PRESSUPOSTOS DE UMA PRÁTICA
SOCIOEDUCATIVA NÃO-CRÍTICA
A partir desse ponto, o artigo buscar relacionar
a teoria não-crítica sistematizada por Saviani, com as
práticas descritas nas dissertações e teses analisadas.
Na organização do texto Saviani (1984) nomeou as
três concepções de educação que possuem uma
concepção de sociedade harmoniosa e que concebem
a marginalidade como um fenômeno que deve ser
corrigido pela educação, sendo elas a Pedagogia
Tradicional, a Pedagogia Nova e a Pedagogia Tecnicista.
A PEDAGOGIA TRADICIONAL E OS SEUS
PRESSUPOSTOS NA SOCIOEDUCAÇÃO
Na tendência tradicional, “é marginalizado
quem não é esclarecido” e a educação é um “antídoto
à ignorância, logo, um instrumento para equacionar
o problema da marginalidade” (SAVIANI, 1984, p. 10)
e conforme Libâneo nessa tendência pedagógica “o
aluno é educado pra atingir, pelo próprio esforço, sua
plena realização como pessoa” (Grifo meu, 1990, p. 22).
O MOVIMENTO ESCOLANOVISTA E A
INFLUÊNCIA NA PRÁTICA SOCIOEDUCATIVA
Na educação escolar, o entendimento de que
a escola tradicional era inadequada para realizar a
função de equalização social, influenciou o movimento
da teoria da escola nova que se propunha a corrigir as
distorções sociais que a escola tradicional não o fazia
(SAVIANI, 1984; LIBÂNEO, 1990).
Na perspectiva de Saviani (1984, p. 14) essa
nova concepção teórica, encantou os profissionais
da educação escolar e foi entendida como uma
justificativa para o “afrouxamento da disciplina” e
motivo de “despreocupação com a transmissão de
conhecimento” para as classes mais pobres, o que
agravou o problema da marginalidade.
O movimento da escola nova tinha em Carl
Rogers, Piaget, Decroly e Montessori seus precursores,
em consonância com o momento histórico, de ampla
influência da ciência experimental. É evidente nessa
teoria, a influência dos modelos e procedimentos
educacionais específicos para as crianças especiais, que
posterior foram generalizados para todas as instituições
escolares, que passou a olhar o marginalizado social
como um rejeitado que necessitava ser reintegrado.
Ou
seja, se o marginalizado é aceito pelo grupo, ele deixa de
ser marginalizado, tendo em vista que a anormalidade
é apenas uma diferença, sendo a educação um fator
de correção da marginalidade, ajustando e adaptando
os indivíduos que se sentirão aceitos (SAVIANI, 1984).
Assim, o “marginalizado já não é, propriamente, o
ignorante, mas o rejeitado. Alguém está integrado não
quando é ilustrado, mas quando se sente aceito pelo
grupo e, através dele, pela sociedade em seu conjunto”
(Idem, p 11).
O MOVIMENTO TECNICISTA NO
ESPAÇO SOCIOEDUCATIVO
Segundo Violante, ressocializar “implica a crença
de que o Menor ‘ajustado’ será um bom trabalhador” e
mesmo quando os agentes institucionais reconhecem
as condições sociais adversas, culpabilizam o indivíduo
e a sua família imunizando a sociedade (1989, p. 116).
Para Demo (1987) a metodologia sistêmica se
alimenta das concepções funcionalistas de sociedade
que concebem esta como consensual e harmoniosa
numa perspectiva de funcionamento racional e mais
produtivo possível.
A concepção funcionalista vê a sociedade
constituída por partes (polícia, hospitais, escolas),
sendo que, cada parte, possui funções que promovem a
estabilidade social. Nesse sentido, o homem educado é
o que mais se adapta ao esquema social, assumindo de
maneira natural o comportamento padrão, tendo em
vista que comportamentos rebeldes e transgressores
são inaceitáveis, em uma concepção de homem,
fundamentada em um ser humano ideal, moral,
virtuoso e racional.
“Do ponto de vista pedagógico conclui-se,
pois, que se para a pedagogia tradicional a questão
central é aprender e para a pedagogia nova aprender a
aprender, para a pedagogia tecnicista o que importa é
aprender a fazer”.
É nesse sentido que iremos agora nos referir ao processo de aprendizagem, ao qual os homens são submetidos ainda no processo de trabalho, de reprodução da sociabilidade, por eles realizados. Desde as suas escolhas mais simples da vida cotidiana até aqueles processos sistematizados de ensino que condicionam a ação do homem a uma lógica econômica, o homem estará em volto à formação de si mesmo enquanto um ser social. A formação humana decorrente do modo de produção ao qual o homem está relacionado, seja ela qual for, sempre irá interferir diretamente no modo como ele se reproduz e aprende a se desenvolver pelo trabalho que realiza.
Sendo assim, a formação da consciência humana está intrinsecamente relacionada com o seu contexto social, pois, embora o indivíduo já nasça num contexto histórico já formado, ele também passa a influenciar esse contexto. Como dizem Marx e Engels (1984, p. 56): “as circunstâncias fazem os homens assim como os homens fazem as circunstâncias”. Esse processo de produção e reprodução da vida social ocorre desde que o homem iniciou suas atividades laborativas por meio das quais começou também a se educar, uma vez que o processo educacional é intrínseco ao trabalho humano. No entanto no atual sistema produtivo esse processo de educar não se volta prioritariamente para a formação humana, sendo muitas vezes levado à reprodução de métodos voltados para suprir o mercado capitalista e deixando em segundo plano a sua função de educar o homem de modo omnilateral. Diante dessas considerações teceremos em nossas conclusões algumas posições de Saviani a respeito da educação – no que diz respeito as Teorias Não-Críticas, Teorias Crítico Reprodutivistas e Pedagogia Histórico-Crítica – relacionando-as com o duplo aspecto da reprodução.
Sobre o modus operandi de educação que queremos abordar, o autor brasileiro Dermeval Saviani fez importantes considerações no seu livro Escola e Democracia (2008) a respeito dos grupos de teorias que denominou de Teorias Não-Críticas – quais sejam, Pedagogia Tradicional, Pedagogia Tecnicista e Pedagogia Nova – e Teorias Crítico Reprodutivistas, grupo que compreende a Teoria do Sistema de Ensino como Violência Simbólica, de Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron, Teoria da Escola como Aparelho Ideológico de Estado, de Louis Althusser, e a Teoria da Escola Dualista, de Christian Baudelot e Roger Establet.
Para ambos os grupos de teorias, a marginalidade3 é o objeto de estudo, entretanto, sob perspectivas diversas, Saviani (2008) diferencia as Teorias Não Críticas e as Teorias Crítico-Reprodutivistas, respectivamente da seguinte forma: No primeiro, temos aquelas teorias que entendem ser a educação um instrumento de equalização social, portanto, de superação da marginalidade. No segundo, estão as teorias que entendem ser a educação um instrumento de discriminação social, logo, um fator de marginalização. (SAVIANI, 2008, p. 3-4)
Para as Teorias Não-Críticas a sociedade é harmoniosa, contudo eventualmente ocorre o fenômeno da marginalidade que afeta parte dos seus membros. Com o objetivo principal de combater a marginalidade e retornar à sociedade livre desse tipo de mazela, é utilizada como ferramenta de correção a educação. Dessa forma, não é difícil perceber que, para esse grupo de teorias, mesmo não tendo especificado as peculiaridades de cada uma, a escola tem o papel de equalizar a sociedade.
Nesse mesmo erro incorrem as Teorias Crítico-Reprodutivistas, no entanto considerando o contrário, ou seja, elas defendem que a educação só é instrumento de reprodução do problema da marginalidade. Elas conseguem perceber a relação entre escola e sociedade, todavia também incorrendo em análises unilaterais.
A diferença é que, para aquele grupo de teorias, a escola apenas reproduz as mazelas sociais, contribuindo para a expansão do capitalismo, ao passo que as Teorias Não-Críticas consideram a educação somente como fator de equalização social, sem perceber o lado negativo da reprodução que impera. Saviani (2008, p. 4) comenta que, para as Teorias Crítico-Reprodutivistas, a educação “[...] é entendida como inteiramente dependente da estrutura social geradora de marginalidade, cumprindo aí a função de reforçar a dominação e legitimar a marginalização”.
Em face do exposto, podemos perceber a presença do aspecto negativo da reprodução tanto nas Teorias Não-Críticas como nas Teorias Crítico-Reprodutivistas, pois ambas as concepções acabam por contribuir para a permanência do sistema de dominação do capital frente aos homens, favorecendo distorções na sociedade e na consciência e, consequentemente, reforçando a reprodução das desigualdades.
Logo, a proposta da Pedagogia Histórico-Crítica condiz com a face positiva da reprodução, pois em seu seio há elementos que favorecem a formação de uma consciência humana, longe daquela falsa percepção da realidade que predomina na educação vigente no modo de produção capitalista.
A pedagogia histórico-crítica tem, como principal referência, Dermeval Saviani,
cuja concepção de educação se assenta numa teoria crítica de caráter histórico, superando os
modelos unilaterais de compreensão do indivíduo e da história. O caráter concreto, histórico e
imanente que ele atribui à essência humana, permite produzir uma pedagogia que articule
essência e existência como aspectos indissociáveis do devir-humano dos homens. E, sob essa
articulação, relaciona teoria e prática, sujeito e objeto, conteúdo e metodologia, como
dimensões do fazer didático-pedagógico.
Compreendendo dialeticamente a relação entre sociedade e educação, com todas
as contradições daí derivadas, a pedagogia histórico-crítica procura explicitar uma teoria
capaz de romper com o reprodutivismo das teorias não-críticas – alicerçadas na neutralidade
técnica – e com os limites das teorias crítico-reprodutivistas – erigidas sobre o enfoque
político.
À luz da pedagogia histórico-crítica, a educação assumiria o papel de assegurar
aos indivíduos a apropriação das objetivações genéricas produzidas pela humanidade. Sendo
função de tal pedagogia identificar os elementos culturais a serem apropriados através da
educação escolar – as objetivações genéricas produzidas historicamente pela humanidade no
campo da filosofia, da ciência, da arte, da ética. A realização dessa função, entretanto, deve
dispor dos espaços possíveis em meio às relações contraditórias próprias da reprodução
capitalista, uma vez que consiste numa postura contrária aos interesses dos dominantes, não
sendo incorporada às políticas educacionais vigentes.
Esse cenário nos induz à Pedagogia Crítica tanto na formação dos professores, quanto
nas práticas escolares cotidianos. Será preciso que professores percebam as possibilidades da
escola como espaço de contestação e de resistência, de forma a produzir processos que possam
romper com a lógica possível da dominação pelas práticas escolares. É preciso repensar práticas
pedagógicas que carreguem a contra hegemonia de muitos séculos de dominação pela escola.
Precisamos que as escolas resgatem e construam espaços de questionamento; de diálogos
formativos; de ressignificação da cultura escolar; de partilha de significados e de um currículo
que expanda e fortaleça as oportunidades emancipatórias. Esclarecimentos críticos ao invés da
tutela da informação; práticas de convivência construtiva e dialógica, ao invés de mecanismos
de reprodução do saber; de disciplina castradora.
Que todos na escola construam a capacidade
de falar pela própria boca, de pensar pelos próprios parâmetros e de dialogar para a construção de novos saberes. É preciso fazer da educação escolar um programa deliberado de resistência,
consciência e formação.
Numa síntese sobre as dificuldades em construir-se uma teoria crítica, Santos (1999b,
p. 201) declara essa impossibilidade, sobretudo quando esta “concebe a sociedade como
uma totalidade e, como tal, propõe uma alternativa total à sociedade que existe”,
radicalizando-se a sua razoabilidade argumentativa em dinâmicas de conceitos que são
essencialmente úteis no esclarecimento de uma dualidade, na qual o sujeito fica prisioneiro
de estruturas, ao mesmo tempo que mantém a esperança e a utopia da sua transformação
como um todo.
Porém, a teoria crítica não só questiona a educação e o currículo no quadro das
estruturas sociais, políticas e económicas que legitimam o conhecimento, mas também
relaciona o conhecimento escolar com as questões de poder e controlo, pelo que o
currículo, construído na diversidade de contextos, atores e propósitos diferenciados, contém
relações de poder e não pode ser considerado como algo neutro e pretensamente técnico.
O PRESENTE DA TEORIA PÓS-CRÍTICA
Com as denominações pós-modernidade, pós-modernismo, pós-estruturalismo e pós
colonialismo, entre outras, afirma-se o presente da teoria pós-crítica, melhor dizendo, das
teorias pós-críticas, se a classificação de Tadeu da Silva (2000) for mencionada. Trata-se
de uma diversidade de pressupostos conceptuais com o denominador comum da
valorização da subjetividade (PINAR, 2006, 2007a; 2007b, 2008, 2011), do primado do
pessoal em relação ao social (PINAR, 2010) e da descredibilização das metanarrativas
(LYOTARD, 2006).
As teorias pós-críticas divergem de forma significativa do pensamento crítico no
entendimento da noção de emancipação. Partindo da tipologia proposta por Laclau (2004),
Maia (2011) refere que o entendimento pós-crítico de emancipação distancia-se de uma
visão totalizante e estável, portadora de uma oposição radical, mantendo, no entanto, uma
operacionalidade social e uma produtividade política, sendo que a emancipação, no dizer de
Santos (1999b), é um pensamento de rebeldia. Para Lyotard, (2006, p. 23), como escreveu
no livro A condição pós-moderna, publicado em 1979, havia então o “perigo de o modelo
crítico se reduzir a uma utopia, a uma esperança quando centrada na radicalidade da luta de
classes como pilar social do princípio da divisão”.
Na segunda metade dos anos de 1990, o campo da teoria curricular no
Brasil é marcado por múltiplas influências teóricas advindas, em especial, da literatura
francesa, e passa a incorporar enfoques da chamada “agenda pós-moderna”, que
colocam em suspensão os princípios críticos. Assim, amplia-se o campo da teoria
curricular no cenário nacional, com forte influência do viés pós-crítico, e, sobretudo, na
incorporação de enfoques pós-modernos e pós-estruturalistas. Autores como Michel
Foucault, Jacques Derrida, Gilles Deleuze, Félix Gattari, Edgar Morin, entre outros são
os que mais tiveram repercussão no período (MOREIRA, 1998; LOPES e MACEDO,
2010; SILVA, 2004, PARAÍSO, 2004).
A expressão teorias pós-críticas em educação e no currículo não
apresenta um corpo conceitual coerente e unificado, é composto por várias tendências.
O ponto em comum, é que são correntes céticas em relação ao projeto moderno e seus
princípios, sob a perspectiva do contingente e do descontínuo, buscando abarcar as
subjetividades plurais.
São marcadas por diversas tendências teóricas que buscam
atender as demandas da incorporação teórica proposta pela “virada linguística” no
campo cultural, tido como “cenário de fluidas, irregulares e subjetivas paisagens”
(LOPES, 2013, p. 17), que “inclui os estudos pós-estruturais, pós-coloniais, pós
modernos, pós-fundacionais e pós-marxistas” (LOPES, 2013, p. 10), em que “todos esses movimentos se cruzam, se mesclam [...] pertencendo a uma tradição que se remete
aos pensamentos de Nietzsche, Heidegger e Derrida” (LOPES, 2013, p. 17).
Seguindo
as premissas da perspectiva pós-estruturalista, em que os processos de significação são
tidos enquanto instáveis, a análise se estende ao campo do simbólico, dos discursos e
das práticas, críticas que alcançam a reflexão pedagógica: “a atitude pós-estruturalista
enfatiza a indeterminação e a incerteza também em questões de conhecimento” (SILVA,
2004, p. 123).
Dentre os principais referenciais da teorização curricular pós-crítica
no Brasil, podemos destacar os pesquisadores: Tomaz Tadeu da Silva, Alfredo Veiga
Neto, Silvio Gallo, Sandra Mara Corazza, Antonio Flavio Moreira, Alice Casemiro
Lopes, Elizabeth Macedo, Marlucy Alves Paraiso, Marisa Vorraber Costa, entre outros.
Com a ampliação do campo da teoria curricular no cenário nacional,
se inserem novas problemáticas nas produções acadêmicas, que encontram espaço nos
debates pós-estruturalistas, tais como: os processos de desconstrução das teorias
curriculares, do pensamento de Derrida; a localização dos micropoderes no cotidiano
escolar, com as noções de Foucault; as implicações da estrutura do conhecimento para a
organização curricular e a ênfase na diferença, a partir de Deleuze e Guattari, entre
outros.
No Brasil, a perspectiva pós-estruturalista tem como marco principal
as produções do Grupo de Currículo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS), liderado por Tomaz Tadeu da Silva que, desde a primeira metade da década
de 1990, vem produzindo significativamente e tem notoriedade nesse campo de
investigação.
Dentre os pressupostos teórico-metodológicos orientadores do grupo,
destacam-se os Estudos Culturais, em especial Stuart Hall, além das contribuições de
Foucault, Derrida, Deleuze e Gattari.
Um dos pontos importantes para pensar um currículo pós
estruturalista, é o questionamento das bases do projeto moderno, em especial, aos
conceitos de sujeito, razão e conhecimento. Os discursos modernos são
desestabilizados: questiona-se a noção de projeto de transformação social e de formação
de sujeitos. A razão moderna é levada ao tribunal, “falhou como esteio de um
julgamento ético e político” (VEIGA-NETO E MACEDO, 2008, p. 248), diagnóstico
que impulsionou a “guinada rumo ao discursivo”, pautado nos processos de
subjetivação. Em síntese, são marcadamente “anti-essencialistas, anti-objetivistas,
críticos dos determinismos e valorizam a linguagem como central na mediação da
compreensão do social, substituindo as estruturas pelo discurso e ampliando as
discussões filosóficas da cultura” (LOPES, 2013, p. 17).
Para Silva (2004) os pós-estruturalistas “olham com desconfiança para conceitos
como alienação, emancipação, libertação, autonomia, que supõem, todos, uma ausência
subjetiva que foi alterada e precisa ser restaurada” (SILVA, 2004, p. 150). Em outras
palavras, a partir de um viés antifundacional “acaba com qualquer vanguardismo,
qualquer certeza e qualquer pretensão de emancipação” (SILVA, 2004, p.116). Em
outras palavras, “são desestabilizados os projetos de formação de um sujeito emancipado e consciente, capaz de dirigir a transformação social” (LOPES, 2013, p. 18), uma vez
que “[...] não existe sujeito a não ser como o simples e puro resultado de um processo
de produção cultural e social” (SILVA, 2004, p. 120).
A Teoria Pós-crítica, de acordo com Barbosa e Favere (2013, p. 76), não se referem às
teorias críticas como forma de superá-las, “até porque as Teorias Pós-críticas retomam alguns
objetos que foram tomados nas teorias críticas e os combina em algumas de suas análises,
utilizando-se, especialmente, suas premissas relativas ao poder”.
A divergência entre essas
teorias se dá em relação às análises econômicas e marxistas da teoria crítica e as análises
discursivas e mais textualistas da pós-crítica.
As teorias pós-críticas são definidas por Silva
(2000, p. 106) como um:
[...] conjunto das perspectivas teóricas e analíticas que, embora retendo o
impulso crítico da “teoria educacional crítica”, coloca em questão, a partir
sobretudo da influência do pós-estruturalismo e do pós-modernismo alguns
de seus pressupostos.
A teoria pós-crítica questiona, por exemplo, um dos
conceitos centrais da teoria crítica, o de ideologia, por seu comprometimento
com noções realistas de verdade.
Da mesma forma, seguindo Michel
Foucault, a teoria pós-crítica distancia-se do conceito polarizado de poder, da
teoria crítica. Ela coloca em dúvida, ainda, as noções de emancipação e
libertação, tão caras à teoria crítica, por seus pressupostos essencialistas.
Os autores Moreira e Silva (2009, p. 7) consideram o currículo como [...] um artefato
social e cultural. [...] o currículo não é um elemento inocente e neutro de transmissão
desinteressada do conhecimento social. [...] O currículo não é um elemento transcendente e
atemporal – ele tem uma história, vinculada a formas específicas e contingentes de
organização da sociedade e da educação.
Para Arroyo (2011) o currículo é compreendido como o conjunto de práticas que
acontecem na escola. Mas para o autor, o currículo não é toda a escola, sendo mais que um
conjunto de conhecimento, práticas ou de conteúdo.
A escola é uma estrutura, uma instituição
que tem lógicas que organizam tempos, trabalhos, espaços, rituais, convívios, não sendo
apenas uma relação interpessoal. Arroyo (2011, p. 13), ainda entende que “na construção
espacial do sistema escolar, o currículo é o núcleo e o espaço central mais estruturante da
função da escola. Por causa disso, é o território mais cercado, mais normatizado. Mas também
o mais politizado, inovado, ressignificado”.
Contudo, no cenário pós-crítico, é possível pensar
o currículo através de outras formas, como “o espaço de crítica a lógica moderna, suas
centralidades, hierarquias e verdades; critica-se a noção do sujeito, e defende a subjetividade
fragmentada” (Barbosa, 2017, p. 85). Assim, o currículo passa a valorizar a experiência
subjetiva, a realidade habitual e o conhecimento particular.
Quanto às teorias, as que cercam efetivamente a construção dos
currículos escolares, são denominadas Teorias críticas, Pós-crítica e Tradicionais, que repercutem da “neutralidade”, “científicas e desinteressadas" da Teoria Tradicional para
aquelas que visam maior impacto social e científico na construção de um currículo social e
democrático, propiciando o desenvolvimento das diferentes identidades e culturas, mesmo
sabendo que a construção do currículo não se deve ser vista como “inocente”, já que sempre
estará relacionada ao poder, bem como às ideologias, sendo teorizadas pelas Teorias Críticas e
Pós-críticas.
Assim, as discussões realizadas revelaram significativas transformações entre as
percepções da Teoria Tradicional de currículo e as Teorias Críticas e Pós-críticas. Enquanto a
Teoria Crítica surge para fazer um questionamento ideológico sobre o que apresenta a Teoria
Tradicional em termos de currículo, a Teoria Pós-crítica pauta seus questionamentos em
porque ensinar, apresentando os sujeitos como protagonistas do currículo, ampliando assim a
discussão da teoria crítica.
Por fim, percebeu-se através da análise realizada, que não existe uma definição
absoluta e essencial de currículo, o que faz com que se tenha que utilizar uma abordagem
histórica para entender currículo, uma vez que as teorias são temporais, tendo em cada época
uma teoria que olha para sua realidade e culturas, possibilitando várias definições de
currículo, em momentos históricos diferentes.