O Mediterrâneo está intimamente ligado à história da Europa, da África e da Ásia. Algumas civilizações se desenvolveram às suas margens.
Localizado entre a Europa, a África e a Ásia, o mar Mediterrâneo tem um papel de destaque na história dos povos e das civilizações que se desenvolveram às suas margens ou próximo a elas. Suas águas serviram para interligar regiões distantes, aproximar povos e culturas distintas; por meio delas aconteceu um grande intercâmbio de pessoas, plantas e animais, assim como de conhecimentos, saberes, práticas, hábitos e costumes.
A maior parte das terras mediterrâneas é quente e irrigada pelas chuvas. Nas planícies próximas da costa, os habitantes plantavam trigo e cevada e, em áreas mais elevadas, cultivavam uvas e oliveiras. Já nas colinas, criavam ovelhas e cabras. Aqueles que viviam em zonas litorâneas contavam com uma rica fonte de peixes e frutos do mar.
De acordo com historiadores, há cerca de 11 mil anos, grupos humanos já navegavam pelas águas do Mediterrâneo, prática que foi intensificada a partir de 6500 a.C. Com o tempo, diferentes povos passaram a estabelecer contato entre si, dando origem às primeiras rotas comerciais.
Inicialmente, as navegações ocorriam próximo à costa, porém, com o aprimoramento das tecnologias náuticas e dos conhecimentos adquiridos, os navegadores passaram a fazer viagens mais longas.
Trocas comerciais
Por volta do terceiro milênio antes de Cristo, povos como os egípcios e os cretenses já realizavam transações comerciais ao longo do Mediterrâneo. Ao longo dos séculos, fenícios, gregos, cartagineses, romanos e árabes, por exemplo, passaram a integrar esse comércio, e suas embarcações cruzavam o Mediterrâneo em toda a sua extensão. Produtos como vinho, azeite e metais estavam entre os mais transportados. O mar também acabou se transformando em um dos destinos finais da chamada Rota da Seda.
Rota da Seda foi o nome dado a um conjunto de estradas, trilhas e caminhos marí timos com mais de 7 mil quilômetros de extensão que atravessava a Ásia e chegava até a Europa (consulte o mapa na página 118). Não se sabe ao certo quando foi inaugurada – as atuais estimativas baseiam-se em relatos chineses sobre o comércio de caravanas que datam do século I a.C.
O trajeto completo costumava ser percorrido em cerca de um ano e era repleto de adversidades. As estradas cruzavam montanhas, desertos e estepes, e muitas vezes chuvas ou nevascas fechavam parte do trajeto, obrigando os viajantes a se desviarem do caminho conhecido. Temperaturas extremamente baixas ou elevadas, tempestades de areia e assaltantes também compunham parte das dificuldades enfrentadas pelos viajantes.
Os comerciantes transportavam no lombo de animais uma grande quantidade de mercadorias do Oriente, como perfumes, porcelanas, peles, peças de cerâmica, chá, pólvora, objetos de metal, frutos secos, pedras preciosas etc. Porém, o produto mais valioso e desejado na Europa e na África eram os tecidos de seda originários da China e trocados por cavalos, vidros, perfumes e pedras preciosas vindos de lugares variados, como Roma e Egito.
Trocas culturais
Ao cruzarem o Mediterrâneo, diversos povos estabeleceram entrepostos comerciais ou colônias em regiões litorâneas que deram origem a cidades. Uma delas é Cádiz, na atual Espanha, fundada pelos fenícios por volta do século VIII a.C. Já os gregos fundaram as cidades de Nápoles e Siracusa, na atual região da Itália.
Com a fundação dessas diversas cidades, o Mediterrâneo se tornou importante não apenas para o comércio mas também para a promoção de encontros e trocas culturais entre civilizações de três diferentes continentes. Foi por meio de comerciantes que nave gavam pelo mar que o alfabeto fenício, por exemplo, se espalhou por entre os gregos e posteriormente chegou aos romanos, que o adaptaram. O alfabeto romano é um dos sistemas de escrita alfabética mais utilizados no mundo na atualidade.
A LIGAÇÃO ENTRE O ORIENTE E O OCIDENTE
A Rota da Seda foi fundamental para promover a ligação entre o Oriente e o Ocidente. Essa rota se consolidou na dinastia Han, que governou a China de 202 a.C. a 220 d.C., e durou até 1453, quando foi fechada pelo Império Otomano.
Durante a dinastia Han, a China conquistou territórios estratégicos na Ásia Central, o que possibilitou a circulação de pessoas e mercadorias entre regiões dos atuais Afeganistão, Índia e Irã. Criou-se uma complexa rede de caminhos terrestres e marítimos, interligando o Mediterrâneo, então controlado pelo Império Romano, e regiões do Oriente sob diferentes impérios.
A Rota da Seda estabeleceu uma conexão duradoura entre povos antigos distantes entre si (analise o mapa). Por meio dela, ideias, técnicas e costumes foram levados de um local a outro do planeta. Geógrafos romanos, como Ptolomeu, passaram a conhecer melhor a cartografia oriental. Tradições filosóficas, escolas artísticas e crenças religiosas, como o cristianismo e o budismo, também circularam amplamente.
À frente do Império Macedônico, Alexandre, o Grande, avançou no século IV a.C. por meio da Rota da Seda sobre territórios asiáticos. O processo conduzido pelos macedônios deu origem à cultura helenística, marcada pela combinação de tradições mediterrânicas e orientais.
A CIVILIZAÇÃO CRETENSE
Creta é uma ilha com pouco mais de 8 mil quilômetros quadrados, localizada entre o norte da África e o sul da Península
Balcânica. Maior ilha do Mediterrâneo, abrigou uma das mais
antigas civilizações da humanidade, a civilização cretense, também
conhecida como minoica.
Pouco se sabe sobre as origens dos cretenses. No entanto, por
volta de 2500 a.C., na mesma época em que os egípcios construíam
as pirâmides de Gizé, existiam em Creta importantes cidades,
como Cnossos, Malia e Festos. Eram cidades controladas por uma
aristocracia formada por reis, nobres, sacerdotes e comerciantes.
Nessas cidades, as casas eram de pedra e tijolo, e os palácios
ali erguidos funcionavam não só como residências mas também
como centros comerciais, cerimoniais e religiosos. Em Cnossos, por
exemplo, o palácio ocupava uma área de 20 mil metros quadrados
no alto de uma colina.
Os minoicos se destacavam na fabricação de joias, cerâmicas, esculturas e produtos
de metal. Também construíram portos e aquedutos.
Para navegar entre as ilhas da região, os primeiros cretenses utilizavam canoas escava
das em troncos de árvores, posteriormente substituídas por embarcações mais sofisticadas.
Com elas, realizavam trocas comerciais com povos de lugares distantes, como Grécia e
Egito, além de outras regiões do Mediterrâneo, como a Mesopotâmia e a Ilha de Chipre. A
marinha mercante dos cretenses se tornou a maior da época e seus mercadores dominaram
o comércio mediterrâneo.
A civilização cretense é considerada uma das primeiras a ter uma vida econômica
dominada pelo comércio marítimo. Ao entrarem em contato com outros povos, os cretenses assimilaram traços de diferentes culturas. Com os mesopotâmicos, por exemplo,
aprenderam a trabalhar o bronze; com os egípcios, a fabricar vasos de pedra.
Uma característica marcante dos cretenses era o papel desempenhado pelas mulheres:
elas ocupavam posição de destaque e desfrutavam de uma liberdade até então desconhecida em outras localidades. Além disso, várias divindades eram femininas e cabia às
sacerdotisas o principal papel nas cerimônias religiosas.
A civilização minoica começou a entrar em decadência no início do século XV a.C.,
quando Creta foi devastada por terremotos e guerras internas. Ao
longo do século, foi invadida por diversos povos até ser dominada
pelos aqueus, no início do século XIV a.C.
OS FENÍCIOS
O alfabeto é uma das mais importantes invenções do ser humano. Com menos de
30 sinais (a, b, c, d etc.), é possível registrar uma linguagem articulada e transmitir as
ideias mais abstratas. Além disso, os sinais utilizados em português são, de modo geral,
os mesmos que povos como alemães, ingleses, franceses, entre outros usam para escrever
em seus idiomas.
O alfabeto é resultado do acúmulo coletivo de informações, necessidades, criações
e interesses de diversos povos. Mas juntar informações de várias culturas e elaborar um
sistema de escrita adaptável a diversas línguas foi tarefa de um povo específico: os fenícios.
As origens dos fenícios datam de aproximadamente 3000 a.C., época em que diversos
agrupamentos de um povo que se autodenominava cananeu se estabeleceram no Oriente
Médio, em uma região chamada Canaã, próximo ao atual Líbano.
Uma série de disputas de terras entre os povos que habitavam Canaã forçaram os
cananeus a se estabelecerem em uma estreita faixa de terra, situada mais próximo ao mar.
Embora tivessem o mesmo idioma e a mesma cultura, os cananeus não criaram um
Estado unificado, sob o governo de um único rei. Seus povoados, que ao longo dos séculos
se transformaram em cidades, tinham administração própria. Por isso, são chamados de
cidades-Estado. Esse foi o caso das cidades de Biblos, Sídon, Tiro, Ugarit e outras.
O comércio
Um produto típico dos cananeus era um corante especial para tingir tecidos de vermelho-escuro. Conhecido como púrpura, esse produto era fabricado com base em um pequeno
molusco encontrado no litoral da região e vendido por alto preço a diversos outros povos.
Os gregos chamavam a púrpura de phoenicia. Por isso, a região de Canaã passou
a ser designada também por Phoenicia (Fenícia), e seus habitantes ficaram conhecidos
como fenícios. Outro produto que comercializavam era o cedro, árvore bastante utilizada
para a construção de navios.
Trabalhadores descarregando toras de cedro de navios, representados em detalhe de relevo,
Palácio real de Sargão II em Dur Sarruquim, Iraque. Século VIII a.C.
As embarcações fenícias navegavam pelo Mediterrâneo levando e trazendo grande
variedade de mercadorias. Em muitos dos locais pelos quais passavam – norte da África,
regiões da Europa, ilhas do Mediterrâneo –, fundaram feitorias,
que mais tarde se transformaram em cidades.
A mais famosa delas
foi Cartago, que se tornou uma grande potência, como explicado
nas páginas 124 e 125.
O declínio das cidades fenícias começou a partir do século VII a.C, quando foram
dominadas por diversos povos, entre eles babilônios, persas, gregos e romanos.
O desenvolvimento do alfabeto
O comércio colocou os fenícios em contato constante com diferentes povos. Além
disso, eles viviam em uma região onde era possível encontrar grande variedade de
línguas e escritas.
Há registros da utilização de escrita cuneiforme nos territórios fenícios por volta de
1000 a.C. Esse tipo de escrita era utilizada na região da Mesopotâmia e se disseminou
entre os fenícios por meio das trocas culturais e comerciais entre as duas regiões. Além
disso, a escrita hieroglífica também foi utilizada em documentos produzidos pelos fenícios, que a assimilaram possivelmente após contatos com os egípcios.
Aos poucos, os fenícios adaptaram esses tipos de escrita às suas necessidades. Para
registrar suas transações comerciais, por exemplo, necessitavam de um sistema de escrita
flexível e rápido. Assim, criaram um modelo de alfabeto com apenas 22 sinais – todos
consoantes. Esse alfabeto utilizava letras para representar os sons das palavras e ficou
conhecido como alfabeto fonético.
A invenção fenícia foi transmitida pelo Mediterrâneo, influenciando outros povos da
região. Os gregos, por exemplo, incorporaram o alfabeto fonético e acrescentaram a ele
cinco vogais, deixando-o com 24 letras, praticamente do modo como conhecemos hoje.
Esse alfabeto, por sua vez, influenciou os etruscos. Das 26 letras do alfabeto etrusco, os
romanos assimilaram 21 na criação do alfabeto latino.
Composto apenas de letras
maiúsculas, o alfabeto latino se
espalhou pelo Mediterrâneo,
nas regiões conquistadas pelos
romanos. As letras minúsculas
foram acrescentadas séculos depois, durante a Idade Média.
CARTAGO: UMA POTÊNCIA AFRICANA
A cidade de Túnis, atual capital da Tunísia, já foi ocupada por uma das maiores potências
comerciais e militares do Mediterrâneo: Cartago. Essa cidade-Estado foi fundada pelos fenícios no século VIII a.C. e posteriormente se emancipou, formando a civilização cartaginesa.
No final do século V a.C., Cartago era a cidade mais rica do Mediterrâneo.
Os cartagineses controlavam diversas colônias, que se estendiam da costa norte do continente
africano até o sul da Península Ibérica.
Essas regiões eram responsáveis pelo fornecimento de alimentos e metais, principal
mente chumbo e prata. No século IV a.C., os cartagineses passaram a cunhar a própria
moeda, que substituiu o ouro, usado até então como forma de pagamento.
A cidade de Cartago tinha intensas atividades comerciais. Os comerciantes cartagineses compravam e vendiam variados tipos de mercadorias, como ouro, prata, ferro, estanho
e marfim, vindos de diferentes regiões da África, Ásia e Europa.
Essas e outras mercadorias entravam e saíam pelo porto de Cartago. Construído em
formato circular, havia em seu interior espaço suficiente para mais de 200 embarcações
de guerra.
A frota de navios de guerra dos cartagineses
era uma das maiores do Mediterrâneo. As embarcações eram movidas a remo e tinham em sua
proa, ou seja, na parte da frente, um
esporão (espécie de protuberância)
para danificar os navios inimigos.
Reconstituição
artística do porto de
Cartago no século
X, quando agregava
o porto militar (o
circular), no interior,
e o porto comercial
(o retangular), em
contato com o mar
Mediterrâneo.
No século III a.C.,
Cartago passou a sofrer a
concorrência de Roma, que
disputava com ela a supremacia
na região do Mediterrâneo.
A rivalidade entre as duas cidades
originou três longos conflitos, travados entre
246 a.C. e 146 a.C. Esses conflitos, vencidos por
Roma, ficaram conhecidos como Guerras Púnicas.
Com a vitória, Roma se tornou a principal
potência do Mediterrâneo e deu início a um pro
cesso de expansão territorial que resultou na formação de um grande império.
A cidade-Estado de Cartago foi destruída e transformada em província romana. Os
cartagineses que sobreviveram aos confrontos foram enviados a Roma na condição de
trabalhadores escravizados.
A CIVILIZAÇÃO ETRUSCA
Por volta do século VIII a.C., os etruscos, povo originário provavelmente da Lídia (atual
Turquia), estabeleceram-se no centro da Península Itálica, região depois chamada de Etrúria.
Ao chegarem à Etrúria, os etruscos iniciaram diversas obras: regularizaram o curso de
rios, secaram pântanos, construíram esgotos, aquedutos e portos.
Construtores habilidosos,
utilizavam em suas obras pedra, madeira e tijolo. Além disso, foram eles os responsáveis
por introduzir o arco e as abóbadas nas construções da Península Itálica.
Os etruscos fundaram diversas cidades-Estado na península, entre elas Veio, Cere,
Tarquínia e Vulci, que eram governadas por monarquias. Além de cuidarem da administração, os reis também comandavam o exército, presidiam os serviços religiosos e eram
responsáveis pela aplicação da justiça.
A civilização etrusca acreditava na existência de vida após a morte. Quando uma
pessoa das camadas sociais mais elevadas morria, seu corpo era depositado em uma tumba
com objetos de uso pessoal, para que pudesse utilizá-los em sua próxima encarnação.
A própria tumba era uma construção suntuosa, contendo vários cômodos e pinturas nas
paredes. Muito do que se conhece hoje a respeito da história dos etruscos veio da análise
desses túmulos e dos objetos encontrados em seu interior.
De pequena vila à cidade-Estado
Os etruscos também se destacavam como marinheiros e praticavam o comércio e a
pirataria ao longo do Mediterrâneo. Do contato que tiveram com gregos, herdaram um
sistema de escrita cujo alfabeto era formado por 26 letras. No entanto, a escrita etrusca
ainda não foi totalmente desvendada.
Na segunda metade do século VII a.C., os etruscos expandiram seus domínios territoriais. Cruzaram o Rio Tibre, que delimitava seus territórios ao sul, e invadiram a região
do Lácio, onde viviam os latinos, povo que se dividia em várias aldeias. Os etruscos
unificaram essas aldeias dando origem à cidade-Estado de Roma, que, séculos mais
tarde, iria se tornar a maior potência do Mediterrâneo.
Os etruscos permaneceram em Roma até o século VI a.C., quando foram expulsos
pelos latinos. Nos séculos seguintes, guerras contra latinos, gregos e celtas contribuíram
para o enfraquecimento da civilização etrusca, que desapareceu no século IV a.C.
