Evidências arqueológicas indicam que o Homo sapiens originou-se na África há pelo menos 200 mil anos. Cem mil anos atrás, ele começou a se espalhar pelos outros continentes. O primeiro destino foi a atual região do Oriente Médio.
No entanto, muito antes dessas descobertas, os seres humanos tentavam desvendar suas origens mais remotas, bem como as do planeta. Quem somos? De onde viemos? Como começou a vida na Terra? Em busca de respostas, povos antigos propuseram explicações religiosas e científicas para as origens do ser humano.
Explicações de nossas origens
Vários povos do mundo desenvolveram explicações para a questão da origem humana. Elas podem ser encontradas nos mitos, nas religiões e nas ciências.
As explicações mitológicas ou religiosas são baseadas em
crenças. Já as da ciência são obtidas por meio de um conjunto de
procedimentos conhecido como método científico.
Ao empregar esse método, o cientista observa e analisa evidências para formular hipóteses que o ajudem a solucionar determinada questão. Em seguida, realiza testes e experimentos e,
depois, apresenta a outros cientistas as conclusões que obteve.
Após debater essas conclusões, os cientistas podem chegar a
consensos e elaborar teorias. No entanto, os resultados podem
gerar outras dúvidas. Nesse caso, a pesquisa deve ser retomada
até que se produza consenso. Algumas vezes, ela dá origem a
pesquisas científicas diferentes, em um ciclo constante de produção de conhecimento.
Os mitos são narrativas cheias de elementos sobrenaturais, como
deuses, animais falantes e acontecimentos mágicos. Por meio delas,
as pessoas tentam explicar o porquê de as coisas serem como são e
como os integrantes de cada sociedade devem se comportar.
As explicações religiosas, nas quais um ou mais seres divinos teriam criado o ser
humano e todo o Universo, são chamadas de criacionistas. Para cristãos e judeus,
por exemplo, essa criação levou seis dias para ser concluída; no sétimo dia, o criador
teria descansado.
De acordo com os iorubás, povo originário da África, o deus supremo Olodumarê deu
vida, com seu sopro, a homens e mulheres feitos de barro. Para ajudá-lo a conceber tudo
o que existe no mundo, Olodumarê também criou as divindades chamadas de orixás.
Na explicação dos indígenas guaranis sobre a concepção do mundo, Tupã, o deus do
trovão, colocou as estrelas no céu e moldou tudo sobre a Terra, como oceanos, florestas
e animais. Tupã então criou os guarani, e deles descenderam todos os outros povos.
Já entre os maias, o deus Hunab Ku criou a si mesmo, o céu e a Terra; depois,
misturou terra e água e moldou o primeiro ser humano.
De acordo com um mito chinês, por exemplo, a origem do Universo, da Terra e dos seres humanos teria ocorrido de um “ovo cósmico”; dentro dele esta
riam yin e yang, as duas forças opostas que compõem o Universo. Um dia, essas
energias conflitantes quebraram o ovo: os elementos mais pesados formaram
a Terra, os mais leves formaram o céu e, entre eles, surgiu o primeiro ser.
Narrativas como essas são consideradas explicações mítico- religiosas. Elas têm em
comum uma ideia mágica ou sobrenatural de que os humanos foram criados pela vontade
de um ou de vários deuses.
No Brasil, onde vivem mais de duzentos povos indígenas, há inúmeros mitos que explicam como o mundo e a humanidade foram criados.
Essas explicações, também conhecidas como mitos de fundação, são bastante
variadas e dependem do povo, do lugar e da época em que foram desenvolvidas.
Os mitos de fundação fazem parte da cultura dos povos e dão fundamentação às
práticas religiosas e celebrações diversas ao redor do mundo.
É importante valorizar essa diversidade, respeitando as diferentes tradições e
culturas.
No Brasil, onde convivem pessoas de diferentes religiões, uma das explicações
religiosas mais conhecidas é o Criacionismo, para o qual a origem do mundo, dos
animais e das pessoas é resultado da ação de um criador.
Os mitos que contam a origem dos seres humanos variam bastante de uma cultura para outra, porém quase sempre atribuem a criação
da humanidade à iniciativa de deuses e de outros seres fantásticos,
que teriam criado os homens e as mulheres moldando-os no barro,
esculpindo-os na madeira, utilizando milho ou outros materiais.
A mitologia de um povo traz sentido às suas tradições e influencia sua visão de mundo e seus valores. Ela é transmitida por meio da tradição oral de geração a geração e mantém viva a identidade do povo. Como os relatos orais mudam ao longo do tempo, um mesmo mito pode ter várias versões; contudo, sua essência permanece.
Mitologia grega
A mitologia grega tem algumas histórias para explicar
a origem dos seres humanos. Em uma delas, o titã Prometeu
criou os homens a partir do barro. Para terminar sua criação, ele decidiu roubar uma centelha do Sol (fogo divino) e
entregá-la aos homens. De acordo com a mitologia grega,
porém, o fogo celeste era privilégio apenas dos deuses,
seres imortais. Zeus, soberano dos deuses, ficou então
furioso, punindo Prometeu e os homens. Como punição,
Prometeu foi acorrentado a um rochedo e ali uma águia devorava seu fígado, que, no entanto,
se regenerava a cada dia. Depois de
sofrer por muito tempo, Prometeu foi
libertado.
Já os mortais foram punidos com a
criação de Pandora, que representa
a primeira mulher. Como muitos personagens da mitologia grega, Pandora
era repleta de virtudes e defeitos. Ela
foi criada por vários deuses e cada
um deles lhe deu um talento especial.
Ao final, Zeus confiou a Pandora uma caixa, recomendando que ela jamais a abris
se. Porém, um dia, Pandora decidiu abrir
essa caixa e dela saíram todos os males
do mundo. Assustada, ela fechou a caixa
rapidamente, tendo restado ali dentro
apenas o último consolo dos mortais:
a esperança.
Segundo especialistas, as histórias da criação dos seres humanos não ocupam
um lugar de destaque na mitologia grega. Mas existem algumas narrativas sobre
a criação humana, bem como mitos que mostram interações dos seres humanos com os deuses e os heróis. Na maioria dessas narrativas, os humanos são
caracterizados como mortais, ambíguos e contraditórios, conscientes de suas
limitações. E, por isso, eles reverenciam os deuses buscando ajuda e proteção.
Criacionismo judaico-cristão
O criacionismo defende que a vida e toda matéria existente no universo são resultados O criacionismo defende que a vida e toda matéria existente no universo são resultados
da ação direta de um Criador.
A perspectiva criacionista está presente em várias culturas da ação direta de um Criador. A perspectiva criacionista está presente em várias culturas
e religiões, como o judaísmo, o islamismo e o cristianismo.
No mundo ocidental, marcado pelas tradições do judaísmo e do
cristianismo, a narrativa criacionista mais conhecida está contida no
livro do Gênesis, que integra o Antigo Testamento da Bíblia.
Observe trechos
desse livro:
“No princípio, Deus criou o céu e a terra. [...]
Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança,
e que ele domine sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra’. [...]
Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem
e mulher ele os criou.”
A Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulinas, 1989. Gn 1: 1, 3, 4, 5, 24, 26, 27.
Os trechos citados trazem a ideia de que o ser humano é uma criação
especial de Deus, diferenciando-se dos outros animais por sua espiritualidade. Essa espiritualidade se revela, por exemplo, na consciência, na
linguagem simbólica, na imaginação artística e no senso ético.
O criacionismo é uma explicação para a origem do universo e da
vida que se baseia na fé. Para os criacionistas, todas as coisas existentes foram criadas exatamente como são por uma ou mais entidades
sobrenaturais superiores, ou seja, um deus ou vários deuses.
O criacionismo não é uma teoria porque não está amparado em
evidências. Trata-se de uma narrativa mítica cuja aceitação depende
das crenças religiosas das pessoas.
Teoria da Evolução
Ao longo dos séculos XVIII e XIX, os cientistas passaram a dar mais atenção ao estudo de fósseis. Eles ficaram intrigados com o
grande número de fósseis de animais desconhecidos e que não podiam ser encontrados
vivos na natureza. Entre esses animais havia
répteis e mamíferos que guardavam semelhanças com alguns animais conhecidos. Os
fósseis de mamutes, por exemplo, tinham
grande semelhança com os elefantes.
Um dos cientistas que ofereceu explicações
para esses fatos foi o naturalista inglês Charles
Darwin (1809-1882), que em meados do século
XIX elaborou a chamada Teoria da Evolução.
Para Darwin, os fósseis de animais desconhecidos eram, na verdade, restos de animais
que já haviam sido extintos.
Em meados do século XIX, a explicação criacionista para a origem
da vida em geral e dos seres humanos em particular foi contesta
da pelas descobertas de dois naturalistas britânicos: Alfred Russel
Wallace e Charles Darwin. Suas ideias deram origem à teoria da evolução, também conhecida como evolucionismo.
Em 1831, Darwin participou de uma expedição científica a bordo
do navio Beagle. Durante a viagem, ele estudou e comparou espécies
de animais e de plantas de diferentes regiões. Também coletou fósseis
e percebeu semelhanças entre organismos extintos e vivos. Com base
nessas observações, Darwin concluiu que todas as espécies de seres vivos
passam, no decorrer do tempo, por um processo natural de transformação.
Wallace viajou para o Brasil, para a Indonésia e para a Malásia entre
1848 e 1852, e, assim como Darwin, coletou plantas e animais para suas pesquisas. Com seus estudos, chegou às mesmas conclusões que
Darwin a respeito das transformações das espécies.
A base dessa teoria consolidou-se com os estudos do naturalista francês Jean-Baptiste de Lamarck (1744-1829) e do
botânico austríaco Gregor Mendel (1822-1884), que realizaram
pesquisas sobre hereditariedade e genética. Influenciado por
esses estudos e pelas próprias observações, o naturalista inglês
Charles Darwin (1809-1882) publicou, em 1859, o livro A origem
das espécies,
no qual propôs que os seres vivos compartilham um mesmo
ancestral e que as espécies mudaram, evoluíram e se diferenciaram por meio de uma seleção natural.
Nessa obra,
ele apresentou um amplo estudo sobre a formação, a evolução e a
extinção das espécies. Essa explicação para
a origem dos seres vivos foi chamada de Teoria da Evolução.
Para Darwin, a Teoria da Evolução também se aplica à
espécie humana. Isso significa que nós, como todos os seres
vivos, somos resultado de um longo processo de seleção
natural, no qual os indivíduos mais adaptados às condições
do meio em que vivem obtêm melhores chances de produzir
descendentes e, assim, transmitir suas características.
Depois de muita pesquisa, ele concluiu que os seres vivos passaram por uma seleção natural ao longo de
milhões de anos e que as espécies mais adaptadas ao ambiente eram as
que deixavam descendentes. As que não se adaptavam desapareciam.
Nas sociedades cristãs do século XIX, essa teoria provocou
grandes polêmicas – Darwin foi criticado por religiosos e
cientistas cristãos. Na época, era difícil aceitar a ideia de que os
seres humanos tinham um “parentesco” com outros animais.
Essa teoria, ao apresentar uma explicação científica para as
origens do ser humano, entrou em choque com as interpretações
de caráter religioso. Segundo os cientistas que reconhecem a
teoria da evolução, evidências como fósseis de ancestrais humanos
e ferramentas de pedra produzidas por eles, assim como pegadas
de animais gigantes extintos, reforçam as ideias defendidas
por Darwin.
Seleção natural
Charles Darwin percebeu que indivíduos da mesma espécie
se relacionavam com o ambiente de acordo com as características que apresentavam. Assim, dependendo das condições
ambientais, alguns se tornavam mais aptos a sobreviver do que
outros de sua espécie.
Aqueles que melhor se adaptam às mudanças no ambiente são os que têm maiores chances de sobrevivência e, consequentemente, de se reproduzir e transmitir suas características aos descendentes. Por outro lado, os seres vivos
que não conseguem se adaptar
ao ambiente têm mais dificuldade
de se reproduzir e, com o passar
do tempo, podem ser extintos.
Com base nessas observações, Darwin e o naturalista britânico Alfred Wallace propuseram a denominada teoria da
seleção natural.
De acordo com a teoria evolucionista, há muitas variações entre
indivíduos da mesma espécie.
Algumas características aumentam as chances de reprodução ou
de sobrevivência de um indivíduo, que, por isso, consegue deixar
mais descendentes.
Os indivíduos que não têm essas características vivem menos tempo e, portanto, têm menos descendentes.
Após várias gerações, as características que aumentam as chances
reprodutivas e de sobrevivência dos indivíduos da espécie estarão
cada vez mais acentuadas e presentes na população. Darwin chamou
esse processo de seleção natural.
Para explicar como funciona a seleção natural, Darwin utilizou o exemplo da girafa. Os ancestrais das girafas tinham
pescoço de comprimentos variados: algumas nasciam com
o pescoço mais comprido; outras, com o pescoço mais curto. Essas variações eram hereditárias, ou seja, passavam de
uma geração a outra.
Ao longo do tempo as girafas de pescoço mais
longo, com melhores condições de sobrevivência, deixaram mais descendentes e foram se tornando predominantes,
enquanto as girafas de pescoço curto
foram desaparecendo.
Situações parecidas com esse exemplo aconteceram com vários outros animais ao redor do mundo. Esse processo de seleção natural foi
chamado de evolução das espécies. E, assim como os outros animais, o
ser humano passou por ele.
A seleção natural sucessiva, em uma escala extensa de tempo,
pode levar a um acúmulo significativo de características selecionadas,
resultando em novas espécies de seres vivos.
Darwin não conhecia a causa dessas variações entre os indivíduos da
mesma espécie. Atualmente, os cientistas reconhecem que a variação de características em uma espécie é causada por mutações nos genes
de alguns indivíduos. Essas mutações acontecem ao acaso na natureza,
mas podem resultar também da intervenção humana.
A Terra passou por consideráveis mudanças ao longo do tempo: houve períodos mais quentes, outros frios; alguns mais chuvosos, outros secos. Além disso, a história do planeta é marcada por eventos como erupções vulcânicas e terremotos.
Em um mundo em constante transformação, algumas
espécies ancestrais do ser humano sobreviveram por apresentar determinadas características vantajosas, enquanto
outras acabaram sendo extintas. Isso mesmo: no passado,
existiram várias espécies de hominídeos, a família de espécies que incluía a humana.
A teoria e a polêmica
Doze anos depois, Darwin publicou A origem do homem e a seleção
sexual, que trata da evolução da espécie humana. Nesse livro, o naturalista inglês defendeu a ideia de que os seres humanos e os grandes
primatas, como os gorilas e os chimpanzés, evoluíram de um ancestral comum.
Algumas polêmicas ocorreram em virtude de interpretações incorretas da Teoria da Evolução, como a ideia de
que os seres humanos descendem dos macacos. O que a
Teoria da Evolução sugere é que humanos e demais primatas (macacos, chimpanzés, gorilas etc.) compartilharam, em
algum momento, um mesmo ancestral.
Ele nunca afirmou que descendíamos diretamente dos
macacos, embora alguns críticos de seu trabalho tenham lhe atribuído equivocadamente essa ideia.
Mas atenção: não se deve pensar na evolução das espécies como um “aperfeiçoamento” em linha reta. A situação
se parece mais com uma teia complexa.
Atualmente, a Teoria da Evolução é estudada nas ciências
e, assim como todas as teorias científicas, é continuamente
questionada, revista e aprimorada.
A EVOLUÇÃO DO SER HUMANO
A teoria evolucionista de Darwin e Wallace resolveu um grande mistério científico. Desde o século XIX, arqueólogos e outros estudiosos encontravam em suas
pesquisas ossos muito semelhantes aos de humanos modernos, mas nenhum ser
humano conhecido tinha ossos exatamente como aqueles.
Utilizando a teoria evolucionista, os cientistas ligaram a origem do ser humano
a um grupo de mamíferos chamado primatas, que surgiu na África há cerca de
70 milhões de anos.
Um grupo de primatas deve ter originado os primeiros hominídeos, ou seja,
seres que já apresentavam características semelhantes às do homem moderno. Os
mais antigos hominídeos de que se tem evidência foram os australopitecos. Eles
viviam no sul da África, já andavam eretos sobre os dois pés e tinham habilidade
com as mãos, mas não fabricavam instrumentos.
Em 1974, descobriu-se na Etiópia o esqueleto de um australopiteco quase
completo, de 3,2 milhões de anos. Depois de se comprovar que se tratava de uma
mulher, o esqueleto foi batizado com o nome de Lucy, porque no momento da
descoberta os arqueólogos estavam ouvindo a canção Lucy in the sky with dia
monds, dos Beatles.
Em 2010 foi descoberto, também na Etiópia, um esqueleto 400
mil anos mais velho que o de Lucy,
mas da mesma espécie que ela,
um Australopithecus afarensis.
Denominado pelos pesquisadores
de Kadanuumuu, o esqueleto teria
3,6 milhões de anos.
As contínuas descobertas de
esqueletos de hominídeos muito
antigos na África levaram os cientistas a concluir que o ser humano
provavelmente surgiu na África e
de lá se espalhou para os outros
continentes.
Os primatas
Segundo o evolucionismo, os seres humanos pertencem à ordem dos primatas, isto , isto
é, mamíferos com capacidade de agarrar objetos e de perceber visualmente a distância em
que eles se encontram. Acredita-se que uma família de primatas deu origem aos primeiros
hominídeos, indivíduos com algumas características humanas.
Com base em estudos científicos, os pesquisadores concluíram que os seres humanos são primatas, grupo do qual fazem parte os chimpanzés e os gorilas. Os
primatas que deram origem ao ser humano se desenvolveram no continente africano
há mais de 70 milhões de anos.
Ao longo do processo de evolução, eles adquiriram características específicas que
os diferenciaram dos demais primatas, como o cérebro maior e o modo ereto de
andar sobre duas pernas. Assim, há evidências de que os primeiros humanos também
tiveram origem na África.
A hominização
Com base na Teoria da Evolução, os cientistas passaram a analisar o processo de
hominização, isto é, o desenvolvimento de características típicas do ser humano.
Durante o processo de hominização, nossos ancestrais (hominídeos) desenvolveram uma grande capacidade de adaptação aos mais diferentes ambientes. Entre
essas adaptações estão a forma ereta de andar, sobre duas pernas, e o desenvolvimento de um cérebro maior, capaz de elaborar pensamentos mais complexos.
Os cientistas denominam a espécie humana como Homo sapiens. Os Homo sapiens
surgiram no continente africano há cerca de 300 mil anos e há cerca de 100 mil anos
começaram a migrar para outros continentes. Os seres humanos modernos são chamados Homo sapiens sapiens.
Os primeiros humanos
Um dos primeiros exemplares de hominídeos de que foram encontrados vestígios era do gênero Australopithecus.
Existiram várias espécies desse gênero. Esses
hominídeos viveram na África, ao sul do deserto do Saara, há cerca de 5,5 milhões de
anos e andavam eretos sobre os dois pés. Com o tempo, algumas espécies sobreviveram, e outras se extinguiram.
Cerca de 2 milhões de anos atrás surgiu um novo gênero de
hominídeos mais semelhante aos seres humanos atuais. A esse novo gênero, chamado de
Homo, pertence a espécie humana.
O esqueleto de Australopithecus
mais conhecido foi descoberto na
Etiópia, país do leste africano, em
1974. Era de uma fêmea da espécie
Australopithecus afarensis e foi batizado de Lucy, porque, no momento
da descoberta, os arqueólogos estavam ouvindo a canção Lucy in the sky with
diamonds, dos Beatles, grupo musical britânico. Na época, a descoberta causou
sensação, pois se tratava de um ancestral
humano com cerca de 3,2 milhões de anos.
Lucy tinha um pouco mais de um metro
de altura e compartilhava com os humanos
algumas características, como andar sobre
duas pernas (bipedismo). No entanto, apresentava características de outros primatas,
como os chimpanzés: braços longos e curvados e mandíbula inferior saliente, mais
adaptada para mastigar vegetais crus.
Ao longo de milhões de anos, muitas espécies de hominídeos apareceram e
foram extintas. Algumas deram origem aos
seres humanos atuais; outras aos gorilas,
chimpanzés e orangotangos.
O gênero Homo
Por volta de 2,5 milhões de anos atrás, surgiu o gênero
Homo, do qual faz parte a espécie Homo sapiens. É provável que
esse gênero tenha evoluído do Australopithecus, mas isso ainda
está em investigação. Conheça a seguir características de algumas das espécies do gênero Homo.
• Homo habilis (2,4-1,4 milhão de anos): É considerado o primeiro representante
do gênero Homo; sabia fazer utensílios
de pedra, com os quais caçava pequenos
animais, o que lhe permitiu incluir a
carne em sua dieta. Daí o seu nome
que, em latim, significa “homem
hábil”, “habilidoso”, “engenhoso”. Os indivíduos dessa espécie
desenvolveram a habilidade de produzir instrumentos cortantes de pedra, que utilizavam para preparar alimentos.
• Homo erectus (1,9 milhão-110 mil anos): É descendente direto do Homo habilis.
Aperfeiçoou instrumentos de pedra,
com os quais caçava animais grandes.
Foi o primeiro a aprender a usar o fogo,
conseguindo, com isso, adaptar-se a
regiões frias da Europa e da Ásia.
Os indivíduos dessa
espécie eram caçadores-coletores e usavam ferramentas de
pedra lascada, como machados. Foram os primeiros a sair da
África, ocupando regiões da Ásia e da Europa.
• Homo neanderthalensis (400-40 mil anos): Muitos dos restos do homem de Neandertal
foram encontrados em cavernas, daí
a expressão “homem das cavernas”.
Acredita-se que ele tenha evoluído ao
mesmo tempo que o humano moderno.
Seu desaparecimento ainda é objeto
de debates. O homem de Neandertal
praticava a coleta e a caça em grupos de
20 ou 30 pessoas, fazia sepulturas para
seus mortos cobertas com pedra e terra.
Por isso, acredita-se ter sido a primeira
espécie a realizar cerimônias religiosas.
Os neandertais
viviam na Europa e na Ásia Ocidental em grupos de caçadores-coletores. Vestiam-se com peles de animais, fabricavam instrumentos de ossos, galhos e pedras e realizavam
pinturas rupestres.
• Homo sapiens: surgiu há cerca de 300 mil anos. É a espécie da qual fazemos parte.
Originou-se na África há pouco mais
de 100 mil anos e depois se espalhou por
todos os continentes, adaptando-se a
qualquer ambiente.
Eles produziram instrumentos e desenvolveram técnicas elaboradas, como as da
cerâmica, da metalurgia e do curtume. Isso demonstra que
eles tinham alta capacidade inventiva e de aprendizagem, atributos favorecidos pelo desenvolvimento da linguagem verbal.
A espécie Homo sapiens
Fósseis de diferentes espécies de hominínios foram encontrados em
várias regiões do planeta e receberam nomes específicos, conforme suas
características físicas ou o lugar onde seus vestígios foram descobertos.
Essas espécies desenvolveram particularidades próprias de acordo com
o ambiente e as diferentes necessidades de sobrevivência, evoluindo ao
longo de milhões de anos. Algumas delas conviveram entre si, às vezes de
forma pacífica, às vezes nem tanto.
Sabemos que, ao longo do tempo, as espécies de hominínios desapareceram, menos a Homo sapiens. Por que só a nossa espécie sobreviveu?
Ainda não temos certeza, mas a maioria dos cientistas concorda que desenvolvemos características cerebrais específicas que nos diferenciaram
de outras espécies.
Os cientistas acreditam que, por ter um cérebro maior que o das outras espécies de
Homo, o Homo sapiens era também mais inteligente. Foi graças à sua inteligência que desenvolveu a fala, além de outras habilidades, como costurar, tocar, esculpir, desenhar. Assim, conseguiu sobreviver.
Adquirimos, por exemplo, as inovadoras capacidades de criar símbolos, de comunicar e de trocar informações. Essas habilidades permitiram,
por exemplo, que um indivíduo alertasse seu grupo sobre a aproximação
de um tigre-dentes-de-sabre ou sobre os efeitos prejudiciais provoca
dos pela ingestão de uma fruta ou semente.
Assim, com o passar do tempo, os Homo sapiens conseguiram acumular e partilhar conhecimentos, realizar atividades colaborativas mais
complexas, organizar-se em grupos maiores e cuidar do grupo com
mais eficiência. Isso permitiu a eles que se alimentassem melhor, caças
sem grandes mamíferos, se protegessem de predadores e de outros
hominínios, garantindo a sobrevivência para um número cada vez maior
de descendentes.
A ciência sugere que essas vantagens, em milhares de anos, tiveram um efeito surpreendente para o crescimento dos grupos de
Homo sapiens e, em algumas regiões, esse crescimento colaborou
para o desaparecimento de outros hominínios menos adaptados.
Os cientistas ainda não conseguiram fazer a árvore genealógica completa da nossa espécie. Com base nas técnicas e nos materiais utilizados pelos nossos ancestrais, os pesquisadores dividem a chamada Pré-História em dois períodos: o Paleolítico, da pedra antiga ou pedra lascada; e o Neolítico, da pedra nova ou pedra polida.
Discussões sobre a origem do gênero Homo
Entre os cientistas dos diversos ramos do conhecimento, há uma longa discussão sobre a origem do gênero Homo. A polêmica gira em torno dos locais
onde surgiu a espécie Homo sapiens. Embora essa questão pareça ser meramente científica, foi com base em uma dessas explicações que certas teorias
racistas foram desenvolvidas, especialmente no século XX.
A ideia de que o ser humano, tal como ele é hoje, surgiu na
África não foi muito bem aceita, especialmente por alguns europeus. Ainda no
século XVIII, o naturalista sueco Carl Linnaeus (1707-1778) apresentou uma classificação da espécie humana separada em raças e as qualificou segundo o que
alegava ser as características próprias das raças.
Leia a seguir um trecho da
classificação proposta por Linnaeus, apresentado pelo médico geneticista e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Sergio Danilo Pena.
[…]
Homo sapiens europaeus: Branco, sério, forte
Homo sapiens asiaticus: Amarelo, melancólico, avaro
Homo sapiens afer [africanus]: Negro, impassível, preguiçoso
Homo sapiens americanus: Vermelho, mal-humorado, violento
[…]
Sergio Danilo Pena. O DNA do racismo. Revista Ciência Hoje.
Os argumentos da teoria criada por Linnaeus serviram de base para outras
teorias racistas ao longo dos séculos XIX e XX.
A ideia de raça serviu de argumento para o extermínio de diversas populações ao longo da história e para a
discriminação que ainda persiste, especialmente contra os afrodescendentes.
A ciência atual reconhece que não existem raças humanas, já que todos os seres humanos pertencem a uma única espécie: o Homo sapiens.
DA ÁFRICA PARA O MUNDO
Todas as evidências indicam que os seres humanos surgiram na África e, a partir
dela, se espalharam para os outros continentes. Durante muito tempo, acreditou-se que essa dispersão havia se dado em uma única migração, ocorrida há 50 mil
anos, com os grupos humanos seguindo até o norte da África e atravessando a
península Arábica também pelo norte, em direção à Ásia central.
Estudos recentes,
contudo, concluíram que muito antes dessa migração houve outra, há cerca de
130 mil anos, quando grupos humanos deixaram a região nordeste da África em
direção ao sul da península Arábica.