terça-feira, 6 de outubro de 2026

GUERRA DE TRÓIA

Conflito em que a Grécia antiga teria derrotado a cidade de Tróia, localizada na Ásia Menor, no séc. XIII a.C., valendo-se de um estratagema envolvendo um gigantesco cavalo de madeira.
Os relatos sobre esse episódio, narrados em poemas épicos como Ilíada e Odisséia, do poeta grego Homero, e Eneida, do poeta romano Virgílio, mesclam fatos históricos com mitos e lendas gregos. A veracidade da lenda não foi comprovada. Escavações conduzidas entre 1870 e 1890 pelo arqueólogo alemão Heinrich Schliemann identificaram o local da antiga Tróia na antiga colina Hissarlik, na Turquia. Os resultados dessas escavações e de outras posteriores revelaram a existência de nove cidades sobrepostas, destruídas por guerras ou catástrofes. Pesquisas recentes sugerem que a lendária Tróia corresponde à sétima cidade.

O Início da Guerra


De acordo com os relatos de Homero, Helena, a mais bela mulher do mundo, fugiu para Tróia com Páris, filho do rei Príamo. Helena já era casada com o rei Menelau, de Esparta, que organizou com seu irmão, Agamenon, uma expedição a Tróia para resgatar Helena. O exército grego contava com heróis como Aquiles, Ajax, Nestor e Odisseu (Ulisses em latim).

O Cerco de Tróia 


O exército grego impôs a Tróia um cerco de dez anos, mas não conseguiu conquistar a cidade antes do episódio do cavalo. A Ilíada descreve o último ano da luta, quando os troianos, chefiados por Heitor, enfim expulsaram os gregos de volta para seus navios. A Ilíada termina com o enterro de Heitor, morto por Aquiles.
As lendas gregas relatam os acontecimentos que se seguiram. Os troianos receberam ajuda de seus aliados, os etíopes, e de um exército de mulheres guerreiras chamadas amazonas. Mas Aquiles conseguiu fazer os gregos vencer seus inimigos matando Pentesiléia, rainha das amazonas, e Mêmnon, rei dos etíopes. Mais tarde, Páris, ajudado pelo deus Apolo, feriu Aquiles mortalmente.
A Queda de Tróia é descrita na Eneida. Os gregos construíram um gigantesco cavalo de madeira, que ficou conhecido como o Cavalo de Tróia, e colocaram-no do lado de fora das muralhas da cidade. Ulisses e vários guerreiros esconderam-se dentro do cavalo, enquanto o restante do Exército partia em seus navios.
A profetisa Cassandra e o sacerdote Laocoonte aconselharam os troianos a não levar o cavalo para dentro da cidade. Mas Sínon, um prisioneiro grego, convenceu-os de que o cavalo era sagrado e traria a proteção dos deuses. Os troianos levaram-no então para Tróia. Naquela noite, os gregos saíram de dentro do cavalo e abriram os portões da cidade para o restante de seus guerreiros.
Os gregos resgataram Helena, liquidaram quase todos os troianos e incendiaram Tróia. Segundo a Eneida, dentre os poucos sobreviventes troianos estava Enéias, cujos descendentes fundaram Roma.

Cena do filme Tróia




A civilização cretense

A civilização cretense ou minoica floresceu entre 2000 a.C. e 1400 a.C., na Ilha de Creta, ao sul da Grécia continental. Por meio da navegação, ela estabeleceu relações com o Egito e com os povos vizinhos da Ásia Menor. Exercendo o controle sobre o Mar Egeu, os cretenses acumularam muito poder e impuseram um pesado sistema de tributos às outras cidades da região.
A civilização cretense atingiu um elevado grau de desenvolvimento. Nas escavações realizadas no sítio arqueológico de Cnossos, foram encontrados palácios luxuosos que guardavam joias, peças de cerâmica, pinturas e estatuetas de grande valor artístico. Suas paredes são decoradas com afrescos delicados e coloridos, muitos deles representando a vida marinha. No sítio há evidências de que os cretenses desenvolveram um sistema de canalização para transportar água e coletar esgoto.
Um peculiar ponto da cultura cretense refere-se à existência de uma estrutura familiar onde a mulher ocupava papel de destaque. No campo religioso essa mesma valorização da figura feminina percebe-se no culto à Deusa-Mãe, representante da fertilidade e da terra. Tal ponto característico da cultura cretense pode ser observado dentro da futura Cidade-estado de Esparta, onde as mulheres exerciam importantes papéis.
Em Creta, a vida econômica, social e política girava em torno desses palácios. Os pesquisadores acreditam que na ilha havia uma forte ligação entre política e religião, como acontecia nas cidades do Antigo Oriente. Os reis, governantes dos palácios, eram associados à figura do touro – animal que ocupava lugar de destaque nos rituais religiosos cretenses – e eram chamados de Minos. No entanto, não se sabe se a palavra era um título ou o nome de uma dinastia.
Os cretenses elaboraram um tipo de escrita chamada pelos estudiosos de Linear A. Essa escrita ainda não foi totalmente decifrada e, por isso, muitos aspectos da cultura cretense são motivos de controvérsia entre os especialistas.
Por volta de 1450 a.C., o poder de Creta entrou em declínio. Provavelmente desastres ambientais fragilizaram a civilização cretense, facilitando a invasão da ilha pelos aqueus, povo indo-europeu seminômade originário do norte da Europa. Os aqueus impuseram aos dominados sua economia e sua língua, mas também incorporaram muitos aspectos da cultura cretense.

A sociedade e a cultura


Os cretenses eram governados por um rei, o minos, que decidia, junto com um conselho, o que deveria ser feito. Devemos supor que havia artesãos, lavradores, comerciantes e marinheiros.
A posição social das pessoas dependia daquilo que elas possuíam, ou seja, aquela não era uma sociedade na qual a pessoa já nascia dentro de uma determinada casta, como no Oriente. Os cretenses possuíam escravos, embora em número reduzido.
A principal atividade econômica dos egeus estava ligada ao comércio marítimo. O desenvolvimento da produção de cerâmica e produtos metalúrgicos em grande escala supria esse comércio.
Os habitantes da ilha de Creta eram pacíficos. As cidades cretenses cresciam ao redor do palácio central, que contava com muitas salas que se comunicavam entre si por meio de corredores e escadarias. A sala principal do palácio era, ao mesmo tempo, santuário e sala do trono.
As paredes dos palácios-templos cretenses eram cobertas de pinturas nas quais se nota a ausência de guerras ou batalhas. As habitações encontradas nos fazem supor que não havia grandes desigualdades sociais.
Os cretenses gostavam muito de esportes, como o atletismo. A música e a dança tinham um papel muito importante na vida social. Eles inventaram a flauta e a cítara para animar as reuniões que faziam.
Ao contrário da maioria dos povos que estudamos até agora, as mulheres ocupavam um papel de relevo e gozavam de liberdade sem igual no mundo antigo. Participavam das atividades políticas e esportivas. As principais divindades cretenses eram femininas. As sacerdotisas desempenhavam o papel principal nas cerimônias religiosas dos cretenses.

A religião


Os cretenses cultuavam duas divindades de origem asiática: a Grande Mãe e seu filho Minotauro, um monstro que tinha cabeça de touro e corpo de homem. A lenda do Minotauro se tornou muito popular na Grécia antiga.


"Segundo a lenda, os gregos de Atenas haviam matado um dos filhos do rei cretense. Para se vingarem dos atenienses, os cretenses declararam guerra à Atenas e venceram. Exigiram dos vencidos que todos os anos mandassem sete moças e sete rapazes para acalmar a fome do Minotauro.
Dizia-se que desse labirinto ninguém conseguia sair, pois era impossível achar a saída. Mas um rapaz grego, de nome Teseu, resolveu enfrentar o monstro do labirinto. Foi secretamente ajudado pela jovem Ariadne, filha do rei Minos, que lhe deu um novelo de linha para que ele fosse desenrolando no labirinto e, assim, conseguisse achar o caminho de volta.
Teseu lutou bravamente com o touro, conseguiu matá-lo e sair do labirinto. A lenda permaneceu viva na memória do povo grego por muito tempo."
Minotauro era um monstro da mitologia grega, que tinha o corpo de homem e cabeça de touro. Era filho do rei Minos e da rainha Pasífae.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Formação da Grécia antiga

A Grécia atual e a chamada Grécia antiga não são a mesma coisa. Hoje, a Grécia é um país com governo e fronteiras definidas. A Grécia antiga não era um país unificado, mas uma porção de cidades independentes, com seus governos e suas leis.

O território da Grécia antiga pode ser dividido em três grandes partes:

• Grécia continental: parte sul da península dos Bálcãs, compreendendo as regiões da Tessália, Etólia, Beócia e parte da Ática, além de cidades como Atenas e Delfos.

• Grécia peninsular: península do Peloponeso, região ao sul do golfo de Corinto, incluindo as regiões da Acaia e Lacônia e cidades como Esparta e Olímpia.

• Grécia insular: região formada pelas diversas ilhas do mar Egeu e do mar Jônico, destacando-se a ilha de Creta, a maior de todas.


Primeiros povoadores


Foi a partir do segundo milênio antes de Cristo que diversos povos se instalaram na Península Balcânica, região onde hoje se situa a Grécia. Os aqueus foram um dos primeiros a se estabelecerem na região, por volta de 1600 a.C., e a dominaram até aproximadamente 1100 a.C. Nesse período, chegaram também os jônios e os eólios, que se integraram à sociedade aqueia. Depois vieram os dórios, os quais dominaram grande parte da região.



Ali misturaram seus modos de ser e de viver e, ao longo do tempo, construíram certa unidade cultural que ficou conhecida como Grécia antiga ou Hélade. 
Esses povos se reconheciam como helenos e nunca chamaram a si próprios de gregos. O termo grego é de origem romana. Com o tempo, esses dois termos, gregos e helenos, foram utilizados para se referir a toda essa sociedade.

Os povos que deram origem à cultura grega


Antes dos gregos, outro povo já havia ocupado a região de Creta, uma ilha do Mar Egeu: a civilização cretense. Seus habitantes ocuparam a região por volta de 3000 a.C., atingindo o apogeu em 2000 a.C.


Ruínas do Palácio de Cnossos, Creta, 2021.


Em cerca de 2000 a.C., a ilha de Creta era um importante centro de trocas comerciais entre diferentes sociedades que viviam em torno dos mares Egeu, Mediterrâneo e Jônico. Os cretenses construíram imensos palácios, cidades e portos. Ali,
desenvolveu-se a sociedade minoica, e a língua, a arte e a cerâmica minoicas difundiram-se pelo Mediterrâneo.
Enquanto a civilização minoica se desenvolvia, outros povos migraram para a Grécia continental, entre eles os micênicos, também conhecidos como aqueus, que fundaram Micenas, uma cidade que se tornou o centro de expansão da civilização aqueia e que, por isso, também ficou conhecida como civilização micênica.

Porta dos Leões, em Micenas, na Grécia, 2020. O portal tem pouco mais de 3 metros de altura na parte superior; preenchendo o espaço triangular, há dois leões separados por uma coluna.


No decorrer do século XV a.C., os aqueus invadiram e dominaram colônias cretenses no Mar Egeu. Por volta de 1400 a.C., conquistaram a principal cidade de Creta, Cnossos. Assim, a ilha de Creta, que já era uma potência militarista, tornou-se base militar e centro comercial marítimo dos aqueus.
Por meio das trocas culturais e do controle sobre diferentes populações, a sociedade micênica se expandiu e desenvolveu inovações na arquitetura, na agricultura, no comércio e nas técnicas de navegação.
A partir de então, o intercâmbio entre essas duas culturas tornou-se mais intenso, dando origem à chamada civilização creto-micênica, considerada por muitos estudiosos a ancestral direta da civilização grega antiga.


As ruínas de Cnossos foram encontradas em 1900 pelo arqueólogo britânico Arthur Evans, que, nessa época, contratou uma equipe de artistas para restaurar a antiga cidade. Atualmente, muitos pesquisadores defendem que grande parte da restauração de Evans foi uma recriação modernizada de Cnossos. Na imagem, afresco de golfinhos restaurado, em palácio da cidade de Cnossos, na ilha de Creta, Grécia. O afresco original foi produzido entre 1700 a.C. e 1450 a.C.


A civilização cretense


Na sociedade cretense, o palácio tinha um papel central: era o lugar de onde o rei governava e, ao mesmo tempo, era fundamental na vida econômica da cidade.

Afresco do Palácio de Cnossos, Creta, 2021.


O palácio era responsável por numerosas atividades econômicas: artesanato, praticado em oficinas amplas; agricultura e pastoreio, praticados em áreas reservadas a essas atividades; e comércio, ou seja, trocas de um produto por outro. Nas suas dependências havia também templos religiosos e armazéns, onde os alimentos eram guardados. Parte de toda essa produção era destinada ao rei na forma de
tributos. Entre os palácios cretenses, o mais rico e conhecido
era o de Cnossos.
Por volta de 1450 a.C., ocorreram vários incêndios, em Creta, provocados provavelmente pelos aqueus, povo que invadiu e conquistou a cidade de Creta.

A civilização micênica


Inicialmente, os aqueus ocuparam o sul da Grécia, onde fundaram v várias cidades, entre as quais Micenas – daí o nome dado a sua civilização. Por meio da navegação, os micênicos entraram em contato com os cretenses, de quem assimilaram conhecimentos que, depois, usaram para dominá-los e assumir a liderança comercial nos mares da região. Por meio do comércio marítimo, os micênicos espalharam a cultura grega pelo Mar Mediterrâneo.
A sociedade micênica também estava organizada em torno do palácio. O principal deles era o palácio de Micenas, onde foram encontradas tabuinhas com uma escrita conhecida por Linear B. Ao decifrá-la, em 1953, os estudiosos descobriram que era um ramo do grego antigo. Era essa, portanto, a língua dos aqueus.

Ilustração atual representando caracteres da escrita Linear B. Essa escrita é o mais antigo registro que conhecemos de uma forma do grego e é fundamental para o conhecimento das origens da Grécia antiga.

Em 1200 a.C., não se sabe o porquê, os palácios foram destruídos. Com a destruição dos palácios micênicos, iniciou-se um período de empobrecimento material e abandono da escrita, que se estendeu até 900 a.C.
As principais fontes escritas sobre esse período são dois longos poemas: Ilíada e Odisseia, atribuídos ao poeta Homero. Hoje, sabemos que esses poemas vinham sendo cantados por várias gerações de poetas, chamados de aedos.

Parte de um manuscrito da obra Ilíada, produzido entre o fim do século V d.C. e o início do século VI d.C. 

A Ilíada narra a guerra de Troia (em grego, "Ílion"); já a Odisseia narra as aventuras do herói Ulisses ("Odisseu", em grego) em sua viagem de volta a Ítaca, ilha situada na Grécia.
Enquanto isso, os jônios, eólios e dórios, povos que tinham parentesco com os aqueus, invadiram a Grécia; esses quatro povos deram origem aos antigos gregos.

A Grécia pós-micênica 


Por volta de 1100 a.C., conflitos internos, catástrofes naturais – como secas – e grandes migrações contribuíram para que a civilização micênica entrasse em decadência. Essa situação facilitou a invasão do território pelos dórios. Assim, cidades micênicas foram destruídas e a maioria da população fugiu, estabelecendo-se na Ásia Menor.
Os dórios eram povos também indo-europeus que, no século XII a.C., chegaram à região do Bálcãs e se estabeleceram em Creta e na Grécia peninsular. No mesmo período, os jônios e os eólios, também indo-europeus, ocuparam a Grécia continental. 
A sociedade que se formou entre os séculos XII e VIII a.C. era muito diferente da micênica. As novas comunidades estavam organizadas em propriedades familiares que incluíam escravos, animais, terras e casas, chamadas de oikos. 
O governo era exercido por uma assembleia composta de membros de famílias nobres, que cuidavam das leis, da administração, da justiça e da defesa do território. 
Entre os séculos IX e VIII a.C., o crescimento da população grega fez com que as terras agrícolas disponíveis se tornassem insuficientes para o sustento das pessoas. Enquanto os que tinham mais poder ficaram com mais terras, os camponeses pobres se viram obrigados a trabalhar para eles. Muitos camponeses, endividados, tornaram-se escravos. 

Os eupátridas


Com a chegada dos dórios, a sociedade começou a se organizar em pequenas comunidades chamadas genoi. 
Os parentes mais próximos dos líderes dos genoi – os eupátridas – apoderaram-se das melhores terras e ocuparam os lugares mais destacados da sociedade. O restante da população perdeu suas terras ou ficou com as piores áreas para a agricultura. Por isso, muitos foram para a Península Itálica e para a Sicília, ilha onde fundaram cidades-Estado com características gregas.
Essa unificação de genos sob o governo de um mesmo rei deu origem às cidades-Estado, conhecidas também como poleis (plural de pólis).

Colonização grega (750-550 a.C.)


Essa situação levou vários grupos da população grega a ocupar terras ao longo do mar Mediterrâneo e do mar Negro. Assim, entre os séculos VIII e VI a.C., os gregos fundaram colônias no sul da Europa, no norte da África, na Ásia Menor e na costa do mar Negro. As colônias gregas tinham um governo próprio e, portanto, eram independentes da cidade-mãe. Mantinham com ela apenas laços comerciais e culturais (língua, religião e costumes).
A expansão colonial grega estimulou o comércio marítimo e a utilização de moedas. Além de provocar o fenômeno da colonização, o crescimento da população grega também estimulou as trocas comerciais e o aparecimento de várias cidades na Grécia, isoladas umas das outras. 
Chamadas de pólis pelos gregos (poleis, no plural), cada uma delas transformou-se num Estado independente, com leis e governo próprios. Por isso, elas também são conhecidas como cidades-Estado. Ainda que fossem governadas por reis, nas poleis os cidadãos (politikos) interferiam nos assuntos do governo. 
A discussão e a participação dos cidadãos nas decisões sobre os rumos da pólis deram origem à palavra política, utilizada por nós até hoje. Nas primeiras poleis, porém, poucas pessoas, vindas de famílias privilegiadas, tinham cidadania, ou seja, o direito de participar da vida política da cidade.
O que hoje se chama de Grécia antiga não era um Estado único, mas um conjunto de pequenos Estados independentes: um conjunto de poleis. Apesar das diferenças, as pessoas que viviam nas cidades-Estado se comunicavam com a mesma língua e compartilhavam costumes. Portanto, é possível falar em civilização grega.

Do oikos à cidade-Estado

O “genos” era o núcleo humano em torno do qual se estruturava o “oikos”, unidade econômica que compreendia terras, casas, ferramentas, armas e gado, dos quais dependia a sobrevivência do grupo. O trabalho no “oikos” – pastoreio, agricultura de cereais, legumes e frutas, produção de óleo e vinho, fiação e tecelagem – era realizado pelos membros do “genos” e pelos escravos, obtidos através de pilhagens e saques; tanto quanto possível, o “oikos” procurava ser autossuficiente.
Com o fim dos palácios, a base da organização social passou a ser o oikos: uma grande família (pais, primos, avós), seus dependentes e seus bens, como casas, terras e animais. Os membros do oikos acreditavam ter um antepassado comum.


Essa ilustração atual, baseada em pesquisa histórica, ajuda a imaginar o que poderia ter sido o oikos.

A cidade-Estado


A cidade-Estado grega era bem diferente das cidades de hoje. Era um espaço de decisão coletiva, de festividades e de culto comum a divindades. A cidade-Estado grega (pólis) se desenvolveu às margens do Mar Mediterrâneo e em um ambiente de grandes mudanças, como a difusão do uso do ferro; a arquitetura em pedra; o cavalo de guerra; as construções monumentais; o uso da escrita alfabética; a pintura; e a fabricação de artigos de bronze.

A cidade-Estado grega era composta de três elementos:

• um território agrícola, ocupado e explorado por famílias camponesas que possuíam a propriedade individual da terra, de onde tiravam a sua subsistência (produzindo trigo,
uva, vinho, azeite);
• um núcleo urbano, que incluía os templos, a praça do mercado (onde a comunidade se reunia em assembleia), as oficinas de artesãos, as lojas do pequeno comércio e o porto por onde se fazia o comércio com o exterior;
• uma acrópole, que servia como defesa e símbolo da unidade territorial.

Vista aérea da Acrópole de Atenas (Grécia), com o Templo do Parthenon. Fotografia de 2018.

As cidades-Estado gregas eram politicamente independentes entre si e cada uma delas tinha sua forma de governo. De modo geral, as cidades eram formadas por grupos que acreditavam descender de um ancestral comum e, por isso, eram ligados entre si por laços de parentesco e solidariedade. 

Veja as principais formas de governo adotadas nas cidades-Estado gregas.

Monarquia: o monarca era o responsável pelo controle militar, social, religioso e judiciário. Ele podia governar sozinho ou auxiliado por um conselho de nobres.
Oligarquia: os aristocratas, grandes proprietários de terras, tomavam o poder e passavam a governar. Nesse caso, o poder ficava restrito a algumas famílias poderosas.
Tirania: governo de um só homem, que assumia o poder por meio da força. Os tiranos geralmente contavam com o apoio da população.
Democracia: os cidadãos participavam das decisões por meio de assembleias. No entanto, não eram considerados cidadãos mulheres, crianças, estrangeiros e pessoas escravizadas.

As partes de uma pólis 


Geralmente, a pólis contava com a ásty e a khóra. A ásty era a área urbana, central e murada. Nela, viviam principalmente artesãos, comerciantes e donos de terras. Além das residências, havia edifícios públicos, ginásios, teatros, oficinas de artesãos e também a ágora.
A ágora era o espaço público central da cidade. Nesse local, comerciantes vendiam mercadorias, juízes julgavam criminosos, sacerdotes realizavam cerimônias e cidadãos debatiam questões de interesse geral.
Na parte mais elevada da ásty, havia a acrópole, centro religioso da pólis, onde eram erguidos os templos para a divindade protetora da cidade.
A khóra era a área rural e ficava além das muralhas da ásty. Na khóra, viviam agricultores e pastores, que criavam cabras e ovelhas, e as pessoas escravizadas, que trabalhavam nas terras dos grandes proprietários. A produção agropastoril garantia a subsistência da população da pólis.

Vista das ruínas da acrópole da pólis de Pérgamo, 2021. Atualmente, o território onde essa cidade foi construída faz parte da Turquia.

A cidade de Esparta


Esparta foi fundada pelos dórios, na região da Lacônia, no século IX a.C. Os habitantes dessa região, os espartanos, ficaram conhecidos pela tradição militar. 
No século VIII a.C., eles já haviam conquistado e subjugado os povos da região. Os povos conquistados, denominados hilotas, eram aprisionados e obrigados a realizar os trabalhos agrícolas para sustentar a população espartana. Apesar de serem obrigados a dar aos espartanos a maior parte de sua produção agrícola, os hilotas não eram considerados escravizados. 
Além dos hilotas, outros povos que foram subjugados por Esparta também integraram a sociedade espartana. Eram os chamados periecos, pessoas livres que habitavam regiões periféricas de Esparta. Eles não tinham direitos políticos e realizavam atividades ligadas principalmente ao artesanato e ao comércio.

A tradição militar espartana 


O militarismo era uma característica marcante de Esparta. Dos 7 aos 60 anos, todos os homens espartanos eram considerados guerreiros. O treinamento militar incluía exercícios físicos e técnicas de sobrevivência e de combate.

As mulheres espartanas 


Em Esparta, as mulheres eram incentivadas a praticar atividades físicas desde crianças, assim como a frequentar escolas para aprender a ler, escrever, tocar instrumentos musicais e dançar. Uma de suas responsabilidades era gerar filhos saudáveis para suprir a necessidade das forças militares da cidade.
Escultura representando uma atleta espartana, século VI a.C.

As mulheres eram responsáveis pelos afazeres domésticos e por cuidar dos negócios da família na ausência dos homens durante as guerras. Elas tinham também o direito de possuir e administrar terras.

A cidade de Atenas 


Atenas foi fundada na região da Ática, no século X a.C., pelos jônios, e tornou-se um importante centro de comércio marítimo e de intercâmbio de ideias. Seus habitantes mantinham um intenso contato comercial com várias cidades gregas e com outros povos, como egípcios, fenícios e babilônios. 
Quando foi formada, a cidade-Estado ateniense era governada pelos aristocratas, os grandes proprietários de terras. Além de controlarem as terras mais férteis, os aristocratas detinham o poder político e militar em Atenas.
Grande parte da população ateniense era formada por pequenos proprietários de terras. Suas terras geralmente eram pouco férteis e eles viviam em condições difíceis. Nos anos em que as colheitas eram ruins, eles precisavam pedir empréstimos aos aristocratas, dando suas terras como garantia de pagamento. 
Na época do governo dos aristocratas, entre os séculos IX e VI a.C., os peque nos proprietários não podiam participar das decisões políticas. Além disso, quando não conseguiam pagar suas dívidas, eram obrigados a entregar suas terras ou eram escravizados pelos aristocratas.
Outro grupo social era formado pelos comerciantes e pelos artesãos, como ceramistas, ferreiros e tecelões. Apesar de sua importância econômica, nessa época, esse grupo também não tinha participação política na sociedade ateniense. 

Cópia de pintura grega do século VI a.C. que representa um homem escravizado transportando água. 

Havia, ainda, uma grande parcela da população formada por pessoas escravizadas. Elas podiam ser prisioneiras de guerra ou pessoas que não conseguiam sal dar suas dívidas. Muitas trabalhavam no espaço urbano, principal mente nos serviços domésticos e nas oficinas. As que trabalhavam no espaço rural ocupavam-se, entre outras tarefas, da agricultura e da mineração.

As mulheres de Atenas


Em Atenas, as mulheres não tinham participação política e a vida delas era controlada pelos homens (pais, irmãos e maridos). Em seu dia a dia, elas dedicavam-se às tarefas domésticas, cuidavam da casa e dos filhos. As mulheres mais pobres também tinham de contribuir para o sustento da família. Algumas costumavam trabalhar na agricultura ou em tarefas relacionadas ao comércio nos mercados. 
Entre as classes mais ricas, desde pequenas as mulheres eram educadas para se dedicar ao casamento e cuidar da casa. Quando se casavam, em grande parte do tempo, viviam em cômodos conhecidos como “gineceus”, onde ficavam confinadas e separadas dos homens.

Avó, mãe e filha representadas em escultura ateniense de cerca de 400 a.C.

Reformas sociais e políticas


Por volta do século VII a.C., as grandes desigualdades sociais em Atenas fizeram as camadas mais pobres da sociedade se revoltarem, exigindo mudanças. Os pequenos proprietários que participaram como hoplitas das guerras adquiriram mais prestígio social e passaram a reivindicar participação nos assuntos políticos.
Eles receberam apoio dos artesãos e dos comerciantes e lutaram por uma distribuição de terras mais justa e pela abo lição de suas dívidas. Os aristocratas, para tentar controlar as revoltas populares, criaram a figura do legislador, encarrega do de registrar as leis da cidade. 
O principal legislador ateniense foi Sólon. Com ele, no século VI a.C., foram inicia das reformas sociais e políticas, como o fim da escravidão por dívidas, o aumento do número de cidadãos com direitos políticos reconhecidos e a criação de três instituições: o Bulleutérion (ou conselho dos quatrocentos), a Eclésia (assembleia popular na qual se reuniam todos os cidadãos) e a Helieia (tribunal popular de justiça).

Clístenes e a democracia ateniense 


A democracia teve origem em Atenas e representou um importante legado para a sociedade atual. Porém, você sabe como esse sistema político surgiu? Vamos conhecer mais sobre isso a seguir. 
Por volta de 510 a.C., o aristocrata Clístenes assumiu o governo de Atenas. Ao contrário dos outros aristocratas, ele contava com o apoio popular e promoveu algumas mudanças no sistema político ateniense. 
Clístenes implantou a primeira forma de governo em que todos os cidadãos participavam dos assuntos da cidade: a democracia. Durante seu governo, foi criada também a lei do ostracismo. 
De acordo com essa lei, qualquer pessoa que representasse perigo à ordem democrática deveria ser expulsa da cidade, ficando exilada por dez anos. A expulsão dessas pessoas era decidida por meio de votos escritos nos óstracos.

Óstraco: pedaço de cerâmica utilizado para fazer anotações.

Com as reformas de Clístenes, todos os cidadãos atenienses puderam participar das decisões políticas, nas assembleias e nos tribunais. Entretanto, nessa época, mulheres, crianças, estrangeiros e pessoas escravizadas não eram considera dos cidadãos, não tendo direito à participação nas decisões políticas. Além disso, como os cidadãos mais pobres não podiam deixar de trabalhar, eles tinham dificuldade de exercer plenamente seus direitos políticos.

A organização da democracia ateniense 


A participação política efetiva dos cidadãos mais pobres só passou a ocorrer durante o mandato de Péricles (461 a.C.-429 a.C.), que permaneceu à frente do governo de Atenas durante cerca de trinta anos. 

Observe a ilustração, que representa a cidade de Atenas na época de Péricles.

A parte alta da cidade era chamada Acrópole, que funcionava como centro religioso e de defesa. Nela foram construídos edifícios como o Partenon, templo dedicado à deusa Atena.
A Ágora era a parte baixa da cidade, que funcionava como lugar de reuniões e centro comercial.
Na Boulé eram elaborados projetos de lei ou resoluções para serem discutidos na Assembleia dos Cidadãos. Além disso, era sua função fiscalizar os trabalhos públicos e organizar festas e cultos religiosos.
A Pnyx, ou Assembleia dos Cidadãos, era o lugar em que os cidadãos reuniam-se para discutir assuntos da cidade, como os projetos de leis elaborados na Boulé.
No Tribunal dos Heliastas ou Tribunal de Justiça eram realizados os julgamentos das questões públicas e privadas.

A democracia ateniense foi aperfeiçoada na época de Péricles. Durante seu governo, Atenas tornou-se o maior centro irradiador da cultura grega. Ele reorganizou o espaço público e ordenou a construção de grandes edifícios.

A Guerra do Peloponeso 


Os persas no século VI a.C. dominava um vasto império, que abrangia o Oriente Médio, o Egito, a Mesopotâmia e toda a região da Ásia Menor, que incluía poleis como Mileto e Éfeso. Em 490 a.C., os persas avançaram mais a oeste e desembarcaram em Maratona, na Ática. Começaram assim as Guerras Greco-Pérsicas. 
Entre 490 e 479 a.C., os gregos envolveram-se em uma série de conflitos contra o Império Persa. Durante essas guerras, as principais cidades gregas se aliaram, sob a liderança de Atenas, formando a Confederação de Delos. Atenas era responsável por administrar os tributos recolhidos e organizar a frota marítima que defenderia essas cidades. 
Seus membros se comprometiam a fornecer aos atenienses recursos financeiros e militares para combater o inimigo, o que fortaleceu Atenas politicamente. Assim, quando as Guerras Greco-Pérsicas terminaram, em 448 a.C., Atenas era a cidade mais poderosa da Grécia. 
Essa liderança ateniense gerou insatisfação em várias cidades gregas, especialmente Esparta, que não aceitava se submeter ao poderio de Atenas. Os esparta nos, então, retiraram-se da confederação e formaram, com membros de outras cidades-Estado, a Liga do Peloponeso.

Estátua que representa o rei Leônidas, considerado um herói espartano na Guerra do Peloponeso. Esparta, Grécia, 2017.

O conflito 


Descontentes com a hegemonia ateniense, os espartanos reuniram outras poleis gregas, criando a Liga do Peloponeso. Em 431 a.C., esses dois blocos entraram em conflito, numa disputa que envolveu praticamente todas as cidades gregas e ficou conhecida como Guerra do Peloponeso. 


Lápide com imagem de soldados em combate durante a Guerra do Peloponeso. Século V a.C. Escultura esculpida em pedra. Museu de Arte Metropolitano, Nova York, Estados Unidos.

A guerra envolveu grande número de cidades gregas e teve efeitos desastrosos. Muitas pessoas morreram ou foram escravizadas e várias cidades ficaram destruídas. 
Em 404 a.C., os espartanos derrotaram Atenas e impuseram a hegemonia sobre a Grécia. Atenas, uma das cidades mais prejudicadas, perdeu sua hegemonia, tendo de aceitar o domínio espartano. 
Porém, após a longa guerra, as cidades-Estado gregas não conseguiram restaurar sua força e organização militares, abrindo caminho para a dominação estrangeira.
A liderança espartana, porém, não durou muito. Enfraquecida pela guerra, Esparta foi dominada pela cidade de Tebas. A partir de então, iniciaram-se intensas lutas entre as diversas cidades gregas, o que permitiu que elas fossem facilmente dominadas por outros povos. Primeiramente pelos persas, que retomaram o domínio sobre as poleis gregas da Ásia Menor.
Em 338 a.C., os macedônios, comandados pelo rei Felipe II, conquistaram toda a Grécia continental e entraram em guerra contra os persas para expulsá-los da Ásia Menor. Os persas foram derrotados, mas Felipe II morreu em combate, deixando o trono para seu filho Alexandre.

O Império Macedônico 


No século IV a.C., Filipe II, rei da Macedônia, tinha planos de expandir seu território, localizado ao norte da Grécia. Sob o comando do exército macedônico, foram anexadas diversas cidades gregas, enfraquecidas em decorrência da Guerra do Peloponeso. 
A principal derrota grega ocorreu em 338 a.C., na Batalha de Queroneia, que consolidou o poder macedônico nas principais regiões do mundo helênico. 
Em 336 a.C., Filipe II foi assassinado e seu filho Alexandre assumiu o comando do exército macedônico. Ele deu continuidade às conquistas realizadas pelo pai, dominando um vasto território que ficou conhecido como Império Macedônico.

Mosaico de 150 a.C. que representa Alexandre, o Grande. 



Cultura micênica: prosperidade e colapso

Estudos arqueológicos revelaram que a cultura micênica produziu um tipo de escrita (linear B), diversos objetos de cerâmica e metal, tecidos, estradas, além de grandes sepulturas e palácios. De acordo com os pesquisadores, esses vestígios indicam que o período micênico foi marcado por um intenso desenvolvimento econômico.
A cultura micênica organizava-se a partir de uma rede de cidades, construídas em torno de grandes palácios, e comandadas por uma elite guerreira. Micenas e Esparta, na região do Peloponeso, e Atenas e Tebas, na Grécia continental, eram importantes Estados palacianos micênicos.
Os aqueus (micênicos) também possuíam uma rígida hierarquia social. A economia era baseada na agricultura. A maior parte da população era formada por agricultores, artesãos e pastores. Eles viviam nas terras em torno dos palácios. Ali, cultivavam principalmente trigo, azeitona e uva. Também produziam azeite e vinho. Parte da produção era armazenada nos palácios e administrada pelas autoridades palacianas.
Depois de um período de prosperidade, os historiadores identificaram o colapso das cidades palacianas micênicas e a dispersão da população para outras regiões. Não sabemos ao certo o que aconteceu, mas existem algumas hipóteses, como a ocorrência de desastres ambientais ou de invasões de outros povos.
Por volta de 1200 a.C., aqueus, eólios, jônios, arcádicos e dórios viviam ao longo do mar Egeu, na ilha de Creta e na Grécia continental. O mais provável é que novas invasões e disputas entre esses povos tenham resultado no fim do domínio micênico. Após esse período, essas populações reorganizaram seus modos de vida lentamente, dando origem à cultura grega antiga, centrada nas pólis, as cidades-Estado gregas.

Vista dos vestígios do palácio real de Micenas, na Grécia. 

Ilustração representando guerreiros em vaso de cerâmica micênico encontrado no sítio arqueológico de Micenas e datado do século XII a.C.


ATENAS

As principais cidades-Estado gregas eram Atenas e Esparta. A Atenas foi fundada pelos jônios, por volta do século X a.C., numa colina, a poucos quilômetros do mar. A região possui bons portos naturais e os atenienses, desde cedo, voltaram-se para a pesca, a navegação e o comércio marítimo.
Enquanto Esparta se estruturava como uma sociedade oligárquica e fortemente militarizada, mais ao norte, na região da Ática, a pólis de Atenas desenvolveu um modelo de cidade bem diferente.
Até o século VI a.C., Atenas foi governada por uma aristocracia de grandes proprietários rurais, que elegiam, entre si, magistrados encarregados de comandar o exército e fazer cumprir as leis. Os aristocratas também possuíam muitos escravos, em sua maioria prisioneiros de guerra e seus descendentes. Trabalhando nas minas, na agricultura, no artesanato e nas tarefas domésticas, os escravos possibilitavam que os homens ricos e livres se dedicassem à política e ao ócio.
Inicialmente, Atenas tinha um rei, mas o poder de fato estava nas mãos da aristocracia ateniense: os eupátridas, que em grego quer dizer “bem-nascidos”. Somente eles podiam ocupar cargos públicos. Insatisfeitos com essa situação, os artesãos e os comerciantes passaram a exigir participação na vida política da cidade; já os pequenos proprietários queriam o fim da escravidão por dívidas.
Pouco a pouco, o poder do rei foi enfraquecendo, e este passou a manter somente sua função religiosa. Por volta do século VII a.C., o controle político de Atenas estava em torno de uma nobreza formada pelos eupátridas.
Nessa época, muitos donos de terra, endivida dos, perderam suas pequenas propriedades para os eupátridas e ainda acabaram escravizados por dívidas. Tal situação gerou diversas revoltas populares em Atenas. Ao mesmo tempo, outros grupos sociais, como os comerciantes, reivindicavam acesso ao poder, exclusivo da aristocracia rural. Todas essas questões obrigaram os governantes da pólis a promoverem reformas políticas em Atenas.
A maioria da sociedade ateniense era composta de camponeses, artesãos e comerciantes. Havia ainda os metecos, como eram chamados os estrangeiros e seus descendentes. Excluídos da vida política, esses grupos foram, pouco a pouco, demonstrando seu descontentamento com o governo aristocrático.

DRÁCON E AS LEIS ESCRITAS 


Em Atenas, a concentração do poder militar, político e econômico nas mãos dos aristocratas gerava grande insatisfação na população que não fazia parte desse grupo social. 
Demiurgos enriquecidos desejavam maior participação no governo, enquanto georgóis e thetas viviam sob a ameaça de escravização. Na maioria das cidades gregas, não havia leis escritas, e a justiça estava nas mãos dos aristocratas. Temendo levantes dos demais segmentos da sociedade, os aristocratas de Atenas promoveram uma pequena abertura e, em 621 a.C., nomearam Drácon para elaborar o primeiro código de leis escritas que todos poderiam conhecer e que não deveriam ser mudadas pela simples vontade dos juízes da aristocracia. 
Na prática, todos os cidadãos atenienses estavam sujeitos às leis desse código. As leis de Drácon, no entanto, não decretaram o fim dos conflitos na pólis, já que o poder político e econômico continuava concentrado na aristocracia.

No início do século VI a.C., as tensões sociais se agravaram e, para contê-las, o magistrado Sólon implantou uma reforma nas leis da cidade. Entre as medidas toma das por ele, destacam-se o fim da escravidão por dívidas e a criação de um tribunal popular. Sólon também instituiu uma assembleia chamada Eclésia, da qual podiam participar todos os cidadãos atenienses maiores de 18 anos, e a Bulé, um conselho de 400 homens eleitos que preparavam as leis votadas pela assembleia.
Dividiu os cidadãos em quatro categorias, de acordo com o grau de riqueza agrícola, e estabeleceu que só os mais ricos podiam ocupar cargos importantes no governo. Dessa forma, os privilégios que antes cabiam aos “bem-nascidos” passaram a ser reservados aos mais ricos. O critério de riqueza substituiu o de nascimento.
No entanto, apesar da reforma de Sólon, a terra continuou nas mãos de poucos e a participação política manteve-se reduzida. Com isso, os conflitos sociais continuaram violentos.

Vista da acrópole (parte alta da cidade) de Atenas, na Grécia. À direita, podemos observar o Partenon, templo construído em homenagem à deusa Atena, patrona da cidade.

O sistema democrático 


Apesar das reformas de Sólon, o poder permaneceu concentrado nas mãos dos magistrados, e as camadas médias e baixas da população continuaram sem participar plenamente da política, pois a Eclésia quase nunca se reunia. Assim, as reivindicações da população ateniense continuaram, e logo foram conquistadas novas mudanças na organização da pólis. 
Clístenes, escolhido magistrado em 509 a.C., implantou leis que garantiram a participação política a todos os habitantes dos demos que fossem considerados cidadãos atenienses. Os demos eram unidades administrativo-políticas de Atenas, mas o termo adquiriu, nesse contexto, o sentido de povo, e o regime implantado por Clístenes passou a ser conhecido como democracia (governo do povo). 

Busto que representa Clístenes, esculpido pela artista grega Anna Christoforidis, em 2004.

A Eclésia, que se reunia em um espaço aberto chamado Pnix, adquiriu plenos poderes em Atenas e passou a opinar sobre todos os assuntos. A Bulé passou de 400 para 500 membros, formado por 500 cidadãos escolhidos por sorteio anualmente, de modo que tanto os ricos quanto os pobres tinham a mesma chance de serem eleitos. Os projetos aprovados por esse Conselho eram postos em prática pelos estrategos: dez cidadãos eleitos por um ano. Assim, todos os cidadãos – não importando a profissão e nem a situação financeira – podiam participar diretamente do governo; daí se diz que a democracia ateniense era direta e aberta a todos os cidadãos.

Detalhe de estela com relevo, de cerca de 337 a.C, que representa a democracia coroando o povo da cidade de Atenas, Grécia.

Não se pode esquecer, no entanto, que a democracia ateniense não era realmente para todos. A democracia ateniense baseava-se na noção de cidadania, que permitia a uma pessoa participar das decisões políticas da pólis. Mas, em Atenas, somente os homens adultos, filhos de pais atenienses, eram cidadãos e, portanto, podiam votar nas assembleias e ser magistrados.  
Mulheres, estrangeiros e escravos não eram considerados cidadãos. Estima-se que os cidadãos representavam pouco mais de 10% dos habitantes de Atenas.
Clístenes criou o ostracismo, que consistia em expulsar da cidade por dez anos qualquer pessoa que representasse uma ameaça à democracia.

A ruínas da Pnix, onde se reunia a Eclésia no século V a.C. Atenas, Grécia, 2017.

O século de Péricles


A partir d de 450 a.C., sob a liderança de Péricles, a democracia ateniense foi aperfeiçoada: criou-se um Tribunal Popular, composto de 6 mil cidadãos, para julgar toda espécie de causas. Os membros do Tribunal eram eleitos por sorteio e ficavam no cargo por um ano; depois disso, eram substituídos por outros, eleitos também por sorteio. Esse rodízio era uma característica importante da democracia ateniense. Nesse tribunal, o júri era o juiz.
Para que mais pessoas pudessem participar da Eclésia, Péricles instituiu uma remuneração, permitindo que os mais pobres deixassem suas ocupações por um tempo para participar da política. Além disso, promoveu a reconstrução da parte alta de Atenas, destruída pelos persas. O tempo em que
Péricles liderou Atenas ficou conhecido como “o século de Péricles”.



ESPARTA

Esparta era muito diferente de Atenas, a começar pela localização. Estava situada entre altas montanhas e não tinha saída para o mar. A cidade foi fundada pelos dórios e, desde o começo de sua história, se assemelhava a um acampamento militar. Sentindo a necessidade de ter mais terras férteis, os espartanos conquistaram e dominaram seus vizinhos, os messênios. 
Segundo o historiador Heródoto, o lema dos espartanos era “não fugir do campo de batalha diante de qualquer número de inimigos, mas permanecer firmes em seus postos e neles vencer ou morrer”.
Entre os séculos VII e VI a.C., a pólis de Esparta exerceu hegemonia sobre as demais cidades gregas e tornou-se modelo para elas.
A pólis de Esparta tem sua origem com a chegada dos dórios à península do Peloponeso. Eles dominaram toda a região, se apropriaram das melhores terras e fundaram a cidade de Esparta. Seus descendentes, chamados de esparciatas, controlavam as instituições políticas da cidade e se dedicavam às atividades militares durante a maior parte da vida.

A educação em Esparta


Quando uma criança nascia, era levada aos mais velhos, que a examinavam. Se fosse sadia, era devolvida aos pais; se tivesse alguma deficiência, era lançada em um precipício.
Até os 7 anos de idade, os meninos eram criados pelas suas mães. Elas os deixavam andar descalços para ter pés calejados e os cobriam só com uma única túnica para aprenderem a suportar o frio. 
Dos 7 anos em diante, passavam a viver com outros garotos da mesma idade em acampamentos do governo. Nesses acampamentos, aprendiam a ler, escrever e contar. No resto do tempo, praticavam esportes, recebiam instrução militar e treinavam sobrevivência no mato.
Após o período de treinos, os jovens espartanos eram submetidos a um ritual de passagem. Os que não fossem considerados aptos para a guerra eram rebaixados para uma condição inferior. Voltados para a guerra, os cidadãos espartanos sobreviviam basicamente dos produtos cultivados em suas terras.
A partir dos 16 anos os meninos passavam por uma série de provas, das quais a mais terrível era a Krypteia: levantavam-se de madrugada, armavam-se de punhais e, em bandos, invadiam as casas dos hilotas para assassiná-los. Com isso, os espartanos regulavam o crescimento da população hilota. Aos 20 anos de idade, os espartanos ingressavam no exército.
Aos 30, casavam-se e recebiam um lote de terra do governo, acompanhado de um certo número de hilotas. A partir dessa data, os espartanos eram considerados cidadãos, ou seja, podiam votar, ocupar cargos públicos etc.
As mulheres, por sua vez, também faziam exercícios físicos e, assim, se preparavam para ser mães de filhos fortes e saudáveis. Em Esparta, era essa a principal função da mulher.

Você talvez se pergunte: se os esparciatas viviam para a guerra, quem produzia alimentos e outros bens necessários à sobrevivência da população? Essa tarefa era exercida pelos hilotas, antigos habitantes da região que foram dominados pelos dórios e despojados de terras e direitos políticos. Ainda que não fossem escravos, os hilotas não eram livres, pois eram obrigados a cultivar a terra dos esparciatas e a entregar a eles parte do que produziam.

Os habitantes dos arredores de Esparta que não eram descendentes dos dórios e nem hilotas formavam um grupo de homens livres chamados periecos. Eles se dedicavam à agri cultura, ao artesanato e ao comércio e, como os hilotas, não tinham direitos políticos.

Estátua de Leônidas. Rei de Esparta entre 491 e 480 a.C., Leônidas morreu em uma batalha no desfiladeiro das Termópilas, na Grécia. 

A oligarquia espartana


Em Esparta, apenas os esparciatas tinham direitos políticos, e somente os membros das famílias mais importantes podiam ser eleitos para as funções de comando. Por essas características, o governo de Esparta pode ser definido como uma oligarquia, palavra de origem grega que quer dizer “governo de poucos”, ou "governo exercido por uma minoria".

Esparta, ao contrário de outras cidades gregas importantes, preservou a monarquia. Na cidade, dois reis comandavam o exército e cuidavam das tarefas sacerdotais. As leis eram formuladas pela Gerúsia, um conselho formado pelos dois reis e por 28 cidadãos com mais de 60 anos. Um comitê de cinco cidadãos, os éforos, era eleito todo ano pela assembleia para supervisionar as atividades políticas e julgar crimes importantes.

Os cidadãos maiores de 20 anos podiam participar da Ápela, assembleia que se reunia periodicamente para votar as leis propostas pela Gerúsia. Mas o poder da assembleia era limitado; quem comandava a cidade, de fato, eram os dois reis e os 28 anciãos da Gerúsia, que tinha o poder de rejeitar as decisões da assembleia caso decidisse que os cidadãos tinham votado de maneira incorreta.



O ateniense Péricles

Péricles (c. 495 a.C.-428 a.C.) nasceu em uma rica família da cidade de Atenas. Desde criança, era muito estudioso e interessava-se pela música, pelas artes e pela filosofia. Sua paixão pelo teatro fez com que financiasse peças, como Os persas, escrita por Ésquilo (c. 525 a.C.-c. 456 a.C.) em 472 a.C. Essa peça narra a Batalha de Salamina, em 480 a.C., que foi parte de um conflito entre gregos e persas.
Filho de um general, Péricles tornou-se militar aos 18 anos e participou de várias expedições, sobretudo navais, demonstrando grande coragem. Entretanto, ele se tornaria famoso principal mente por sua carreira política e por sua notável habilidade para falar em público.
Péricles foi muito dedicado ao povo de Atenas, cidade que governou durante vários anos, e contribuiu para que ela ficasse cada vez mais conhecida e importante na Grécia.
O território ocupado pelos gregos antigos não é o mesmo do Estado da Grécia de hoje. Eles nunca formaram um Estado unificado, mas sua área de influência se estendia por uma enorme parte da Europa e da Ásia.

A era de Péricles, pintura de Philipp Foltz, 1877


GUERRA DE TRÓIA

Conflito em que a Grécia antiga teria derrotado a cidade de Tróia, localizada na Ásia Menor, no séc. XIII a.C., valendo-se de um estratagema...