segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Os povoadores do território brasileiro

O território que hoje faz parte do Brasil era habitado por diferentes grupos humanos há milhares de anos. Esses grupos viveram em diferentes épocas e lugares, e cada um deles tinha seu próprio modo de vida.
Estudos indicam que, milhares de anos atrás, o ambiente da região onde mais tarde seria o Brasil era diferente do atual: o nível do mar era mais baixo – o que tornava o litoral mais extenso –, os cerrados cobriam grande parte do território e as florestas eram menores. O clima era mais seco e mais frio. Já havia animais como tatus, preguiças, antas e macacos, além da preguiça-gigante e do tigre-dente-de-sabre, animais extintos da megafauna.
Os primeiros habitantes do território que corresponde ao Brasil atual viviam da caça e da coleta. Contudo, à medida que se deslocavam, transformavam o ambiente e se adaptavam aos recursos naturais encontrados, esses povos foram se diferenciando e desenvolvendo novas formas de viver e de se organizar.
As discussões entre os arqueólogos para determinar quais rotas os grupos humanos percorreram para chegar à América e quando isso teria acontecido também se repetem, evidentemente, quando o assunto é o povoamento do território brasileiro. Até o momento, o que é aceito pelos cientistas é que, há pelo menos 12 mil anos, o território que hoje corresponde ao Brasil já era ocupado por pequenos grupos de caçadores e coletores. 
De acordo com estudos publicados em 2018, os primeiros seres humanos chegaram à América há cerca de 17 mil anos, e o povoamento da região que corresponde à atual América do Sul aconteceu a partir de duas levas migratórias: a primeira ocorreu entre 15 e 11 mil anos atrás, e a segunda, há 9 mil anos.
Pontas de lança e de flechas feitas de sílex e quartzo encontradas em sítios arqueológicos no Brasil, fabricadas e utilizadas por grupos caçadores-coletores da Pré-História.

Essas pesquisas chegaram a tais conclusões com base em análises genéticas detalhadas dos fósseis humanos encontrados na América. De acordo com tais análises, os grupos que povoaram o continente eram formados apenas por populações mongoloides e deram origem aos diversos povos indígenas que o ocuparam.
Estudos mais recentes, porém, indicam que dois grupos – de origem mongoloide e não mongoloide – compuseram as primeiras populações do território hoje chamado de Brasil. No decorrer dos séculos, os povos indígenas de origem não mongoloide desapareceram, e os cientistas ainda não sabem explicar as razões para isso. Uma das hipóteses é que tenham se extinguido após terem contato com os europeus, que chegaram à América a partir do século XV.
Os vestígios mais antigos já encontrados sobre os primeiros habitantes que viviam nas terras onde hoje fica o Brasil estão no sítio arqueológico da Pedra Furada, no Piauí. Lá foram encontrados objetos de pedra e inúmeras pinturas rupestres, nas quais estão registrados elementos da flora e da fauna e cenas de caça, coleta, danças e guerras. 
No mesmo local foram descobertos vestígios fossilizados de carvão sobre os quais existe uma discussão científica. Alguns pesquisadores argumentam que são restos de fogueiras feitas por seres humanos; outros defendem que são resultados da ação da natureza. 
Testes realizados pela equipe da arqueóloga Niède Guidon revelaram a provável idade desses vestígios: entre 60 mil e 100 mil anos, o que contraria os resultados dos estudos genéticos feitos nas ossadas encontradas em outros sítios arqueológicos da América.
Pesquisas arqueológicas feitas pelo cientista brasileiro Walter Neves, entre o final do século XX e o início deste século, identificaram em Lagoa Santa, Minas Gerais, diversas evidências dos primeiros habitantes do Brasil. Nas escavações foram encontrados, por exemplo, objetos pontiagudos de pedra e ossos, além de sepulturas com ossadas humanas de adultos e crianças. 
Na época, concluiu-se que a origem dos antigos habitantes poderia ser africana ou sul-asiática; essa pesquisa ficou amplamente conhecida a partir da divulgação das imagens do crânio de uma mulher apelidada de Luzia, a primeira brasileira. Na ocasião, foi feita uma reconstrução facial do provável aspecto de Luzia, que teria traços predominantemente africanos.
Recentemente, outras pesquisas com base no material genético das mesmas ossadas questionam as conclusões sobre a origem africana daqueles habitantes ancestrais e reafirmam seus argumentos em defesa da origem asiática. As novas tecnologias de busca e análise de sítios arqueológicos, bem como a possibilidade de novas descobertas, podem vir a modificar as teorias já existentes.  
Os primeiros habitantes do Brasil viviam principalmente em habitações a céu aberto ou em abrigos sob rochas e, às vezes, em cavernas. No interior das cavernas, os moradores costumavam fazer pinturas que mostravam cenas da vida cotidiana, figuras de animais e de pessoas.
A descoberta de vestígios como artefatos de pedra, anzóis feitos de ossos e conchas per furadas indica que tais povos praticavam a caça, a pesca e a coleta. 
Os mais antigos vestígios de agricultura no território brasileiro datam de aproximadamente 7 mil anos atrás e foram encontrados na região amazônica. Os primeiros agricultores plantavam milho, algodão e feijão, mas a mandioca era o principal cultivo. Raiz rica em calorias, ainda hoje é uma fonte de energia fundamental para milhares de pessoas no Brasil. Como aconteceu em outras regiões do mundo, mesmo após a descoberta da agricultura, diversos povos continuaram sendo, basicamente, caçadores e coletores. Assim, os povos agricultores mantiveram a caça e a pesca como parte das suas atividades cotidianas.

Caçadores-coletores


Os povos caçadores-coletores viviam da caça, da pesca e da coleta de alimentos. Não praticavam a agricultura, mas tinham o domínio do fogo e fabricavam instrumentos variados, feitos de pedra e de ossos. Embora existam muitas semelhanças entre os modos de vida dos primeiros povos caçadores-coletores, também é possível identificar diferenças entre eles. Aliando trabalho e criatividade, esses povos desenvolveram culturas próprias.
A maioria das informações que temos sobre eles vem de inscrições rupestres e dos vestígios de seus instrumentos, ali mentos e habitações. No estado de São Paulo, por exemplo, os pesquisadores acharam diversos tipos de ponta de flecha. Em Minas Gerais e no Piauí, descobriram uma grande quantidade de pinturas rupestres que provavelmente foram elaboradas por esses povos.
Já no Rio Grande do Sul, foram encontradas facas de pedra em forma de bumerangue e boleadeiras, que é um instrumento composto de duas ou três bolas de pedra amarradas por um cordão, feito geralmente de couro. As boleadeiras eram lançadas nas patas do animal para derrubá-lo. Até hoje elas são usadas por alguns gaúchos que vivem no campo e criam animais.

Os povos dos sambaquis 


Por volta de 11 mil anos atrás, a temperatura terrestre começou a se elevar, provocando o gradativo derretimento das geleiras e, consequentemente, o aumento do nível dos oceanos. Com essa mudança climática, muitos grupos instalaram-se no litoral, pois o oceano tornou-se uma fonte de alimentos fundamental. 
Há aproximadamente 6 mil anos, no litoral dos atuais estados de Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, viveram comunidades que se sedentarizaram na região, praticando a caça, a coleta e o cultivo de tubérculos e vegetais. Além de manter as atividades de caça e coleta, esses povos passaram a consumir peixes, moluscos e crustáceos. Esses povos construíram verdadeiras montanhas de conchas, chamadas sambaquis e, por isso, são chamados de sambaquieiros.
Sambaqui (palavra de origem tupi que significa “monte de conchas”) é um acúmulo de conchas de moluscos e restos de animais, como peixes e aves, que essas comunidades depositaram em determinados locais ao longo do tempo. Existem sambaquis que atingem até 30 metros de altura e 400 metros de comprimento por 100 metros de largura.
O sambaqui mais antigo do Brasil fica no Vale do Ribeira, no interior do estado de São Paulo, e tem cerca de 9 mil anos de existência. Porém, a maior parte dos sambaquis brasileiros está no litoral e os mais antigos têm aproximadamente 7,5 mil anos de existência.
Os cientistas não sabem as razões pelas quais os sambaquieiros – nome dado aos moradores dos sambaquis – faziam essas elevações. Eles acreditam que, quanto mais alto fosse um sambaqui, maior seria o prestígio das pessoas que viviam nele. Os sambaquieiros construíam suas residências e enterravam seus mortos nessas elevações. 
Os estudos dos sambaquis sugerem que, até por volta de mil anos atrás, muitos desses povos formavam aldeias com cerca de 150 habitantes. Viviam da coleta, da caça e, principalmente, da pesca. Utilizavam instrumentos feitos de pedra (enfeites, facas, flechas, machados) e de osso (ar pões, agulhas, anzóis). Tinham também o domínio do fogo e assavam os alimentos. Os povos dos sambaquis tornaram-se, portanto, sedentários, mesmo não baseando sua subsistência na prática da agricultura.
Nos diversos sambaquis, os arqueólogos encontraram esculturas e artefatos de pedra, osso, madeira e dentes de tubarão. A descoberta mais reveladora da provável função dos sambaquis, porém, foram os esqueletos de crianças, mulheres e homens, indicando que se tratavam de cemitérios coletivos.  
Os sambaquis eram utilizados para enterrar os mortos e seus objetos pessoais (enfeites, utensílios e armas). Isso indica que, provavelmente, já existia entre os sambaquieiros uma preocupação religiosa com a morte. Esses povos também costumavam construir suas habitações sobre os montes de conchas.
Pesquisas recentes demonstram que os povos dos sambaquis escolheram as conchas como material de construção porque, empilhadas de forma organizada, elas funcionam como um cimento que não se dissolve facilmente com o passar do tempo. Assim, os sambaquieiros garantiam aos mortos uma posição de destaque nas planícies do litoral.

Sambaqui do sítio arqueológico Santa Marta III, em Laguna (SC).


Há sambaquis nas regiões Sul, Norte e Sudeste do Brasil, nos Estados Unidos, no Peru e no Chile. Alguns têm mais de 8 mil anos. Neles, os arqueólogos encontraram importantes vestígios da presença humana, como restos de alimentos (ossos de animais) e de fogueiras, artefatos e zoólitos (esculturas em forma de animais da fauna local) feitos de pedra polida, além de vestígios de moradias e de sepultamentos.
Além disso, a existência de vários sambaquis próximos uns dos outros revela que essas comunidades desenvolveram relações organizadas para explorar os recursos naturais da região.
A expansão territorial dos sambaquieiros durou cerca de 5 mil anos e foi interrompida pela ocupação de grande parte do litoral e parte do interior por aldeias da etnia Tupi.
Os sambaquis das regiões Sul e Sudeste são os mais conheci dos e estudados do Brasil. Existe, porém, grande quantidade de sambaquis na região da Amazônia, em especial no litoral do Pará. Alguns deles são tão grandes que chegam a atingir 30 metros de altura e 400 metros de comprimento. Os sambaquis litorâneos, que são os mais antigos, podem ter 7 mil anos de idade ou mais. Nesses sítios arqueológicos foram encontradas peças feitas de cerâmica e artefatos de pedra polida.
Mais do que montes formados de material orgânico e calcário, os sambaquis impressionam por seu tamanho e intrigam por sua finalidade. Atualmente, acredita-se que o sambaqui era um local preparado para enterrar os mortos e depositar oferendas. Isso explicaria os esqueletos humanos descobertos nesses locais, cada um deles protegido por uma cerca, como se fosse um ritual funerário.
Os sambaquieiros dispunham de comida abundante proveniente da caça, da pesca e da coleta de alimentos. Por isso, podiam permanecer por um bom tempo no mesmo lugar. Os povos dos sambaquis desapareceram ao longo do século XVI.

Conchas de sambaquis no sítio arqueológico Ponta da Garopaba do Sul, em Jaguaruna, SC.

Os sambaquis fazem parte do patrimônio arqueológico do Brasil, mas sua preservação está ameaçada pela atividade de exploração do calcário, largamente utilizado para a produção de cimento e cal.
À medida que as pesquisas em sítios arqueológicos no território brasileiro se ampliarem, outras informações poderão complementar ou modificar as teorias existentes sobre o modo de vida dos povos dos sambaquis.

Destruição dos sambaquis


No final do século XV, com a chegada dos europeus ao continente americano, muitos sambaquis foram destruídos. Alguns portugueses tiravam as conchas dos sambaquis para fabricar cal (material usado na construção de habitações).
Atualmente, a preservação dos sambaquis continua sendo ameaçada. Eles são destruídos com o objetivo, por exemplo, de abrir caminho para novas construções ou de extrair materiais para a produção agrícola. Também é comum os sambaquis se deteriorarem por causa do trânsito de pessoas e de veículos, sobretudo em áreas litorâneas exploradas pelo turismo.
Apesar desse processo de destruição, ainda existem sambaquis no litoral brasileiro, muitos deles estudados por equipes de arqueólogos e historiadores. 
Os sambaquis estão localizados desde o estado do Rio Grande do Sul até o Espírito Santo. Têm idades variadas, em bora seja difícil dizer exatamente quando foram formados. Alguns, como o de Capelinha (São Paulo), têm cerca de 8 mil anos. Outros, como os de Paranaguá (Paraná), têm entre 6 mil e 7 mil anos. 

As sociedades amazônicas 


No início do século XIX, naturalistas europeus encontraram cemitérios indígenas às margens de diversos rios da floresta Amazônica. Nesses locais, foram encontrados artefatos de cerâmica que datam de mais de 4 mil anos. Essas descobertas impulsionaram o estudo sobre os povos ceramistas que habitaram a Região Norte do Brasil.
Em suas pesquisas, os arqueólogos encontraram provas de que o ser humano já habitava a Amazônia há cerca de 12 mil anos. Segundo suas investigações, as pessoas da região organizavam-se nessa época em pequenos grupos e viviam da caça e da coleta de alimentos na natureza.
Por oferecer uma variedade muito grande de recursos naturais, a região amazônica passou a atrair diversos grupos nômades, que começaram a viver no interior das florestas e nas proximidades de rios e outras fontes de água. 
Hoje se sabe que esses povos ceramistas eram agricultores. Como cultivavam os próprios alimentos, eles eram essencialmente sedentários. Suas moradias eram construídas de acordo com as condições geográficas dos lugares que habitavam. Para evitar que suas aldeias fossem alagadas pelas águas dos rios nas épocas de cheias, esses povos as construíam em morros artificiais chamados tesos.
Entre 3 mil e mil anos atrás, surgiram sociedades mais complexas, ou seja, com uma organização social hierárquica e uma produção artesanal desenvolvida.
Esses grupos inicialmente praticavam a caça, a pesca e a coleta de frutos e se mentes. Aos poucos, as atividades de extração e consumo de recursos naturais provocaram grandes modificações na paisagem amazônica. As sementes de árvores e de plantas que forneciam alimentos eram descartadas pelos seres humanos, o que propiciou a disseminação dessas espécies pelas terras da região, processo ligado à origem do domínio de práticas agrícolas por esses grupos e que, posterior mente, levou à sedentarização deles, formando grandes sociedades amazônicas.
O desenvolvimento das práticas agrícolas e a transformação da paisagem amazônica possibilitaram o crescimento populacional das sociedades que se estabeleceram na região, o que deu origem a grandes civilizações, como as culturas marajoara e tapajônica, no atual estado do Pará, e as da região do Alto Xingu, norte do estado do Mato Grosso. 
As sociedades amazônicas se organizavam a partir de aldeias que se interligavam e podiam formar grandes complexos urbanos. Além disso, desenvolveram técnicas complexas de artesanato, cerâmica e produção de ferramentas diversas.

Culturas agrícolas da Amazônia


A ideia que predominou entre arqueólogos durante o século XX foi a de uma Amazônia despovoada. Todavia, pesquisas feitas no final do século XX oferecem outro panorama. A região é riquíssima em sítios arqueológicos, que indicam uma ocupação iniciada há mais de 11 mil anos e dão pistas valiosas sobre os hábitos de seus primeiros habitantes, que viviam da caça, da pesca e da coleta.
Pesquisadores encontraram na Amazônia vestígios de sementes e restos de plantas cultivadas, que são diferentes das plantas encontra das na natureza, datados de 5000 a.C. Isso é um sinal de que ocorreu ali um processo de domesticação de vegetais. Contudo, a agricultura provavelmente só se tornou importante para as populações amazônicas por volta do ano 1000 a.C.
Segundo a arqueóloga Anna Roosevelt, os povos da região amazônica começaram a  praticar a agricultura há cerca de 7 mil anos. Eles desenvolveram cultivos próprios, como plantas medicinais e corantes; mas a descoberta mais importante desses grupos foi o cultivo da cultivo da mandioca, raiz de alto valor nutritivo com algumas variedades venenosas.
A região amazônica teve destaque na introdução da agricultura nas terras que atualmente compõem o território brasileiro. 
Segundo o arqueólogo Eduardo Góes Neves, é provável que povos da Amazônia tenham desenvolvido formas iniciais de agricultura a partir de 6000 a.C. Por volta de 1000 a.C., esses povos já adotavam modos de vida plenamente agrícolas. Isso contribuiu para que a população aumentasse e migrasse para outras regiões do atual Brasil. 
Nesse período, as sociedades estabelecidas nas várzeas do Rio Amazonas, no norte do Brasil, e do Rio Orinoco, na atual Venezuela, tornaram-se bastante numerosas e passaram a ser comandadas por elites dirigentes, formando os chamados cacicados complexos.
Os cacicados eram uma forma de organização social e política em que aldeias populosas estavam submetidas a um chefe poderoso, que cobrava tributos e liderava guerras contra os vizinhos pelo controle de recursos naturais. A sociedade era dividida em diferentes estratos, o que tornava algumas pessoas mais importantes que outras. Também havia quem se dedicasse a atividades específicas, como o artesanato, a pesca e a agricultura.
Os cacicados eram formados por enormes áreas cultivadas com várias espécies de planta. Seus habitantes criavam tartarugas e peixes em viveiros e produziam um artesanato sofisticado, que era comercializado com outros povos. Além disso, eles realizavam obras de terraplenagem e irrigação. Na Ilha de Marajó, por exemplo, foram encontrados extensos morros artificiais construídos para evitar que as vilas, densamente povoadas, fossem atingidas pela cheia dos rios na época das chuvas.
Entre as plantas cultivadas por esses povos estão mandioca, pupunha, abacaxi, maracujá, cacau, feijão, amendoim, tomate, abóbora, açaí e tabaco. Atualmente, essas plantas são amplamente comercializa das e consumidas em várias regiões do mundo, como a América Latina, África, Ásia e Europa.

Os povos ceramistas


Nas terras que hoje formam o Brasil, a agricultura começou a ser praticada há cerca de 7 mil anos e parece ter sido quase sempre uma atividade complementar à caça e à coleta. 
Nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, pesquisadores encontraram vestígios de povos que produziram peças de cerâmica escura relativamente pequenas e com paredes finas. Essa tradição ceramista, conhecida como Itararé-Taquara, desenvolveu-se há cerca de 2 mil anos e tinha características semelhantes às de culturas nativas que existiram na mesma época na Argentina e no Uruguai.
Os povos dessa tradição alimentavam-se de produtos coletados na região, como o pinhão, e da caça de pequenos animais. Há indícios de que cultivavam amendoim, feijão e abóbora. Suas casas eram subterrâneas e apresentavam túneis, onde eles guardavam alimentos e por onde fugiam ou se abrigavam quando eram atacados por inimigos. 
Também há cerca de 2 mil anos, espalharam-se pela região central do Brasil grupos humanos da tradição Una. Esses povos fabricavam instrumentos de pedra polida e objetos de cerâmica e viviam da caça, da coleta de frutos silvestres, da pesca e do cultivo de alguns alimentos, principalmente o milho.
Na região central do país também foram encontrados vestígios da tradição Aratu-Sapucaí. Ela é associada à construção de grandes aldeias, com cabanas dispostas em círculo, e à fabricação de tecidos e objetos de pedra, além de uma cerâmica bastante simples, constituída de vasilhas e urnas funerárias para sepultar os mortos.

Os povos ceramistas da Amazônia


Os povos ceramistas e agricultores da Amazônia produziam suas cerâmicas coletivamente, utilizando argila coletada nos rios da região. Com esse material eles produziam diferentes peças, como estatuetas, vasos e outros utensílios. 
Eles costumavam decorar esses artefatos com o uso de gravetos e ossos de animais, fazendo marcações na argila ainda úmida. Depois de secas ao sol, as peças eram levadas a altas temperaturas para que adquirissem rigidez e resistência.
Os vasos cerâmicos eram utiliza dos para transportar água, guardar os alimentos e cozinhá-los. Foram encontrados também grandes vasos usados como urnas funerárias.
É provável que a produção de cerâmica tenha sido iniciada no território brasileiro na mesma época em que começou o cultivo de alimentos. A atividade ceramista era exercida provavelmente por mulheres.

Estatueta da cultura Santarém. c. 1000 a 1400. Cerâmica restaurada, 23 × 28 cm. Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém (PA).

Uma das mais antigas cerâmicas do Brasil foi encontrada em um sambaqui da região de Santarém, na junção do rio Tapajós com o Amazonas. O fato de ela estar associada a um sambaqui, e não à agricultura, nos leva a questionar a ideia de que a cerâmica foi desenvolvida exclusivamente para armazenar grãos e cozinhar alimentos. 
É possível que algumas sociedades ameríndias tenham produzido peças de cerâmica para fins cerimoniais. Exemplo disso são as urnas funerárias, recipientes com tampa nos quais o corpo ou os ossos do morto eram depositados.
A região amazônica também teve um importante papel na introdução da cerâmica. Foram encontradas cerâmicas no atual estado do Pará que datam de cerca de 5000 a.C. As cerâmicas amazônicas são consideradas as mais antigas das Américas. 
Os povos ceramistas da Amazônia confeccionavam objetos como potes, vasos, panelas, tigelas etc. Embora exista uma forte relação entre o desenvolvimento da cerâmica e o da agricultura, isso não quer dizer que todo povo ceramista fosse agricultor. Havia, inclusive, povos caçadores-coletores que produziam cerâmicas. 
Entre os povos amazônicos, vamos destacar aqueles que viviam no atual município de Santarém e na Ilha de Marajó, ambos pertencentes ao atual estado do Pará, há cerca de 2000 anos. Nessas regiões, foram encontradas cerâmicas originais e bem elaboradas.
Foi na ilha de Marajó, na foz do Rio Amazonas, entre os séculos IV e XIV, que se desenvolveu a mais notável cultura amazônica: a volveu a mais notável cultura amazônica: a cultura marajoara. Os marajoaras parecem ter tido uma organização social complexa. Até o presente, nossa principal fonte para o conhecimento desse povo são os objetos de cerâmica que produziram.
A cerâmica marajoara era decorada com desenhos sugestivos  e variados e com pinturas policromáticas. As cores mais usadas por eles eram o vermelho, o branco e o preto. Muitas de suas eles eram o vermelho, o branco e o preto. Muitas de suas urnas funerárias funerárias traziam representações do corpo feminino, o que, para alguns pesquisadores, demonstra a importância que as mulheres tinham na sociedade marajoara.

Vaso marajoara de cerâmica. Os marajoaras usavam símbolos geométricos e grafismos para decorar suas peças. 

Vaso marajoara que pertence ao acervo do Museu de História Natural de Nova York (EUA).

Os povos santarenos e marajoaras produziram diversos objetos de cerâmica, como recipientes decorados, urnas funerárias e estatuetas com forma de seres humanos (antropomórficas) e de animais (zoomórficas). 

Cerâmica marajoara produzida entre 400 e 1400 d.C.

Pingentes em forma de batráquios produzidos com rochas diversas coletados no Complexo Tapajós, em Santarém (PA). 

Os povos santarenos e marajoaras produziram diversos objetos de cerâmica, como recipientes decorados, urnas funerárias e estatuetas com forma de seres humanos (antropomórficas) e de animais (zoomórficas).
Os santarenos criaram cerâmicas com pinturas, desenhos em relevo e esculturas que eram moldadas separadamente e aplicadas nas bordas dos vasos. Já os marajoaras produziram objetos de cerâmica enfeitados com pinturas em preto e vermelho sobre um fundo branco. Para alguns estudiosos, essas pinturas estão entre as mais belas do mundo. 

Recipiente santareno decorado com esculturas em forma de cabeça de urubu. Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém, Pará.

Os santarenos criaram cerâmicas com pinturas, desenhos em relevo e esculturas que eram moldadas separadamente e aplicadas nas bordas dos vasos. Já os marajoaras produziram objetos de cerâmica enfeitados com pinturas em preto e vermelho sobre um fundo branco. Para alguns estudiosos, essas pinturas são consideradas uma das mais belas do mundo. 

Povo de Lagoa Santa 


O primeiro cientista a estudar vestígios arqueológicos no Brasil, o dinamarquês Peter Lund, encontrou, em 1843, ossadas humanas e de animais extintos na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais. Nos anos de 1970, nessa mesma região, outros cientistas descobriram a maior coleção de esqueletos disponíveis para o estudo dos primeiros habitantes da América, incluindo Luzia.
Luzia e seu povo viveram na atual região de Lagoa Santa, no estado de Minas Gerais, a poucos quilômetros de onde atualmente fica Belo Horizonte.

Reconstituição artístico-científica, feita em 2000, do provável rosto de Luzia, com base no crânio encontrado em Lagoa Santa (MG), em meados dos anos 1970.

Os esqueletos encontrados permitem dizer que o povo de Lagoa Santa viveu entre 8 mil e 4 mil a.C.; que era baixo e magro e comia pequenos animais, frutos, peixes e caramujos grandes que viviam nos rios. Sua expectativa de vida era baixa: muitas crianças morriam cedo e pouquíssimos adultos atingiam 30 anos de idade. Veja a seguir algumas representações de objetos deixados pelo povo de Lagoa Santa.

  Machado de pedra.

  Anzol de osso.


 Concha de caramujo perfurada.


Andavam em grupos de aproximadamente 25 pessoas e eram nômades, ou seja, não se fixavam por longos períodos no mesmo lugar. Tinham um acampamento base, no qual passavam a maior parte do tempo, e alguns acampamentos mais distantes, utilizados em seus deslocamentos em busca de comida. Construíam palhoças como moradias ou dormiam em cavernas.
Como não dominavam a técnica da agricultura, sobreviviam da caça e da coleta de frutas, como o pequi, o jatobá, o araçá, e de vegetais. Enquanto a caça era praticada pelos homens, as colheitas eram realizadas por mulheres e crianças.
Os primeiros habitantes de Lagoa Santa chegaram a conviver com mamíferos gigantes, que desapareceram há cerca de 9 mil anos, como o tigre-dentes-de-sabre e a preguiça-gigante, que podia ter 6 metros de comprimento e pesar até 5 toneladas.

Povo da Serra da Capivara 


No sudeste do estado do Piauí, a 530 km da capital Teresina, está localizado o Parque Nacional da Serra da Capivara, área com a maior quantidade de sítios arqueológicos da América e com a maior quantidade de pinturas rupestres do mundo.
A região da Serra da Capivara, no interior do Piauí, é um sítio arqueológico que tem provocado muitas discussões entre especialistas. Apoiada em pesquisas de campo, a arqueóloga Niède Guidon (1933-) afirma que já havia seres humanos na região há cerca de 50 mil anos. Muitos estudiosos discordam dessa data. Caso esteja correta, os cientistas serão obrigados a rever suas teorias a respeito de quando e como teve início o povoamento da América.
O parque é tão importante que foi declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, em 1991. As cerâmicas lá encontradas têm cerca de 9 mil anos. Alguns estudiosos consideram essas cerâmicas as mais antigas do continente. Já as pinturas rupestres em azul, conhecidas como veadinhos azuis, foram as primeiras dessa cor descobertas no mundo.

Pintura rupestre no Parque Nacional Serra da Capivara, São Raimundo Nonato, Piauí. Detalhe. Alguns pesquisadores defendem que as pinturas desse local teriam quase 30 mil anos.

Seja como for, acredita-se que esses povos se organizavam em pequenos grupos em lugares próximos a fontes de água, viviam da caça e da coleta de alimentos, e produziam ferramentas de pedra. Uma de suas principais características era o hábito de fazer inscrições nos paredões rochosos da região.

Pinturas rupestres de cerca de 12 mil anos no Parque Nacional Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato (PI).


Muitas dessas pinturas mostram animais (veados, emas, lagartos) e aspectos da vida cotidiana do grupo (a caça e os ritos cerimoniais). Por volta de 3,5 mil anos atrás, esses povos já dominavam a agricultura e fabricavam objetos de cerâmica. Esses grupos humanos viviam na Serra da Capivara quando os europeus chegaram à América, entre os séculos XV e XVI.

O povo de Umbu 


Alguns vestígios humanos encontrados nos atuais estados de São Paulo e do Rio Grande do Sul apontam para a presença de outros grupos de caçadores-coletores que teriam vivido no território que hoje corresponde ao Brasil há cerca de 6 mil anos. 
Conhecidos como povo de Umbu, ou povo da flecha, esses grupos nômades produziam diversos instrumentos derivados de rochas, como o sílex, o quartzo e o arenito, além de agulhas e anzóis feitos de ossos de animais. 
Esses grupos habitavam cavernas e caçavam animais de pequeno porte utilizando flechas e boleadeiras. Para se alimentar, também coletavam frutos, raízes e vegetais.

A MEGAFAUNA DO QUATERNÁRIO 


Os grandes animais que viviam na América e em outros continentes até o fim da última glaciação eram mamíferos e são conhecidos hoje por “megafauna do Quaternário”: fauna refere-se a “reino animal” e mega significa “muito grande”. Nos últimos 50 mil anos, esses animais entraram em processo de extinção em todos os continentes. Na América do Sul, contudo, 83% da megafauna desapareceu, índice muito maior que o da África, de apenas 10%. 
Ainda hoje os cientistas que estudam o desaparecimento da megafauna não têm certeza absoluta do que causou a sua extinção. Mas eles suspeitam que as variações climáticas ocorridas ao final da última glaciação e a ação humana podem ter sido as responsáveis.
No caso das variações climáticas, acredita-se que a elevação da temperatura e da umidade ao longo dos anos, com a consequente redução das áreas de savanas, principal hábitat da maior parte desses animais, inviabilizou sua sobrevivência. No caso da ação humana, a hipótese é que os primeiros habitantes do continente americano podem ter caçado animais em excesso, ou destruído paisagens naturais de onde muitas espécies obtinham o alimento, causando a sua extinção. 

domingo, 6 de setembro de 2026

Primeiros povos da América

O povoamento da América é um assunto fascinante, que desperta o interesse de muitos estudiosos. No continente americano, foram encontrados diversos vestígios, como pontas de lanças, artefatos de pedra e fósseis de mulheres e homens. Esses vestígios são utilizados para formular hipóteses sobre as datas da chegada dos primeiros grupos humanos à América e sobre os caminhos que eles percorreram. 

Pintura rupestre encontrada na Gruta das Mãos, em Santa Cruz, Argentina. Pesquisadores calculam que essa pintura foi feita entre 13 mil e 10 mil anos atrás.

Da África para outros continentes


A maioria dos estudiosos concorda que o local de origem do ser humano é a África. A maioria dos estudiosos concorda que o local de origem do ser humano é a África. Eles se baseiam em descobertas como as dos cientistas estadunidenses Donald Johanson Eles se baseiam em descobertas como as dos cientistas estadunidenses Donald Johanson e Tom Gray.
Em 1974, esses estudiosos descobriram um dos mais antigos esqueletos já e Tom Gray. Em 1974, esses estudiosos descobriram um dos mais antigos esqueletos já conhecidos: o fóssil de um indivíduo do sexo feminino, com cerca de 3,2 milhões de anos, conhecidos: o fóssil de um indivíduo do sexo feminino, com cerca de 3,2 milhões de anos, que foi batizado de Lucy. que foi batizado de Lucy.
A partir da África, os primeiros humanos espalharam-se por Europa, Ásia e finalmente A partir da África, os primeiros humanos espalharam-se por Europa, Ásia e finalmente chegaram à América, em um processo de milhares de anos de duração. Mas saber chegaram à América, em um processo de milhares de anos de duração. Mas saber como ocorreu o povoamento da América continua sendo um dos maiores desafios da humanidade.

Hipóteses de povoamento da América 


No livro História natural e moral das Índias, de 1590, o padre espanhol José de Acosta sugeriu que o continente americano tinha sido povoado por “selvagens caçadores vindos da Ásia”. A explicação de Acosta, porém, não foi logo aceita. Surgiram outras teorias sobre a chegada do ser humano à América. Alguns disseram que os nativos descendiam dos vikings. Outros disseram que tinham vindo das ilhas do oceano Pacífico.
Foi somente no final do século XIX que a suposição de José de Acosta foi confirmada, quando o etnólogo norte-americano D. G. Brington sugeriu que o povoamento do continente americano teria começado há 40 mil anos por povos vindos da Ásia. O povoamento teria ocorrido pelo ponto mais próximo entre os continentes asiático e americano, conhecido como estreito de Bering. Os grupos humanos que chegaram à América por esse caminho fizeram o trajeto a pé, provavelmente perseguindo grandes animais.
Manadas de animais de grande porte e seus predadores, incluindo grupos humanos, teriam atravessado a passagem de Bering e entrado no continente americano.
Existe um consenso entre os estudiosos sobre como ocorreu o povoamento do planeta pelos seres humanos. Eles concordam que a América foi ocupada depois da África, da Europa, da Ásia e da Oceania. Porém, há uma grande polêmica em relação à época da chegada desses primeiros povoadores da América e a respeito de quais teriam sido os caminhos por eles percorridos. 
Apesar das discordâncias, um consenso une os cientistas: eles admitem que os seres humanos americanos não são autóctones, ou seja, eles vieram de outros lugares. Os pesquisadores chegaram a essa conclusão porque até o momento nenhum vestígio de hominídeo anterior à espécie Homo sapiens foi encontrado no continente.
As principais hipóteses sobre o povoamento da América consideravam que o ser humano chegou aqui há 15 mil anos. Essas hipóteses eram defendidas com base em vestígios arqueológicos que datam desse período. Os registros da presença humana na América são numerosos e bem antigos. Em países como o Brasil, o Chile e o Canadá, há sítios arqueológicos datados de mais de 20 mil anos.

– Hipótese da Rota de Bering: Afirma que, durante a última Era Glacial, uma ponte de gelo teria se formado no estreito de Bering, tornando possível a passagem de grupos humanos da Ásia para a América. Deram até um nome para ela: Beríngia. Ainda não há evidências suficientes que comprovem que a Beríngia existiu de fato. Mas, se existiu, terá sido muito importante para o povoamento da América.
Desse modo, chegaram à América por terra, depois de atravessar o Estreito de Bering, situado entre a Sibéria (Rússia) e o Alasca (Estados Unidos). 
Essa travessia teria ocorrido em uma das vezes em que o nível do mar baixou muito, levando à formação de um caminho de gelo que ligava a América à Ásia, pelo norte.
Essas condições climáticas teriam permitido a formação de uma passagem natural de terra e gelo entre a Ásia e a América, chamada Ponte Terrestre de Bering.
Para suportar o frio intenso da região, frequentemente abaixo de 235 °C, esses humanos confeccionaram roupas térmicas com peles grossas de animais e sapatos para resistir à neve. Quando a temperatura do planeta aumentou, o nível das águas dos oceanos subiu e essa passagem se desfez. 

– Hipótese malaio-polinésia:  Defende que os primeiros habitantes da América teriam saído da Ásia em pequenas embarcações e navegado próximo à costa até chegar ao continente americano. 
Indica a possibilidade de que os primeiros povoadores tenham vindo da Polinésia, que é um conjunto de ilhas situadas no oceano Pacífico. Alguns grupos de navegadores teriam saído dessas ilhas e chegado com suas embarcações até a costa ocidental da América.

- Hipótese da Rota Transpacífica: Defende que, partindo da Ásia e navegando de ilha em ilha, alguns grupos humanos teriam atravessado o Oceano Pacífico e chegado à América do Sul.

- Hipótese da Migração Atlântica:  Afirma que, após sair da Europa em embarcações feitas de couro, alguns grupos humanos teriam navegado pelo Oceano Atlântico até chegar ao norte da América.

Outras hipóteses 


No início do século XX, surgiram outras possibilidades, mas sem negar a rota pelo estreito de Bering. O etnólogo Paul Rivet, por exemplo, fundador do Museu do Homem, em Paris (1937), sugeriu que o povoamento tinha se dado por diversas rotas, provenientes não apenas da Ásia, mas também da Oceania. Acrescentou, ainda, que algumas migrações tinham ocorrido há 40 mil anos e outras em tempos mais recentes, entre 6000 a.C. e 3000 a.C.
Os primeiros seres humanos teriam migrado para a América atravessando o estreito de Bering e, também, navegando pelo mar.
Quando ocorreram essas migrações? Para alguns pesquisadores, as primeiras migrações para a América aconteceram aproximadamente entre 12 mil e 20 mil anos atrás. Para outros estudiosos, essas travessias foram realizadas há mais de 50 mil anos. No entanto, essas hipóteses ainda são um debate em aberto.
Outra dúvida é se os primeiros povoadores da América teriam características asiáticas ou apresentavam traços faciais semelhantes aos dos africanos e dos aborígenes australianos. Essa discussão surgiu porque crânios e ossadas encontrados na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais, apresentam traços faciais semelhantes aos dos africanos e dos aborígenes australianos. Análises de ossadas, crânios e material genético dos primeiros povoadores do continente têm auxiliado os cientistas na tentativa de desvendar esse e outros mistérios.
Já a arqueóloga franco-brasileira Niède Guidon, que há décadas conduz as pesquisas no sítio arqueológico da Pedra Furada, no Piauí, sustenta uma hipótese bastante questionada pela maioria dos estudiosos sobre o povoamento da América. Para ela, grupos de pescadores da África e da Oceania teriam migrado para a América do Sul entre 60 mil e 100 mil anos atrás, arrastados por ventos e correntes marítimas. Segundo Niède Guidon, as diferentes hipóteses sobre o povoamento da América não se anulam, mas se complementam.
Estudos realizados pela arqueóloga brasileira Niède Guidon, entretanto, comprovaram que o ser humano chegou ao continente americano há mais tempo. Ela realizou suas pesquisas no sítio arqueológico do Boqueirão da Pedra Furada, no Parque Nacional Serra da Capivara, localizado no município de São Raimundo Nonato, no Piauí. 
Nesse lugar, ela encontrou vestígios da presença humana com mais de 50 mil anos de idade. Assim, ela defende a hipótese de que vários grupos humanos chegaram à América em diferentes épocas, percorrendo diversos caminhos.

Pintura rupestre no Parque Nacional Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato (PI).

A história do povoamento da América está em plena construção, e o território brasileiro é considerado por muitos pesquisadores uma das regiões mais propícias a novas descobertas que possam ajudar a compreender como o ser humano ocupou o continente americano.

Teorias sobre a origem humana na América


Em 1999, o arqueólogo brasileiro Walter Neves revelou ao mundo o fóssil mais antigo de toda a América; tratava-se do crânio de uma mulher que viveu há cerca de 11 500  anos! Os arqueólogos a batizaram de anos! Os arqueólogos a batizaram de Luzia (em homenagem a Lucy). 
Conforme nos conta Walter Neves, Luzia foi descoberta em 1975 por uma missão franco-brasileira coordenada pela arqueóloga Annette Laming-Emperaire, que morreu precocemente sem divulgar o achado. Walter Neves retomou a pesquisa de Annette e sua equipe e divulgou o extraordinário achado em 1999.
Cientistas ingleses reconstituíram a fisionomia de Luzia e, surpresos, descobriram que suas feições se assemelhavam às dos nativos da África e da Austrália: olhos arredondados, nariz largo e lábios volumosos.
Recentemente, com base em materiais inéditos de Lagoa Santa (MG), Walter Neves descobriu também que as características cranianas do povo de Luzia eram semelhantes às dos africanos e australianos. Para ele, então, o povo de Luzia entrou na América antes dos grupos com feições asiáticas que deram origem aos indígenas atuais.

O modelo é a reconstituição das feições de Luzia, produzida a partir de imagens de computador. Segundo alguns pesquisadores, Luzia pertenceu a um grupo que viveu nas Américas 3 mil anos antes da população indígena. Rio de Janeiro (RJ), 2018.

Os estudos de Niède Guidon

Segundo a arqueóloga Niède Guidon, há provas de que a presença humana em São Raimundo Nonato, no Piauí, é muito antiga. Ela e sua equipe descobriram, no sítio arqueológico de Pedra Furada, pedaços de carvão e de pedra lascada que teriam pelo menos 50 mil anos. Segundo ela, tais vestígios são prova suficiente da presença humana na América desde aquela data.
Outros cientistas, porém, não aceitaram as provas apresentadas por Niède Guidon, dizendo que o carvão encontrado por ela pode ter sido produzido por incêndios florestais e que as lascas de pedra podem ser resultado do esfacelamento das rochas; ou seja, esses materiais seriam resultado de fenômenos naturais, e não da ação humana.

Niède Guidon formou-se em História Natural pela Universidade de São Paulo (USP) e especializou-se em arqueologia pré-histórica pela Sorbonne, França. 

A arqueologia e a Pré-história americana


Os pesquisadores que apoiam a ideia de que os primeiros grupos humanos acessaram o continente americano pelo Estreito de Bering chegaram a essa conclusão depois de examinar artefatos de pedra e ossos de animais encontrados no sítio arqueológico de Clóvis, situado no estado do Novo México, no sudoeste dos Estados Unidos. 
Nas planícies da América do Norte, no final da década de 1920, foram encontrados vestígios arqueológicos que datam de 9000 a.C. São pontas de lanças feitas de sílex, uma rocha muito dura, dotadas de uma base côncava e pequenos sulcos dos lados. Elas foram chamadas pelos arqueólogos de pontas Clóvis, e possivelmente eram utilizadas para caçar bisões.

Pontas Clóvis datadas de cerca de 4000 a.C. encontradas no atual estado do Missouri, nos Estados Unidos. As lanças com pontas Clóvis eram muito eficientes para caçar.

Com base na datação desses objetos, cientistas estadunidenses elaboraram a teoria chamada Clóvis-Primeiro. Segundo essa teoria, uma leva migratória de grupos humanos com traços asiáticos teria chegado à América por volta de 11500 anos atrás. Assim, ao longo de centenas de anos, os povos descendentes desses grupos teriam ocupado, na direção norte-sul, todo o continente. Descobertas arqueológicas mais recentes, no entanto, têm contestado essa teoria.
A teoria de Clóvis começou a ser questionada na década de 1970. A análise de fósseis e outros artefatos arqueológicos encontrados na América do Sul, datados de pelo menos 13500 anos, mostrou que o  povoamento do continente teria começado muito antes do que essa teoria afirmava, ou seja, os habitantes de Clóvis não teriam sido os primeiros a chegar ao continente americano.
Em pesquisas realizadas nas últimas décadas, estudiosos encontraram indícios de que a presença humana na América pode ser muito anterior à cultura Clóvis. Por exemplo, nos sítios arqueológicos de Piedra Museo e Los Toldos, na Argentina, e de Debra L. Friedkin, nos Estados Unidos, há indícios da presença humana de 13 mil a 15 mil anos atrás. No sul do Chile, em Monte Verde, os vestígios datam de cerca de 13 mil anos atrás e, por sua localização, sugerem que o povoamento do sul do continente pode ter sido anterior ao da parte norte.

Vestígios arqueológicos de pegadas humanas de cerca de 23 mil anos encontrados no Parque Nacional de White Sands. Novo México, Estados Unidos.

Nos últimos anos, esse questionamento ganhou força com a descoberta de vestígios ainda mais antigos: uma equipe de arqueólogos encontrou milhares de artefatos de pedra provavelmente fabricados por mãos humanas, além de restos de fogueira e ossos de animais, com datação que varia entre 30 mil e 13 mil anos. Outro grupo de pesquisadores fez uma descoberta ainda mais fascinante na região do Novo México. Eles encontraram pegadas humanas datadas entre 23 mil e 21 mil anos atrás.
Para alguns estudiosos, essas descobertas indicariam que, além dos grupos que teriam chegado ao continente pelo Estreito de Bering, pode ter havido outras ondas migratórias em direção à América por via marítima pelos oceanos Pacífico e Atlântico.
As técnicas de produção de armas e ferramentas dos povos que habitavam o continente americano, entretanto, eram muito diferentes entre si. Entre os povos caçadores, alguns utilizavam instrumentos de pedra, enquanto outros produziam armas feitas de bambu e madeira. 
Um povo, contudo, não deve ser considerado inferior ou superior a outro. Cada grupo produzia instrumentos adequados ao ambiente em que vivia. Os povos da cultura Cochise, que habitavam a região desértica dos atuais Estados Unidos, desenvolveram armas de pedra adaptadas à caça naquela região. Já os povos amazônicos produziam instrumentos pontiagudos de bambu ou madeira, excelentes para a pesca fluvial.
Houve povos que, além de aperfeiçoar seus instrumentos de caça, desenvolveram o cultivo da terra, aumentando assim as chances de sobrevivência e levando ao crescimento numérico do grupo. Dessa forma, alguns grupos do continente americano deixaram, pouco a pouco, de ser nômades e tornaram-se sedentários. Esse processo aconteceu, inicialmente, no atual México e, logo depois, na região andina da América do Sul.

Monte Verde, Chile


O sítio arqueológico de Monte Verde foi descoberto, por aca so, em 1976. Os objetos encontrados nesse local estavam bem preservados por causa da existência de turfas, materiais formados de restos de vegetais em decomposição, que preservam tudo que absorvem. 
Nesse sítio, os pesquisadores encontraram vestígios da presença humana datados de pelo menos 12500 anos. São pinturas rupestres, pontas de lança feitas de pedra, restos de fogueiras, objetos de madeira, plantas medicinais, ossos de mastodonte e até pegadas humanas.

Piedra Museo e Los Toldos, na Argentina


Piedra Museo é o sítio mais antigo da Argentina. Lá foram descobertas pinturas rupestres e instrumentos de caça de 13 mil anos atrás. Com os artefatos, foram encontrados restos de animais extintos há mais de 10 mil anos. 
Nas cavernas de Los Toldos, arqueólogos demarcaram camadas do solo que revelam a passagem de diferentes grupos humanos. No interior dessas cavernas foram encontrados utensílios e restos de animais com cerca de 12500 anos e pinturas rupestres com desenhos de mãos feitos entre 9500 e 13 mil anos atrás.

Pinturas rupestres no sítio arqueológico Cueva de las Manos, datadas entre 9500 e 13 mil anos. Santa Cruz, Argentina.


Diversidade cultural 


Os primeiros grupos humanos que chegaram à América foram, aos poucos, se espalhando pela vastidão desse continente. Durante um ou dois milênios, ocuparam e se adaptaram aos diversos ambientes naturais, desde o norte até o sul do continente. 
Para isso, desenvolveram conhecimentos e costumes adequados a cada realidade. Das terras geladas do Alasca às planícies argentinas, as sociedades americanas encontraram formas originais de aproveitar os recursos naturais para garantir sua sobrevivência.
Dessa maneira, formaram-se no continente muitos povos e culturas. Alguns desses povos viviam da caça, da pesca e da coleta; outros passaram a combinar a caça e a coleta com o cultivo de vegetais. Outros, ainda, transformaram a agricultura em sua principal atividade.
Os grupos de caçadores-coletores e alguns dos povos que se tornaram sedentários por causa da atividade agrícola eram sociedades igualitárias. Isso significa que nelas as pessoas dividiam o trabalho e os produtos gerados por ele de maneira relativamente igual.
Outros povos, por sua vez, construíram cidades, nas quais havia trabalhos específicos para cada camada social. Essas sociedades, portanto, eram hierarquizadas. Nelas, grupos de poucas pessoas assumiram a função de governar e passaram a concentrar a maior parte da riqueza e a exercer o poder por meio do estabelecimento das leis, da aplicação da justiça e do controle religioso.
A ideia de que o povoamento da América tenha se originado de regiões distintas da Terra fundamentava-se em um argumento forte: as culturas e as línguas dos povos americanos eram muito diferentes entre si. Como teriam se formado mais de 2 600 línguas se todos os grupos que chegaram à América tivessem partido de um mesmo lugar?
Esses grupos foram povoando áreas que correspondem, atualmente, às florestas do leste dos Estados Unidos, aos desertos do México, à bacia do rio Amazonas, aos vales das montanhas andinas, ao litoral do Brasil. Alcançaram, até mesmo, o extremo sul do continente, a ilha da Terra do Fogo.
O povoamento da América provocou impacto e destruição de boa parte da diversificada fauna original. Nessa fauna havia, por exemplo, tigres-dentes-de-sabre, mamutes, mastodontes, leões americanos, cavalos nativos e preguiças-gigantes, que podiam pesar 8 toneladas e alcançar 6 metros de altura. No entanto, a maioria dessas espécies foi desaparecendo, principalmente em função da caça promovida pelos grupos humanos.
Ao modificar a natureza e a paisagem, cada povo desenvolveu sua cultura. Essa cultura se manifesta num conjunto de bens materiais e imateriais, como o jeito próprio de construir instrumentos, cultuar seus deuses e organizar a vida social.

Descobertas arqueológicas no Brasil 


As descobertas arqueológicas que ocorreram no Brasil foram importantes para a construção da história dos primeiros povos que viveram nestas terras. Além disso, até agora, os fósseis humanos encontrados no país estão entre os mais antigos da América.

Lagoa Santa 


Em 1834, o pesquisador dinamarquês Peter Lund (1801-1880) encontrou fósseis de cerca de 30 pessoas na gruta de Sumidouro, que fica no município de Lagoa Santa, no estado de Minas Gerais. 
Depois, vieram muitas outras descobertas. Uma delas foi realizada na mesma região de Lagoa Santa, em 1974 e 1975, pela equipe coordenada pela arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire. 
Mas foi apenas na década de 1990 que um dos esqueletos descobertos em Lagoa Santa pela equipe de Annette recebeu atenção especial dos pesquisadores. Esse esqueleto era de uma mulher que viveu há cerca de 11 mil anos, talvez o mais antigo de toda a América. Esse achado foi batizado de Luzia pelo arqueólogo brasileiro Walter Neves.
Segundo Walter Neves, os estudos sobre Luzia indicam que seus antepassados podem ter chegado à América há pelo menos 15 mil anos, possivelmente através do estreito de Bering. Além disso, mais recentemente, a análise desse crânio indicou que ela possuía traços semelhantes aos de africanos e de nativos australianos.

Walter Neves é biólogo, arqueólogo e antropólogo.

Os estudos também consideram que o chamado povo de Luzia se abrigava nas grutas da região, onde também foram encontradas pinturas de peixes, veados, figuras humanas, aves, entre outras.

São Raimundo Nonato 


Além das descobertas em Lagoa Santa, pesquisas realizadas pela arqueóloga brasileira Niède Guidon, em São Raimundo Nonato, no estado do Piauí, sugerem que homens e mulheres habitavam o território brasileiro há, pelo menos, 50 mil anos. Essas pesquisas foram decisivas para a criação do Parque Nacional da Serra da Capivara em 1979, cujo objetivo é proteger os monumentos arqueológicos e as belezas naturais da região. Em 1991, esse parque foi reconhecido como Patrimônio Mundial da Unesco.
O parque abriga mais de mil sítios arqueológicos, onde foram encontrados diversos vestígios da ocupação humana. Entre eles, podemos destacar fósseis humanos de 10 mil anos, objetos confeccionados com pedras lascadas e poli das (machado, raspador, pilão, ponta de flecha). Além de uma grande concentração de pinturas rupestres que possuem de 6 mil a 12 mil anos.
Para a arqueóloga Niède Guidon, os grupos humanos de São Raimundo Nonato formavam comunidades de caçadores-coletores, abrigavam-se em grutas, tinham o domínio do fogo e sabiam construir instrumentos de pedra. 
No entanto, as informações a respeito desses primeiros povoa dores do atual estado do Piauí têm gerado controvérsias entre os estudiosos. A polêmica está relacionada a algumas pedras lascadas e restos de fogueiras que podem ter mais de 50 mil anos. Segundo Niède Guidon, esses vestígios indicariam que a ocupação na América do Sul ocorreu bem antes do que se imaginava.

Baixão da Pedra Furada no Parque Nacional da Serra da Capivara, Piauí.

Primeiros povoadores 


O atual território brasileiro é uma das regiões da América habitada desde, pelo menos, 10 mil anos.
Os povos caçadores-coletores viviam da caça, da pesca e da coleta de alimentos. Não praticavam a agricultura, mas tinham o domínio do fogo e fabricavam instrumentos variados, feitos de pedra e de ossos. 
Embora existam muitas semelhanças entre os modos de vida dos primeiros povos caçadores-coletores, também é possível identificar diferenças entre eles. Aliando trabalho e criatividade, esses povos desenvolveram culturas próprias.
A maior parte das informações que temos sobre eles vem dos vestígios de seus instrumentos, ali mentos, habitações, etc. No atual estado de São Paulo, por exemplo, os pesquisadores acharam diversos tipos de pontas de flecha. Em Minas Gerais e no Piauí, descobriram uma grande quantidade de pinturas rupestres que provavelmente pertenceram a esses povos.
Já no Rio Grande Sul, foram encontradas facas de pedra em forma de bumerangue e boleadeiras. A boleadeira é um instrumento com posto de duas ou três bolas de pe dra amarradas por um cordão, feito geralmente de couro. As boleadeiras eram lançadas nas patas do animal para derrubá-lo. Até hoje as boleadeiras são usadas por alguns gaúchos que vivem no campo e criam animais.
Por volta de 8 mil anos atrás, parte do litoral brasileiro era habitada por povos seminômades. Alguns desses povos deixaram como vestígios de sua presença os sambaquis.
Sambaqui (palavra de origem tupi que significa “monte de conchas”) é um acúmulo de conchas de moluscos e restos de animais como peixes e aves que essas comunidades depositaram em determinados locais, ao longo do tempo. Existem sambaquis que atingem até 30 metros de altura e 400 metros de comprimento por 100 metros de largura.
Os sambaquis eram utilizados para enterrar os mortos e seus objetos pessoais (enfeites, utensílios e armas). Isso indica que, provavelmente, já existia entre os sambaquieiros uma preocupação religiosa com a morte. Esses povos também costumavam construir suas habitações sobre os montes de conchas.
Os estudos dos sambaquis sugerem que, até cerca de mil anos atrás, muitos desses povos formavam aldeias com cerca de 150 habitantes. Viviam da coleta, da caça e, principalmente, da pesca. Utilizavam instrumentos feitos de pedra (enfeites, facas, flechas, machados) e de osso (arpões, agulhas, anzóis). Tinham o domínio do fogo e assavam os alimentos. 
A expansão territorial dos sambaquieiros durou cerca de 5 mil anos. Foi interrompida pela ocupação de grande parte do litoral e parte do interior por tribos e aldeias da etnia tupi.
No final do século XV, com a chegada dos europeus ao continente americano, muitos sambaquis foram destruídos. Alguns portugueses tiravam as conchas dos sambaquis para fabricar cal (material usado na construção de habitações). Atualmente, a preservação dos sambaquis continua sendo ameaçada. 
Eles são destruídos com o objetivo de, por exemplo, abrir caminho para novas construções ou extrair materiais para produção agrícola. 
Apesar desse processo de destruição, ainda existem sambaquis no litoral brasileiro, muitos deles estudados por equipes de arqueólogos e historiadores. Os sambaquis estão localizados desde o estado do Rio Grande do Sul até o Espírito Santo. Possuem idades variadas, embora seja difícil dizer exatamente quando foram formados. 
Alguns, como o de Capelinha (São Paulo), têm cerca de 8 mil anos. Outros, como os de Paranaguá (Paraná), têm entre 6 mil e 7 mil anos.

A vida dos primeiros americanos 


As sociedades ancestrais que existiram na América desenvolveram diferentes culturas. Alguns grupos sobreviviam exclusivamente da caça, da pesca e da coleta, e para isso utilizavam arco e flecha, facas feitas de pedra e boleadeiras.
Numerosos vestígios dos primeiros americanos foram descobertos em escavações feitas em todo o continente. A análise dos artefatos encontrados indica que os primeiros habitantes do continente se organizavam em pequenos grupos de caçadores-coletores. 
Provavelmente, eles migravam para outras regiões quando os recursos do local onde estavam se esgotavam; sabiam produzir fogo, com o qual se aqueciam, iluminavam seus acampamentos, cozinhavam e se protegiam de animais; habitavam cavernas e grutas ou construíam abrigos com galhos, folhas e peles de animais; fabricavam instrumentos variados de pedra, ossos e possivelmente madeira, palha e couro.
Provavelmente entre 2 mil e 4 mil anos atrás, havia grupos que praticavam a agricultura e a criação de animais. Diversos alimentos eram cultivados, dependendo da região: mandioca, feijão, abóbora, pimentão, tomate, milho, batata, abacate, cacau. Foram domesticados na América animais como a lhama e o peru. Além disso, também desenvolveram a tecelagem e o artesanato em cerâmica e realizavam rituais religiosos. 
Em várias partes da América do Norte, como no sítio de Clóvis, foram encontradas ferramentas de pedra bifaciais, ou seja, lascadas dos dois lados, como pontas de flecha, pontas de lança e perfura dores, utilizados na caça de grandes animais.
No Brasil, artefatos parecidos, porém menores, foram achados em vários sítios arqueológicos localizados nas regiões Sul e Sudeste. Já os objetos encontrados nas regiões Nordeste e Centro-Oeste são unifaciais, ou seja, lascados em apenas um dos lados da pedra. Esses objetos são, em sua maioria, raspadores, furadores e cortadores. 
Como o conhecimento utilizado para produzir as ferramentas é transmitido ao longo de gerações, foi possível encontrar objetos muito parecidos produzidos em várias épocas diferentes, mesmo que com pequenas alterações.

As primeiras sociedades hierarquizadas da América


Na região Andina e na Mesoamérica desenvolveram-se sociedades hierarquizadas. A organização dessas comunidades baseava-se na divisão entre grupos de pessoas que comandavam e tomavam decisões e os grupos de pessoas que eram comandadas. 
Localizado em região desértica do atual Peru, Caral é o mais antigo centro cerimonial descoberto na América. O local começou a ser habitado há cerca de 5 mil anos, ou seja, na mesma época em que outras sociedades hierárquicas estavam se formando na China, na Mesopotâmia e no Egito.
A arquitetura de Caral é a principal evidência da organização da sociedade que o construiu. Cerca de trinta grandes conjuntos cerimoniais com imensos complexos em forma de pirâmide impressionam por seu tamanho e pelo sofisticado trabalho humano envolvido na construção de templos, anfiteatros, túmulos e altares. Nas ruínas de Caral foi encontrada, também, uma extensa rede de aquedutos. 
A presença dessas construções monumentais em Caral revela a existência de um nível de organização social complexo e de tecnologias agrícolas eficientes que garantiam ampla produção de alimentos para a subsistência de todos. Depois de Caral, outras sociedades hierárquicas formaram-se na região dos Andes.

A datação dos achados arqueológicos 


Existem diferentes técnicas para definir a idade de um fóssil ou de um artefato arqueológico. Uma delas é a estratigrafia, por meio da qual se analisam as camadas do solo onde os objetos ou os vestígios foram encontrados, considerando que as camadas mais profundas são as mais antigas. Outro método é a datação por radiocarbono, também conhecido como carbono-14, que consiste na análise da quantidade de carbono radioativo encontrado no fóssil. Porém, esse método usando o carbono-14 não é confiável para a análise de objetos com mais de 60 mil anos.




Os povoadores do território brasileiro

O território que hoje faz parte do Brasil era habitado por diferentes grupos humanos há milhares de anos. Esses grupos viveram em diferentes...