A África nem sempre se viu às voltas com a pobreza, epidemias e outras carências. Basta lembrar-se de que a história Pré-Colonial africana é marcada por grandes impérios, sociedades complexas e desenvolvidas, que já mantinham relações comerciais e políticas com outras regiões do mundo antes mesmo da chegada dos colonizadores europeus.
O continente africano sofreu as consequências negativas deixadas pelo período da exploração colonial; também em grande parte, suas riquezas são exploradas por empresas transnacionais e ainda a atuação dos governos corruptos e das elites locais, somada à concorrência do mercado internacional no mundo globalizado, contribuíram para explicar o quadro geral de desigualdade econômica e social que domina a maior parte do continente. Dessa forma, podemos concluir que todos esses problemas corroboraram para que a África fosse palco de tantos conflitos armados e tragédias.
Nos principais conflitos da África contemporânea, é possível observar que em diversos Estados, alguns consideravelmente novos, custaram muito a consolidar suas fronteiras ou ainda não o fizeram.
Vários outros também não encontraram uma forma de governar que satisfizesse às necessidades básicas da população. Em muitos casos, grupos étnicos e religiosos que se entendem como nação almejam governar o país e acabam por insuflar movimentos não democráticos, ou mesmo separatistas, na busca por um território em que possam exercer soberania e relações de poder.
Conflitos e guerras
De acordo com a ONU, a África é o continente com o maior número de
conflitos duradouros em todo o mundo. Em razão da instabilidade política
de muitos países africanos, que ainda lutam pela construção de um Estado
sólido e de um governo representativo e democrático em um contexto tão
diverso e problemático, a maioria das guerras no continente se configura
como conflito interno.
As principais causas desses conflitos são as disputas pelo controle do
poder político, as rivalidades religiosas e as lutas por autonomia de grupos étnicos. Além disso, há a disputa pela grande quantidade de riquezas minerais do
solo africano, que interessa tanto aos grupos armados quanto aos governos e
às grandes corporações.
Muitas guerras são financiadas pelos lucros oriundos da extração desses
recursos, algumas das quais chegam a ultrapassar as fronteiras políticas dos
territórios, como é o caso da República Democrática do Congo.
Ainda que o número de conflitos tenha diminuído, as guerras prolongam-se
e apresentam grande impacto no desenvolvimento humano. Assim, é possível
estabelecer uma relação direta entre os conflitos e a pobreza do continente, pois
as guerras destroem o sistema produtivo, aumentando a fome e a desnutrição
da população.
Na lista dos dez principais países de origem dos refugiados em 2021 estão
cinco africanos: Sudão do Sul, República Democrática do Congo, Sudão, Somália e República Centro-Africana. O número
total de sul-sudaneses
deslocados nos últimos
anos já alcança 3,3
milhões, o que significa
dizer que um em cada
quatro sul-sudaneses
se encontra deslocado
de seu país de origem.
Aproximadamente 30% dos refugiados do mundo são pessoas nascidas
no continente africano, notadamente em
duas regiões: Ocidental, com conflitos
em Serra Leoa, Nigéria, Libéria e Costa
do Marfim; e Centro-Oriental, no arco
norte-sul, que se estende do Sudão até
os Grandes Lagos, passando pela região
do chifre africano. Em diversos locais da
África há campos de refugiados da ONU.
O maior deles fica no Quênia e já contou
com uma população de mais de 400 mil
pessoas.
Apesar de a grande maioria de refugiados africanos permanecer na própria África, um grande número de pessoas tenta chegar à Europa atravessando
o Mar Mediterrâneo, onde muitos perdem a vida em naufrágios.
As guerras
em países africanos, além de causar mortes, pioram as condições de vida dos
habitantes, entre os quais estão incluídas imensas massas de refugiados, que
sofrem as consequências dos conflitos.
Nas últimas décadas, Nigéria, Ruanda e Sudão do Sul, entre outros países,
sofreram com violentos conflitos armados.
Nigéria
A Nigéria enfrenta conflitos internos desde sua independência, em 1960. Seu território é
constituído por cerca de 250 grupos étnicos, prevalecendo três deles: os hauçá-fulá (32% da
população), os iorubás (21%) e os ibos (18%).
A luta pelo poder entre esses três grupos levou o país a uma das mais sangrentas guerras
civis da África: a Guerra de Biafra (1967-1970).
Os ibos, provenientes da província de Biafra, no leste do país, formavam a elite da Nigéria. Em
um golpe de Estado dado em 1966, generais da etnia ibo tomaram o poder dos hauçá-fulá. Um
contragolpe derrubou o regime, e os ibos passaram a ser caçados e massacrados pelo país. Eles, então,
declararam a independência da província de Biafra, iniciativa não reconhecida pelo governo central.
Todos esses fatos resultaram na guerra civil que matou mais de 1 milhão de pessoas e
terminou com a rendição de Biafra, novamente anexada ao território nigeriano.
Desde o fim da guerra civil, a Nigéria convive com a rivalidade entre o sul, cristão e economicamente mais desenvolvido, e o norte, predominantemente muçulmano e detentor do controle
político do país. A disputa envolve cristãos e islâmicos.
Os conflitos étnicos e religiosos na Nigéria
são agravados pela ação de grupos radicais
islâmicos, como o Boko Haram, que reivindica
a construção de uma república islâmica e o
combate à cultura ocidental deixada pelos colonizadores ingleses no país.
O grupo fundamentalista islâmico
Boko Haram luta para derrubar o atual governo e fundar um Estado somente
para os islâmicos, valendo-se, para tanto, de estratégias terroristas.
Desde 2009, o Boko Haram comete atos
violentos, fazendo muitas vítimas entre civis,
militares, políticos e religiosos. O aumento
da violência provocou a fuga de milhares de
pessoas do país.
Recente
mente, o exército nigeriano reconquistou o poder nas áreas do país onde o grupo
terrorista havia assentado suas bases e intensificado suas ações.
No entanto,
o risco ainda continua e, para alguns especialistas, a ameaça terrorista poderia
ser controlada se o governo nigeriano conseguisse reduzir a pobreza crônica do
país, além de conciliar, por meio de um sistema de ensino diversamente étnico,
cristãos e muçulmanos.
Ruanda
Ruanda foi devastada por conflitos étnicos entre as etnias hutu e
tutsi, culminando com o grande genocídio de 1994, que vitimou em cem dias cerca de 800 mil pessoas do
grupo étnico tútsi, levando mais de 2 milhões de pessoas do grupo étnico hútu
a se deslocar forçadamente para o antigo Zaire, atual República Democrática do
Congo – onde ainda há ecos da tensão entre grupos radicais.
Uma das causas que levaram ao genocídio entre tútsis e hútus foi a diferenciação no tratamento dado às etnias pelos belgas, ainda ocorrida no Período
Colonial.
A rivalidade entre as etnias, que se reconheciam diferentes, mas conviviam no mesmo território, foi então fomentada por ideias racistas.
Atualmente, Ruanda é uma das economias que mais cresce no continente
africano.
O país mantém-se em constante alerta e, por meio de muitos esforços,
alcançou considerável estabilidade na convivência entre as etnias, apesar dos
baixos índices de desenvolvimento humano e da ainda grande desigualdade de
renda – inclusive entre hútus e tútsis. As rivalidades prosseguem até a atualidade, embora com menor intensidade.
Angola
Angola vivenciou, desde a independência, em 1975, uma devastadora guerra civil, em que se
opunham o partido do governo, de orientação socialista, e a União Nacional para a Independência
Total de Angola (Unita), anticomunista. O conflito fez milhares de vítimas e, até hoje, minas
terrestres espalhadas pelo país promovem mutilações e mortes. Desde 2006, o país está em paz.
Sudão do Sul
O Sudão passou por uma longa guerra civil em razão das disputas de poder e de controle
do território e de seus recursos naturais, sobretudo o petróleo. Contrapunham-se o norte, então
sede do governo e com população predominantemente muçulmana, e o sul, base do Exército
de Libertação do Povo Sudanês (ELPS), com população majoritariamente cristã. Apesar de as
diferenças culturais, étnicas e religiosas terem influenciado os conflitos, eles foram motivados
essencialmente pelas disputas econômicas.
O conflito está relacionado à hostilidade entre
líderes políticos e associado à disputa pelo controle
das reservas de petróleo. Em 2005 foi assinado um cessar-fogo, mas os conflitos e as mortes continuaram. Em 2011,
98% da população optou em plebiscito pela separação do sul e pela criação de um Estado-nação:
o Sudão do Sul.
O Sudão do Sul, o país mais
jovem do mundo, independente desde 2011, vive
uma guerra civil iniciada em 2013.
Apesar das grandes reservas de petróleo, o Sudão do Sul “nasceu” com os mesmos problemas sociais que afetam a maioria da população da África Subsaariana. Em 2013, uma nova guerra
civil envolveu duas etnias sul-sudanesas: dinka e nuer.
O estopim para o
conflito foi uma crise interna no tão novo quanto instável governo sul-sudanês. O presidente, Salva Kiir,
acusou o ex-vice-presidente Riack Machar de organizar um golpe de Estado. A partir de então, milícias
aliaram-se aos dois grandes rivais, que também são
de etnias diferentes. A rivalidade detonou um conflito violento,
que fez mais de 300 mil vítimas e levou o país a uma grave crise humanitária.
Em 2015, os envolvidos no conflito armado assinaram um acordo de paz
que não durou mais de um ano. Em 2017, foi assinado um cessar-fogo, que possibilitou a criação de um ambiente minimamente seguro para que organizações
internacionais de ajuda humanitária entrassem no país e chegassem até os civis
que mais precisavam de atendimento.
Apesar da assinatura de um acordo de paz em setembro de 2018, a situação no país piorou
muito. As disposições do tratado não foram implementadas em razão dos conflitos constantes
entre os dois líderes. De acordo com a ONU, mais de 50 mil pessoas morreram em decorrência
do conflito.
De acordo com dados da ACNUR, 4,3 milhões de sul-sudaneses haviam
deixado suas casas em 2021, representando o quarto maior grupo de refugiados do mundo.
Atualmente, metade da população do Sudão do Sul sofre de desnutrição, e a fome já é um problema crônico no país, que atravessa uma das piores
crises humanitárias do mundo.
República Democrática do Congo
Os conflitos começaram em 1994, quando milhares de refugiados hutus migraram para o
país. Os refugiados instalaram-se na província de Kivu, no leste do território congolês, ocupada
predominantemente pela etnia tutsi, inimiga dos hutu.
Sentindo-se ameaçados pelo grande número de refugiados hutus e abandonados pelo
regime ditatorial do então presidente Mobutu Sese Seko (1930-1997), os tutsi iniciaram uma
guerrilha contra o governo, apoiados por Uganda e pelo governo tutsi instaurado em Ruanda.
Em 1997, Laurent Kabila (1939-2001), que não era tutsi, mas liderava o movimento guerrilheiro contra Mobutu, assumiu o poder e passou a ignorar seus aliados tutsis, cortando as relações
com Uganda e Ruanda.
Insatisfeitos, os tutsi de Kivu iniciaram uma nova guerra civil em 1998. Acuado, o governo
congolês pediu ajuda militar a Angola, Zimbábue e Namíbia, gerando conflitos que causaram
cerca de 3 milhões de mortes.
Joseph Kabila (1971-), filho de Laurent Kabila, assumiu o poder em 2001 com propostas de
paz e de reorganização do país. Seu mandato terminou em 2019, sem a pacificação prometida.
A crise econômica agravou os conflitos étnicos e o confronto entre grupos armados e o Exército
congolês, que disputam territórios ricos em recursos naturais.
De acordo com dados de 2022 da
Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), o aumento da violência forçou mais de 5,6 milhões de
congoleses a se deslocar dentro do país e outro milhão a buscar refúgio em outros países da África.
Chifre da África
O Chifre da África é uma sub-região da África Subsaariana, constituída por Quênia,
Somália, Etiópia, Eritreia e Djibuti, apresentando graves problemas como pobreza, fome,
guerras, disputas internas, secas e pirataria.
Os dois maiores países da região, Etiópia e Somália, estiveram envolvidos em uma disputa
pelo deserto de Ogaden, território etíope ocupado por somalis. Em 1988, um acordo incorpo
rou esse território à Etiópia. Os somalis que viviam na região tiveram de voltar para a Somália
ou seguir como refugiados para o Quênia.
Desde a década de 1990, a Somália enfrenta uma guerra civil entre vários clãs rivais,
apesar de esses clãs pertencerem ao mesmo grupo étnico. Apesar da ajuda de soldados
estrangeiros entre 1992 e 1995, a guerra continuou, pois não há um governo central forte
capaz de conter os conflitos internos, os diferentes grupos rebeldes
e as milícias que controlam consideráveis trechos do território
somali, como a milícia radical islâmica Al-Shabab e grupos de
piratas que atuam no litoral.
Além dos atentados terroristas frequentes, os grupos radicais impedem a entrada de
ajuda humanitária por organizações internacionais. O país também é atingido por graves
episódios de secas, como os ocorridos em 2011, 2017, 2021 e 2022.
Depois de dez anos de crescimento econômico, a Etiópia entrou em uma guerra civil
no final de 2020, opondo o Exército etíope aos rebeldes da Frente Popular de Libertação do
Tigré (região situada no norte do país). A guerra fez com que outras etnias entrassem em
conflito em diversas regiões.
Primavera Árabe
As revoltas populares ocorridas em países
do Norte da África a partir de 2010 evidenciaram o descontentamento da população em
relação aos líderes ditadores que enriquece
ram no poder ao longo de décadas, enquanto
a população era mantida em condições de
pobreza extrema. Cansada dos desmandos de
governos autoritários, a população protestou
por mudanças.
O primeiro resultado do movimento se deu na Tunísia: a queda do ditador Zine El Abidine Ben Ali (1936-2019), que comandara o país por 23 anos
(1987-2011). No Egito, após 30 anos no poder (1981-2011), o ditador Hosni
Mubarak (1928-2020) renunciou à presidência do país. Por sua vez, Muammar
Kadafi (1942-2011) perdeu, em 2011, o governo da Líbia, que estava sob sua
ditadura desde 1969. Em seguida, os conflitos atingiram o Marrocos e a Argélia.
Esse movimento ficou conhecido como Primavera Árabe, alastrando-se para
países do Oriente Médio. Apenas na Tunísia se pode dizer que houve mudanças
positivas, pois em alguns deles se instalaram outros regimes ditatoriais.