África: continente em reconstrução
A maioria dos países africanos tem muita dificuldade para manter a estabilidade política, econômica e social. Essa dificuldade está ligada a dois fatores que
se perpetuam na realidade africana mesmo após a consolidação dos processos
de independência: a dependência externa (sobretudo, das antigas potências
colonizadoras) e a eclosão de conflitos internos. Vamos conhecer um pouco
desses aspectos, que precisam ser superados para que as sociedades africanas.
Para entender os vários aspectos da economia da África, é necessário levar em consideração a longa fase de colonização europeia, cujas repercussões se fazem sentir ainda nos dias de hoje. Desde o período colonial, o espaço geográfico do continente africano vem sendo organizado de acordo com os interesses das ex-metrópoles ou das grandes potências mundiais.
Com a economia voltada para a produção de recursos primários, a África
apresenta baixo nível de industrialização, mesmo se comparada com a de
outras regiões do mundo subdesenvolvido.
Os principais setores industriais estão ligados ao beneficiamento de produtos agrícolas destinados à exportação, como tecelagens de algodão, fábricas
de óleo vegetal e de suco concentrado, usinas de açúcar e torrefações de café.
Outros setores industriais importantes estão ligados à extração e transforma
ção de recursos minerais e energéticos fósseis, como as mineradoras e refinarias
de petróleo. Os países africanos mais industrializados são a África do Sul, o Egito,
a Nigéria e a Argélia, e a produção dos três últimos é basicamente voltada para a
indústria têxtil, a de alimentos, a produção de gás natural e o refino de petróleo.
A agropecuária
A produção agrícola africana, que, antes do período colonial, era organizada de modo a atender às necessidades alimentares de seus habitantes, foi substituída, em boa parte, pela agricultura comercial de exportação. Na maioria dos países africanos, atualmente, a agricultura é praticada de duas formas: de subsistência ou comercial.
A agricultura de subsistência, praticada em pequenas propriedades, com o emprego de técnicas e instrumentos rudimentares, é desenvolvida para atender às ne cessidades do produtor e de sua família. Esse tipo de agricultura se caracteriza pelos baixos rendimentos e pelo uso coletivo da terra, herança das comunidades tribais.
Essa atividade agrícola, praticada principalmente nas áreas de Savanas, utiliza o sistema itinerante, no qual o lavrador limpa uma pequena extensão
de terra, realiza a queimada e, posteriormente, com
a ajuda da enxada, retira os torrões de terra e faz a
semeadura, empregando a cinza que restou como
fertilizante. Decorridos alguns anos, quando os solos começam a apresentar sinais de esgotamento, o
lavrador parte para uma nova área e, assim, sucessivamente, vai caminhando em busca de novas terras.
Os principais cultivos de subsistência são a mandioca, o arroz, o milhete, o sorgo, o inhame e a batata.
A agricultura comercial para exportação, denominada plantation, surgiu com a chegada do colonizador. Praticada principalmente nas zonas litorâneas,
sua finalidade é a produção de culturas destinadas a
abastecer o mercado externo. Nela predomina a monocultura, realizada em grandes propriedades, que
ocupam as melhores terras do continente. É nessas
terras férteis que vem se expandido a agricultura
moderna, igualmente voltada à exportação.
Na África, são produzidos em escala comercial,
em boa parte destinados ao mercado externo, os se
guintes produtos: cacau (Costa do Marfim, Gana e Nigéria), amendoim (Nigéria, Senegal, Guiné-Bissau e
Gâmbia), café (Etiópia, Costa do Marfim, Angola, Re
pública Democrática do Congo, Camarões, Uganda e
Guiné), algodão (Sudão, Nigéria, Egito, Mali, Etiópia),
cana-de-açúcar (Angola, Moçambique, África do Sul,
Marrocos) e chá (Uganda, Moçambique e Malawi),
além de frutas tropicais.
Na região do Magreb (Tunísia, Marrocos e Argélia), destacam-se as culturas de trigo, cevada, cen
teio, oliveira e videira, que também são cultivados
no sul da África do Sul, onde predomina o
clima Mediterrâneo.
A atividade de criação de animais é praticada
principalmente na região mediterrânea, nas Estepes
e Savanas do Sudão, na África do Sul, e nas regiões às margens
dos grandes lagos da parte oriental.
A África do Sul concentra um dos maiores rebanhos de ovinos do mundo, destinado, sobretudo, ao
fornecimento de lã para as indústrias locais e para
exportação.
As riquezas minerais e a atividade industrial
Desde as primeiras descobertas, as riquezas minerais africanas têm sido
exploradas por companhias estrangeiras, principalmente multinacionais. Entre
tanto, no final da década de 1960, alguns países resolveram nacionalizar suas
minas, apoiando-se em organismos internacionais que reúnem vários países produtores de minérios.
Um desses organismos é o Conselho Intergovernamental de Países Exportadores de Cobre (Cipec), ao qual a República Democrática do Congo e a Zâmbia, dois grandes produtores de cobre, se associaram após nacionalizarem suas
principais jazidas. Essa atitude foi seguida pelos produtores de minério de ferro e
bauxita, que passaram a se unir e a ingressar em entidades supranacionais para
defender seus interesses.
O petróleo, um dos mais significativos produtos minerais africanos e grande
fonte de divisas para vários países, é explorado na Líbia, no Marrocos, na Argélia,
no Egito (na península do Sinai), na Nigéria (próximo ao delta do rio Níger), em
Angola, no Sudão, no Chade e no Gabão, entre outros. Angola, Líbia, Argélia, Nigéria
e Gabão são grandes produtores mundiais e os quatro primeiros fazem parte da
Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).
Botsuana é o maior produtor mundial de diamantes. A República Democrática
do Congo, além de diamantes, possui duas outras importantes riquezas minerais: o
cobre, que representa cerca de 50% do valor total de suas exportações,
e o manganês. Na Zâmbia, o comércio de cobre corresponde a 80% das exportações
do país.
O Marrocos e a Tunísia são grandes exportadores de fosfato, matéria-prima
da indústria de fertilizantes. O Marrocos, por exemplo, responde por cerca de 30%
do fosfato comercializado internacionalmente.
A África do Sul é outro país riquíssimo em minerais, destacando-se o ouro, o
diamante, o carvão e o urânio.
Apesar de toda a riqueza do subsolo africano, a produção é quase toda administrada por multinacionais e destinada ao abastecimento dos mercados dos
países desenvolvidos, portanto, não contribui para a melhoria do nível de vida da
população africana, em geral.
O principal tipo de indústria que vem se desenvolvendo em alguns países
da África é a de bens de consumo, sobretudo não duráveis. As indústrias de bens duráveis estão concentradas em alguns países, como Marrocos, Tunísia, Egito,
Senegal, Argélia, Etiópia e, principalmente, África do Sul, que apresenta a maior
diversificação industrial do continente.
A África do Sul reúne o maior parque industrial do
continente africano. À exceção dos outros, esse país abriga uma indústria diversificada, com destaque para os setores automobilístico, siderúrgico, químico e alimentício.
A maior parte das indústrias sul-africanas é composta de
multinacionais, que se instalaram no país principalmente
a partir da década de 1960. Por isso, podemos afirmar que a
África do Sul é um país de industrialização tardia, como o
Brasil, o México e a Argentina.
Dessa forma, não se desencadeou, na maior parte da
África, a industrialização por substituição das importações, como ocorreu em outros países subdesenvolvidos.
Na maioria dos países africanos, os produtos industrializados, que incluem tanto bens de produção (equipamentos de transporte, produtos
químicos e metalúrgicos) quanto bens de consumo (automóveis, vestuário,
eletrodomésticos e mobiliários), precisam ser importados de outros países,
principalmente da União Europeia, dos Estados Unidos e da China.
Isso tudo
causa atraso tecnológico, impedindo que as nações africanas rompam com
a situação de dependência em que se encontram em relação aos países mais
ricos e industrializados.
As principais áreas industriais da África estão situadas no entorno de cidades
como: Argel, na Argélia; Alexandria e Assuan, no Egito; Trípoli, na Líbia; Tânger, no
Marrocos; Túnis, na Tunísia; e Dacar, no Senegal; além das cidades da África do Sul,
país mais industrializado do continente.
A produção industrial africana corresponde a cerca de 11% do total do PIB da
África.
Fatores do baixo desenvolvimento industrial africano
O baixo desenvolvimento industrial africano decorre, sobretudo, dos fatores
a seguir.
- Existência de um mercado consumidor restrito para bens de consumo
industrializados, já que a maioria da população vive em estado de pobreza.
- Falta de interesse por parte dos empresários locais e das multinacionais
em investir na implantação de indústrias que substituam as importações de
mercadorias provenientes dos países desenvolvidos.
A dívida externa e a dependência econômica da África
Muitos países africanos têm seu desenvolvimento limitado pela elevada dívida
externa e a consequente dependência econômica em relação aos países desenvolvidos e instituições financeiras internacionais.
Atualmente, o pagamento das dívidas adquiridas por sucessivas administrações compromete os gastos públicos desses países. Os valores deveriam ser aplicados em programas de desenvolvimento industrial ou de saúde e educação.
Tal problema é particularmente acentuado nos países da África Subsaariana.
A dívida externa tem origem no perío
do pós-independência dos países africa
nos, mas aumentou consideravelmente
a partir das décadas de 1970 e 1980.
Já na de
1980, o valor da dívida externa dos países da região correspondia a quase
60% de toda a riqueza gerada, chegan
do, em alguns países, a superar o valor
do PIB anual de países devedores. No
caso da Libéria, a dívida externa chegou a ser seis vezes maior que o PIB.
Sem ter como dar conta do valor total das parcelas da dívida, vários países do
continente africano passaram a pagar apenas seus juros. Nesse contexto, parte
substancial do PIB passou a ser destinada ao pagamento de parcelas da dívida
externa, resultando na redução dos gastos com serviços públicos.
Alguns países da África Subsaariana são dependentes da ajuda financeira internacional. No entanto, questiona-se o interesse de parte desses credores, os quais,
para alguns analistas, beneficiam-se em continuar fornecendo créditos e ampliando o endividamento desses países.
Questiona-se também a conduta dos países desenvolvidos e das grandes empresas transnacionais em relação à África. Nesse sentido, são cobradas ações
mais concretas que beneficiem os países africanos e possibilitem criar bases para
seu desenvolvimento, como a transferência de tecnologias e a realização de
investimentos em áreas estratégicas com potencial para transformar as economias rurais e urbanas do continente, a exemplo da educação, do desenvolvimen
to de infraestrutura e do aproveitamento de fontes de energia renováveis.
Economias dependentes, populações debilitadas
A dívida externa e a corrupção são alguns dos principais fatores que agravam, dia a dia, a situação dos africanos. O pagamento de parcelas da dívida e
o desvio de verbas públicas esvaziam os cofres dos governos, deixando a população
da maioria dos países africanos completamente desassistida, sem acesso a serviços
públicos de saúde, educação e alimentação. Isso faz com que a África apresente os
piores indicadores sociais do mundo.
Os problemas sociais desse continente estão se agravando também em razão
do rápido crescimento populacional ocorrido nas últimas décadas. A África é um
dos continentes que apresentam uma das maiores taxas médias de crescimento
natural: cerca de 2% ao ano. As principais causas desse elevado crescimento são
as altas taxas de natalidade: cerca de 4% ao ano em média. Elas indicam grande
percentual de crianças e jovens no total da população. Estima-se que, atualmen
te, 50% dos africanos tenham menos de 18 anos de idade.
As taxas de mortalidade também são bastante elevadas, sendo agravadas
pelo precário atendimento médico. Esse fato implica baixa expectativa de vida, atualmente em torno dos 60 anos. Como consequência, a População
Economicamente Ativa (PEA) é insuficiente para
sustentar a grande parcela de crianças e jovens
que compõem a população. Além de reduzida, a
PEA é bastante desqualificada em razão, principal
mente, do alto índice de analfabetismo.
Investimentos estrangeiros
O continente africano como um todo não está plenamente integrado aos
fluxos mais significativos da economia mundial. Isso dificulta a solução de
muitos de seus problemas sociais e econômicos – quando não os agrava.
Por
exemplo: apesar do recente crescimento observado em muitos países da África, o fluxo de capitais produtivos, que são investimentos que geram riqueza – lucro para as empresas, empregos para os trabalhadores e impostos para o
Estado –, mantém-se como um dos mais baixos do mundo. Além de esse fluxo de investimentos ser baixo, está muito concentrado
em poucos países.
O turismo
Apesar da riqueza do patrimônio natural da África que poderia, por exemplo,
estimular o desenvolvimento do turismo ecológico, apenas mais recentemente
a atividade turística vem apresentando uma importância mais significativa na
economia africana. A falta de infraestrutura hoteleira e de transportes e os constantes conflitos étnicos existentes em alguns países são alguns dos fatores que
desestimulam o turismo.
Na região do Mediterrâneo – Marrocos, Tunísia e Egito, principalmente –,
ocorre um maior fluxo turístico. Sem dúvida, o patrimônio histórico egípcio, com
suas pirâmides e templos, é uma das principais atrações do continente africano,
o que eleva o Egito à posição de país mais visitado da África. Na África subsaaria
na, a África do Sul é o país que mais se destaca na atividade turística.
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