partir do século XX.

O tempo histórico e suas durações


As pessoas e as sociedades se transformam no decorrer do tempo, porém muitos elementos permanecem semelhantes. 
O tempo histórico acompanha os ritmos das transformações de cada sociedade: umas apresentam um ritmo mais acelerado de transformações, outras nem tanto. Para facilitar o entendimento das transformações e das permanências, o historiador francês Fernand Braudel propôs três diferentes durações do tempo histórico: a curta, a média e a longa duração

O tempo de curta duração é caracterizado por eventos breves, com data e lugar determinados, como a descoberta de uma vacina, como um golpe político, uma disputa eleitoral ou a assinatura de uma lei.

O tempo de média duração é marcado por transformações mais lentas, mas que podem ser percebidas no decorrer da vida de uma pessoa, como a vigência de um sistema econômico ou a duração do reinado de um monarca. Tais fenômenos são chamados de conjunturais, pois resultam de flutuações no interior de uma estrutura.

O tempo de longa duração é formado por processos históricos que demoram longos períodos de tempo para se concretizarem. É o caso dos valores morais, que se transformam muito lentamente. Fenômenos como o cristianismo ocidental, o capitalismo, entre outros. Tais fenômenos são chamados de estruturais, e, para compreendê-los, é preciso inseri-los na longa duração.

Com base nessa representação dos três tempos históricos, formulada por Fernand Braudel, podemos perceber que, como o oceano, o tempo é um só, mas apresenta camadas temporais da mesma forma que o oceano contém camadas de água. Nos dois casos, as camadas são sobrepostas e simultâneas. É importante observar que os acontecimentos e processos históricos, apesar de terem diferentes durações, estão interligados e podem ser simultâneos. Por isso, o historiador, ao analisá-los, precisa levar em conta essas durações.

A periodização dos processos históricos 


Para facilitar a compreensão dos processos históricos, os estudiosos geralmente dividem o tempo em períodos, com base em acontecimentos que servem como marcos históricos. Desse modo, são criadas as periodizações, as quais não são naturais, pois são criações feitas pelos seres humanos e, portanto, fazem parte da cultura, podendo variar de lugar para lugar. Os critérios utilizados na criação de uma periodização podem ser, por exemplo, políticos, econômicos ou culturais. 
Dependendo dos critérios, podem ser estabelecidas diferentes periodizações para uma mesma sociedade. A divisão da história do Brasil nos períodos Colonial, Imperial e Republicano é uma das mais adotadas, mas não é a única. Trata-se de uma convenção que destaca os acontecimentos políticos.

Os calendários 


O calendário é um sistema de medição de dias inteiros, e não de horas, como fazem os relógios. Por isso, o tempo medido pelos calendários é bem mais longo.
O calendário é um instrumento utilizado para medir a passagem do tempo e dividi-lo em unidades, como dias, meses e anos. Em nosso país, é adotado oficialmente o calendário gregoriano, introduzido em 1582 pelo então papa Gregório XIII. 
Esse calendário é solar, ou seja, um ano corresponde a uma volta da Terra em torno do Sol. Nesse calendário, o ano tem 365 dias e, a cada quatro anos, ocorre um ano bissexto. O ano bissexto é aquele cujo mês de fevereiro possui 29 dias, somando ao todo, nos doze meses, 366 dias. Isso ocorre para alinhar nosso calendário com o movimento de translação da Terra em relação ao Sol.

Antes e depois de Jesus Cristo


Os historiadores adotaram o calendário cristão para definir a cronologia geral da História usando como referência o ano de nascimento de Jesus de Nazaré. Esse é o ano 1 da chamada “Era Cristã”.
No calendário gregoriano, a contagem dos anos tem início na data atribuída ao nascimento de Jesus Cristo. Por isso, nos estudos históricos, é comum encontrarmos as siglas a.C. e d.C., que significam “antes de Cristo” e “depois de Cristo”, respectivamente. 
Dessa forma, o ano contado a partir do nascimento de Cristo é o ano 1, o segundo é o ano 2, e assim sucessivamente, em ordem crescente. Os anos “depois de Cristo” podem ou não ser acompanhados da sigla d.C. Da mesma forma, o primeiro ano anterior ao nascimento de Cristo é o ano 1 a.C., isto é, “antes de Cristo”, o segundo é o ano 2 a.C., e assim sucessivamente, em ordem decrescente.
O ano 1400 a.C., por exemplo, é anterior ao ano 1300 a.C. O número maior é o mais antigo. Já na Era Cristã ou “depois de Cristo”, o ano 300 d.C., por exemplo, vem antes do ano 400 d.C. Nesse caso, o número menor é o mais antigo.

Outros calendários


Embora o calendário gregoriano seja o mais utilizado em nosso país, é importante ressaltar que vários povos desenvolveram outras formas para medir e registrar a passagem do tempo. 
As sociedades humanas criaram diferentes calendários ao longo do tempo. O dos egípcios, criado por volta de 6 mil anos atrás, está entre os mais antigos. Baseado no ciclo lunar, ele tinha 12 meses que somavam 354 dias. Cerca de mil anos depois, os egípcios adotaram um calendário solar de 360 dias, divididos em 12 meses. Ao final do 12o mês eram acrescentados cinco dias complementares.
Os antigos habitantes da América também inventaram diferentes calendários. O povo inca, por exemplo, que habitava grande parte da faixa oeste da América do Sul por volta de 550 anos atrás, tinha um calendário que combinava o ano solar de 365 dias com 12 meses lunares. Cada mês tinha seu próprio festival, marcado por celebrações de culto ao Sol, aos mortos e à agricultura.
Com base em cálculos e observações, as sociedades criaram diferentes tipos de calendário de acordo com a sua época e suas necessidades. De modo geral, podemos afirmar que os calendários têm uma relação direta com o modo de vida da sociedade que os criou, apresentando, assim, características variadas.
Além do calendário cristão, existem outros tipos de calendários que têm origem religiosa. No calendário judaico, por exemplo, o marco inicial é a data em que, para os judeus, Deus criou o Universo. Esse fato teria ocorrido no ano 3760 a.C. do calendário cristão. Os muçulmanos, por sua vez, estabeleceram a Hégira como marco inicial do seu calendário. A data corresponde à saída do profeta Maomé da cidade de Meca em direção a Medina, ocorrida no ano 622 do calendário cristão.
Embora o calendário gregoriano tenha sido adotado como referência em quase todo o mundo, há países que não o utilizam. Outros, como Japão e Israel, usam mais de um calendário ao mesmo tempo. Por isso, se você acessar a versão digital de um jornal de Israel, em que a maioria da população é judaica, encontrará na capa duas datas: a do calendário gregoriano – por exemplo, 24 de julho de 2024 – e a do calendário judaico – 18 Tamuz de 5784.

O calendário chinês 


O calendário tradicional chinês, assim como o inca, é lunissolar, ou seja, combina influências das atividades do Sol e da Lua. Ele também tem 12 meses, cada um deles relacionado a um animal, segundo esta ordem: rato, boi, tigre, coelho, dragão, serpente, cavalo, carneiro, macaco, galo, cão e porco. Após doze anos, o ciclo se reinicia e os nomes dos animais voltam a se repetir. 
O que poucas pessoas sabem é que na China se adotam dois calendários. O calendário ocidental, solar, é usado para atividades civis e administrativas: dia a dia do trabalho, escola, comércio, bancos, instituições públicas etc.
O calendário tradicional é usado principal mente para datar eventos relacionados à cultura do país, como o Ano-Novo Chinês e o Festival do Meio-Outono, dois feria dos nacionais na China.

A divisão do tempo em períodos 


Outra unidade de medida criada pelos estudiosos é o período. Cada um deles corresponde a uma longa extensão de tempo em que as sociedades humanas apresentaram determinadas características marcantes, diferentes das de outros períodos.
A periodização mais utilizada em livros de História foi criada por estudiosos europeus no século XIX. Eles dividiram a História em cinco períodos: Pré-história, Idade Antiga (ou Antiguidade), Idade Medieval, Idade Moderna e Idade Contemporânea. 
Muitos estudiosos criticam essa divisão porque ela leva em consideração apenas os acontecimentos da história europeia e anulam a história de outros povos. Essa periodização tradicional também recebe críticas porque está centrada em uma visão histórica voltada para os povos da Europa. É, portanto, eurocêntrica.
Também apontam que essa divisão pode dar a impressão de que o modo de vida dos europeus teria permanecido o mesmo em cada período – por exemplo, durante os mil anos do período medieval –, o que seria um grande erro.  
Por fim, o termo Pré-História também é criticado, pois o marco que separaria a História da Pré-História seria o surgimento da escrita. Hoje, esse critério perdeu o sentido, pois é consenso entre os historiadores que desde que os seres humanos surgiram existe história, independentemente de essa história ter ou não registro escrito.
Mesmo sem dominar a escrita, muitas sociedades produziram ferramentas, aproveitaram os recursos da natureza para garantir sua sobrevivência, criaram diferentes formas de arte e de religião e deixaram vestígios dos modos de vida que construíram. Essas sociedades apresentavam noções temporais próprias e formas particulares de medir a passagem do tempo.
Existem no presente sociedades cuja cultura não necessita da produção de registros escritos. É o caso de grupos nativos das Américas, da África, da Sibéria ou da Austrália. Alguns deles, por causa de seus contatos com as sociedades que dependem da escrita, adotaram alfabetos de outras línguas, como o latino, para registrar os sons de seus idiomas.
Os historiadores atuais não aceitam essa divisão entre Pré-História e História, porque consideram que: 
• as conquistas humanas anteriores à escrita (como o domínio do fogo, a invenção da roda, a prática da agricultura) são tão importantes quanto as posteriores; 
• os povos que não desenvolveram a escrita também possuem uma história movimentada, que precisa e pode ser melhor conhecida.

A distinção entre Pré-História e História foi criada por historiadores europeus que viveram no século XIX. Eles davam grande importância às fontes escritas porque supunham que elas eram mais confiáveis. 
Atualmente, os estudiosos não dão tanta importância para essa distinção entre fontes escritas e não escritas. Isso porque há várias formas de registro do passado que podem ser interpretadas. Além disso, o ser humano, desde que surgiu na Terra, é um ser histórico.
Além disso, nessa divisão é classificada como Pré-história todo o período anterior à invenção da escrita. O termo “pré-histórico” pode ser entendido de maneira pejorativa, pois se baseia na ideia de que os povos que não conheciam a escrita não tinham história, eram “atrasados” ou “não civilizados”. Acontece que nem todas as sociedades sentiram necessidade de desenvolver formas de registro escrito. Muitas se desenvolveram ao seu modo, transmitindo conhecimentos por meio da oralidade e de imagens gravadas sobre diferentes suportes.
Há outras razões para crer que essa divisão da História não é satisfatória, entre as quais se destacam: 
• A escolha do surgimento da escrita como critério para separar a Pré-História da História sugere que os povos sem escrita não tiveram ou não têm história. Com ou sem escrita, todos os povos têm história. 
• A expressão Idade Média, que só serve para separar a Idade Antiga da Idade Moderna, nada explica. 
• A expressão Idade Contemporânea, usada para cobrir o período que vai da Revolução Francesa aos dias de hoje, perdeu o sentido, pois foram muitas as mudanças ocorridas na história mundial desde então.

O principal problema dessa periodização, entretanto, é o fato de que toda a História é pensada com base na Europa. É, portanto, uma periodização eurocêntrica ou europocêntrica.



quarta-feira, 26 de agosto de 2026

HISTÓRIA, MEMÓRIA E CULTURA

Os antigos gregos tinham o costume de atribuir ao mundo divino sentimentos e conhecimentos humanos. Criavam deuses e semideuses para quase tudo, associando essas divindades aos fenômenos naturais e às atividades culturais.
As musas gregas eram divindades filhas da deusa Memória e de Zeus, principal deus da mitologia grega. Estavam encarregadas de inspirar os homens na sua criação intelectual e artística.
Uma dessas musas se chamava Clio, divindade associada ao conhecimento histórico. História, para os gregos, significava “testemunho”, isto é, uma narrativa do que havia acontecido, um registro dos eventos para contar aos outros. 
A musa Clio inspirava as pessoas a registrar os acontecimentos antes que fossem esquecidos e ajudava os seres humanos a enfrentar as barreiras que Cronos, o deus do tempo, colocava no caminho de todos. A história era, portanto, uma batalha entre Cronos e Clio. Vamos conhecer um pouco o que é História?

O que é História?


História é o campo do conhecimento dedicado ao estudo das ações dos seres humanos no tempo e no espaço. Esse estudo envolve as realizações humanas, as transformações sociais, políticas e culturais que ocorrem nas sociedades, bem como as permanências, isto é, aquilo que pouco mudou ao longo do tempo. 
A História nos auxilia a conhecer o passado e, desse modo, compreender melhor o presente. Assim, tornamo-nos mais capazes de agir para transformar a sociedade.
A História é a ciência que estuda as ações dos seres humanos ao longo do tempo, desde o seu surgimento, há milhares de anos, até os dias atuais. Ela nos ajuda a compreender a cultura de diferentes povos, bem como suas origens, seus costumes e suas formas de organizar a sociedade.

O que é cultura ?


Tudo o que é produzido pela humanidade é considerado cultura, seja material, como ferramentas e obras de arte, seja imaterial, como ideias e maneiras de fazer algo. Assim, o conceito de cultura pode ser definido como um conjunto de conheci mentos, crenças, linguagens, hábitos e costumes compartilhados por um grupo de pessoas em determinado período.

O que é sociedade?


Sociedade é um conjunto de pessoas que convivem de maneira organizada, compartilhando regras, costumes, língua etc. Uma sociedade é composta de instituições e grupos sociais, como a família, a escola e o trabalho. Por meio dos grupos sociais, as pessoas se integram à sociedade, estabelecendo relações entre si.  Por isso, podemos dizer que uma sociedade é formada por pessoas que compartilham de elementos culturais comuns em determinado tempo e lugar.

Para que serve estudar História? 


O estudo da História tem vários objetivos, entre os quais podemos destacar: preservar memórias, interpretar culturas e promover cidadania.

- Preservar memórias 


No dia a dia, vivenciamos muitos acontecimentos que passam a fazer parte da nossa história. Algumas dessas vivências são lembradas e divulgadas, outras são esquecidas e silenciadas. Assim são construídas as memórias das pessoas, dos grupos e das sociedades. 
A construção da memória é influenciada por interesses sociais e, com frequência, os marcos históricos são escolhidos a partir das memórias dos grupos dominantes. Para reagir contra os esquecimentos, devemos desenvolver uma atitude historiadora que busca preservar as memórias dos diversos grupos sociais.

- Interpretar culturas 

A palavra cultura pode ter diferentes significados. Geral mente, relacionamos o significado dessa palavra com o universo artístico e intelectual. Alguns estudiosos, no entanto, ressaltam que o termo apresenta sentido mais amplo: o conjunto de conhecimentos, ideias, crenças e também de práticas e valores, que se constituíram ao longo do tempo na vida cotidiana de uma sociedade. 
Cultura é o modo de vida criado e transmitido de uma geração para outra. Abrange conhecimentos e obras, artes e ciências, normas e costumes. Envolve o que pensamos e fazemos como membros de um grupo social. Assim, as danças, os jogos, as comidas, as músicas e as linguagens são exemplos de manifestação cultural.
São entendidas como cultura todas as dimensões da experiência humana, como as habilidades, as produções materiais e os modos de compreender o mundo, incorporados socialmente e transmitidos pelas diferentes gerações a seus descendentes.
Quando viajamos para outros lugares ou estudamos História, entramos em contato com vários tipos de manifestação cultural e podemos notar semelhanças e diferenças nos modos de ser, pensar, sentir e agir das pessoas. 
Nesses contatos, algumas pessoas ou grupos podem discriminar o outro, pois julgam que a sua cultura é superior ou melhor. Esse comportamento é chamado de etnocêntrico, ou seja, a pessoa acha que sua cultura é o “centro do mundo”. O etnocentrismo provoca conflitos, pois sua prática implica negar, rejeitar, perseguir e repudiar o outro, o que é diferente. 
Uma atitude historiadora nos faz refletir que as culturas produzem diferentes respostas aos desafios da vida. Desse ponto de vista, não existem culturas superiores ou inferiores, melhores ou piores. O que existe são diferentes formas de se vestir, de comer, de falar, de brincar, de trabalhar, de pensar sobre a vida. 
É o que chamamos de diversidade cultural. Reconhecer as manifestações de nossa cultura é valorizar nossa identidade pessoal e social. Além disso, o convívio democrático exige o respeito pelo outro e a valorização da pluralidade das culturas.

- Promover a cidadania 


Cidadania é nossa maneira de pertencer à sociedade. Esse pertencimento ocorre quando, por exemplo, garantimos os direitos à vida, à liberdade, à educação, ao lazer, ao trabalho, ao voto, entre outros. 
Ao estudar História, percebemos que muitos direitos já foram conquistados no Brasil, como o voto feminino em 1932 e a igualdade jurídica entre homens e mulheres em 1988, proibindo-se a discriminação em função do sexo. Mas ainda há um longo caminho para alcançar a cidadania plena. Nesse sentido, basta pensar que no Brasil e no mundo existem enormes desigualdades entre ricos e pobres.
Uma atitude historiadora pode despertar a consciência de cada um de nós para a tarefa de construir uma sociedade mais justa e democrática, uma sociedade que inclua mais pessoas no exercício da cidadania, independentemente de idade, sexo, origem, cor da pele e religião.

Os seres humanos agem no mundo: constroem relacionamentos, trabalham e produzem objetos e saberes. Elaboram e compartilham leis, linguagens, afetos e uma infinidade de coisas relacionadas às suas identidades e ao tempo e ao espaço em que vivem.
Você já pensou por que existem diferenças culturais, ou por que nem todas as pessoas têm a mesma qualidade de vida? Por que é necessário preservar o meio ambiente? Essas questões se referem a diferentes situações do mundo atual. Para compreendê-las melhor, muitas vezes, torna-se necessário pesquisar o passado e conhecer a história das sociedades.
Os historiadores estudam essas ações e relações humanas no decorrer do tempo para tentar entender o passado, identificando as rupturas (mudanças) e as permanências (o que se manteve) entre ele e o presente. 
Um exemplo de ruptura na história do Brasil foi a imposição, no século XVIII, do português como idioma oficial. Até então, o nheengatu era a língua mais falada na colônia portuguesa. Um exemplo de permanência em seu dia a dia é o estudo da geometria, nas aulas de matemática. Essa ciência reúne sabe res que já eram conhecidos na Grécia antiga. Saberes como esse e ações realizadas desde tempos remotos têm impacto direto no presente.
Estudar História é refletir sobre o presente, comparar modos de vida; e viajar mentalmente pelo tempo, conhecer o modo de pensar e agir de diferentes povos, observar suas dificuldades e as tentativas de solucioná-las; e analisar a vida em sociedade em outras épocas e lugares.
Existem muitas razões para estudar História. Independentemente do local de nascimento ou da condição social, cada indivíduo tem a necessidade de conhecer seu passado e suas origens. Além disso, muito do que somos hoje reflete a herança do modo de viver e de pensar de outras épocas. Esse conjunto de experiências que aprendemos com nossa comunidade recebe o nome de cultura.

O que a História estuda? 


História é a ciência que estuda a vida e as ações dos seres humanos ao longo do tempo, analisando rupturas e continuidades que ocorrem nas sociedades. 
As rupturas (ou mudanças) acontecem quando as formas de organização de uma sociedade são modificadas – por exemplo, transformações na economia de um Estado. 
Essas rupturas podem ser resultados de eventos rápidos (que acontecem em um curto período de tempo) ou de processos históricos mais lentos (em um longo período de tempo com diferentes eventos que modificam, aos poucos, as características de uma sociedade).
A História estuda justamente o processo de mudanças ocorrido nas sociedades. Incluem-se aí as mudanças no campo da comunicação, da moda, da alimentação, da construção de moradias, do lazer, entre outras. Mas a História não estuda apenas as mudanças. 
Estuda também as permanências, ou , ou seja, aquilo que, mesmo com o passar dos anos, não mudou ou mudou pouco. Exemplos disso são as construções presentes em algumas cidades brasileiras, como Ouro Preto, São Luís, Olinda, Goiás e Salvador. Repare que elas são muito antigas; foram construídas há muito tempo e preservadas até hoje.

O trabalho do historiador 


O historiador estuda o passado tendo como base perguntas e dúvidas que surgem no presente. Suponhamos, por exemplo, que um historiador deseje compreender por que existem mais afrodescendentes no Sudeste e no Nordeste do Brasil do que na Região Sul. Para obter uma resposta, ele terá de investigar o tráfico de africanos escravizados para o Brasil e as atividades econômicas em que eles trabalhavam.
Carlo Ginzburg comparou o historiador a um detetive, pois ele também procura pistas, indícios e sinais para investigar um caso e chegar a uma conclusão. 
O estudo da História investiga o passado para nos ajudar a compreender o presente e entender o funcionamento das sociedades ao longo do tempo. A História é, também, a ciência que nos coloca em contato com outros povos, outros tempos e diferentes formas de pensar. Uma atitude que o historiador deve evitar é a análise anacrônica dos fatos, ou seja, quando ele busca utilizar ideias de uma época para analisar fatos de outro tempo.  
A pergunta que o historiador procurará responder pode estar relacionada a um passado recente ou a um passado bem distante. Ele pode, por exemplo, procurar saber como o hip-hop ou o rap chegaram ao Brasil, uma história relativamente recente. Mas, se a intenção for saber sobre o desenvolvimento do comércio, da democracia ou da ciência, o historiador terá de recuar sua investigação para um passado mais longínquo. O historiador investiga o que os seres humanos fizeram, pensaram e sentiram no contexto de suas culturas.
Como é possível para o historiador investigar um passado que não existe mais? Se você refletir sobre isso, vai concluir que as pessoas, ao longo da vida, deixam vestígios do que fizeram e pensaram. Tiram fotografias, escrevem cartas, leem livros, ouvem músicas, fabricam ou compram vários tipos de objeto, pintam telas, constroem edifícios e fazem muitas outras coisas que podem perdurar por milhares de anos.
Quando são utilizadas pelo historiador em suas pesquisas, essas marcas deixadas pelas pessoas recebem o nome de fontes históricas. Elas podem ser classificadas em fontes históricas materiais (documentos escritos de vários tipos, livros, fotografias, roupas, cartas, pinturas, monumentos etc.) e fontes históricas imateriais (memórias, músicas, lendas, línguas, crenças etc.). Para chegar a qualquer conclusão em seus estudos, os historiadores precisam examinar várias fontes diferentes.
Em muitos momentos, dependendo do enfoque e do tema da pesquisa, o historiador pode recorrer a outras áreas de conhecimento, como as ciências sociais, para compreender melhor os diferentes aspectos da experiência humana em estudo.
O historiador não fixa “verdades absolutas” ou definitivas. Seu trabalho depende de pesquisas, formulações de hipóteses e interpretações de fontes. A atividade do historiador envolve uma busca pelo conhecimento. E conhecer é uma tarefa contínua, que nunca tem fim. O historiador, aquele que estuda História, elabora uma narrativa a respeito de acontecimentos, com base em diferentes tipos de registros. Para isso, seleciona e organiza o que deseja estudar, para, em seguida, interpretar e relatar o que observou.
O trabalho do historiador se inicia com questões surgidas no presente. Ele pode estudar o passado (recente ou distante) para compreender a sociedade em que vive ou uma sociedade diferente da dele. Além disso, o historiador debate temas e acontecimentos atuais, identificando rupturas e continuidades que auxiliem na compreensão do presente. 

DIFERENTES FONTES E CONCEITOS DA HISTÓRIA 


Para investigar e compreender a organização social, o modo de vida e as práticas culturais em tempos e lugares específicos, o historiador utiliza fontes históricas, que também são conhecidas como documentos.

• fontes escritas: registros textuais manuscritos ou impressos, como documentos oficiais, jornais, revistas, livros, diários, anotações, etc.; 
• fontes sonoras: registros musicais e gravações em discos de vinil, fitas cassete, CDs ou em meios digitais; 
• fontes visuais: fotografias, pinturas, gravuras, charges, caricaturas, etc.; 
• fontes audiovisuais: filmes e vídeos; 
• fontes orais: relatos, depoimentos e entrevistas; 
• fontes materiais: artesanato, esculturas, construções, ferramentas, armas, roupas, etc.

Fontes históricas podem ser compreendidas como evidências de experiências humanas do passado. Os historiadores consideram esses sinais de outras épocas como “vestígios” que possibilitam a compreensão de parte das relações sociais cotidianas que já foram vividas.
São fontes históricas para análise do historiador: ruínas de cidades antigas, pinturas, textos de jornais, leis, fotografias, filmes, computadores, entre outros documentos que possam conter informações sobre o passado. É com base em fontes históricas que o historiador constrói narrativas sobre acontecimentos e descreve como as pessoas viviam em tempos anteriores.
As fontes podem ser classificadas pela originalidade – em fontes primárias e secundárias – e pela forma da informação – em fontes escritas e não escritas. Além disso, elas podem estar registradas em diversos suportes.
Independentemente do tipo, as fontes históricas devem ser estudadas e interpretadas de forma cuidadosa. Fontes antigas ou frágeis, como vasos e pergaminhos, devem ser manuseadas com grande cuidado. Fontes ambíguas ou fragmentárias, como obras de arte e documentos parcialmente queimados, exigem cuidado e esforço técnico e científico para que possam ser adequadamente organizadas e estudadas. 
Para estudar as fontes históricas, é possível utilizar alguns procedimentos. Vamos conhecê-los? 
Identificação: localização e descrição da fonte, bem como das condições que permitiram encontrá-la; 
Comparação: confronto com outras fontes que tratam do mesmo tema ou que foram encontradas no mesmo lugar; 
Contextualização: descrição do momento histórico em que a fonte foi produzida, explicando as características sociais, econômicas, culturais e políticas da época e de que maneira elas se relacionam com a fonte; 
Interpretação: explicação de possíveis significados da fonte histórica e elaboração de narrativas ou descrições que permitam a compreensão do passado; 
Análise: debate sobre os dados levantados pela interpretação de uma fonte, avaliando o o valor dela para a construção do conhecimento histórico.

Fontes primárias ou originais


São aquelas que fornecem uma informação direta, sem outras interferências. Também chamada de fonte original, é um registro direto do tempo estudado. Um documento oficial, como a Constituição brasileira ou uma certidão de nascimento, é uma fonte primária.

Fontes secundárias


São aquelas em que a informação não está em “primeira mão”, ou seja, já sofreu algum tipo de tratamento, análise, interpretação ou generalização. Assim, se a Constituição Federal de 1988 é uma fonte primária para juristas, historiadores e outros que desejem estudar as leis brasileiras, um livro que discuta os aspectos do texto constitucional é uma fonte secundária, pois quem conhece a Constituição por esse livro não tem acesso direto à própria Constituição.

Fontes escritas


São aquelas em que as informações são transmitidas pela linguagem escrita, composta de caracteres, letras ou símbolos que, em conjunto, formam mensagens. Alguns exemplos desse tipo de fonte são os livros, jornais, leis, documentos administrativos, revistas e panfletos. 
Existem diversos suportes possíveis para a escrita: pedra, pergaminho, papel e até mesmo um smartphone. Embora sejam importantes, as fontes escritas não são as únicas utilizadas pelos historiadores. Afinal, muito antes das primeiras formas de escrita, os seres humanos já se relacionavam social e politicamente, construíam moradias, se alimentavam, enfim, viviam e produziam suas próprias culturas e histórias.

Fontes não escritas


Fontes não escritas são as informações e evidências que não estão na forma de linguagem textual. As fontes não escritas podem ser orais, ou seja, são narrativas de pessoas, com base em suas memórias, sobre experiências pessoais e coletivas de momentos e fatos do passado. As entrevistas e os depoimentos são exemplos de fontes orais, mas não são as únicas. 
Os mitos, as lendas, as cantigas, as fábulas, enfim, as diferentes narrativas sobre o mundo, os seres humanos, suas origens, angústias e dramas, bem como seus valores éticos e morais, tudo isso pertence ao campo das fontes orais. Logo, essas fontes são relevantes para os historiadores. Em sociedades ágrafas, isto é, que não usam linguagem escrita, as fontes orais são fundamentais, pois, muitas vezes, são as únicas com as quais um povo, sua cultura e organização podem ser conhecidos e valorizados.
Outro tipo de fonte não escrita são as sonoras ou auditivas. No passado, essas fontes eram constituídas por músicas e canções, algumas das quais dialogavam diretamente com a tradição oral. 
No século XIX, surgiu a radio difusão como uma forma de transmitir sons. Com o passar do tempo, surgiram suportes que permitiam gravar os sons, como discos de vinil, CDs, fitas magnéticas, fitas cassete e pendrives. Com a evolução da tecnologia, os computadores e smartphones são ao mesmo tempo transmissores e suportes de fontes auditivas.
As fontes visuais ou iconográficas são objetos que contêm imagens, sinais e ícones. As diversas formas de imagens podem trazer informações sobre a sociedade que as produziu. Por exemplo, muitas das informações que temos sobre sociedades do passado, como incas, maias e astecas, são imagens presentes em suportes como vasos, blocos de pedra e construções, entre outros que, de alguma forma, foram preservadas ao longo do tempo. Contudo, nem todas as fontes visuais ou iconográficas vieram do passado distante ou nos ajudam a conhecer sociedades que já não existem mais. É possível compreender a história de povos e sociedades do presente analisando suas mudanças e continuidades por meio dos seus registros visuais. Telas, afrescos e murais continuam sendo formas de representar a natureza e os processos sociais. As fotografias também são fontes imagéticas. Na década de 1820 surgiram as fotografias, que são inicialmente registros de luz em contraste sobre uma super fície fotossensível. Com esse método, as fontes imagéticas se popularizaram e ganharam novas possibilidades de registro sociocultural. As peças publicitárias e, particularmente, as charges e as caricaturas, presentes em jornais, revistas e folhetos, também são considerados registros visuais importantes, particularmente na medida em que registram e interpretam fatos sociais, políticos e econômicos relevantes em diferentes povos e sociedades.
As fontes audiovisuais são caracterizadas por serem uma combinação entre elementos sonoros e visuais. Filmes, documentários e vídeos, muitos dos quais presentes em plataformas digitais, são exemplos relevantes de fontes audiovisuais. Desde o final do século XIX, quando os irmãos Lumière desenvolveram o cinematógrafo, ou seja, o precursor das câmeras cinematográficas, as diversas expressões do cinema produzem registros sobre as sociedades contemporâneas. Os programas de televisão, os DVDs e os videoclipes também são elementos que retratam aspectos do cotidiano. Da mesma forma, as lives e os webinários, cada vez mais presentes em nosso dia a dia, também são formas contemporâneas de registros e fontes audiovisuais.
As fontes materiais se referem a vestígios que têm materialidade, isto é, que podem ser tocados. São exemplos: monumentos, construções, vestígios arqueológicos diversos, máquinas, ferramentas e objetos para caçar, guerrear ou preparar alimentos. Os suportes de outros tipos de fontes também são consideradas fontes materiais, como a estrutura física de quadros, livros e CDs, pois ajudam a compreender a forma como as sociedades se expressam e registram informações e suas implicações sociais. O arqueólogo é o profissional habilitado para estudar as culturas e sociedades do passado por meio de vestígios materiais, que muitas vezes são encontrados em sítios arqueológicos.
As fontes imateriais correspondem a ideais, formas de pensar e organizar a sociedade, costumes e práticas sociais que foram mantidas e transmitidas entre as gerações, como festas, culinária, danças e saberes. Assim, por exemplo, a prática do judô pode nos ajudar a entender aspectos culturais da sociedade japonesa, bem como a capoeira diz muito sobre a formação social e histórica da sociedade brasileira.


A RELAÇÃO DO HISTORIADOR COM AS FONTES 


O modo como o historiador se relaciona com as fontes históricas também mudou ao longo do tempo. A História tornou-se uma disciplina escolar e um campo de conhecimento considerado científico há cerca de duzentos anos. 
Foi quando os historiadores da Escola Metódica, também chamados de positivistas, elaboraram métodos e procedimentos para a condução do trabalho de pesquisa. Para os historiadores dessa corrente, só era possível estudar a História pelos documentos escritos, sobretudo os produzidos por instituições oficiais do Estado, como as certidões, os registros, etc.
Essa concepção mudou com o surgimento, a partir de 1929, de uma nova corrente historiográfica, a Escola dos Annales, que ampliou o conceito de fontes históricas. De acordo com essa corrente, as fontes históricas são diversificadas e dependem do olhar do historiador e das perguntas feitas por esse profissional.
Essa ampliação trouxe uma gama imensa de novos temas, personagens e pontos de vista que enriqueceram o ofício do historiador. Os vestígios humanos não revelam por si mesmos o passado tal como ele aconteceu, mas devem ser pensados como representações que precisam ser interpretadas para que o historiador possa extrair delas todas as informações.
Além das ideias sobre as fontes históricas, outra concepção do século XIX não é mais aceita hoje: a de que a tarefa dos historiadores seria simplesmente revelar o que teria acontecido no passado, como se houvesse uma versão verdadeira, única e absoluta. Afinal, como chegar a uma versão única sobre o passado, se cada fato foi vivenciado por pessoas diferentes, que, ao registrá-los ou relatá-los, o fizeram a partir de seus pontos de vista? O próprio historiador seleciona e analisa aspectos do passado a partir da sua visão de mundo.
Hoje está claro para os historiadores que a História não é a reconstituição exata do passado, mas uma interpretação sobre parte desse passado. Podem existir, inclusive, várias interpretações ou relatos sobre o mesmo acontecimento. Isso não quer dizer, contudo, que qualquer versão pode ser aceita, porque a História não é um relato ficcional. 
Ao investigar o passado, os historiadores reúnem muitos documentos e versões diferentes sobre o período em estudo; em seguida, cruzam todas as informações, verificam se elas são confiáveis e escrevem uma narrativa consistente sobre os acontecimentos.
Assim, as profundas mudanças na concepção de conhecimento histórico nos mostram que a História também tem história e é pensada de diferentes maneiras com o passar do tempo. 
Todas essas transformações no campo do conhecimento histórico estimularam a pesquisa de muitos temas até então pouco estudados, como a história do Brasil na perspectiva dos escravizados e dos indígenas, a história da América Latina pensada segundo os povos nativos, a história da África com base em fontes historiográficas do continente africano, entre outros.
Tais questões são sempre despertadas por interesses e experiências da época em que o historiador vive. Dificilmente um historiador do século XIX se perguntaria, por exemplo, sobre sustentabilidade e fontes renováveis de energia. Afinal, temas como esses são prioridades do presente.

Interpretar fontes históricas


Ao analisar as fontes históricas, o historiador pode reunir pistas ou evidências que lhe permitam, por exemplo, reconhecer mudanças ocorridas em uma sociedade e o que as provocou. Os processos de mudança podem ocorrer na economia, nas artes, na política, na maneira de pensar, nas formas de viver e de sentir o mundo.
Além das mudanças, o historiador pode observar permanências, ou seja, aquilo que não se alterou. Por exemplo: ruas e construções que não se modificaram, embora quase toda a cidade tenha se transformado; maneiras antigas de realizar certos tipos de brincadeira, de trabalho, de atividade artística, etc.
Em uma mesma fonte histórica, o historiador pode perceber várias informações significativas. Ao encontrar um recibo de compra ou venda de escravo, por exemplo, ele já observou pelo menos uma informação básica: que houve escravidão nesse lugar, ou seja, que homens, mulheres e crianças foram considerados escravos e podiam ser negociados como se fossem mercadorias. O recibo também pode conter o nome da moeda utilizada naquela época, entre outras informações.
Os historiadores, quando estudam determinada sociedade, podem interpretá-la de diferentes maneiras, mas sempre com métodos científicos.
Dependendo dos métodos de pesquisa e das fontes de que dispõe, o historiador pode dar ênfase, por exemplo, em aspectos políticos, econômicos, sociais ou culturais. A ênfase em um ou mais desses aspectos possibilita ao historia dor construir a própria interpretação histórica com base no enfoque escolhido por ele e pela documentação analisada.
A historiadora e antropóloga brasileira Lilia Schwarcz, por exemplo, privilegia em seus estudos aspectos culturais das sociedades. Já o historiador Eric Hobsbawm (1917-2012) privilegiava em suas pesquisas aspectos políticos.

Voluntarismo 


O voluntarismo consiste em interpretar fontes de acordo com pressupostos teóricos, religiosos, morais ou ideológicos, ou sem embasamento científico, com o objetivo de confirmar ideias já existentes na mente do pesquisador. Dito de outro modo, comete voluntarismo o historiador que analisa e interpreta suas fontes com base em ideias preconcebidas, e não nas informações que os documentos revelam. 
Por exemplo: o religioso estadunidense Brad Shockley afirmou em seu programa de televisão que os seres humanos e os dinossauros foram criados por Deus há cerca de 6 mil anos. Porém, as evidências científicas mostram que dinossauros e humanos nunca conviveram. 
Sabe-se hoje que um evento catastrófico causou a extinção dos dinossauros cerca de 65 milhões de anos antes dos primeiros humanos. Além disso, as evidências científicas mostram que os seres vivos não foram criados, mas são resultado de um contínuo processo evolutivo.

Fato histórico e processo histórico


A história humana é composta de muitos acontecimentos, resultados de interações e vivências entre diversos sujeitos históricos em lugares e épocas definidas. No entanto, nem tudo o que acontece na história vivida é escolhido pelo historiador, porque isso depende do interesse e do objeto de estudo escolhido como tema. 
Ele pode, por exemplo, querer entender como agiam os partidos políticos há muitos anos em um determinado lugar. Para isso, buscará artigos de jornal, depoimentos de pessoas, atas governamentais e assim por diante. 
Outro historiador poderá procurar entender como era organizada a família entre as pessoas mais pobres em uma época passada. Para isso, buscará registros de nascimento, listas de trabalha dores em fábricas, testamentos registrados em cartório etc.
O registro do tempo é importante porque permite organizar e compreender os fatos históricos. Segundo os antigos gregos, era nessa forma de medir o tempo que a musa Clio entrava em cena, empenhando-se em inspirar o registro dos fatos passados, os fatos históricos.
Mas o que é um fato histórico? É um episódio ou fenômeno que teve repercussão para alguma sociedade em particular ou até mesmo para o mundo. Portanto, dependendo do assunto que se quer conhecer, qualquer fato do passado pode ser considerado histórico.
Portanto, é o historiador quem seleciona e atribui relevância a determinados eventos, interpretados como fatos históricos. O fato histórico é uma construção desse profissional em seu trabalho de compreensão de aspectos da realidade passada, com base em indagações suscitadas pelo mundo que o cerca no tempo presente.
O conhecimento do passado não diz respeito apenas ao passado em si, mas também ao presente. A formulação de perguntas pelos historiadores sobre uma realidade passada é feita com base nos valores sociais e culturais dominantes em seu tempo. 
Tendo definido a questão que pretende investigar, ele analisa os documentos disponíveis e constrói uma interpretação histórica para sua pergunta. Por meio dessa análise, é possível até reformular a pergunta inicial, já que sua interpretação não pode forçar os documentos a afirmarem algo que não está neles.
A Lei Áurea, que aboliu a escravidão no Brasil é um exemplo de evento histórico. Quando se trata da questão das condições de vida das pessoas negras do Brasil, alguns autores podem discordar sobre a importância desse documento: se, por um lado, eliminou a escravidão, por outro, muitas pessoas negras tiveram de voltar a trabalhar de forma precária, uma vez que não contaram com auxílio para entrar no mercado de trabalho, estudar, ter acesso à moradia etc.
A chegada dos europeus à América, em 1492, por exemplo, é um fato histórico de extrema importância, porque foram colocados em contato povos que antes não sabiam da existência um do outro. Esse fato resultou em profundas transformações econômicas, políticas e sociais e também em relação aos costumes, uma vez que produtos nativos da América, como a batata, o milho, a mandioca, o amendoim e até o chocolate, passaram a ser consumidos em outras partes do mundo: na Europa, na África e na Ásia. A mudança de hábitos alimentares em grande parte do mundo promoveu mudanças graduais em várias sociedades. Assim, é também um fato histórico.
Há ainda fatos sociais de grande interesse histórico, como as revoltas populares. Há fatos econômicos importantes para a sociedade, como a inflação (isto é, o crescente aumento dos preços), ocorrida em várias épocas. Há fatos históricos ligados à tecnologia, como a utilização do vapor para impulsionar máquinas ou a invenção do telefone. Há também os fatos da vida cultural das sociedades, como as comemorações, as festividades, as brincadeiras de roda e as apresentações de música e de teatro.
Uma sucessão de fatos históricos, explicada pelo historiador com uma narrativa, é chamada de processo histórico. A ideia de processo está associada às ações dos sujeitos históricos que, com suas trajetórias, motivações, estratégias e escolhas, imprimem movimento e ritmo às trans formações. Assim, a partir de suas perguntas, as fontes disponíveis são analisadas para a elaboração de uma interpretação, estabelecendo uma relação entre sequências de fatos históricos.
O interesse do pesquisador em analisar um processo histórico está em compreender as mudanças e permanências que resultaram das ações humanas ao longo do tempo. Contudo, nem todas as mudanças têm a mesma duração: algumas são rápidas e podem ser percebidas no nosso cotidiano, no intervalo de dias ou meses. Outras, um pouco mais lentas, são notadas no espaço de algumas gerações, e, finalmente, existem aquelas que são muito lentas e só são percebidas ao longo dos séculos.

Sujeito histórico 


A História é construída por ações humanas no tempo. Isso significa que os eventos são produzidos entre seres humanos por meio das suas relações sociais. Constata-se, com base nessa reflexão, que aqueles responsáveis por movimentar a “roda da História” são os seres humanos em sua coletividade. Todas as pessoas, não importa sua condição social, financeira, cultural ou política, contribuem para a constituição das experiências de vida coletivas de uma sociedade.
Os historiadores são responsáveis por investigar o passado e tentar entender sua relação com o presente considerando os mais variados aspectos da vida humana. No entanto, os historiadores não "fabricam" a história. Ela é feita pelos sujeitos históricos. Quem são, então, esses “sujeitos”?
Para os historiadores, aqueles que, em determinado momento, produzem, reproduzem e transformam a realidade em que vivem são sujeitos históricos. Não estamos deslocados do mundo: nossos comportamentos, ideias, trabalho, relações de amizade, enfim, nossas relações em sociedade de alguma forma contribuem para mantê-la ou transformá-la.
É comum as pessoas definirem história como o resultado da ação de importantes personagens, que enfrentaram desafios para realizar feitos que mudaram os rumos da humanidade. Entretanto, homens e mulheres não mudam o mundo sozinhos. 
A história é resultado do jogo de forças de diferentes grupos em disputa no interior das sociedades. Quando estudamos a história, buscamos entender como as ações dessas pessoas se cruzam em determinado tempo e espaço. De modo individual ou coletivo, as ações dos sujeitos históricos contribuem para a construção da sociedade em que vivemos.
Há mais de cem anos, acreditava-se que os agentes ou sujeitos históricos eram somente os poderosos, como reis e rainhas, presidentes e generais, que pareciam decidir o destino da humanidade. Hoje se entende que todos são produtores de história: homens e mulheres, adultos e idosos, jovens e crianças de qualquer camada social.
A história dos jovens, dos trabalhadores rurais, de pessoas escravizadas e dos estudantes – suas práticas, sentimentos, ações e crenças – é tão importante quanto a de conhecidos líderes, ainda que não vire notícia. 
Há agentes históricos individuais (pessoas que, por conta própria, agem no mundo) e coletivos (como agremiações, partidos políticos, sindicatos, Organizações Não Governamentais – ONGs –, movimentos estudantis, igrejas e forças armadas), em que pessoas atuam em grupo.
É importante saber que cada sujeito é movido por interesses específicos. Além disso, é fundamental entender por que tal ação ou decisão foi tomada e quem se beneficiou dela. Isso ajuda a compreender como a história é produzida e contada.

O TEMPO E A HISTÓRIA 


Todo fato histórico acontece em local e tempo específicos. O tempo histórico, no entanto, organiza-se de forma diferente daquela como são estruturados o tempo cronológico e o tempo natural. Isso ocorre porque esse tempo é pensado segundo as experiências dos diversos grupos humanos.
O tempo histórico é assinalado por rupturas e permanências. As rupturas são as mudanças significativas que afetam uma sociedade ou um grupo inteiro, como o surgimento da internet, por exemplo. Já as permanências são as estruturas que podem ou não sofrer alterações, mas que persistem ao longo do tempo, como a religião católica, por exemplo.
Fernand Braudel (1902-1985), um dos mais proeminentes historiadores da Escola dos Annales. Na obra O Mediterrâneo e o mundo mediterrâneo na época de Filipe II, Braudel propõe a organização do tempo histórico em temporalidades de curta, média e longa duração. Foto de cerca de 1980.


Além disso, o tempo histórico pode ser dividido em temporalidades de curta, média e longa duração. As temporalidades de curta duração referem-se a eventos breves, que podem ocorrer em dias ou meses. Nesse caso, as transformações históricas acontecem mais rapidamente. As temporalidades de média duração referem-se a eventos um pouco mais longos, que acontecem no decorrer de anos ou décadas, mas, ainda assim, podem ser percebidos no curso de uma vida. As temporalidades de longa duração, por outro lado, referem-se a eventos que se estendem por séculos e são caracterizados por lentas transformações.

Cada sociedade tem sua história 


A história de todas as sociedades não é única; cada uma delas tem seu próprio desenvolvimento. O estudo da História nos mostra que em uma mesma época convivem sociedades com modos de vida semelhantes e muito diferentes. 
Por exemplo, enquanto algumas se fortaleceram com o comércio, outras se dedicaram principalmente à agricultura. Dentro de um mesmo povo também é possível observar variados grupos sociais que agem e pensam de forma diversa dos demais. 

História: uma produção de saber


A História é uma área de estudo que investiga as vivências humanas ao longo do tempo. Em sua origem grega, a palavra “história” significa “procurar saber” ou “informar-se”. Quando estudamos História, pesquisamos diversos aspectos da vida humana, por exemplo: formas de trabalho e tipos de diversão, alimentos produzidos e consumidos, relações de dominação e resistência entre pessoas.
Quem tem conhecimento histórico percebe que, se algumas coisas mudaram no passado, elas também podem mudar no presente. Sem consciência histórica, alguém pode achar, por exemplo, que certas injustiças sociais de nossa época e a exploração predatória do meio ambiente são “naturais”. Assim, muitas pessoas não enxergam a possibilidade de lutar por um mundo melhor. Estudar História nos permite refletir sobre como podemos construir um mundo mais livre, justo e sustentável.

Memória


A memória é nossa capacidade de guardar na mente histórias, experiências e impressões de situações que vivemos em diferentes épocas. Ela liga nosso passado ao nosso presente; sem ela, não temos como saber quem somos. No entanto, nossa memória não é uma guardiã segura do passado; ela pode falhar e distorcer acontecimentos. E, por ser muito subjetiva, o que experimentamos no passado pode ser diferente da experiência de outras pessoas no mesmo tempo e espaço.
A memória está intimamente ligada às transmissões culturais, já que conserva, seleciona e atualiza as informações do passado, reinterpretando-as no presente. Portanto, a memória não é um apanhado de todas as experiências e de todos os conhecimentos do passado. Ela sempre será estruturada por lembranças e esquecimentos, por recortes, impressões e fragmentos. Além disso, ela se refaz constantemente, restabelecendo com o presente as conexões com o passado e as experiências vividas.
A memória pode estar registrada em muitas criações e manifestações humanas: em histórias transmitidas de pais para filhos, em monumentos, em gravuras e em fotografias, por exemplo.
História e memória têm a ver com o passado, mas são diferentes. Ao estudar a história, usa-se a memória para resgatar aspectos do passado. Reúnem-se, verificam-se e interpretam-se várias memórias na tentativa de completar suas lacunas, escapar de suas armadilhas e até entender o significado dos esquecimentos e das distorções.
Alguns povos procuram preservar bens naturais ou culturais que compõem sua história e são significativos para sua cultura. Esses bens formam o patrimônio de um povo e podem ser materiais (edifícios, sítios arqueológicos e paisagísticos, acervos de museus ou bibliotecas, obras cinematográficas etc.) ou imateriais (como celebrações, formas de expressão, festas, saberes e modos de fazer tradicionais de algumas comunidades).
Além da memória individual, existe a memória coletiva. Por isso, as pesquisas de História costumam fazer uso das narrativas, para compreender o modo de viver e de ver o mundo, os costumes, as formas de organização e as experiências de um grupo social.

Memórias silenciadas


Durante épocas a memória oficial era escrita majoritariamente por homens brancos, que não tinham interesse em construir a memória das mulheres e de homens não brancos, por exemplo.
O resgate da participação feminina na história é recente e está em construção, graças à luta de grupos de mulheres por representatividade. O mesmo mecanismo de silenciamento tem sido confrontado por indígenas, negros, imigrantes e refugiados, entre outros grupos.
A representatividade é muito importante para a história. Como os humanos são seres diversos (com identidades, personalidades e opções de vida varia das), quanto mais plurais as memórias sociais e coletivas forem, mais as pessoas terão consciência dessa diversidade no passado e no presente.

HISTÓRIA LOCAL 


A história local ou regional passou a ser estudada por muitos historiadores principalmente a partir da década de 1980. O es tudo de história local possibilitou a aproximação dessa área do conhecimento com a realidade das pessoas, fazendo com que elas percebessem com mais facilidade a dimensão histórica de suas experiências.
Os estudos de história local partem de um recorte espacial bem delimitado, como um bairro, uma cidade, um município ou uma região. Ao estudar um espaço determinado, o pesquisador pode conhecer as singularidades das experiências, das memórias e das práticas culturais das pessoas que ali vivem e que têm uma identidade em comum.
Geralmente, o que muda nesse tipo de estudo é que o historiador passa a focalizar mais detalhadamente a vida cotidiana e as experiências dos sujeitos históricos, enquanto na história nacional ou universal os acontecimentos, as experiências e os sujeitos são estudados de maneira ampla e distanciada.
Esse tipo de estudo significou a descentralização da história, vista no âmbito global ou nacional. As comunidades começaram a ser observadas em suas particularidades, o que permitiu que diferentes experiências fossem investigadas. Assim, as comunidades rurais, as periferias urbanas, os bairros, as cidades e as pequenas comunidades passaram a ser estudados com base nas memórias, nos relatos, nas manifestações culturais e em outros registros produzidos por seus habitantes.

PERIODIZAÇÃO DA HISTÓRIA 


Muitos historiadores costumam classificar os períodos da História em idades (Pré-História, Antiga, Média, Moderna e Contemporânea). Essa periodização, no entanto, é bastante criticada na atualidade, pois toma como referência as experiências de povos europeus e, portanto, desconsidera processos, experiências e acontecimentos importantes vivenciados por povos de outros continentes. 
Atualmente, esses conceitos de periodização são retomados, porém, ressignificados, buscando contemplar as especificidades de cada povo, em cada época e território. 

História e outras áreas do conhecimento 


Para realizar o trabalho de construção do conhecimento histórico, o historiador precisa recorrer ao saber elaborado por estudiosos da arqueologia, da antropologia, da sociologia, da geografia, da economia. 
Existe, assim, uma interdependência entre o trabalho do historiador e o de outros pesquisadores. A História, como todas as outras áreas do conhecimento, não está isolada; ela faz parte de um todo cujo objetivo é estudar o ser humano e sua vida ao longo do tempo.
No caso da análise sobre os modos de vida dos primeiros grupos de seres humanos, essa relação com as outras áreas de conhecimento é evidente e muito necessária para o andamento das pesquisas. 
Conheça algumas dessas áreas do conhecimento contribuem para o trabalho do historiador.

A PALEONTOLOGIA 


A paleontologia é a ciência que estuda os seres vivos que viveram em eras passadas. Para isso, os paleontólogos analisam os fósseis. O conceito de fóssil está em constante discussão entre esses estudiosos e, atualmente, a definição mais aceita pela comunidade científica é que os fósseis são vestígios de organismos do passado, conservados pela ação da natureza e não pela ação humana.
O trabalho dos paleontólogos é essencial para o desenvolvimento da teoria da evolução, já que possibilita identificar os ancestrais de diferentes espécies de seres vivos, inclusive os da espécie humana.

Geografia 


A Geografia estuda o espaço geográfico e suas transformações. Esses estudos podem ajudar o historiador a compreender a relação entre a ação humana e as mudanças ocorridas em um determinado espaço. 
Alguns dos instrumentos utilizados nessas análises são os mapas, como o exemplo do mapa físico da América do Sul. O conhecimento sobre o relevo dessa região pode auxiliar os historiadores a compreender alguns aspectos do povoamento e da colonização do Brasil, por exemplo.
O geógrafo estuda as transformações que ocorrem no espaço terrestre, tanto as provocadas por fenômenos naturais como as causadas pelos seres humanos. No estudo das paisagens, por exemplo, esse profissional pode avaliar a distribuição populacional da região, observar as áreas degradadas e propor projetos para sua recuperação, além de estudar a vegetação e o clima característicos.
Um dos mais importantes geógrafos brasileiros foi Milton Santos (1926-2001), estudioso de temas como urbanização e globalização.

Filosofia 


O filósofo estuda as impressões dos seres humanos sobre o mundo. A Filosofia auxilia na compreensão das ideias e dos anseios das pessoas de determinadas épocas. Assim, é possível que esse profissional busque compreender como tais pessoas entendem conceitos como vida, morte, razão e verdade e de que maneira esses conceitos estão relacionados à vida dessa sociedade.
Obras como a do filósofo grego Aristóteles, por exemplo, que viveu há cerca de 2 500 anos, podem auxiliar os historiadores a compreender as ideias e as impressões dos sujeitos que viveram naquela época e como elas influenciaram o mundo atual.

Arqueologia


A Arqueologia estuda vestígios deixados tanto por povos que viveram no passado como de povos e comunidades atuais. Entre esses vestígios, muitas vezes encontrados em escavações, estão os artefatos, que são objetos produzidos pelos seres humanos. Muito do que sabemos sobre a Antiguidade, por exemplo, se deve ao trabalho dos arqueólogos.
Esses profissionais são responsáveis pela escavação, catalogação, pesquisa e interpretação dos vestígios arqueológicos. Esses vestígios são os mais variados, como vasos, talheres, joias e armas.
O modo como eles foram usados e suas características revelam aspectos do cotidiano e dos costumes do povo que os produziu, como o colar de ouro encontrado por arqueólogos em uma tumba etrusca, em Cerveteri, na Itália. Esse artefato indica que etruscos que viveram há cerca de 2 700 anos na Península Itálica tinham o costume de usar colares como adorno.
O local onde são feitas as escavações é chamado de sítio arqueológico. Os materiais descobertos nos sítios permitem desvendar a cultura desses grupos humanos e trazem muitas contribuições para o historiador.
O trabalho de escavação não é simples e, antes mesmo de começá-lo, existem cuida dos que devem ser tomados. Uma escavação malfeita pode danificar os vestígios e prejudicar os resultados de uma pesquisa arqueológica.
Para determinar a datação e interpretar o significado dos vestígios, os arqueólogos consideram o estrato arqueológico onde esses vestígios foram encontrados. 
Os estratos são as camadas identificáveis no solo. Nos mais profundos, são encontrados os vestígios mais antigos e, nos superficiais, os mais recentes. Os estratos do solo são formados ao longo de milhares de anos, principal mente por causa da ação da natureza, como erosão, chuvas, vento e terremotos.

Antropologia


Os antropólogos estudam os seres humanos e suas organizações sociais, bem como os elementos culturais de determinada sociedade, como suas crenças, tradições e costumes. O resultado desses estudos pode auxiliar os historiadores a desenvolver uma compreensão das relações sociais, dos hábitos e de outros aspectos do modo de vida das mais diversas sociedades.
O antropólogo estuda o ser humano em seus aspectos físicos e culturais, desde a sua evolução biológica até a sua formação cultural, que inclui mitos, costumes e linguagem. Darcy Ribeiro (1922- -1997), por exemplo, foi um conhecido antropólogo brasileiro que estudou temas como povo brasileiro, identidade cultural e educação. 
Os conhecimentos produzidos por essa ciência contribuem para o desenvolvimento de muitas pesquisas históricas, já que permitem ao historiador conhecer melhor as técnicas, os costumes, a organização e os modos de vida de diversas sociedades.

Sociologia


O sociólogo estuda as sociedades humanas e as relações que se estabelecem entre os indivíduos e os diversos grupos sociais, como a família, a escola e as associações de profissionais. 
Ao estudar a sociedade que vive em determinado local, por exemplo, o sociólogo pode analisar questões tecnológicas, políticas e econômicas e como esses aspectos influenciam as relações interpessoais dos seres humanos que lá vivem. No Brasil, a socióloga Fulni-ô Pagu Rodrigues atua na defesa dos direitos indígenas.

ORIGENS E DISPERSÃO DOS SERES HUMANOS

Evidências arqueológicas indicam que o Homo sapiens originou-se na África há pelo menos 200 mil anos. Cem mil anos atrás, ele começou a se e...