Na América Latina, os fluxos migratórios contemporâneos ocorrem com menos intensidade quando comparados aos de outras regiões do globo, como na Europa, América do Norte, Ásia e África.
Atualmente, os grandes fluxos migratórios na América Latina estão relacionados a países da América Central, México e Venezuela.
Durante as últimas décadas do século XX, em decorrência de crises econômicas, o aumento do desemprego e da pobreza, as migrações de latino-americanos se diri giam principalmente em direção aos países desenvolvidos, sobretudo para os Estados Unidos e o continente europeu.
No início do século atual, entretanto, os fluxos migratórios de latino-americanos também se intensificaram no interior da própria região, ou seja, eles passaram a se deslocar também para os países vizinhos. Entre 2009 e 2015, por exemplo, o fluxo migratório entre os países da região aumentou em 50%.
Entre as razões que vêm contribuindo para o aumento das migrações na região destacam-se:
• a adoção de regras mais rígidas para a entrada dos imigrantes la tinos nos países desenvolvidos;
• as características históricas e cul turais comuns entre os países da região;
• as oportunidades no mercado de trabalho, sobretudo nos países de maior economia da região, como o Brasil, a Argentina e o Chile.
Em geral, os latinos encontram certa facilidade para deixar seu país de origem e entrar em outros países da região. A maioria dos governos da região adota políticas migratórias pouco restritivas, permitindo a entrada dos imigrantes. Por outro lado, pela falta de fiscalização e de controle nas zonas de fronteiras, muitos imigrantes conseguem chegar clandestinamente aos países de destino.
De maneira geral, a busca por trabalho e melhores condições de vida são os prin cipais fatores que levam os latino-americanos a deixar seus países de origem. Nos últimos anos, por exemplo, milhares de venezuelanos têm migrado para os países vizinhos, inclusive para o Brasil, em decorrência da grave crise econômica que afeta a economia daquele país. Mas, além dos problemas socioeconômicos, as migrações na região também têm outras causas. Em 2010, o forte terremoto que atingiu o Haiti, um dos países latino-americanos mais pobres, localizado no mar do Caribe, causou milhares de mortes e deixou milhões de desabrigados, muitos dos quais migraram para outros países, inclusive para o Brasil.
O Brasil também participa das migrações que ocorrem na América Latina, tanto recebendo imigrantes latino-americanos quanto tendo a saída de brasileiros para ou tros países da região. De acordo com dados de 2020, entre os imigrantes latinos em maior número no Brasil estão os venezuelanos (172 mil), os haitianos (149 mil), os bolivianos (56 mil) e os argentinos (25 mil). Os emigrantes brasileiros, por sua vez, também são numericamente expressivos em vários países do continente. Cerca de 240 mil brasileiros vivem no Paraguai, 89 mil na Argentina, 72 mil na Guiana Francesa e 43 mil no Uruguai.
A pandemia de covid-19 teve impactos na dinâmica migratória latino-americana. Apesar da imposição de restrições para entrada e saída de pessoas dos países, mais rigorosa no ano de 2020, os fluxos migratórios não pararam, já que as migrações, nesse contexto, são forçadas. Além disso, com o aumento da pobreza e das desigualdades pós-pandemia, tudo indica que haverá uma intensificação desses fluxos nos próximos anos.
Em linhas gerais, a América Latina apresenta três tendências migratórias importantes:
- dos países da América Latina para a América Anglo-Saxônica (aproximadamente 26 milhões de migrantes);
- dos países da América Latina para outras regiões do mundo (aproximadamente 6 milhões de migrantes);
- entre os países da América Latina (aproximadamente 11 milhões de migrantes).
Os Estados Unidos são o principal destino de migrantes do mundo. Em 2020, 51 milhões de migrantes internacionais viviam no país. Desse total, 67% eram latino-americanos.
Além dos cubanos, dominicanos e mexicanos, que têm grandes populações migrantes nos Estados Unidos, o país tem recebido muitos hondurenhos, guatemaltecos e salvadorenhos. A população desses países centro-americanos está em situação de grande vulnerabilidade.
Os problemas econômicos, a violência causada pelo tráfico de drogas e eventos climáticos, como enchentes, secas e furacões, forçam milhões de pessoas ao êxodo. Esses migrantes se organizam em caravanas para realizar a viagem.
O percurso, saindo da América Central, passando pelo México e chegando à fronteira dos Estados Unidos, é um dos mais perigosos do mundo, sendo muito frequentes casos de desaparecimento, agressões e mortes.
Apesar das promessas de revisão das leis de imigração, os Estados Unidos continuam a fazer um rígido controle diante da quantidade de pessoas que chegam à fronteira do país. A fiscalização foi reforçada e medidas polêmicas vêm sendo adotadas, como a detenção e deportação de migrantes e o uso da violência por policiais.
Fluxos intrarregionais
Em 2020, mais de 11 milhões de pessoas migraram no interior da América Latina. As migra ções intrarregionais têm como principal destino Argentina, Colômbia e Chile, atraindo pessoas dos países andinos e do Paraguai.
A situação da Venezuela tem alterado os fluxos na região. Aproximadamente 85% dos mais de 5 milhões de venezuelanos que já deixaram o país permaneceram na América Latina, tendo a Colômbia como principal destino. Pela proximidade geográfica, também são áreas de atração de venezuelanos, República Dominicana, Trinidad e Tobago e Guiana.
O México é um país de trânsito e de imigração. Milhares de migrantes latino-americanos atravessam o país e se juntam aos mexicanos que tentam, diariamente, entrar nos Estados Unidos, ampliando a crise migratória. Com as detenções e deportações na fronteira, a tendência é que os migrantes permaneçam no México, agravando a situação socioeconômica do país.
Muitos desses migrantes vivem no Sul e na Costa Oeste dos Estados Unidos, onde são conhe cidos por braceros (trabalhadores) e atuam na colheita de produtos agrícolas. Outros trabalham em indústrias, na construção civil, no setor de serviços, entre outras ocupações.
A Venezuela é o principal produtor e exportador de petróleo da América Latina. A renda gerada pela atividade é controlada pelo governo e distribuída de forma desigual, o que contribui para o grande número de pessoas vivendo na pobreza e em condições precárias no país.
No ano de 2014, o preço do barril do petróleo começou a cair rapidamente no mundo todo. A consequência imediata foi a diminuição das receitas e o agravamento das dificuldades econômicas e sociais já existentes.
Foram feitos cortes nos programas sociais, e uma grave crise de abastecimento de produtos básicos teve início, pois a Venezuela importa mais de 70% dos produtos que consome. Esse contexto, somado à insatisfação popular com o governo e à altíssima inflação, mergulhou o país em uma grave crise econômica e humanitária, forçando os venezuelanos a deixar o país.