terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Africa: composição étnica e as religiões


A população africana é predominantemente negra. Os brancos, em sua maioria islâmicos, ou muçulmanos, de língua árabe, constituem um terço do total e se concentram na porção setentrional do continente. Ao sul do Saara também há uma população branca de origem europeia, concentrada na África do Sul.
Os brancos do norte da África subdividem-se em árabes e berberes. Os primeiros pertencem ao grupo étnico semita, que conquistou a África setentrional no século VII, fixando-se no Egito, na Tunísia, na Líbia e na porção oriental da Argélia.
Os berberes, pertencentes ao grupo étnico camita, são os mais antigos habitantes do Magreb e constituem a maior parte da população do Marrocos e das regiões montanhosas da Argélia. Entre os berberes destacam-se os tuaregues (nômades do deserto) e os etíopes. Os dois grupos, em sua maioria, professam a religião islâmica.
A população negra, concentrada ao sul do Saara, apresenta grande diversidade de povos, religiões e idiomas (mais de 100). Além de diferentes línguas e dialetos nativos, são falados o francês, o inglês e o português, introduzidos pelos colonizadores. Alguns povos negros são seguidores da religião islâmica, mas, nos últimos anos, tem crescido o número de cristãos (sobretudo adeptos do catolicismo). Muitos seguem o animismo.
Os negros no continente africano se subdividem nos seguintes grupos:
• Bantos: os mais numerosos, que ocupam a maior parte da região equatorial (bacia do Congo), a região dos grandes lagos e parte da Namíbia, de Botsuana e da África do Sul;
• Sudaneses: estabelecidos principalmente na porção ocidental da África;
• Hotentotes: em maior número na África do Sul, na Namíbia e em Botsuana;
• Nilóticos: habitantes da região do alto curso do rio Nilo;
• Bosquímanos: habitam Estepes situadas às margens do deserto do Kalahari;
• Pigmeus: habitantes das Florestas Equatoriais; 
• Malgaxes: habitantes da ilha de Madagascar.


Revoltas populares no norte da África

A partir de 2010, uma onda de revoltas populares atingiu o norte da África e países do Oriente Médio. A luta da população por democracia, abertura política e melhorias sociais, entre outros aspectos, derrubou regimes autoritários e foi responsável por uma mudança de olhar em relação ao mundo árabe, quase sempre visto exclusivamente sob o viés das questões étnico-religiosas ou do petróleo.
A mobilização popular nas reivindicações por melhoria das condições sociais e por democracia contou com participação ativa sobretudo de jovens nas redes sociais, utilizadas para disseminar informações e convocar pessoas para os pro testos nas ruas. 
Na Líbia, o movimento derrubou o ditador Muamar Kadafi, mas o país entrou em guerra civil, com milícias e grupos islâmicos contro lando porções territoriais do país. 
Na Tunísia, a queda do ditador Ben Ali em 2011 abriu espaço para que o partido islâmico moderado assumisse o governo do país, que, em 2016, recorreu ao FMI para a obtenção de recursos. Em contrapartida, o Fundo exigiu um programa de redução dos gastos governamentais. Em 2018, o povo foi novamente às ruas para exigir melhoria nas condições sociais.
No Egito, os protestos da população levaram o presidente Hosni Mubarak a renunciar ao governo em 2011. No ano seguinte, com as primeiras eleições de mocráticas para presidente no país, Mohamed Mursi foi eleito para a presidência. No entanto, sob um governo autoritário, as melhorias nas condições sociais não ocorreram para boa parte da população. Em razão dessa situação, os protestos foram retomados e, nesse contexto de instabilidade, as forças armadas derrubaram Mursi. Novas eleições foram realizadas em 2014, levando ao poder novamen te um governo autoritário e frustrando as expectativas de boa parte da população, que ansiava por novas perspectivas sociais e democracia.

O Brasil e os países africanos

Parcerias que intensifiquem as relações econômicas com países em desenvolvimento, principalmente emergentes, podem facilitar a superação dos diversos problemas que os países africanos enfrentam, sobretudo os da África Subsaa riana. Tendo em vista os fortes laços étnico-culturais, o Brasil é um país capaz de desempenhar papel importante nesse sentido.
O Brasil também tem presença na África, seja por meio de acordos de cooperação técnica e econômica, como os da Embrapa, seja por meio de investimentos de empresas nacionais – privadas e estatais –, que estão desenvolvendo principalmente projetos em mineração e infraestrutura. 
O Brasil, por meio da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), mantém diversos projetos de cooperação técnica com países africanos, como os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (Palop) – Angola, Cabo Verde, Guiné--Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe – com os quais tem maior aproximação histórica e cultural. Um dos problemas que as empresas brasileiras enfrentam ao se instalar na África é a carência de profissionais qualificados, sobretudo no setor industrial. 
O Brasil também tem uma relação muito próxima com a União Africana, entidade criada em 2002 em substituição à Organização da Unidade Africana, fundada em 1963 para apoiar os Estados africanos recém-independentes. 
Neste início de século, o governo brasileiro aumentou de 18 para 30 o número de embaixadas e instalou dois consulados-gerais em países africanos. Experiências realizadas no Brasil na área da saúde, no combate à fome e outras formas de assistência social vêm sendo implementadas em países africa nos, como Angola e Moçambique, por exemplo. Entretanto, em razão dos efeitos da crise econômica no Brasil a partir de meados da década de 2010, foram reduzidos alguns investimentos na África e também as doações humanitárias.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A África no contexto da economia globalizada

Os governos que se estruturaram após os processos de independência foram, de modo geral, marcados pelo autoritarismo e pela corrupção. Além disso, as disputas pelo poder entre nações rivais, a carência de recursos financeiros e a economia fortemente voltada para a exportação, aliadas aos interesses econômicos e político-militares das grandes potências (incluindo Estados Unidos e ex-União Soviética no pós-Segunda Guerra Mundial), entre outros fatores, dificultaram reformas na organização política e socioeconômica da maioria dos países africanos.
Esse quadro, associado aos longos períodos de seca e à pressão demográfica sobre os recursos naturais, tem ocasionado situações de fome crônica e disseminação de doenças em vários países da África. Além disso, a utilização de muitas terras férteis do continente para a produção de gêneros de exportação impactou a produção de alimentos. Entre 1960 e 2010, enquanto a produção de gêneros alimentícios no mundo cresceu 150%, no continente africano caiu 10%.
No contexto da economia globalizada – caracterizada por intensos fluxos financeiros, desenvolvimento de tecnologia avançada e busca de mão de obra qualificada e mercados consumidores para produtos de alta tecnologia –, a maioria dos países africanos, sobretudo os subsaarianos (que se situam ao sul do deserto do Saara), tem o desafio de melhorar e ampliar a infraestrutura energética, de telecomunicações e de transportes, além de qualificar mão de obra a fim de atrair investimentos. A participação do continente africano no PIB global é de apenas 2,7%. 
A maioria dos países subsaarianos dispõe basicamente de matérias-primas minerais e agrícolas, cujos preços apresentaram alta na primeira década do século XXI, porém sofreram redução na demanda e nos valores na segunda década deste século. A alta de preços alavancou o crescimento econômico de alguns países, como Angola, Guiné Equatorial e Nigéria, cujas taxas chegaram a se manter superiores a 5% ao ano.
Os setores produtores de matérias-primas minerais e energéticas (petróleo e gás), embora gerem expressivas receitas por meio da exportação para alguns países, não contribuem expressivamente para a geração de empregos. Daí a necessidade de diversificação econômica nos países da região, cuja exceção é a África do Sul (que faz parte do Brics).
Ações no sentido de atrair mais investimentos e diversificar a economia africana têm sido empreendidas por países como a Etiópia, na África Oriental, cujo governo montou parques industriais em alguns setores da economia (agroalimentar, farmacêutico, têxtil e de curtume), e o Quênia, que em 2015 aprovou uma nova legislação para atividades econômicas, que inclui a criação de uma Zona Econômica Especial para a estruturação de empresas da indústria de transformação. No entanto, os investimentos estrangeiros ainda se concentram em boa parte nos setores de produção de matérias-primas.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

África: economia e conflitos


Economia africana

A maioria dos países africanos possui a economia apoiada basicamente nas ati vidades primárias: produção de gêneros agropecuários e de recursos minerais, in cluindo a extração de recursos energéticos fósseis, como petróleo, carvão mineral e gás natural.
Esse modelo econômico foi introduzido a partir do século XIX, quando os colo nizadores europeus se apossaram do continente apenas para explorá-lo economica mente. Durante o período colonial, a economia baseava-se nas plantations, ou seja, grandes lavouras monocultoras de produtos tropicais voltados para exportação, e também na extração de recursos minerais e vegetais existentes em abundância no território africano. Essas matérias-primas serviam basicamente para abastecer a in dústria e o mercado consumidor europeu.
Assim, desde aquela época, a economia do continente africano voltou-se para a produção de matérias-primas destinadas ao abastecimento do mercado externo. Dessa forma, vários países da África foram inseridos na Divisão Internacional do Tra balho (DIT) como exportadores tanto de gêneros agrícolas, como café, cacau, borra cha, cana-de-açúcar, algodão, amendoim, quanto de recursos minerais e energéticos.

Agropecuária

A agropecuária, que constitui uma das mais importantes fontes de renda nos países da África, ocupa atualmente parte expressiva da população economicamente ativa de muitos países do continente. Essa atividade é desenvolvida de duas formas principais: as lavouras tradicionais e as plantations.
• As lavouras tradicionais, voltadas para a produção de alimentos para o consu mo da população local, são desenvolvidas em diversas áreas do território africano. De modo geral, nessas áreas, prevalecem pequenas propriedades e técnicas rudimentares de cultivo, sendo os produtos mais cul tivados arroz, sorgo, feijão, batata, inhame e banana.
Os longos períodos de secas, a reduzida qualidade dos solos e, sobretudo, os escassos investimentos em tecnologias fazem com que a agropecuária de subsistência apresente baixa produtividade, tornando necessária a importação de alimentos para o consumo da população.
• As plantations, desenvolvidas principalmente na África Subsaariana, são extensas lavouras monocultoras cultivadas com utilização de fertilizantes, agrotóxicos e, geralmente, com grande quantidade de mão de obra. Nelas, faz-se o cultivo de produtos tropicais voltados para a exportação, como café, cacau, chá, cana-de-açúcar e amendoim. Portanto, não se destinam a servir de alimento para o consumo interno.

A atividade agropecuária no continente africano

As atividades agrárias que predominam em grande par te do continente africano são as praticadas de maneira tradicional, como a agropecuária de subsistência, a pecuária extensiva e o pastoreio nômade. 
As atividades agropecuárias comerciais, praticadas com re cursos tecnológicos mais avançados, estão restritas a certas regiões de apenas alguns países africanos, como na África do Sul, Costa do Marfim, Nigéria, Gana e Serra Leoa.

Recursos minerais 

Uma das características marcantes da África é sua grande riqueza mineral. Atu almente, muitos dos seus países têm economia quase totalmente dependente da exploração de minerais e de recursos energéticos fósseis, como o carvão mineral e o petróleo. 
As principais reservas minerais (ouro, diamante, ferro, carvão mineral, bauxita) se encontram em depósitos geológicos localizados na porção centro-sul do continente, sobretudo em países como África do Sul, Zimbábue e República Democrática do Congo, e também em países localizados na costa atlântica, como Gana e Libéria. 
Entre as principais regiões produtoras de petróleo e gás natural, destacam-se as bacias sedimentares da costa oeste do continente, principalmente em Angola, Gabão, Camarões e Nigéria, e também os campos petrolíferos encontrados, por exemplo, nos desertos da Argélia, Líbia e Egito, ao norte do continente.

Atividade industrial 

De maneira geral, a atividade industrial no continente africano é pouco expressiva, tendo participação bastante restrita na exportação mundial de produtos industrializa dos. Atualmente, o continente africano responde por menos de 1% das exportações de produtos manufaturados comercializados em todo o mundo. Entre os principais fatores que contribuem para o desenvolvimento industrial res trito no continente, podemos citar: 
• a falta de infraestrutura (vias de transporte, energia elétrica etc.), que dificulta a implantação de parques industriais mais complexos; 
• a escassez de mão de obra qualificada, que inibe a expansão das empresas; 
• a existência de um mercado consumidor de baixo poder aquisitivo, que limita o consumo da população aos bens industrializados.
Devido a esses fatores, a atividade industrial no continente africano restringe-se prin cipalmente aos setores mais tradicionais, com uso de tecnologia menos desenvolvida (alimentos, bebidas, têxteis, calçados etc.). Em geral, essas indústrias concentram-se principalmente nas maiores e mais importantes cidades do continente, entre elas Johanesburgo (África do Sul), Cairo (Egito) e Lagos (Nigéria).
A África do Sul e o Egito são os dois países mais industrializados do continente africano. Assim, como os demais países subdesenvolvidos, como Brasil, México e Argentina, a industrialização desses países africanos também foi tardia, pois ocorreram somente a partir de meados do século XX.

Crescimento econômico da África

Nos últimos anos, o mundo vem presenciando o crescimento econômico de mui tos países africanos. De acordo com o Banco Mundial, em 2021, alguns países da África apresentaram um crescimento econômico maior que a média mundial, de 5,8%. Foi o caso de Ruanda e Costa do Marfim, que nesse mesmo ano cresceram 10,9% e 7% respectivamente.
Ainda de acordo com o Banco Mundial, o crescimento econômico de países africanos, sobretudo dos pertencentes à África Subsaariana, deve-se principalmente à abundância de recursos naturais e aos elevados preços mundiais de matérias-primas, como os recursos minerais.
A descoberta de novas áreas de extração de recursos como gás natural, petróleo e outros recursos minerais, em países como Moçambique, Níger e Zâmbia, vem contribuindo para o crescimento econômico do continente. Atualmente, são pou cos os países do continente que não estão envolvidos na exploração de algum tipo de minério.
Em função desse crescimento, o continente tem atraído grande número de inves tidores estrangeiros. Além da abundância de recursos naturais, o crescimento demo gráfico e a urbanização acelerada de alguns países vêm aumentando o consumo de modo geral e incentivando a entrada de empresas estrangeiras. 
Porém, para que esse crescimento econômico se reflita em desenvolvimento das condições de vida da população em geral, é necessário que os ganhos sejam rever tidos na melhoria da saúde, da educação, da infraestrutura básica, no aumento da produtividade agrícola e na geração de empregos. Dessa forma, a pobreza poderá ser reduzida significativamente.

Riquezas minerais e o interesse do capital internacional

Os países africanos, em geral, não dispõem de recursos técnicos nem financeiros ou mesmo de mão de obra mais especializada para promover a exploração dos recursos minerais e energéticos existentes em seus territórios. Em razão disso, o desenvolvimento da mineração tem sido realizado e controlado por grandes empresas estrangeiras, sobretudo europeias, estadunidenses, japonesas e chinesas, cujos lucros são enviados aos países mais ricos, onde essas empresas estão sediadas.




A urbanização no continente africano

De modo geral, os índices de urbanização na África são relativamente baixos (cerca de 40%, em média) e a maior parte da população do continente ainda vive no campo. Os países da África do norte são, em geral, os mais urbanizados (78% na Líbia, 67% na Argélia e 66% na Tunísia).
Alguns países da África subsaariana também apresentam populações majoritariamente urbanas. Sobretudo na África subsaariana, o acelerado crescimento populacional (maior do que o aumento da produção rural), o processo de desertificação na região do Sahel, a busca pelos serviços urbanos, entre outros fatores, vêm estimulando o êxodo rural, processo que tem se intensificado nas últimas décadas. Dentro desse contexto, a taxa de urbanização no continente vem crescendo em um ritmo superior ao de outros continentes – cerca de 1,3% ao ano entre 2015 e 2020.

As principais cidades e os problemas urbanos
 
Na África setentrional, o índice é superior, cerca de 50%, em média (78% na Líbia, 67% na Argélia e 66% na Tunísia); na África do Sul, é de 62%; na África subsaariana, sobretudo no Sahel, diversos países registram índices inferiores a 35%. 
As grandes cidades africanas se estruturaram com a instalação de portos de exportação dos produtos agrícolas e minerais para os países desenvolvidos (e importação de produtos desses países). São exemplos: Lagos (Nigéria), Dacar (Senegal), Luanda (Angola), Cidade do Cabo (África do Sul), Maputo (Moçambi que), Trípoli (Líbia) e Túnis (Tunísia).
Os fluxos migratórios campo-cidade na África têm se dirigido principalmente para as grandes cidades, que vêm crescendo rapidamente e intensificando os graves problemas sociais e urbanos já existentes. 
O acelerado crescimento populacional, maior do que o aumento da produção rural, o processo de desertificação na região do Sahel, a busca pelos serviços urbanos (ainda que precários), entre outros fatores, vêm sendo responsáveis pelo êxodo rural. Os fluxos migratórios campo-cidade, intensos a partir dos anos 1960, têm se dirigido principalmente para as grandes cidades, que crescem em ritmo desenfreado, com a formação de grande número de favelas.
O crescimento da população urbana em um ambiente de desigualdade estimula a favelização (processo de formação de favelas). Estima-se que, em 2018, cerca de 53% da população urbana da África subsaariana vivia em favelas, muitas delas em áreas de risco.
Outros problemas urbanos envolvem a oferta limitada de serviços de saneamento básico, transporte, saúde e educação de qualidade. Na tentativa de promover a interiorização do desenvolvimento e melhorar a organização territorial, alguns países, como Costa do Marfim e Nigéria, decidiram promover melhorias em uma cidade e construir outra, para abrigar suas novas capitais – Yamoussoukro e Abuja (1980), respectivamente.
Situadas no interior de seus territórios, essas cidades destoam das grandes metrópoles desses países (Abidjã e Lagos, respectivamente) por serem servidas por redes de saneamento, transporte e comunicação eficientes.
Embora cerca de 60% da população africana ainda se concentre no espaço rural, nas últimas décadas, foi grande o número de pessoas que migrou do campo para as cidades, sobretudo para os maiores centros urbanos. Essas migrações têm sido impulsionadas por razões diversas, entre as quais se destacam: 
• o aumento da concentração de terras provocado pelo avanço das grandes la vouras monocultoras, que se apropriam de terras originalmente ocupadas por comunidades agrícolas e pastoris; 
• o desgaste e o empobrecimento dos solos (erosão, desertificação etc.), decorrentes da utilização de técnicas agrícolas rudimentares inadequadas, que diminuem a fertilidade e a produtividade das terras; 
• a ocorrência de guerras e conflitos étnicos e políticos em vários países do continente.
O processo de urbanização ocorrido recentemente no continente foi motivado sobretudo por problemas que afetam diretamente o campo e sua população. Assim, ao contrário do que ocorre em outros países e regiões do planeta, a urbanização no continente africano não está diretamente ligada ao processo de industrialização, que tende a atrair um grande contingente de pessoas do campo para as cidades.
A intensificação do êxodo rural no continente africano vem provocando o crescimento acelerado das grandes cidades, como Lagos, Cairo, Kinshasa e Luanda. Com isso, essas aglomerações passaram a crescer de maneira desordenada, desprovidas de infraestrutura e de serviços essenciais (moradias, redes de transportes, fornecimento de energia elétrica, saneamento básico etc.).

Os contrastes socioeconômicos na África

Com relação ao desenvolvimento socioeconômico, os países africanos têm muitos contrastes entre si. O principal deles pode ser observado entre os países da África do Norte e os da África Subsaariana. A região Subsaariana abrange alguns dos países mais pobres do mundo e mais de 430 milhões de pessoas em situação de extrema pobreza, segundo dados da ONU.
São vários os fatores que explicam o quadro de baixo desenvolvimento verifica do na África Subsaariana. Entre eles, elevadas dívidas externas contraídas pelos Estados africanos, que foram agravadas por políticas públicas ineficientes e pela sucessão de governos, muitas vezes, autoritários e associados à corrupção. Além disso, há o baixo nível de industrialização, a relação de dependência econômica e tecnológica com outros países (desenvolvidos e em desenvolvimento industriali zados), as desigualdades sociais e a falta de investimentos em áreas públicas para melhorar a qualidade de vida da população.
A falta de investimentos destinados à ampliação da rede de saneamento básico, à construção de moradias e a melhorias no sistema de saúde e de educação agra va as precárias condições de vida de parte da população da África Subsaariana. Outro fator relevante é o elevado ritmo de crescimento natural da população nos países dessa região. Entre 2020 e 2025, a taxa de crescimento anual médio nos países africanos foi de aproximadamente 2,5%, a mais alta entre todos os continentes do mundo. Esse cenário contribui, por exemplo, para as elevadas taxas de desemprego em muitos países, nos quais o mercado de trabalho não consegue absorver o grande contingente de jovens em busca de oportunidades.

Subdesenvolvimento e contrastes 

As condições de subdesenvolvimento e pobreza que caracterizam boa parte dos países africanos convivem com a diversidade cultural, étnica e econômica que marca o continente. Alguns países africanos têm alcançado expressivo crescimento econômico, apoiado fundamentalmente na exploração dos recursos naturais do continente, como os minérios e, sobretudo, o petróleo. 
Angola, por exemplo, teve sua econo mia completamente estagnada com a guerra civil que durou de 1975 a 1991. Graças aos recursos petrolíferos, no entanto, o crescimento do PIB foi superior a 20% em meados da década de 2000. Ainda assim, o crescimento econômico, como é característico dos países em desenvolvimento, acaba beneficiando uma camada restrita da população e acentuando as desigualdades sociais.
Nos últimos anos, vários países intensificaram relações diplomáticas com o continente africano. Um deles é a China, onde cerca de 30% do petróleo consumido provém da África. Esse país asiático é o segundo maior comprador mundial do produto. Os Estados Unidos tambémim portam de países africanos 15% do petróleo utilizado em todo o território estadu nidense, o que equivale ao percentual registrado em relação ao produto fornecido pelos países do Oriente Médio.
As relações comerciais entre a China e diversos países africanos vêm cres cendo significativamente, assim como os investimentos chineses no continente africano. 
Analistas internacionais criticam o fato de a China dar sustentação a regimes ditatoriais e corruptos – não comprometidos com os direitos humanos – em troca de acordos comerciais favoráveis. Em Angola, a China vem exercendo papel importante na reconstrução do país. No caso do petróleo, os chineses também estruturaram uma cadeia de produção que engloba a extração, o transporte e o processamento da mercadoria.
O mercado de telecomunicações cresceu de modo expressivo no continen te africano. O caso da Nigéria é ilustrativo. Em 2000, com uma população de 160 milhões de habitantes, o país contava apenas 400 mil linhas telefônicas fixas; em 2012, o número de assinantes de telefones celulares era de 60 milhões. Nesse setor das telecomunicações, a presença da China é dominante. Até mesmo a constru ção da sede da União Africana em Adis Abeba, na Etiópia, foi financiada pela China. 
Em muitas cidades e vilas africanas, comerciantes chineses se estabelece ram vendendo mercadorias variadas, sobretudo importadas da China. Essas mer cadorias “made in China” são vendidas em diversos tipos de estabelecimento – de lojas em shopping centers a supermercados, passando pelo comércio ambulante.
A China financia obras de infraestrutura em diversos países do continente africano – rodovias, ferrovias, portos, redes de energia elétrica, planos de geração de energia alternativa –, que fazem parte de um ambicioso projeto denominado Nova Rota da Seda. Essa iniciativa envolve os continentes asiático, europeu e africano e compreende a instalação de redes de cabos de fibra óptica, oleodutos e gasodutos. Em seu conjunto, o projeto abrange o território de 68 países.

A sociedade e as condições de vida da população 

Em 2021, a população absoluta do continente africano era cerca de 1,3 bilhão de habitantes, o que correspondia a aproximadamente 15% da população mundial. De modo geral, os países africanos apresentam populações jovens e taxas de crescimento demográfico superiores a 2,2% (enquanto a média mundial é de aproximadamente 1,2%). 
A busca por melhores condições de vida e a fuga motivada por conflitos étnicos provocam migrações no interior do continente, principalmente em direção a regiões que apresentam maior estabilidade política e econômica. A intensa e rápida urbanização acelera o crescimento de algumas cidades já bastante populosas, como Lagos (Nigéria), Cairo (Egito) e Johannesburgo (África do Sul), intensifican do os graves problemas sociais e urbanos existentes e causando, eventualmente, novos conflitos e novas migrações.

Os indicadores sociais dos países africanos revelam as condições de vida ruins de parte de suas populações, principalmente na África subsaariana. Em 2019, o valor do IDH médio da região era de 0,547 – o menor entre todas as regiões do mundo, refletindo problemas como a baixa renda, a elevada mortalidade infantil e a falta de acesso à educação. 
A escassez de recursos para investimentos em saúde e saneamento básico, aliada à falta de políticas que priorizem a produção de alimentos para consumo interno, tende a manter baixa a expectativa de vida em muitos países da África subsaariana, contribuindo para a prevalência de doenças infecciosas como a aids (provocada pelo HIV) e a malária, assim como para a situação de insegurança alimentar à qual está sujeita uma parcela de sua população. 
O atraso tecnológico, a economia de baixa produtividade — baseada nas atividades primárias —, as guerras civis, a corrupção dos governos e os regimes antidemocráticos, o ritmo de crescimento populacional superior ao ritmo de cres cimento econômico, as secas periódicas — que assolam sobretudo a região do Sahel —, a intensa retirada de recursos naturais sem a aplicação de práticas sus tentáveis são fatores limitadores da melhoria das condições de vida de parcela considerável da população. 
Os países africanos apresentam ainda um dos piores níveis de desigualdade do mundo, com coeficiente de Gini médio de 0,43. Para comparação, os países em desenvolvimento têm, em média, coeficiente de Gini de 0,39 (quanto mais próximo de 1, maior a desigualdade entre as pessoas).
Outro grave problema na África é o desemprego, que afeta principalmente os jovens. Muitos jovens não conseguem trabalho fixo mesmo com nível de escolaridade alto. 

A fome na África

Entre os mais graves problemas sociais que atingem a população africana, a falta de alimentos em quantidade e variedade suficientes para suprir as necessi dades nutricionais das pessoas se destaca entre os mais preocupantes.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma alimentação adequada significa consumir diariamente uma quantidade mínima de calorias ne cessárias, que corresponde a 2 500 quilocalorias por dia, além de nutrientes que compõem uma alimentação balanceada para manter uma vida saudável. Milhões de pessoas no mundo vivem em condição de carência alimentar, ou seja, não ingerem a quantidade mínima de calorias recomendada pela OMS, qua dro que pode levar a problemas como a fome crônica e a desnutrição.
A maior parte das pessoas que sofre com a fome e a desnutrição vive na África e na Ásia. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Ali mentação (FAO), a carência alimentar afeta cerca de 282 milhões de pessoas no continente africano, principalmente nos países da África Subsaariana.
Em muitos casos, a principal causa da fome não é a falta de alimentos propor cionada pelo crescimento da população. A produção mundial de grãos, por exem plo, seria mais do que suficiente para alimentar toda a população mundial. Nesse sentido, as principais causas da carência alimentar são a falta de recursos financei ros para adquirir alimentos e a má distribuição da produção agrícola nos campos.
A agricultura comercial, destinada à produção de gêneros para exportação, ocupa a maior parte das terras férteis da África, enquanto a agricultura tradicional, responsável pela produção da maior parte dos alimentos consumidos pela população, é prejudicada pela falta de apoio dos governos, que não proporcio nam créditos nem acesso a insumos e tecnologia.
Outros agravantes da fome na África são os conflitos existentes em alguns países e as mudanças climáticas, que intensificam a erosão e a desertificação dos solos. A ONU e outras organizações internacionais realizam programas com o objetivo de proporcionar ajuda humanitária à África, inclusive por meio da distribuição de ali mentos em regiões afetadas pela fome.
Embora essa ajuda seja importante para pessoas que estão em situação vulnerável, essas ações ainda são ineficientes, pois não atuam nas causas do problema da fome e prejudicam ainda mais os pequenos agricultores.

Questões ambientais na África

De modo geral, as questões ambientais na África são semelhantes às detecta das em outras partes do mundo e decorrentes tanto de fatores natu...