Um continente ainda fragilizado
A África iniciou o século XXI com graves problemas políticos, econômicos e sociais. Após quase cinco séculos de exploração colonial e cerca de um pouco mais de cinquenta anos da descolonização ou da formação dos Estados nacionais, o continente vive uma difícil situação, tendo como causa vários fatores. A seguir, vamos analisar esses aspectos, abordando suas principais características.
1- Aspectos políticos, corrupção e governos ditatoriais
O recente processo de formação dos Estados nacionais africanos ainda não foi capaz de superar os efeitos negativos da arbitrária delimitação de fronteiras por parte do colonizador europeu. Dessa herança, o principal reflexo político são as guerras.
A ausência de democracia, as fraudes nas eleições governamentais e as práticas de corrupção ocorrem em muitos Estados africanos. Apoiados por oligarquias nacionais e por setores das forças armadas, governantes permanecem no poder por longo tempo, exercendo poderes ditatoriais.
Os regimes ditatoriais são obstáculos ao desenvolvimento econômico e social, pois impedem que haja transparência nas decisões políticas, impõem leis restritivas à liberdade de expressão e permitem que os recursos nacionais sejam manipulados conforme os interesses dos ditadores e dos grupos que os apoiam, e não de acordo com o que a população necessita (saúde, educação etc.).
As guerras civis
O fim das guerras de independência não representou o fim dos confli tos armados na África até os dias atuais. As causas dos conflitos são diversas: rivalidades interétnicas (caso de Burundi e Ruanda, de Darfur, no Sudão etc.); lutas por libertação de territórios subjugados a um poder central (a guerra entre a Eritreia e a Etiópia, por exemplo); lutas pelo domínio político-econômico do Estado (guerra de Angola, Costa do Marfim etc.); disputas por recursos minerais, entre eles o petróleo; rivalidades religiosas; pirataria na Somália e outras.
Além de causar milhares de mortes, os conflitos armados desorganizam a produção, aprofundam os problemas eco nômicos, consomem recursos financeiros que poderiam ser aplicados no desenvolvimento nacional e agravam os qua dros de pobreza e miséria em muitos países.
2- Aspectos sociais
As condições desfavoráveis em que se encontram muitas sociedades africanas refletem, em parte, o legado de exclusão e desigualdade so cioeconômica gerado durante a colonização e mantido por governos posteriormente instalados.
Epidemias
As epidemias e doenças são o resultado da pobreza em que vive grande parcela da população africana. Em 2020, a África concentrou 95% dos casos de malária registrados no mundo e 25% dos casos de tu berculose. Em 2021, a epidemia do vírus Ebola ainda não estava contro lada em alguns países africanos. A epidemia de aids ainda é alarmante na África. Em 2020, de cada cem pessoas infectadas no mundo com HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana, sigla em inglês), 67 estavam no continente africano.
A precariedade do ensino, a falta de educação sexual, a pobreza da população, os serviços públicos de saúde inadequados e precários, o elevado custo dos medicamentos e a pouca determinação por parte de alguns governos em combater a aids são fatores que contribuem para a disseminação dessa enfermidade em algumas regiões da África.
Desnutrição
A África é um continente com grande ocorrência de desnutrição. Tanto a fome crônica, decorrente da ingestão diária insuficiente de ca lorias e nutrientes para a manutenção da saúde, como a fome aguda, caracterizada pela falta quase absoluta de alimentos, resultam de causas sociais, econômicas e políticas (guerras entre Estados, guerras civis etc.), agravadas por adversidades naturais (secas, inundações e pragas nas lavouras).
Como exemplo, há o caso da Somália. Nos anos 1990, esse país esteve envolvido em guerras étnicas internas. Além disso, gran des secas dizimaram plantações e criações de gado, impondo à popu lação grandes dificuldades de acesso aos alimentos. Como a ajuda humanitária coordenada pela ONU não pôde chegar com eficiência aos necessitados em virtude do conflito armado, milhares de pessoas morreram de inanição.
Refugiados
Em 2020, do total de 26,4 milhões de refugiados no mundo, pouco mais de 17,7 milhões, cerca de 67%, eram refugiados da África e do sudoeste da Ásia – sírios, afegãos, iraquianos, iemenitas etc. – que, fugindo de guerras e da pobreza, tentavam chegar ao sul da Europa pela rota da Líbia e por outras rotas. De acordo com a Organização Internacional para Migrações (OIM), mais de 20 mil migrantes morreram tentando atravessar o Mar Mediterrâneo entre 2014 e 2020. Muitas dessas mortes poderiam ter sido evitadas caso houvesse em seus países de origem estabilidade política, emprego e, sobretudo, solidariedade.
Aspectos econômicos
De modo geral, os países africanos não conseguiram se inserir no processo de globalização que marcou o mundo nos últimos vinte anos. A África integra o comércio mundial predominantemente como expor tadora de produtos primários e importadora de bens industrializados.
Uma das causas dessa posição dos países africanos na economia global é a carência de energia elétrica e de infraestrutura de transpor te e de comunicação – fatores funda mentais para o desenvolvimento in dustrial –, que limita os investimentos na produção. As redes de transportes mais modernas restringem-se a ligar zonas produtoras agrícolas e minerais aos portos de exportação.
Com exceção da África do Sul e do Egito, os países africanos apresen tam baixo nível de industrialização e de investimento em pesquisa cien tífica e formam pouca mão de obra especializada. A seguir, apresentamos alguns indicadores que demonstram a inser ção periférica da África na globalização.
O comércio exterior
As exportações da África representaram, em 2020, aproximadamen te, 2,2% do total mundial – em 2003, representaram 2,4%; em 1993, 2,5%; em 1973, 4,8%; e em 1953, 6,5% –, o que demonstra sua posição secundária na globalização em curso. As importações representaram apenas 2,9% do total mundial. Desse modo, a África é o continente com o menor valor de operações no comércio exterior.
O PIB africano
Em 2020, a soma do PIB de todos os países africanos correspondeu a cerca de 2,4 trilhões de dólares. No mesmo ano, o PIB brasileiro foi de mais de 1,4 trilhão de dólares. Nesse ano, a África respondeu por apro ximadamente 2,8% do PIB mundial. Dentro do continente, destacam-se África do Sul, Egito e Nigéria, com cerca de 47% do PIB africano.
Os investimentos diretos estrangeiros (IDE)
As empresas transnacionais realizam operações financeiras para adquirir empresas ou implantar filiais em diversos países do mundo. Essas operações são chamadas de investimen tos diretos estrangeiros (IDE). A análise dos IDE indica quanto um país está inserido no processo de globalização.
Na África, esses investimentos, dirigidos prioritariamente para o setor extrativo mineral – mesmo na África do Sul e no Egito com economias diversificadas –, são modestos se comparados aos dos outros continentes, exceto à Oceania. Em 2020, os países mais contemplados com IDE foram: Egito, Congo, África do Sul, Nigéria, Etiópia e Moçambique.
Aspectos culturais
Inicialmente, é necessário refutar a imagem preconceituosa que ain da perdura na mente de muitas pessoas: a de que a África é habitada por povos atrasados e que sua cultura é pobre. Não existe uma África, mas várias. Trata-se de um continente com países, etnias e culturas diversos, um mosaico de povos com conhecimentos filosóficos, tecnologias próprias, tradições particulares e ricas manifestações artísticas na música, arquitetura, escultura, dança, poesia e literatura oral – elementos que o colonialismo tentou apagar.
Os colonizadores procuraram romper os laços que ligam os povos africanos às suas tradições e ao passado. Fecharam escolas, lançaram à destruição objetos e locais de culto e implantaram uma educação colo nial a serviço da conquista, como instrumento de dominação. Por outro lado, introduziram instituições políticas e tecnologias desconhecidas pelos africanos e receberam destes vários conhecimen tos sobre o meio físico da África e uma rica cultura de tradição oral. Após 1930, a literatura escrita africana teve um grande avanço. A ampliação da educação letrada, da alfabetização e de cursos universitários estimulou a produção literária de vários escritores africanos, que, em suas obras, expõem sua visão de mundo, muitas vezes questionando as relações entre o colonizador e o colonizado.
3- Ciência, tecnologia e trabalho
A Revolução Técnico-Científico-Informacional ocorrida nos últimos anos beneficiou os países africanos, assim como a outros do mundo. Con tudo, por outro lado, os países da África sofreram impacto quanto à neces sidade da formação de mão de obra para lidar com as novas tecnologias.
Na África, com apoio dos Estados africanos, do Banco Mundial e de empresas, tem havido investimentos em universidades não somente para a formação de recursos humanos, mas também para pesquisas vol tadas a várias áreas do conhecimento.
Em 2016, cerca de 370 milhões de dólares foram investidos em startups (empresas em fase inicial que desenvolvem produtos ou serviços ino vadores, com potencial de rápido crescimento) de tecnologia na África. Em Gana, cerca de 200 mil agricultores são usuários de um sistema de consulta telefônica que dispõe, em tempo real, de informações sobre o clima e o preço das safras, e 250 mil são associados a um aplicativo que aluga temporariamente tratores. Em Uganda, onde quase 80% da popu lação não tem acesso à eletricidade, há startups que extraem energia da biomassa para amenizar o problema.
Próximo a Nairóbi, no Quênia, está em construção a cidade tecno lógica de Konza. Também conhecida como a “Savana do Silício”, sua implantação objetiva atrair empresas do setor de informação, comuni cação e tecnologia, investir na educação para qualificar e capacitar mão de obra local e incentivar pesquisa e desenvolvimento. Tanto no meio urbano africano como no rural, houve alterações nos ti pos de trabalho motivadas pelo surgimento de novas tecnologias, como, aliás, em todo o mundo. A formação científica e tecnológica se tornou um capital muito importante não somente para quem o possui, mas para todo país que busca seu desenvolvimento econômico e social.
4- Atuação das organizações internacionais mundiais e regionais na África
Além da atuação da ONU na África por meio de suas forças de paz, do trabalho da Unicef em prol das crianças, da FAO com programas para o desenvolvimento da agricultura e assistência alimentar, da Unesco com programas educacionais e proteção da rica cultura africana e de outros órgãos e agências, cumpre destacar as organizações internacionais regionais.
Organizações internacionais regionais
Os Estados africanos, a exemplo do que existe na América e em outros continentes, uniram-se e formaram associações entre si: as organizações internacionais regionais, como é o caso da União Africa na (UA). Essa organização foi criada em 2002, em substituição à antiga Organização da Unidade Africa na. Seus objetivos são: mediação de conflitos, defesa da democracia, modernização das instituições políticas, defesa dos direitos humanos, além de outros.
Com exceção do Marrocos, todos os países africanos são membros da UA, que reconhe ce o desejo de independência do Saara Ocidental, o que não é aceito pelo governo marroquino, que tem o domínio sobre ele.