domingo, 8 de fevereiro de 2026

A conquista da África pelos europeus

Período Pré-Colonial, colonização e independência


A África é um continente de grandes dimensões territoriais. Nele vivem, desde o surgimento da humanidade, grupos diversos, que se organizaram e transformaram os espaços geográficos. Ao longo do tempo, os costumes, as línguas, as tradições e as crenças dessa população foram se formando. Desde a Antiguidade, muitas sociedades do norte da África já faziam trocas comerciais com povos europeus, asiáticos e ainda com outras regiões do próprio continente africano. Mercadores árabes trocavam produtos por pessoas escravizadas, marfim e ouro. 
Para isso, estabeleceram conexões com os impérios de Gana, Benin e Zimbábue, entre outros. Tumbuctu, no atual Mali, por exemplo, era uma grande cidade na época e servia como local de descanso e ponto de passagem para esses mercadores. Entre os anos 100 e 940 d.C., onde atual mente se localizam a Etiópia e a Eritreia, existiu o grande Império de Axum, que, em função de sua posição estratégica perto do Mar Vermelho, foi um importante ponto para as rotas comerciais que ligavam Egito, Índia e China pelo Oceano Índico. 

Primeiras organizações africanas 


As primeiras civilizações africanas surgiram há milhares de anos; muitas eram nômades, deslocando-se periodicamente para caçar, pescar e coletar frutos. Com o surgimento da agricultura, formaram-se grupos sedentários que passaram a se fixar em locais específicos, resultando em agrupamentos de pessoas, povoados e, posteriormente, em muitos reinos, que se estenderam por diversas regiões do continente africano. Pela sua imensidão, a África foi dominada e influenciada por muitos povos. 
O desenvolvimento do capitalismo comercial no século XVI desencadeou a expansão ultramarina europeia. Por meio das Grandes Navegações, os europeus passaram a dominar territórios em outros continentes e neles praticar a pilhagem de recursos.
Com as Grandes Navegações, no século XV, as principais potências da época, como Espanha, Portugal, França, Inglaterra e Holanda, começaram a tomar posse de áreas da América e passaram a se apropriar das riquezas naturais existentes nesse continente para comercializá-las na Europa. 
Com a chegada dos europeus ao continente, no século XV, a organização política, econômica e cultural de muitos grupos étnicos sofreu transformações, principalmente em consequência do processo de colonização, resultando em uma desestruturação social que perdurou por séculos. 
Na África, os portugueses, então grandes mercadores, estabeleceram várias feitorias que serviram como pontos de embarque de africanos, pois, a partir do século XVI, os europeus passaram a substituir a mão de obra indígena em pregada em suas colônias na América pela de africanos escravizados.
A África traz em suas raízes históricas as marcas desse processo a que foi submetida, com implicações na atual configuração política e econômica do continente e na história de vida da população. 
Os governos europeus, especialmente o português, dominaram regiões do litoral africano, nas quais estabeleceram entrepostos comerciais a fim de abastecer os navios que seguiam rumo ao Oriente em busca de produtos nos mercados das Índias. Recursos naturais como madeira, pele de animais, ouro etc. também eram retirados da faixa litorânea. 
Até o início do século XIX, no entanto, em razão da resistência das populações nativas e das dificuldades impostas pelo meio natural, sobretudo devido à ocorrência de malária, a exploração da África não ultrapassou as áreas litorâneas, onde eram obtidos metais preciosos e também africanos escravizados, que posteriormente eram transportados às colônias americanas. 
Nesse período o tráfico de escravizados no continente se intensificou. Pessoas eram negociadas por mercadores europeus e africanos.
A região próxima à costa ocidental da África foi a principal fornecedora de africanos para o tráfico de escravizados. Estima-se que cerca de 15 milhões de africanos foram capturados e enviados a colônias americanas.
Embora o comércio de escravizados africanos já fosse praticado pelos árabes, essa atividade tomou enormes proporções entre os séculos XV e XIX com a dominação europeia, pois a mão de obra escravizada, fundamental para a colonização, passou a ser empregada na agricultura e na exploração mineral das colônias na América. Esse processo impeliu parte da população a fugir para o interior do continente, originando e potencializando muitas rivalidades entre grupos étnicos africanos.
A partir do século XIX, ocorreu a efetiva ocupação colonial da África, dando um novo rumo para a relação entre os africanos e os europeus.

O século XIX e a partilha da África


A Revolução Industrial ocorrida no século XVIII, primeiro na Inglaterra e depois em países como França, Bélgica e Alemanha, acarretou significativas mudanças no espaço geográfico mundial. Além de intensificar as relações comerciais de produtos industrializados, ampliou a necessidade de novas fontes de matérias-primas e mercados consumidores.
A disputa de poder e a consolidação do desenvolvimento capitalista, isto é, a conformação de um modo de produção que estabelecia a necessidade de abastecer a Europa de matérias-primas para estruturar a nascente indústria, fez com que as potências europeias precisassem obter recursos minerais, motivando-as a colonizar o continente africano. Outro fator que contribuiu para a Europa dominar a África foi a independência das colônias americanas, que reduziu o patrimônio colonial europeu.
Buscando suprir essas necessidades e com o objetivo de ampliar a dominação política e cultural sobre outros povos do mundo, várias nações europeias, como França, Portugal e Inglaterra, passaram a desenvolver, a partir do século XIX, uma nova fase do expansionismo voltada para a colonização da África, da Ásia e da Oceania, conhecida como imperialismo.
Para legitimar o imperialismo do século XIX, os europeus chamaram esse período de missão civilizadora. De acordo com as potências europeias, cabia aos colonizadores europeus repassar seus conhecimentos científicos, religiosos e culturais para que fossem incorporados ao modo de vida dos povos dominados, pois do ponto de vista europeu tais povos eram considerados selvagens ou “atrasados”, e por isso era preciso civilizá-los.
Entre 1884 e 1885, uma série de encontros diplomáticos ocorreram no contexto da Conferência de Berlim, uma reunião internacional que envolvia, sobretudo, as potências europeias da época. Nela se estabeleceu um processo chamado “partilha da África”. 
Essa conferência e outras reuniões pos teriores determinaram as áreas de domínio, criando limites no continente africano que atendessem aos interesses das potências coloniais: Reino Unido, França, Itália, Bélgica, Portugal, Alemanha e Espanha.
Por meio da partilha da África instaurou-se uma divisão política do continente que levou em conta somente os interesses dos colonizadores, sem respeitar os aspectos culturais, políticos e econômicos dos grupos étnicos africanos. Assim, ao dividir o continente, as potências europeias não consideraram os territórios dos nativos. Por exemplo, a maioria dos limites, muitas vezes, separava o mesmo grupo étnico em dois ou três territórios controlados por potências coloniais diferentes. Em outras situações, grupos inimigos foram mantidos em território dominado pela mesma metrópole.
Os efeitos dessa forma de ocupação e exploração foram muitos, como rivalidades étnicas e religio sas, desorganização social e política dos povos atingidos, desestrutura ção da economia agrícola e transformação da identidade cultural.
Esse processo criou fraturas sociais sentidas até hoje no continente africano, o que, em parte, explica as atuais condições socioeconômicas de muitos países. Em consequência disso, vários grupos em diferentes regiões do continente se organizaram em busca da independência.
Até 1914, ano que daria início à Primeira Guerra Mundial, praticamente todos os territórios africanos foram colonizados pelas potências europeias. Após a guerra, as colônias alemãs foram passadas para o Reino Unido e a Bélgica.
O imperialismo na África resultou na formação de colônias cujos limites não coincidiam com as fronteiras culturais dos povos e reinos já estabele cidos no continente. Dessa forma, diferentes etnias foram agrupadas em um mesmo território colonial ou tiveram seus territórios culturais separa dos entre duas ou mais colônias.
Durante o imperialismo, parte do valor excedente proveniente da atividade industrial na Europa foi direcionada à África sob a forma de financiamentos para a construção de obras públicas, como escolas, hospitais, ferrovias, rodovias e portos. Essas obras de infraestrutura tinham como objetivo a ampliação do grau de exploração das atividades minerais, energéticas e agrícolas do continente.
No entanto, a estrutura econômica das colônias beneficiava somente os europeus. Os africanos eram tratados como reserva de mão de obra nas colônias, trabalhando em plantations ou em áreas mineradoras exploradas por empresas coloniais europeias.

Partilha e desestruturação das sociedades africanas


A partilha da África entre países da Europa e a implantação de atividades econômicas voltadas para o abastecimento do mercado europeu desestruturaram violentamente a organização política, econômica e cultural da maioria dos povos africanos, os quais mantinham modos de vida muito distintos dos europeus. Essa desestruturação social ocorreu, sobretudo, pelos motivos a seguir.
- As fronteiras traçadas pelos europeus levaram em conta apenas seus interesses econômicos, não respeitaram limites territoriais que já existiam entre reinos ou entre grupos étnicos. Em muitos casos, essa divisão terri torial acabou separando povos com a mesma identidade histórico-cultu ral ou juntando antigos povos rivais no território de uma mesma colônia.
- Alguns povos africanos se dedicavam, originalmente, à agricultura de subsistência e ao pastoreio; outros se dedicavam à caça e à coleta de frutos e raízes. Com a introdução das atividades agrícolas de plantation, ou seja, a exploração de vastas áreas com lavouras de produtos tropicais, e de mineração pelos europeus, muitas pessoas deixaram de trabalhar em atividades tradicionais para se tornarem assalariadas das empresas europeias que de sapropriaram suas terras ou mesmo para serem escravizadas por elas. Muitas áreas onde se desenvolveram as plantations e a mineração eram pouco povoadas, o que levou os colonizadores a deslocar grandes contingentes de africanos de regiões distantes para as áreas de exploração. Esse fato provocou a redução populacional nos locais de origem desses migrantes.
Houve, portanto, uma reorganização do espaço africano pelos colonizado res europeus, que se caracterizou pela exploração e pelo desrespeito às necessidades dos povos nativos. Isso gerou grandes conflitos e problemas sociais na África, muitos dos quais perduram até os dias atuais.

Movimentos de resistência e dominação cultural


Diversas nações africanas resistiram à invasão dos europeus por meio de guerras e confrontos, que, em alguns casos, duraram várias décadas. Contudo, mais bem armados que os nativos, os conquistadores europeus esmagaram esses movimentos de resistência, provocando o extermínio de nações inteiras.
Após reprimir os movimentos de resistência, os colonizadores passaram a impor aos colonizados sua cultura, seus valores morais e éticos e seu idioma. 
Os povos nativos foram obrigados a usar roupas – o que não era um costume, por exemplo, entre determinados grupos da África Subsaariana – e a mudar seus hábitos alimentares, visto que passaram a plantar produtos que não faziam parte de sua dieta tradicional. Nas escolas implantadas pelos europeus, eram ensinadas as línguas do coloniza dor, como o inglês e o francês. Em muitos casos, a população era proibida até mesmo de conversar em sua língua nativa. 
Tais fatos afetaram gravemente a identidade e as raízes culturais de várias nações africanas, o que era extremamente vantajoso para os conquistadores europeus, uma vez que facilitava o domínio sobre esses povos.

Descolonização


A dominação e a exploração imperialista dos grupos étnicos africanos pelas nações europeias duraram décadas. Ao tentar impedir ou combater essa situação, muitos grupos do continente foram severamente reprimidos. 
Ocorreram diversas rebeliões, como na Somália (começo do século XX), de dominação italiana e inglesa; e no Quênia (meados do século XX), de dominação inglesa. Em Angola e Moçambique, de dominação portuguesa, as guerras de inde pendência foram prolongadas, convertendo-se em guerras civis, com mais de 15 anos de duração.
O período em que ocorreu o mais intenso processo de descolonização da África foi após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando os países europeus estavam enfraqueci dos econômica e militarmente pela desordem decorrente do conflito. 
Outro fator que contribuiu para o processo de descolonização foi o período da Guerra Fria (1945-1991). As duas superpotências antagônicas da época, os Estados Unidos e a antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), financiaram grupos que forneciam armamentos modernos e apoio tático para levá-los ao poder. 

Independência


O processo de independência dos países africanos não foi simples, envolvendo, em muitos casos, até guerras civis. Longas negociações também foram realizadas entre as colônias e suas respectivas metrópoles. 
No entanto, poucas coisas mudaram na vida dos africanos após a descolonização. A independência política não garantiu a independência econômica e comercial, e conservaram-se as marcas da exploração a que o continente foi submetido ao longo da história moderna, ou seja, os países africanos mantiveram-se exportadores de produtos primários (agrícolas e minerais) para as antigas metrópoles.
Além disso, a concorrência internacional em uma nova configuração geopolítica mundial, bem como a busca por outras fontes de lucro, incentivaram muitas empresas europeias a instalar grandes corporações na África. 
Assim, alguns países africanos passaram a contrair empréstimos financeiros internacionais, com o objetivo, dificilmente alcançado, de implementar um desenvolvimento industrial local aliando inte resses nacionais e internacionais. Esses países também necessitavam de apoio técnico das nações industrializadas, o que os mantinha “presos” a uma relação de dependência e interesses. 
Com a independência dos países, ficaram mais evidentes as graves consequências da colonização no continente: as alterações culturais e o desenvolvimento econômico e social comprometido.


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