Vários povos habitaram a Mesoamérica. Eles receberam nomes de acordo com os locais onde foram encontrados vestígios de sua presença: os olmecas, da região de San Lorenzo e Três Zapotes; as culturas do Altiplano (zacatenco, tlatilco, tlapacoya, cuicuilco); os povos da área maia (edzna, kaminaljuyú, chiapa de Corzo); e as populações da área oaxaca, os zapotecas.
Esses povos falavam línguas diferentes e possuíam culturas próprias, mas compartilhavam entre si conhecimentos, como técnicas de cultivo do milho, uso de calendário solar, técnicas de construção de casas, saberes matemáticos e astronômicos e um sistema de escrita. Cultuavam variadas divindades, e alguns deles praticavam um tipo de jogo de bola ou pelota de borracha, que tinha caráter cerimonial.
Na antiga Mesoamérica, esculturas e jogadores eram muito comuns entre diferentes povos. Acredita-se que o jogo era realizado com uma grande bola de borracha, e apenas os homens participavam. Essa escultura pertenceu à cultura Olmeca-Etzatlan de Jalisco e foi produzida entre os séculos III e I a.C.
Os mais remotos vestígios da ocupação humana encontrados datam de cerca de 7 mil anos atrás. Os primeiros povos que circulavam pela região eram nômades, praticavam a caça, coletavam plantas, raízes e frutos comestíveis.
Lentamente o modo de vida nômade foi dando lugar a uma vida sedentária, baseada na agricultura do milho. Espigas de um tipo de milho, com cerca de 3 mil anos, foram encontradas em escavações no vale de Tehuacán, que fica no centro do México atual. Elas indicam que a prática desse cultivo permaneceu por centenas de anos, entre 2500 a.C.-1000 a.C., o que configura um aspecto da identidade cultural dessa região.
Segundo estudiosos, o ano de 2500 a.C. é considerado um marco temporal para a região, pois deu início ao período em que ocorre a passagem para a agricultura, a difusão do uso da cerâmica e o surgimento de obras artísticas muito elaboradas. A fixação dos grupos agrícolas impulsionou o desenvolvimento de uma sociedade estratificada e marcada pela construção de cidades e pela organização de formas de governo centralizado.
Os olmecas
O desenvolvimento do cultivo de milho, entre 1200 e 400 a.C., foi fundamental para os povos da Mesoamérica, pois permitiu a eles que se tornassem sedentários. Um desses povos vivia em uma região conhecida como “lugar da borracha”, que, na língua dos antigos astecas, era chamada de Olman. Por isso, esse povo passou a ser chamado de olmeca.
Os olmecas habitavam os vales dos rios e passaram a se dedicar à agricultura, aprimorando técnicas de plantio, construindo plataformas de terra e canais de irrigação. Com o tempo, a ampliação na capacidade de produzir alimentos provocou o crescimento populacional.
Para promover o encontro entre suas aldeias, eles construíram locais marcados pela presença de grandes monumentos de pedra e amplos espaços, onde praticavam rituais religiosos. Seus principais centros populacionais, como San Lorenzo Tenochtitlán, La Venta e Tres Zapotes, hoje localizados no México, revelaram uma população numerosa e uma organização social complexa, governada por uma elite ligada ao controle dos ritos religiosos.
Após um longo período de existência, por volta de 900 a.C., Tenochtitlán entrou em declínio, provavelmente em razão de mudanças climáticas.
Com isso, La Venta passou a ser o principal centro da cultura olmeca até 400 a.C. Já o sítio arqueológico de Tres Zapotes, ocupado depois de desse ano, representa o momento do desaparecimento da cultura olmeca, lentamente incorporada e substituída por outras.
Fotografia de escultura olmeca em Tabasco, México, datada dos séculos de XII a V a.C. A cultura olmeca é conhecida por suas enormes cabeças esculpidas em pedras vulcânicas trazidas de montanhas localizadas a mais de 100 km. Essas cabeças representavam importantes personagens, como líderes e heróis da história olmeca, e cumpriam papel simbólico e religioso, recordando aos olmecas a presença grandiosa e séria desses personagens.
A cultura olmeca
Os olmecas desenvolveram uma espécie de “cultura-mãe” de quase todas as outras culturas que a sucederam na região da Mesoamérica, como os maias. Eles criaram uma arte que incluía estátuas monumentais de pedra, cuja matriz foi encontrada em outras criações, de vários tamanhos e materiais, como a cerâmica e o jade. As peças retratam pessoas, animais e deuses com uma grande riqueza de detalhes.
A arte olmeca indica que esse povo reverenciava divindades ligadas aos fenômenos da natureza (como o sol e a chuva) e animais considerados sagrados, como a serpente e o jaguar. Ela revela ainda uma relação muito forte entre a agricultura do milho, os deuses e os rituais, que tinham como objetivo garantir ajuda divina para a abundância das colheitas.
Ainda existem muitas dúvidas sobre a cultura olmeca. Registros feitos em uma estela revelam, por exemplo, que os olmecas podem ter sido o primeiro povo da região a construir um calendário, fator que certamente ajudou a desenvolver essa sociedade agrícola. Outro aspecto marcante é a escrita deixada por eles, ainda não decifrada.
Escultura de pedra, produzida entre 1000 e 400 a.C. Esta imagem representa uma impressionante escultura olmeca, que revela a relação entre a mitologia desse povo e as relações entre pais e filhos. A figura masculina tem nos braços um bebê com traços característicos das figuras divinas, como uma fenda sobre a cabeça e o formato dos olhos. O bebê representa o broto do milho e, por isso, o centro
do mundo, pois o milho era o alimento fundamental dos olmecas, a base de sua sobrevivência.
Máscara olmeca, pedra verde, produzida entre 900 e 400 a.C. Os olmecas criaram belas esculturas de pedra verde. Nesta máscara, os detalhes do nariz e dos lábios entreabertos dão leveza e vida à figura, como se não fosse esculpida na pedra. A marca horizontal na testa, bem acima dos olhos, sugere que se trata de uma representação de uma divindade olmeca relacionada com o milho.
Os maias
Nas florestas tropicais do território da península de Iucatã, no sul do México, até áreas que correspondem atualmente à Guatemala, Honduras, Belize e El Salvador, surgiu uma das mais fantásticas culturas da Mesoamérica: a maia.
As origens, a trajetória e o desaparecimento dos maias estão, ainda hoje, envoltos em mistério. O que sabemos é que os primeiros vestígios de ocupação da área maia datam aproximadamente de 2000 a.C., quando pequenos grupos se fixaram na península de Iucatã, originando aldeias agrícolas que foram se desenvolvendo ao redor de grandes centros cerimoniais.
Nesses lugares especiais, os maias celebravam suas festas religiosas e realizavam trocas de vários tipos de produtos. Escavações feitas nessa região encontraram vestígios de cerâmica dessa época e de períodos posteriores, como as estatuetas de terracota em forma humana, da ilha de Jaina, datadas de 1000 a.C.-300 a.C.
É nessa época que começaram a se formar os primeiros núcleos urbanos da região. Aos poucos eles se tornaram centros administrativos que controlavam as aldeias ao redor e estabeleciam contato com cidades mais distantes.
Acredita-se que a estrutura arquitetônica e urbana dessas cidades tenha sido influenciada pela cultura olmeca. Vários traços da arte olmeca são encontrados em objetos da cultura dos maias, o que revela que eles tiveram contato e realizaram trocas. Foi nessas cidades que os maias ergueram suas primeiras pirâmides, por volta de 300 a.C. Essas grandes edificações monumentais eram lugares sagrados onde se praticavam ritos religiosos.
O Templo das Inscrições, a maior estrutura de pirâmide escalonada mesoamericana, no sítio da civilização maia pré-colombiana de Palenque. Fotografia de 2018.
Os zapotecas
Os zapotecas viveram na região de Oaxaca, localizada no litoral do Pacífico e formada pelas montanhas e vales da Sierra Madre del Sur, no México. Evidências arqueológicas indicam que eles chegaram, por volta de 2500 a.C., aos três vales e às áreas elevadas que formam essa região. Aproveitando-se dos rios, cultivaram o milho e desenvolveram ao menos três sociedades diferentes, que aparentemente competiam entre si.
Por volta de 500 a.C., os zapotecas começaram a construir, em uma área denominada Monte Albán, um importante centro urbano com vários espaços monumentais e edifícios dedicados à religiosidade, à habitação e a funções administrativas. Esse espaço parece ter contribuído para unificar a defesa das aldeias ao redor contra inimigos. Ele também representou o surgimento de uma organização política dos zapotecas, que expandiu seu domínio sobre a região de forma crescente até chegar ao auge, entre 100 a.C. e 200 d.C.
Do Monte Albán, os zapotecas exerceram controle sobre todo o Vale de Oaxaca e estenderam suas conquistas e influência para outras regiões com contatos comerciais e culturais. Esse crescente domínio transcorreu ao longo de centenas de anos até que, por volta de 500 d.C., Monte Albán entrou em declínio. Posteriormente, um povo chamado mixteca tomou a cidade.
Os zapotecas eram politeístas, cultuavam deuses relacionados a aspectos de seu cotidiano e a suas crenças e valores, como: o deus da chuva e dos trovões, Pitao Cocijo; o deus do milho, Pitao Cozibi; e o deus dos mortos, Coqui Bezelao. Os sacerdotes eram responsáveis por organizar os ritos religiosos sagrados que pudessem favorecer as plantações e as colheitas, realizando, inclusive, sacrifícios humanos como forma de venerar seus deuses.
As culturas andinas
Acredita-se que as primeiras culturas dos Andes (ou andinas) surgiram por volta de 9000 a.C. e se desenvolveram nas áreas próximas ao litoral e na cordilheira dos Andes. Um desses povos foi a cultura caral, que se desenvolveu na região do atual Peru, a partir de pequenos assentamentos dedicados à agricultura, à pesca e às trocas comerciais.
Segundo arqueólogos, em cerca de 2700 a.C., uma grande cidade foi construída nessa região, abrigando construções monumentais, como pirâmides e edificações resistentes aos terremotos da região. A inexistência de muros ao seu redor e de vestígios de armas indica relações amistosas com culturas vizinhas. Seu abandono ocorreu por volta de 1800 a.C., provavelmente provocado por mudanças climáticas extremas.
Outra cultura importante desenvolveu-se entre 1500 a.C. e 300 a.C., nos vales dos Andes peruanos: a cultura chavín. Seus integrantes dominavam sofisticadas técnicas agrícolas, como a construção de canais de irrigação e reservatórios de água, que contribuíram para o aumento da produtividade.
A base da alimentação dos chavín era o milho, mas incluía também batatas, quinoa, abóboras e feijão. O povo andino também praticava a pecuária, a manufatura têxtil e a ourivesaria; tinha conhecimentos de arquitetura, escultura, pintura e outras artes.
Foi uma cultura marcada pela religião e pela construção de lugares sagrados, como o Templo Chavín de Huántar, considerado, atualmente, um Patrimônio Mundial da Humanidade. Governado por um rei-sacerdote, esse povo era politeísta e adorava, entre outros deuses, o deus Jaguar ou Puma.
Além dessas, desenvolveram-se a cultura tiauanaco (ou tiwanaku), em torno do lago Titicaca, na Bolívia atual, e a cultura paracas, na costa sul do Peru, ancestrais da cultura nazca.
Fotografia da Cidade Sagrada de Caral, no Peru, 2008. A cultura caral se desenvolveu na mesma época que a dos egípcios antigos (continente africano) e surgiu mil anos depois dos sumérios (Mesopotâmia).
Características comuns das culturas andinas
As culturas andinas, embora muito diversas entre si, compartilhavam características semelhantes, pois tinham uma origem comum e realizavam constantemente trocas culturais e comerciais, até mesmo com povos mesoamericanos.
Como não sabemos como elas mesmas se chamavam, essas culturas receberam o nome do lugar onde foram encontrados seus principais vestígios arqueológicos. Trata-se de um conjunto vasto e diversificado de objetos como ferramentas, vasos, estruturas arquitetônicas e centros mortuários com elaborados sarcófagos e estátuas.
Sabe-se que os povos andinos se desenvolveram ao longo de cerca de 4 mil anos, embora nem todas tenham coexistido, isto é, ocorrido ao mesmo tempo. Os estudiosos afirmam que o momento histórico de maior diversificação aconteceu entre os anos de 200 a.C. e 600 d.C.
Eram povos que se dedicavam à agricultura, tendo domesticado uma grande variedade de plantas, como milho, batata, quinoa, mandioca, amendoim, folha de coca, cacau, batata-doce, feijão, pimentão, algodão e abóboras. Essa diversidade possibilitou a criação de uma culinária variada, bem como a produção de bebidas, de tecidos e de medicamentos. Também domesticaram animais, como a lhama, a alpaca, a vicunha e o guanaco, utilizados para transporte, obtenção de lã e alimentos.
Para aumentar a produção agrícola, eles desenvolveram sofisticadas técnicas de plantio, construíram plataformas e aterros em regiões montanhosas, inventaram ferramentas, como o arado andino (chamado taclla), e criaram grandes complexos de irrigação.
Os povos andinos fabricavam inúmeros objetos de cerâmica, revelando domínio sofisticado de técnicas e materiais, praticavam a metalurgia, produziam objetos para fins ornamentais e realizavam trabalhos de tecelagem. Também compartilhavam um imaginário comum cultuando divindades na forma de águias, peixes, felinos e condores. As atividades espirituais influenciaram profundamente a organização social e a tomada de decisões pelas autoridades.