sábado, 14 de fevereiro de 2026

A ÁFRICA E SUAS REGIÕES

O continente africano também pode ser regionalizado com base na localização geográfica dos países, formando cinco grandes conjuntos.  Essa divisão se apresenta da maneira exposta a seguir. 
África Setentrional: Argélia, Egito, Líbia, Marrocos, Sudão, Tunísia, Saara Ocidental. 
África Ocidental: Benin, Burkina Fasso, Cabo Verde, Costa do Marfim, Gâmbia, Gana, Guiné, Guiné-Bissau, Libéria, Mali, Mauritânia, Níger, Nigéria, Senegal, Serra Leoa, Togo. 
África Central: Angola, Camarões, República Centro-Africana, Chade, Congo, República Democrática do Congo, Guiné Equatorial, Gabão, São Tomé e Príncipe. 
África Oriental: Burundi, Comores, Djibuti, Eritreia, Etiópia, Quênia, Madagascar, Malauí, Maurício, Moçambique, Ruanda, Seicheles, Somália, Sudão do Sul, Uganda, Tanzânia, Zâmbia, Zimbábue.
África Meridional: Botsuana, Lesoto, Namíbia, África do Sul, Reino Eswatini (ex-Suazilândia, que teve seu nome modificado em abril de 2018, por decisão do Rei Mswati III).
Vamos utilizar a regionalização geográfica para estudar o continente africano.

A África Oriental


Também conhecida como Leste da África, a África Oriental é formada por países como Etiópia, Tanzânia, Quênia, Madagascar, Eritreia, Uganda, Moçambique, entre outros. Apresenta grande diversidade política, econô mica, linguística, geográfica e populacional, abrangendo vasta área geográfica, a qual se estende do oceano Índico até o Mar Vermelho. Seus principais critérios unificadores são as históricas relações comerciais com a Ásia, principalmente com o Oriente Médio. A região foi marcada, por décadas, pela instabilidade política (tensões internas, golpes de Estado, conflitos armados, entre outros) em grande parte dos países da região.

A África Meridional 


A África Meridional abarca a África do Sul, Namíbia, Botsuana, Zimbábue, Madagascar, Moçambique, Zâmbia e Angola. A África do Sul é o país de maior destaque econômico na região. Foi colonizada por holandeses e, posteriormente, por ingleses, e, em 1961, tornou-se independente. O Partido Nacional liderou o estabelecimento de um regime de estrita segregação racial (apartheid), que perdurou até 1994, quando Nelson Mandela (1918-2013) liderou a vitória eleitoral do partido Congresso Nacional Africano (CNA), após passar décadas preso por lutar contra o regime. Só então o país foi readmitido na Commonwealth of Nations, ou Comunidade das Nações, e nos demais organismos interna cionais, de onde havia sido expulso por adotar o apartheid.
A África do Sul está entre os 17 países do mundo considerados megadiversos pelo Centro Mundial de Monitoramento da Conservação (WCMC, na sigla em inglês), ou seja, aqueles que concentram a maioria das espécies da Terra. Essa característica dá a base para o forte setor de ecoturismo do país, centrado, princi palmente, no sistema de parques nacionais e de áreas protegidas.

A África Setentrional


A África Setentrional é a região africana com maior homogeneidade étnico-cultural, pois reúne países que passaram por colonização e ocupação árabe no passado e que, portanto, apresentam fortes características étnicas e culturais relacionadas a esse mundo.
Nela, destaca-se um grupo de países conhecido como Magreb, palavra árabe que significa “lugar do poente”, ou “oeste”. Na tradição geográfica árabe, eram incluídos no Magreb Espanha, Portugal, Sicília e Malta. Atualmente, consideram-se como países desse grupo Marrocos, Argélia, Tunísia e Líbia.
De tradição islâmica, o Marrocos é um país muçulmano que tem o turismo como um forte setor econômico. As demais atividades econômicas do Marrocos estão voltadas para o setor primário, como a produção de frutas, amêndoas, olivas e flores e a exploração mineral do fosfato. A Argélia é um dos membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). A exportação de petróleo e de gás natural é muito importante para a economia do país. Apesar de abrigar grandes reservas de combustíveis fósseis, o desenvolvimento de atividades industriais não é um grande destaque – há, no entanto, uma tendência de diversificação da economia argelina, que conta com mão de obra qualificada nas cidades. A migração de jovens escolarizados para países europeus, especialmente para a França, e norte-americanos é uma das questões sociais a serem enfrentadas pelo país.
O Egito é outro país da África Setentrional. Sua economia sempre esteve relacionada à ferti lidade das margens do Rio Nilo, o único rio perene que atravessa o deserto no país. Praticamente toda a sua agricultura concentra-se em quase 25 mil km2 ao longo do vale e do delta do Rio Nilo. O Cairo, capital do Egito, é a maior cidade da região do vale do Nilo, onde vivem aproximadamente 11 milhões de pessoas (contando a população da área metropolitana, são 18 milhões). A cidade apresenta problemas semelhantes aos da maioria das metrópoles dos países em desenvolvimento: falta de planejamento urbano, trânsito congestionado, enchentes, transporte coletivo insuficiente, déficit de moradias e precariedades relacionadas à saúde e à educação.
A indústria egípcia é diversificada. Na área de tecnologia da informação, o país tem se destacado, principalmente, no desenvolvimento do serviço de telefonia celular.
O país exporta gás natural e construiu um gasoduto em sociedade com a Jordânia. Há pro jetos de extensão desse gasoduto em direção à Síria, com conexões futuras para Turquia, Líbano e Chipre. O Egito também é importante rota para o óleo enviado do Golfo Pérsico à Europa e aos Estados Unidos.
A operação do Canal de Suez é significativa fonte de receita para o governo egípcio, pois são cobradas taxas para a travessia. Ele é uma importante rota de trânsito de petróleo e de gás natural, sendo a única via alternativa para transportar petróleo bruto do Mar Vermelho ao Mediterrâneo.

A África Ocidental


Localizada na porção oeste do sul do Saara, a África Ocidental é formada por vários pequenos países. Tal configuração geoespacial é consequência das intensas relações comerciais com os europeus, que estabeleciam alianças com alguns líderes locais, em detrimento de outros povos, o que causou significativa subdivisão do território. Na região, estão algumas das principais bacias hidrográficas do continente (dos rios Congo, Níger e Senegal e do Lago Chade).
A Nigéria, país com grande riqueza mineral e potencial agrícola, concentra a maior parte dos habitantes da região: são mais de 200 milhões. O país, no entanto, enfrenta problemas resultantes das divisões dos principais grupos étnicos internos: iorubás, ibos e hauçás.
A República Democrática do Congo é o maior país africano, com cerca de 2,34 milhões de km². O subsolo da região é rico em reservas minerais de cobre, diamante, petróleo, estanho e coltan. No ano de 2019, o país foi responsável por cerca de 71% da produção de cobalto do mundo e é o detentor das maiores reservas desse minério.
A demanda por cobalto tem crescido bastante nos últimos anos, por causa das altas produções de eletrônicos e da mudança no consumo energético. O setor mineral corresponde a 80% das exportações da República Democrática do Congo e apresentou um crescimento de 4% a 7% entre os anos de 2010 e 2019, de acordo com dados divulgados pelo Banco Mundial.

A África Central


A África Central é a região do continente por onde passa a linha do equador e onde predo mina o clima equatorial. Além disso, a Floresta do Congo (exemplo de Floresta Equatorial) é uma das principais do continente. É formada por países como Angola, Camarões, Congo, República Democrática do Congo, Chade, República Centro-Africana e Gabão, por exemplo.
Um dos países mais relevantes da região, Angola é marcada por muitos conflitos. Após a colonização portuguesa, em 1975, Angola tornou-se um país independente, de orientação socialista, mas os problemas sociais e econômicos, assim como a guerra civil, não cessaram. Os conflitos entre o governo, dirigido pelo Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), e os guerrilheiros da União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita) só terminaram com o cessar-fogo de 2002.
Após o fim da guerra civil, o país tem experimentado uma fase de desenvolvimento, basica mente alimentada pela indústria do petróleo. Esse recurso mineral é responsável por outro foco de tensão regional, pois seu principal polo de produção se situa no exclave de Cabinda, que fica ao norte do território contínuo de Angola, localizado entre o Congo e a República Democrática do Congo. O crescimento econômico de Angola tem atraído imigrantes provenientes, principalmente, da República Democrática do Congo e da China.

Indústria e serviços na África


O desenvolvimento das atividades industriais não ocorreu de forma efetiva em toda a África. As matérias-primas, principalmente os recursos minerais que poderiam impulsionar as indústrias locais, abastecem o mercado externo, contribuindo, assim, para o desenvolvimento industrial de países em outros continentes. A industrialização também foi prejudicada pelo longo tempo de subordinação à política imperialista europeia.
Os colonizadores europeus exploravam matéria-prima a baixíssimo custo e a levavam para ser transformada na Europa. Depois, vendiam os produtos industrializados aos países africanos. Não houve, portanto, incentivos e investimentos das metrópoles para o desen volvimento da indústria na África, evitando a concorrência com os produtos europeus e a perda de mercados consumidores.
Outros fatores também colaboraram para o lento desenvolvimento industrial em muitos países africanos, como forte dependência econômica em relação às antigas metrópoles, escas sez de capital, carência de mão de obra qualificada, infraestrutura urbana de transportes e de produção energética deficitária, pequeno mercado consumidor, além de conflitos internos e entre países do continente.
A África do Sul conta com o maior e mais diversificado parque industrial do continente, com destaque para os setores siderúrgico, metalúrgico, automobilístico, químico, têxtil e petroquímico. A industrialização do país foi favorecida pela riqueza em recursos minerais e pela existência de uma elite que, mesmo após a independência, permaneceu no poder e manteve-se fortemente associada à antiga metrópole, a Inglaterra, favorecendo a entrada de capitais de empresas estrangeiras. A industrialização da África do Sul é um dos fatores que contribuem para que o país seja classificado como “emergente”, integrando, inclusive, os chamados Brics, junto com Brasil, Rússia, Índia e China.
Em outros países do continente africano, a atividade industrial está voltada, principalmente, para o beneficiamento de produtos agrícolas, como soja, cana-de-açúcar, algodão e café, ou seja, é formada por usinas de açúcar, fábricas de tecido, torrefadoras de café e fábricas de sucos concentrados e de óleo vegetal, produzindo para o abastecimento do mercado interno.

O setor de serviços (terciário) – que inclui atividades como saúde, educação, transportes, comunicação e entretenimento, entre outros – tem importante participação na economia de muitos países africanos. Em 2020, era o setor de maior participação no PIB da Nigéria (46,4%), da África do Sul (64,6%) e do Egito (51,8%), por exemplo.
A ampliação do terciário, no geral, tem relação com a industrialização e, principalmente, com o crescimento urbano.
O processo de industrialização de um país é bastante complexo, pois não se refere apenas à instalação de fábricas. Integrada à produção industrial, ocorre a expansão de infra estrutura (estradas, portos, sistemas de comunicação etc.) e de serviços diversos (bancários e administrativos, por exemplo).
O crescimento urbano impulsiona o desenvolvimento de diversas atividades, como comércio, transporte urbano, saúde, educação, tecnologias da comunicação, lazer e entretenimento, entre outros. O aumento de investimentos estrangeiros nos países africanos tem contribuído para dina mizar essas diversas atividades.
A produção cinematográfica é uma das inúmeras atividades que compõem o setor de serviços. Nollywood, como é conhecida a “indústria” cinematográfica da Nigéria, é a segunda mais produtiva do mundo, superando Hollywood, dos Estados Unidos, e ficando atrás apenas de Bollywood, da Índia.

Atividades agropecuárias na África

As atividades agropecuárias têm importante papel na economia e na sociedade africanas, correspondendo a parte significativa do Produto Interno Bruto (PIB) e das exportações do continente. Grande parcela da força de trabalho está empregada na agricultura. Desde o século XIX, os africanos convivem basicamente com três tipos de produção agrícola:
- plantations: grandes propriedades monocultoras com produção voltada ao mercado externo. Geralmente, pertencem a empresas estrangeiras, ou à elite local, e ocupam as terras mais férteis do continente. Algumas propriedades empregam grande quantidade de trabalhadores e outras são altamente mecanizadas. Entre os principais produtos cultivados, estão cana-de-açúcar, café, algodão, cacau, amendoim, banana, abacaxi e chá. 
- agricultura mediterrânea: desenvolve-se em parte do litoral norte do continente – onde se destaca a produção de uva, laranja, pêssego e azeitona, especialmente nos países que compõem a região do Magreb. Também é realizada em certas áreas da África do Sul. 
- agricultura de subsistência: praticada por agricultores familiares, caracteriza-se pela utilização de instrumentos agrícolas simples e métodos tradicionais de cultivos. A produção é pequena, geralmente destinada ao consumo dos próprios produtores e vendida no mercado local. Os principais produtos cultivados são arroz, milho, mandioca e batata-doce.
É importante destacar que os melhores solos africanos para plantio são ocupados pelas grandes empresas agrícolas, enquanto a população rural, em geral, ocupa áreas de solos menos férteis ou degradados.
Em muitos países do continente africano, os extensos períodos de seca aliados à falta de investimentos em técnicas agrícolas – como irrigação e plantação em estufas – dificultam o plantio, principalmente nas áreas desérticas. Nas regiões mais úmidas, o uso inadequado de práticas de manejo leva à baixa produtividade e ao esgotamento dos solos. 

Em relação à pecuária, predomina a criação extensiva ou tradicional, desenvolvida em pequenas propriedades rurais com número reduzido de animais. A produção é destinada princi palmente ao abastecimento de carne ou leite para a família do criador e para o mercado local.
A pecuária intensiva ou moderna está presente em poucos países. É mais comum em grandes propriedades na África do Sul e na Etiópia, que estão entre os maiores produtores de ovinos e bovinos do continente. Na pecuária intensiva, são utilizados modernos equipamentos e técnicas, com controle de alimentação, saúde e higiene dos animais. Geralmente, o rebanho fica confinado e destina-se ao fornecimento de leite e carne para grandes mercados consumidores. 
Na África, os principais problemas relacionados ao desenvolvimento da pecuária são o des matamento e a prática de queimadas para abertura de pastagens. Além de contribuírem para a perda de fertilidade dos solos, ambas as práticas reduzem a biodiversidade, colocando em risco os recursos hídricos e colaborando para o agravamento das mudanças climáticas. Outra ameaça é a compactação do solo pelo pisoteio do gado. Embora o problema não seja restrito ao continente, é responsável pela degradação de extensas áreas de solo.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Conflitos no continente africano

A África nem sempre se viu às voltas com a pobreza, epidemias e outras carências. Basta lembrar-se de que a história Pré-Colonial africana é marcada por grandes impérios, sociedades complexas e desenvolvidas, que já mantinham relações comerciais e políticas com outras regiões do mundo antes mesmo da chegada dos colonizadores europeus.
O continente africano sofreu as consequências negativas deixadas pelo período da exploração colonial; também em grande parte, suas riquezas são exploradas por empresas transnacionais e ainda a atuação dos governos corruptos e das elites locais, somada à concorrência do mercado internacional no mundo globalizado, contribuíram para explicar o quadro geral de desigualdade econômica e social que domina a maior parte do continente. Dessa forma, podemos concluir que todos esses problemas corroboraram para que a África fosse palco de tantos conflitos armados e tragédias.
Nos principais conflitos da África contemporânea, é possível observar que em diversos Estados, alguns consideravelmente novos, custaram muito a consolidar suas fronteiras ou ainda não o fizeram. 
Vários outros também não encontraram uma forma de governar que satisfizesse às necessidades básicas da população. Em muitos casos, grupos étnicos e religiosos que se entendem como nação almejam governar o país e acabam por insuflar movimentos não democráticos, ou mesmo separatistas, na busca por um território em que possam exercer soberania e relações de poder.

Conflitos e guerras 


De acordo com a ONU, a África é o continente com o maior número de conflitos duradouros em todo o mundo. Em razão da instabilidade política de muitos países africanos, que ainda lutam pela construção de um Estado sólido e de um governo representativo e democrático em um contexto tão diverso e problemático, a maioria das guerras no continente se configura como conflito interno. 
As principais causas desses conflitos são as disputas pelo controle do poder político, as rivalidades religiosas e as lutas por autonomia de grupos étnicos. Além disso, há a disputa pela grande quantidade de riquezas minerais do solo africano, que interessa tanto aos grupos armados quanto aos governos e às grandes corporações. 
Muitas guerras são financiadas pelos lucros oriundos da extração desses recursos, algumas das quais chegam a ultrapassar as fronteiras políticas dos territórios, como é o caso da República Democrática do Congo. 
Ainda que o número de conflitos tenha diminuído, as guerras prolongam-se e apresentam grande impacto no desenvolvimento humano. Assim, é possível estabelecer uma relação direta entre os conflitos e a pobreza do continente, pois as guerras destroem o sistema produtivo, aumentando a fome e a desnutrição da população. 
Na lista dos dez principais países de origem dos refugiados em 2021 estão cinco africanos: Sudão do Sul, República Democrática do Congo, Sudão, Somália e República Centro-Africana. O número total de sul-sudaneses deslocados nos últimos anos já alcança 3,3 milhões, o que significa dizer que um em cada quatro sul-sudaneses se encontra deslocado de seu país de origem.
Aproximadamente 30% dos refugiados do mundo são pessoas nascidas no continente africano, notadamente em duas regiões: Ocidental, com conflitos em Serra Leoa, Nigéria, Libéria e Costa do Marfim; e Centro-Oriental, no arco norte-sul, que se estende do Sudão até os Grandes Lagos, passando pela região do chifre africano. Em diversos locais da África há campos de refugiados da ONU. O maior deles fica no Quênia e já contou com uma população de mais de 400 mil pessoas.
Apesar de a grande maioria de refugiados africanos permanecer na própria África, um grande número de pessoas tenta chegar à Europa atravessando o Mar Mediterrâneo, onde muitos perdem a vida em naufrágios. 
As guerras em países africanos, além de causar mortes, pioram as condições de vida dos habitantes, entre os quais estão incluídas imensas massas de refugiados, que sofrem as consequências dos conflitos. 
Nas últimas décadas, Nigéria, Ruanda e Sudão do Sul, entre outros países, sofreram com violentos conflitos armados.

Nigéria 


A Nigéria enfrenta conflitos internos desde sua independência, em 1960. Seu território é constituído por cerca de 250 grupos étnicos, prevalecendo três deles: os hauçá-fulá (32% da população), os iorubás (21%) e os ibos (18%).
A luta pelo poder entre esses três grupos levou o país a uma das mais sangrentas guerras civis da África: a Guerra de Biafra (1967-1970).
Os ibos, provenientes da província de Biafra, no leste do país, formavam a elite da Nigéria. Em um golpe de Estado dado em 1966, generais da etnia ibo tomaram o poder dos hauçá-fulá. Um contragolpe derrubou o regime, e os ibos passaram a ser caçados e massacrados pelo país. Eles, então, declararam a independência da província de Biafra, iniciativa não reconhecida pelo governo central. 
Todos esses fatos resultaram na guerra civil que matou mais de 1 milhão de pessoas e terminou com a rendição de Biafra, novamente anexada ao território nigeriano.
Desde o fim da guerra civil, a Nigéria convive com a rivalidade entre o sul, cristão e economicamente mais desenvolvido, e o norte, predominantemente muçulmano e detentor do controle político do país. A disputa envolve cristãos e islâmicos. 
Os conflitos étnicos e religiosos na Nigéria são agravados pela ação de grupos radicais islâmicos, como o Boko Haram, que reivindica a construção de uma república islâmica e o combate à cultura ocidental deixada pelos colonizadores ingleses no país.
O grupo fundamentalista islâmico Boko Haram luta para derrubar o atual governo e fundar um Estado somente para os islâmicos, valendo-se, para tanto, de estratégias terroristas.
Desde 2009, o Boko Haram comete atos violentos, fazendo muitas vítimas entre civis, militares, políticos e religiosos. O aumento da violência provocou a fuga de milhares de pessoas do país.
Recente mente, o exército nigeriano reconquistou o poder nas áreas do país onde o grupo terrorista havia assentado suas bases e intensificado suas ações. 
No entanto, o risco ainda continua e, para alguns especialistas, a ameaça terrorista poderia ser controlada se o governo nigeriano conseguisse reduzir a pobreza crônica do país, além de conciliar, por meio de um sistema de ensino diversamente étnico, cristãos e muçulmanos.

Ruanda 


Ruanda foi devastada por conflitos étnicos entre as etnias hutu e tutsi, culminando com o grande genocídio de 1994, que vitimou em cem dias cerca de 800 mil pessoas do grupo étnico tútsi, levando mais de 2 milhões de pessoas do grupo étnico hútu a se deslocar forçadamente para o antigo Zaire, atual República Democrática do Congo – onde ainda há ecos da tensão entre grupos radicais. 
Uma das causas que levaram ao genocídio entre tútsis e hútus foi a diferenciação no tratamento dado às etnias pelos belgas, ainda ocorrida no Período Colonial. 
A rivalidade entre as etnias, que se reconheciam diferentes, mas conviviam no mesmo território, foi então fomentada por ideias racistas. Atualmente, Ruanda é uma das economias que mais cresce no continente africano. 
O país mantém-se em constante alerta e, por meio de muitos esforços, alcançou considerável estabilidade na convivência entre as etnias, apesar dos baixos índices de desenvolvimento humano e da ainda grande desigualdade de renda – inclusive entre hútus e tútsis. As rivalidades prosseguem até a atualidade, embora com menor intensidade.

Angola 


Angola vivenciou, desde a independência, em 1975, uma devastadora guerra civil, em que se opunham o partido do governo, de orientação socialista, e a União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita), anticomunista. O conflito fez milhares de vítimas e, até hoje, minas terrestres espalhadas pelo país promovem mutilações e mortes. Desde 2006, o país está em paz.

Sudão do Sul 


O Sudão passou por uma longa guerra civil em razão das disputas de poder e de controle do território e de seus recursos naturais, sobretudo o petróleo. Contrapunham-se o norte, então sede do governo e com população predominantemente muçulmana, e o sul, base do Exército de Libertação do Povo Sudanês (ELPS), com população majoritariamente cristã. Apesar de as diferenças culturais, étnicas e religiosas terem influenciado os conflitos, eles foram motivados essencialmente pelas disputas econômicas.
O conflito está relacionado à hostilidade entre líderes políticos e associado à disputa pelo controle das reservas de petróleo. Em 2005 foi assinado um cessar-fogo, mas os conflitos e as mortes continuaram. Em 2011, 98% da população optou em plebiscito pela separação do sul e pela criação de um Estado-nação: o Sudão do Sul. 
O Sudão do Sul, o país mais jovem do mundo, independente desde 2011, vive uma guerra civil iniciada em 2013. 
Apesar das grandes reservas de petróleo, o Sudão do Sul “nasceu” com os mesmos problemas sociais que afetam a maioria da população da África Subsaariana. Em 2013, uma nova guerra civil envolveu duas etnias sul-sudanesas: dinka e nuer.
O estopim para o conflito foi uma crise interna no tão novo quanto instável governo sul-sudanês. O presidente, Salva Kiir, acusou o ex-vice-presidente Riack Machar de organizar um golpe de Estado. A partir de então, milícias aliaram-se aos dois grandes rivais, que também são de etnias diferentes.  A rivalidade detonou um conflito violento, que fez mais de 300 mil vítimas e levou o país a uma grave crise humanitária.
Em 2015, os envolvidos no conflito armado assinaram um acordo de paz que não durou mais de um ano. Em 2017, foi assinado um cessar-fogo, que possibilitou a criação de um ambiente minimamente seguro para que organizações internacionais de ajuda humanitária entrassem no país e chegassem até os civis que mais precisavam de atendimento.
Apesar da assinatura de um acordo de paz em setembro de 2018, a situação no país piorou muito. As disposições do tratado não foram implementadas em razão dos conflitos constantes entre os dois líderes. De acordo com a ONU, mais de 50 mil pessoas morreram em decorrência do conflito. 
De acordo com dados da ACNUR, 4,3 milhões de sul-sudaneses haviam deixado suas casas em 2021, representando o quarto maior grupo de refugiados do mundo.
Atualmente, metade da população do Sudão do Sul sofre de desnutrição, e a fome já é um problema crônico no país, que atravessa uma das piores crises humanitárias do mundo.

República Democrática do Congo 


Os conflitos começaram em 1994, quando milhares de refugiados hutus migraram para o país. Os refugiados instalaram-se na província de Kivu, no leste do território congolês, ocupada predominantemente pela etnia tutsi, inimiga dos hutu. 
Sentindo-se ameaçados pelo grande número de refugiados hutus e abandonados pelo regime ditatorial do então presidente Mobutu Sese Seko (1930-1997), os tutsi iniciaram uma guerrilha contra o governo, apoiados por Uganda e pelo governo tutsi instaurado em Ruanda. 
Em 1997, Laurent Kabila (1939-2001), que não era tutsi, mas liderava o movimento guerrilheiro contra Mobutu, assumiu o poder e passou a ignorar seus aliados tutsis, cortando as relações com Uganda e Ruanda.
Insatisfeitos, os tutsi de Kivu iniciaram uma nova guerra civil em 1998. Acuado, o governo congolês pediu ajuda militar a Angola, Zimbábue e Namíbia, gerando conflitos que causaram cerca de 3 milhões de mortes.
Joseph Kabila (1971-), filho de Laurent Kabila, assumiu o poder em 2001 com propostas de paz e de reorganização do país. Seu mandato terminou em 2019, sem a pacificação prometida. A crise econômica agravou os conflitos étnicos e o confronto entre grupos armados e o Exército congolês, que disputam territórios ricos em recursos naturais. 
De acordo com dados de 2022 da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), o aumento da violência forçou mais de 5,6 milhões de congoleses a se deslocar dentro do país e outro milhão a buscar refúgio em outros países da África.

Chifre da África 


O Chifre da África é uma sub-região da África Subsaariana, constituída por Quênia, Somália, Etiópia, Eritreia e Djibuti, apresentando graves problemas como pobreza, fome, guerras, disputas internas, secas e pirataria.
Os dois maiores países da região, Etiópia e Somália, estiveram envolvidos em uma disputa pelo deserto de Ogaden, território etíope ocupado por somalis. Em 1988, um acordo incorpo rou esse território à Etiópia. Os somalis que viviam na região tiveram de voltar para a Somália ou seguir como refugiados para o Quênia. 
Desde a década de 1990, a Somália enfrenta uma guerra civil entre vários clãs rivais, apesar de esses clãs pertencerem ao mesmo grupo étnico. Apesar da ajuda de soldados estrangeiros entre 1992 e 1995, a guerra continuou, pois não há um governo central forte capaz de conter os conflitos internos, os diferentes grupos rebeldes e as milícias que controlam consideráveis trechos do território somali, como a milícia radical islâmica Al-Shabab e grupos de piratas que atuam no litoral.
Além dos atentados terroristas frequentes, os grupos radicais impedem a entrada de ajuda humanitária por organizações internacionais. O país também é atingido por graves episódios de secas, como os ocorridos em 2011, 2017, 2021 e 2022. Depois de dez anos de crescimento econômico, a Etiópia entrou em uma guerra civil no final de 2020, opondo o Exército etíope aos rebeldes da Frente Popular de Libertação do Tigré (região situada no norte do país). A guerra fez com que outras etnias entrassem em conflito em diversas regiões.

Primavera Árabe 


As revoltas populares ocorridas em países do Norte da África a partir de 2010 evidenciaram o descontentamento da população em relação aos líderes ditadores que enriquece ram no poder ao longo de décadas, enquanto a população era mantida em condições de pobreza extrema. Cansada dos desmandos de governos autoritários, a população protestou por mudanças.
O primeiro resultado do movimento se deu na Tunísia: a queda do ditador Zine El Abidine Ben Ali (1936-2019), que comandara o país por 23 anos (1987-2011). No Egito, após 30 anos no poder (1981-2011), o ditador Hosni Mubarak (1928-2020) renunciou à presidência do país. Por sua vez, Muammar Kadafi (1942-2011) perdeu, em 2011, o governo da Líbia, que estava sob sua ditadura desde 1969. Em seguida, os conflitos atingiram o Marrocos e a Argélia. 
Esse movimento ficou conhecido como Primavera Árabe, alastrando-se para países do Oriente Médio. Apenas na Tunísia se pode dizer que houve mudanças positivas, pois em alguns deles se instalaram outros regimes ditatoriais.


África: recursos naturais e meio ambiente

Riquezas exploradas


O continente africano é rico em recursos naturais. Desde meados do século XX, essa riqueza foi disputada e explorada pelas potências neocoloniais. Hoje, a África continua a ser explorada, mas pelas grandes empresas transnacionais.
Grande parte do território africano é constituída por terrenos de estruturas geológicas antigas. Essas formações proporcionam ao continente grande quantidade de minérios, principalmente metálicos. A África tem as maiores reservas de metais preciosos do mundo, sendo responsável por 50% da produção de diamantes e por metade das reservas de ouro do planeta.
Contudo, o lucro obtido com a extração de petróleo, gás natural, carvão mineral, ferro, níquel, ouro, dia mante e outros minerais não é suficiente para alavancar as economias locais e o desenvolvimento dos países africanos.
As atividades das empresas transnacionais que exploram os recursos do continente africano, além de causarem danosos impactos ao meio ambiente, não promovem melhorias para as popu lações locais. Combustíveis fósseis, matérias-primas, minérios e até mesmo a água têm sido alvo de disputa de interesses econômicos e políticos.

Recursos minerais e energéticos


A África apresenta grande diversidade de recursos naturais com alto potencial econômico. Essa característica tem despertado o interesse de vários países, que deixaram de vê-la apenas como uma região pobre e carente de infraestruturas e passaram a enxergá-la como um continente de oportunidades.
Os recursos minerais são os principais produtos de exportação de vários países africanos. Em 2020, a Zâmbia foi o país que mais exportou cobre no mundo, e Botsuana foi o oitavo maior exportador de diamantes. A África do Sul está entre os maiores produtores mundiais de ouro. 
O continente africano possui cerca de 7,5% das reservas mundiais de petróleo e gás natural e 6% das reservas de carvão mineral, os recursos energéticos mais consumidos do mundo. As maiores reservas de petróleo do continente estão no Norte da África – especialmente na Argélia e na Líbia – e no Golfo da Guiné, onde estão localizados Nigéria, Congo, Gabão, Camarões e Guiné Equatorial. 
Os maiores produtores são Nigéria, Angola, Argélia e Líbia, que, juntos, detêm cerca de 80% da produção do continente. Os principais destinos do petróleo africano são Europa, Estados Unidos e China. Quanto ao gás natural, as reservas se concentram na Argélia, no Egito e na Líbia, mas o maior produtor é a Nigéria. Em relação ao carvão mineral, a África do Sul possui as maiores reservas e está entre os principais produtores mundiais.
Apesar da grande disponibilidade de recursos energéticos, a principal fonte de energia utilizada na África ainda é a lenha, proveniente das grandes áreas de Florestas Equatoriais e Tropicais e das Savanas. A energia hidrelétrica é explorada principalmente nas bacias hidrográficas dos rios Zambeze, Congo, Nilo e Níger, mas as usinas não apresentam grande produção, um dos fatores que dificulta o desenvolvimento da indústria no continente. 
Embora o extrativismo mineral seja uma atividade central em muitos países africanos, ela não beneficia a maioria da população. A exploração em jazidas profundas é realizada principalmente por empresas estrangeiras, geralmente europeias, estadunidenses, chinesas e japonesas, que dominam o mercado e a produção. 
Nas jazidas superficiais, em geral, a exploração é realizada por garimpeiros que utilizam técnicas simples de extração, trabalhando por baixos salários e em condições precárias.

A exploração de carvão mineral 


Moçambique dispõe de jazidas de carvão mineral que estão entre as maiores do mundo. Atualmente, a extração desse minério consolidou-se como a maior fonte de exportação para o país. No entanto, os acordos firmados com as transnacionais vêm se mostrando mais vantajosos para as empresas do que para os cidadãos locais e para o meio ambiente. 
Pesquisas constataram contaminação das águas superficiais da região da bacia carbonífera de Moatize, impactando diretamente a comunidade que faz uso dela. Além disso, na área onde há carregamentos e descarrega mentos de carvão mineral há muita poeira. No ar, a presença de poluentes como dióxido de enxofre, óxidos de nitrogênio e monóxido de carbono causa poluição atmosférica e pode ser prejudicial à saúde da população. 

A extração de petróleo 


A Nigéria é um dos maiores produtores de petróleo do mundo e membro da Opep. Segundo relatórios dessa organização, no início de 2018 a Nigéria havia ultrapassado Angola como o maior produtor africano de petróleo, com mais de 1,8 milhão de barris por dia. Por trás desses números escondem-se danos imensuráveis ao meio ambiente e à saúde pública. Uma das áreas mais afeta das pela exploração do petróleo é o Delta do Níger, ao sul do país. A região é um dos polos petroleiros nigerianos mais produtivos e ao mesmo tempo mais poluentes. De acordo com estimativas, mais de 6,5 mil vazamentos já foram registrados na região.
Em 2008, dois derramamentos de petróleo em Ogoniland levaram as comunidades locais a se aliar a organizações não governamentais. O cenário de Ogoniland contava com manchas de óleo de centímetros de espessura que cobriam o mar, os rios e os lagos, nos quais não era mais possível encontrar peixes e crustáceos, bem como terras onde já não se podia plantar e colher, pondo em risco a reprodução da vida nas comunidades locais. 
Além das manchas de óleo, que impossibilitaram a pesca e a agricultura, os derrames de petróleo atingiram os lençóis freáticos da região, colocando o abastecimento de água potável em risco. Já a queima do gás – proibida por lei desde 1984, mas nunca interrompida – vem causando doenças respiratórias em toda a população.

A corrida do ouro 


O continente africano tem mais da metade das reservas de ouro do mundo. Tanzânia, Mali, Gana e África do Sul estão entre os maiores produtores. Apesar disso, os três primeiros apresentam baixo índice de desenvolvimento humano, enquanto a África do Sul ostenta apenas um modesto médio desenvolvimento.
O uso de mercúrio em jazidas de ouro, com a finalidade de separar o metal precioso do minério bruto, causa um problema ambiental de alcance global. Quando descartado, o mercúrio contamina as águas dos rios nos quais ocorre a lavagem dos minérios. Esse metal, pesado e muito tóxico, é acumulado no organismo dos animais e da vegetação desses rios. Se peixes con taminados por mercúrio forem consumidos na alimentação humana, há sérios riscos de desenvolvimento de doenças fatais. 
Medidas de restrição do uso de mercúrio já foram tomadas em países desen volvidos, o que levou esse problema ambiental a se concentrar em pequenos garimpos nos países mais pobres, de fiscalização ineficaz, como os africanos.
Pesquisas indicaram que as águas do Lago Vitória apresentam concentrações de mercúrio elevadas, principalmente nas regiões próximas a grandes minas de ouro. O risco de intoxicação humana pode ser direto, pela população ribeirinha que utiliza a água para consumo e higiene, ou indireto, por meio do consumo de peixe e gado expostos à água do lago.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Questões ambientais na África


De modo geral, as questões ambientais na África são semelhantes às detecta das em outras partes do mundo e decorrentes tanto de fatores naturais como da atividade humana. No entanto, o contexto de extrema pobreza da população de alguns países agrava ainda mais essas questões no continente africano.

Problemas climáticos


Os problemas climáticos que atingem a África costumam se manifestar de duas maneiras distintas: na forma de secas severas, com consequente desertificação em áreas de degradação do solo, e na forma de chuvas torrenciais, com consequentes inundações. O processo de desertificação avança, especialmente, na porção sul do Deserto do Saara, na região semiárida conhecida como Sahel, que tem sofrido com o avanço gradual do deserto. A porção do continente que mais tem sentido o impacto decorrente de chuvas torrenciais nas últimas décadas é a África Oriental.

Questões energéticas


Em pleno século XXI, é preocupante constatar que, na África Subsaariana, cerca de 65% do total de energia gerada provém da biomassa. Enquanto a energia gerada pelas hidrelétricas e termelétricas se restringe, principalmente, ao abastecimento das cidades, em muitas áreas rurais do continente, a população depende, em larga medida, do uso de madeira e carvão vegetal para atender às suas demandas energéticas. Embora a madeira seja um recurso natural renovável, nesse caso, ela não provém de reflorestamento, mas da exploração excessiva de áreas florestais, agravando os problemas de desmatamento e degradação dos solos.

Desmatamento


A destruição das florestas e outros tipos de vegetação nativa vem afetando, principalmente, a ilha de Madagascar e os países das regiões da África Central e Oriental. Grande parte do problema advém das queimadas, das demandas energéticas por lenha e madeira e da superexploração florestal visando à exportação madeireira e à implantação de atividades agropecuárias.

Perda de biodiversidade


A desertificação e o desmatamento têm diminuído o hábitat natural de muitas espécies, contribuindo para reduzir a rica biodiversidade africana. Outro fator que agrava esse problema é a caça e o tráfico de espécies silvestres e exóticas. Tais atividades ilegais se destinam a abastecer o comércio ilícito de animais e itens, como chifres de rinoceronte e presas de marfim de elefantes, cobiçados em mercados de outros continentes.

A questão da água


O acesso, o uso e o consumo de água estão entre os maiores problemas ambientais da África. Apesar de grandes rios, aquíferos e, principalmente, lagos, a água está distribuída de maneira extremamente desigual pelas diferentes regiões africanas. Diversos países dependem do abastecimento de água proveniente de outras nações, em especial os que abrigam áreas de deserto, como Botsuana, Mauritânia, Níger e Sudão. As mudanças climáticas e a ocorrência de secas prolongadas têm tornado esse problema ainda mais grave.
A tendência é que a escassez desse recurso crie conflitos entre países por onde correm volumosos rios. É o caso do Rio Nilo e de rios em países do centro e do norte do continente africano.
Há anos a Etiópia vem se empenhando na construção da Grande Barragem Renascença, que produzirá eletricidade por meio de uma usina hidrelétrica. No entanto, o projeto é alvo de muita polêmica entre os países vizinhos, pois, com sua implementação, as águas do Nilo Azul, um impor tante afluente do Rio Nilo, serão represadas, e principalmente o Egito e o Sudão veem ris cos de comprometimento do fluxo da água. 
No extremo sul do continente, na África do Sul, a Cidade do Cabo enfrenta a maior crise hídrica de sua história recente. Além do crescimento exponencial da população e da maior seca dos últimos anos, o desperdício de água e a má gestão dos recursos hídricos estão na origem do estresse hídrico da cidade.

Solos da África


A degradação dos solos constitui um dos mais graves problemas ecológicos que o continente africano enfrenta. A erosão eólica e a progressiva desertificação, unidas ao sistema comunal de propriedade da terra, à superexploração agrícola de algumas regiões e aos métodos de cultivo rudimentares, formam um conjunto de fatores que contribui para o processo de deterioração dos solos, pobres em nutrientes, e para seu escasso rendimento agrícola.

Continente árido


Na África existem grandes extensões de terras desérticas (aridissolos e entissolos), escassas em matéria orgânica e pouco aptas para a agricultura. Na África Oriental há alguns redutos de terras muito férteis: os molissolos, também conhecidos como chernozems ou terra negra. No sul e no oeste destacam-se a produtividade dos alfissolos e dos podossolos.
250 milhões de africanos vivem em solos desérticos ou dependem deles para a subsistência. Esse valor equivale a aproximadamente 30% da população continental.
Os ultissolos e os oxissolos, que dominam boa parte do continente, são pouco aptos para a agricultura permanente, a menos que sejam enriquecidos com fertilizantes e nutrientes.

Um deserto que se expande 


Do total das terras do continente africano, 46% estão submetidos a processos de desertificação. A degradação dos solos, um problema crescente na África, tem deixado uma marca irreparável em aproximadamente 20% do território.
US$ 4 bilhões se perdem por ano em nutrientes do solo na África por causa de práticas agrícolas inadequadas e da desertificação.

EXPLOSÃO AGRÍCOLA


Nos últimos 30 anos, o importante crescimento da atividade agropecuária na África contribuiu para a degradação dos solos dedicados ao cultivo e à pecuária no continente.
A chamada Revolução Verde, que possibilitou o espetacular incremento dos rendimentos agrícolas na última metade do século XX, não chegou ao continente africano.

Solos e desertificação 


Desertificação é o processo de degradação dos solos, no qual há destruição ou redução de sua produtividade biológica, ou seja, o solo torna-se infértil. É mais comum em áreas onde predominam climas áridos e semiáridos, sendo resultado de diversos fatores:
  • desmatamento para diferentes fins, como construções e pastagens; 
  • mudanças nos hábitos alimentares das pessoas (o maior consumo de produtos de origem animal faz com que aumentem as áreas de pastagem e a pressão sobre o solo por causa do pisoteio do gado); 
  • aplicação de técnicas inadequadas e manejo do solo, como queimadas e arados; 
  • uso da água sem planejamento e com técnicas inadequadas de irrigação; 
  • mudanças climáticas, com aumento da temperatura média global e episódios de seca; 
  • erosão do solo causada pela ação da água e dos ventos.
A desertificação é um processo crescente, que afeta aproximadamente 40% das terras emersas do planeta e suas populações. Com a consequente redução das áreas de agricultura, a produção de alimentos para comunidades locais é prejudicada. 
Além disso, os ecossistemas são alterados, resultando em escassez de água e perda da biodiversidade, com extinção de espécies animais e vegetais. No continente africano, a desertificação ocorre especialmente na região do Sahel, onde há vegetação de Estepe e os solos são mais frágeis.
Em muitos países, projetos vêm sendo desenvolvidos para combater a desertificação. No continente africano, um desses projetos é conhecido como “Grande Muralha Verde”. Iniciado em 2007, ele envolve vários países. 
A ideia principal é plantar árvores na faixa do Sahel, do Senegal até o Djibuti, formando uma “muralha verde” que impede a passagem do vento e da areia do deserto para o restante do continente, além de melhorar a qualidade do solo, com a matéria orgânica produzida pela vegetação. 
Quase vinte anos após o início do projeto, o balanço é positivo. Além do plantio de árvores, outras iniciativas envolvendo as populações locais surgiram em torno da formação da muralha, como projetos agropastoris e de gestão dos recursos naturais, que, ao criarem melhores condições de vida, contribuem para a fixação das populações e para a redução da violência, entre outros exemplos.

Florestas remanescentes na África 


República Democrática do Congo (RDC), Camarões e Gabão, juntos, concentram mais de 90% da cobertura original de Florestas Tropicais da África. A RDC é o segundo país com maior cobertura de Florestas Tropicais do mundo. O Brasil ocupa o primeiro lugar. 
Apesar dos esforços dos países para combater a exploração ilegal de madeira, essa atividade continua sendo uma das principais ameaças às Florestas Tropicais e Equatoriais africanas. Mais de 80% de toda a exploração é feita de forma ilegal, inclusive em áreas protegidas. 
Além da extração madeireira, também ameaçam a fauna e a flora locais o cultivo de palmeiras para a extração do óleo de palma e de outros produtos agrícolas, a mineração de ouro e a exploração de petróleo. 
Parte da extração de madeira na República Democrática do Congo ocorre por meio de concessões feitas a empresas estrangeiras, com o objetivo de regularizar a atividade e minimizar os impactos socioambientais. 
A realidade, porém, aponta o aumento da devastação das áreas florestais e, consequentemente, a precarização das condições de vida de milhões de pessoas reunidas em mais de 150 comunidades tradicionais, que tiram seu sustento dessas áreas. 
Nas áreas de concessões, é comum que os recursos dos quais as comunidades dependem se tornem escassos e que haja supressão de postos de trabalho. Além disso, aqueles que resistem às operações realizadas pelas madeireiras enfrentam conflitos e violações de direitos humanos. 
Em 2021, alguns contratos de concessão começaram a ser revistos pelo governo, sob suspeita de corrupção e favorecimento a empresas estrangeiras. Porém, há previsão de abertura de novas concessões, o que tem gerado grande reação por parte da comunidade internacional.

Ajuda ao desenvolvimento na África

Diante dos diversos problemas socioeconômicos que afligem grande parte dos países em desenvolvimento, em 1970 a ONU afirmou, junto aos governos dos países desenvolvidos, sobretudo os que fazem parte da OCDE, o compromisso de financiar projetos que objetivem auxiliar essas nações.
Para isso, ficou determinado que os países desenvolvidos membros da OCDE deveriam converter 0,7% de sua renda nacional bruta (RNB) em doações e em préstimos que amenizassem problemas vivenciados pelas nações pobres do mun do. Entre os projetos, podem ser destacados a ajuda alimentar, o auxílio militar e financeiro e a assistência técnica em setores estratégicos, como a defesa (treina mento de tropas e fornecimento de equipamentos e suprimentos para o combate a grupos extremistas e milícias).
Ao longo dos anos, foram poucas as nações que atingiram a meta estipula da pela ONU. Com exceção de Luxemburgo, Suécia, Países Baixos, Noruega e Dinamarca, todos os outros incumbidos dessa responsabilidade, como Estados Unidos, Itália e Japão, não atingiram o valor estipulado que deveria ser desti nado a ajudar os países em desenvolvimento. 
A ajuda econômica aos países africanos, principalmente os da África Subsaariana, também envolve críticas em razão da elevada corrupção presente em muitos governos da região, dado que os recursos destinados à saúde e à educação não são devidamente investidos. Para muitos africanos, tal auxílio não encaminha para a resolu ção do problema, pois à medida que se destinam empréstimos aos países em desenvolvimento, como vimos anteriormente, estes se tornam cada vez mais dependentes e endividados, já que as taxas de juros aumentam o montante do valor emprestado.

OCDE: Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, formada por 30 países, muitos deles altamente industrializados. Com sede em Paris, na França, a OCDE tem como um de seus objetivos promover o desenvolvimento econômico de seus países-membros.

A ÁFRICA E SUAS REGIÕES

O continente africano também pode ser regionalizado com base na localização geográfica dos países, formando cinco grandes conjuntos.  Essa d...