domingo, 8 de fevereiro de 2026

A conquista da África pelos europeus

O desenvolvimento do capitalismo comercial no século XVI desencadeou a expansão ultramarina europeia. Por meio das Grandes Navegações, os europeus passaram a dominar territórios em outros con tinentes e neles praticar a pilhagem de recursos.
Até o início do século XIX, no entanto, em razão da resistência das populações nativas e das dificuldades impostas pelo meio natural, sobretudo devido à ocorrência de malária, a exploração da África não ultrapassou as áreas litorâneas, onde eram obtidos metais preciosos e também africanos escravizados, que poste riormente eram transportados às colônias americanas. A região próxima à costa ocidental da África foi a principal fornecedora de africanos para o tráfico de escravizados. Estima-se que cerca de 15 milhões de africanos foram capturados e enviados a colônias americanas.

O século XIX e a partilha da África

A Revolução Industrial ocorrida no século XVIII, primeiro na Inglaterra e depois em países como França, Bélgica e Alemanha, acarretou significativas mudanças no espaço geográfico mundial. Além de intensificar as relações comerciais de pro dutos industrializados, ampliou a necessidade de novas fontes de matérias- -primas e mercados consumidores.
Buscando suprir essas necessidades e com o objetivo de ampliar a dominação política e cultural sobre outros povos do mundo, várias nações europeias, como França, Portugal e Inglaterra, passaram a desenvolver, a partir do século XIX, uma nova fase do expansionismo voltada para a colonização da África, da Ásia e da Oceania, conhecida como imperialismo.
Para legitimar o imperialismo do século XIX, os europeus chamaram esse período de missão civilizadora. De acordo com as potências europeias, cabia aos colonizadores europeus repassar seus conhecimentos científicos, religiosos e cul turais para que fossem incorporados ao modo de vida dos povos dominados, pois do ponto de vista europeu tais povos eram considerados selvagens ou “atrasados”, e por isso era preciso civilizá-los.
Entre 1884 e 1885, uma série de encontros diplomáticos ocorreram no contexto da Conferência de Berlim, resultando no início do processo de divisão territorial da África entre as principais potências europeias.
Até 1914, ano que daria início à Primeira Guerra Mundial, praticamente todos os territórios africanos foram colonizados pelas potências europeias, dando ori gem à divisão do continente evidenciada no mapa desta página (após a guerra, as colônias alemãs foram passadas para o Reino Unido e a Bélgica).
O imperialismo na África resultou na formação de colônias cujos limites não coincidiam com as fronteiras cul turais dos povos e reinos já estabele cidos no continente. Dessa forma, di ferentes etnias foram agrupadas em um mesmo território colonial ou tiveram seus territórios culturais separa dos entre duas ou mais colônias.
Durante o imperialismo, parte do valor excedente proveniente da atividade industrial na Europa foi direcio nada à África sob a forma de financia mentos para a construção de obras públicas, como escolas, hospitais, ferrovias, rodovias e portos. Essas obras de infraestrutura tinham como objeti vo a ampliação do grau de exploração das atividades minerais, energéticas e agrícolas do continente.
No entanto, a estrutura econômica das colônias beneficiava somente os europeus. Os africanos eram tratados como reserva de mão de obra nas colônias, trabalhando em plantations ou em áreas mineradoras exploradas por empresas coloniais europeias.

África: aspectos físicos e ambientais

O continente africano abriga 54 países independentes (e o Saara Ocidental) e ocupa uma área de 30,3 milhões de km²,  o que corresponde a 20,1% das terras emersas do planeta. A África é o terceiro continente mais extenso da superfície terrestre, menor apenas que a Ásia e a América.
O continente africano apresenta uma extensa área costeira e é banhado pelo oceano Atlântico (a oeste), pelo oceano Índico (a leste), pelo mar Mediterrâneo (a norte) e pelo mar Vermelho (a nordeste). Ele é atravessado pela linha do Equador em sua área central e pelos trópicos de Câncer (a norte) e de Capricórnio (a sul).
Entre as úmidas florestas tropicais, situadas no centro do continente, e os secos desertos, localizados tanto na porção sul como na porção norte, são muitos os aspectos naturais que contribuem para formar suas diferentes paisagens. 
Com base nos critérios étnico e cultural, o continente africano pode ser regionalizado em dois conjuntos: África do Norte e África Subsaariana .

África do Norte


A África do Norte compreende sete unidades políticas. São seis Estados independentes e um território que busca a independência – o Saara Ocidental, exSaara Espanhol, ocupado pelo Marrocos desde 1975.
A paisagem da região norte da África é dominada pela presença do deserto do Saara e do clima árido. Em termos culturais, é marcante a influência árabe. A maioria dos habitantes dos países que se localizam na região – Egito, Líbia, Argélia, Tunísia e Marrocos – adotou o islamismo como religião e fala variantes regionais do árabe, línguas berberes e diversos dialetos; são faladas também línguas dos colonizadores, como o francês na Argélia. 
Com a invasão dos árabes nos séculos VII e VIII, ocorreu a arabização da África do Norte. Esse fato explica, portanto, a predominância regional da população árabe, da língua árabe e da prática do islamismo. 
Costuma-se também considerar uma subdivisão regional na África do norte: a Argélia, a Tunísia e o Marrocos formam o Magreb (do árabe, que significa ‘onde o Sol se põe’), a porção mais ocidental do mun do árabe, uma região marcada pela presença da cadeia do Atlas na fachada litorânea. Essa cordilheira barra a entrada da massa de ar que vem do mar e concentra a umidade na faixa litorânea, onde o clima é mediterrâneo.
A Cadeia do Atlas favorece o povoamento na África do Norte, sobretudo no Magreb. Entre o Atlas e o Mar Mediterrâneo, estendem-se planícies férteis de clima mediterrâneo, densamente povoadas, onde se cultivam vários produtos, como cereais, uvas, oliveiras, e ocorre a ex ploração mineral de fosfato. Ao sul da Cadeia do Atlas surge o Deserto do Saara, cujo principal recurso mineral é o petróleo.

África subsaariana


Essa região, que abrange os países da África situados ao sul do Deserto do Saara, apresenta população predominantemen te negra e minorias brancas descendentes dos colonizadores europeus e asiáticos (indianos, chineses, indonésios etc.). Destaca-se aí a multiplicidade de crenças e religiões – islamismo, cristianismo, judaísmo, crenças tradicio nais africanas etc.
A paisagem da África subsaariana é marcada pelas grandes extensões de savanas e de florestas, apesar de haver desertos em sua porção meridional, como o Kalahari, no sudoeste do continente. Do ponto de vista étnico, com exceção de poucas concentrações de população branca descendente dos colonizadores europeus, essa região da África é composta majoritariamente de população negra de diversas etnias. Em Angola, por exemplo, há 10 etnias, com destaque numérico para os ovibundos (37% da população) e quimbundos (25%). Esses povos foram trazidos para o Brasil no período da escravidão e deram importante contribuição à cultura brasileira. Na África do Sul, existem 11 etnias, entre as quais estão os zulus e os xhosas, as duas mais numerosas. Nelson Mandela (1918-2013), o primeiro presidente negro do país, era da etnia xhosa. Na Nigéria, o país africano mais populoso (em 2017, segundo o Banco Mundial, eram 191 milhões de habitantes), coexistem mais de 250 etnias, com destaque para o grupo hauça e fulani, que perfazem 29% da população.
Existe um predomínio do islamismo no país, sobretudo no norte (ele é adotado por 50% dos nigerianos). No sul, muitos dos habitantes são cristãos, religião seguida por cerca de 40% da população. Os outros 10% praticam religiões animistas, adotadas por diversos grupos étnicos do país. Muitos iorubas, por exemplo, são animistas, mas, de forma sincrética, agregam elementos das outras duas religiões.
No período colonial (entre os séculos XVI e XIX), muitos iorubas foram escravizados e trazidos para a América. No Brasil, eles eram chamados de nagôs e foram responsáveis pela introdução do candomblé, religião afro-brasileira seguida por parte da população brasileira. O candomblé possui elementos animistas (os orixás, por exemplo, os deuses dessa religião, representam diversos elementos da natureza), mas de maneira sincrética, porque também incorporou elementos do cristianismo (os orixás, por exemplo, são associados aos santos católicos).
Além dos aspectos culturais e étnicos apresentados, a África Subsaariana se caracteriza por ser uma região do continente africano onde a pobreza atinge grande parcela da população. É aí que se localizam os países com os menores IDHs (baixos) do mundo em 2019, como Sudão do Sul (0,433), Chade (0,398), República Centro-Africana (0,397) e Níger (0,394).
Embora cerca de 60% da população economicamente ativa da África Subsaariana se dedique à agricultura, o déficit de alimentos gera subnutrição e fome. Essa situação é agravada pelas secas na região do Sahel e pelas guerras civis, que arrasam plantações e dificultam a entrega de alimentos pela ajuda humanitária.
A agricultura na África Subsaariana apresenta uma distorção: enquan to as plantations (cacau, café, algodão, amendoim, chá, banana etc.), controladas principalmente por empresas europeias, ocupam cerca de 40% da superfície agrícola, abrangendo as melhores terras cultiváveis, a agricultura de subsistência ocupa as terras menos férteis e con vive com a falta de crédito e de assistência técnica, apresentando baixa produtividade. A oposição entre a agricultura de exportação e a agricul tura de subsistência é uma herança do colonialismo que perdura nos dias atuais.

Relevo e hidrografia


No relevo da África destacam-se extensos planaltos, atravessados por rios caudalosos que formam planícies fluviais, aproveitadas para a agricultura, e montanhas de elevadas altitudes: a Cadeia do Atlas, na porção norte do continente; o Monte Camerun, próximo ao Golfo da Guiné; os Montes Drakensberg, na África do Sul; e os montes Ruwenzori, Quênia e Quilimanjaro – este, situado na Tanzânia, com 5895 m de altitude, é ponto culminante do território da África.

O relevo africano


No relevo do continente africano, predominam planaltos, que apresentam formas e altitudes variadas, formados por rochas muito antigas, datadas da era Pré-Cambria na (com mais de 2 bilhões de anos). Devido à origem antiga desses terrenos, os planaltos apresentam-se desgastados e aplainados por longos processos erosivos, fato que explica o predomínio de altitudes modestas (abaixo de 1000 metros) na maior parte do continente.
O fato de todo o continente pertencer à mesma placa tectônica e grande parte de sua borda estar distante da costa, contribui para isso. No entanto, existem algumas áreas com maiores elevações, como a cadeia do Atlas.
O relevo da África tem como aspecto marcante a presença de grandes planaltos, que dão origem a rios sinuosos e extensos. Na África Oriental, um grande complexo de falhas geológicas entremeadas por planaltos fez surgir paisagens únicas, marcadas por grandes vales e vulcões – estes representam as maiores elevações do continente, os montes Kilimanjaro e Quênia –, além de lagos, como o Vitória, o Tanganica e o Niassa.
As regiões montanhosas mais elevadas do relevo africano são: 
• Cadeia do Atlas: situada no noroeste do continente, chega a atingir mais de 4 mil metros de altitude; seu soerguimento iniciou-se há cerca de 300 milhões de anos, na era Paleozoica.
• Maciços montanhosos na região centro-oriental: formados por movimentos orogênicos antigos, ocorridos na era Paleozoica. Há cerca de 70 milhões de anos, novos movimentos tectônicos provocaram falhas geológicas e grandes derrames de lavas sobre essas antigas formações. Essas falhas originaram o chamado Rift Valley, uma região marcada por grandes montanhas e profundas depressões. 
O Rift Valley é um conjunto de falhas tectônicas na área oriental do continente africano. Nessa área, a placa tectônica africana se divide em duas menores que se movimentam em sentido contrário, produzindo uma intensa atividade vulcânica. Isso deu origem a elevações e falhas, que, por sua vez, originaram os grandes lagos da África: o Vitória e o Tanganica.
Nesse maciço, estão as mais elevadas altitudes do continente (como o Quilimanjaro, ponto mais alto da África, com 5895 metros de altitude). 
Se o movimento das placas continuar, é provável que em alguns milhões de anos as placas se se parem, originando uma enorme depressão inundada pelas águas oceânicas.
As partes mais baixas do relevo são formadas principalmente pelas estreitas planícies costeiras, que apresentam altitudes reduzidas (abaixo de 200 metros) ao longo de praticamente todo o litoral africano.
Nas depressões, formaram-se alguns dos maiores lagos africanos, como o Tanganica e o Vitória, onde estão as nascentes do rio Nilo.
Devido à ocorrência de planaltos próximos às bordas do continente, parte dos rios são endorreicos, ou seja, não deságuam nos oceanos, mas em lagos ou depressões no interior da África. Como exemplos, temos o Chari, rio que deságua no Lago Chade, na borda sul do Saara, e o Rio Cubango, desaguando no interior do Deserto do Kalahari. 
Apesar do predomínio de planalto com altitudes não muito elevadas, no norte do continente há cadeias montanhosas formadas por dobramentos modernos, como a cadeia do Atlas, resultado do encontro da placa Africana com a placa Euro-Asiática. Também a nordeste, encontra-se o planalto dos Grandes Lagos, região de encontro de placas menores, mas de intensa atividade tectônica. Nessa área se encontram as terras mais altas do continente, com destaque para o monte Quilimanjaro, de origem vulcânica.
O monte Quilimanjaro está localizado na Tanzânia, próximo à fronteira com o Quênia, em um parque nacional considerado patrimônio da humanidade pela Unesco. É um vulcão inativo com 5 892 metros de altitude, o mais alto da África. Apesar de estar na zona tropical do planeta, devido à altitude elevada, seu topo é coberto de neve.
Segundo um estudo publicado nos Anais da Academia Nacional de Ciências (Estados Unidos), a cobertura de gelo do monte Quilimanjaro reduziu cerca de 85% entre 1912 e 2007. Alguns cientistas apontam que o derretimento da neve resulta do aquecimento global, mas não há consenso sobre isso.

Tectonismo


A porção nordeste da placa Africana se divide em duas placas menores (a Núbia e a Somali), que se deslocam em sentido contrário. Esse deslocamento deu origem a uma intensa atividade vulcânica, que fez surgir as altas montanhas do leste africano e, ao mesmo tempo, as enormes falhas tectônicas (Great Rift Valley) que deram origem aos Grandes Lagos, como o Vitória e o Tanganica.
Se esse deslocamento continuar ocorrendo, após milhões de anos a placa Somali poderá se desprender da porção maior da placa Africana e dar origem a uma grande “ilha” no oceano Índico. Em razão dessa atividade tectônica, a África oriental está sujeita a terremotos e atividade vulcânica.

Rede hidrográfica 


A rede hidrográfica africana está distribuída de maneira irregular pelo território, fato que se explica principalmente pela existência dos diferentes domínios climáticos do continente.
Os maiores e mais importantes rios africanos concentram-se na área central do continente, área dominada pelos climas equatorial e tropical, tipicamente chuvosos. Essas chuvas abastecem as nascentes e o curso dos grandes rios, como o Nilo, o Congo e o Níger, além de seus respectivos afluentes.
Nas áreas com predomínio de climas secos (áridos e semiáridos), os rios são escassos e, em geral, apresentam regimes temporários, secando completamente durante certos períodos do ano. A população dessas áreas sofre os efeitos da escassez de água, tanto para o abastecimento quanto para o desenvolvimento de diversas atividades, sobretudo agrícolas.
A exceção é o rio Nilo, que, apesar de grande parte de seu curso percorrer área de deserto, mantém-se perene, pois sua nascente e as nascentes de alguns de seus afluentes se encontram em áreas em que ocorrem chuvas frequentes.
As montanhas e os planaltos interiores formam os principais divisores de água do continente e delimitam as maiores bacias hidrográficas. 
A maioria dos rios corre para o mar, como o Nilo, o Congo e o Níger, que são os mais extensos do continente. Dos rios que correm para o interior do continente, destaca-se o Okavango. 
Os principais rios do continente africano formam extensas bacias hidrográficas.
Bacia do Rio Congo: localiza do na África Central, o Congo é um dos mais longos e caudalosos rios africanos, navegável na maior parte de seu curso. Além de abrigar áreas com densa vegetação de Floresta Tropical, essa bacia constitui uma importante rede de navegação e comunicação na região.
A bacia do rio Congo abrange o território de diversos países na África Central, com destaque para a República Democrática do Congo. Esse rio e sua bacia hidrográfica ficam em uma região de elevada pluviosidade, por isso é o segundo do mundo em volume de água, só atrás do rio Amazonas. Apesar do elevado potencial hidrelétrico, especialmente no alto curso, no planalto dos Grandes Lagos, ainda é pouco explorado.
• Bacia do Rio Níger: formada pelo rio mais importante da África Ocidental, cujas águas são utilizadas principalmente para a irrigação de lavouras. Ao chegar a sua foz, no Oceano Atlântico, o Níger forma um rico e verde delta, que vem sofrendo graves impactos ambientais causados pela exploração petrolífera na Nigéria.
O rio Níger também percorre diversos países até chegar à Nigéria (o país mais populoso da África) e desaguar no oceano Atlântico, no golfo da Guiné. Esse rio atravessa regiões com elevada densidade demográfica e, na África, é um dos que mais sofrem com a poluição, causada por lançamentos de esgotos residenciais e industriais. Outro grande foco de poluição é o derrame de petróleo, sobretudo na região do delta do Níger, vazado de oleodutos de empresas petrolíferas estrangeiras. 
• Bacia do Rio Nilo: o Nilo nasce no Lago Vitória, na África Oriental, e a maior parte de seu curso está em meio ao Deserto do Saara. Deságua no Mar Mediterrâneo, no Egito. Durante milênios, as cheias do Nilo e a deposição de sedimentos ao longo de suas margens garantiram a fertilidade dos solos para a prática agrícola. No entanto, a partir do século XX, a construção de barragens alterou o regime das cheias do rio. Dessa forma, algumas áreas localizadas às margens do Nilo hoje necessitam de fertilização artificial.
O rio Nilo, com seus 6 852 quilô metros de extensão, desde a nascente no lago Vitória até a foz no mar Me diterrâneo (no Egito), é o segundo mais longo do mundo (só perde para o Amazonas, 140 quilômetros mais extenso). O Nilo nasce em uma região de clima tropical, onde o verão é chuvoso, e recebe muita água, sobretudo de seus afluentes que nascem no planalto da Etiópia. Esse rio é muito importante porque atravessa o deserto do Saara e suas águas são utilizadas para navegação, irrigação e geração de energia nos países abrangidos por sua bacia.
Desde a Antiguidade, as águas do Nilo são usadas para a irrigação, e as chuvas de verão provocavam cheias que fertilizavam naturalmente o solo de suas margens com a deposição de sedimentos orgânicos, favorecendo a prática da agricultura. No período da seca, porém, o volume de água era insuficiente. A construção de barragens, como a de Assuã, no Egito, além de gerar energia hidrelétrica, permitiu controlar o nível das águas, tornando seu fluxo mais constante ao longo do ano e favorecendo a irrigação. 
A usina de Assuã, inaugurada em 1970 e com capacidade instalada de 2 100 MW, durante muito tempo foi a maior hidrelétrica africana. Atualmente, está em construção a Grande Barragem do Renascimento Etíope, localiza da no rio Nilo Azul, afluente do rio Nilo, em território da Etiópia, com capaci dade instalada de 6 450 MW. Essa usina, que será a maior da África, fica perto da fronteira com o Sudão, um dos países que também devem se beneficiar da energia elétrica produzida. 
No entanto, a enorme represa necessária para o funcionamento das turbinas reterá maior quantidade de água em uma das cabeceiras da bacia do rio Nilo, o que em época de seca poderá fazer falta ao Sudão e sobretudo ao Egito, que está mais perto da foz e tem a maior parte do território no deserto. Esses países da bacia do Nilo precisam gerir seus recursos hídricos de forma combinada e equilibrada para evitar futuros conflitos pelo uso da água. 
Na África já há um exemplo de gestão compartilhada das águas de um rio e sua bacia hidrográfica: trata-se da Comissão Permanente das Águas da Bacia Hidrográfica do Rio Okavango (OKACOM). Essa comissão foi criada em 1994 por Angola, Namíbia e Botsuana para gerir os recursos hídricos do rio Okavango, que atravessa seus territórios. Durante muito tempo a guerra civil em Angola (1975-2002) limitou as atividades da OKACOM, e só após a assinatura do acordo de paz os membros dessa comissão puderam ter segurança para desenvolver seu trabalho.

O clima e as formações vegetais 


A maior parte das terras do continente africano está localizada na zona intertropical da Terra, ou seja, entre os trópicos de Câncer e de Capricórnio. Apenas os extremos norte e sul estendem-se pelas zonas temperadas. Em razão dessa posição geográfica, a África recebe grande radiação solar, o que explica o predomínio de climas com temperaturas elevadas na maior parte de seu território.
Esses climas, no entanto, apresentam diferenças quanto aos índices de precipitações: enquanto o clima equatorial é chuvoso, o clima desértico é extremamente seco. As diferenças climáticas existentes no território explicam, por sua vez, a grande diversidade de formações vegetais que caracteriza as paisagens africanas.  Em seguida, conheça suas principais características.
O clima Equatorial é caracterizado por elevados índices pluviométricos, chuvas bem distribuídas ao longo do ano, temperaturas médias anuais na faixa dos 25 °C e pouca variação na amplitude térmica, ou seja, na diferença entre a temperatura máxima e a mínima. 
Esse clima favorece o desenvolvimento da floresta equatorial, densa e com grande diversidade de espécies animais e vegetais, assim como da floresta do Congo, segunda maior floresta tropical do mundo, superada apenas pela Amazônia. Ela se estende por seis países da África, ocupando a porção centro-ocidental do continente.
O clima Tropical é caracterizado por duas estações bem definidas: uma seca (inverno) e outra chuvosa (verão), com índices pluviométricos em torno de 1 000 mm. 
O clima Desértico é marcado por baixíssimos índices pluviométricos e grandes oscilações de temperatura: durante o dia, o forte calor faz a temperatura atingir quase 50 °C; à noite, em razão da rápida perda de calor do solo (ex tremamente seco), as temperaturas caem bruscamente, chegando a menos de 15 °C. 
Nesse clima, predominam as savanas, vegetação forma da por árvores e arbustos geralmente dispersos na paisagem, com capim e gramíneas que cobrem os solos. Na savana, vivem os grandes mamíferos, como leões, zebras, elefantes e girafas.
O clima Semiárido é caracterizado por chuvas escassas e irregulares ao longo do ano (quando acontecem, costumam ser concentradas em um curto período), com ocorrência de períodos de secas prolongados. 
Nessas áreas, a vegetação são as estepes, compostas principalmente de gramíne as, arbustos e árvores dispersas na paisagem.
O clima Mediterrâneo é marcado pela influência da maritimidade e as tem peraturas médias anuais situam-se entre 15 °C e 20 °C, com as chuvas se con centrando no período do inverno. Nessas áreas, as condições são favoráveis aos cultivos de uvas, azeitonas, frutas e cereais.
Nessas áreas, em geral, desenvolvem-se plantas arbustivas. São chamadas de garrigues quando apresentam pequeno porte e aparecem mais esparsas na paisagem, ou de maquis quando são mais densas e fechadas.
O clima temperado ocorre em pequenas áreas da parte oriental do continente, onde se encontram altitudes mais elevadas, e no extremo sul, onde atuam os ventos vindos do litoral. Esse clima é caracterizado pelas quatro estações bem definidas ao longo do ano: verão relativamente quente e mais seco que o inverno, outono com temperaturas que vão diminuindo com o passar dos dias, inverno frio e primavera com temperaturas em elevação.
Nas áreas menos frias, desenvolvem-se as savanas. Já nas áreas de maior altitude, onde as médias de temperatura tendem a diminuir, desenvolve-se a vegetação de altitude, com predomínio de vegetação de pequeno porte, como as gramíneas e os arbustos esparsos.
O Clima desértico ocorre em uma extensa faixa mais ao norte do continente, no deserto do Saara, e no sudoeste, nos desertos da Namíbia e do Kalahari. Nesse clima, as chuvas são extremamente escassas (abaixo de 250 mm anuais) e a amplitude térmica varia muito ao longo do dia (as temperaturas podem chegar aos 50 °C durante o dia e cair para abaixo de 0 °C à noite).
A superfície dos desertos, em geral, é coberta por dunas de areia e solos pedre gosos. A vegetação é escassa e adaptada aos rigores do clima, a exemplo dos cactos e de certas espécies de palmeiras e plantas rasteiras. Onde afloram os lençóis de água do subsolo desenvolvem-se os oásis, áreas geralmente férteis, devido à presença de água. 
Nos desertos, podemos encontrar também alguns animais adaptados à escassez de água e à variação de temperatura, como o camelo.

Formações vegetais 


Os tipos de vegetação encontrados no continente africano estão associados aos climas. Na África, localizam-se grandes desertos: o Saara, no Norte (o maior do mundo), o Kalahari e o deserto da Namíbia, no Sudoeste. Nessas áreas, a vegetação praticamente inexiste. Entre tanto, no Saara existem diversos oásis, nos quais se destaca a pre sença de palmeiras e a produção de tâmaras. 
Na porção centro-ociden tal do continente africano, onde predomina o clima Equatorial, destaca-se a Floresta Equatorial (na África central, é denomina da Floresta do Congo), densa e constituída por árvores de grande porte.
Em áreas de ocorrência de clima Tropical, a vegetação pre dominante é a Savana, forma ção bastante diversa, em geral caracterizada pela vegetação rasteira, arbustos e árvores es parsas (semelhante ao Cerrado do Brasil). Em áreas de clima Me diterrâneo, as vegetações características são o Maqui e o Garrigue, além de florestas de pinheiros e carvalhos em alguns trechos. Já nas áreas de clima semiárido, ocorre a vegetação de Estepe (pradarias).
Algumas regiões da África apresentam grande biodiversidade, com desta que para a ocorrência de espécies endêmicas e grandes mamíferos. Para a con servação desse patrimônio, áreas protegidas têm sido criadas pelos governos de diversos países.
Destacamos a seguir algumas características desses tipos climáticos e das formações vegetais.

Floresta Tropical 

Na porção equatoriana da África Central, onde prevalece o clima equatorial, quente e chuvoso, desenvolve-se a Floresta Tropical do Congo. Outras florestas desse tipo existem também na África Ocidental.

Savanas 

Esse tipo de formação vegetal é semelhante ao Cerrado brasileiro, composto por campos de gramíneas, arbustos e árvores esparsas que se desenvolvem sob o clima tropical. Ocorrem, principalmente, ao longo da zona tropical do planeta. Na África Oriental, as Savanas abrigam animais emblemáticos, como elefantes, girafas e leões.

Estepes e Pradarias 

Ao norte e ao sul do continente, próximo às áreas dos desertos, o clima semiárido propicia o desenvolvimento da vegetação de Estepes e Pradarias. Essa formação é composta de espécies que se mostram bem adaptadas a condições de aridez dos solos e longos períodos de estiagem associados a esse tipo climático.

Vegetação Mediterrânea 

Nos extremos norte e sul da África, atua o clima mediterrâneo, com forte influência da maritimidade e marcado por verões quentes e secos e invernos frescos e chuvosos. Nessas regiões, verifica-se a ocorrência da Vegetação Mediterrânea.

Desertos 

Nas porções norte e sudoeste do continente, onde o clima é extremamente seco, situam-se os desertos do Saara e da Namíbia, respectivamente. A vegetação presente é escassa devido à falta de água nessas regiões, onde as chuvas são extremamente raras. As espécies que conseguem sobreviver nessas condições são, em geral, caracterizadas por apresentarem raízes profundas e muito espalhadas para a captação de águas subterrâneas, além de folhas na forma de espinhos.

A  desertificação do Sahel


No continente africano, as áreas desérticas vêm se ampliando nas últimas décadas. Esse fenômeno, que atinge principalmente as regiões semiáridas, é parcialmente explicado pelo desmatamento e pela prática indevida de atividades agropecuárias nas áreas que margeiam os desertos. 
Um exemplo é a região do Sahel, que ocorre ao longo de uma faixa na margem sul do deserto do Saara, de clima Tropical Semiárido e caracterizada por uma vegetação de Estepe em sua porção setentrional e pela Savana na parte meridional. 
No Sahel, constantes derrubadas de árvores para o estabelecimento de atividades agropastoris e o aprovei tamento da madeira, muitas vezes a única fonte de energia das populações locais, vêm intensificando o fenômeno da desertificação e tornando a região ainda mais vulnerável às mudanças climáticas.
A desertificação acarreta sérios problemas para as sociedades que habitam as áreas afetadas e, desde o final do século XX, governos de alguns países, organizações não governamentais (ONGs), e comunidades locais vêm adotando ações de combate ao processo de desertificação no Sahel, com relativo sucesso. 
Um exemplo é o reflorestamento da região a partir do plantio de árvores, bloqueando o vento que traz a areia do deserto em direção ao Sahel e contendo o avanço da desertificação. Além disso, a criação de hortas e pomares ajuda a desenvolver as economias locais. 

Os oásis 


Oásis são áreas com presença de água e vegetação localizadas em regiões de deserto. Há diferentes tipos de oásis, que podem se formar tanto em áreas perto de rios como em locais onde o lençol freático está mais próximo da superfície, proporcionando solos férteis e a ocorrência de “ilhas verdes” de vegetação em meio à paisagem desértica. Nos países com territórios no Deserto do Saara, entre eles Argélia, Marrocos, Líbia e Egito, os oásis desempenham um papel social e econômico fundamental em meio ao maior deserto do mundo. 
As fontes de água naturais e os solos férteis são utilizados por comunidades locais para sustentar cultivos agrícolas, viabilizando a produção de gêneros como a tâmara, um importante produto dos oásis do Saara, inclusive para exportação. 
No entanto, diversos oásis importantes do Deserto do Saara já enfrentam problemas por conta do avanço da desertificação, que afeta tanto a produção agrícola e pecuária como a vida das pessoas nessas regiões. Tais alterações se devem a fatores como as mudanças climáticas, o uso excessivo das águas para irrigação e a prática inadequada de atividades agropecuárias. 
No Marrocos, por exemplo, os oásis não têm sido mais suficientes para atender às demandas das comunidades que deles dependem. Por causa disso, o governo do país investe na captação artificial de águas subterrâneas. Por meio de técnicas como a escavação e a manutenção de poços artesianos, barragens ou canais de irrigação, são desenvolvidos oásis artificiais para suprir as necessidades da população. 
 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Globalização e exclusão social


A globalização integra os países de forma desigual: enquanto alguns participam de maneira desvantajosa, endividando-se e tornando-se mais pobres, outros se beneficiam e enriquecem ainda mais, aumentando a concentração de riqueza. Além do aumento das disparidades econômicas entre os países, pode-se identificar o crescimento das desigualdades socioeconômicas internas, isto é, entre distintos grupos populacionais dentro de cada território.
De maneira geral, todos os países têm apresentado um processo de intensificação da concentração de riqueza nas mãos de uma elite econômica ligada a negócios globais, como as grandes corporações. Ao mesmo tempo, verifica-se um processo de crescimento da pobreza e das condições precárias de vida. 
Nos países pobres, a concentração de renda é mais acentuada do que nos países desenvolvidos. O Índice de Gini, indicador social amplamente utilizado para medir a desigualdade, analisa a distribuição de renda ou riqueza de uma nação. Nesse índice, o 0 representa a igualdade absoluta e o 100, a desigualdade total.

Trabalho e globalização

O processo de globalização impacta diretamente o mercado de trabalho global. De modo geral, ele acarreta a redução de postos de trabalho nos setores industrial, agropecuário e de mineração, ao mesmo tempo que amplia o setor de serviços. A redução do número de empregos nos setores primário e secundário decor re da ampliação do uso de tecnologias aplicadas à produção na indústria e no campo. Algumas atividades do setor de serviços também são altamen te impactadas pelo uso de novos aparatos técnicos.
No contexto global, os trabalhos braçais e/ou técnicos, realizados no interior das fábricas e nas lavouras, são cada vez mais substituídos por máquinas. A automação se amplia cada vez mais, substituindo trabalhadores por robôs. Por outro lado, aumenta a oferta de postos de trabalho que exigem pessoas altamente qualificadas. Muito embora esses empregos componham apenas uma pequena parcela do mercado mundial de trabalho, constituem as ocupações mais bem-remuneradas e de maior prestígio social, o que expressa a importância que a ciência e a tecnologia assumiram no mundo globalizado.
O processo de modernização tecnológica nos espaços urbanos e rurais dá origem ao desemprego estrutural em todas as partes do mundo. No atual cenário do mundo do trabalho, observa-se também um processo de precarização das relações de trabalho, o que significa a perda de direitos por parte dos trabalhadores. 
Os grandes grupos empresariais, por exemplo, passaram a contratar seus funcionários ou prestadores de serviços indiretamente, por meio de outras empresas que se encarregam dessa tarefa. A mão de obra contratada, ao final de um projeto, pode ser liberada, sem a necessidade do pagamento de encargos trabalhistas como férias, 13° salário e Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) por parte da empresa contratante. Esse processo é conhecido como terceirização das atividades.
Por um lado, essa realidade da globalização econômica tem contribuído para a redução do poder de negociação dos sindicatos com a classe empregadora. Por outro lado, as tecnologias de comunicação e informação que sustentam essa globalização têm contribuído para a emergência de novas formas de luta dos movimentos sindicais. Há, por exemplo, experiências de organização em rede de trabalhadores na área automobilística que se articularam globalmente em torno de objetivos comuns.

Luta por melhores condições de vida 

A globalização não tem beneficiado a todos. As desigualdades intensificadas por esse processo afetam a vida de milhões de pessoas no mundo que se encontram na condição de marginalização ou exclusão dos benefícios da globalização. Como resultado, a sociedade civil tem encontrado novas formas de se organizar para lutar por direitos e condições dignas de vida. 
Os movimentos sociais adquirem crescente importância política. Eles são muito diversos entre si, mas atuam de forma coletiva, estimulando relações de solidariedade para enfrentar os diferentes desafios.
Na América Latina, há inúmeros movimentos sociais, tanto em contextos urbanos quanto rurais. Alguns exemplos são o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), no Brasil; os Piqueteros, movimento iniciado por trabalhadores demitidos de uma empresa petrolífera nos anos 1990, na Argentina; movimentos de resistência à instalação de empresas de exploração de água em diversos países, como a Guerra da Água, na Bolívia; os Pobladores, no Chile, um movimento de luta por moradia. 
Há também uma série de movimentos sociais ligados a uma causa ou a determinadas categorias, que se organizam para reivindicar direitos e defender objetivos ou interesses. Entre eles, incluem-se os movimentos ambientalista, negro, LGBT, feminista, das mulheres trabalhadoras rurais, extrativistas, indígenas e quilombolas. 
Os movimentos sociais utilizam uma série de estratégias de mobilização, aproveitando os avanços técnico-científicos das comunicações e buscando articulação com outros movimentos em diversas partes do mundo. Essas articulações possibilitam visibilidade e fortalecimento.



quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

As crises financeiras e econômicas de 2008 e 2011


De modo geral, o que desencadeia e alimenta as crises econômicas, atualmente, é a falta de regulamentação do mercado financeiro global.
A crise de 2008 resultou de vários fatores, especialmente do preço elevado dos imóveis e da larga oferta de créditos para sua compra nos Estados Unidos, voltada à população de baixa renda e, portanto, com alto risco de inadimplência, ou seja, impossibilidade de pagamento.
Apesar dos riscos, os créditos eram concedidos e as dívidas se tornavam papéis negociáveis no mercado financeiro. As negociações desses papéis, conhecidos como “títulos podres”, cujo valor fictício não tinha garantia real, criaram uma bolha financeira. Diante dessa situação, a “rolagem” das dívidas e das negociações cessou, causando a “quebra” de diversos bancos.
Em 2011, a crise financeira que atingiu países europeus como Itália, Espanha e Portugal, foi mo tivada pela inadimplência dos governos, que não conseguiram saldar seus compromissos. O país mais afetado foi a Grécia.
Em ambas as situações, os governos tiveram de emitir dinheiro, ou seja, imprimir mais notas para poder saldar seus compromissos. Uma das consequências desse tipo de ação é o aumento geral dos preços (inflação). As crises provocam o fechamen to de muitas empresas e a demissão de trabalha dores, os mais prejudicados.

Globalização e fluxos de capitais


Globalização financeira

Nas transações bancárias são usados equipa mentos de informática que permitem uma série de ações, como consulta de saldo, conferência eletrô nica de assinatura de cheque, transferência de va lores e saques de dinheiro. Esse sistema operacional composto de uma rede integrada pela informática facilitou muito as negociações financeiras. Algumas operações podem ser realizadas por meio de caixas eletrônicos (figura 10) e pela internet. Em escala mundial, redes de informática espe ciais são usadas para movimentações entre bancos. Uma delas é a rede SWIFT.

Rede SWIFT

A rede SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication – Sociedade de Tele comunicações Financeiras Interbancárias Mundiais) foi criada em 1973. O projeto envolveu 239 bancos de 15 países com o objetivo de facilitar as transações financeiras entre eles. Em pouco mais de quatro décadas de funcionamento, observa-se que a rede SWIFT cresceu extra ordinariamente, o que dá ideia de como a globalização financeira ocorre. Os recursos financeiros percor rem o mundo por meio de redes eletrônicas que permitem conhecer preços em lugares distantes, em tempo real, possibilitando redefinir investimentos.

O sistema financeiro internacional compreende uma ampla rede de satélites, antenas de transmissão e de captação de sinais, sistemas de telefonia, cabos de fibra óptica, entre outros componentes que formam o meio técnico pelo qual circulam os fluxos financeiros, que estão sempre em movimento, percorrendo as bolsas de valores de todo o mundo.
Entretanto, a especulação financeira, ou seja, as operações realizadas com vistas à obtenção de lucros sobre valores sujeitos à oscilação do mercado finan ceiro (altas e quedas do valor comercial de moedas e ações) podem ter efeitos desastrosos. Os investidores não se preocupam com as consequências sociais de seus atos. É comum especuladores retirarem todo o seu dinheiro de bolsas de valores ou de empresas, que acabam sem dinheiro para pagar fornecedores e trabalhadores. Muitas vezes, uma fábrica é comprada e depois fechada sem que sejam avaliados os impactos gerados para seus funcionários e para a economia local. Por isso, nos últimos anos tem aumentado o número de protestos contra o sistema financeiro.

Redes financeiras e dinheiro de plástico

Manifestação contra o sistema financeiro ocorrida em Nova York (Estados Unidos), o centro financeiro do mundo, 2012. Os cartões de crédito e de débito, conhecidos como dinheiro de plástico, são cada vez mais usados nas transações financeiras. Além de serem práticos, eles facilitam o controle das despesas, pois o usuário pode conferir sua lista de gastos por meio de extratos bancários, que trazem indicação de data, horário, valor e local em foi realizada cada operação.
A utilização de cartões de crédito ou de débito é um dos reflexos da globalização financeira. Parte-se do princípio de que o portador tem crédito para pagar o compromisso financeiro que assumiu com o vendedor. Este, por sua vez, confia na empresa que administra o cartão, que lhe repassa o valor negociado, ficando com parte da transação, cobrada como taxa. As empresas administradoras de cartões ganham tanto do comprador quanto do vendedor.
Todo o aparato tecnológico das redes financeiras, na verdade, é montado com o objetivo de remunerar o dinheiro emprestado pelos bancos, que, além dessa fonte, ganham pela cobrança da prestação de serviços oferecidos aos correntistas. Isso significa que o sistema de crédito é necessário para que os bancos obtenham lucro emprestando dinheiro e recebendo um valor maior posteriormente.

Operações ilegais e paraísos fiscais

Parte do dinheiro que circula pelo mundo é oriundo de atividades ilegais ou do crime organizado. Um dos nós dessa rede monetária são as contas secretas, identificadas por códigos numéricos e localizadas em paraísos fiscais. Para mo vimentar essas contas, não é necessário indicar a origem do dinheiro nem se identificar ao banco. Muitos criminosos, políticos corruptos, empresários desones tos e ditadores têm nesses lugares refúgio para o dinheiro obtido por meios ilegais.
Os paraísos fiscais integram a rede de globalização financeira. Nesses locais há pouca ou nenhuma restrição ao livre trânsito de valores, ou seja, o dinheiro entra e sai do território, em geral sem cobrança de impostos, bastando o paga mento de pequenas taxas. Estima-se que existam no mundo mais de 30 paraísos fiscais, como as ilhas Bahamas, Cayman e Seychelles e países como Liechtenstein, Andorra, Mônaco, Suíça e Luxemburgo.
Algumas empresas transnacionais, além de bancos e outras instituições financei ras, usam paraísos fiscais para regularizar seu fluxo de dinheiro. Essas práticas permi tem a remessa de lucros e a integração entre globalização financeira e econômica.

Investimento Estrangeiro Direto (IED)

Quando um país recebe capital estrangeiro na forma de investimento para montar uma fábrica, por exemplo, esse recurso é chamado de investimento pro dutivo direto ou Investimento Estrangeiro Direto (IED). Esse tipo de investimen to tem acompanhado os processos de mudança na DIT. Entre outros processos, os IEDs refletem a desconcentração, ou descentralização, da atividade industrial nos países ricos, acompanhada de sua relativa desindustrialização, e a recentrali zação, dando origem a novos países industrializados desde os anos 1970, com maior intensidade a partir dos anos 1990.
Pelo fato de estarem relacionados à produção de mercadorias e/ou serviços, os IEDs promovem geração de empregos e arrecadação de impostos nos locais onde são aplicados, e o oposto nos locais de onde se retiram. Atrair esses inves timentos, portanto, tornou-se uma característica da atuação dos Estados na for mulação de suas políticas econômicas. A quantidade de recursos externos investidos em um país indica seu nível de participação na globalização da produção. Vale ressaltar, porém, que os IEDs nem sempre trazem benefícios às sociedades, uma vez que os investimentos são rea lizados segundo os interesses das empresas globais, sem considerar as especifi cidades e as necessidades das pessoas que vivem nos locais onde se instalam.
Observa-se que houve grande crescimento dos investimentos estrangeiros diretos no mundo entre 1980 e 2017. Até 2000, o maior fluxo ocorria entre países desenvolvidos. Em 2010, verificou-se um ligeiro equilíbrio no destino dos investi mentos externos entre os países desenvolvidos e os demais. Desde então, até 2017, com algumas oscilações, os países em transição e em desenvolvimento recebe ram, em conjunto, um pouco mais de investimentos que os países desenvolvidos.
Entretanto, os investimentos em países em transição e em desenvolvimento ocorreram de modo concentrado. O Brasil (leia a seção Enquanto isso no Brasil, página 75), a Índia e, principalmente, a China ficaram com a maior parte dos recur sos financeiros aplicados entre 2000 e 2017.
Além disso, nos últimos anos, os pa íses emergentes também passaram a investir em outros países, sobretudo do Sul. A China, por exemplo, realizou ele vados investimentos por meio de suas empresas instaladas na América Latina e na África (figura 15), em especial no setor de mineração e de produção agrí cola: em 2017, destinou volume recorde de recursos para a compra de empresas e ações na América Latina.
No decorrer dos anos 2000, o Brasil, por sua vez, passou a destinar investi mentos aos setores de mineração, cons trução civil e exploração de petróleo em países africanos e latino-americanos. Desde 2013, porém – e especialmente a partir de 2016 –, o país tem atravessado uma crise econômica e política que vem influenciando as entradas e saídas de IEDs. Essa crise inclui o sucateamento de empresas nacionais envolvidas em denúncias e esquemas de corrupção, que eram responsáveis por parte significa tiva dos Investimentos Brasileiros Diretos em outras partes do mundo.
A Índia tem um grande grupo empresarial, fundado em 1868, que opera em cem países, em todos os continentes. Trata-se de um conglomerado que atua nos setores químico, automobilístico e de aço, entre outros. Vale ressaltar que os investimentos em setores primários colaboram para a modernização técnico-científica-informacional dos espaços rurais, promovendo a sua internacionalização.
Esse processo provoca uma série de impactos socioespa ciais, como o reforço da estrutura fundiária concentrada, baseada na monocultu ra; a promoção do desemprego no campo, que leva à migração do campo para a cidade e a precarização da vida nos espaços rurais, por exemplo.

As redes geográficas


A Divisão Internacional do Trabalho fez com que alguns países se especiali zassem na fabricação de determinados componentes de um produto que pode ser apresentado em diferentes versões, como ocorre com alguns jogos eletrôni cos, da mesma forma que determinada peça de automóvel pode ser utilizada na montagem de um modelo de luxo ou de uma versão popular. Existem peças que distinguem os modelos produzidos para o mercado externo daqueles destinados ao mercado interno.
O avanço da globalização trouxe uma nova Divisão Internacional do Trabalho, mais complexa do que a anterior. Inúmeros países exportadores de matérias-primas passaram também a exportar produtos industrializados em grande quantidade, a exemplo da China, que se tornou o maior exportador de produtos industrializados do mundo. Ela ultrapassou países desenvolvidos como a Alemanha, o Japão e os Estados Unidos
Atualmente, muitos países fazem parte da rede geográfica de produção, que compreende todas as etapas produtivas, desde o projeto até o consumo de uma mercadoria. Nos últimos anos, as empresas passaram a incorporar em sua rede geográfica o chamado pós-consumo.

Pós-consumo e consumo consciente

No dia a dia, consumimos muitos produtos, como roupas e alimentos. É preciso, porém, estarmos atentos para não comprar coisas das quais não necessitamos nem jogar fora algo que ainda pode ser útil. Os telefones celulares são um exemplo de descarte precoce. Inicialmente, as empresas de celulares ofereciam a mobilidade como maior apelo de vendas.
Atualmente, os celulares oferecem muito mais recursos: são usados para fotografar, gravar vídeos, ouvir música, acessar a internet, enviar e receber mensagens, acessar canais de TV e anotar compromissos, calendário, entre outras funções. Muita gente troca de aparelho, abandonando o antigo em plenas condições de uso apenas porque surge um modelo que oferece alguma “novidade”. Esse é um tipo de consumo não consciente, que não resiste ao apelo da propaganda e leva ao desperdício.
Além disso, os aparelhos eletrônicos, como os celulares, contêm materiais de difícil reciclagem, que, se não forem descartados de maneira correta, podem causar danos ambientais e sociais. Baterias de celular, por exemplo, contêm elementos químicos. Quando transformados em lixo eletrônico e descar tados em aterros, a exposição às intempéries favorece a liberação desses elementos e a consequente poluição do solo. Por esse motivo, mais recentemente, muitos países, incluindo o Brasil, adotaram uma prática em que as empresas devem recolher os produtos após sua utilização pelos consumidores.
Esse procedimento implica fazer a logística reversa, ou seja, ampliar a rede geográfica de produção para o pós-consumo, quando a mercadoria é recolhida e desmontada para ser reaproveitada ou reciclada. Entretanto, a logística reversa ainda não é realizada da forma como deveria, resultando na produção de lixo e desperdício de materiais, energia e trabalho de muitas pessoas.

Expansão da industrialização no mundo


A partir dos anos 1970, o processo de expansão da industrialização pelo mundo incluiu os países asiáticos, dando origem aos chamados Tigres Asiáticos (Taiwan, Cingapura, Coreia do Sul e Hong Kong). A partir dos anos 2000, despontaram os Novos Tigres Asiáticos (Tailândia, Filipinas, Indonésia e Malásia). Desde o início, esses países destinaram sua produção industrial ao mercado externo.
Esse processo favoreceu uma importante mudança na lógica da produção industrial. A indústria deixou de produzir uma mercadoria do início ao fim, passan do a dividir as etapas de produção no espaço geográfico. Isso significa que em presas transnacionais passaram a usar suas unidades fabris espalhadas pelo mundo para produzir partes dos produtos que, depois, eram reunidas na fábrica de determinado país para a montagem final da mercadoria.
A produção, portanto, passou a ser feita por meio de uma rede geográfica, com a participação integrada de várias fábricas para a obtenção da mercadoria final.
As empresas transnacionais obtiveram vantagens com essa divisão do traba lho, como isenções fiscais. Com o aumento da quantidade de peças iguais produzidas, as máquinas, por exemplo, passaram a ter mais produtividade, garan tindo a essas empresas retorno mais rápido dos investimentos em capital fixo (imóveis, máquinas e equipamentos). Entretanto, o fator que mais favorece a atuação das transnacionais é a isenção fiscal, ou seja, a dispensa do pagamento de tributos.
Os governos de determinados países (no caso do Brasil, vários governos estaduais) disputam a presença dessas fábricas para gerar empregos e arrecadar impostos com as vendas dos produtos. Nessa disputa, oferecem uma série de vantagens às empresas, como terreno gratuito para a instalação da fábrica e liberação da cobrança de impostos da produção por vários anos seguidos.

A África no contexto da economia globalizada

Os governos que se estruturaram após os processos de independência foram, de modo geral, marcados pelo autoritarismo e pela corrupção. Além ...