sábado, 14 de fevereiro de 2026

Indústria e serviços na África

O PROCESSO DE INDUSTRIALIZAÇÃO NA ÁFRICA


O processo de industrialização africano está predominantemente relacionado com o setor de mineração. A herança do imperialismo e dos interesses do capital industrial e comercial europeu manteve uma estrutura industrial pouco desenvolvida na África, apoiada na extração e exportação de recursos minerais, especializada em cobre, ferro, alumínio, urânio, ouro e diamantes.
A participação das indústrias de petróleo no território africano manteve o padrão de industrialização pautado na economia das commodities minerais, com exceção do Chifre Africano (África Oriental), cuja economia se baseia predominantemente na agricultura de grãos, legumes e chá, além da pecuária de caprinos.
O desenvolvimento das atividades industriais não ocorreu de forma efetiva em toda a África. As matérias-primas, principalmente os recursos minerais que poderiam impulsionar as indústrias locais, abastecem o mercado externo, contribuindo, assim, para o desenvolvimento industrial de países em outros continentes. A industrialização também foi prejudicada pelo longo tempo de subordinação à política imperialista europeia.
Os colonizadores europeus exploravam matéria-prima a baixíssimo custo e a levavam para ser transformada na Europa. Depois, vendiam os produtos industrializados aos países africanos. Não houve, portanto, incentivos e investimentos das metrópoles para o desen volvimento da indústria na África, evitando a concorrência com os produtos europeus e a perda de mercados consumidores.
Outros fatores também colaboraram para o lento desenvolvimento industrial em muitos países africanos, como forte dependência econômica em relação às antigas metrópoles, escassez de capital, carência de mão de obra qualificada, infraestrutura urbana de transportes e de produção energética deficitária, pequeno mercado consumidor, além de conflitos internos e entre países do continente.
A África do Sul conta com o maior e mais diversificado parque industrial do continente, com destaque para os setores siderúrgico, metalúrgico, automobilístico, químico, têxtil e petroquímico. A industrialização do país foi favorecida pela riqueza em recursos minerais e pela existência de uma elite que, mesmo após a independência, permaneceu no poder e manteve-se fortemente associada à antiga metrópole, a Inglaterra, favorecendo a entrada de capitais de empresas estrangeiras. A industrialização da África do Sul é um dos fatores que contribuem para que o país seja classificado como “emergente”, integrando, inclusive, os chamados Brics, junto com Brasil, Rússia, Índia e China.
Em outros países do continente africano, a atividade industrial está voltada, principalmente, para o beneficiamento de produtos agrícolas, como soja, cana-de-açúcar, algodão e café, ou seja, é formada por usinas de açúcar, fábricas de tecido, torrefadoras de café e fábricas de sucos concentrados e de óleo vegetal, produzindo para o abastecimento do mercado interno.
O regime de espoliação dos recursos minerais na África não desenvolveu a indústria como nos países europeus, norte-americanos e mesmo nos países do subcentro da América Latina. A África permaneceu com a economia voltada para o setor primário, o que vem sendo, desde o início do século XXI, objeto de discussão para a criação de políticas que mudem o perfil econômico dos países africanos, principalmente investindo na agroindústria e em energias alternativas.
Para isso, em 2003, a União Africana (UA) lançou o Grande Programa de Desenvolvimento Agrícola da África (CAADP, em inglês), cujos principais alvos para os países se desenvolverem industrialmente são: 

- analisar criticamente os indicadores sociais dos países africanos; 
- identificar oportunidades de investimento com ótima garantia de retorno; 
- crescer até 6% no PIB agrícola; 
- alocar pelo menos 10% das despesas públicas para o setor agrícola; 
- criar empregos, principalmente para mulheres e jovens; - promover a nutrição e a segurança alimentar; 
- fortalecer a resiliência em áreas ambientalmente instáveis.

Mais de 41 países que compõem a União Africana reconheceram a importância das metas para o desenvolvimento agroindustrial da África e 33 deles estão elaborando políticas que fomen tam a ampliação dessas indústrias. 
 Apesar de haver aumento na política de produção agrícola e na garantia da recuperação de ambientes relacionados a riscos climáticos (desertificação no Sahel), os mapas a seguir demonstram que ainda é enorme o desafio da União Africana para atrair agroindústrias. 
Além disso, o aumento de investimentos em fontes alternativas de energia, como baterias, grafeno e condutores alternativos, e a crescente venda de terras africanas implicam estratégias de industrialização voltadas à chamada Quarta Revolução Industrial, o que pode diminuir a dependência africana do setor primário.

O setor de serviços


O setor de serviços (terciário) – que inclui atividades como saúde, educação, transportes, comunicação e entretenimento, entre outros – tem importante participação na economia de muitos países africanos. Em 2020, era o setor de maior participação no PIB da Nigéria (46,4%), da África do Sul (64,6%) e do Egito (51,8%), por exemplo.
A ampliação do terciário, no geral, tem relação com a industrialização e, principalmente, com o crescimento urbano.
O processo de industrialização de um país é bastante complexo, pois não se refere apenas à instalação de fábricas. Integrada à produção industrial, ocorre a expansão de infra estrutura (estradas, portos, sistemas de comunicação etc.) e de serviços diversos (bancários e administrativos, por exemplo).
O crescimento urbano impulsiona o desenvolvimento de diversas atividades, como comércio, transporte urbano, saúde, educação, tecnologias da comunicação, lazer e entretenimento, entre outros. O aumento de investimentos estrangeiros nos países africanos tem contribuído para dina mizar essas diversas atividades.
A produção cinematográfica é uma das inúmeras atividades que compõem o setor de serviços. Nollywood, como é conhecida a “indústria” cinematográfica da Nigéria, é a segunda mais produtiva do mundo, superando Hollywood, dos Estados Unidos, e ficando atrás apenas de Bollywood, da Índia.

INVESTIMENTOS, INOVAÇÃO E COOPERAÇÃO


Considerando as diretrizes das grandes empresas multinacionais, os países africanos atraíram investimentos em diversos setores. A região do Golfo da Guiné, rica em petróleo, passou a atrair empresas do setor petrolífero. As primeiras a chegar foram as empresas europeias, que ainda dominam a extração de petróleo e gás natural na região. 
A britânica Royal Dutch Shell é a maior produtora de petróleo na Nigéria. No Gabão, está a francesa Total. Há também empresas dos Estados Unidos na Guiné Equatorial (Exxon) e em Angola (Chevron). Mais recentemente, a competição pelo petróleo africano passou a incluir empresas dos chamados países emergentes, como Índia, Brasil e, principalmente, China.
Além disso, muitas empresas à procura de oportunidades de investimento veem na África um mercado promissor no setor de tecnologia e de inovação. 
Os problemas socioeconômicos e de infraestrutura em muitos países africanos atraem investidores do setor de inovação para desenvolver soluções adaptadas à realidade local, especialmente na África do Sul, na Nigéria e no Quênia. 
De acordo com o estudo da African Private Equity and Venture Capital Association, em 2021, empresas do setor privado investiram mais de 5 bilhões de dólares em startups africanas que desenvolvem inovações para o setor agrícola, energético, de telefonia celular, acesso à internet e serviços digitais.

Rede de transportes voltada para o exterior


Assim como a distribuição geográfica das atividades agropecuárias e de mineração, a configuração da rede de transportes africana está estreitamente relacionada à forma de ocupação desse continente pelos colonizadores europeus. Como sabemos, a organização do espaço geográfico africano foi estabelecida, até algumas décadas atrás, em função dos interesses econômicos das ex-metrópoles. E, no caso do estabelecimento da rede de transportes, não foi diferente.
De modo geral, as ferrovias, as rodovias e os portos fluviais ligam as áreas produtoras – tanto as agrícolas monocultoras quanto as mineradoras e produtoras de petróleo e gás natural –, localizadas no interior, ao litoral, onde estão os principais portos. Dos portos, a produção é escoada para vários lugares do mundo, principalmente para os países desenvolvidos europeus. 
A rede de transportes da África não apresenta, portanto, uma configuração que integre as várias regiões do continente ou dos países africanos, e o interior, em geral, é pouco provido de vias rodoviárias ou ferroviárias. A África do Sul, entre tanto, é uma exceção, pois tem uma malha viária mais densa, em razão da economia mais dinâmica e diversificada.

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