Comparada a outras regiões do mundo, a Améri ca se encontra em uma situação relativamente con fortável no que se refere à disponibilidade de água. No entanto, não se trata de um recurso acessível a todos e, mesmo em áreas onde há disponibilidade, muitas pessoas não têm acesso a água tratada, so bretudo na América Latina.
Além de o acesso a água tratada não ser garantido a muitas pessoas, a polui ção de rios e lagos tem comprometido cada vez mais a qualidade das águas superficiais, gerando uma pressão maior nas grandes reservas de águas subterrâneas, como os lençóis freáticos e os aquíferos – formações rochosas nas quais a água se infiltra, se acumula e se movimenta.
Para fazer frente a essa realidade, em 1997, o Brasil criou o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos (SINGREH), um instrumento de gestão dos recursos hídricos no país. O SINGREH, por meio da Política Nacional de Re cursos Hídricos e do Plano Nacional de Recursos Hídricos, desenvolve projetos de recuperação de bacias hidrográficas, gestão compartilhada de bacias e pro cedimentos para cobrança pelo uso da água retirada de fontes subterrâneas ou superficiais. A Agência Nacional de Águas (ANA), vinculada ao Ministério do Meio Ambiente, é o órgão que responde pela implementação da Política Nacional de Recursos Hídricos.
Para tomar decisões que orientam projetos em bacias hidrográficas e cobran ça pelo uso dos recursos hídricos, por exemplo, são criados Comitês de Bacias Hidrográficas. Esses comitês contam com a participação de usuários, da socie dade civil organizada e de representantes de governos municipais, estaduais e federal. São usuários das bacias aqueles que captam água das fontes superficiais ou subterrâneas, os que lançam efluentes nos rios, os que fazem uso da irrigação, as empresas de saneamento básico e de distribuição de água, indústrias, minera doras e aquicultores (criadores de peixes), entre outros.
Segundo a ANA, cerca de 40% dos municípios brasileiros são totalmente abastecidos por águas subterrâneas.
O aquífero Guarani se estende pelo subsolo de alguns dos países do Merco sul, mas a maior parte se concentra no Brasil: 71%. O restante de sua área está distribuído da seguinte forma: 19% na Argentina (nesse país, os limites e as ca racterísticas do aquífero ainda são pouco conhecidos), 6% no Paraguai e 4% no Uruguai. Em razão desse compartilhamento, foi criado em 2003 o Projeto Aquífe ro Guarani, objetivando uma gestão conjunta desses países do Mercosul com a finalidade de manter a qualidade do aquífero. O projeto determina que os quatro países devem explorar o aquífero de modo sustentável, dentro de certos limites que possibilitem a recarga natural, além de serem responsáveis pelo controle da contaminação para reduzir a poluição.
A principal ameaça às águas subterrâneas é a poluição decorrente do uso de produtos químicos na agricultura, de vazamentos em redes de esgoto e de lixões e aterros sanitários instalados de forma inadequada. Essas formas de degradação atingem os aquíferos nos trechos em que a água da chuva se infiltra e abastece a reserva subterrânea. Esses trechos, em geral, são os afloramentos.
Rios extensos que formam
grandes bacias hidrográficas
Nas Américas do Norte e do Sul há rios bastante extensos, que formam grandes bacias hidrográficas. No entanto, em muitos países a água está mal distribuí
da, uma vez que existem também extensas áreas de clima seco.
A América Central não apresenta rios de grande extensão.
A porção central de
seu trecho continental é constituída de montanhas, onde se situam nascentes de
rios que percorrem um pequeno trajeto até desaguarem no oceano Pacífico ou no
oceano Atlântico. A situação é mais dramática nos países insulares, ameaçados
por uma carência crônica de água.
As nascentes de rios localizam-se nas regiões mais elevadas do relevo (planaltos,
montanhas, cordilheiras), às quais se dá o nome de centros dispersores de águas.
Entre os centros dispersores de águas do continente americano destacam-se
as Montanhas Rochosas, o planalto Canadense, os montes Apalaches, a cordilheira
dos Andes, os planaltos Norte-Amazônicos, o planalto dos Parecis, os planaltos e
serras de Goiás-Minas e os planaltos e serras do Atlântico. Essas elevações apre
sentam declives que orientam as direções dos rios. Esses declives são chamados
vertentes. Para conhecer melhor as demais bacias hidrográficas do continente americano, optamos por agrupá-las de acordo com as vertentes que determinam suas
direções.
A vertente Ártica
Os centros dispersores dos rios da vertente Ártica são as Montanhas Rochosas
e o planalto Canadense. Entre esses rios, destaca-se o Mackenzie, maior rio do Canadá, que nasce no Grande Lago do Escravo e deságua no oceano glacial Ártico, após
percorrer 4.600 quilômetros de extensão. As águas do Mackenzie, bem como as da maioria dos rios dessa vertente, permanecem congeladas durante grande parte do ano.
A vertente do Atlântico Norte o rio São Lourenço
e os Grandes Lagos
O rio São Lourenço, cujo centro dispersor são os Apalaches, é o principal rio da
vertente do Atlântico Norte. Esse rio interliga o oceano Atlântico (litoral canadense) à região dos Grandes Lagos (lagos Superior, Huron, Michigan, Erie e Ontário),
localizada no interior da América do Norte, entre os Estados Unidos e o Canadá.
A construção de canais e eclusas nos Grandes Lagos e no rio São Lourenço
tornou possível a chegada de embarcações de grande porte, provenientes do oceano Atlântico, à cidade de Chicago, localizada às margens do lago Michigan, no
interior do continente.
Entre a cidade de Quebec (Canadá) e o lago Ontário localiza-se a Via Marítima
do São Lourenço ou Grandes Lagos-São Lourenço. Essa hidrovia apresenta várias
eclusas que permitem a comunicação entre os Estados Unidos e o Canadá.
Às margens da Via Marítima do São Lourenço,
além de Chicago (Estados Unidos) e Montreal (Canadá), existem outras grandes cidades com intensa
atividade econômica e vários tipos de indústria.
Nessa hidrovia, o tráfego é intenso entre as cidades de Quebec e Toronto, no Canadá, e entre as
cidades de Buffalo, Cleveland e Detroit (importante
centro da indústria automobilística), nos Estados
Unidos.
Dessa forma, os cursos de água e os lagos, assim como as diversas obras realizadas nessa hidrovia, possibilitam o escoamento da grande produção
industrial e a chegada de mercadorias de outros
países.
Entre os lagos Erie e Ontário, encontra-se um
conjunto de saltos e corredeiras que atrai milhares de
turistas todos os anos. São as cataratas do Niágara.
A vertente do golfo do México
e a bacia Mississípi-Missouri
Vários rios que deságuam no golfo do México
nascem tanto nas montanhas da parte ocidental
quanto nas montanhas e planaltos da parte oriental
da América do Norte.
O principal rio da mais importante bacia hidrográfica da América do Norte é o Mississípi, navegável praticamente em toda sua extensão, por ser um
típico rio de planície.
Seu principal afluente é o rio
Missouri. Juntos, o Mississípi e o Missouri atingem
mais de 6 mil quilômetros de extensão.
O Missssípi e o Missouri são rios de grande importância econômica, pois
suas margens apresentam solos férteis e planos, aproveitados principalmente
para os cultivos de milho e de trigo. Além disso, exercem a função de escoadouro
de minerais, cereais e outros produtos cultivados nas regiões banhadas por eles
e por seus afluentes.
Alguns afluentes do Mississípi, como o rio Tennessee, provocavam enchen
tes com graves consequências. Após várias obras de engenharia (construção de
represas e diques) que regularizaram os cursos desses rios, eles passaram a for
necer energia elétrica e se tornaram navegáveis em trechos mais extensos. Além
disso, suas águas passaram a ser utilizadas na irrigação de plantações.
A fronteira entre os Estados Unidos e o México, de 3.140 quilômetros, é
delimitada em sua maior extensão pelo rio Grande ou Bravo do Norte (para os
mexicanos). Essa fronteira é ostensivamente policiada pelos Estados Unidos e
delimitada por muros, em diversos trechos, para impedir a travessia ilegal de
imigrantes.
A vertente do Pacífico Norte
Os rios da vertente do Pacífico Norte, que descem as altas mon
tanhas da porção ocidental da América do Norte, são, em geral, de pequena extensão e possuem um curso bastante acidentado, com muitas quedas-d’água.
Os
rios mais expressivos dessa vertente, na América do Norte, são o Colorado e o
Sacramento. Os picos das montanhas formam geleiras, que retêm a água durante
o inverno e alimentam esses rios na pri
mavera e no verão, funcionando, dessa
forma, como um reservatório natural.
A
diminuição das geleiras tem afetado o
volume de água e apontado problemas à
agricultura e ao futuro abastecimento da
população da porção noroeste dos Estados Unidos.
O rio Colorado, com mil quilômetros
de extensão, nasce no planalto do Colorado. Em seu curso, escavado sobre rochas
sedimentares, suas águas abriram vales
muito profundos, denominados cânions,
como o Grand Canyon.
O rio Sacramento corre pelo vale da
Califórnia e separa as cadeias da Costa
da Serra Nevada. Esse rio teve papel de
destaque na colonização do oeste norte-americano, pois atraiu grande número
de colonos que buscavam ouro encontra
do em seu leito.
Ainda na vertente do Pacífico Norte, encontram-se o rio Colúmbia, cujas
águas represadas são utilizadas para irrigação e obtenção de energia elétrica, e o
rio Yukon, que nasce nas Montanhas Rochosas.
Em um dos trechos do Colúmbia, localiza-se a usina hidrelétrica de Grand
Coulee, uma das maiores do mundo. O Yukon, cuja maior parte de seu curso localiza-se no Alasca, teve grande importância nas explorações auríferas que contribuíram para a ocupação desse território. Apesar de congelado durante boa parte
do ano, é possível navegá-lo.
A vertente do Atlântico sul
Essa vertente é a mais extensa e a mais importante do continente. Nela estão
situadas as duas maiores bacias hidrográficas do mundo: a bacia Amazônica e a bacia
Platina.
A bacia Amazônica
A bacia Amazônica, cujo principal rio é o Amazonas, ocupa uma área de aproximadamente 7 milhões de quilômetros quadrados, dos quais 4,8 milhões estão
em território brasileiro. Esse rio entra no Brasil com o nome de Solimões e, ao se
encontrar com o rio Negro, recebe o nome de Amazonas.
Os centros dispersores de águas do rio Amazonas situam-se nos Andes
(onde o rio nasce), nos planaltos Norte-Amazônicos e no planalto dos Parecis.
O Amazonas é um rio de planície, propício à navegação, que permite o acesso
de navios de grande porte ao porto de Manaus, às margens do rio Negro, no interior do continente. Por essa rede hidroviária são transportados grandes volumes
de carga (produtos agrícolas, minerais e industrializados), além de pessoas.
Os afluentes da margem direita do rio Amazonas são mais extensos e pos
suem maior volume de água, como o Purus, o Madeira, o Xingu e o Tapajós. Os da
margem esquerda, por sua vez, são de menor expressão, exceto o rio Negro, que
é um rio de grande porte.
Em alguns rios da bacia Amazônica foram construídas usinas hidrelétricas,
como a de Balbina, no rio Uatumã, e a de Samuel, no rio Jamari, além de Jirao e
Santo Antônio, no rio Madeira.
Particularmente nas hidrelétricas de Balbina e de Samuel, foram formados
lagos artificiais que provocaram a devastação de grandes áreas florestais, a ex
tinção de importantes espécies da fauna e da flora amazônicas e o desalojamen
to de habitantes das áreas inundadas. Além disso, a construção de hidrelétricas
na Amazônia afeta comunidades indígenas e outras populações tradicionais que
vivem da floresta, como as comunidades extrativistas e os ribeirinhos, que vivem
da pesca artesanal e da agricultura de subsistência.
As novas hidrelétricas projetadas para a região são a fio d’água, ou seja, não
requerem reservatórios (represas) grandes, pois a geração de energia depende
fundamentalmente da vazão do rio. Daí haver uma oscilação grande na capacidade
de geração de energia: no período das chuvas gera-se mais energia do que em
épocas de estiagem.
Os impactos ambientais provocados pelas
hidrelétricas na Amazônia vêm ocasionando
uma série de protestos por parte de movimen
tos ecológicos nacionais e internacionais.
En
tretanto, há opiniões favoráveis à construção
de hidrelétricas na região, sob a justificativa de
que se trata de uma fonte renovável e de que,
tanto as projetadas (São Luís, no rio Tapajós)
quanto aquelas que se encontram em fase de
construção (como Belo Monte, no rio Xingu, e
Teles Pires, no rio de mesmo nome), atualmen
te são a fio d’água, o que reduz os impactos nos
ecossistemas amazônicos
Em 2018, havia dezenas de hidrelétricas
projetadas para a região Amazônica.
A bacia Platina
Considerada a segunda maior bacia hidrográfica do mundo, a bacia Platina ocupa uma área de cerca de 4.350.000 quilômetros quadrados, abrangendo
terras do Brasil, do Paraguai, do Uruguai, da Argentina e da Bolívia.
Os principais rios dessa bacia são o Paraná, o Paraguai e o Uruguai, todos
com nascente no Brasil.
Na divisa da Argentina com o Paraguai, o rio Paraguai
deságua no rio Paraná. Este, ao atravessar a cidade de Paraná, na Argentina,
tem sua denominação modificada para rio da Prata. O rio Uruguai desemboca na
foz do rio da Prata.
Em razão dos inúmeros trechos encachoeira
dos, o rio Paraná e muitos de seus afluentes possuem enorme potencial hidráulico, em boa parte já
aproveitado. Nesse rio encontram-se várias usinas
hidrelétricas, como Itaipu, Sérgio Motta (também
chamada de Porto Primavera), Jupiá e Ilha Solteira,
que fazem parte do complexo hidrelétrico de Uru
bupungá. Nos formadores do rio Paraná há também importantes usinas: Furnas e Volta Grande, no
rio Grande; São Simão e Cachoeira Dourada, no rio
Paranaíba.
Com a implantação da hidrovia Tietê-Paraná
(interligada ao Paranaíba), possível graças à construção de eclusas em ambos os rios, o Paraná tem
sido mais bem aproveitado para a navegação, e por
ele é transportada grande quantidade de produtos,
principalmente agrícolas.
Formadas pelas ligações Tietê-Paraná e Para
guai-Paraná, as hidrovias do Mercosul possibilitam
menor custo no transporte de mercadorias e pes
soas em comparação aos demais meios de transporte, além de viabilizarem a integração econômica
entre os países desse grupo.
Outras bacias
Também faz parte da vertente do Atlântico Sul a bacia do São Francisco, lo
calizada totalmente em território brasileiro. O rio São Francisco atravessa uma
área de clima Semiárido (Sertão nordestino) e é aproveitado para irrigação e
para transporte de pessoas e mercadorias entre diversas cidades do Sertão.
Além disso, esse rio possui enorme potencial hidráulico, o que favoreceu a cons
trução de grandes usinas hidrelétricas, como as de Sobradinho, Paulo Afonso,
Xingó e Três Marias.
No território brasileiro há diversas outras bacias hidrográficas cujos rios
deságuam no oceano Atlântico. Na bacia do Tocantins-Araguaia há algumas hi
drelétricas importantes, como a de Tucuruí e de Serra da Mesa, no rio Tocantins.
A hidrovia do Tocantins-Araguaia serve para o escoamento de parte da produção
agrícola do Centro-Oeste do Brasil.
Na bacia do rio Doce, ocorreu um dos maiores desastres ambientais da his
tória do Brasil, provocado pelo rompimento de duas barragens de reservatórios
que armazenavam resíduos de atividade mineradora, no município de Mariana,
em Minas Gerais. Essa tragédia ocasionou o assoreamento de rios e riachos, em
função da deposição de grande carga de sedimentos em seus leitos, além de
afetar e provocar a mortandade de diversas espécies animais e vegetais. Muitas
comunidades ribeirinhas que vivem da pesca perderam seu meio de sustento e o
abastecimento de água de diversos municípios ficou comprometido.
No norte da América do Sul, nos territórios da Venezuela e da Colômbia, en
contra-se a bacia fluvial constituída pelo rio Orinoco e seus afluentes. Com cerca
de 950 mil quilômetros quadrados de área, é a terceira maior bacia da América do
Sul. O Orinoco é navegável por embarcações de grande porte, desde sua foz até
a confluência com o rio Caroní, em Ciudad Guayana, por onde são transportadas
mercadorias industrializadas e agropecuárias.
Às margens do Orinoco, na Venezuela,
desenvolve-se a criação de gado, enquanto
em seu baixo curso concentram-se indústrias
e usinas hidrelétricas. Em suas proximidades
há uma das maiores reservas de petróleo do
mundo, a faixa petrolífera do Orinoco, no norte da Venezuela. As atividades econômicas,
porém, têm gerado considerável impacto am
biental em toda a bacia, inclusive no delta do
rio, onde vivem comunidades de pescadores e
povos indígenas.
O território da Colômbia é também atraves
sado por um rio que constitui um importante re
curso natural: o Madalena. A importância desse
rio se deve ao aproveitamento de suas águas
para geração de energia elétrica e
para irrigação, que propicia o desenvolvimento
de atividades agrícolas às suas margens.
Lagos Sul-Americanos
Na América do Sul, dois lagos merecem destaque: o lago Maracaibo (16 mil
quilômetros quadrados), localizado na Venezuela, onde se realiza a extração de
petróleo; e o lago Titicaca (8 mil quilômetros quadrados), situado nos Andes, a
3.800 metros de altitude.
Desde o século X, as margens do Titicaca (na fronteira
entre a Bolívia e o Peru) têm sido utilizadas para a prática agrícola, como o cultivo
de cevada, de quinoa e de batata.
Nenhum comentário:
Postar um comentário