sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Conflitos no continente africano

A África nem sempre se viu às voltas com a pobreza, epidemias e outras carências. Basta lembrar-se de que a história Pré-Colonial africana é marcada por grandes impérios, sociedades complexas e desenvolvidas, que já mantinham relações comerciais e políticas com outras regiões do mundo antes mesmo da chegada dos colonizadores europeus.
O continente africano sofreu as consequências negativas deixadas pelo período da exploração colonial; também em grande parte, suas riquezas são exploradas por empresas transnacionais e ainda a atuação dos governos corruptos e das elites locais, somada à concorrência do mercado internacional no mundo globalizado, contribuíram para explicar o quadro geral de desigualdade econômica e social que domina a maior parte do continente. Dessa forma, podemos concluir que todos esses problemas corroboraram para que a África fosse palco de tantos conflitos armados e tragédias.
Nos principais conflitos da África contemporânea, é possível observar que em diversos Estados, alguns consideravelmente novos, custaram muito a consolidar suas fronteiras ou ainda não o fizeram. 
Vários outros também não encontraram uma forma de governar que satisfizesse às necessidades básicas da população. Em muitos casos, grupos étnicos e religiosos que se entendem como nação almejam governar o país e acabam por insuflar movimentos não democráticos, ou mesmo separatistas, na busca por um território em que possam exercer soberania e relações de poder.

Conflitos e guerras 


De acordo com a ONU, a África é o continente com o maior número de conflitos duradouros em todo o mundo. Em razão da instabilidade política de muitos países africanos, que ainda lutam pela construção de um Estado sólido e de um governo representativo e democrático em um contexto tão diverso e problemático, a maioria das guerras no continente se configura como conflito interno. 
As principais causas desses conflitos são as disputas pelo controle do poder político, as rivalidades religiosas e as lutas por autonomia de grupos étnicos. Além disso, há a disputa pela grande quantidade de riquezas minerais do solo africano, que interessa tanto aos grupos armados quanto aos governos e às grandes corporações. 
Muitas guerras são financiadas pelos lucros oriundos da extração desses recursos, algumas das quais chegam a ultrapassar as fronteiras políticas dos territórios, como é o caso da República Democrática do Congo. 
Ainda que o número de conflitos tenha diminuído, as guerras prolongam-se e apresentam grande impacto no desenvolvimento humano. Assim, é possível estabelecer uma relação direta entre os conflitos e a pobreza do continente, pois as guerras destroem o sistema produtivo, aumentando a fome e a desnutrição da população. 
Na lista dos dez principais países de origem dos refugiados em 2021 estão cinco africanos: Sudão do Sul, República Democrática do Congo, Sudão, Somália e República Centro-Africana. O número total de sul-sudaneses deslocados nos últimos anos já alcança 3,3 milhões, o que significa dizer que um em cada quatro sul-sudaneses se encontra deslocado de seu país de origem.
Aproximadamente 30% dos refugiados do mundo são pessoas nascidas no continente africano, notadamente em duas regiões: Ocidental, com conflitos em Serra Leoa, Nigéria, Libéria e Costa do Marfim; e Centro-Oriental, no arco norte-sul, que se estende do Sudão até os Grandes Lagos, passando pela região do chifre africano. Em diversos locais da África há campos de refugiados da ONU. O maior deles fica no Quênia e já contou com uma população de mais de 400 mil pessoas.
Apesar de a grande maioria de refugiados africanos permanecer na própria África, um grande número de pessoas tenta chegar à Europa atravessando o Mar Mediterrâneo, onde muitos perdem a vida em naufrágios. 
As guerras em países africanos, além de causar mortes, pioram as condições de vida dos habitantes, entre os quais estão incluídas imensas massas de refugiados, que sofrem as consequências dos conflitos. 
Nas últimas décadas, Nigéria, Ruanda e Sudão do Sul, entre outros países, sofreram com violentos conflitos armados.

Nigéria 


A Nigéria enfrenta conflitos internos desde sua independência, em 1960. Seu território é constituído por cerca de 250 grupos étnicos, prevalecendo três deles: os hauçá-fulá (32% da população), os iorubás (21%) e os ibos (18%).
A luta pelo poder entre esses três grupos levou o país a uma das mais sangrentas guerras civis da África: a Guerra de Biafra (1967-1970).
Os ibos, provenientes da província de Biafra, no leste do país, formavam a elite da Nigéria. Em um golpe de Estado dado em 1966, generais da etnia ibo tomaram o poder dos hauçá-fulá. Um contragolpe derrubou o regime, e os ibos passaram a ser caçados e massacrados pelo país. Eles, então, declararam a independência da província de Biafra, iniciativa não reconhecida pelo governo central. 
Todos esses fatos resultaram na guerra civil que matou mais de 1 milhão de pessoas e terminou com a rendição de Biafra, novamente anexada ao território nigeriano.
Desde o fim da guerra civil, a Nigéria convive com a rivalidade entre o sul, cristão e economicamente mais desenvolvido, e o norte, predominantemente muçulmano e detentor do controle político do país. A disputa envolve cristãos e islâmicos. 
Os conflitos étnicos e religiosos na Nigéria são agravados pela ação de grupos radicais islâmicos, como o Boko Haram, que reivindica a construção de uma república islâmica e o combate à cultura ocidental deixada pelos colonizadores ingleses no país.
O grupo fundamentalista islâmico Boko Haram luta para derrubar o atual governo e fundar um Estado somente para os islâmicos, valendo-se, para tanto, de estratégias terroristas.
Desde 2009, o Boko Haram comete atos violentos, fazendo muitas vítimas entre civis, militares, políticos e religiosos. O aumento da violência provocou a fuga de milhares de pessoas do país.
Recente mente, o exército nigeriano reconquistou o poder nas áreas do país onde o grupo terrorista havia assentado suas bases e intensificado suas ações. 
No entanto, o risco ainda continua e, para alguns especialistas, a ameaça terrorista poderia ser controlada se o governo nigeriano conseguisse reduzir a pobreza crônica do país, além de conciliar, por meio de um sistema de ensino diversamente étnico, cristãos e muçulmanos.

Ruanda 


Ruanda foi devastada por conflitos étnicos entre as etnias hutu e tutsi, culminando com o grande genocídio de 1994, que vitimou em cem dias cerca de 800 mil pessoas do grupo étnico tútsi, levando mais de 2 milhões de pessoas do grupo étnico hútu a se deslocar forçadamente para o antigo Zaire, atual República Democrática do Congo – onde ainda há ecos da tensão entre grupos radicais. 
Uma das causas que levaram ao genocídio entre tútsis e hútus foi a diferenciação no tratamento dado às etnias pelos belgas, ainda ocorrida no Período Colonial. 
A rivalidade entre as etnias, que se reconheciam diferentes, mas conviviam no mesmo território, foi então fomentada por ideias racistas. Atualmente, Ruanda é uma das economias que mais cresce no continente africano. 
O país mantém-se em constante alerta e, por meio de muitos esforços, alcançou considerável estabilidade na convivência entre as etnias, apesar dos baixos índices de desenvolvimento humano e da ainda grande desigualdade de renda – inclusive entre hútus e tútsis. As rivalidades prosseguem até a atualidade, embora com menor intensidade.

Angola 


Angola vivenciou, desde a independência, em 1975, uma devastadora guerra civil, em que se opunham o partido do governo, de orientação socialista, e a União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita), anticomunista. O conflito fez milhares de vítimas e, até hoje, minas terrestres espalhadas pelo país promovem mutilações e mortes. Desde 2006, o país está em paz.

Sudão do Sul 


O Sudão passou por uma longa guerra civil em razão das disputas de poder e de controle do território e de seus recursos naturais, sobretudo o petróleo. Contrapunham-se o norte, então sede do governo e com população predominantemente muçulmana, e o sul, base do Exército de Libertação do Povo Sudanês (ELPS), com população majoritariamente cristã. Apesar de as diferenças culturais, étnicas e religiosas terem influenciado os conflitos, eles foram motivados essencialmente pelas disputas econômicas.
O conflito está relacionado à hostilidade entre líderes políticos e associado à disputa pelo controle das reservas de petróleo. Em 2005 foi assinado um cessar-fogo, mas os conflitos e as mortes continuaram. Em 2011, 98% da população optou em plebiscito pela separação do sul e pela criação de um Estado-nação: o Sudão do Sul. 
O Sudão do Sul, o país mais jovem do mundo, independente desde 2011, vive uma guerra civil iniciada em 2013. 
Apesar das grandes reservas de petróleo, o Sudão do Sul “nasceu” com os mesmos problemas sociais que afetam a maioria da população da África Subsaariana. Em 2013, uma nova guerra civil envolveu duas etnias sul-sudanesas: dinka e nuer.
O estopim para o conflito foi uma crise interna no tão novo quanto instável governo sul-sudanês. O presidente, Salva Kiir, acusou o ex-vice-presidente Riack Machar de organizar um golpe de Estado. A partir de então, milícias aliaram-se aos dois grandes rivais, que também são de etnias diferentes.  A rivalidade detonou um conflito violento, que fez mais de 300 mil vítimas e levou o país a uma grave crise humanitária.
Em 2015, os envolvidos no conflito armado assinaram um acordo de paz que não durou mais de um ano. Em 2017, foi assinado um cessar-fogo, que possibilitou a criação de um ambiente minimamente seguro para que organizações internacionais de ajuda humanitária entrassem no país e chegassem até os civis que mais precisavam de atendimento.
Apesar da assinatura de um acordo de paz em setembro de 2018, a situação no país piorou muito. As disposições do tratado não foram implementadas em razão dos conflitos constantes entre os dois líderes. De acordo com a ONU, mais de 50 mil pessoas morreram em decorrência do conflito. 
De acordo com dados da ACNUR, 4,3 milhões de sul-sudaneses haviam deixado suas casas em 2021, representando o quarto maior grupo de refugiados do mundo.
Atualmente, metade da população do Sudão do Sul sofre de desnutrição, e a fome já é um problema crônico no país, que atravessa uma das piores crises humanitárias do mundo.

República Democrática do Congo 


Os conflitos começaram em 1994, quando milhares de refugiados hutus migraram para o país. Os refugiados instalaram-se na província de Kivu, no leste do território congolês, ocupada predominantemente pela etnia tutsi, inimiga dos hutu. 
Sentindo-se ameaçados pelo grande número de refugiados hutus e abandonados pelo regime ditatorial do então presidente Mobutu Sese Seko (1930-1997), os tutsi iniciaram uma guerrilha contra o governo, apoiados por Uganda e pelo governo tutsi instaurado em Ruanda. 
Em 1997, Laurent Kabila (1939-2001), que não era tutsi, mas liderava o movimento guerrilheiro contra Mobutu, assumiu o poder e passou a ignorar seus aliados tutsis, cortando as relações com Uganda e Ruanda.
Insatisfeitos, os tutsi de Kivu iniciaram uma nova guerra civil em 1998. Acuado, o governo congolês pediu ajuda militar a Angola, Zimbábue e Namíbia, gerando conflitos que causaram cerca de 3 milhões de mortes.
Joseph Kabila (1971-), filho de Laurent Kabila, assumiu o poder em 2001 com propostas de paz e de reorganização do país. Seu mandato terminou em 2019, sem a pacificação prometida. A crise econômica agravou os conflitos étnicos e o confronto entre grupos armados e o Exército congolês, que disputam territórios ricos em recursos naturais. 
De acordo com dados de 2022 da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), o aumento da violência forçou mais de 5,6 milhões de congoleses a se deslocar dentro do país e outro milhão a buscar refúgio em outros países da África.

Chifre da África 


O Chifre da África é uma sub-região da África Subsaariana, constituída por Quênia, Somália, Etiópia, Eritreia e Djibuti, apresentando graves problemas como pobreza, fome, guerras, disputas internas, secas e pirataria.
Os dois maiores países da região, Etiópia e Somália, estiveram envolvidos em uma disputa pelo deserto de Ogaden, território etíope ocupado por somalis. Em 1988, um acordo incorpo rou esse território à Etiópia. Os somalis que viviam na região tiveram de voltar para a Somália ou seguir como refugiados para o Quênia. 
Desde a década de 1990, a Somália enfrenta uma guerra civil entre vários clãs rivais, apesar de esses clãs pertencerem ao mesmo grupo étnico. Apesar da ajuda de soldados estrangeiros entre 1992 e 1995, a guerra continuou, pois não há um governo central forte capaz de conter os conflitos internos, os diferentes grupos rebeldes e as milícias que controlam consideráveis trechos do território somali, como a milícia radical islâmica Al-Shabab e grupos de piratas que atuam no litoral.
Além dos atentados terroristas frequentes, os grupos radicais impedem a entrada de ajuda humanitária por organizações internacionais. O país também é atingido por graves episódios de secas, como os ocorridos em 2011, 2017, 2021 e 2022. Depois de dez anos de crescimento econômico, a Etiópia entrou em uma guerra civil no final de 2020, opondo o Exército etíope aos rebeldes da Frente Popular de Libertação do Tigré (região situada no norte do país). A guerra fez com que outras etnias entrassem em conflito em diversas regiões.

Primavera Árabe 


As revoltas populares ocorridas em países do Norte da África a partir de 2010 evidenciaram o descontentamento da população em relação aos líderes ditadores que enriquece ram no poder ao longo de décadas, enquanto a população era mantida em condições de pobreza extrema. Cansada dos desmandos de governos autoritários, a população protestou por mudanças.
O primeiro resultado do movimento se deu na Tunísia: a queda do ditador Zine El Abidine Ben Ali (1936-2019), que comandara o país por 23 anos (1987-2011). No Egito, após 30 anos no poder (1981-2011), o ditador Hosni Mubarak (1928-2020) renunciou à presidência do país. Por sua vez, Muammar Kadafi (1942-2011) perdeu, em 2011, o governo da Líbia, que estava sob sua ditadura desde 1969. Em seguida, os conflitos atingiram o Marrocos e a Argélia. 
Esse movimento ficou conhecido como Primavera Árabe, alastrando-se para países do Oriente Médio. Apenas na Tunísia se pode dizer que houve mudanças positivas, pois em alguns deles se instalaram outros regimes ditatoriais.


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