A independência dos países africanos evidenciou a fragilidade desses novos Estados diante da economia e da geopolítica mundial. Tais nações passaram a participar da Divisão Internacional do Trabalho (DIT) como fornecedoras de matérias-primas, dependentes de tecnologias, recursos financeiros e gêneros industrializados oriundos dos países desenvolvidos.
Diversos outros desafios passaram a afetar, em maior ou menor intensidade, os países africanos a partir de sua independência. Entre eles, podemos citar a pequena diversificação econômica, o baixo nível de industrialização, o endivida mento excessivo, a carência de mão de obra qualificada, a corrupção governa mental e a falta de abertura democrática, com diversos países tendo vivenciado longos períodos de ditadura.
A manutenção de governos ditatoriais, muitos dos quais perduram até hoje, tem gerado conflitos internos que não garantem melhorias na qualidade de vida da população. Muitos desses governos têm se mantido há décadas por meio de autoritarismo e até mesmo fraudando eleições, como ocorre em Uganda e Chade.
Os conflitos na África
O continente africano tem sido palco de intensos conflitos causados por disputas
étnicas e territoriais, que envolvem questões históricas e políticas ligadas ao processo
de formação dos Estados nacionais africanos.
Durante aproximadamente três séculos, a partir do século XVI, muitos africa
nos foram escravizados e levados de modo forçado para trabalhar nas colônias
europeias. Depois, nas últimas décadas do século XIX, a África passou a ser efetivamente ocupada e explorada pelas potências marítimas e industriais europeias. Essas metrópoles tinham interesses estritamente econômicos e visavam explorar, em
grande escala, os recursos naturais da África, como o ouro e o diamante, e utilizar
suas terras para o cultivo de la
vouras tropicais, como chá, café
e cacau. Assim, em 1885, a Conferência de Berlim estabeleceu a
partilha do território africano en
tre as potências europeias.
Como forma de assegurar o
domínio sobre seus territórios, as
potências europeias se apressaram em traçar as fronteiras nos
domínios coloniais que começavam a ocupar.
As fronteiras estabelecidas pelos europeus, no entanto, foram traçadas arbitra
riamente sobre os territórios, sem levar em consideração as áreas ocupadas pelas
populações dos diferentes grupos étnicos e culturais que viviam no continente. Desse
modo, as fronteiras estabelecidas passaram a abrigar povos com culturas muito
distintas, e até mesmo povos inimigos;
por outro lado, separaram povos culturalmente semelhantes.
A divisão da África entre as metrópoles
europeias gerou consequências profundas
na organização social, política e econômica dos povos africanos. Os colonizadores
impuseram sua língua e seus costumes,
julgando inferior a cultura dos povos
nativos. Ao tentar resistir à invasão dos
europeus, os grupos foram violentamente
reprimidos e massacrados pela superioridade bélica e militar dos colonizadores,
que provocaram o extermínio de muitos
grupos.
A descolonização e a eclosão dos conflitos
Quando as colônias africanas iniciaram os processos de independência, ao longo
do século XX, muitos dos limites territoriais dessas colônias foram mantidos, en
quanto o poder político e militar foi transferido das metrópoles para as elites locais. Em muitos casos, essas elites se mantiveram no poder por meio de governos
autoritários e corruptos.
A desorganização étnico-cultural herdada do traçado dessas fronteiras é uma
das principais causas dos inúmeros conflitos e guerras civis que, historicamente,
assolam muitos países africanos. Entre esses conflitos, podemos destacar os ocorridos em Ruanda, Angola, Nigéria e República Democrática do Congo.
Durante a partilha da África, no século XIX, as nações europeias estabeleceram, de acordo com os próprios interesses, fronteiras políticas coloniais que não respeitavam os territórios culturais preexistentes. Após a descolonização do continente, a manutenção dessas fronteiras levou à formação de Estados com populações multiétnicas, que não representavam nações do ponto de vista cultural.
Além das disputas e rivalidades étnicas e religiosas resultantes da manutenção
das fronteiras coloniais, outros diversos fatores contribuem para a ocorrência de
conflitos armados no continente africano. Entre eles, podemos citar as disputas
pela apropriação das riquezas naturais do continente, a atuação de milícias rebeldes e de grupos de guerrilha clandestinos e os interesses de países estrangeiros
que, para atender aos seus próprios objetivos, apoiaram, em muitos casos, governos corruptos e até mesmo golpes de Estado na África.
Entre a segunda metade do século XX e os dias atuais, diversos conflitos no
continente africano ocorreram devido às razões citadas anteriormente. Alguns
deles seguem em curso, resultando em milhões de refugiados. É o caso de Darfur,
região no oeste do Sudão que, desde 2003, vivencia conflitos que já geraram mais
de 300 mil mortes e 2,5 milhões de refugiados.
Em Darfur, a população é etnicamente distinta do resto do país, demonstrando
tendências separatistas. O governo do Sudão, controlado pela maioria árabe, opõe-se
de forma veemente ao separatismo e é apoiado pela China, que é o principal impor
tador de petróleo sudanês. Além disso, milícias apoiadas pelo governo são acusadas
de atos de violência contra a população civil em Darfur, e observadores internacio
nais relatam a ocorrência de um genocídio étnico da população não árabe.
Diversas organizações regionais e internacionais atuam na mediação e na reso
lução de conflitos na África, assim como na prestação de assistência a refugiados
e populações vulneráveis em razão desses conflitos.
A União Africana (UA), organização criada em 2002 e da qual fazem parte todos
os países africanos, tem um órgão destinado apenas à manutenção da paz no
continente: o Conselho de Paz e Segurança da União Africana, que, em diversos
casos, já autorizou o envio de forças de paz, integradas por soldados de países
membros, para regiões de conflito.
A Organização das Nações Unidas (ONU), também atua no continente africano
por meio de missões de paz que são desenvolvidas para promover a segurança e
prestar assistência às populações afetadas pelos conflitos.
Populações e regiões assoladas por conflitos na África também recebem ajuda
humanitária internacional na forma de doações de recursos materiais e financei
ros, assim como por meio de programas desenvolvidos por agências humanitá
rias da ONU e por organizações não governamentais (ONGs) como a Médicos
Sem Fronteiras e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha.
De modo geral, essas organizações internacionais ajudam pessoas afetadas
por situações que violam os direitos humanos, como a insegurança alimentar,
problema que acaba se intensificando
devido à ocorrência de guerras, perseguições étnicas e deslocamentos em massa.
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