quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Países desenvolvidos e países em desenvolvimento


Atualmente há uma grande disparidade socioeconômica entre os países do mundo. De modo geral, podemos classificar essas nações entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento. Para tanto, utilizam-se como critérios o nível de desenvolvimento econômico e social, medido por indicadores como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), a renda per capita, a taxa de mortalidade. Vamos compreender melhor essas características.

Países desenvolvidos

Países ricos que alcançaram um alto nível de desenvolvimento econômico e que oferecem boa qualidade de vida à maior parte de sua população. A economia desses países, de modo geral, é diversificada e industrializada. Apesar de existirem contrastes entre eles, os países desenvolvidos têm em comum o fato de apresentarem bons indicadores sociais, como baixo índice de analfabetismo e de mortalidade infantil e elevadas renda per capita e expectativa de vida.
A maior parte dos países desenvolvidos corres ponde às nações mais ricas e industrializadas do mundo, ou seja, são países que possuem renda elevada e, na maioria das vezes, contam com um complexo parque industrial. 
Embora nos países desenvolvidos vivam apenas cerca de 17% da população mundial, são esses países que detêm mais da metade de toda a riqueza gerada no mundo. Alguns desses países também se destacam frente às principais discussões geopolíticas mundiais.
O acúmulo de riquezas nos países desenvolvidos ocorre porque, de maneira geral, esses países domi nam o sistema produtivo global, concentrando as sedes das principais empresas transnacionais, controlando os fluxos internacionais de mercadorias e detendo os principais polos de poder financeiro, centros de pesquisa e universidades do mun do. Alguns deles também atuam nos principais polos de poder, envolvendo-se em discussões políticas, militares, econômicas e ambientais mundiais. 
A elevada renda per capita dos países desenvolvidos os caracteriza como socie dades de consumo, em que a população conta com um alto poder aquisitivo e amplo acesso a um diversificado mercado de bens e serviços. Além disso, esses países investem uma parcela significativa de seu PIB em serviços públicos de saneamento, transporte, educação e saúde, que beneficiam, de maneira geral, a qualidade de vida da população.
Essa realidade contribui para prolongar os anos de vida da população nos paí ses desenvolvidos, pois as pessoas vivem mais devido à qualidade dos serviços médico-hospitalares e aos eficientes planos de assistência a idosos, com elevadas aposentadorias e projetos sociais integradores, diferentemente do que ocorre com a população dos países em desenvolvimento. 
A expectativa de vida da população de países como o Reino Unido, por exem plo, pode ultrapassar 81 anos, enquanto em alguns países em desenvolvimento, como a Somália, não ultrapassa os 57 anos. Em geral, essa longevidade resulta no progressivo envelhecimento da população, ou seja, no aumento de idosos na composição da população. 
Além de disponibilizar assistência médica e hospitalar, os países desenvolvidos oferecem melhor infraestrutura urbana destinada à mobilidade de pessoas com dificuldade de locomoção do que os países em desenvolvimento.

O desemprego e a pobreza no mundo desenvolvido 

A partir da década de 1990, em razão do fortalecimento da política neoliberal na maioria dos países desenvolvidos, houve uma gradativa diminuição da intervenção do Estado nas áreas sociais e econômicas. 
Esse fato contribuiu para o aumento do desemprego e da pobreza em várias dessas nações. Consequentemente, em países como Estados Unidos, Japão, Alemanha e Inglaterra, também existem pessoas em situação vulnerável e afetadas pela pobreza. 
Em geral, esses indivíduos residem em bairros nas periferias urbanas ou não têm acesso à moradia, vivendo nas ruas ou em abrigos das cidades. Apesar disso, os índices de pobreza e desemprego nos países desenvolvidos são considerados baixos, quando comparados aos países em desenvolvimento.

A economia dos países desenvolvidos 

A supremacia econômica das nações desenvolvidas está atrelada à presença de parques industriais modernos que, no decorrer do tempo, passaram a incorporar gradativamente técnicas de produção cada vez mais sofisticadas. 
Um fator que contribuiu para o crescimento e para a diversificação do parque industrial do mundo desenvolvido foram os grandes investimentos feitos em edu cação, pesquisa científica e desenvolvimento de tecno logias de ponta, como a robótica, a biotecnologia e a microeletrônica. Esses investimentos posicionam esses países na vanguarda dos processos industriais.
Em razão do elevado nível industrial e tecnológico, os países desenvolvidos exercem uma forma de domínio sobre os países em desenvolvimento que, por não possuírem uma expressiva produção industrial de elevada tecnologia, se veem obrigados a importar produtos industrializados das nações desenvolvidas, como equipamentos eletrônicos, medicamentos (remédios e vacinas) e bens de produção, como ferramentas e máquinas, fertilizantes e outros insumos agrícolas.
O expressivo crescimento das atividades industriais e a variedade de tipos de indústrias nos países desenvolvidos têm propiciado a formação dos mais sofisticados e complexos parques industriais do mundo, que abrigam extensas áreas especializadas em pesquisa de tecnologias de ponta. Nesse perfil, destacam-se as indústrias do ramo das tecnologias da informação, da computação, do campo aeroespacial, entre muitos outros exemplos.
Devemos sempre estar atentos ao fato de que o conjunto de países desenvolvidos não é composto por países que possuem o mesmo nível de desenvolvimento econô mico. Embora características, como o elevado padrão de vida, sejam comuns ao grupo de países, o nível de desenvolvimento industrial é muito diferente entre eles. Portugal e Espanha, por exemplo, mesmo pertencendo ao grupo de países de senvolvidos, apresentam atividade industrial menos desenvolvida se comparada aos níveis de desenvolvimento tecnológico do setor secundário de países, como Japão, Alemanha e Estados Unidos. 

Países em desenvolvimento

Países que, de modo geral, contam com baixo nível de desenvolvimento econômico, elevada desigualdade social e indicadores sociais bem inferiores aos países desenvolvidos, pois grande parte de suas populações não usufrui de uma boa qualidade de vida. Em geral, têm economia baseada na exportação de produtos primários (agrícolas e minerais) e elevada dependência econômica internacional. Com algumas exceções, apresentam baixo índice de industrialização. Muitos desses países têm limitada participação na concentração das riquezas mundiais.
Os principais critérios para classificar países desenvolvidos e países em desenvolvimento são os indicadores sociais e o desenvolvimento socioeconômico, que não podem ser aferidos apenas por dados como o PIB, uma vez que cada um desses grupos abrange nações com valores de PIB muito discrepantes entre si.
Podemos citar como exemplos Portugal e Grécia, que, embora façam parte do grupo de países desenvolvidos, não se encontram em situação econômica como a dos Estados Unidos. Da mesma maneira, entre os países em desenvolvimento existem economias emergentes, como a China e o Brasil, que apresentam PIB muito superior ao de países como Moçambique.
O grupo dos países em desenvolvimento corresponde à maior parte dos países e da população do mundo, no entanto possui a menor parte das riquezas mundiais. Essa condição contribui para que esses países se encontrem à margem das principais decisões políticas e econômicas internacionais. 
Historicamente, os países em desenvolvimento foram submetidos a uma condição de subordinação tecnológica, política, financeira e até mesmo militar em relação a alguns países desenvolvidos. As más gestões do governo, a corrupção, assim como a falta de investimentos em setores de tecnologia, educação, infraestrutura e saúde também são entraves ao desenvolvimento desses países.
Apesar de alguns países em desenvolvimento, como o Brasil, possuírem sistemas de saúde públicos para atender às necessidades de suas populações, em geral, eles se encontram sobrecarregados devido à falta de investimentos.
A economia do mundo em desenvolvimento, de modo geral, apresenta menor nível de industrialização e está voltada principalmente à produção industrial de bens de consumo não duráveis para seus mercados internos ou de gêneros agropecuários e minerais para exportação, que, no mercado internacional, não têm valor tão alto como os produtos industrializados.
Os baixos investimentos no desenvolvimento industrial refletem-se diretamen te na dependência tecnológica que os países em desenvolvimento têm em rela ção aos produtos industrializados, produzidos nos países desenvolvidos, princi palmente de alta tecnologia. 
Por causa das constantes necessidades de empréstimos de capital internacional, os países em desenvolvimento acumularam, ao longo do tempo, uma volumosa dívida com os países desenvolvidos e as instituições financeiras internacionais, co mo o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI). Esse saldo devedor é expresso na dívida externa, contraída por grande parte dos países em desenvol vimento. 
A falta de recursos financeiros resulta em menores investimen tos em áreas sociais importantes, tornando a qualidade de vida nesses países muito inferior à ve rificada nos países desenvolvidos.
Grande parte da população desses países não possui renda suficiente para aces sar serviços de saúde particulares e, muitas vezes, sequer tem condições de su prir suas necessidades básicas de alimentação e nutrição, ou seja, garantir a ingestão diária mínima de calorias e de nutrientes essenciais para uma vida saudável. 
A baixa qualidade de vida da popula ção a torna mais suscetível a doenças relacionadas à precariedade de serviços, especialmente no que se refere ao trata mento de água e de esgoto. Consequen temente, é também nos países em desenvolvimento que se verificam as maiores taxas de doenças endêmicas, como a cólera, a esquistossomose, a he patite viral e a leptospirose.
Outro fator agravante do quadro social nos países em desenvolvimento é a elevada concentração de renda. Nesses países, uma parcela reduzida da população detém a maior parte da riqueza gerada, enquanto a grande maioria das pessoas divide a menor parte dessa riqueza. A má distribuição de renda eleva os índices de pobreza, criminalidade, falta de moradia, entre outros problemas sociais.
Embora esses países compartilhem muitas características em comum, sendo parte do grande conjunto de países em desenvolvimento, como elevada concen tração de renda, deficiência de investimentos em áreas sociais e índices elevados de pobreza, alguns deles apresentam realidades bem distintas entre si. O Brasil, a Índia e o México, por exemplo, são países com maior desenvolvimento socioeco nômico quando comparados a Bangladesh e Serra Leoa.

Dívida externa 

A dívida externa, além de causar a dependência econômico-financeira em relação aos países desenvolvidos, constitui uma barreira ao desenvolvimento socioeconômico dos países em desenvolvimento. 
Isso ocorre porque uma parcela considerável do PIB desses países precisa ser destinada ao pagamento dos juros e das parcelas da dívida, fazendo-os abrir mão de recursos que poderiam ser investidos em programas de melhoria da qualidade de vida da população, como nos serviços públicos de educação, saúde e transporte.

Países emergentes 

Nas últimas décadas, o mundo tem presenciado a ascensão econômica e política de um grupo de países que, historicamente, apresentam características bem diferentes das nações que, até então, exerceram a supremacia econômica no cenário mundial. 
Denominados países emergentes, são países em desenvolvimento que apre sentam alguns traços marcantes desse grupo, como graves problemas sociais e alta concentração de renda. No entanto, são países com maior nível de industria lização em relação aos demais países em desenvolvimento e, no século XXI, apre sentaram um rápido e significativo crescimento econômico.
Entre os países emergentes, destaca-se o grupo denominado Brics, que corres ponde às letras iniciais de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (South Africa).
Esses países, de modo geral, destacam-se por suas grandes populações, expressiva participação no PIB global, extensos territórios e amplas fontes de matérias-primas e recursos energéticos. A China, em especial, destaca-se por seu maior nível de industrialização, exportando uma grande diversidade de produtos industrializados.
Na década de 2000, a ascensão dos países do BRICS no cenário internacional levou à aproximação política e econômica entre eles, com os governos dessas na ções estabelecendo um grupo que realiza encontros perió dicos para discutir temas relevantes para os membros. Apesar de não ser caracterizado como um bloco econômico, o BRICS serve como ferramenta de cooperação entre os países emergentes. Em 2014, por exemplo, foi criado o Banco de Desenvolvimento do BRICS, destinado, principalmente, à realização de investimentos para financia mento de infraestrutura em países emergentes. 
Os acordos de cooperação entre esses países envolvem produção de satélites de sensoriamento remoto, regulação de produtos médicos de uso humano, pesquisas agrícolas e energéticas, entre outros setores. 
Dessa forma, os países do BRICS se destacam como um polo de poder no mundo e entre os países do G20 (grupo formado pelas 19 maiores economias mundiais mais a União Europeia), contrapondo-se ao domínio dos países desenvolvidos. 

Medindo o desenvolvimento socioeconômico de um país 

O desenvolvimento de um país não envolve apenas aspectos econômicos e tecnológicos, ele também precisa estar acompanhado de melhorias na qualidade de vida da população. 
De maneira geral, quando um país apresenta desenvolvimento econômico, passa a registrar um aumento de seu PIB, expansão e fortalecimento das atividades indus triais, investimentos científicos e tecnológicos, diminuição da importação de produtos industrializados. 
Para que seja um país desenvolvido, essas melhorias devem se refletir em seus indicadores sociais, como renda per capita e expectativa de vida elevadas, baixas taxas de mortalidade e analfabetismo. Esses indicadores são compo nentes do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de uma população.
Renda per capita Renda per capita significa renda por pessoa e consiste em um valor médio que pode, em algumas situações, mascarar as diferenças na distribuição de ren da da população. O Brasil, por exemplo, possui renda per capita de 6 797 dóla res anuais, o que confere uma renda mensal de 34 957 reais. No entanto, 27% da população economicamente ativa do país, que corresponde a aproximada mente 37 milhões de pessoas, vive com apenas um salário mínimo por mês.

Mortalidade infantil 

A taxa de mortalidade infantil indica, em um grupo de mil crianças nascidas vivas, quantas delas não sobrevivem antes de completar um ano de idade.

Expectativa de vida 

A expectativa de vida mede o número estimado de anos que os indivíduos de uma população possivelmente viverão a partir do seu nascimento. Os resultados obtidos por meio desse indicador são influenciados pela qualidade de vida da po pulação, como boas condições de renda, nutrição e segurança, facilidade no acesso a serviços de saúde e saneamento.
Os países que apresentam uma elevada expectativa de vida geralmente destinam uma parte considerável de seu PIB para investimentos em saúde, lazer, saneamento e planos de assistência aos idosos, contribuindo, assim, para que seus habitantes tenham uma boa qualidade de vida.
Taxa de alfabetização A taxa de alfabetização revela o percentual da população alfabetizada em um país, considerando indivíduos com idade igual ou superior a 15 anos. Esse indicador está relacionado, principalmente, a programas públicos de educação.

IDH: um índice que combina vários indicadores 

O IDH é um indicador desenvolvido pelo Pnud, programa da ONU responsável por sua elaboração e publicação. Seu objetivo é medir o nível de desenvolvimento econômico e social de um país com base na síntese de seus principais indicadores sociais. O mapa a seguir representa os valores de IDH no mundo.
Para obter o valor do IDH de um país, são considerados três indicadores sociais diferentes e que traduzem, de modo geral, a qualidade de vida da população. 
  • Expectativa de vida - Indica o número médio de anos vividos pela população de um país, o que revela a qualidade de vida e as condições de saúde dessa população.
  • Renda per capita - Indica o nível de renda obtido pela população de um país e seu poder aquisitivo.
  • Educação - Mede a escolaridade da população por meio de indicadores de educação.
O valor do IDH

O valor do IDH de um país oscila entre o valor mínimo (zero) e o máximo (1). Quanto mais próximo do valor máximo, maior é o nível de desenvolvimento humano de um país, estado ou município. Quanto mais baixo o valor do IDH, menor é a renda de sua população e mais problemas são enfrentados nas áreas de saúde, educação e saneamento. 
A classificação do Pnud dispõe os países em quatro categorias de desenvolvimento humano: muito elevado, elevado, médio e baixo. Os países com IDH muito elevado são, em geral, países desenvolvidos que conseguem oferecer à população melhor distribuição de renda e serviços de educação e saúde. 
Já os países com IDH elevado, médio ou baixo são marcados por vários contrastes entre si, por exemplo, diferenças no nível de industrialização e de dependência econômica externa, o que reflete no PIB e na qualidade de vida da população. Logo, esses são os países considerados em desenvolvimento. 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Geopolítica: do mundo bipolar ao multipolar

Após a Segunda Guerra Mundial, a economia e a geopolítica mundial estiveram sob comando de duas superpotências: os Estados Unidos e a União Soviética.
O poder de influência política e econômica desses países, além do potencial de destruição militar em massa, consolidou uma ordem mundial caracterizada pela existência de dois grandes polos de poder. Por esse motivo, podemos chamá-la de ordem bipolar.
A busca pela hegemonia global conduziu os países do mundo a se aliarem a um dos blocos liderados por uma dessas potências. O grupo de países que se encontrava sob a influência dos Estados Unidos foi denominado bloco capitalista, e o grupo cons tituído por Estados sob influência da União Soviética foi denominado bloco socialista. Observe o mapa a seguir, que representa a ordem geopolítica mundial predo minante no período entre o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, e a desin tegração da União Soviética, em 1991, evidenciando a divisão desses blocos.
 
A Guerra Fria 

Poucas vezes na história da humanidade um confronto de ideologias tão signi ficativo ocorreu entre duas potências dotadas de grande capacidade militar. No entanto, embora Estados Unidos e União Soviética tenham competido em diver sas áreas entre 1945 e 1991, uma declaração de guerra nunca ocorreu entre as partes, levando esse período a ser conhecido com Guerra Fria.
A rivalidade declarada entre as duas potências bélicas, contudo, criou um clima de tensão permanente entre os dois países, proporcionando uma corrida arma mentista e tecnológica em busca da supremacia. Os rivais fabricavam e exibiam armas de destruição em massa cada vez mais potentes, além de formarem alianças militares com outros países para garantir proteção mútua entre os membros de seu bloco. Por causa disso, na época, o temor de um confronto nuclear que destruísse a humanidade era real.
Diversos conflitos mundiais que ocorreram durante esse período envolveram a participação direta ou indireta dessas superpotências que, ao buscarem ampliar suas áreas de influência, embatiam em disputas localizadas.
Podemos destacar os conflitos militares na Coreia (1950-1953) e no Vietnã (1959-1975), além de diversas guerras civis na África, Ásia e América do Sul. Mes mo quando não participavam dessas operações diretamente, as superpotências da Guerra Fria atuavam fornecendo armamentos, treinando exércitos e apoiando governos a fim de agregar países aliados às suas redes de influência.
Durante a Guerra Fria, a divisão entre duas grandes áreas de influência geopo lítica significava que as relações entre esses blocos, incluindo o fluxo de pessoas, mercadorias e capital, eram bastante limitadas e controladas. Em nenhum outro continente esse efeito foi mais sentido do que na Europa. 
Com a consolidação da ordem bipolar, no contexto pós-Segunda Guerra Mundial, o continente europeu foi dividido politicamente e separado em duas grandes áreas de influência bem estabelecidas: a Europa Ocidental, capitalista, e a Europa Oriental, socialista. O limite entre elas ficou simbolicamente conhecido como a Cortina de Ferro.
No contexto da Guerra Fria, também foram estabelecidos acordos de proteção mútua entre os países dos blocos capitalista e socialista. Assim surgiram a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), entre os países capitalistas, e o Pacto de Varsóvia, entre os países socialistas.

Multipolaridade: a nova ordem internacional

Após a dissolução do antigo bloco socialista em 1991, que marcou o fim da or dem bipolar, houve o enfraquecimento do socialismo e a expansão do capitalismo entre os países do mundo. Essa mudança geopolítica mundial estabeleceu uma nova ordem internacional de poderes e influências. 
No cenário que se formou, destacou-se a superioridade estadunidense no campo militar. No entanto, além dos Estados Unidos, verificou-se a formação de outras zonas de influência econômica: a dos países da União Europeia (UE) e a do Japão.
No século XXI, contudo, a ascensão da China ao posto de segunda maior eco nomia global e a reafirmação da Rússia como uma potência militar tornaram esse cenário ainda mais complexo. A coexistência de zonas de influência e de blocos econômicos regionais, além do poder de atuação e intervenção de grandes em presas transnacionais no contexto da globalização têm levado à configuração de uma nova ordem multipolar. 
Essa ordem é regida pela multipolaridade, com potên cias como os Estados Unidos, o Reino Unido, a China, o Japão e os países da União Europeia que concentram o maior poder econômico e a maioria das sedes das grandes transnacionais. 
A China é atualmente o país que mais se destaca nessa nova ordem mundial. Além de já ser considerada uma das maiores potências do mundo contemporâneo, o país deverá ampliar seu crescimento econômico e sua participação no comércio internacional nas próximas décadas, possivelmente alterando as relações globais de poder. 
Além de elevar sua importância entre os países asiáticos, a China vem aumen tado sua zona de influência, principalmente na África e na América Latina. Isso se deve a uma série de investimentos que esse país tem feito nesses continentes, sobretudo nos setores de infraestrutura e de exploração mineral e agrícola. 
Em 2022, a Rússia também demonstrou seu protagonismo e sua força militar ao promover a invasão da Ucrânia, desafiando os países da Otan e sendo atingida por inúmeras sanções econômicas. Esse país busca reconquistar a influência que a ex-URSS tinha, agora sobre a área da CEI e da Ásia Central, inclusive aliando-se politicamente à China. 
O embate de forças levou ao uso do termo desordem mundial para caracterizar o período atual. Alguns analistas apontam, nesse contexto, para o possível início de uma nova Guerra Fria, dessa vez opondo o bloco ocidental, formado pe los Estados Unidos e seus principais aliados, sobretudo da Europa Ocidental, e o bloco oriental, dirigido por Rússia e China. 


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Território e soberania

Para a Geografia, território representa uma área sobre a qual se exerce domínio, propriedade ou influência. Os países são territórios que correspondem a uma área continental ou insular da superfície terrestre, sobre a qual um Estado tem autoridade máxima, exercendo controle em seu território nacional. 
De um Estado fazem parte o governo e outras instituições políticas e adminis trativas responsáveis por organizar o país e estabelecer relações com outros paí ses. Existem diferentes sistemas de governos e o papel de principal representante público cabe ao chefe de Estado (presidente, primeiro-ministro etc.).

Limites e fronteiras

Cada país tem seu território definido por limites. Os limites entre os países são, em geral, estabelecidos por meio de tratados e acordos diplomáticos interna cionais, muitos deles coincidindo com marcos naturais, como rios, lagos, cadeias montanhosas, ou artificiais, como placas e pontes. A América do Sul, por exemplo, é formada por 12 Estados soberanos, entre eles o Brasil. A região também abrange a Guiana Francesa, que é uma possessão ultramarina da França.
Quando dois ou mais países possuem limites terrestres, entre eles forma-se uma zona ou faixa de fronteira, terrenos que se estendem ao longo dos limites nacionais. 
Considerada uma área estratégica para um país dos pontos de vista econômico, político e de segurança nacional, a faixa de fronteira apresenta intensos fluxos de pessoas e mercadorias.
Atualmente, muitas áreas de fronteiras nacionais são focos de tensões e disputas envolvendo países que reivindicam um mesmo território. Em algumas situações, as tensões resultam em conflitos ou levam a uma corrida entre governos, objetivando o desenvolvimento de armamentos bélicos avançados.

Culturas e nações pelo mundo 

Quando falamos em cultura, imediatamente pensamos em livros, obras de arte, músicas, teatro e cinema. Cultura é isso e muito mais, pois envolve tudo o que é criado e praticado pelas pessoas, como a língua falada, os objetos fabricados, o tipo da escrita, o modo de preparo dos alimentos, as crenças, as tradições e os hábitos. 
Desse modo, a cultura é um dos principais aspectos que dão identidade aos povos. Os grupos humanos que têm em comum a ancestralidade, o passado histórico e uma identidade cultural desenvolvida ao longo do tempo formam uma nação. 

Territórios e minorias nacionais 

Muitos países têm populações compostas de diferentes povos ou grupos étni cos. Em alguns casos, esses grupos se identificam como nações, mas os territó rios habitados por eles estão sob o governo de outras nações, caracterizando o que chamamos de minorias nacionais ou minorias étnicas. Quando essas minorias reivindicam a soberania sobre o território onde habi tam, formam movimentos separatistas. 
Em geral, esses movimentos recorrem a manifestações pacíficas para pleitear a independência e a criação de seu Estado soberano. Em certas situações, a soberania é conquistada por meio de plebiscitos e referendos, acompanhados de tratados e acordos internacionais. 
Em outras, os movimentos separatistas são combatidos e reprimidos pelos governos dos países onde habitam. Há, inclusive, casos em que ocorrem conflitos violentos.

Minorias nacionais, conflitos e fronteiras em transformação 

Atualmente, enquanto alguns governos estabelecem tratados que unificam seus mercados econômicos, outros vivenciam o processo de fragmentação de seus territórios e a definição de novas fronteiras.
Em algumas situações, o nacionalismo está associado a interesses econômicos e políticos de países que almejam expandir seus domínios territoriais. Entre os principais interesses econômicos estão as áreas ricas em recursos minerais, as significativas jazidas de petróleo e gás e a localização estratégica, em razão do acesso marítimo, que facilita o trânsito comercial de um país.

País Basco 

O País Basco não é um país independente, mas sim uma região do norte da Espanha habitada pelo povo basco, com identidade cultural própria. O dialeto falado na região, o euskara, foi proibido por muito tempo de ser usado, em re pressão ao desejo basco por independência. 
Entre 1980 e 1990, o grupo separa tista ETA (Pátria Basca e Liberdade) praticou atentados que vitimaram centenas de pessoas na Espanha. Re centemente, tornou-se uma organiza ção política.

Chechênia 

Após o fim da União Soviética, em 1991, a República da Chechênia passou a integrar a Federação Russa. Em 1994, porém, a Chechênia se declarou independente, levando a conflitos com a Rússia, que se estenderam até o ano 2000. A partir de então, os russos reestabeleceram controle sobre esse território. 
Grupos separatistas seguiram lutando pela independência da Chechênia. Alguns deles já realizaram ataques terroristas contra alvos civis e militares na Rússia.

Irlanda do Norte 

A Irlanda do Norte, localizada na Ilha da Irlanda, integra o Reino Unido. A maioria da população segue a religião protestante e apoia essa integração. A minoria católica, porém, reivindica que a Irlanda do Norte se desvincule do Rei no Unido e se integre à Irlanda.
Durante cerca de 30 anos, o Exército Republicano Irlandês (IRA), formado por separatistas católicos, lutou de maneira violenta para alcançar seu objetivo. Em 2005, no entanto, o grupo anunciou o fim da luta armada e seus integrantes, conhecidos como nacionalistas, formaram uma organização política.

Curdistão 

Atualmente, existem cerca de 30 milhões de curdos espalhados por Turquia, Irã, Síria, Armênia, Iraque e Azerbaijão. O povo curdo deseja a formação de um Estado próprio, o Curdistão. Contudo, os governos dos países que ocupam a região se opõem com veemência ao separatismo curdo. 
Na Turquia, onde vive a maior parte dos curdos, o grupo sepa ratista Partido dos Trabalhado res do Curdistão (PKK) já foi res ponsável por uma série de aten tados vinculados a manifestações separatistas.

Conflitos na Caxemira 

Um dos conflitos desenvolvidos em regiões fronteiriças e que vêm causando sérias preocupações entre as nações é a disputa pela Caxemira, região localizada em meio à cordilheira do Himalaia. Essa região vem sendo disputada por Paquistão, Índia e China. 
A disputa não envolve apenas questões territoriais, mas também questões religiosas e hídricas. Isso ocorre porque o Paquistão, de população predominantemente muçulmana, não permite que a região da Caxemira seja dominada por hinduístas de origem indiana. Os conflitos na região da Caxemira tornaram-se ainda mais tensos quando, em 1962, a China tomou parte dessa região da Índia e, posteriormente, anexou outra área, concedida pelo Paquistão. Em resposta, a Índia passou a reivindicar esse território perante a China.
A questão da Caxemira é de difícil resolução, pois nenhum dos países envolvidos na disputa está disposto a abrir mão da região, que é rica em recursos naturais, principalmente de nascentes de importantes rios para a Índia e o Paquistão. Outro aspecto que torna esse impasse ainda mais complexo é que um movimento pela independência total da Caxemira tem ganhado força, a fim de torná-la um Estado soberano. Protestos e repressões a esse movimento têm sido constantes na região.
Diversas tensões localizadas já ocorreram e, em dado momento, Índia e Paquistão estiveram perto de um conflito que poderia ser devastador, isso porque ambos desenvolveram armas nucleares de destruição em massa. 

O espaço terrestre: continentes e oceanos

A superfície terrestre é formada por áreas emersas, compostas pelos continen tes e ilhas, e por áreas submersas, cobertas por mares e oceanos.
As áreas submersas ocupam cerca de dois terços da superfície terrestre e são divididas em cinco grandes oceanos.
Já as áreas emersas ocupam cerca de um terço da superfície terrestre e são divididas em seis continentes.

América: regionalização por subcontinentes

Os continentes podem apresentar subdivisões regionais, onde se vê a América dividida em América do Norte (com 24,0 milhões de km2), América do Sul (com 17,8 milhões de km2) e o istmo que liga esses dois subcontinentes, que juntamente com as ilhas do Caribe formam a América Central (com 0,7 milhão de km2). Essa subdivisão considera o meio físico-natural e as convenções estabelecidas no continente americano.
Também é possível observar outra possibilidade de divisão da América, que leva em conta as características históricas, culturais e econômicas. Nesse caso, os países do continente são agrupados em América Latina e América Anglo-Saxônica.
Dividir a América em Latina e Anglo-Saxônica é uma possibilidade de regionalizar o continente em que vivemos. No caso da América Latina isso criou uma identidade regional. Apesar das diferenças culturais que existem entre os países que pertencem a essa parte do continente (a começar pela língua), há muitas aproximações entre eles devido à história comum de colonização e de enfrentamento com os Estados Unidos, a potência dominante na região. 
Como podemos perceber, nenhuma regionalização agrupa perfeitamente todos os países do mundo. Sempre haverá um ou outro que não se encaixará muito bem nesta ou naquela regionalização, seja qual for o critério adotado. Embora cada continente não forme exatamente uma região (na verdade, há diversas possibilidades de regionalizar cada um dos continentes, como vimos no exemplo da América), o fato de serem terras contínuas (continens) facilita a abordagem da Geografia física, humana e econômica.

A questão dos refugiados

Em 1954, foi efetivada a Convenção de Genebra de 1951, criada pela ONU para resolver a situação das vítimas da Segunda Guerra Mundial e da perseguição nazista, na Europa. Essa convenção internacional define como refugiadaa pessoa que abandonou seu país de origem por ter sua vida e seus direitos humanos ameaçados, em virtude de perseguições políticas, religiosas, étnicas, etc.
Os solicitantes de refúgio são pessoas que ainda não foram reconhecidas como refugiadas, embora tenham feito solicitação às autoridades competentes do país para onde migraram ou pretendem migrar.
Desde a criação desses conceitos, muitos conflitos militares, civis, po líticos e até mesmo religiosos geraram números expressivos de refugia dos e solicitantes de refúgio.
Deslocados internos são pessoas em situação semelhante à dos refugiados, porém que permanecem em seu território de origem, isto é, não atravessam fronteiras internacionais. No Afeganistão, por exemplo, em razão de ações do grupo denominado Talibã, muitas pessoas deixaram suas moradias e se deslocaram para áreas mais seguras dentro do próprio país.
Refugiados, solicitantes de refúgio e deslocados internos são con siderados migrantes, uma vez que estão deixando seu local de origem para fixar residência em outro.

Fluxos de refúgio e suas causas

Segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), no fim de 2020, havia aproximadamente 82,4 milhões de refugiados no mundo. Entre eles, 68% eram provenientes de apenas cinco países: Síria, Venezuela, Afeganistão, Sudão do Sul e Mianmar.
Atualmente, a Turquia é o país com maior número de refugiados em seu território. São 3,7 milhões de pessoas vindas, majoritariamente, da Síria. Em segundo lugar está a Colômbia, que se tornou o destino da maiorria. Em segundo lugar está a Colômbia, que se tornou o destino da maior parte de 1,7 milhão de refugiados venezuelanos.
O Paquistão, com 1,4 milhão de refugiados, sobretudo afegãos, desponta em terceiro lugar na concessão de refúgio.  A Alemanha, com 1,2 milhão de refugiados, é, depois da Turquia, o país europeu com maior número de refugiados.
No continente africano, há cerca de 5 milhões de pessoas em situação de refúgio distribuídas pela África oriental, em países como Uganda, Sudão e Etiópia.

A pandemia da covid-19, entre 2020 e 2021, ficou marcada por políticas que envolveram a suspensão de atividades e o distanciamento social em vários paí ses, com o intuito de reduzir a velocidade de contaminação da população e, as sim, diminuir a pressão sobre os sistemas de saúde pelo mundo. Nesse contexto alarmante, a situação dos refugiados foi agravada ainda mais.
Para tentar conter a transmissão do Sars-CoV-2 entre países, muitos Estados determinaram o fechamento de suas fronteiras. Diante desse cenário, os refugiados passaram a enfrentar muito mais dificuldades para encontrar quem lhes desse abrigo.
A chamada rota do Mediterrâneo, por exemplo, é uma das principais vias de entrada de refu giados na Europa. Com o bloqueio de aeroportos e estradas, a travessia pelo Mediterrâneo passou a ser ainda mais disputada. No entanto, grande parte desses deslocamentos é feita clandestinamente, em pequenas embarcações superlotadas. Nessas condições, os riscos de disseminação do vírus eram altíssimos, ainda mais com boa parte dos refugiados com a saúde debilitada.

Repatriação

A repatriação ocorre quando os refugiados são enviados a seus países de origem após cessarem as ameaças que os forçaram a migrar. No entanto, a solução de conflitos sociais e políticos complexos pode levar décadas.
Enquanto isso, os refugiados precisam de apoio para se integrarem Enquanto isso, os refugiados precisam de apoio para se integrarem às sociedades que os acolheram e reconstruírem suas vidas. Muitos até às sociedades que os acolheram e reconstruírem suas vidas. Muitos até adquirem nova cidadania.
Um importante indicador de integração de refugiados em novas comunidades é dado pela quantidade de naturalizações. Segundo dados do Acnur, em 2020, 33 800 refugiados, provenientes de 128 países,  receberam nova cidadania em 28 países. Os países que mais naturalizaram refugiados naquele ano foram os Países Baixos, o Canadá e a França. 

Refugiados no Brasil

Dados do Acnur apontam que o Brasil acolheu, até 2020, cerca de 57 mil refugiados de diversas nacionalidades. Nos últimos anos, venezue lanos e haitianos se destacaram entre os solicitantes de refúgio.
Muitos chegam ao país pela fronteira norte e depois migram para os grandes centros urbanos, em busca de trabalho. A falta de domínio da língua portuguesa e a escassez de funcionários públicos que possam dialogar com os refugiados em sua língua materna dificultam o acesso a serviços essenciais. Além disso, há pouca agilidade na emissão de docu mentos que permitam ao refugiado participar formalmente do mercado de trabalho e fixar residência.
Em situações como essa, o trabalho de organizações não governamen tais (ONGs) e de entidades ligadas a organizações supranacionais, como o Acnur, procuram preencher as lacunas deixadas pelo poder público.
De modo geral, os refugiados têm poucos instrumentos para exigir um tratamento mais digno por parte dos países que os recebem; portanto, dependem, em grande medida, do apoio da população local, que, mediante a constatação de injustiças e atos discriminatórios, pode usar seu poder de pressão sobre os governantes e exigir mudanças quanto ao tratamento dessas pessoas. 
O tratamento que o Brasil dá aos migrantes é considerado pelo Acnur como um exemplo positivo. Diferentemente de outros países, que orga nizam campos de refugiados, aqui há um esforço para integrá-los na sociedade.
A Operação Acolhida é uma iniciativa lidera da pelo Ministério da Cidadania que envolve tam bém uma rede de organizações mobilizada pelo Acnur. Através dela, mais de 50 mil venezuelanos que chegaram em Roraima já conseguiram se instalar em diferentes cidades do país. A iniciativa foi criada em 2018 em resposta ao fluxo migratório que teve início no ano anterior decorrente da crise econômi ca e política que se instaurou no país vizinho. 

América Latina e as migrações internacionais

O aumento na circulação de migrantes na América Latina se deve a situações de crise política e econômica em alguns países, como Venezuela, Bolívia e Haiti. Como em outras partes do mundo, os habitantes de países com elevados índices de desemprego partem, em busca de melhores condições de vida, para países com bom crescimento econômico.
Esses fluxos se alternam periodicamente, de acordo com mudanças que ocorrem no interior dos Estados nacionais. No entanto, há fluxos, como o de migrantes latino-americanos para os Estados Unidos, que se mantêm relativamente estáveis ao longo do tempo.
Na Venezuela, aliadas às insatisfações políticas internas estão as intervenções de potências estrangeiras. Esse conjunto de fatores desencadeou uma grave crise política e econômica, agravada pela queda no preço do petróleo, principal produto de exportação do país.
Com o aumento da inflação, do desemprego e do desabastecimento, a pobreza extrema aumentou, atingindo 85% da população em 2018, segundo dados do FMI.
A polarização política, quando é convertida em violência, motiva a população a solicitar refúgio em países vizinhos. Nesse contexto, Colômbia e Brasil se tornaram os destinos preferenciais dos venezuelanos. 
Na Colômbia, um complexo conflito entre o Estado, o narcotráfico, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e as intervenções estadunidenses foi responsável pela instabilidade política e pela insegurança, que acabaram por motivar a migração da população, sobretudo para os Estados Unidos, a Espanha, o Equador e a Venezuela. Depois dos acordos de paz, firmados em 2016, esses fluxos migratórios diminuíram. Mas, mesmo assim, a Colômbia conta com cerca de 8 milhões de deslocados internos em seu território. 
O Haiti também é considerado um polo de repulsão populacional. Há décadas o povo haitiano convive com uma grande instabilidade política, além de sofrer com terremotos e furacões, em razão de sua localização, no mar do Caribe.
Esse cenário conferiu ao país as piores condições de vida da América. Assim, muitos haitianos se veem forçados a migrar, aos milhares, para ou tros países, como os Estados Unidos, a República Dominicana e o Brasil. 
O Brasil foi um dos principais destinos dos migrantes internacionais europeus durante o século XIX. Antes disso, re cebemos grandes contingentes de africanos traficados e escravizados, durante o período colonial. Atualmente, entretanto, predomina a emigração, ou seja, brasileiros que deixam o país. 
Assim como outros migrantes internacionais, os brasileiros criam comunidades nos países para onde se mudam. Nos Estados Unidos, por exemplo, há uma rua dedicada aos brasileiros, a rua 46 ou Little Brazil, em Manhattan, Nova York. É nela que ocorre a festividade conhecida como Brazilian Day. 
No Japão, a cidade de Oizumi, na província de Gunma, é conhecida por ter a maior quantidade de brasileiros residindo no Japão. Essa característica tem atraído turistas japoneses, que viajam em busca de churrascarias do tipo rodízio e aulas de samba. 
No mercado de trabalho, a maior parte dos brasileiros que vive nos Estados Unidos exerce funções que não exigem qualificação, especialmente no setor de serviços. No Japão, a maior parte dos migrantes brasileiros trabalha como operário, no setor secundário. 
Os emigrantes brasileiros, especialmente as mulheres, também são vítimas de tratamento discriminatório, ou seja, sendo alvo de xenofobia.

Políticas migratórias restritivas

Durante o século XIX e início do século XX, os fluxos de migração internacional ocorriam majoritariamente da Europa em direção ao continente americano. Esse fluxo ficou conhecido como a Grande Migração Transatlântica.
Na segunda metade do século XX, entretanto, podemos dizer que os fluxos de migração internacional foram alterados: passaram a acontecer em direção ao norte, sobretudo para a Europa e a América do Norte.
A princípio, as levas de migrantes eram aceitas em países europeus e nos Estados Unidos, que tinham como objetivo atrair trabalhadores para suas economias em crescimento. Nos últimos anos, porém, o agravamen to das desigualdades globais e o desaquecimento das economias des ses países resultaram em uma redução na oferta de empregos, criando um cenário de rejeição aos migrantes internacionais.
A xenofobia passou a vigorar em muitos países, cujos governos acusa ram migrantes estrangeiros de estarem associados ao terrorismo, de cultivarem valores culturais indesejáveis e de acirrarem a disputa por vagas de trabalho. Essa retórica tem justificado a adoção de medidas que visam repelir a entrada de migrantes internacionais. 


domingo, 1 de fevereiro de 2026

Migrações internacionais na atualidade

Migrar é um ato próprio do ser humano. Entre tanto, em 1948, esse ato passou a ser reconhecido como um direito pela tanto, em 1948, esse ato passou a ser reconhecido como um direito pela Organização das Nações Unidas.
Segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, todas as pessoas têm o direito de deixar seu país de origem e regressar a ele, assim como pessoas sujeitas a perseguições têm direito de buscar proteção em outros países ou regiões.
Com base nesses princípios, legislações nacionais no mundo todo regulam o ingresso e a permanência de migrantes internacionais. Esses documentos, portanto, têm entre seus objetivos regulamentar a migração externa, isto é, aquela que ocorre entre diferentes países. Em contrapartida, as migrações internas – aquelas realizadas dentro de um mesmo Estado nacional – são livres de regulamentação na maioria dos países.
Segundo dados da ONU, em 2020 havia aproximadamente 281 milhões de pessoas vivendo fora de seus países de origem. Esse número corresponde a 3,6% da população mundial. Apesar de ser considerado um percentual baixo em relação ao total da população, ele tem crescido significativamente nas últimas décadas. Em 1990, por exemplo, havia cerca de 153 milhões de migrantes internacionais. 
Hoje, Europa e Ásia recebem juntas aproximadamente 60% dos migrantes internacionais, seguidas da América anglo-saxônica, destino escolhido por 22% dos migrantes. África, América Latina e Oceania dividem os 18% restantes. 

Migrações internacionais

Os deslocamentos no interior de um país, com a fixação em outro lugar do mesmo território, são chamados de migrações internas (ou nacionais); os deslocamentos de um país para outro, com a fixação em outro território, são as migrações externas (ou internacionais). 
Quando uma pessoa sai voluntariamente de seu lugar de origem e se muda para outro, no mesmo país ou no exterior, ela é considerada migrante. Se for um migrante internacional, no país de saída, ela é considerada emigrante; no de chegada, imigrante. Por exemplo: uma pessoa que deixa a Espanha para viver na Argentina é emigrante da Espanha e imigrante na Argentina.
Muitos latino-americanos deixaram seus países de origem nas últimas décadas e se tornaram imigrantes em outros países, como os Estados Unidos e a Espanha. Desde que entrou na União Europeia, em 1986, a economia espanhola cresceu bastante e ofereceu oportunidades de emprego, atraindo muitos imigrantes. 
Há cerca de 1 milhão de latino-americanos na Espanha, que se tornou o segundo polo de recepção de imigrantes vindos da América Latina. Está atrás apenas dos Estados Unidos, que concentram cerca de 15 milhões de pessoas oriundas dessa região. No entanto, com a crise econômica dos anos 2000 e o forte aumento do desemprego nesses dois países, muitos imigrantes voltaram a seus países de origem. Essa crise se iniciou nos Estados Unidos em 2008 e se propagou para a Europa em 2010.
De acordo com dados do FMI, o desemprego nos Estados Unidos saltou de 4,6% da população economicamente ativa, em 2007, para 9,6%, em 2010; depois desse pico, com a retomada do crescimento econômico, caiu para 4,9% em 2016. Do ponto de vista econômico, o país voltou a ser atrativo para os imigrantes; o problema é que depois da eleição de Donald Trump, naquele ano, houve um endurecimento contra a imigração e um aumento das restrições para se fixar no país.
 Na Espanha, o desemprego é ainda mais alto e, mesmo com a retomada da economia, permanece em patamar muito elevado, o que dificulta a absorção de imigrantes pelo mercado de trabalho.
Os Estados Unidos são o país onde há mais imigrantes em termos absolutos. São quase 50 milhões de pessoas, o que corresponde a 19% do total mundial de migrantes. Mas como sua população total é muito grande (a terceira do mundo), percentualmente o número de imigrantes não é tão elevado. 
Há países nos quais o percentual de estrangeiros (em termos relativos) é bem maior, como é o caso dos principais produtores de petróleo do Oriente Médio. Na Arábia Saudita, os imigrantes chegam a 37% da população; no Kuwait, a 75,5%; porém, o maior índice do mundo é registrado nos Emirados Árabes Unidos, onde 88,4% dos habitantes são estrangeiros.
Isso ocorre porque a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Kuwait são países de alta renda e têm carência de mão de obra – com exceção do primeiro, os outros têm populações muito pequenas. Por isso, há um incentivo à vinda de imigrantes, sobretudo do sul e do Sudeste Asiático, para trabalhar na construção civil (principalmente os homens), em serviços domésticos (principalmente as mulheres) e em outros trabalhos que não necessitem de alta qualificação. 
Grande parte desses imigrantes é originária das Filipinas, da Índia, da Tailândia, do Nepal e de Bangladesh. No entanto, as condições de trabalho, em geral, são muito precárias e os salários são baixos.
Embora em menor quantidade, no Oriente Médio também há oferta de serviços que exigem maior qualificação e, portanto, com melhores condições de trabalho e salários mais elevados. Hotéis, companhias aéreas, escritórios de engenharia, empresas de tecnologia da informação e comunicação estão entre os principais empregadores desses trabalhadores, que vêm de diversos países, incluindo o Brasil.

Principais fluxos migratórios

Os continentes europeu e americano estão entre os principais destinos dos migrantes internacionais. 
No entanto, quando observados os fluxos migratórios direcionados a cada país, percebemos que eles não se distribuem de maneira uniforme nos continentes. Conheça a seguir alguns exemplos.
• Considerando o valor total por país, os Estados Unidos são o destino mais procurado por migrantes internacionais. Em 2020, por exemplo, os Estados Unidos contavam com mais de 10 milhões de migrantes mexicanos em seu território. Naquele ano houve um contingente de cerca de 7 milhões de mexicanos, indianos, chineses e filipinos, no país americano.
• A Alemanha é o segundo país com maior número de migrantes estran geiros. Destes, mais de 2 milhões são poloneses. A eles somam-se turcos, russos e casaques, perfazendo mais de 4 milhões de migrantes, vivendo entre os mais de 80 milhões de alemães.
• Na Arábia Saudita, são 2 milhões e meio de indianos. Quando somados aos migrantes da Indonésia, do Paquistão, de Bangladesh e do Egito, compõem uma população de mais de 5 milhões de pessoas no país do Oriente Médio. 
• Índia, México, Rússia, Síria e China, em contrapartida, são os países que hoje apresentam o maior número absoluto de nativos vivendo fora de seus territórios de origem. 
• Cerca de metade dos migrantes internacionais vive em apenas dez países. Além dos três principais destinos já citados – Estados Unidos, Alemanha e Arábia Saudita – completam o ranking Rússia, Reino Unido, Emirados Árabes Unidos, França, Canadá, Austrália e Itália.

Fatores de atração e repulsão

Na atualidade, os altos níveis de desemprego motivam os migrantes a deixar seus países de origem. Porém, os mais pobres não dispõem de recursos para migrar, isto é, têm pouca mobilidade. Assim, os países de recursos para migrar, isto é, têm pouca mobilidade. Assim, os países do Sul configuram as principais regiões de emigração, tornando-se áreas de repulsão populacional, considerando-se o contexto mundial.
Além dos fatores financeiros, a busca por melhores condições de vida está relacionada também às estruturas de serviços sociais, como educação de qualidade, saúde pública, lazer e segurança. Territórios com essas características se configuram como áreas de atração populacional, recebendo muitos migrantes.
Um exemplo são as migrações existentes nas Américas Central e do Norte. Muitos latino-americanos atravessam diariamente a fronteira entre México e Estados Unidos para fugir de situações de violência e pobreza e buscar condições dignas de vida.
Outro fator de repulsão populacional são os conflitos armados. Entre 2015 e 2016, por exemplo, o continente europeu se viu em meio a uma grande crise migratória relacionada aos conflitos armados em países como Afeganistão, Iraque, Síria, Eritreia, Somália e Sudão. 
As mudanças climáticas também são consideradas um fator de repulsão. Em países já pobres, inundações ou secas prolongadas, por exemplo, agravam a situação econômica, pois afetam particularmente a produção  de alimentos.

Políticas migratórias e xenofobia

A chegada de migrantes estrangeiros pode despertar temor e, consequentemente, preconceitos na população local, que tende a se ver em disputa por vagas de trabalho e por acesso aos serviços sociais ou mesmo em situações de violência. 
Atualmente, alguns Estados tentam dificultar o acesso de migrantes estrangeiros, sobretudo daqueles que buscam se fixar no país. Porém, as leis mais severas contra a imigração acabam por colocar em risco a vida de imigrantes, que, diante de tantas barreiras, se arriscam em perigosas travessias, muitas vezes organizadas por grupos que os exploram financeiramente, sem garantias de segurança física ou jurídica. 
A experiência recente, entretanto, demonstra que a presença de leis migratórias severas tem pouca influência sobre o saldo migratório.
Dados da ONU indicam que as políticas de concessão de vistos para trabalho têm reproduzido as desigualdades globais: cidadãos com for mação superior, provenientes de países ricos, têm, em geral, acesso mais fácil à migração e à aquisição de vistos. Por outro lado, cidadãos de países pobres ou em conflito armado, mesmo com formação universitária, frequentemente não conseguem adquirir vistos.
Essa desigualdade revela o tratamento discriminatório dado a determinadas nacionalidades. Ao mesmo tempo, essa disparidade aponta para a dificuldade que muitas sociedades têm de acolher o estrangeiro. O tratamento desigual e discriminatório em relação a estrangeiros é denominado xenofobia.

Os refugiados

Os refugiados (assim como também os migrantes) que foram para os países desenvolvidos sofrem com a xenofobia e o racismo. Sobretudo após a eclosão da crise econômica de 2008, que, como vimos, atingiu especialmente os países desenvolvidos e elevou o desemprego, houve um aumento da hostilidade a estrangeiros ou minorias étnicas, principalmente na União Europeia. A vida dos refugiados é muito difícil porque muitas vezes os acordos internacionais de proteção a eles não são respeitados.

Países desenvolvidos e países em desenvolvimento

Atualmente há uma grande disparidade socioeconômica entre os países do mundo. De modo geral, podemos classificar essas nações entre países d...