1- Regionalização com base na localização geográfica
O continente africano também pode ser regionalizado com base na localização geográfica dos países, formando cinco grandes conjuntos. Essa divisão se apresenta da maneira exposta a seguir.
África Setentrional: Argélia, Egito, Líbia, Marrocos, Sudão, Tunísia, Saara Ocidental.
África Ocidental: Benin, Burkina Fasso, Cabo Verde, Costa do Marfim, Gâmbia, Gana, Guiné, Guiné-Bissau, Libéria, Mali, Mauritânia, Níger, Nigéria, Senegal, Serra Leoa, Togo.
África Central: Angola, Camarões, República Centro-Africana, Chade, Congo, República Democrática do Congo, Guiné Equatorial, Gabão, São Tomé e Príncipe.
África Oriental: Burundi, Comores, Djibuti, Eritreia, Etiópia, Quênia, Madagascar, Malauí, Maurício, Moçambique, Ruanda, Seicheles, Somália, Sudão do Sul, Uganda, Tanzânia, Zâmbia, Zimbábue.
África Meridional: Botsuana, Lesoto, Namíbia, África do Sul, Reino Eswatini (ex-Suazilândia, que teve seu nome modificado em abril de 2018, por decisão do Rei Mswati III).
Vamos utilizar a regionalização geográfica para estudar o continente africano.
A África Oriental
Também conhecida como Leste da África, a África Oriental é formada por países como Etiópia, Tanzânia, Quênia, Madagascar, Eritreia, Uganda, Moçambique, entre outros. Apresenta grande diversidade política, econô mica, linguística, geográfica e populacional, abrangendo vasta área geográfica, a qual se estende do oceano Índico até o Mar Vermelho. Seus principais critérios unificadores são as históricas relações comerciais com a Ásia, principalmente com o Oriente Médio. A região foi marcada, por décadas, pela instabilidade política (tensões internas, golpes de Estado, conflitos armados, entre outros) em grande parte dos países da região.
A África Meridional
A África Meridional abarca a África do Sul, Namíbia, Botsuana, Zimbábue, Madagascar, Moçambique, Zâmbia e Angola. A África do Sul é o país de maior destaque econômico na região. Foi colonizada por holandeses e, posteriormente, por ingleses, e, em 1961, tornou-se independente. O Partido Nacional liderou o estabelecimento de um regime de estrita segregação racial (apartheid), que perdurou até 1994, quando Nelson Mandela (1918-2013) liderou a vitória eleitoral do partido Congresso Nacional Africano (CNA), após passar décadas preso por lutar contra o regime. Só então o país foi readmitido na Commonwealth of Nations, ou Comunidade das Nações, e nos demais organismos interna cionais, de onde havia sido expulso por adotar o apartheid.
A África do Sul está entre os 17 países do mundo considerados megadiversos pelo Centro Mundial de Monitoramento da Conservação (WCMC, na sigla em inglês), ou seja, aqueles que concentram a maioria das espécies da Terra. Essa característica dá a base para o forte setor de ecoturismo do país, centrado, princi palmente, no sistema de parques nacionais e de áreas protegidas.
A África Setentrional
A África Setentrional é a região africana com maior homogeneidade étnico-cultural, pois reúne países que passaram por colonização e ocupação árabe no passado e que, portanto, apresentam fortes características étnicas e culturais relacionadas a esse mundo.
Nela, destaca-se um grupo de países conhecido como Magreb, palavra árabe que significa “lugar do poente”, ou “oeste”. Na tradição geográfica árabe, eram incluídos no Magreb Espanha, Portugal, Sicília e Malta. Atualmente, consideram-se como países desse grupo Marrocos, Argélia, Tunísia e Líbia.
De tradição islâmica, o Marrocos é um país muçulmano que tem o turismo como um forte setor econômico. As demais atividades econômicas do Marrocos estão voltadas para o setor primário, como a produção de frutas, amêndoas, olivas e flores e a exploração mineral do fosfato. A Argélia é um dos membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). A exportação de petróleo e de gás natural é muito importante para a economia do país. Apesar de abrigar grandes reservas de combustíveis fósseis, o desenvolvimento de atividades industriais não é um grande destaque – há, no entanto, uma tendência de diversificação da economia argelina, que conta com mão de obra qualificada nas cidades. A migração de jovens escolarizados para países europeus, especialmente para a França, e norte-americanos é uma das questões sociais a serem enfrentadas pelo país.
O Egito é outro país da África Setentrional. Sua economia sempre esteve relacionada à ferti lidade das margens do Rio Nilo, o único rio perene que atravessa o deserto no país. Praticamente toda a sua agricultura concentra-se em quase 25 mil km2 ao longo do vale e do delta do Rio Nilo. O Cairo, capital do Egito, é a maior cidade da região do vale do Nilo, onde vivem aproximadamente 11 milhões de pessoas (contando a população da área metropolitana, são 18 milhões). A cidade apresenta problemas semelhantes aos da maioria das metrópoles dos países em desenvolvimento: falta de planejamento urbano, trânsito congestionado, enchentes, transporte coletivo insuficiente, déficit de moradias e precariedades relacionadas à saúde e à educação.
A indústria egípcia é diversificada. Na área de tecnologia da informação, o país tem se destacado, principalmente, no desenvolvimento do serviço de telefonia celular.
O país exporta gás natural e construiu um gasoduto em sociedade com a Jordânia. Há pro jetos de extensão desse gasoduto em direção à Síria, com conexões futuras para Turquia, Líbano e Chipre. O Egito também é importante rota para o óleo enviado do Golfo Pérsico à Europa e aos Estados Unidos.
A operação do Canal de Suez é significativa fonte de receita para o governo egípcio, pois são cobradas taxas para a travessia. Ele é uma importante rota de trânsito de petróleo e de gás natural, sendo a única via alternativa para transportar petróleo bruto do Mar Vermelho ao Mediterrâneo.
A África Ocidental
Localizada na porção oeste do sul do Saara, a África Ocidental é formada por vários pequenos países. Tal configuração geoespacial é consequência das intensas relações comerciais com os europeus, que estabeleciam alianças com alguns líderes locais, em detrimento de outros povos, o que causou significativa subdivisão do território. Na região, estão algumas das principais bacias hidrográficas do continente (dos rios Congo, Níger e Senegal e do Lago Chade).
A Nigéria, país com grande riqueza mineral e potencial agrícola, concentra a maior parte dos habitantes da região: são mais de 200 milhões. O país, no entanto, enfrenta problemas resultantes das divisões dos principais grupos étnicos internos: iorubás, ibos e hauçás.
A República Democrática do Congo é o maior país africano, com cerca de 2,34 milhões de km². O subsolo da região é rico em reservas minerais de cobre, diamante, petróleo, estanho e coltan. No ano de 2019, o país foi responsável por cerca de 71% da produção de cobalto do mundo e é o detentor das maiores reservas desse minério.
A demanda por cobalto tem crescido bastante nos últimos anos, por causa das altas produções de eletrônicos e da mudança no consumo energético. O setor mineral corresponde a 80% das exportações da República Democrática do Congo e apresentou um crescimento de 4% a 7% entre os anos de 2010 e 2019, de acordo com dados divulgados pelo Banco Mundial.
A África Central
A África Central é a região do continente por onde passa a linha do equador e onde predo mina o clima equatorial. Além disso, a Floresta do Congo (exemplo de Floresta Equatorial) é uma das principais do continente. É formada por países como Angola, Camarões, Congo, República Democrática do Congo, Chade, República Centro-Africana e Gabão, por exemplo.
Um dos países mais relevantes da região, Angola é marcada por muitos conflitos. Após a colonização portuguesa, em 1975, Angola tornou-se um país independente, de orientação socialista, mas os problemas sociais e econômicos, assim como a guerra civil, não cessaram. Os conflitos entre o governo, dirigido pelo Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), e os guerrilheiros da União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita) só terminaram com o cessar-fogo de 2002.
Após o fim da guerra civil, o país tem experimentado uma fase de desenvolvimento, basica mente alimentada pela indústria do petróleo. Esse recurso mineral é responsável por outro foco de tensão regional, pois seu principal polo de produção se situa no exclave de Cabinda, que fica ao norte do território contínuo de Angola, localizado entre o Congo e a República Democrática do Congo. O crescimento econômico de Angola tem atraído imigrantes provenientes, principalmente, da República Democrática do Congo e da China.
2- A regionalização com base
nos critérios étnico e cultural
Com base nos critérios étnico e cultural, o continente africano pode ser
regionalizado em dois conjuntos: África do Norte e África Subsaariana.
África do Norte
A África do Norte compreende sete
unidades políticas. São seis Estados inde-
pendentes e um território que busca a
independência – o Saara Ocidental, ex-Saara Espanhol, ocupado pelo Marrocos
desde 1975.
Com a invasão dos árabes nos séculos
VII e VIII, ocorreu a arabização da África do
Norte. Esse fato explica, portanto, a predo
minância regional da população árabe, da
língua árabe e da prática do islamismo.
Destaca-se na África do Norte a sub-região denominada Magreb. Em árabe,
“Marhribou Maghrib” significa “o Poente”,
ou seja, “onde o sol se põe”, em relação ao
centro do islamismo, situado na Península
Arábica (atual Arábia Saudita). O Magreb
tradicional compreende o Marrocos, a
Argélia e a Tunísia, que pertenceram ao
império colonial francês.
A Cadeia do Atlas favorece o povoamento na África do Norte, sobretudo no Magreb. Entre o Atlas e o Mar Mediterrâneo, estendem-se
planícies férteis de clima mediterrâneo, densamente povoadas, onde
se cultivam vários produtos, como cereais, uvas, oliveiras, e ocorre a exploração mineral de fosfato. Ao sul da Cadeia do Atlas surge o Deserto
do Saara, cujo principal recurso mineral é o petróleo.
África Subsaariana
Essa região, que abrange os países da
África situados ao sul do Deserto do Saara,
apresenta população predominantemen
te negra (observe o mapa) e minorias
brancas descendentes dos colonizadores
europeus e asiáticos (indianos, chineses,
indonésios etc.). Destaca-se aí a multipli
cidade de crenças e religiões – islamismo,
cristianismo, judaísmo, crenças tradicio
nais africanas etc.
Além dos aspectos culturais e étnicos apresentados, a África Subsaariana
se caracteriza por ser uma região do con
tinente africano onde a pobreza atinge
grande parcela da população. É aí que se
localizam os países com os menores IDHs
(baixos) do mundo em 2019, como Sudão
do Sul (0,433), Chade (0,398), República
Centro-Africana (0,397) e Níger (0,394).
Embora cerca de 60% da população
economicamente ativa da África Sub
saariana se dedique à agricultura, o déficit de alimentos gera subnutri
ção e fome. Essa situação é agravada pelas secas na região do Sahel e
pelas guerras civis, que arrasam plantações e dificultam a entrega de
alimentos pela ajuda humanitária.
A agricultura na África Subsaariana apresenta uma distorção: enquanto as plantations (cacau, café, algodão, amendoim, chá, banana etc.),
controladas principalmente por empresas europeias, ocupam cerca
de 40% da superfície agrícola, abrangendo as melhores terras cultiváveis, a agricultura de subsistência ocupa as terras menos férteis e convive com a falta de crédito e de assistência técnica, apresentando baixa
produtividade. A oposição entre a agricultura de exportação e a agricultura de subsistência é uma herança do colonialismo que perdura nos
dias atuais.
3- A regionalização com base na economia
É possível regionalizar a África tendo por base a economia dos paí
ses que a compõem. Assim, distinguem-se dois conjuntos: países com
certo desenvolvimento industrial e países cuja base da economia são os
produtos primários.
▪ Países com desenvolvimento industrial
África do Sul e Egito são os dois países mais industrializados da África.
Conheça a seguir as principais características de cada um deles.
África do Sul
A África do Sul é o país de economia mais desenvolvida da África.
Favorecido pela abundância de recursos minerais em seu território e por
investimentos estrangeiros, esse país desenvolveu uma atividade industrial diversificada, com indústrias de bens de consumo (têxtil, alimentícia,
de vestuário etc.) e indústrias de bens de produção (máquinas, equipa
mentos, metalúrgica, siderúrgica, química etc.), além de indústria naval,
de armamentos, automobilística e outras. Destaca-se ainda como primei
ro produtor mundial de cromo, de manganês e de platina, o segundo de
titânio e o quinto de diamante (2019). As principais cidades do país con
centram os maiores centros industriais.
Muitos problemas persistem, como a pobreza que atinge principalmen
te a população negra. Para 2025, a população total estimada é de 62,8 mi
lhões de habitantes: 80,2% dela constituída por negros de diversas etnias,
8,5% de origem europeia (destacando-se os ingleses e holandeses), cerca
de 8,8% de eurafricanos e 2,5% de asiáticos (principalmente descenden-
tes de indianos). A população branca, embora minoritária, detém cerca de
60% da renda nacional e usufrui das melhores condições de vida no país.
O grande desafio da África do Sul é enfrentar as heranças do apartheid
e construir uma sociedade democrática de base multiétnica, menos
desigual e sem preconceitos, além de erradicar a pobreza que atinge
parte significativa dos sul-africanos.
Egito
Chamado de “País do Nilo”, o Egito, com 111,7 milhões
de habitantes (estimativa para 2025), é o segundo país
mais populoso da África, superado apenas pela Nigéria
(233,3 milhões).
Depois da África do Sul, o Egito é o país mais industrializado do continente.
Duas concentrações industriais se destacam: uma localizada na capital, Cairo, e que se estende para o norte
até a Alexandria e para o leste até Suez; a segunda localizada no sul, em Assuã.
O principal setor industrial egípcio é o têxtil,
no qual sobressaem as unidades de tratamen
to de algodão, cujos produtos são largamente
exportados. São importantes também as indús
trias química, moveleira, alimentícia, do vidro e
da cerâmica, do papel, siderúrgicas de peque
no porte e refinarias de petróleo.
As principais jazidas de petróleo estão distribuí
das ao longo da Península do Sinai, no Mar Vermelho.
Além de abastecer o mercado interno, o petróleo
daí extraído destina-se à exportação, constituindo importante fonte de divisas para o país.
Em relação à agricultura, várias barragens fo
ram construídas no Rio Nilo no século XX com
a finalidade de represar as águas e controlar a vazão no decorrer do ano. Dessas barra
gens saem redes de canais que permitem a irrigação permanente das terras, possibilitando que sejam feitas várias semeaduras e colheitas no decorrer do ano.
▪ Países cuja base da economia são os produtos primários
Esse conjunto de países africanos pode ser dividido em: países de economia de base
agrária e países de economia de base mineral.
Países de economia de base agrária
A produção agrícola na África se organiza em formas de produção diferentes. De maneira geral, encontra-se a agricultura de subsistência e a agricultura comercial (plantation).
A agricultura de subsistência consiste em obter da terra uma produção de alimentos
com o objetivo de suprir as necessidades alimentares dos próprios produtores e suas
famílias. Realiza-se geralmente em pequenas propriedades, com técnicas e instrumentos rudimentares. Porém, essa produção agrícola pode gerar excedentes, que são co
mercializados pelos camponeses.
A agricultura comercial foi introduzida na África pelo colonizador,
na forma de plantation, destinada a abastecer de matérias-primas a indústria europeia
(têxtil, alimentícia, de óleos vegetais etc.).
Nas áreas de clima mediterrâneo da África do Norte e da África do Sul, são cultivados
trigo, oliveiras, cevada, centeio e frutas.
Países de economia de base mineral: pressões sobre a natureza
A África é um continente rico em recursos minerais. Assim como os produtos da
agricultura comercial, a atual produção de minérios, realizada principalmente por em
presas estrangeiras, também destina-se à exportação. Em sua maioria, ela é processa
da ou beneficiada no exterior, fato que impossibilita aos países africanos agregar maior
valor às suas exportações de minérios e obter mais divisas.
Dos produtos minerais, um dos maiores destaques é o petróleo. Além de ser explorado
no Egito, nas margens do Mar Vermelho e na Península do Sinai, é extraído na Líbia e na Ar
gélia. Na África Subsaariana, empresas petrolíferas atuam principalmente em Angola, no
Congo, no Gabão, em Camarões e na Nigéria. A Nigéria, além de ser o maior produtor de
petróleo do continente, situava-se, em 2020, entre os doze maiores produtores do mundo.
Diferentemente da estrutura empresarial da extração petrolífera, o ga
rimpo é praticado em condições dramáticas em determinadas áreas da
África. Parte da mão de obra é constituída por crianças, muitas vezes sub
metidas à escravidão e a condições de trabalho precárias. Há casos em
que os próprios pais vendem os filhos a agenciadores de mão de obra in
fantil, com a crença na falsa promessa de que vão frequentar escolas.
A exploração mine
ral na África é também responsável por impactos ambientais e sociais:
contaminação de águas de superfície e subterrâneas; desfiguração do
relevo original; assoreamentos de rios etc.; além de desalojamento
de populações nas áreas de mineração.
Sem os cuidados ambientais e sociais necessários, essas pressões sobre
a natureza são impactantes à população africana. E, para agravar a situação, os lucros obtidos pela extração mineral são, em sua maior parte, en
viados para as sedes das empresas de mineração localizadas no exterior;
a menor parte fica com os países africanos por meio dos impostos, que nem
sempre são aplicados para beneficiar a população em saúde, educação,
transporte, habitação etc. Tal situação constitui, assim, verdadeira espoliação ou apropriação dos recursos naturais e da mão de obra africana por
parte de empresas de mineração e por governos de países africanos.