O neocolonialismo e a descolonização
O fim do século XIX e o início do século XX foram marcados pela disputa imperialista entre os países industrializados por novas fontes de matérias-primas e
pela ampliação do mercado mundial.
As necessidades criadas nessa etapa de desenvolvimento capitalista levaram à partilha dos territórios africanos e de parte do continente asiático entre as
grandes potências europeias, em um processo conhecido como neocolonialismo.
Nesse processo de expansão do capitalismo, a
partilha da África acarretou, em boa parte, a desestruturação do modo de vida e da organização política
e administrativa dos Estados-nação africanos.
No final da Segunda Guerra Mundial, apenas Egito, África do Sul, Etiópia e Libéria eram independentes. Essa independência, porém, se dava apenas na
esfera política, pois esses países se mantinham sob
o domínio econômico e militar do Reino Unido (Etiópia, Egito e África do Sul) e dos Estados Unidos (Libéria).
Após o término da Segunda Guerra Mundial, ocorrido em 1945, e com o enfraquecimento dos países europeus, as reivindicações dos próprios africanos interessados na independência mudaram radicalmente a situação.
A Guerra Fria contribuiu para esse processo, pois, em busca de ampliar suas áreas de influência no mundo, tanto os Estados Unidos como a União Soviética apoiaram movimentos nacionalistas por toda a África.
A descolonização teve início na Líbia, ainda em 1951, ganhando força somente a partir de 1958, com a independência de Gold Coast (atual Gana).
A partir de 1950, no pós-Segunda Guerra Mundial, teve início o grande movimento de descolonização da África. Em 1951, a Líbia se tornou independente;
em 1957, a antiga Costa do Ouro (atual Gana); em 1958, o Senegal; em 1960, a
Nigéria, o Níger e a Costa do Marfim; em 1963, a Tanzânia. Nos anos 1970, libertaram-se Guiné-Bissau, Angola e Moçambique. Em 1977, o Território dos Afar e Issa
(antiga Somália Francesa) tornou-se independente da França, adotando o nome
de República do Djibuti.
Ao longo das décadas seguintes, diversos países africanos conquistaram a independência, a maioria na década de 1960. Alguns alcançaram esse objetivo de forma pacífica; já outros, como Angola e Argélia, somente após duros conflitos travados com Portugal e França, respectivamente.
De modo geral, os países africanos se tornaram independentes sem a existência de uma identidade nacional. Isso ocorreu porque as fronteiras do colonialismo foram mantidas, resultando em países com populações etnicamente diversas, que não compartilhavam de uma identidade nacional, sobretudo do ponto de vista cultural, resultando, em alguns casos, em conflitos internos.
As dificuldades pós-independência
Apesar de terem obtido sua independência, os países africanos ainda hoje
enfrentam sérias dificuldades para manter sua autonomia política e promover a
independência econômica e social em relação às ex-metrópoles ou às grandes
potências mundiais.
Na partilha colonial da África, não foram consideradas nem respeitadas as
particularidades das diversas nações africanas. Em alguns casos, essas nações
foram totalmente separadas; em outros, foram agrupadas sob a mesma administração de um Estado-nação europeu.
Como reflexo do baixo nível de desenvolvimento socioeconômico e da enor
me dependência externa, combinados com a desestruturação do sistema políti
co-administrativo das nações ou Estados autóctones, desencadeou-se uma série
de conflitos entre as diferentes nações africanas após sua independência.
Esses conflitos envolvem, de modo geral, nações rivais que competem pelo
poder central de um território ou nações separadas por limites determinados pelas
potências europeias que lutam contra o poder central dos territórios que habitam.
A busca pelo controle de áreas territoriais nas quais há abun
dância de recursos minerais, como ouro e diamantes, terras
cultiváveis ou, ainda, que apresentam condições favoráveis
para a criação de animais também é um elemento que con
tribui para a intensificação e a continuidade dos conflitos.
Nesse contexto, são recorrentes os casos de corrupção e
desvio de recursos do Estado por parte das elites que contro
lam – frequentemente, de modo autoritário – o poder político
em muitos Estados-nação do continente africano.
No contexto dos conflitos internos que atingem os países africanos, é preciso ressaltar o fornecimento de armas
por parte de países desenvolvidos. Um exemplo é o conflito
entre hutus e tutsis em Ruanda, antiga colônia da Bélgica.
Na época da colonização, os belgas fomentaram rivalidades
entre as duas etnias, e os tutsis desfrutavam certos privilégios. Após a independência, em 1962, sob liderança hutu, os
tutsis foram fortemente perseguidos. Muitos exilados dessa
nação formaram a Frente Patriótica Ruandesa (FPR) e retornaram em 1990, dando origem a uma guerra civil.
A guerra civil se intensificou em 1994, após a morte de
um presidente hutu em um acidente aéreo quando retornava da Tanzânia, onde havia realizado uma negociação de paz
com os rebeldes tutsis da FPR. O novo governo ruandês hutu
promoveu um genocídio da população tutsi. Centenas de milhares de tutsis foram mortos e cerca de 3 milhões buscaram refúgio nos territórios de países vizinhos.
Diante desse quadro, em julho de 2002, governantes africanos formaram a
União Africana (UA) –, em substituição à Organização da Unida
de Africana (OUA). A iniciativa propôs a criação de um Parlamento continental,
um tribunal pan-africano, um Banco Central e um Conselho de Paz e Segurança
com uma força de manutenção da paz, que atua em conflitos no continente. Tam
bém fazem parte dos termos da proposta a integração econômica e uma possível
união monetária.
A instabilidade política, a enorme incidência de casos de Aids, a situação de
pobreza e as fortes desigualdades sociais, além do baixo nível educacional e de
desenvolvimento tecnológico da maior parte dos países africanos, são grandes
desafios à concretização das propostas estabelecidas pela União Africana. Outro
aspecto que requer atenção por parte dos governantes africanos é a melhoria da
infraestrutura das redes de transportes e telecomunicações.
Para atingir gradativamente seus objetivos, a organização encaminha acordos estabelecidos pelos Estados-nação africanos com organismos internacionais
(como o FMI) e países desenvolvidos para obtenção de empréstimos, investimentos e ajuda internacional.
Entretanto, a aplicação de recursos financeiros está
sempre vinculada a mudanças na estrutura política e socioeconômica dos países
africanos, como a abertura de suas economias para o capital estrangeiro, o que
significa facilitar a entrada de empresas transnacionais para extração de recursos minerais e energéticos, investimentos em infraestrutura e compra de terras
cultiváveis, por exemplo. Os países mais procurados por empresas estrangeiras
para compra ou locação de terras são Etiópia, República Democrática do Congo,
Tanzânia e Moçambique.
A ocupação da África no século XIX, durante a expansão imperialista, já havia
ocasionado impactos negativos na produção das culturas de subsistência em regiões com solos mais férteis, em razão da implementação das monoculturas de
exportação, ainda presentes nos territórios de muitos países africanos. Nos últimos anos, China, sobretudo, mas também Índia, Brasil, Japão e países europeus
estreitaram relações com Estados-nação africanos por meio de investimentos em
diversos setores, inclusive no setor agropecuário.
Além da desestruturação da agricultura familiar, a expansão agrícola empre
endida por empresas estrangeiras tem trazido consequências como a degrada
ção ambiental, o êxodo rural e alteração das relações de trabalho no campo, com
o aumento do trabalho assalariado e, principalmente, do trabalho eventual, em
que o trabalhador é contratado por um período determinado do ano ou etapa da
produção. Em decorrência da modernização no campo, houve, na primeira déca
da do século XXI, uma redução de 10%, em média, da força de trabalho dedicada
à agropecuária no continente africano. Nesse contexto, diversos Estados-nação
africanos passaram a integrar outras redes de produção, distribuição e comercia
lização de produtos agrícolas das corporações transnacionais.
Ao obter recursos do FMI, os países têm de reduzir gastos do Estado a fim de
gerar superávits nas contas governamentais, necessários para o pagamento dos
juros dos empréstimos. Essa situação leva muitos governos a reduzir investimen
tos em setores prioritários, como o da saúde. Segundo um levantamento feito por
pesquisadores das Universidades de Cambridge e de Oxford, nas duas primeiras
décadas deste século, as despesas com saúde não se ampliaram e houve estag
nação nos indicadores de mortalidade em países da África Ocidental, como Gana,
Guiné, Libéria, Serra Leoa, Guiné-Bissau e Gâmbia.
Os interesses das grandes potências
Frequentemente, os conflitos étnicos e as guerras civis que se desenrolam na
África encobrem interesses de grandes potências, sobretudo em relação aos recursos naturais existentes nos países africanos.
Exemplo disso é o caso da região
de Darfur, localizada no oeste do Sudão, cujas reservas petrolíferas, entre outros
recursos minerais, geraram o interesse de países como Estados Unidos e China.
Até o começo de 2018, o conflito, iniciado em 2003, já havia provocado a morte
de mais de 300 mil pessoas, deixado cerca de 3 milhões de refugiados, tanto interna quanto externamente, e 1,3 milhão de pessoas afetadas pela insegurança
alimentar, de acordo com a ONU. Acordos de paz
foram estruturados, mas fracassaram, assim
como a missão de paz da ONU, enviada no início
de 2008, corria o risco de também fracassar.
Muitos dos desabrigados do Sudão fugiram
para outros países da África. No final
de 2017, havia cerca de 320 mil instalados no
Chade. A região de Darfur enfrenta secas prolongadas e convive com disputas entre grupos re
beldes locais e milícias, como a Janjaweed, pelas
escassas áreas de terras férteis cultiváveis e
com o fracasso das políticas agrícolas implementadas pelo governo central.
Nesse contexto, grupos rebeldes de Darfur organizaram um movimento se
paratista, acusando o governo do país, formado pela elite islâmica, de negligen
ciar a região. A reação do governo veio com o apoio à milícia Janjaweed, que em
preendeu uma verdadeira “limpeza étnica”, destruindo aldeias e promovendo a
matança de milhares de agricultores e estupros em massa.
A solução definitiva para o conflito esbarra em uma série de problemas: a
quantidade de milícias existentes, o grande número de refugiados, o crescimento
dos grupos rebeldes, a proliferação de armas na região e o desinteresse do go
verno central, cujo presidente é um general que está no poder desde 1989. Esse
governo tem estreita relação com a China, que compra cerca de 60% do petróleo
sudanês e vende armamentos para o Sudão.
Situações semelhantes à de Darfur são comuns nos países africanos que se
tornaram independentes, como ocorreu em 1966, na Nigéria — um dos países
mais populosos da África. Quando os ingleses estabeleceram as fronteiras da
recém-independente Nigéria, em 1960, aproximadamente 250 etnias conviviam
dentro de seu território, o que dificultava muito a unidade nacional.
Em 1966, um dos três maiores grupos étnicos, o dos igbos, derrubou o governo nigeriano, instalando-se no poder. Repelidos por um golpe militar em 1967, os
igbos, que viviam no território de Biafra, próximo ao delta do rio Níger, decidiram
proclamar-se independentes, dando origem à Guerra de Biafra. Em razão do envolvimento de interesses europeus nesse conflito, a guerra civil nigeriana durou
cerca de três anos e só terminou com a rendição de Biafra.
A separação de Biafra foi estimulada por uma petrolífera francesa, interes
sada na exploração de petróleo na região. Enquanto essa empresa estimulou a
separação, ficando ao lado dos igbos, outras empresas apoiaram o poder central
nigeriano, a fim de evitar que a concorrente francesa obtivesse a concessão da
exploração do produto.
Atualmente, no norte da Nigéria,
ocorre um conflito de caráter religioso.
O grupo islâmico Boko Haram, criado
pelo clérigo muçulmano Mohammed
Yusuf em 2002, empreende esforços
para instalar no país um Estado islâmico.
Em nome dessa luta, o grupo promove sequestros, atentados e assassinatos em massa. Os integrantes
do Boko Haram resistem à educação e
aos costumes ocidentais. Em 2015, aceitaram formar uma aliança com o Estado
Islâmico, que atua no Oriente Médio.
Nenhum comentário:
Postar um comentário