quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Sobre os Annales: Marc Bloch e Lucian Febvre.

A revista dos Annales foi fundada em 1929 tendo como principais mentores Marc Bloch e Lucian Febvre. A revista se consagrou conjuntamente com a obra de seus principais fundadores. O movimento dos Annales, normalmente chamado de Escola dos Annales, não possui exatamente, os elementos que constituem uma escola, rigidamente organizada fechada estritamente em torno de uma convicção ou paradigma.
A revista dos Annales passou por diversas reformulações desde que foi fundada. Em sua primeira concepção, os trabalhos de seus principais pensadores Marc Bloch e Lucian Febvre, fizeram–na conhecida e reconhecida mundialmente. Com a proposta de renovar-se e manter-se sempre atual, notamos nos anos 60 uma grande repercussão da revista e forte influência de Fernand Braudel. Na terceira “fase” dos Annales, ou na chamada Nova História destacam-se historiadores como LeGoff, Duby.
Os Annales não possuem uma percepção progressista continuísta da história, recusando as idéias de progresso e em grande parte de revolução. Muitas vezes, os marxistas criticam os historiadores ligados aos Annales por seu conservadorismo, uma vez que não existe entre eles uma teoria de mudança social e da luta de classes. Por não pensarem em mudança, luta e revolução, os Annales são considerados pelos marxistas como reacionários, como correspondentes de uma história que interessaria ao capital e a dominação. Por fim, em função de uma diferença teórico metodológica, encontramos um conflito entre os Annales e os Marxistas mais ortodoxos, que acabam se transformando em disputas por “paixão ideológica”.
Para os Annales, diferente da interpretação marxista, a economia não desempenha um papel determinante no conjunto dos funcionamentos sociais. Sendo estas as principais críticas de Bloch e de Febvre à percepção marxista. Os Annales defendem que a tarefa das ciências humanas é explicar o social complexificando-o e não simplificando através de abstrações.

THOMPSON E A HISTÓRIA


Pode-se afirmar que Edward Palmer Thompson (1924-1993) foi um dos mais importantes historiadores marxistas britânicos do século XX. Seu engajamento ao socialismo testemunhou não apenas um vigoroso envolvimento prático, por mais de cinqüenta anos, mas também um compromisso de vida com vistas a revigorar o marxismo, em particular o britânico, como movimento teórico. Fazendo-se um recorte meramente analítico de sua obra, percebem-se dois aspectos, no entanto, indissociáveis. Em termos teóricos, sua contribuição pode ser avaliada por seu empenho em redefinir uma análise da luta de classe que fosse mais apropriada para a compreensão da história da classe trabalhadora britânica. Em termos práticos, Thompson foi um defensor incansável de vários movimentos sociais que, de seu ponto de vista, representavam diferentes tendências contemporâneas de conflito de classe. Ao relacionar e integrar os elementos teóricos e práticos, ofereceu uma visão ampla do desenvolvimento das formas da política radical na Grã-Bretanha, desde os primórdios do capitalismo, assim como desenhou uma trajetória de história política, cujas informações deveriam servir de orientação para as estratégias de campanhas e movimentos sociais de seu tempo.
Sua interpretação do materialismo histórico afirma três categorias básicas: a luta de classe como protesto, a experiência da classe trabalhadora e a idéia de moral. Thompson, crítico rigoroso quanto à validade de teorias que questionava, envolveu-se em duras polêmicas no mundo acadêmico. A obra thompsoniana reafirma alguns pressupostos do socialismo, mediante sua avaliação das aspirações da classe trabalhadora, definidas como defesa de sua humanidade e de um projeto coletivo.

A Memória Coletiva : Maurice Halbwachs


Em sua obra Maurice Halbwachs mostra-se um correto durkheimiano. Se, ao falar das classes sociais, ele ultrapassa o pensamento do mestre da Escola francesa, sua análise da memória assemelha-se diretamente à inspiração das formas elementares da vida religiosa. O autor demonstra que é impossível conceber o problema da evocação e da localização das lembranças se não tomarmos para ponto de aplicação os quadros sociais reais que servem de ponto de referência nesta reconstrução que chamamos memória.
Situa-se, em Halbwachs, uma notável distinção entre a “memória histórica”, de um lado, que supõe a reconstrução dos dados fornecidos pelo presente da vida social e projetada no passado reinventado; e a “memória coletiva”, de outro, aquela que recompõe magicamente o passado. Entre essas duas direções da consciência coletiva e individual desenvolvem-se as diversas formas de memória, cujas formas mudam conforme os objetivos que elas implicam.
É surpreendente como as últimas análises de Maurice Halbwachs, pouco tempo antes de sua deportação e seu assassinato pelos nazistas, abrem um novo caminho para o estudo sociológico da vida cotidiana.

A História Cultural de Carlo Ginzburg


Abordagem sofisticada e minuciosa, a história cultural tal como concebida por Carlo Ginzburg se interessa pelo detalhe e pelo contexto, pelas micro e pelas macro-questões que, articuladas, podem nos aproximar um pouco mais de nossos antepassados. Decifração de indícios, ciência do particular, a história cultural se move em terreno acidentado e misterioso e, sem prescindir jamais das fontes, autoriza alguns vôos, muitos deles também noturnos, já que “a tentativa de conhecer o passado também é uma viagem ao mundo dos mortos”. Foram muitos os temas tratados por Carlo Ginzbrug ao longo de mais de 30 anos de pesquisa dedicada à feitiçaria, às religiosidades populares, à cultura em sua dimensão histórico-antropológica. Publicados desde meados da década de 80 no Brasil, seus trabalhos, felizmente, abriram um campo de investigação bastante promissor entre nós. Só para lembrar dois exemplos de nossa melhor historiografia e que claramente incorporaram os passos indicados por Ginzburg, cito o livro pioneiro no estudo da feitiçaria e das religiosidades populares no Brasil colonial, O Diabo e a Terra de Santa Cruz, de Laura de Mello e Souza, e A Heresia dos Índios, de Ronaldo Vainfas, que reconstrói a história de uma seita católico-tupinambá acolhida por um senhor de engenho na segunda metade do século XVI.
Já no Prefácio de O queijo e os vermes o autor deixa clara a recusa do conceito de mentalidade, exatamente pelo que mais havia valorizado na trajetória dos andarilhos do bem: o caráter interclassista e de longa duração das crenças populares, tomadas sempre no que tinham de aparentemente imóvel, inconsciente, irracional. Para Ginzburg, as idéias de Menocchio não podiam ser diluídas e ocultadas no que pudessem ter de original, e mesmo admitindo que sua decifração completa e definitiva jamais poderá ser alcançada, optou pelo termo “cultura” em sua acepção antropológica: conjunto de atitudes, crenças, códigos de comportamento próprios das classes subalternas num certo período histórico.

O que é pós-moderno?

A obra “O que é pós-moderno de Jair Ferreira dos Santos carrega consigo algumas características gerais mas bastante marcantes como a utilização de metáforas, o uso da linguagem coloquial, as incessantes comparações entre modernidade e pós-modernidade, e a utilização de exemplos reais e citações.
O livro, de leitura rápida e agradável, inicia de uma forma inusitada. O autor chama o pós-modernismo de fantasma. Este surgiu em 1950 quando ocorreram mudanças em vários âmbitos: ciências, artes, sociedade etc. O “fantasma” pode ser encontrado em nosso dia-a-dia diante da explosão e saturação das informações. Não se sabe ao certo se o pós-modernismo significa decadência ou renascimento cultural. Decadente pois, segundo muitos críticos, não tem força intelectual; mas renascimento pois abala os preconceitos, ameniza o muro entre arte culta e de massa e é pluralista, já que propõe a convivência de estilos diversos.
Assim é feita a pós-modernidade: de contradições. O pós-modernismo é o niilismo: ausência de valores. É a entrega ao presente e ao prazer, ao consumo e ao individualismo. Jair Ferreira afirma ainda que o pós-modernismo é típico de sociedade pós-industriais baseadas na informação, tais como EUA, Japão e Europa.
Os meios de comunicação refazem o mundo à sua maneira, hiper-realizam o mundo pois algo inviável na realidade, pode ser possível na televisão. A pós-modernidade é um mundo super-criado pelos signos. Compramos algo não pelo seu poder de uso, mas por causa do status; as pessoas passaram a ser pelo que vestem.
Atualmente quem não usa jeans e tênis, paga o preço da marginalidade social. Essa é a chamada desreferencialização do rela e dessubstancialização do sujeito.
O pós-moderno tem algo de moderno, mas de forma exagerada, como o individualismo exacerbado, por exemplo. As preocupações pós-modernas estão presas à coisas menores, ao cotidiano.
Nos anos 60, houve o DNA, a pílula, o rock, o chip etc, e tudo isso foi mola propulsora para o surgimento da pós-modernidade. A máquina passou a ditar valores diferentes da religião e tradição tais como a solidão, a cultura de massa etc. Durante esse período, há o consumo de serviços, comunicação entre as pessoa. É necessário um acelerador de informações. Tudo passa a ser signo processado.
A produção e o próprio consumo são programados na pós-modernidade. O que aumenta o desempenho e facilita a vida. É preciso qualidade e tecnologia para se poupar tempo e dinheiro. Por isso, há tecnologia no cotidiano. As pessoa são bombardeadas por informação e isso provocam efeitos culturais, políticos etc.
O Design, por exemplo, estetiza o cotidiano. A moda e a publicidade erotizam o dia-a-dia com fantasias e proporcionando desejos de posse. Forma-se então o circuito: informação – estilização – erotização – personalização.
Com tantas facilidades no dia-a-dia, a pessoa se despolitiza. A sua participação social tem pequenos objetivos. Não há preocupação com grandes temas e a pessoa pode ser várias coisas ao mesmo tempo (vegetariano, programador, budista etc)
A arte sofreu uma importantes mudança durante a pós-modernidade. A arte modernista definia-se como um não ao passado, à tradição. A arte não representava a realidade, mas sim fazia com que nós a interpretássemos. A arte era autônoma, e ganha novas linguagem como o formalismo e o hermetismo. É uma arte irracional, emotiva, humanista. Já a arte pós-moderna surge em meados dos anos 50 contra o subjetivismo e o hermetismo. É a chamada antiarte: sai dos museus e é lançada na rua com outra linguagem, de fácil assimilação para o público. Dá valor artístico à banalidade cotidiana. .
A entropia é um termo importante para o mundo pós-moderno já que significa que nas sociedades atuais tudo migra em direção à confusão, não há valores solidificados, nem ordem. A entropia na forma se dá por meio da destruição do romance e a entropia no conteúdo é a destruição do mundo e dos valores.
Filhos da bomba atômica, escritores americanos respondiam ao drama do absurdo social de forma cômica ou cínica. Pois era como se a saída estivesse em rir do caos vivido. É como se os homens tivessem perdido a cabeça, caído no ridículo deixando o computador programar seus fins, não podendo fazer nada, apenas rir.
Sem enredo, assunto ou personagem, o Nouveau Roman (novo romance) mistura realidade, sonho, delírio e cria um clima de incerteza, embaralha a ordem espacial e temporal dos acontecimentos numa extrema fragmentação e privilegia o texto, o ato de escrever. Essa novo romance realça a técnica de construção, dedica-se à destruição do romance e deixa de lado o conteúdo.
Alguns escritores se utilizam, em seus poemas, do erotismo, da sedução, da contestação que refletem a significante ascensão feminina durante a pós-modernidade.
O modernismo foi bastante forte no Brasil. Porém, o pós-modernismo não o foi e apresentou traços superficiais. Foi durante os anos repressivos (70) que a poesia rompeu sua ligação com a realidade e passou a ser marginal.
Nasce o poema pornô, e o uso das linguagem coloquiais torna-se mais frequente. O campo desse tipo de poema é a banalidade cotidiana, o corpo, o consumo.
Havia ainda duas correntes na poesia: o poema processo e a arte postal que estavam à margem das editoras e do livro. Inauguraram a junção de palavra e imagem e resultavam geralmente em uma arte humorística e irônica.
Mas o pós-moderno também visitou a dança, o teatro, a música e o cinema. Caracterizava-se por linhas “minimalistas”, pela desdefinição, desestetização etc. Já no cinema podemos identificar gêneros mais presentes como a ficção científica e a tecnociência.
O pós-modernismo chega à filosofia em meados dos anos 60 com a proposta de desconstrução do discurso filosófico ocidental. Desconstruir aí, é falar o não dito. O pós-modernismo está associado à decadência das grandes idéias, valores e instituições ocidentais – Deus, Verdade, Família etc.
Tudo isso recai no niilismo que é a falta de valores para agir. Hoje, os discursos globais e totalizantes quase não atraem ninguém e as filosofias sempre mantiveram discursos globais.
A tecnociência invade o cotidiano com mil serviços mas não oferece nenhum valor moral além do consumismo. As sociedades têm meios racionais, mas só perseguem fins irracionais como o lucro e o poder.
Os filósofos pós-modernos lutam em duas frentes. Uma de desconstrução dos princípios e concepções do pensamento ocidental e outra de desenvolvimento e valorização de temas antes considerados menores em filosofia tais como a sexualidade, a linguagem, a poesia, o cotidiano, que são elementos que aceleram a decadência dos valores ocidentais.
Um dos maiores filósofos entrou em moda nos anos 70. Nietzsche já era um pós-moderno em finais do século XIX. Para ele, a própria criação de valores supremos significou decadência, pois se trocou a vida carnal por modelos de belo, bom, justo inatingíveis. A história ocidental se encarregou de desvalorizar os valores supremos, substituindo-os pela banalidade cotidiana.
A pós-modernidade é o momento em que o cristianismo, o conhecimento científico e a verdade são valores em decadência. O homem ocidental quis governar sua existência só pela razão quando, na verdade, a vida é também instinto e emoção.
O pensamento pós-moderno é bastante eclético e, portanto, permite cruzar teorias como o marxismo (Marx) e a psicanálise(Freud). A cena filosófica pós-moderna tem no palco a tecnociência em contradança com o niilismo. Enquanto alguns defendem o niilismo, outros querem deter sua avalanche.
Para Habbermas, pertencente à Escola de Frankfurt, a saída, na era da informação, está na comunicação autêntica, combatendo os efeitos maléfico da comunicação de massa, diluidora, anti-humana.
Nos anos 80, o pós-modernismo chegou até às massas inaugurando um novo estilo de vida permeado basicamente pelo espírito consumista, hedonista e narcisista (além de extremamente individualista). Não há a opção para não consumir pois o apelo ao novo é constante.
Essa massa atingida pela febre pós-modernista também sofreu suas modificações e passou a Ter características marcantes. A massa pós-moderna traz consigo traços de desmobilização e despolitização. É consumista, classe média, flexível nas idéias e nos costumes. As instituições ideologia, política, trabalho já não mais orientam o comportamento dessa pessoas social. Vive sem referências ao passado e sem projeto de futuro. É pragmática sim, mas não ideológica. Prefere movimento com fins práticos como a liberação sexual, o feminismo, a educação permissiva e questões do dia-a-dia. A formação dessa massa se dá por meio, essencialmente, da escola e da mass media. Os indivíduos procuram credos menos coletivos. O homem pós-moderno não é religioso, é psicológico por isso diz- se que o pós-modernismo é o túmulo da fé. Nessa sociedade, os valores foram trocados por modismos, e os ideais pelos ritmos cotidianos. O indivíduo atual é sincrético, ou seja, de natureza confusa, indefinida, plural, feita com retalhos eu não se fundem num todo. No mundo pós-moderno, objetos e informações são descartáveis.


FACULDADE DE COMUNICAÇÃO SOCIAL CÁSPER LÍBERO
Texto de Filosofia – Prof. Francisco Nunes
Desenvolvido por: Cláudia Marques Fernandes – Maria Fernanda Blaser – Sheila Bezerra de Magalhães –

OS CONTEÚDOS DA HISTÓRIA: ESTRUTURAS E TRANSFORMAÇÕES

Os impasses da História contemporânea não se limitam, contudo, apenas a esses grandes contextos, essas imensas unidades invisíveis a que denominei "formas". Ora, foi sobre essas entidades quase naturais, quase eternas, que os historiadores projetaram seus objetos de estudo específicos, com suas diferentes formas de descrição e explicação e os diversos tipos de estrutura narrativa da História: dos fatos memoráveis, dos grandes personagens, dos processos e mudanças a serem descritos e explicados, por exemplo. Esses conteúdos específicos, no interior das formas, também são produtos particulares, que atenderam, em momentos distintos, a visões alternativas do que ver na história, de como pensá-la como movimento ou repetição. Desde o século XIX, mas mesmo antes, a própria ideia de uma história imóvel, reiterativa, voltada para o passado tornara-se progressivamente inviável. Era preciso explicar o movimento. Mas movimento de quê?

É verdade que algumas dessas grandes entidades/formas assumem por vezes um caráter quase permanente, como categorias imutáveis, antropológicas: povos e etnias têm seu gênio, seu caráter próprio, que é motor de seus destinos e realizações. Civilizações podem mover-se por um lento tempo "biológico", nascendo, crescendo e morrendo. Tais perspectivas, no entanto, logo caíram em desuso ou, se permaneceram, nunca foram predominantes. Desde cedo, os ramos centrais da historiografia, ao menos os mais influentes, procuraram explicações mais concretas e eficazes de mudança nas grandes formas, atuando em tempos mais precisos. Explicações que envolviam sempre o confronto entre uma dada estrutura (ou sistema, ou organismo) e um tipo ou vetor de ação. Seguindo uma direta influência dos historiadores greco-romanos e de alguns continuadores renascentistas, o tempo rápido da política e da guerra, movido pela ação de grandes líderes e generais ou por elites poderosas, e que era bem adaptado a Histórias de estados-nacionais, dominou as narrativas da História por longas décadas, já bem adentrado o século XX (e ainda não desapareceu).

A partir de meados do século XX fortaleceu-se uma tendência, que pouco a pouco predominaria (ao menos em certos países), a despersonalizar a ação transformadora e a cadenciar mais lentamente os ritmos de mudança, como forma de superar as limitações da velha história política e abrir-se para as contribuições da Sociologia, da Antropologia e da Economia e para a influência do marxismo. Povos, nações, estados, cederam um pouco o lugar no palco da História para agentes mais amplos, transnacionais, quase impessoais. Daí passaram a predominar, na escrita dos historiadores, as grandes estruturas sociais e econômicas, com seu próprio dinamismo e suas próprias determinações. O tempo e a forma da ação tornaram-se distintos: passaram às grandes ações coletivas, por vezes conscientes, mas quase sempre determinadas pelas próprias estruturas, com suas leis de transformação, que passaram para o primeiro plano da narrativa e tornaram-se os grandes agentes da história.

Um terceiro impasse da historiografia contemporânea liga-se, de modo evidente, à crise dessas grandes estruturas, isto é, dos conteúdos específicos que, nos últimos duzentos anos aplicaram-se às formas e davam sentido à sua mudança. Da política à sociedade e desta à economia, o espaço da ação humana tornou-se cada vez mais restrito, menos eficaz. A capacidade de projetar um futuro e de conceber o passado como sua origem e sua causa, como a explicação prévia de um projeto a se concretizar, esvaeceu-se nas últimas décadas. Algumas consequências dessa crise das grandes narrativas são: em primeiro lugar, os objetos da História se multiplicaram, não apenas pela introdução de novos atores sociais, cujas histórias se tornaram relevantes (trabalhadores, imigrantes, mulheres, homossexuais), mas pelo recurso cada vez mais intenso ao estudo de caso, ao detalhe, à micro-história que se esquiva dos grandes contextos sem conseguir negá-los inteiramente. Em segundo lugar, a duração temporal dos objetos da história tornou-se cada vez mais longa: da ação individual e pontual de grandes homens às explosões coletivas, à ação impessoal, cíclica, de efeito indeterminado das estruturas econômicas, ao tempo quase eterno e imutável das indefiníveis mentalidades. São apenas tendências, é verdade, e reconhecê-las como tais não nega a coexistência de diferentes concepções e modos de fazer História hoje. De qualquer modo, essas tendências parecem desembocar, nos últimos trinta anos, numa ênfase cada vez maior nos chamados estudos de história cultural.

A CULTURA COMO CONTEÚDO DA HISTÓRIA

A História cultural não é, certamente, uma especialização recente: quer a consideremos originária do século XVIII, com as reflexões de J. G. Herder sobre a Kulturgeschichte, depois significativamente desenvolvidas no final do século XIX e inícios do século XX por autores como J. Burckhardt ou J. Huizinga; quer a consideremos como uma especialização mais recente, da segunda metade do século XX, a História cultural contemporânea parece, em todo caso, derivar, não apenas do enfraquecimento dos antigos modelos interpretativos, das grandes estruturas da história, mas de uma maior aproximação da História com a Antropologia e com a Linguística e, consequentemente, de uma maior consciência da imensa variedade e amplitude das sociedades humanas sobre a terra.
Mesmo hoje, quando parece tornar-se a tendência predominante, não é fácil definir História da Cultura como uma perspectiva única: a não ser por uma acentuada ênfase no caráter simbólico das relações humanas. A partir desse princípio, no entanto, pode estender-se da cultura popular ao mundo dos livros, do carnaval à cultura erudita, até chegar a esse universo amplo, vago, mal definido, compreendido sob o termo "mentalidades". De modo geral, a História da Cultura parece retornar aos tempos longos, quase naturais, aos tempos imóveis, nos quais a agência humana é, não apenas despersonalizada, mas quase esvaziada de eficácia transformadora. A História que narra torna-se, por sua vez, mais intimista, mais detalhada, mais atenta para o indivíduo e sua vida privada, uma história longe da história e que, por sua vez, pretende por vezes dar conta de todas as dimensões da história.


CULTURA E COTIDIANO

Dentre a grande diversidade dos estudos que podem ser classificados como de História cultural, aqueles dedicados à chamada História da Vida Privada ou História do Cotidiano apresentam uma característica particularmente relevante para avaliarmos os impasses da historiografia contemporânea. O gênero não é novo, remontando talvez à velha antiquística erudita que ainda competia com a História oficial em meados do século XIX (e reproduzia a antiga oposição entre Heródoto e Tucídides). Para além das intermináveis discussões sobre a pertinência do conceito para sociedades não européias, ou mesmo sobre a existência de "cotidiano", como instância própria e separada da vida (debates que afetam mais certos círculos sociológicos que propriamente históricos), é inegável que o crescente interesse pela História do cotidiano reflete um novo olhar sobre o indivíduo, sua ação e sua posição na história.

Curiosamente, o cotidiano aparece quase como o perfeito oposto da história, como o campo das estruturas permanentes, inconscientes, alienantes, quase naturais, sobre as quais as ações humanas são apenas banais, corriqueiras e sem efeito transformador. O cotidiano surge assim como refúgio da história, na insignificância banal do homem corriqueiro, dominado por estruturas que, ao contrário daquelas políticas, sociais, econômicas e, mesmo, culturais, de nada seriam dominantes, de nada seriam a causa eficiente. Trata-se de um limite, sem dúvida, de uma história sem história. Pela sua própria condição de limite, contudo, pode nos ajudar a pensar sobre o estatuto da história hoje. A visão que apresentamos de cotidiano é derivada do senso comum, mas reproduz, em grande medida, as reflexões a seu respeito nas ciências humanas.

Em termos bem gerais, os estudos sobre cotidiano tendem a valorizar, como foco de atenção, as ações individuais frente às circunstâncias da vida, sobretudo no plano da intersubjetividade. Para alguns, importam menos as "estruturas do cotidiano" que os tipos de ação observados em seu interior. Irving Goffmann enfatiza o cotidiano como espaço de interações humanas concretas, a partir de estratégias individuais de adoção e negociação de papéis sociais, predeterminados por uma instância estrutural que assume, na maior parte das vezes, o caráter de uma organização: os pequenos mundos do trabalho, dos hospitais, dos manicômios. Numa perspectiva fenomenológica, Alfred Schutz vê o cotidiano como "mundo de vida", essencialmente intersubjetivo, mas apenas perceptível na perspectiva de cada indivíduo, que se serve de um reservatório de 'conhecimento disponível" (de senso comum) que lhe permite agir sem duvidar, de modo espontâneo, trabalhando sobre as coisas e os demais indivíduos por atos de comunicação que podem ser automáticos ou performáticos, na medida em que visem uma situação projetada. Em ambos os casos, trata-se sempre de pequenos mundos, dominados por tipos específicos de pequenas ações rotineiras, mais que por estruturas específicas. Já H. Levebvre encara o cotidiano como um produto do capitalismo, como um espaço de alienação, de repetição, de imposição brutal das estruturas da vida sobre indivíduos inconscientes e incapazes de reagir e alterar seu mundo. Para Levebvre, como para seus seguidores, a "cotidianeidade", mais do que o cotidiano, representa a derrota da ação humana eficaz sobre a história. Para outros, como Michel de Certeau ou Michel Maffesolli (mesmo que a partir de premissas absolutamente diversas) a ação cotidiana é, pelo contrário, reação contra a unidimensionalidade do mundo, reivindicação do espaço e do valor da particularidade e da individualidade numa sociedade cada vez mais massificada.
Mais produtiva é a visão de Agnes Heller que, por sua vez, chama a atenção para as estruturas do cotidiano, o que considera "o mundo das objetivações", dentro do qual se dão as ações cotidianas: a linguagem, o sistema de hábitos e o uso dos objetos e que representam o espaço de socialização dos homens, sobre o qual se acumula a cultura humana. Se é verdade que, para ela, essas objetivações possuem um caráter conservador e que o senso comum se reproduz de modo consuetudinário, através da repetição, do economismo, do pragmatismo, da imitação e da hiper-generalização, do cotidiano também podem surgir ações não cotidianas, criativas, inovadoras, sobretudo no campo das artes e das ações que quebram a rotina da vida. Essa perspectiva aproxima-se da de Claude Javeau e de sua tentativa de incluir, num único sistema de pensamento, a macro e a micro-história, um mundo de atores nunca solitários cuja ação coletiva, consciente ou não, produz e reproduz as instâncias da vida. Nesse âmbito, o próprio sentido de cotidiano, como instância à parte da vida, como o outro da história, parece esvanecer-se.

COTIDIANO E HISTÓRIA

Os historiadores têm dedicado poucas reflexões ao tema do cotidiano e de seu lugar na História. O ponto de partida pode ser a famosa e sempre citada coleção da Editora Hachette, cuja "História antiquária" opunha-se em suas origens à grande História, àquela celebrativa, dos grandes feitos, das grandes estruturas, da guerra, da política, da luta de classes, da economia, em suma da História das causas eficientes da história. A História do cotidiano se apresentava, ali, como a História do banal, do corriqueiro, do dia-a-dia, da realidade rotineira na qual agimos de modo quase inconsciente e alienado. Um pedaço da vida em que nada aconteceria, a não ser o absolutamente previsível, no qual nada mudaria e que, no entanto, dominaria nossas vidas no que teriam de mais íntimo, individual, privado. Daí que tendia a ser uma História de viés antropológico, História dos hábitos e costumes de diferentes povos: o morar, o dormir, o trabalhar, o descansar, e assim por diante. Uma História de verbos substantivados. Sob esta visão, as esferas da vida privada eram organizadas numa espécie de tipologia da vida social que podia ser usada para qualquer sociedade, época ou lugar. Essa recompartimentação da História, quando foi empreendida, não deixou de ser interessante, a despeito de sua busca do exótico e de seu viés escapista. Representou uma reformulação radical do ângulo de visão do historiador comum (e da História comum) pela valorização da realidade "banal", da história de todos e de cada um, por oposição à grande História celebrativa dos grandes homens e dos grandes feitos. Mas, como já se notou, tinha limites evidentes: seus procedimentos típicos da velha antiquária: a busca do anedótico, de dados dispersos, de instantâneos agrupados numa tipologia da vida social que parecia como um figurino adaptável a qualquer época, sociedade ou lugar e fundada numa espécie de naturalização da sociedade e do homem, seu resíduo quase biológico: o dormir, o comer, o amar, o divertir-se. Uma História do não histórico.
Uma das raras tentativas de se abordar o cotidiano do ponto de vista da História é a de F. Braudel, seguindo um caminho sugerido por Marc Bloch. Não tanto aquele, mais conhecido, dos três tempos da história: o longo da geografia, o médio das estruturas econômicas e o curto dos acontecimentos; mas o Braudel historiador das "estruturas do cotidiano": a demografia, os alimentos essenciais, o luxo, a técnica, as unidades sociais. Tempos longos, estruturais, menos extensos que as determinações geográficas, porém mais estáveis que o universo das trocas. Tempos quase naturais dentro da economia das existências humanas. A visão de Braudel reforça a ligação entre cotidiano e tempo histórico, sem dúvida, mas talvez seja possível abordá-la de outras maneiras.
Uma releitura da visão braudeliana, riquíssima de sugestões, encontra-se no ensaio de F. Novais, que se apóia na concepção braudeliana, buscando naquelas estruturas mais gerais as condições concretas de sociabilidade, de ação social individual e coletiva. Em todo caso, por mais rica que seja de sugestões, a definição de Braudel mantém a separação clássica entre tempo do cotidiano (e da vida) e tempo do acontecimento (e da história) reproduzindo, no fundo, a tradicional distinção entre acontecimento histórico, prenhe de significado, e vida comum, repetitiva e estéril. Entre tempo das mudanças e tempo da reiteração, entre estruturas supra-dominantes e atores humanos que se dobram a injunções que não podem controlar.
Na Sociologia, na Filosofia, mesmo nas poucas incursões historiográficas, o cotidiano aparece, assim, ou como um tipo de ação, repetitivo e inconsciente, banal, ou como um espaço informe de interação, de percepção fenomenológica de si e do outro. Para o historiador, parece ser um conceito limite. Vincula-se ao tempo e parece negá-lo, como repetição, como não acontecimento, como eterna permanência do que no entanto sabemos, quase intuitivamente, que muda. Talvez seja útil pensarmos esse limite, levá-lo às suas últimas consequências, para investigarmos alguns dos impasses da historiografia contemporânea.

COTIDIANO E TEMPO HISTÓRICO

Tentemos pensar o cotidiano do ponto de vista de um historiador, ou seja, como instância temporal, mas tendo em vista que é preciso explicar duas realidades contrapostas e complementares: a permanência e a mudança ou, em outros termos, a relação entre estrutura e ação. Podemos conceber cotidiano a partir de dois ângulos. Em primeiro lugar, como uma dimensão propriamente temporal, como pura duração sem qualificações, o que é certamente arbitrário, mas servirá como exercício para, em segundo lugar, indagar o cotidiano como tempo qualitativo, investigando o que compõe esse tempo, de que é a duração. Talvez, realizado o exercício, possamos entender melhor nosso objeto, a história e as possibilidades de nossa ciência, a História.

Que é tempo cotidiano? 

Os historiadores têm, como vimos, a tendência a aproximar cotidiano e longa duração, como o tempo do não acontecimento. Talvez seja possível superar a falsa dicotomia entre cotidiano e história se pensarmos cotidiano não como tipos específicos de ação ou como uma dimensão particular, individualizada, das interações humanas, mas como tempo plenamente histórico, no sentido de ser tanto o tempo do "acontecimento" (no sentido tradicional) quanto do "não acontecimento". Que é cotidiano? Na origem latina, quot dies é, ao mesmo tempo, um dia e todos os dias. Engloba, assim, tanto o instantâneo como o duradouro, o incisivo e transformador e o repetitivo. Cotidiano tem portanto dois sentidos temporais complementares. É o que acontece em um dado dia, num tempo brevíssimo, uma efeméride, e o que acontece todos os dias, portanto num tempo potencialmente longo. Ora, será essa dicotomia insuperável? Como se manifestam os grandes eventos, as grandes causas senão no dia, a cada dia, num dado dia? Não são eles também cotidianos? Não se produz a própria mudança no dia-a-dia, por meio de ações concretas, miúdas, seguidas, que se somam até tomar a forma de "acontecimentos"? "Pequenas" e "grandes" ações, o banal e o excepcional, a repetição e o único, a inércia e a transformação não existem em planos separados da existência, mas convivem, concretizam-se, no mesmo tempo comum da existência", que é o cotidiano ou, como veremos, o presente.

O cotidiano, visto assim sem qualidades, como o tempo da vida, pode ser pensado como o espaço concreto de realização da história em todas as suas dimensões, a pública e a privada, a banal e a importante, a repetitiva e a transformadora. O cotidiano não é uma esfera particular da vida ou da história, ou uma espécie de massa inerte, que muda pouco ou não muda, pois não teria em si os agentes de sua mudança: uma massa sobre a qual os acontecimentos existiriam e atuariam de modo independente. Não há por que pensar a história como duas instâncias separadas: uma física, concreta, porém imóvel e inconsciente, em que todos vivemos, e outra metafísica, mas ativa, eficaz, de onde proviriam as ações que mudam, as forças da mudança. É verdade que acontecimentos singulares, ou antes, constelações de acontecimentos, de ações, podem alterar em maior ou menor profundidade aspectos de nossa vida, mas é no próprio tempo do cotidiano que são gerados. Eles se dão no tempo e no espaço do dia, na sequência de dias. O acontecimento não é assim o inesperado, o imprevisto, não surge do nada, mas é um produto do cotidiano. Não há por que separar os dois planos ou, dito de outro modo, talvez seja útil pensá-los conjuntamente.

Daí que proponho ver o cotidiano não como uma esfera da vida, mas como um tempo, como um momento, um presente que, visto em perspectiva, congrega uma sucessão de presentes no fluxo contínuo da vida. Associar cotidiano a presente tem conseqüências importantes para o modo como encaramos a história. O presente que não é mera repetição do passado, mas um campo de restrições e possibilidades em aberto para projetos alternativos de futuro. O presente, entendido como o dia de hoje, é como o vértice de uma tríade temporal que forma, com passado e futuro, o curso da história.

Os historiadores tendem a esquecer o dia como unidade temporal da história. Não porque o dia seja desinteressante e fugaz, isento de acontecimentos (historiadores são, aliás, zelosos em datar acontecimentos num dia!), mas porque dia é tempo presente e os historiadores não costumam pensar essa dimensão do tempo — o presente. De modo geral, os historiadores ignoram em suas reconstruções ou explicações do passado o fato de lidarem com presentes. Na verdade, interpretam o passado por meio de futuros, empregando seu conhecimento do que aconteceu para explicar o que lhe sucedeu, como se cada passado visasse a um futuro, sem que um presente fosse o ponto necessário de ligação entre ambos. E um ponto no qual o futuro aparece ainda em toda a sua indeterminação e incerteza, como sonho, como projeto ou como angústia.

Invertendo as proposições de H. Levebvre, o cotidiano, mesmo em nossos dias, é o tempo, não da alienação, mas do desejo e da angústia, da esperança e do medo. É uma perspectiva em aberto, não um destino manifesto, um resultado previsível e previsto. Ignorando essa dimensão da história vivida, a História dos historiadores é ainda marcadamente teleológica, seu método pode ser classificado como uma teleologia retrospectiva. É preciso inverter a perspectiva para pensar a eficácia das ações sociais individuais e coletivas. Não devemos considerar essa ênfase no presente apenas como um resultado negativo da recente opacidade com que o futuro se nos velou. Estudar o passado abrindo-se para as possibilidades em jogo a cada momento, avaliando os projetos alternativos e em conflito, sem privilegiar o vencedor, ou antes, sem valorizar unicamente o resultado indesejado de diferentes projetos, pode revivificar nossa visão do passado e fazer pensar sobre nossas possibilidades de projetar futuros no presente.

Visto por esse ângulo, como curtíssima e como longa duração, o cotidiano não tem duração, a não ser aquela que o historiador estabelece (voltaremos a este ponto). Mais que um fluxo contínuo de eventos, o cotidiano é uma ponte que liga passado e futuro, mas não de modo desordenado e caótico. Ao contrário, o presente só é vivenciável porque é previsível, porque é a reprodução de uma certa ordem ou, dito por outro ângulo, o próprio ato de reproduzir essa ordem (ou de não fazê-lo). No cotidiano se defrontam ordem e movimento, como uma só unidade, o que equivale a dizer, em termos sociológicos, estrutura e ação, que são as duas faces da permanência e da modificação, do passado e do futuro.


COTIDIANO E TRABALHO MORTO: AS ESTRUTURAS DA VIDA

Esses pares de termos são equivalentes, ou quase. O passado aparece no presente, na história, sempre na forma de trabalho morto, trabalho acumulado e transmitido pelo dia de ontem, que acumulou e recebeu o trabalho de dias anteriores, de anos, décadas, gerações. Na história humana, e talvez na biológica e mesmo na física, o tempo é trabalho, é acúmulo, é transmissão do acumulado. É assim que o passado parece dominar o presente. O passado se apresenta no presente concretamente, como massa potencialmente inerte e inercial, como trabalho morto com o qual cada um e todos nós precisamos nos defrontar. Algo produzido no ontem, no passado, na verdade em diferentes espessuras de passado, mas que só existe aqui e agora, no tempo presente, como uma "armação da vida". É passado, mas só existe no presente, influencia, ou mesmo, domina nossas vidas, mas só existe se for acolhido, aceito, reproduzido e transmitido para o futuro.

A semelhança com o conceito de trabalho morto, como Marx o via na composição do capital, não é simples coincidência. No processo produtivo, o trabalho morto se corporifica em máquinas, mas também em conhecimentos, técnicas, modos de fazer, circuitos de troca, que antecedem o processo de trabalho, mas que dele necessitam para ter existência concreta, para serem vivificados pelo trabalho vivo, concreto, atual, que os reproduz e transforma. O paralelismo com o trabalho morto do capital não é absurdo, é apenas a extensão de uma lógica que lhe é subjacente. Se aceitarmos a premissa de que toda ação é trabalho, é intervenção humana na sociedade e na natureza, e que o mundo social é produzido pelos homens e não imposto a eles por uma instância externa, metafísica, então a sociedade é o resultado desse trabalho, que é morto porque passado, mas é ativo, porque domina as ações atuais, direciona-as, define suas possibilidades.

O passado é, assim, a própria sociedade, o trabalho morto acumulado na história que cada um e todos precisam atualizar, reproduzir ou eventualmente modificar a cada dia segundo um determinado projeto de futuro, de amanhã. Mas o que se reproduz, para que se mantenha ou se transforme? Como dissemos, o trabalho morto que o passado transmite não é uma massa caótica, mas uma ordem, que simultaneamente permanece e muda. Que tipo de ordem? O que dá ordem à vida e à história. Não temos pretensão a responder. Há várias respostas possíveis, ou talvez não haja respostas. Aqui, propomos apenas alguns modos de ver, como meios para organizar o pensamento e pensar eventuais respostas. Optamos, conscientemente, por nos afastar de alguns pressupostos muito arraigados e arriscar um novo ângulo de visão. Pensar ordem sem separar corpo e alma, ou matéria e pensamento, nem classificar a existência social em dimensões estanques e quase autônomas: o econômico, o político, o social e o ideal, por exemplo. São vícios de pensamento, alguns dos quais remontam aos gregos, e é difícil libertarmo-nos deles.

A idéia de que o cotidiano é estruturado se impõe pela própria previsibilidade do presente. Entenda-se que o termo estrutura é empregado aqui em sentido propositalmente fraco e vago. Significa apenas que o trabalho morto que corporifica e atualiza o passado apresenta-se organizado, como totalidade sobre a qual se pode agir com previsibilidade. Estrutura e cognoscibilidade estão intimamente ligadas. As ações sociais que incidem sobre o trabalho morto têm resultados previsíveis porque o presente é cognoscível, mas este só é conhecido porque se atua nele. Não há por que separar estrutura e ação. Se o fazemos, aqui, é com fins analíticos.

A melhor tentativa de pensar essas estruturas é, a meu ver, a de Agnes Heller, que citamos anteriormente. Mas Heller pensa, sobretudo, no cotidiano como espaço de ações específicas, não como tempo que unifica estrutura e ação. Proponho vê-las de modo diverso, a partir de quatro ângulos incomuns, que não são complementares, nem dão conta da totalidade do objeto, nem se apresentam separadamente, nem estão no mesmo plano ontológico, mas que pretendem abarcar, à sua maneira, a totalidade da vida social. São aproximações ao trabalho morto, ao passado realizado, concretizado e reproduzido ou alterado a cada dia segundo projetos mais ou menos incisivos de futuro. São, no meu modo de entender, os fundamentos da ação social sobre o capital acumulado apresentado a cada dia pelo passado. Tendo consciência de que representam um recorte insólito da realidade social, proponho-as como peças para debate. São elas, em ordem decrescente de abstração: a memória; os juízos compartilhados, as inter-relações sociais e o mundo material. Não vou aqui descrevê-las ou discuti-las em detalhe, mas apresentá-las como peças de um debate. São circunscrições arbitrárias que procuram englobar o conjunto da vida social independentemente das teorias que procuram explicar o que seja sociedade. Forneço apenas traços essenciais, que permitam entender de que se trata em cada caso.

Memória é a estrutura mais ampla e abrangente. É o próprio cimento da vida cotidiana. É, ao mesmo tempo, uma habilidade natural e uma construção social, uma atividade, um trabalho que dá sentido ao trabalho morto que compõe o palco da vida. A memória, individual ou coletiva, não é um repositório passivo, mas ativo, atuante, um imenso produto cultural. Memória é o vínculo, material ou ideal, entre passado e presente que permite manter as identidades a despeito do fluxo do tempo, que permite somar os dias de modo significativo. É ela que dá sentido ao presente. É essencial tanto para indivíduos como para a sociedade ou para grupos dentro dela. Seu contrário, a amnésia, tanto individual como social, corresponde à inação quase absoluta. Não existe ação que não seja calcada na memória. Mas memória não é apenas um recurso que possibilita a ação. É uma poderosa estrutura, um instrumento para o agir social e, portanto, uma fonte de poder.

São várias as formas da memória social, em diferentes sociedades. A escrita e o processo educacional são formas de memória, assim como a tradição erudita, livresca, a ciência, ou os relatos orais e as estórias que circulam entre grupos, os mitos, os heróis comuns e assim por diante. Memórias são produto de trabalho, são fabricadas. Mas são também acúmulos de trabalho morto que condicionam o presente ou permitem agir sobre este de modo decisivo, conferindo sentido à ação e identidade aos agentes. A memória, sendo fonte de poder, é também, inevitavelmente, um campo de batalha onde se defrontam interpretações do passado e do presente pelo passado, onde se criam e destroem identidades, tradições, símbolos, crenças, sentidos da vida que podem inibir ou estimular ações, individuais ou coletivas.

Juízos compartilhados designam as convenções sociais que tornam a vida pensável para determinados grupos, independentemente de suas dimensões: grandes, médios, mínimos. São espaços de comunicação e de negociação de sentidos. Compõem um conjunto complexo, não necessariamente coerente. Podem ser formalizados, como as leis, ou informais, como os costumes, podem ser consensuais, negociáveis ou pólos de tensão e conflito. O exemplo mais geral de um juízo compartilhado talvez sejam as línguas naturais, que podemos considerar uma convenção coletiva que permite a comunicação entre as pessoas, com todas as suas circunscrições e imposições. Outros exemplos abrangentes são as religiões, ou ainda os valores incutidos pelo processo educacional. O campo é muito vasto para o explorarmos em detalhe.

De qualquer modo, com toda sua complexidade, são eles que dão sentido às ações recíprocas, que estabelecem o espaço da normalidade, do esperável, do aceitável nas interações sociais. São mais do que regras impostas ou normas internalizadas. Formam um quadro comum para se interpretar e agir no mundo, definindo o que é normal e correto, o desejável e o possível (e seus opostos), seja para todos, seja para segmentos da sociedade. São sistemas de crenças e costumes mais ou menos arraigados, mais ou menos difundidos que permitem proferir juízos e julgar, aprovar ou condenar ações, prevê-las ou evitá-las. Invadem nossas vidas em todas as suas dimensões. Definem, para cada sociedade, e para cada grupo dentro dela, o que é, por exemplo, uma família apropriada: envolve casais de sexos distintos ou independe do sexo? Envolve filhos? Envolve mesmo casais? O que é sexo permitido e permissível? O que é amizade? O que é poder legítimo? Propriedade legítima? Ação legítima? Deus? Liberdade? Amor? O rol é infinito e multifacetado. O importante é ter em mente que não são definições naturais, mas culturais e que, portanto, não são eternas, nem consensuais. Mudam de sociedade para sociedade, época para época e grupo para grupo. Também são campo de negociação e conflito, de exercício do poder e mesmo de repressão violenta.

As interações sociais compõem uma dimensão extremamente complexa e estratificada que engloba a maior parte daquilo que os sociólogos costumam denominar de organização social, ou seja, das obrigações que vinculam indivíduos ou grupos específicos uns aos outros, dentro de uma determinada totalidade social. Talvez se possa pensá-las conjuntamente como relações de troca, em termos grosseiramente genéricos, na medida em que toda relação pode ser concebida como troca entre indivíduos ou grupos, na produção, no círculo profissional ou de amigos, na família, na rede de vizinhança, relações que se interpenetram de maneiras diferentes em sociedades diferentes. É a dimensão na qual as pessoas se organizam para e por entrarem em contato, na qual trocam bens, idéias, serviços, se auxiliam, exercem poder ou obedecem, se exploram, produzem, se unem e diferenciam, são indivíduos sedes de redes, são grupos dentro de uma sociedade, são coletividades num mundo de sociedades contrastantes. As redes de relações programam e definem as ações cotidianas de indivíduos e grupos. São ações cristalizadas em expectativas de reprodução, são trabalho morto cuja reprodução e/ou transformação corresponde à da própria organização social.

Já o mundo material engloba tanto a natureza como meio, quanto a parcela da natureza apropriada e transformada pelo homem, que dá forma ao mundo, conforma o palco da vida, representando trabalho humano concretizado, materializado como trabalho morto. Não é um meio simplesmente passivo, mas uma realidade instituída e construída, que conforma nossa vida, define nossa percepção do entorno e fornece a estrutura física da vida cotidiana (propicia atividades sociais, os espaços e meios delas) dando-lhe estabilidade, identidade e previsibilidade. Como mundo transformado, na forma de estruturas e objetos, que devem ser produzidos e podem ser trocados, acumulados, usados, representa um capital acumulado que dá forma ao mundo e espacializa, concretizando, as demais estruturas cotidianas. Nesse sentido, também é um instrumento de poder, tanto sobre a natureza quanto sobre homens, meio de luta e de dominação. Os objetos, o mundo material, são instrumentos significativos e simbólicos, que unem e diferenciam: sexo, idade, grupo ou classe, prestígio social, poder, honra, dignidade e preferências como consumidor, por exemplo. Como as demais estruturas, o mundo material é trabalho acumulado, passado, morto, que se apresenta a cada dia como limitante à ação, mas também como campo de possibilidades, como espaço de negociação.



TRABALHO MORTO E AÇÃO: PERMANÊNCIA E TRANSFORMAÇÃO

As estruturas do cotidiano, tal como já as definimos brevemente, são uma abstração, um produto do pensamento. Não existem separadamente na vida real, que é una. São antes modos de ver, de analisar essa realidade cuja estrutura é unitária. Mais que isso, são divisões arbitrárias de um todo que engloba estrutura e ação. São, como dissemos, ações condensadas, ações passadas, sobre as quais se exerce a ação presente. Além disso, tal como apresentadas, são unidades pretensamente homogêneas e extensivas, encobrindo uma imensa gama de subdivisões: de memórias distintas, estanques ou conflitantes; de juízos grupais, setoriais ou mesmo excêntricos; da tensão graduada entre coletivo(s) e indivíduo(s), que beira o paradoxo (a ação coletiva passada, o trabalho morto, domina a ação individual, mas não é senão soma de ações individuais); das múltiplas leituras possíveis do mundo material. São, assim, um recorte da realidade propositalmente mediano para dar conta tanto das totalidades sociais quanto do mundo miúdo das vivências particulares.

Essas estruturas do cotidiano são produtos coletivos, soma de inumeráveis atos individuais, que condensam o trabalho passado realizando-o a cada instante, a cada dia, a cada ciclo. São o produto, talvez aleatório, de ações particulares, mas não são caóticos. Indeterminação do futuro não equivale à desorganização do presente que se torna passado. O passado, sobretudo, é organizado. É a ele, ao passado, que denominamos "organização social", "realidade social", "fato social". O passado é não apenas organizado, mas previsível, e as estruturas propostas visam precisamente pensar essa organização e previsibilidade.

Essas estruturas não existem em si, mas apenas na medida em que são reiteradas, negociadas, pressionadas, alteradas no espaço de cada dia, a cada dia. São, ao mesmo tempo, indutores e inibidores da ação social, campo do necessário, mas também do possível, passado a se tornar futuro pela ação presente. Vista desse modo, a realidade social aparece sob nova luz. Nem a ação individual de grandes homens, nem a força de acontecimentos únicos que irrompem inesperados na história, nem o movimento lento, cego e inexorável de estruturas anônimas e impessoais. A história e a vida voltam a ser ação humana sobre a realidade e ressurge a possibilidade de "mudar o rumo" da vida, de "fazer história", ainda que inconscientemente, ou que, apenas, pela soma mais ou menos aleatória de atos e vontades individuais.

Pensemos mais detidamente sobre a relação entre estrutura e ação no tempo da história. O que denominamos passado no presente, trabalho morto, parece dominar a vida, determiná-la. O passado existe apenas como trabalho morto que precisa ser reproduzido a cada dia, e o futuro como projeto de reprodução e/ou transformação. O passado aparece como dado, como realidade preexistente com a qual temos que lidar. Por um lado, esse trabalho morto, acumulado, com o qual nos defrontamos a cada dia, é positivo: representa um capital acumulado por gerações (conhecimento, domínio da natureza, capacidade produtiva e intelectual, círculo de relações que animam nossa vida, por exemplo), representa um universo de previsibilidade que torna a vida possível de ser vivida. É necessário que o aceitemos para podermos continuar a viver. Desta forma, ele precisa ser reproduzido, a cada dia, ou ciclo de dias, para que a vida continue a fazer sentido e seja "vivível". A tendência, que vimos ser generalizada, de associar cotidiano a um tipo de ação repetitiva e banal reflete, precisamente, embora de forma unilateral, a necessidade de reproduzir o passado para viver o presente: seja a reprodução imediata, seja a cíclica. O ato de reproduzir o trabalho acumulado, que é precisamente o que denominamos cotidiano, é comumente cadenciado por ciclos, que não são a "duração" do cotidiano, mas seus ritmos, tanto naturais como humanos. O ciclo básico e mínimo talvez seja, como sugere a palavra, o espaço de um dia: o dia solar. Não é um espaço fixo, como sabemos, mas variável no tempo e no espaço. Um dia podem ser seis meses, isto é, 180 outros dias. Se a reprodução sempre se concretiza no dia-a-dia, a cada dia, pode ter momentos, ou ciclos, diferenciados: pode ser semanal, semestral, anual, sazonal, natural, cultural, social ou econômica, por exemplo. Há, assim, vários ciclos de reprodução e reiteração da vida social, eles fazem parte do cotidiano e de seu universo de expectativas.

Mas a ação cotidiana, a ação que se exerce sobre a massa inerte do passado, sobre o trabalho morto, não é apenas ação reiterativa, reprodutiva. O passado não determina o presente de modo absoluto. Em primeiro lugar porque toda reprodução é, também, transformação. O ato reiterativo é antes um desejo ou uma necessidade de manutenção da ordem que a cristalização eficaz do presente num eterno passado sem futuro. O trabalho se acumula, o trabalho acumulado muda de forma, as relações se alteram, em suma, nenhuma ação reprodutiva é plenamente eficaz.

Porém, o passado não é só limitação, é campo de possibilidades, cada vez mais amplo, mais rico. E sua ordem, se é condição de existência, não representa necessariamente (muito pelo contrário) aceitação da herança como fardo e como destino. O passado/trabalho morto é também fonte de insatisfações, de imperfeições, de crises, de desarranjos. É possibilidade de vida social, mas também dos conflitos internos a essa vida. Tem seu lado claro, luminoso, de realização, mas não esconde sua face mais escura, de miséria, exploração, violência, dor. Isso é verdade em termos individuais (em casa, no trabalho, na rotina massacrante, na humilhação e na miséria, por exemplo) e coletivos (na exploração, no racismo, na dominação de classes e na violência). Sobre a massa do trabalho morto que o passado apresenta, as ações humanas como que flutuam, com uma liberdade contida. Nem tudo pode ser mudado, sem que a possibilidade da vida social desapareça, mas nem tudo precisa ou deve permanecer como está. Os homens reproduzem suas vidas no dia-a-dia, mas nunca da mesma maneira, e projetam mudanças no cotidiano e para o cotidiano, para que este se altere.

A vida é uma soma de atos reprodutivos do passado e de atos transformadores, automáticos ou involuntários ou mesmo organizados e associados a projetos de futuro. Reproduzimos o que queremos ou o que somos obrigados a reproduzir e transformamos o que queremos ou o que temos forças para transformar, individualmente ou em conjunto. Nossa capacidade de mudar a realidade é variável. Pequenas decisões podem mudar o curso de vidas individuais. Grandes transformações dependem de ações públicas, coletivas, que são o somatório de ações individuais, coordenadas ou não. O cotidiano é um bom ângulo para pensarmos a eficácia da ação humana e suas modalidades, da individual à coletiva, da organizada à aleatória, da desejada à involuntária, da consciente à intuitiva.

O presente, em suma, aparece-nos como dado, como estruturado independentemente de nossa vontade, como trabalho morto, que devemos aceitar ou não, reproduzir ou não, a cada dia, ou a cada ciclo de dias. Essa estrutura, esse trabalho morto que é prévio a toda ação, determina todas as ações. É, ao mesmo tempo, uma possibilidade, a base de qualquer ação, os meios materiais e mentais concretos para realizá-la e uma constrição, na medida em que condiciona a ação, limita-a, tende a reproduzir-se e a impedir a mudança. Mas não é uma camisa de força, porque os indivíduos e/ou grupos permanentemente confrontam-se com ela, negociam-na, alteram-na. As estruturas do cotidiano são também espaços/palcos de conflitos, podendo ser consensuais ou apenas hegemônicos, ou mesmo claramente conflituosos.

Parece-nos, portanto, possível e necessário redefinir o modo como a historiografia contemporânea encara três elementos centrais em suas narrativas: sua perspectiva temporal e a relação entre estrutura e ação. Apenas do ponto de vista da história, com efeito, estrutura e ação aparecem, não como dois termos distintos e contrapostos, mas como um processo, que só se dá no tempo e pelo tempo, de reiteração ou transformação de ações humanas num fluxo que parece contínuo.

A continuidade desse fluxo será nosso último problema e, talvez, o mais crucial de todos. A grande virtude da História, no âmbito das Ciências Humanas, é sua relação particular com o tempo. Não apenas no sentido mais óbvio, de poder aplicar, ou testar ideias, teorias, modos de ver produzidos pelas outras Ciências Humanas, nem por aquele, talvez mais importante, de revelar realidades empíricas já desaparecidas, para pô-las em confronto e relacioná-las com o presente, mas também aquela, toda particular, que é a de trabalhar sobre um objeto em movimento. Um objeto que a História precisa, ao mesmo tempo, artificialmente congelar, como ALGO passível de estudo, mas de cuja dinâmica, de cujas transformações não pode fugir: ao contrário, deve considerá-las o foco de sua atenção. Para a História, mais que para outras disciplinas, estrutura e ação aparecem como uma unidade, como duas maneiras de se descrever o que, na verdade, é um processo. Um processo que só se estuda como um ALGO, através de recortes, seja determinando períodos, nos quais o ALGO quase se congela como objeto, seja recortando espaços dentro desse ALGO: grupos de bairro ou conjuntos de crentes, sociedades pequenas e grandes, unidades políticas, economias nacionais e assim por diante. Recortes são arbitrários, mas necessários. E esse é talvez o maior dos desafios da História contemporânea: refazer seus recortes tradicionais, pois eles não mais dão conta da realidade. Porque podemos ver, hoje, como sua pretensa "naturalidade" era artificial.

Começamos este artigo, com efeito, criticando as velhas subdivisões da história e alertando para seu caráter eurocêntrico e anacrônico. De que modo uma História, vista pelo ângulo do cotidiano, pode contribuir para renovar aquelas velhas formas? A resposta não é simples. Como vimos, as "estruturas" que, tentativamente, impusemos à história para explicar sua ordem e suas mudanças não correspondem aos recortes tradicionais com os quais trabalha o historiador, nem em termos das unidades de estudo, nem em termos das "forças" que estruturam ou põem em movimento as mesmas unidades. Por sua vez, as estruturas que propusemos, de modo indicativo, tampouco são complementares ou hierarquizadas. Não formam, em suma, unidades em si, que pudessem ser assumidas como tais pela História. Apenas à guisa de exemplo: um mesmo espaço linguístico não precisa coincidir com um conjunto de tradições literárias ou artísticas; uma memória grupal, ou nacional, não corresponde necessariamente a uma dada rede de interações sociais, uma estrutura de poder não equivale a um circuito de produção, troca e acumulação de bens. Não há um único cotidiano definido pelas quatro estruturas, nem mesmo no mundo cada vez mais unificado em que vivemos. Não existe uma sociedade capitalista, um mundo industrial, uma sociedade civil, nem mesmo a sociedade de um país. Mas é verdade que para pensar o mundo precisamos ainda de recortes, necessitamos identificar ou propor diferentes cotidianos, que façam sentido em diferentes círculos de reprodução e transformação da vida. A historiografia contemporânea vem, pouco a pouco, atentando para a possibilidade de trabalhar com novos recortes, recusando-se a aceitar as unidades "naturais" transmitidas pela tradição da disciplina e procurando ver como, na vida concreta das sociedades, tais recortes são construídos, como identidades são fabricadas ou desfeitas, como grupos humanos se aproximam ou se afastam construindo memórias comuns ou distintas, organizando-se e dispersando-se, compartilhando ou contestando valores cruciais, agrupando-se para agir, ou conformando-se com a inação, estabelecendo ou contestando relações de produção e de propriedade. De qualquer modo, o historiador não escapará jamais da necessidade de impor seus próprios recortes ao passado. O que não pode mais fazer é tratá-los como objetos naturais.

Num certo sentido, assistimos, nas últimas décadas, ao fim da História. Não, obviamente, ao término da história das sociedades humanas, mas ao fim da possibilidade de se escrever História como se fazia até então, uma História europeia, delineada por interesses localizados, mesmo quando se pretendia universal. Os objetos "naturais" que produziu e estudou estão se esvaindo com o tempo, pelo próprio processo de sua reprodução e transformação. O que se denominava, há algumas décadas, como a fragmentação da História, era uma falsa crise, era sim uma mudança interna e salutar. Representava a multiplicação dos centros de estudos pelo globo, a identificação de novos estoques documentais, de novos problemas, de novos recortes possíveis. Mas ainda era uma fragmentação europeia e, por isso, insuficiente. É preciso recortar novos objetos, em novas escalas, e isso só uma História mundializada pode fazer. Só uma História mundial, ciente da unidade da história, pode dar conta da imensa variedade e diversidade das histórias da história humana.

GUARINELLO, Norberto Luiz. História científica, história contemporânea e história cotidiana. Rev. Bras. Hist., 2004, vol.24, no.48, p.13-38. ISSN 0102-0188.

História e Antropologia


Euges Lima

Nas últimas décadas do século passado, sobretudo nos anos 70 e 80 a historiografia passou por um processo, que podemos chamar de renovação. Na verdade, esse momento na produção historiográfica ficou conhecido como: “viragem antropológica”. É sobre essa relação entre História e Antropologia, essa aproximação entre estas duas áreas do conhecimento - e que para alguns já é denominada de História antropológica - que pretendemos discutir e analisar dentro das possibilidades e limitações deste pequeno texto. A nossa proposta é tão-somente refletir sobre e a partir de uma bibliografia de qualidade, que trata desse assunto e então, evidentemente tirarmos algumas conclusões.

Dentre as ciências sociais, podemos afirmar que a História é uma das que mais evoluíram nas últimas décadas e essa evolução se deu, sem dúvida nenhuma, por conta do caráter interdisciplinar imprimido pela produção historiográfica contemporânea. Os horizontes dos historiadores se expandiram, novas temáticas, novos objetos e novos métodos foram adotados pelos historiadores, quer dizer, pelos historiadores culturais, tudo isso graças à aproximação da História com a Antropologia.

Mas essa perspectiva cultural é realmente tão nova assim? Será que essa abordagem nasce com a escola dos Annales ou, melhor dizendo, com o movimento dos Annales? Não, já nos séculos XVIII e XIX, historiadores como Legrand d’Aussy e Michelet se ocupam do campo desprezado pela história factual, dos acontecimentos, ou seja, se preocupam em estudar uma história social dos costumes dos franceses, das mentalidades; uma história com uma abordagem cultural, mais estrutural que factual. Em 1782, Legrand d’Aussy, por exemplo, já demonstra a sua insatisfação com o tipo de história que se vinha fazendo até então, uma história essencialmente política e voltada para os grandes acontecimentos, assim como, para os feitos dos reis, generais etc.

Vejamos então, como Legrand d’Aussy já nos séc. XVIII em sua História da vida privada dos franceses (3 vol.) faz severas críticas a esse tipo de história - factual - que era predominante na época:

Obrigado, pelos grandes acontecimentos que deve contar, a estudar o que não se oferece a ele com certa importância, ele só admite na cena os reis, os ministros, os generais de exército e toda aquela classe de homens famosos cujos talentos ou erros, esforços ou intrigas produziram a infelicidade ou a prosperidade do Estado. No entanto, o burguês em sua cidade, o camponês em sua choupana, o gentil-homem em seu castelo, o francês, enfim, no meio de seus trabalhos, de seus prazeres, no seio de sua família e de seus filhos, eis o que não nos pode representar.

Para o historiador cultural contemporâneo dos séculos XX e XXI, essa perspectiva histórica que insere os chamados grupos subalternos na história, que percebe na cultura de uma sociedade um objeto histórico, parece algo muito pertinente e até certo ponto natural. Como disse André Burguière (LE GOFF, 1993, p.125), poderíamos muito bem pensar que essa citação acima que expressa sobre as insuficiências do historiador, fosse de um Lucien Febvre ou até mesmo de um Jacques Le Goff ou ainda de um George Duby. No entanto, trata-se de um olhar etnológico no séc. XVIII, que torna Legrand um historiador além do seu tempo, em que para ele a história é “uma mistura constante de comportamentos herdados (portanto de permanências) e de fenômenos de adaptação ou de invenção”.

Um outro precursor do que hoje conhecemos como nova história cultural é Michelet. No séc. XIX, em meio a uma história positivista norteada por uma metodologia inspirada nos moldes das ciências experimentais, onde o elemento básico era o fato histórico, ou seja, o acontecimento; Michelet surge como um historiador que busca outros modelos de explicação da sociedade, uma história da moda alimentar, da sensibilidade, do comportamento das elites francesas no século XVIII, das mentalidades, enfim, uma história etnológica. Nesse sentido, assevera Jacques Le Goff (1993, p.22): "Lucien Febvre ontem, um Fernand Brudel hoje, que primeiro viram em Michelet o pai da história nova, da história total que quer abarcar o passado em toda a sua totalidade, desde a cultura material até às mentalidades".

Como vimos nesse breve histórico das origens da nova história cultural, Marc Bloch e Lucien Febvre tiveram em quem se inspirar e são eles que em fins dos anos 20, na França, vão fundar a revista dos Annales, como uma forma de demonstrar toda a sua insatisfação com relação à história política, permeada por análises pobres e concepções redutoras e centralizadoras, que reduziam o campo histórico ao domínio da vida pública. É a partir daí que esses historiadores vão resgatar, ou melhor dizendo: reaproximar a Etnologia da História, contribuindo sobejamente para evolução do conhecimento histórico contemporâneo.

Comumente a chamada escola dos Annales é dividida em três gerações, a primeira representada por Lucien Febvre e Marc Bloch - seus fundadores - a segunda notadamente representada pela liderança de Fernand Braudel e por fim a terceira, integrada entre outros, por Georges Duby, Jacques Le Goff e Emmanuel Le Roy Ladurie.

É a partir dessa terceira geração que a dimensão antropológica vai se fazer mais presente na historiografia contemporânea. Surgida em fins da década de 70 como uma reação à história quantitativa(1) predominante na geração anterior, esse movimento - viragem antropológica - "pode ser descrito, com mais exatidão, como uma mudança em direção à Antropologia cultural ou 'simbólica' " (BURKE, 1997, p.94). Os historiadores dos anos 70 e 80, vão estabelecer um diálogo mais intenso e profícuo com a Antropologia, vários antropólogos como Pierre Bourdieu, Michel de Certeau, Erving Goffman e Victor Turner vão influenciar os trabalhos desses historiadores. As ideias que migraram da chamada "nova antropologia simbólica" para história, foram adotadas, adaptadas e utilizadas para construir uma história mais antropológica.

A inserção de novas temáticas, assim como, uma apreensão do simbólico por parte do historiador, tem sido pontos fundamentais nesse novo saber e fazer histórico. Temas como o medo, o corpo, a morte, a loucura, o clima, a feminilidade etc., têm sido objetos de estudo desse novo historiador, o que na perspectiva da história tradicional era algo praticamente impensável. Todos estes aspectos da vida humana passam a ter uma nova dimensão, ou seja, a perspectiva cultural. Nesse sentido assinala Burke (1996, p.11):

O que era previamente considerado imutável é agora encarado como uma 'construção cultural', sujeita a variações, tanto no tempo como no espaço [...]. A base filosófica da nova história é a ideia de que a realidade é social ou culturalmente constituída. O compartilhar dessa idéia, ou sua suposição, por muitos historiadores sociais e antropólogos sociais ajuda a explicar a recente convergência entre essas duas disciplinas.

Um outro ponto que os novos historiadores e antropólogos culturais parecem convergir é com relação à questão do simbólico. O diálogo da História com a Antropologia se dá muito em torno da apreensão do simbólico. Como no dizer de Geovanni Levi: "O historiador não está simplesmente preocupado com a interpretação dos significados, mas antes em definir as ambiguidades do mundo simbólico" (ARANHA, 1997, p.49).

Historiadores como Carlo Ginzburg e Robert Darnton em seus trabalhos, buscam uma aproximação vantajosa com a Antropologia, sobretudo com uma “antropologia estrutural simbólica”. Só para citar alguns: História Noturna: decifrando o sabá, de Ginzburg. O grande massacre dos gatos e Outros Episódios da História Cultural Francesa, de Darnton.

É importante ressaltar que esse diálogo com a Antropologia não quer dizer que o historiador perca sua identidade, mas tão-somente utilize a disciplina vizinha para resolver questões que os métodos da História não possuem, como, por exemplo, valorizar o que os antropólogos chamam de “a visão do nativo”, para a partir daí entender os significados implícitos na sua visão de mundo, assim como, a busca por formas simbólicas análogas em sociedades diferente no tempo e no espaço etc. Portanto, ao historiador cabe agir de forma interdisciplinar, sem, contudo, perder de vista sua perspectiva histórica e resolver historicamente aquilo em que a Antropologia não pode avançar, ou seja, analisar a história a partir de uma visão antropológica sim, porém, a partir de uma adesão crítica.

Notas

(1) O tipo de história predominante no movimento dos Annales de 1950 – 1970, onde dava ênfase aos dados estatísticos, como: gráficos e tabelas.


Referências

ARANHA, Gervácio Batista. A nova história, seus temas e métodos: um diálogo com a Antropologia. Revista Raízes. Nº 14, 1997, p. 45-81.

______. A história renovada: a emergência de novos paradigmas. Revista Saeculum. Nº 4/5, 1998/1999, p. 41-72.

BURKE, Peter. A escrita da história. São Paulo: UNESP, 1996.

______. A Escola dos Annales (1929-1989): a Revolução Francesa da historiografia. São Paulo: UNESP, 1997.

______. Variedade de história cultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

DARNTON, Robert. O Beijo de Lamourett: mídia, cultura e debates. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

LE GOFF, Jacques. Para um novo conceito de Idade Média: tempo, trabalho e cultura no Ocidente. Lisboa: Estampa, 1979.

LE GOFF, Jacques et al. A nova história. São Paulo: Martins Fontes, 1993.


Uma Crítica Marxista Dos Pós-Marxistas


Por James Petras

O "pós-marxismo" veio a ser uma postura intelectual em moda com o triunfo do neoliberalismo e o recuo da classe proletária. O espaço deixado vago pela esquerda reformista (na América latina) na maior parte foi ocupado por políticos e por ideólogos do capitalismo, por tecnocratas e pelas igrejas tradicionais e fundamentalistas (Pentecostais e o Vaticano). No passado, este espaço foi ocupado por políticos socialistas, nacionalistas e populistas e pelos ativistas da igreja associados com a "teologia da libertação". O centro-esquerda era muito influente dentro dos regimes políticos (no topo) ou nas classes populares menos politizadas (na base). O espaço vago da esquerda radical refere-se aos intelectuais políticos, setores politizados dos sindicatos e dos movimentos sociais urbanos e rurais. É entre estes grupos que o conflito entre o marxismo e o "pós-marxismo" está mais intenso hoje.

Alimentado e, em muitos casos, subsidiado pelas principais instituições financeiras e pelas agências governamentais que promovem o neoliberalismo, emergiu um número maciço de organizações "sociais" cujas ideologias, enlaces e práticas estão competindo diretamente e opondo-se à teoria e à prática marxista. Estas organizações, na maioria dos casos, descrevem-se como "não-governamentais" ou como "centros de pesquisa independentes", estão ativamente propondo ideologias e práticas políticas que são compatíveis e complementam a agenda neoliberal de seus patrões financeiros. Este ensaio prosseguirá descrevendo e criticando os componentes de sua ideologia e voltará, então, a descrever suas atividades e omissões, contrastando-a com os movimentos de classe de base e seus enfoques. Isto será seguido por uma discussão das origens do "pós-marxismo", sua evolução e futuro em relação ao declínio e ao retorno possível do marxismo.

Componentes Do Pós-Marxismo

Os proponentes intelectuais do pós-marxismo na maioria de exemplos são "ex-marxistas" cujo ponto de partida é uma "crítica" do marxismo e da elaboração de contestações a cada proposição básica como a tentativa de fornecer uma teoria alternativa ou ao menos uma linha plausível de análise. É possível sintetizar mais ou menos dez argumentos básicos encontrados geralmente no discurso dos pós-marxistas:

1. O socialismo era uma falha e todas as "teorias gerais" das sociedades são condenadas a repetir este processo. As ideologias são falsas (exceto o pós-marxismo!) porque refletem um mundo do pensamento dominado por um único sistema da cultura de gênero/raça.

2. A ênfase marxista na classe social é "reducionista" porque as classes estão se dissolvendo; os pontos de partida dos princípios políticos são culturais e enraizados em identidades diversas (raça, gênero, etnia, preferência sexual).

3. O estado é o inimigo da democracia e da liberdade, um distribuidor corrupto e ineficiente do bem-estar social. Em seu lugar, a “sociedade civil” é a protagonista da democracia e da melhoria social.

4. O planeamento central é, e conduz a um produto da burocracia que atrapalha a troca de bens entre produtores. Os mercados e as trocas do mercado, talvez com regulamentos limitados, permitem um consumo maior e uma distribuição mais eficiente.

5. A luta da esquerda tradicional para tomar o poder do estado corrompe e conduz aos regimes autoritários que subordinam a sociedade civil a seu controle. As lutas locais sobre sucessões locais por organizações locais são os únicos meios democráticos de mudança, junto com petições/pressões sobre autoridades nacionais e internacionais.

6. As revoluções terminam sempre mal ou são impossíveis: as transformações sociais ameaçam provocar reações autoritárias. A alternativa é lutar para se consolidar transições democráticas a fim de salvaguardar os processos eleitorais.

7. A solidariedade de classe é parte de ideologias passadas, refletindo antigas políticas e realidades. Classes não mais existirão. Há "cenários" fragmentados em que grupos específicos (identidades) e as localidades engajadas na auto-ajuda e em relações recíprocas para a "sobrevivência" baseada na cooperação de ajudantes externos. A solidariedade é fenômeno transclassista, um gesto humanitário.

8. A luta de classes e o confronto não produzem resultados tangíveis; provoca derrotas e não resolve problemas imediatos. O governo e a cooperação internacional em torno dos projetos específicos resultam nos aumentos na produção e no desenvolvimento.

9. O anti-imperialismo é uma outra expressão do passado que sobreviveu a seu tempo. Na economia globalizada de hoje, não há nenhuma possibilidade de confrontar os centros econômicos. O mundo é cada vez mais interdependente e neste mundo há uma necessidade de uma cooperação internacional maior no capital, na tecnologia e no conhecimento transferindo dos países "ricos" aos países "pobres".

10. Os líderes de organizações populares não deveriam orientar-se exclusivamente em organizar os pobres e compartilhar de suas condições. A mobilização interna deveria ser baseada no financiamento externo. Os profissionais deveriam conceber programas e assegurar o financiamento externo para organizar grupos locais. Sem ajuda externa, os grupos locais e as carreiras profissionais desmoronariam.

Crítica Da Ideologia Dos Pós-marxistas

Pós-marxistas têm, então, uma análise, uma crítica e uma estratégia de desenvolvimento do mundo, numa ideologia muito geral que supostamente condena o marxismo ao discuti-lo. Entretanto, é uma ideologia que não identifica as crises do capitalismo (estagnação prolongada e pânico financeiro periódico) e das contradições sociais (desigualdades e polarização social) no nível nacional e internacional que impinge nos problemas sociais locais específicos focalizados. Por exemplo, as origens do neoliberalismo (o meio sóciopolítico e econômico em que funcionam os pós-marxistas) é um produto do conflito de classe. Os setores específicos do capital aliados com o estado e o império derrotaram as classes populares e impuseram o modelo. Uma perspectiva de não-classe não pode explicar as origens do mundo social em que os pós-marxistas operam. Além disso, os mesmos problemas aparecem na discussão das origens dos pós-marxistas, sua própria biografia reflete o movimento abrupto e radical no poder nos níveis nacionais e internacionais, nas esferas econômicas e culturais, limitando o espaço e os recursos que o marxismo opera enquanto aumenta as oportunidades e os fundos para os pós-marxistas. As origens sociológicas do pós-marxismo estão encaixadas no movimento do poder político saindo da classe operária para o capital de exportação.

Vamo-nos deslocar agora de uma sociologia da crítica do conhecimento da ideologia dos pós-marxistas e de sua abordagem geralmente inconsistente de teorização geral para discutir suas proposições específicas.

Deixe-nos começar com sua noção da "falha do socialismo" e do "fim das ideologias". O que significa "falha do socialismo"? O colapso da URSS e dos regimes comunistas europeus orientais? Primeiramente, aquele é somente um único conceito de socialismo. Segundo mesmo isso não deixa claro o que falhou - o sistema político, o sistema socioeconômico? As eleições recentes na Rússia, Polônia, Hungria e muitas das repúblicas ex-Soviéticas sugerem que uma maioria dos eleitores prefere um retorno dos aspectos de políticas passadas do bem-estar social e de práticas econômicas. Se a opinião popular nos países ex-Comunistas for um indicador da "falha", os resultados não são definitivos.

Terceiro, se pela "falha do socialismo" os pós-marxistas dão esta concepção ao declínio da esquerda no poder nós devemos insistir em uma distinção entre a "falha” devida às inadequações internas de práticas socialistas e de derrotas político-militares por agressores externos. Ninguém diria que a destruição por Hitler de democracias européias ocidentais era uma "falha da democracia". Os regimes capitalistas terroristas e/ou a intervenção dos EUA no Chile, na Argentina, na Bolívia, no Uruguai, na República Dominicana, na Guatemala, na Nicarágua, em El Salvador, em Angola, em Moçambique e no Afeganistão representaram um papel principal no "declínio" da esquerda revolucionária. As derrotas militares não são falhas do sistema econômico e não refletem a eficácia de experiências socialistas. Além disso, quando nós analisamos os desempenhos internos durante o período de governos socialistas ou populares relativamente estáveis, por vários indicadores sociais os resultados são, de longe, mais favoráveis do que aquele que veio mais tarde: a participação popular, a saúde, a instrução e o crescimento eqüitativo sob Allende era muito mais favorável comparando ao que veio mais tarde com Pinochet. Os mesmos indicadores sob os Sandinistas se mostram favoráveis comparados ao regime de Chamorro em Nicarágua. As políticas de reforma agrária do governo de Arbenz e dos direitos humanos se mostram melhores que a política do governo instalado de concentração da terra e dos 150.000 assassinatos.

Hoje, enquanto que a verdade é que os neoliberais governam e os marxistas estão fora do poder, não há um país no hemisfério ocidental onde os movimentos maciços marxista- ou socialista-influenciados não estejam conduzindo importantes manifestações e confrontando regimes e políticas neoliberais. No Paraguai, Uruguai e Bolívia, greves gerais bem sucedidas; No México, grandes movimentos camponeses e guerrilhas índias; no Brasil, o movimento dos trabalhadores sem-terra reflete a influência marxista.

O socialismo fora do bloco comunista era uma força essencialmente democrática, de grande sustentação popular principalmente porque representou os interesses populares decididos livremente. Os pós-marxistas confundem o comunismo soviético com os movimentos populares socialistas democráticos revolucionários na América latina. Confundem derrotas militares com as falhas políticas dos socialistas, aceitando o amalgama neoliberal dos dois conceitos opostos. Finalmente, mesmo no exemplo do comunismo oriental, falham em ver as mudanças e a natureza dinâmica do comunismo. A popularidade crescente de uma síntese socialista nova da propriedade social, dos programas de bem-estar, da reforma agrária e da democracia de conselho tem como base os movimentos sócio-políticos novos.

Neste sentido, a opinião dos pós-marxistas do "fim das ideologias" não é somente inconsistente com seus próprios pronunciamentos ideológicos, mas com o debate ideológico continuo entre marxistas passados e atuais e debates e embates atuais com neoliberalismo e sua prole de pós-marxistas.


Dissolução das classes e a ascensão das identidades

Os pós-marxistas atacam a noção marxista da análise de classe de várias perspectivas. Numa mão, reivindicam que obscurece a igual ou maior importância significativa das identidades culturais (gênero, etnia). Acusam analistas de classe de serem “reducionistas econômicos" e de não explicar as diferenças de gênero e étnicas dentro das classes. Prosseguem então discutindo que estas "diferenças" definem a natureza da política contemporânea. A segunda linha do ataque à análise de classes reside numa visão que a classe é meramente uma construção intelectual é essencialmente um fenômeno subjetivo que é determinado culturalmente. Dai, não há nenhum "objetivo de interesses de classes" que divide a sociedade desde que os "interesses" são puramente subjetivos e cada cultura define preferências individuais. A terceira linha do ataque discute que houve transformações vastas na economia e na sociedade que obliteram as distinções velhas de classe. Na sociedade "pós-industrial", alguns pós-marxistas discutem, a fonte de poder está nos sistemas de informação novos, nas tecnologias novas e naquelas que os manejam e controlam. A sociedade, de acordo com esta visão, está evoluindo para uma sociedade nova em que os trabalhadores industriais estão desaparecendo em dois sentidos: para cima "na classe média nova" de tecnologia elevada e para baixo nas "subclasses marginais".

Os marxistas nunca negaram a importância da raça, do gênero e de divisões étnicas dentro das classes. O que enfatizou, entretanto, é o sistema social mais amplo que gera estas diferenças e a necessidade juntar forças de classe para eliminar estas desigualdades em cada ponto: trabalho, vizinhança, família.O que a maioria dos marxistas objetam são as idéias de que as desigualdades de gênero e de raça devem ser analisados e resolvidos fora das estruturas de classe: as mulheres de um latifundiário com empregados e riqueza, têm uma "identidade essencial" com as mulheres camponesas que são empregadas com salários miseráveis; os índios burocratas dos governos neoliberais têm uma "identidade comum" com índios camponeses que são retirados de sua terra pelas políticas econômicas de mercado livre. Por exemplo, Bolívia tem um vice-presidente índio presidindo sobre a apreensão maciça da plantação de cacau de fazendeiros índios.

A política de identidade no sentido da consciência de uma forma particular de opressão por um grupo imediato pode ser um ponto de partida apropriado. Esta compreensão, entretanto, transformar-se-á numa prisão da "identidade" (raça ou gênero) isolada de outros grupos sociais explorados a menos que transcenda os pontos imediatos de opressão e confronte o sistema social no qual está encaixada. E isso requer uma análise mais profunda de classe sobre a estrutura do poder social que preside e define as condições de desigualdades gerais e específicas.

O assencialismo da política de identidades isola grupos nos grupos competindo incapazes de transcender o universo político-econômico que define e confina os pobres, trabalhadores, camponeses, empregados. A política de classes é o terreno dentro do qual se confronta "a política de identidades" e onde se transformam as instituições que sustentam as classes e outras desigualdades.

As classes não vêm a existir por uma cláusula subjetiva: são organizadas pela classe capitalista para se apropriar da mais-valia. Portanto, a noção que a classe é uma noção subjetiva dependente do tempo, do lugar e da percepção, confunde classe com consciência de classe. Enquanto o primeiro tem o status objetivo, o último está condicionado por fatores sociais e culturais. A consciência de classe é uma construção social, entretanto, isso não faz dela menos "real" e importante na história. Enquanto que as formas e as expressões sociais de consciência de classe variam, é um fenômeno recorrente através da história e na maior parte do mundo, mesmo quando encobertas por outras formas de consciência em momentos diferentes (isto é, raça, gênero, nação) ou combinado com eles (consciência do nacionalismo e de classe).

É óbvio que há umas mudanças principais na estrutura de classe, mas não no sentido a que os pós-marxistas apontam. As mudanças principais reforçaram as diferenças de classe e exploração da classe, mesmo enquanto as naturezas e as condições do explorado e do explorador mudaram. Há mais trabalhadores de salário provisório hoje do que no passado. Há muitos mais trabalhadores ilegalmente empregados no mercado de trabalho (o hoje tão chamado setor informal) do que no passado. A introdução de uma exploração não regulada não descreve um sistema que "transcende" o capitalismo passado: é o retorno à forma do século dezenove de exploração do trabalho. O que requer a análise nova é o capitalismo depois que o estado popular de bem-estar foi demolido. Isto significa que os papéis complexos dos estados e dos partidos que mediaram entre o capital e o trabalho estão sendo substituídos mais claramente por instituições do estado e ligadas diretamente à classe dominante capitalista. O neoliberalismo é o poder do estado pela classe dominante sem mediação. O que quer que seja "as determinantes múltiplas" do comportamento do estado e do regime no passado recente, hoje o modelo neoliberal de acumulação depende mais diretamente do controle centralizado do estado ligado horizontalmente aos bancos internacionais para executar pagamentos de débito e para exportar setores para ganhar a troca estrangeira. Seus laços verticais com o cidadão como sujeito e ligação preliminar é através de um instrumento repressivo de estado e um para-estatal "ONGs" o qual reduz as tensões nas explosões sociais.

O desmonte do estado de bem-estar significa que a estrutura social é mais polarizada: entre empregados públicos mal pagos ou desempregados, na saúde, na educação, na segurança social de um lado e de outro, os profissionais bem-pagos ligados às corporações multinacionais, às ONGs e em outras instituições externamente financiadas ligados ao mercado mundial e aos centros do poder político. O conflito está hoje não somente entre classes nas fábricas, mas entre o estado e as classes desarraigadas nas ruas e mercados, retirados do emprego fixo e forçados a produzir, vender e carregar os custos de sua reprodução social. A integração no mercado mundial pelos exportadores da elite e por médios e pequenos especuladores (importadores de bens eletrônicos, funcionários de turismo de hotéis multinacionais e estação de férias) têm suas contrapartes na desintegração da economia interna: indústria local, fazendas pequenas com o êxodo concomitante dos produtores à cidade e para fora do país.

A importação de bens luxuosos para a classe média superior é baseada no salário remitido pelo trabalho "exportado" dos pobres. O nexo da exploração começa no empobrecimento interno, no desarraigar dos camponeses e nas suas imigrações às cidades e para outros países. A renda remitida pelo “trabalho exportado” fornece moeda forte para financiar importações e projetos de infraestrutura neoliberais para promover o reino da exportação doméstica e de negócios turísticos. O caminho da exploração é mais sinuoso, mas ainda continua situado em última instância na relação capital-trabalho.

No tempo do neoliberalismo, o embate para recriar a "nação", o mercado nacional, a produção nacional e a troca são mais uma vez uma demanda histórica básica apenas porque o crescimento do emprego irregular (informal) requer um investimento público poderoso e um centro regulador para gerar emprego formal com circunstâncias sociais vivíveis. Em uma palavra, o que a análise de classe necessita é ser adaptada à regra do capital sem mediação em um mercado de trabalho não regulado com enlaces internacionais em que a política redistributiva reformista do passado foi substituída pelas políticas neoliberais que reconcentram a renda e o poder no topo. A homogeneização e a instabilidade agravada de vastos setores dos trabalhadores e dos camponeses inseridos anteriormente no mercado de trabalho regular criam um potencial objetivo grande para a ação revolucionária unificada. Em uma palavra, há uma identidade comum de classe que dê forma ao terreno para organizar a luta dos pobres.

Em resumo, ao contrário do que os pós-marxistas discutem, as transformações do capitalismo fizeram a análise de classe mais relevante do que sempre.

O crescimento da tecnologia exacerbou as diferenças de classe, não as aboliu. Os trabalhadores nas indústrias de micro-chip e nas indústrias em que os novos chips foram incorporados não eliminaram a classe trabalhadora. Com efeito, moveu os locais de atividade e do modo de produção dentro do processo continuado de exploração. A nova estrutura de classe se deve a combinação visível de tecnologias novas a mais formas de controle de exploração. A automatização de alguns setores aumenta o ritmo do trabalho ao longo da linha de montagem; as câmeras de televisão aumentam a subserviência do trabalhador enquanto diminui a equipe administrativa; a "qualidade dos círculos de trabalho", em que trabalhadores pressionam trabalhadores, aumentando a auto-exploração sem aumentar o pagamento ou o poder. A "revolução tecnológica" no final das contas formada pela estrutura de classe neoliberal contra-revolucionária. Os computadores permitem que o agrobusiness controle os custos e o volume dos pesticidas, mas são os trabalhadores irregulares mal pagos que pulverizam e são envenenados. As redes de informação são ligadas para se desfazer do trabalho e promover o “sweatshop” ou o negócio doméstico (a economia informal) para a produção dos têxteis, dos sapatos e de coisas assim.

A chave para compreender este processo do desenvolvimento combinado e desigual da tecnologia e do trabalho é análise de classe e ,com essa, gênero e raça.

Estado E Sociedade Civil

Os pós-marxistas pintam um retrato simples do estado. O estado é descrito como uma enorme burocracia ineficiente que pilha o tesouro público e deixa as pessoas pobres e a economia falida. Na esfera política, o estado é a fonte de normas autoritárias e de decisões arbitrárias, impedindo o exercício da cidadania (democracia) e a troca livre dos produtos ("o mercado"). Por outro lado, os pós-marxistas discutem, que a "sociedade civil" é a fonte da liberdade, de movimentos sociais e cidadania. Por fora de uma sociedade civil ativa viria uma economia equitativa e dinâmica. O que é estranho sobre esta ideologia é sua capacidade peculiar de negligenciar 50 anos de história (da América Latina). O setor público foi uma necessidade instrumental no estímulo à industrialização, na ausência do investimento privado e por causa da crise econômica, isto é, a crise no mundo nos anos 1930 e da guerra nos anos 1940. Segundo o crescimento da alfabetização e saúde pública básica foi, em grande parte, uma iniciativa pública.

Após um século e meio de livre empresa, aproximadamente do século dezoito até os anos 1930, a América Latina sofreu as sete pragas da bíblia, quando a mão invisível do mercado provocou: genocídio, fome, doença, tirania, dependência, imigração e exploração.

O setor público cresceu em resposta a estes problemas e, desviado de suas funções públicas, até o grau em que foi apropriado privadamente pelos negócios e políticas das elites. A "ineficiência do estado" é um resultado dele estar sendo dirigido para o ganho privado subsidiando interesses de negócio (com os custos baixos de energia) ou fornecendo emprego aos seguidores políticos. A ineficiência do estado é relacionada diretamente a sua subordinação aos interesses privados. A saúde pública e os programas educacionais do estado não foram substituídos adequadamente pela economia privada, pela igreja ou pelas ONGs. Tanto o setor privado como as clínicas privadas da Igreja servem a uma minoria abastada. As ONGs, no máximo, fornecem o cuidado e a instrução num período curto para grupos reduzidos em circunstâncias locais, dependentes das vontades e dos interesses de financiadores estrangeiros.

Como uma comparação sistemática indica, os pós-marxistas cometeram um erro recorde histórico: eles deixaram que sua retórica antiestadista os cegasse as realizações comparativas positivas do setor público sobre o privado.

O argumento que "o estado" é a fonte do autoritarismo é verdadeiro e falso. Os estados ditatoriais existiram e ainda existem, mas têm pouco ou nada a fazer com posse pública, especialmente se significa expropriar o negócio estrangeiro. A maioria das ditaduras foi anti-estatizante e pró mercado livre, hoje, no passado e, provavelmente, no futuro.

Além disso, o estado foi um auxiliador importante da cidadania, promovendo a incorporação dos setores explorados da população na política, reconhecendo direitos legítimos dos trabalhadores, negros, mulheres e outros. Os estados forneceram a base para a justiça social redistribuindo a terra, a renda e os orçamentos para favorecer os pobres.

Em uma palavra, nós necessitamos ir além da retórica estadista /antiestadista para definir a natureza de classe do estado e sua base de representação e legitimidade política. Os ataques ahistóricos e associais generalizados ao estado são ignorantes e somente servem como um instrumento polêmico para desarmar os cidadãos contra o mercado livre e de forjar uma alternativa eficaz e racional escorados nas potencialidades criativas da ação pública.

O contra ponto da “sociedade civil" ao estado é também uma dicotomia falsa. Muito da discussão sobre a sociedade civil negligencia as contradições sociais básicas que dividem "a sociedade civil". A sociedade civil ou, mais exatamente, a classe dominante da sociedade civil, enquanto ataca o "estadismo" dos pobres fortalece seus laços com o tesouro e às forças armadas para promover e proteger sua posição dominante na “sociedade civil”. Do mesmo modo, as classes populares na sociedade civil quando despertadas procuraram quebrar o monopólio do estado da classe dominante. Os pobres olharam sempre os recursos do estado com o intuito de fortalecer sua posição socioeconômica com relação aos ricos. O assunto é, e sempre foi, a relação de classes diferentes no estado.

Os ideólogos pós-marxistas que são marginalizados do estado pelos neoliberais fizeram uma virtude de sua impotência. Sem criticar o que gera a retórica contra o estado vindo de cima, transmitem-no para baixo. Os pós-marxistas tentam justificar seus veículos organizacionais (ONGs) para aumentar sua mobilidade argumentando que funcionam fora do estado e dentro da “sociedade civil" quando de fato são financiados por governos estrangeiros para trabalhar com governos domésticos.

A “sociedade civil" é uma abstração dos abismos sociais profundos gerados pela sociedade capitalista; divisões sociais que se aprofundaram sob o neoliberalismo. Há tanto conflito dentro da sociedade civil, entre classes, quanto há entre a "sociedade civil" e o estado. Somente em momentos excepcionalmente raros nós encontramo-lo de outra maneira. Sob os estados fascistas ou totalitaristas que torturam, abusam e pilham a totalidade das classes sociais nós encontramos exemplos de uma dicotomia entre o estado e a sociedade civil.

Falar ou escrever "sociedade civil" é tentar converter uma distinção legalista em categorias políticas principais para organizar a política. Sendo assim, as diferenças entre classes são obscurecidas e o governo da classe dominante não é desafiado.

O contraponto entre o "cidadão" e o "estado" é para negligenciar as ligações profundas de determinados cidadãos (as elites exportadoras, a classe média superior) com o estado e à alienação e a exclusão da maioria dos cidadãos (trabalhadores, desempregados, camponeses) do exercício eficaz de seus direitos sociais elementares. Cidadãos da elite usando o estado, cidadania vazia de algum significado prático para a maioria, cidadãos convertendo-se em assuntos. A discussão da sociedade civil, como o estado, necessita especificar os contornos sociais das classes sociais e dos limites impostos pela classe privilegiada. A maneira como os pós-marxistas usam o termo como um conceito sem crítica e indiferente serve para obscurecer mais do que para revelar a dinâmica da mudança social.

Planeamento, Burocracia e o Mercado

Não há dúvidas que o planeamento central nos antigos países comunistas era "burocrático", autoritário na concepção e centralizado na execução. Desta observação empírica, os pós-marxistas discutem que "planeamento" (central ou não) é por sua natureza uma antítese às necessidades de uma economia complexa moderna com suas demandas múltiplas, milhões dos consumidores, fluxos maciços da informação. Somente o mercado pode realizar a façanha. A democracia e o mercado vão junto a outro ponto de convergência entre os "pós-marxistas" e os neoliberais. O problema desta noção é que as principais instituições numa economia capitalista se envolvem no planeamento central.

General Motors, Wal-Mart, Microsoft, todos programam e planeiam centralmente investimentos diretos e despesas para melhorar a produção e marketing. Poucos, se alguns, pós-marxistas focalizam sua atenção crítica nestas empresas. Os Pós-marxistas não se perguntam a respeito da eficiência do planeamento central nas corporações multinacionais ou de sua compatibilidade com os sistemas eleitorais competitivos característicos de democracias capitalistas.

O problema teórico é a confusão dos pós-marxistas do planeamento central com uma variante histórico-político particular dele. Se nós aceitarmos que os sistemas de planeamento podem ser encaixados em uma variedade de sistemas políticos (autoritários ou democráticos), então é lógico que a responsabilidade e a sensibilidade do sistema de planeamento variarão.

Hoje nas sociedades capitalistas, o orçamento militar é parte do planeamento e das despesas do estado apoiado nos "comandos" aos produtores (e aos proprietários do capital) que respondem de sua própria maneira ineficiente, produzindo e lucrando por mais de 50 anos. Embora não exista "modelo" de planeamento, o ponto que necessita ser visto é que o planeamento central do estado não é um fenômeno confinado aos “sistemas comunistas”. Os defeitos estão generalizados e se encontraram também nas economias capitalistas. O problema é que em ambos os exemplos (Pentágono e Comunismo) é a falta da prestação de contas democrática: complexos militares industriais[3][3], os problemas de produção da elite, custo, demanda e a estoque.

A distribuição central de recursos do estado é essencial na maioria dos países por causa das desigualdades regionais na doação de recursos, imigração, produtividade, demanda de produtos ou de uma riqueza por razões históricas. Somente uma decisão feita no centro pode redistribuir os recursos para compensar as regiões menos desenvolvidas, classes, gênero e grupos raciais afetados adversamente pelos fatores já mencionados. Se não, o "mercado" tende a favorecer aqueles com vantagens históricas e fundações favoráveis que originam a polarização do desenvolvimento ou a promoção da exploração inter-regional, de classe e conflitos étnicos.

O problema fundamental do planeamento é a estrutura política que informa o processo de planeamento. Os funcionários públicos planejadores eleitos e sujeitos às comunidades organizadas e aos grupos sociais (produtores, consumidores, juventude, mulheres, minorias raciais) distribuirão recursos entre a produção, o consumo e o reinvestimento diferente daqueles que são obrigados pelas elites atreladas aos complexos militares industriais.

Segundo planear não significa especificação detalhada. O tamanho dos orçamentos sociais pode ser decidido nacionalmente por representantes eleitos e ser distribuídos de acordo com as assembleias públicas onde os cidadãos podem votar em suas prioridades locais. Esta prática foi bem sucedida, no passado, em Porto Alegre no Brasil onde esteve diversos anos sob um governo municipal conduzido pelo Partido dos Trabalhadores. A relação entre o planeamento geral e local não é uma lei divina, nem são a especificação dos níveis de despesas e dos investimentos a ser determinados pelos "poderes superiores”. A distribuição geral para promover alvos estratégicos beneficia o país inteiro, tal como a infraestrutura, a tecnologia elevada e a instrução, são complementadas por decisões locais subsidiando escolas, clínicas e centros culturais.

O planeamento é um instrumento chave na economia capitalista de hoje. Demitir o planeamento socialista é rejeitar uma ferramenta importante para organizar a mudança social. Para inverter as desigualdades vastas, a concentração da propriedade, distribuições injustas do orçamento, requer uma planta total com uma autoridade democrática empossada para executá-la. Junto com empresas públicas e conselhos auto-gerentes dos produtores e dos consumidores, o planeamento central é o terceiro pilar de uma transformação democrática.

Finalmente, o planeamento central não é incompatível com a produção de propriedades locais e presta serviços de manutenção a atividades, tais como restaurantes, a cafés, a lojas de reparo e a fazendas familiares.

Claramente, as autoridades públicas terão em suas mãos o completo gerenciamento das macro-estruturas da sociedade. Os fluxos complexos de decisões e de informação são muito mais fáceis de controlar hoje com os computadores processadores de mega-informação. A fórmula é: a representação democrática, mais computadores e mais o planeamento central é igual à produção, a distribuição eficiente e a igualdade social.

“O Poder do Estado Corrompe”: Apresentam-se a Política Local

Uma das críticas principais do marxismo entre os pós-marxistas é a noção de que o poder do estado corrompe e que a luta por ele é o pecado original. Argumentam que é assim porque o estado é distante dos cidadãos, tornando as autoridades autônomas e arbitrárias, se esquecendo dos objetivos originais e perseguindo seu próprio interesse.

Não há nenhuma dúvida que durante toda a história dos povos o poder de fiscalizar tenha se tornado tirano. Mas é também o caso que a ascensão ao poder de indivíduos que lideram movimentos sociais teve um efeito emancipativo. A abolição da escravatura e a queda de monarquias absolutistas são dois exemplos. Assim o "poder" do estado tem um duplo sentido dependendo do contexto histórico. Do mesmo modo, os movimentos locais tiveram sucessos nas comunidades mobilizadas em melhorar condições imediatas, em alguns casos significativamente. Mas é também o caso que as decisões econômicas macro-políticas enfraquecem os esforços locais. Hoje, as políticas de mudanças estruturais em nível nacional e internacional geraram a pobreza e o desemprego, esgotando recursos locais, forçando povos locais a migrar ou a engajar no crime. A dialética entre o estado e o poder local opera-se para enfraquecer ou reforçar as iniciativas locais e muda-se dependendo do poder das classes manifestado em ambos os níveis. Há casos numerosos de governos municipais progressivos enfraquecidos porque os regimes nacionais reacionários cortaram seu financiamento. Por outro lado, os governos municipais progressivos têm sido uma força muito positiva que ajuda a organizações de moradores, como foi o caso com o prefeito socialista de Montevideo no Uruguai ou o prefeito de esquerda em Porto Alegre no Brasil.

Os pós-marxistas que contrapõe o "local" com o "poder do estado" não estão baseando sua discussão na experiência histórica, ao menos não da América Latina. A antinomia é um resultado da tentativa de justificar o papel das ONGs como mediadoras entre organizações locais e financiadores estrangeiros neoliberais (Banco Mundial, Europa ou os EUA) e o regime local do mercado livre. Na função de "legitimar" seu papel, os profissionais das ONGs pós-marxistas, como “agentes das democráticas organizações de base”, têm que depreciar a esquerda em nível do poder do estado. Ato contínuo, complementam a atividade dos neoliberais cortando a ligação entre as lutas de organizações locais com movimentos políticos nacionais/internacionais.A ênfase "na atividade local" serve apenas aos regimes da direita neoliberal, porque permite que seus financiadores estrangeiros e domésticos dominem a política macro-socioeconômica e canalizem a maioria dos recursos do estado em nome dos capitalistas exportadores e dos interesses financeiros.

Os pós-marxistas, como técnicos das ONGs, tornaram-se hábeis em conceber projetos e em transmitir os novos jargões "globalistas" e de "identidades" nos movimentos populares. Falam e escrevem sobre micro-empresas internacionais de cooperação e de auto-ajuda, criam ligações ideológicas com os neoliberais enquanto forjam a dependência com financiadores externos e com sua agenda socioeconômica neoliberal. Não é nenhuma surpresa que depois de uma década da atividade das ONGs os profissionais dos pós-marxistas tenham "despolitizado" e desradicalizado áreas inteiras de vida social: mulheres, associação de moradores e organizações da juventude. O exemplo do Peru e do Chile é clássico: onde as ONGs se estabeleceram firmemente, os movimentos sociais radicais recuaram.

As lutas locais sobre questões imediatas são o alimento e a substância que nutrem os movimentos emergentes. A pergunta crucial está sobre seu sentido e dinâmica: quando ascendem as grandes questões do sistema social e associam-se com outras forças locais para confrontar o estado e seus financiadores imperiais ou então se volvem para dentro procurando os financiadores estrangeiros se fragmentando em uma série de suplicantes competindo por subsídios externos. A ideologia dos pós-marxistas promove o último; os marxistas o anterior.

As Revoluções Sempre Acabam Mal: O “Possibilismo” Do Pós-Marxismo

Há uma variante pessimista do pós-marxismo que fala um pouco das falhas das revoluções assim como a impossibilidade do socialismo. Eles citam o declínio da esquerda revolucionária, o triunfo do capitalismo no leste, a "crise do marxismo", a perda das alternativas, a força dos EUA, os golpes e a repressão pelas forças armadas - todos estes argumentos são mobilizados para incitar a esquerda a sustentar o "possibilismo": a necessidade de trabalhar dentro dos nichos do mercado livre imposta pelo Banco Mundial e por sua agenda de mudanças estruturais, e para confinar a política aos parâmetros eleitorais impostos pelas forças armadas. Isto é chamado "pragmatismo" ou incrementalismo. Os pós-marxistas representaram um papel ideológico principal na promoção e defesa da então chamada transição eleitoral do regime militar em que as mudanças sociais foram subordinadas a reintrodução de um sistema eleitoral.

A maioria dos argumentos dos pós-marxistas estão baseados em observações estáticas e seletivas da realidade contemporânea e amarrados a conclusões predeterminadas. Postulando-se que as revoluções são obsoletas, eles focalizam em vitórias eleitorais neoliberais e não nos protestos maciços pós-eleitorais e nas greves gerais que mobilizam um grande número de pessoas em atividades extraparlamentares. Olham o falecimento do comunismo nos passados anos 80, e não a sua revitalização nos meados dos anos 90. Descrevem a coação das forças armadas nas políticas eleitorais sem olhar os desafios às forças armadas pela guerrilha Zapatista, as rebeliões urbanas em Caracas, as batidas gerais em Bolívia. Em uma palavra, os possibilistas negligenciam a dinâmica das lutas que começam no nível setorial ou local, dentro dos parâmetros eleitorais das forças armadas e são propelidos então acima e além daqueles limites pelas falhas e impotência dos possibilistas eleitorais de satisfazer às demandas e às necessidades elementares do povo. Os possibilistas falharam em finalizar com a impunidade dos militares, não pagam os salários atrasados dos empregados públicos (nas províncias da Argentina) nem terminam a destruição da colheita dos fazendeiros de cacau (na Bolívia).

Os possibilistas pós-marxistas transformam-se em parte do problema em vez da parte da solução. Faz uma década e meia desde que as transições negociadas começaram e em cada exemplo os pós-marxistas se adaptaram ao neoliberalismo e aprofundaram suas políticas de mercado livre. Os possibilistas são incapazes de opor eficazmente os efeitos sociais negativos do mercado livre no povo, mas são pressionados pelos neoliberais para impor medidas novas e mais austeras a fim de permanecer no cargo. Os pós-marxistas moveram-se gradualmente de serem críticos pragmáticos dos neoliberais para promoverem-se como eficientes e honestos gerentes do neoliberalismo, capazes de assegurar a confiança do investidor e de pacificar os conflitos sociais.

No ínterim, o pragmatismo dos pós-marxistas é combinado pelo extremismo dos neoliberais: a década de 90 testemunhou uma radicalização de políticas neoliberais, calculadas para prevenir a crise entregando os investimentos mais lucrativos e oportunidades especulativas aos bancos internacionais e às multinacionais.

Os neoliberais estão criando uma estrutura de classe polarizada, muito mais perto do paradigma marxista de sociedade do que a visão dos pós-marxistas. A estrutura de classe da América Latina contemporânea é mais rígida, mais determinista, mais ligado à classe política ou o estado, do que no passado. Nestas circunstâncias a política revolucionária é de longe mais relevante do que as propostas pragmáticas dos pós-marxistas.

Solidariedade de Classe e a “Solidariedade” de Financiadores Estrangeiros

A palavra "solidariedade" foi abusada ao ponto em que em muitos contextos perdeu o sentido. O termo "solidariedade" para os pós-marxistas inclui a ajuda estrangeira para algum grupo "empobrecido" designado. A mera "pesquisa" ou “instrução popular" dos pobres por profissionais são designadas como "solidariedade". Em muitas maneiras as estruturas hierárquicas e os formulários da transmissão de "ajuda" e de "treinamento" assemelham-se à caridade do século dezenove e os agentes não são muito diferentes dos missionários cristãos.

Os pós-marxistas enfatizam a "auto-ajuda" atacando o "paternalismo e a dependência" do estado. Nesta competição entre ONGs para capturar as vítimas do neoliberalismo, os pós-marxistas recebem subsídios importantes de suas contrapartes em Europa e nos EUA. A ideologia da auto-ajuda realça a substituição de empregados públicos por voluntários e profissionais liberais ascendentes contratados temporariamente. A opinião filosófica básica do pós-marxista é transformar a "solidariedade" na colaboração e na subordinação à macro-economia do neoliberalismo focalizando a atenção longe dos recursos do estado das classes abastadas para a auto-exploração dos pobres. Os pobres não necessitam ser feitos virtuosos pelos pós-marxistas por algo que o estado os obriga a sê-lo.

O conceito marxista de solidariedade pelo contrário enfatiza a solidariedade de classe e dentro da classe, solidariedade de grupos oprimidos (mulheres e povos de cor) contra seus exploradores estrangeiros e domésticos. O foco principal não está nas doações que divide classes e pacifica grupos pequenos por um período de tempo limitado. O foco do conceito marxista de solidariedade está na ação comum dos mesmos membros de classe que compartilham de dificuldade econômica comum e que lutam para a melhoria coletiva.

Envolve os intelectuais que escrevem e falam para os movimentos sociais na luta, comprometidos a compartilhar das mesmas conseqüências políticas. O conceito de solidariedade está ligado aos intelectuais "orgânicos" que são basicamente parte das pessoas de recursos dos movimentos que fornecem a análise e instrução para a luta de classes. Ao contrário, os pós-marxistas são encaixados no mundo das instituições, de seminários acadêmicos, de fundações estrangeiras, de conferências internacionais e de relatórios burocráticos. Escrevem no jargão pós-moderno esotérico compreendido somente por aqueles "iniciados" no culto do subjetivismo de identidades fundamentais.

Solidariedade na opinião dos marxistas é como compartilhar dos riscos dos movimentos, não sendo comentadores exteriores que questionam tudo e não defendem nada. Para os pós-marxistas, o principal objetivo é "conseguir" financiamento estrangeiro para o "projeto". A questão principal para o marxista é o processo da luta e educação política atendo-se a melhoria social. O objetivo é aumentar a consciência para mudar a sociedade; construindo o poder político para transformar a condição geral da grande maioria. A "solidariedade" para os pós-marxistas é divorciada do objetivo geral de libertação; é meramente uma maneira de juntar pessoas para estarem presentes numa oficina de trabalho, por exemplo, para construir uma latrina. Para os marxistas, a solidariedade de uma luta coletiva contém as sementes da sociedade coletiva democrática futura. A visão maior ou sua ausência é o que dá as concepções diferentes de solidariedade seu distinto significado.

Luta de Casses e Cooperação

Os pós-marxistas escrevem freqüentemente da "cooperação" de todos, perto e distante, sem olhar demasiado profundamente no preço e nas circunstâncias assegurando a cooperação de regimes neoliberais e de agências financiadoras multinacionais. A luta de classes é vista como um sentimento anacrônico pertencente ao passado que não existirá por muito tempo. Então, dizem que "os pobres" estão preocupados em construir uma vida nova. Eles estão descontentes com política, ideologias e os políticos tradicionais.

Até aqui tudo bem. O problema é que os pós-marxistas não são tão prestativos em descrever seu papel como mediadores e corretores, aliciando financiamentos de multinacionais e combinando os fundos dos projetos aceitáveis aos financiadores e aos receptores locais. Os empreendedores da fundação estão engajados em um tipo novo de política similar aos "empreiteiros de trabalho" (enganchadoresde um passado não tão distante: agrupando mulheres "a serem treinadas"; criando micro-firmas subcontratadas pelos produtores das grandes exportações.

A política nova dos pós-marxistas é essencialmente a política dos especuladores: não produzem nenhum produto nacional, entretanto eles conectam financiadores estrangeiros com o trabalho local (micro-empresas de auto-ajuda) para facilitar a continuação do regime neoliberal. Neste sentido os pós-marxistas no seu papel de técnicos das ONGs são atores fundamentalmente políticos cujos projetos, treinamento e oficinas não fazem nenhum impacto econômico significativo no PIB ou nos termos de diminuição da pobreza. Mas suas atividades causam um impacto em desviar o povo da luta de classes para formas inofensivas e ineficazes de colaboração com seus opressores.

A perspectiva marxista da luta de classes e de confrontação é construída em cima das divisões sociais reais da sociedade: entre aqueles que extraem lucros, juros, aluguel e impostos regressivos e aqueles que se esforçam para aumentar salários, despesas sociais e investimentos produtivos. Os resultados da perspectiva do pós-marxista são hoje evidentes em toda parte: a concentração da renda e o crescimento das desigualdades são maiores do que sempre, após uma década de cooperação ditada, micro-empresas e auto-juda. Hoje os bancos como o Banco Inter-Americano de Desenvolvimento (BID) financia o “agribusinesses” de exportação e envenena milhões de trabalhadores nas fazendas enquanto providencia fundos para financiar pequenos micro-projetos. O papel dos pós-marxistas nos micro-projetos é neutralizar a oposição política na base enquanto o neoliberalismo é promovido no topo.

A ideologia da "cooperação" liga os pobres através dos pós-marxistas aos neoliberais no topo. Intelectualmente, os pós-marxistas são os policiais intelectuais que definem a pesquisa aceitável, distribuem fundos de pesquisa e filtram excluindo tópicos e perspectivas em projetos de perspectivas de análise de luta de classes. Os marxistas estão excluídos das conferências e estigmatizados como "ideólogos", enquanto os pós-marxistas se apresentam como "cientistas sociais". O controle da forma intelectual, as publicações, as conferências e os fundos de pesquisa fornecem aos pós-marxistas uma base importante de poder, mas, no fim, tal poder dependente de evitar o conflito com seus patrões financiadores externos.

Os intelectuais marxistas críticos têm sua força no fato que suas idéias ressoam com as realidades sociais em desenvolvimento. A polarização das classes e os confrontos violentos estão crescendo, como suas teorias predizem. É neste sentido que os marxistas são taticamente fracos e estrategicamente fortes vis-à-vis aos pós-marxistas.

O Anti-imperialismo Morreu?

Em anos recentes o anti-imperialismo desapareceu do léxico político dos pós-marxistas. Os ex-guerrilheiros da América Central tornaram-se políticos eleitorais, e os profissionais que trabalham nas ONGs falam da cooperação e da interdependência internacionais. Contudo os reembolsos de dívidas continuam a transferir somas enormes dos pobres da América Latina à Europa, aos EUA e aos bancos japoneses. As propriedades públicas, bancos, e acima de tudo os recursos naturais, estão sendo tomados por preços muito baratos pelos EUA e por multinacionais européias. Há mais bilionários latinos americanos com o volume de seus fundos nos EUA e nos bancos europeus do que antes. Entretanto, províncias inteiras têm se tornado cemitérios industriais e os campos são abandonados. Os EUA têm mais assessores militares, oficiais da droga e policiais federais dirigindo América Latina "policiando" mais do que antes na história. Contudo é dito por algum antigo Sandinista ou ex-Farabundista que o anti-imperialismo/imperialismo desapareceu com o fim da guerra fria. O problema, dizem, não são os investimentos estrangeiros ou ajuda estrangeira, mas sua ausência e pedem mais ajuda imperial. A miopia política e econômica que acompanha esta perspectiva não compreende que as condições políticas para os empréstimos e os investimentos é o barateamento do trabalho, da eliminação da legislação social e da transformação de América Latina em uma grande plantação, um grande campo de mineração, uma grande zona de comércio livre desnuda de direitos, autonomia e riqueza.

A ênfase marxista no aprofundamento da exploração imperial é enraizada nas relações sociais de produção e do estado entre o capitalismo imperial e dependente. O colapso da URSS intensificou a exploração imperial. Os pós-marxistas (“ex-marxistas”) que acreditam que o mundo unipolar resultará numa "cooperação maior" desconsideraram a intervenção dos EUA no Panamá, Iraque, Somália e em outros locais. Mais fundamentalmente, a dinâmica do imperialismo é encaixada na dinâmica interna do capital não na competição externa com a União Soviética. A perda do mercado doméstico e do setor externo da América Latina é um retorno a uma fase "pré-nacional": as economias latinas começam a assemelhar-se ao seu passado "colonial".
A luta contra o imperialismo envolve hoje a reconstrução da nação, do mercado doméstico, da economia produtiva e de uma classe trabalhadora ligada à produção e ao consumo social.

Duas perspectivas na Transformação Social: Organização de Classe e ONGs

Para avançar na luta contra o imperialismo e seus colaboradores neo-especuladores domésticos passaremos por um debate ideológico e cultural com os pós-marxistas dentro e na periferia dos movimentos populares.
O neoliberalismo opera-se hoje em duas frentes: o econômico e o cultural-político, e em dois níveis, no governo e nas classes populares. No topo, as políticas neoliberais são formuladas e executadas pelos sujeitos usuais: o Banco Mundial, o FMI trabalhando com Washington, Bonn e Tókio associados com regimes neoliberais e exportadores domésticos, grandes conglomerados e banqueiros.

No final dos anos 80 os setores mais perceptivos da classe dominante neoliberal deram-se conta que suas políticas estavam polarizando a sociedade e provocando um descontentamento social em grande escala. Os políticos neoliberais começaram a financiar e promover uma estratégia paralela "de abaixo", a promoção da organização das "comunidades" com uma ideologia "antiestadista" para intervir num potencial conflito de classes, para criar um “amortecedor social”. Estas organizações eram financeiramente dependentes das fontes neoliberais e foram envolvidas diretamente na competição com os movimentos sócio-políticos pela lealdade de líderes e de comunidades locais ativistas. Nos anos 90 estas organizações, descritas como "não-governamentais", chegaram aos milhares e estavam recebendo aproximadamente U.S.$4 bilhão de todo o mundo.

As confusões a respeito do caráter político das ONGs originam-se de sua história passada nos anos 70 durante os dias das ditaduras. Neste período forneciam a sustentação humanitária às vítimas das ditaduras militares e em denunciar as violações dos direitos humanos. As ONGs deram respaldo aos "sopões[10][10]" que permitiam famílias maltratadas sobreviver à primeira onda dos tratamentos de choque administrados pelas ditaduras neoliberais. Este período criou uma imagem favorável das ONGs mesmo entre a esquerda. Foram consideradas partes do “campo progressista". Mesmo assim, entretanto, os limites das ONGs eram evidentes. Embora atacassem as violações dos direitos humanos de ditaduras locais, raramente denunciavam os seus patrões europeus que os financiaram e recomendaram. Nem havia um esforço sério em ligar as políticas econômicas neoliberais e as violações dos direitos humanos ao novo turno do sistema imperialista. Obviamente as fontes de financiamento externos limitaram a esfera de ação crítica e dos direitos humanos.

Como a oposição ao neoliberalismo cresceu nos finais dos anos 80, os governos europeus e o Banco Mundial aumentaram o financiamento das ONGs. Há uma relação direta entre o crescimento de movimentos desafiando o modelo neoliberal e o esforço para subvertê-los criando formas alternativas de ação social através das ONGs. O ponto básico da convergência entre as ONGs e o Banco Mundial era sua oposição comum ao "estadismo". Superficialmente as ONGs criticaram o estado numa perspectiva de "esquerda" que defende a sociedade civil, enquanto a direita o fez assim em nome do mercado. Na realidade, entretanto, o Banco Mundial, os regimes neoliberais e fundações ocidentais cooptaram e incentivaram as ONGs a minar o estado de bem-estar nacional fornecendo serviços sociais para compensar as vítimas das MNCs. Em outras palavras, como os regimes neoliberais vindo de cima devastaram comunidades inundando o país com importações baratas, pagamentos externos de débito e abolindo a legislação trabalhista, criando uma massa crescente de trabalhadores mal pagos e desempregados, as ONGs foram financiadas para fornecer projetos de "autoajuda", "instrução popular" e treinamento de trabalho, para absorvê-los temporariamente, grupos pequenos dos pobres, para cooptar líderes locais e para minar lutas antissistema.

As ONGs transformaram-se na "cara da comunidade" do neoliberalismo, relacionada intimamente com ele no topo e em complementar seu trabalho destrutivo com projetos locais. Com efeito, os neoliberais organizaram uma operação de "emboscada" ou uma estratégia dupla. Infelizmente, muitos na esquerda focalizada somente no "neoliberalismo" por acima e no exterior (FMI, Banco Mundial) e não no neoliberalismo na base (ONGs, micro-empresas). Uma razão principal para esta omissão era a conversão de muitos “ex-marxistas” à fórmula e à prática da ONG. O pós-marxismo era o bilhete ideológico do trânsito da política de classe ao “desenvolvimento da comunidade", do marxismo às ONGs.

Enquanto os neoliberais transferiam propriedades lucrativas do estado aos ricos, os ONGs não eram parte da resistência dos sindicatos. Pelo contrário, atuavam em projetos privados locais, promovendo o discurso da empresa privada (auto-ajuda) na comunidade local focalizando em micro-empresas. As ONGs construíram pontes ideológicas entre os capitalistas de pequeno porte e os monopólios que se beneficiam da privatização, tudo em nome do "antiestadismo" e construção das sociedades civis. Enquanto os ricos acumularam vastos impérios financeiros da privatização, os profissionais da classe média das ONGs conseguiram somas pequenas dos fundos para financiar escritórios, transporte e a atividade econômica em pequena escala. O ponto político importante é que as ONGs despolitizaram os setores da população, minando seu compromisso com o emprego público e cooptando líderes potenciais em projetos pequenos. As ONGs abstêm-se da luta do professor da escola pública enquanto os regimes neoliberais atacam a instrução pública e educadores públicos.[12][12] Raramente, se já ocorreu, as ONGs apóiam as greves e os protestos contra os salários baixos e os cortes de orçamento. Por seu financiamento da educação vir dos governos neoliberais, evitam a solidariedade na luta com os educadores públicos. Na prática, "não-governamental" se traduz na atividade de despesa antipúblico, livrando o volume dos fundos para que os neoliberais subsidiem capitalistas de exportação enquanto as somas pequenas escorrem do governo para as ONGs.

Na realidade, as organizações não-governamentais não são “não-governamentais”. Recebem fundos dos governos internacionais ou trabalham como sub-contratantes privados de governos locais. Freqüentemente colaboram abertamente com as agências governamentais locais ou internacionais. Estes "sub-contratos" minam profissionais com os contratos fixos, substituindo os com os profissionais contingentes. As ONGs não podem fornecer os programas detalhados a longo prazo que o estado de bem-estar pode fornecer. Em vez disso, fornecem serviços limitados aos grupos pequenos das comunidades. Mais importante, seus programas não prestam contas ao povo local mas aos financiadores internacionais. Neste sentido as ONGs minam a democracia removendo programas sociais das mãos dos povos locais e de seus agentes eleitos e criando a dependência em agentes não eleitos, internacionais e em seus sacramentados agentes locais.

As ONGs deslocam a atenção e a luta do povo fora do orçamento nacional na direção da auto-exploração para assegurar serviços sociais locais. Isto permite que os neoliberais cortem orçamentos sociais e transfiram fundos do estado para subsidiar maus débitos de bancos privados e de empréstimos aos exportadores. A auto-exploração (auto-ajuda) significa que, somando o pagamento de impostos ao estado e não obterem nenhum retorno o povo trabalhador tenha que trabalhar horas extras com os recursos marginais, desperdiçando energias escassas para obter serviços que a burguesia recebe livre do estado. Mais fundamentalmente, a ideologia da ONG "da atividade voluntária privada" mina a idéia que o governo tem uma obrigação de atentar para seus cidadãos e os prover com vida, liberdade e perseguição da felicidade; essa responsabilidade política do estado é essencial para o bem estar dos cidadãos. Contra esta noção da responsabilidade pública, as ONGs promovem a idéia neoliberal da responsabilidade privada para problemas sociais e a importância de recursos privados para resolver este o problema. Com efeito, impõem um duplo fardo nos pobres: pagar impostos para financiar o estado neoliberal para servir os ricos e a auto-exploração para tomar cuidado de suas próprias necessidades.

ONGs e Movimento Sócio-Políticos

ONGs enfatizam projetos, não movimentos. Eles “mobilizam” a população para produzir marginalmente, não para lutar pelo controle dos meios de produção básicos e de riqueza. Focalizam no auxílio financeiro técnico dos projetos e não nas circunstâncias estruturais que dão forma às vidas diárias das pessoas. As ONGs cooptam a linguagem da esquerda: "poder popular", "autonomia", "igualdade de gêneros", "desenvolvimento sustentável" e "a base na liderança". O problema é que esta linguagem está ligada a uma estrutura de colaboração com os financiadores e as agências de governo que subordinam a atividade prática à política do não confronto. A natureza local da atividade da ONG significa a "autonomia" que nunca vai além de influenciar áreas pequenas de vida social com recursos limitados dentro das circunstâncias permitidas pelo estado e pela macro-economia neoliberal.

As ONGs e sua equipe de profissionais pós-marxistas competem diretamente com os movimentos sócio-políticos pela influência entre os pobres, as mulheres, vítimas de racismo e outros mais. Sua ideologia e prática desviam a atenção das fontes e das soluções da pobreza (olhando para baixo e para dentro ao invés de para cima e para fora). Falam das micro-empresas como soluções, ao invés da exploração pelos bancos internacionais, é baseado na noção que o problema é causado pela iniciativa individual em vez da transferência de rendas internacionais. A ajuda das ONGs afeta pequenos setores da população, introduzindo a competição entre as comunidades por recursos escassos, gerando a distinção insidiosa e rivalidades inter- e intra-comunidades minando a solidariedade de classes. O mesmo vale entre os profissionais: cada grupo tem sua ONG para solicitar fundos internacionais. Competem apresentando propostas que agradem mais os financiadores internacionais por preços mais baixos, enquanto reivindicam mais seguidores. O efeito líquido é uma proliferação das ONGs que fragmentam as comunidades pobres nos grupos setoriais e sub-setoriais incapazes de ver o retrato social maior que os aflige e, mesmo percebendo, tem menor capacidade de se unir na luta contra o sistema. A experiência recente demonstra também que os financiadores estrangeiros financiam projetos durante as "crises" políticas e desafios sociais para o status quo. Uma vez que os movimentos diminuíram, deslocam financiamentos para a "colaboração" do regime das ONGs, encaixando os projetos das ONGs na agenda neoliberal. O desenvolvimento econômico compatível com o "mercado livre" torna-se o item dominante na agenda financiadora ao invés da organização social para mudança social. A estrutura e a natureza das ONGs com sua postura "apolítica" e seu foco na “auto-ajuda” despolitiza e desmobiliza o pobre. Reforçam os processos eleitorais incentivados pelos partidos neoliberais e pela mídia. A educação política sobre a natureza do imperialismo, as classes básicas do neoliberalismo, como a luta de classes entre exportadores e trabalhadores temporários é evitada. Em vez disso as ONGs discutem "os excluídos", "a falta de poder", "a pobreza extrema", o "A discriminação de gênero ou de raça" sem mover-se além do sintoma superficial, comprometendo-se com o sistema social que produz estas circunstâncias. Incorporando os pobres na economia neoliberal com a ação “voluntária puramente privada", as ONGs criaram um mundo político onde a aparência da solidariedade e da ação social esconde um conformismo conservador com a estrutura internacional e nacional de poder.

Não é nenhuma coincidência do porque de determinadas regiões onde as ONGs se tornaram dominantes, ação política independente de classe declinou, e o neoliberalismo permanece incontestável. A linha de base é que o crescimento das ONGs coincide com o aumento do financiamento do neoliberalismo e do aprofundamento da pobreza em toda parte. Apesar de seus brados de muitos sucessos locais, o poder total do neoliberalismo continua sem ser desafiado e as ONGs procuraram cada vez mais por nichos nos interstícios do poder. O problema de formular alternativas tem sido atrapalhado em uma outra maneira. Muitos dos antigos líderes de guerrilhas, movimentos sociais, sindicatos e organizações populares de mulheres, foram cooptados pelas ONGs. A oferta é tentadora: pagamento mais elevado (ocasionalmente em moeda forte), prestigio e reconhecimento por financiadores internacionais, conferências e redes internacionais, equipe de funcionários de escritório e segurança relativa da repressão. Ao contrário, os movimentos sócio-políticos oferecem poucos benefícios materiais, mas um respeito e uma independência maior e, mais importante, a liberdade desafiar o sistema político e econômico. As ONGs e seus apoios internacionais de operação bancária (Banco Inter-Americano, Banco Mundial) publicam os boletins de notícias que caracterizam histórias do sucesso das micro-empresas e dos outros projetos de auto-ajuda sem mencionar as taxas elevadas de falha como o declínio do consumo popular, a inundação das importações de preço baixo o mercado enquanto as taxas de juro espiralam como é o caso do México hoje.

Mesmo os "sucessos" afetando somente uma fração pequena do total de pobres, sucedem somente no grau que outros não podem entrar no mesmo mercado. Entretanto, o valor da propaganda do sucesso individual da micro-empresa é importante em promover a ilusão de que o neoliberalismo é um fenômeno popular. Os freqüentes acessos violentos das massas que tomam forma nas regiões de promoção da micro-empresa sugerem que a ideologia não é hegemônica e as ONGs ainda não desmembraram os movimentos independentes de classe.

Finalmente, as ONGs promovem um tipo novo de colonialismo e de dependência cultural e econômica. Os projetos são produzidos, ou aprovados ao menos, de acordo com um “guia" de prioridades dos centros imperiais ou de suas instituições. São administrados e "vendidos" às comunidades. As avaliações são feitas para e pelas instituições imperiais. Os desvios de prioridades financeiras ou avaliações más resultam em despejo dos grupos, das comunidades, das fazendas e das cooperativas. Tudo e todos são disciplinados cada vez mais para obedecer às demandas dos financiadores e seus avaliadores de projeto. Os novos vassalos supervisionam e asseguram a conformidade com os objetivos, os valores e as ideologias do doador tão bem quanto o uso apropriado dos fundos. Onde os "sucessos" ocorrem estão fortemente dependentes do apoio continuado de fora, de outra forma poderiam desmoronar.

Enquanto as massas das ONGs são instrumentos cada vez mais à serviço do neoliberalismo há uma pequena minoria que tenta desenvolver uma estratégia alternativa, que é respaldada pela política de classe e anti-imperialista. Nenhuns deles recebem fundos do Banco Mundial ou de agências européias e governamentais. Apóiam trabalhos para articular o poder local na luta pelo poder do estado. Ligam projetos locais aos movimentos sócio-políticos nacionais ocupando grandes propriedades de terra, defendendo a propriedade pública e a posse nacional contra as multinacionais. Fornecem a solidariedade política aos movimentos sociais envolvidos na luta para a expropriação da terra. Apóiam as lutas das mulheres ligadas a perspectiva de classes. Reconhecem a importância de pôr ações políticas no comando definindo lutas locais e imediatas. Acreditam que as organizações locais devem lutar no nível nacional e que os líderes nacionais devem prestar contas aos ativistas locais. Em uma frase, eles não são pós-marxistas.

*James Petras um editor contribuinte de Links e é professor de sociologia na universidade de Binghampton, New York e o autor de muitos trabalhos em movimentos revolucionários na América Latina.





































Sobre os Annales: Marc Bloch e Lucian Febvre.

A revista dos Annales foi fundada em 1929 tendo como principais mentores Marc Bloch e Lucian Febvre. A revista se consagrou conjuntamente c...