sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Conflitos no continente africano

A África nem sempre se viu às voltas com a pobreza, epidemias e outras carências. Basta lembrar-se de que a história Pré-Colonial africana é marcada por grandes impérios, sociedades complexas e desenvolvidas, que já mantinham relações comerciais e políticas com outras regiões do mundo antes mesmo da chegada dos colonizadores europeus.
O continente africano sofreu as consequências negativas deixadas pelo período da exploração colonial; também em grande parte, suas riquezas são exploradas por empresas transnacionais e ainda a atuação dos governos corruptos e das elites locais, somada à concorrência do mercado internacional no mundo globalizado, contribuíram para explicar o quadro geral de desigualdade econômica e social que domina a maior parte do continente. Dessa forma, podemos concluir que todos esses problemas corroboraram para que a África fosse palco de tantos conflitos armados e tragédias.
Nos principais conflitos da África contemporânea, é possível observar que em diversos Estados, alguns consideravelmente novos, custaram muito a consolidar suas fronteiras ou ainda não o fizeram. 
Vários outros também não encontraram uma forma de governar que satisfizesse às necessidades básicas da população. Em muitos casos, grupos étnicos e religiosos que se entendem como nação almejam governar o país e acabam por insuflar movimentos não democráticos, ou mesmo separatistas, na busca por um território em que possam exercer soberania e relações de poder.

Conflitos e guerras 


De acordo com a ONU, a África é o continente com o maior número de conflitos duradouros em todo o mundo. Em razão da instabilidade política de muitos países africanos, que ainda lutam pela construção de um Estado sólido e de um governo representativo e democrático em um contexto tão diverso e problemático, a maioria das guerras no continente se configura como conflito interno. 
As principais causas desses conflitos são as disputas pelo controle do poder político, as rivalidades religiosas e as lutas por autonomia de grupos étnicos. Além disso, há a disputa pela grande quantidade de riquezas minerais do solo africano, que interessa tanto aos grupos armados quanto aos governos e às grandes corporações. 
Muitas guerras são financiadas pelos lucros oriundos da extração desses recursos, algumas das quais chegam a ultrapassar as fronteiras políticas dos territórios, como é o caso da República Democrática do Congo. 
Ainda que o número de conflitos tenha diminuído, as guerras prolongam-se e apresentam grande impacto no desenvolvimento humano. Assim, é possível estabelecer uma relação direta entre os conflitos e a pobreza do continente, pois as guerras destroem o sistema produtivo, aumentando a fome e a desnutrição da população. 
Na lista dos dez principais países de origem dos refugiados em 2021 estão cinco africanos: Sudão do Sul, República Democrática do Congo, Sudão, Somália e República Centro-Africana. O número total de sul-sudaneses deslocados nos últimos anos já alcança 3,3 milhões, o que significa dizer que um em cada quatro sul-sudaneses se encontra deslocado de seu país de origem.
Aproximadamente 30% dos refugiados do mundo são pessoas nascidas no continente africano, notadamente em duas regiões: Ocidental, com conflitos em Serra Leoa, Nigéria, Libéria e Costa do Marfim; e Centro-Oriental, no arco norte-sul, que se estende do Sudão até os Grandes Lagos, passando pela região do chifre africano. Em diversos locais da África há campos de refugiados da ONU. O maior deles fica no Quênia e já contou com uma população de mais de 400 mil pessoas.
Apesar de a grande maioria de refugiados africanos permanecer na própria África, um grande número de pessoas tenta chegar à Europa atravessando o Mar Mediterrâneo, onde muitos perdem a vida em naufrágios. 
As guerras em países africanos, além de causar mortes, pioram as condições de vida dos habitantes, entre os quais estão incluídas imensas massas de refugiados, que sofrem as consequências dos conflitos. 
Nas últimas décadas, Nigéria, Ruanda e Sudão do Sul, entre outros países, sofreram com violentos conflitos armados.

Nigéria 


A Nigéria enfrenta conflitos internos desde sua independência, em 1960. Seu território é constituído por cerca de 250 grupos étnicos, prevalecendo três deles: os hauçá-fulá (32% da população), os iorubás (21%) e os ibos (18%).
A luta pelo poder entre esses três grupos levou o país a uma das mais sangrentas guerras civis da África: a Guerra de Biafra (1967-1970).
Os ibos, provenientes da província de Biafra, no leste do país, formavam a elite da Nigéria. Em um golpe de Estado dado em 1966, generais da etnia ibo tomaram o poder dos hauçá-fulá. Um contragolpe derrubou o regime, e os ibos passaram a ser caçados e massacrados pelo país. Eles, então, declararam a independência da província de Biafra, iniciativa não reconhecida pelo governo central. 
Todos esses fatos resultaram na guerra civil que matou mais de 1 milhão de pessoas e terminou com a rendição de Biafra, novamente anexada ao território nigeriano.
Desde o fim da guerra civil, a Nigéria convive com a rivalidade entre o sul, cristão e economicamente mais desenvolvido, e o norte, predominantemente muçulmano e detentor do controle político do país. A disputa envolve cristãos e islâmicos. 
Os conflitos étnicos e religiosos na Nigéria são agravados pela ação de grupos radicais islâmicos, como o Boko Haram, que reivindica a construção de uma república islâmica e o combate à cultura ocidental deixada pelos colonizadores ingleses no país.
O grupo fundamentalista islâmico Boko Haram luta para derrubar o atual governo e fundar um Estado somente para os islâmicos, valendo-se, para tanto, de estratégias terroristas.
Desde 2009, o Boko Haram comete atos violentos, fazendo muitas vítimas entre civis, militares, políticos e religiosos. O aumento da violência provocou a fuga de milhares de pessoas do país.
Recente mente, o exército nigeriano reconquistou o poder nas áreas do país onde o grupo terrorista havia assentado suas bases e intensificado suas ações. 
No entanto, o risco ainda continua e, para alguns especialistas, a ameaça terrorista poderia ser controlada se o governo nigeriano conseguisse reduzir a pobreza crônica do país, além de conciliar, por meio de um sistema de ensino diversamente étnico, cristãos e muçulmanos.

Ruanda 


Ruanda foi devastada por conflitos étnicos entre as etnias hutu e tutsi, culminando com o grande genocídio de 1994, que vitimou em cem dias cerca de 800 mil pessoas do grupo étnico tútsi, levando mais de 2 milhões de pessoas do grupo étnico hútu a se deslocar forçadamente para o antigo Zaire, atual República Democrática do Congo – onde ainda há ecos da tensão entre grupos radicais. 
Uma das causas que levaram ao genocídio entre tútsis e hútus foi a diferenciação no tratamento dado às etnias pelos belgas, ainda ocorrida no Período Colonial. 
A rivalidade entre as etnias, que se reconheciam diferentes, mas conviviam no mesmo território, foi então fomentada por ideias racistas. Atualmente, Ruanda é uma das economias que mais cresce no continente africano. 
O país mantém-se em constante alerta e, por meio de muitos esforços, alcançou considerável estabilidade na convivência entre as etnias, apesar dos baixos índices de desenvolvimento humano e da ainda grande desigualdade de renda – inclusive entre hútus e tútsis. As rivalidades prosseguem até a atualidade, embora com menor intensidade.

Angola 


Angola vivenciou, desde a independência, em 1975, uma devastadora guerra civil, em que se opunham o partido do governo, de orientação socialista, e a União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita), anticomunista. O conflito fez milhares de vítimas e, até hoje, minas terrestres espalhadas pelo país promovem mutilações e mortes. Desde 2006, o país está em paz.

Sudão do Sul 


O Sudão passou por uma longa guerra civil em razão das disputas de poder e de controle do território e de seus recursos naturais, sobretudo o petróleo. Contrapunham-se o norte, então sede do governo e com população predominantemente muçulmana, e o sul, base do Exército de Libertação do Povo Sudanês (ELPS), com população majoritariamente cristã. Apesar de as diferenças culturais, étnicas e religiosas terem influenciado os conflitos, eles foram motivados essencialmente pelas disputas econômicas.
O conflito está relacionado à hostilidade entre líderes políticos e associado à disputa pelo controle das reservas de petróleo. Em 2005 foi assinado um cessar-fogo, mas os conflitos e as mortes continuaram. Em 2011, 98% da população optou em plebiscito pela separação do sul e pela criação de um Estado-nação: o Sudão do Sul. 
O Sudão do Sul, o país mais jovem do mundo, independente desde 2011, vive uma guerra civil iniciada em 2013. 
Apesar das grandes reservas de petróleo, o Sudão do Sul “nasceu” com os mesmos problemas sociais que afetam a maioria da população da África Subsaariana. Em 2013, uma nova guerra civil envolveu duas etnias sul-sudanesas: dinka e nuer.
O estopim para o conflito foi uma crise interna no tão novo quanto instável governo sul-sudanês. O presidente, Salva Kiir, acusou o ex-vice-presidente Riack Machar de organizar um golpe de Estado. A partir de então, milícias aliaram-se aos dois grandes rivais, que também são de etnias diferentes.  A rivalidade detonou um conflito violento, que fez mais de 300 mil vítimas e levou o país a uma grave crise humanitária.
Em 2015, os envolvidos no conflito armado assinaram um acordo de paz que não durou mais de um ano. Em 2017, foi assinado um cessar-fogo, que possibilitou a criação de um ambiente minimamente seguro para que organizações internacionais de ajuda humanitária entrassem no país e chegassem até os civis que mais precisavam de atendimento.
Apesar da assinatura de um acordo de paz em setembro de 2018, a situação no país piorou muito. As disposições do tratado não foram implementadas em razão dos conflitos constantes entre os dois líderes. De acordo com a ONU, mais de 50 mil pessoas morreram em decorrência do conflito. 
De acordo com dados da ACNUR, 4,3 milhões de sul-sudaneses haviam deixado suas casas em 2021, representando o quarto maior grupo de refugiados do mundo.
Atualmente, metade da população do Sudão do Sul sofre de desnutrição, e a fome já é um problema crônico no país, que atravessa uma das piores crises humanitárias do mundo.

República Democrática do Congo 


Os conflitos começaram em 1994, quando milhares de refugiados hutus migraram para o país. Os refugiados instalaram-se na província de Kivu, no leste do território congolês, ocupada predominantemente pela etnia tutsi, inimiga dos hutu. 
Sentindo-se ameaçados pelo grande número de refugiados hutus e abandonados pelo regime ditatorial do então presidente Mobutu Sese Seko (1930-1997), os tutsi iniciaram uma guerrilha contra o governo, apoiados por Uganda e pelo governo tutsi instaurado em Ruanda. 
Em 1997, Laurent Kabila (1939-2001), que não era tutsi, mas liderava o movimento guerrilheiro contra Mobutu, assumiu o poder e passou a ignorar seus aliados tutsis, cortando as relações com Uganda e Ruanda.
Insatisfeitos, os tutsi de Kivu iniciaram uma nova guerra civil em 1998. Acuado, o governo congolês pediu ajuda militar a Angola, Zimbábue e Namíbia, gerando conflitos que causaram cerca de 3 milhões de mortes.
Joseph Kabila (1971-), filho de Laurent Kabila, assumiu o poder em 2001 com propostas de paz e de reorganização do país. Seu mandato terminou em 2019, sem a pacificação prometida. A crise econômica agravou os conflitos étnicos e o confronto entre grupos armados e o Exército congolês, que disputam territórios ricos em recursos naturais. 
De acordo com dados de 2022 da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), o aumento da violência forçou mais de 5,6 milhões de congoleses a se deslocar dentro do país e outro milhão a buscar refúgio em outros países da África.

Chifre da África 


O Chifre da África é uma sub-região da África Subsaariana, constituída por Quênia, Somália, Etiópia, Eritreia e Djibuti, apresentando graves problemas como pobreza, fome, guerras, disputas internas, secas e pirataria.
Os dois maiores países da região, Etiópia e Somália, estiveram envolvidos em uma disputa pelo deserto de Ogaden, território etíope ocupado por somalis. Em 1988, um acordo incorpo rou esse território à Etiópia. Os somalis que viviam na região tiveram de voltar para a Somália ou seguir como refugiados para o Quênia. 
Desde a década de 1990, a Somália enfrenta uma guerra civil entre vários clãs rivais, apesar de esses clãs pertencerem ao mesmo grupo étnico. Apesar da ajuda de soldados estrangeiros entre 1992 e 1995, a guerra continuou, pois não há um governo central forte capaz de conter os conflitos internos, os diferentes grupos rebeldes e as milícias que controlam consideráveis trechos do território somali, como a milícia radical islâmica Al-Shabab e grupos de piratas que atuam no litoral.
Além dos atentados terroristas frequentes, os grupos radicais impedem a entrada de ajuda humanitária por organizações internacionais. O país também é atingido por graves episódios de secas, como os ocorridos em 2011, 2017, 2021 e 2022. Depois de dez anos de crescimento econômico, a Etiópia entrou em uma guerra civil no final de 2020, opondo o Exército etíope aos rebeldes da Frente Popular de Libertação do Tigré (região situada no norte do país). A guerra fez com que outras etnias entrassem em conflito em diversas regiões.

Primavera Árabe 


As revoltas populares ocorridas em países do Norte da África a partir de 2010 evidenciaram o descontentamento da população em relação aos líderes ditadores que enriquece ram no poder ao longo de décadas, enquanto a população era mantida em condições de pobreza extrema. Cansada dos desmandos de governos autoritários, a população protestou por mudanças.
O primeiro resultado do movimento se deu na Tunísia: a queda do ditador Zine El Abidine Ben Ali (1936-2019), que comandara o país por 23 anos (1987-2011). No Egito, após 30 anos no poder (1981-2011), o ditador Hosni Mubarak (1928-2020) renunciou à presidência do país. Por sua vez, Muammar Kadafi (1942-2011) perdeu, em 2011, o governo da Líbia, que estava sob sua ditadura desde 1969. Em seguida, os conflitos atingiram o Marrocos e a Argélia. 
Esse movimento ficou conhecido como Primavera Árabe, alastrando-se para países do Oriente Médio. Apenas na Tunísia se pode dizer que houve mudanças positivas, pois em alguns deles se instalaram outros regimes ditatoriais.


África: recursos naturais e meio ambiente

Riquezas exploradas


O continente africano é rico em recursos naturais. Desde meados do século XX, essa riqueza foi disputada e explorada pelas potências neocoloniais. Hoje, a África continua a ser explorada, mas pelas grandes empresas transnacionais.
Grande parte do território africano é constituída por terrenos de estruturas geológicas antigas. Essas formações proporcionam ao continente grande quantidade de minérios, principalmente metálicos. A África tem as maiores reservas de metais preciosos do mundo, sendo responsável por 50% da produção de diamantes e por metade das reservas de ouro do planeta.
Contudo, o lucro obtido com a extração de petróleo, gás natural, carvão mineral, ferro, níquel, ouro, dia mante e outros minerais não é suficiente para alavancar as economias locais e o desenvolvimento dos países africanos.
As atividades das empresas transnacionais que exploram os recursos do continente africano, além de causarem danosos impactos ao meio ambiente, não promovem melhorias para as popu lações locais. Combustíveis fósseis, matérias-primas, minérios e até mesmo a água têm sido alvo de disputa de interesses econômicos e políticos.

Recursos minerais e energéticos


A África apresenta grande diversidade de recursos naturais com alto potencial econômico. Essa característica tem despertado o interesse de vários países, que deixaram de vê-la apenas como uma região pobre e carente de infraestruturas e passaram a enxergá-la como um continente de oportunidades.
Os recursos minerais são os principais produtos de exportação de vários países africanos. Em 2020, a Zâmbia foi o país que mais exportou cobre no mundo, e Botsuana foi o oitavo maior exportador de diamantes. A África do Sul está entre os maiores produtores mundiais de ouro. 
O continente africano possui cerca de 7,5% das reservas mundiais de petróleo e gás natural e 6% das reservas de carvão mineral, os recursos energéticos mais consumidos do mundo. As maiores reservas de petróleo do continente estão no Norte da África – especialmente na Argélia e na Líbia – e no Golfo da Guiné, onde estão localizados Nigéria, Congo, Gabão, Camarões e Guiné Equatorial. 
Os maiores produtores são Nigéria, Angola, Argélia e Líbia, que, juntos, detêm cerca de 80% da produção do continente. Os principais destinos do petróleo africano são Europa, Estados Unidos e China. Quanto ao gás natural, as reservas se concentram na Argélia, no Egito e na Líbia, mas o maior produtor é a Nigéria. Em relação ao carvão mineral, a África do Sul possui as maiores reservas e está entre os principais produtores mundiais.
Apesar da grande disponibilidade de recursos energéticos, a principal fonte de energia utilizada na África ainda é a lenha, proveniente das grandes áreas de Florestas Equatoriais e Tropicais e das Savanas. A energia hidrelétrica é explorada principalmente nas bacias hidrográficas dos rios Zambeze, Congo, Nilo e Níger, mas as usinas não apresentam grande produção, um dos fatores que dificulta o desenvolvimento da indústria no continente. 
Embora o extrativismo mineral seja uma atividade central em muitos países africanos, ela não beneficia a maioria da população. A exploração em jazidas profundas é realizada principalmente por empresas estrangeiras, geralmente europeias, estadunidenses, chinesas e japonesas, que dominam o mercado e a produção. 
Nas jazidas superficiais, em geral, a exploração é realizada por garimpeiros que utilizam técnicas simples de extração, trabalhando por baixos salários e em condições precárias.

A exploração de carvão mineral 


Moçambique dispõe de jazidas de carvão mineral que estão entre as maiores do mundo. Atualmente, a extração desse minério consolidou-se como a maior fonte de exportação para o país. No entanto, os acordos firmados com as transnacionais vêm se mostrando mais vantajosos para as empresas do que para os cidadãos locais e para o meio ambiente. 
Pesquisas constataram contaminação das águas superficiais da região da bacia carbonífera de Moatize, impactando diretamente a comunidade que faz uso dela. Além disso, na área onde há carregamentos e descarrega mentos de carvão mineral há muita poeira. No ar, a presença de poluentes como dióxido de enxofre, óxidos de nitrogênio e monóxido de carbono causa poluição atmosférica e pode ser prejudicial à saúde da população. 

A extração de petróleo 


A Nigéria é um dos maiores produtores de petróleo do mundo e membro da Opep. Segundo relatórios dessa organização, no início de 2018 a Nigéria havia ultrapassado Angola como o maior produtor africano de petróleo, com mais de 1,8 milhão de barris por dia. Por trás desses números escondem-se danos imensuráveis ao meio ambiente e à saúde pública. Uma das áreas mais afeta das pela exploração do petróleo é o Delta do Níger, ao sul do país. A região é um dos polos petroleiros nigerianos mais produtivos e ao mesmo tempo mais poluentes. De acordo com estimativas, mais de 6,5 mil vazamentos já foram registrados na região.
Em 2008, dois derramamentos de petróleo em Ogoniland levaram as comunidades locais a se aliar a organizações não governamentais. O cenário de Ogoniland contava com manchas de óleo de centímetros de espessura que cobriam o mar, os rios e os lagos, nos quais não era mais possível encontrar peixes e crustáceos, bem como terras onde já não se podia plantar e colher, pondo em risco a reprodução da vida nas comunidades locais. 
Além das manchas de óleo, que impossibilitaram a pesca e a agricultura, os derrames de petróleo atingiram os lençóis freáticos da região, colocando o abastecimento de água potável em risco. Já a queima do gás – proibida por lei desde 1984, mas nunca interrompida – vem causando doenças respiratórias em toda a população.

A corrida do ouro 


O continente africano tem mais da metade das reservas de ouro do mundo. Tanzânia, Mali, Gana e África do Sul estão entre os maiores produtores. Apesar disso, os três primeiros apresentam baixo índice de desenvolvimento humano, enquanto a África do Sul ostenta apenas um modesto médio desenvolvimento.
O uso de mercúrio em jazidas de ouro, com a finalidade de separar o metal precioso do minério bruto, causa um problema ambiental de alcance global. Quando descartado, o mercúrio contamina as águas dos rios nos quais ocorre a lavagem dos minérios. Esse metal, pesado e muito tóxico, é acumulado no organismo dos animais e da vegetação desses rios. Se peixes con taminados por mercúrio forem consumidos na alimentação humana, há sérios riscos de desenvolvimento de doenças fatais. 
Medidas de restrição do uso de mercúrio já foram tomadas em países desen volvidos, o que levou esse problema ambiental a se concentrar em pequenos garimpos nos países mais pobres, de fiscalização ineficaz, como os africanos.
Pesquisas indicaram que as águas do Lago Vitória apresentam concentrações de mercúrio elevadas, principalmente nas regiões próximas a grandes minas de ouro. O risco de intoxicação humana pode ser direto, pela população ribeirinha que utiliza a água para consumo e higiene, ou indireto, por meio do consumo de peixe e gado expostos à água do lago.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Questões ambientais na África


De modo geral, as questões ambientais na África são semelhantes às detecta das em outras partes do mundo e decorrentes tanto de fatores naturais como da atividade humana. No entanto, o contexto de extrema pobreza da população de alguns países agrava ainda mais essas questões no continente africano.

Problemas climáticos


Os problemas climáticos que atingem a África costumam se manifestar de duas maneiras distintas: na forma de secas severas, com consequente desertificação em áreas de degradação do solo, e na forma de chuvas torrenciais, com consequentes inundações. O processo de desertificação avança, especialmente, na porção sul do Deserto do Saara, na região semiárida conhecida como Sahel, que tem sofrido com o avanço gradual do deserto. A porção do continente que mais tem sentido o impacto decorrente de chuvas torrenciais nas últimas décadas é a África Oriental.

Questões energéticas


Em pleno século XXI, é preocupante constatar que, na África Subsaariana, cerca de 65% do total de energia gerada provém da biomassa. Enquanto a energia gerada pelas hidrelétricas e termelétricas se restringe, principalmente, ao abastecimento das cidades, em muitas áreas rurais do continente, a população depende, em larga medida, do uso de madeira e carvão vegetal para atender às suas demandas energéticas. Embora a madeira seja um recurso natural renovável, nesse caso, ela não provém de reflorestamento, mas da exploração excessiva de áreas florestais, agravando os problemas de desmatamento e degradação dos solos.

Desmatamento


A destruição das florestas e outros tipos de vegetação nativa vem afetando, principalmente, a ilha de Madagascar e os países das regiões da África Central e Oriental. Grande parte do problema advém das queimadas, das demandas energéticas por lenha e madeira e da superexploração florestal visando à exportação madeireira e à implantação de atividades agropecuárias.

Perda de biodiversidade


A desertificação e o desmatamento têm diminuído o hábitat natural de muitas espécies, contribuindo para reduzir a rica biodiversidade africana. Outro fator que agrava esse problema é a caça e o tráfico de espécies silvestres e exóticas. Tais atividades ilegais se destinam a abastecer o comércio ilícito de animais e itens, como chifres de rinoceronte e presas de marfim de elefantes, cobiçados em mercados de outros continentes.

A questão da água


O acesso, o uso e o consumo de água estão entre os maiores problemas ambientais da África. Apesar de grandes rios, aquíferos e, principalmente, lagos, a água está distribuída de maneira extremamente desigual pelas diferentes regiões africanas. Diversos países dependem do abastecimento de água proveniente de outras nações, em especial os que abrigam áreas de deserto, como Botsuana, Mauritânia, Níger e Sudão. As mudanças climáticas e a ocorrência de secas prolongadas têm tornado esse problema ainda mais grave.
A tendência é que a escassez desse recurso crie conflitos entre países por onde correm volumosos rios. É o caso do Rio Nilo e de rios em países do centro e do norte do continente africano.
Há anos a Etiópia vem se empenhando na construção da Grande Barragem Renascença, que produzirá eletricidade por meio de uma usina hidrelétrica. No entanto, o projeto é alvo de muita polêmica entre os países vizinhos, pois, com sua implementação, as águas do Nilo Azul, um impor tante afluente do Rio Nilo, serão represadas, e principalmente o Egito e o Sudão veem ris cos de comprometimento do fluxo da água. 
No extremo sul do continente, na África do Sul, a Cidade do Cabo enfrenta a maior crise hídrica de sua história recente. Além do crescimento exponencial da população e da maior seca dos últimos anos, o desperdício de água e a má gestão dos recursos hídricos estão na origem do estresse hídrico da cidade.

Solos da África


A degradação dos solos constitui um dos mais graves problemas ecológicos que o continente africano enfrenta. A erosão eólica e a progressiva desertificação, unidas ao sistema comunal de propriedade da terra, à superexploração agrícola de algumas regiões e aos métodos de cultivo rudimentares, formam um conjunto de fatores que contribui para o processo de deterioração dos solos, pobres em nutrientes, e para seu escasso rendimento agrícola.

Continente árido


Na África existem grandes extensões de terras desérticas (aridissolos e entissolos), escassas em matéria orgânica e pouco aptas para a agricultura. Na África Oriental há alguns redutos de terras muito férteis: os molissolos, também conhecidos como chernozems ou terra negra. No sul e no oeste destacam-se a produtividade dos alfissolos e dos podossolos.
250 milhões de africanos vivem em solos desérticos ou dependem deles para a subsistência. Esse valor equivale a aproximadamente 30% da população continental.
Os ultissolos e os oxissolos, que dominam boa parte do continente, são pouco aptos para a agricultura permanente, a menos que sejam enriquecidos com fertilizantes e nutrientes.

Um deserto que se expande 


Do total das terras do continente africano, 46% estão submetidos a processos de desertificação. A degradação dos solos, um problema crescente na África, tem deixado uma marca irreparável em aproximadamente 20% do território.
US$ 4 bilhões se perdem por ano em nutrientes do solo na África por causa de práticas agrícolas inadequadas e da desertificação.

EXPLOSÃO AGRÍCOLA


Nos últimos 30 anos, o importante crescimento da atividade agropecuária na África contribuiu para a degradação dos solos dedicados ao cultivo e à pecuária no continente.
A chamada Revolução Verde, que possibilitou o espetacular incremento dos rendimentos agrícolas na última metade do século XX, não chegou ao continente africano.

Solos e desertificação 


Desertificação é o processo de degradação dos solos, no qual há destruição ou redução de sua produtividade biológica, ou seja, o solo torna-se infértil. É mais comum em áreas onde predominam climas áridos e semiáridos, sendo resultado de diversos fatores:
  • desmatamento para diferentes fins, como construções e pastagens; 
  • mudanças nos hábitos alimentares das pessoas (o maior consumo de produtos de origem animal faz com que aumentem as áreas de pastagem e a pressão sobre o solo por causa do pisoteio do gado); 
  • aplicação de técnicas inadequadas e manejo do solo, como queimadas e arados; 
  • uso da água sem planejamento e com técnicas inadequadas de irrigação; 
  • mudanças climáticas, com aumento da temperatura média global e episódios de seca; 
  • erosão do solo causada pela ação da água e dos ventos.
A desertificação é um processo crescente, que afeta aproximadamente 40% das terras emersas do planeta e suas populações. Com a consequente redução das áreas de agricultura, a produção de alimentos para comunidades locais é prejudicada. 
Além disso, os ecossistemas são alterados, resultando em escassez de água e perda da biodiversidade, com extinção de espécies animais e vegetais. No continente africano, a desertificação ocorre especialmente na região do Sahel, onde há vegetação de Estepe e os solos são mais frágeis.
Em muitos países, projetos vêm sendo desenvolvidos para combater a desertificação. No continente africano, um desses projetos é conhecido como “Grande Muralha Verde”. Iniciado em 2007, ele envolve vários países. 
A ideia principal é plantar árvores na faixa do Sahel, do Senegal até o Djibuti, formando uma “muralha verde” que impede a passagem do vento e da areia do deserto para o restante do continente, além de melhorar a qualidade do solo, com a matéria orgânica produzida pela vegetação. 
Quase vinte anos após o início do projeto, o balanço é positivo. Além do plantio de árvores, outras iniciativas envolvendo as populações locais surgiram em torno da formação da muralha, como projetos agropastoris e de gestão dos recursos naturais, que, ao criarem melhores condições de vida, contribuem para a fixação das populações e para a redução da violência, entre outros exemplos.

Florestas remanescentes na África 


República Democrática do Congo (RDC), Camarões e Gabão, juntos, concentram mais de 90% da cobertura original de Florestas Tropicais da África. A RDC é o segundo país com maior cobertura de Florestas Tropicais do mundo. O Brasil ocupa o primeiro lugar. 
Apesar dos esforços dos países para combater a exploração ilegal de madeira, essa atividade continua sendo uma das principais ameaças às Florestas Tropicais e Equatoriais africanas. Mais de 80% de toda a exploração é feita de forma ilegal, inclusive em áreas protegidas. 
Além da extração madeireira, também ameaçam a fauna e a flora locais o cultivo de palmeiras para a extração do óleo de palma e de outros produtos agrícolas, a mineração de ouro e a exploração de petróleo. 
Parte da extração de madeira na República Democrática do Congo ocorre por meio de concessões feitas a empresas estrangeiras, com o objetivo de regularizar a atividade e minimizar os impactos socioambientais. 
A realidade, porém, aponta o aumento da devastação das áreas florestais e, consequentemente, a precarização das condições de vida de milhões de pessoas reunidas em mais de 150 comunidades tradicionais, que tiram seu sustento dessas áreas. 
Nas áreas de concessões, é comum que os recursos dos quais as comunidades dependem se tornem escassos e que haja supressão de postos de trabalho. Além disso, aqueles que resistem às operações realizadas pelas madeireiras enfrentam conflitos e violações de direitos humanos. 
Em 2021, alguns contratos de concessão começaram a ser revistos pelo governo, sob suspeita de corrupção e favorecimento a empresas estrangeiras. Porém, há previsão de abertura de novas concessões, o que tem gerado grande reação por parte da comunidade internacional.

Ajuda ao desenvolvimento na África

Diante dos diversos problemas socioeconômicos que afligem grande parte dos países em desenvolvimento, em 1970 a ONU afirmou, junto aos governos dos países desenvolvidos, sobretudo os que fazem parte da OCDE, o compromisso de financiar projetos que objetivem auxiliar essas nações.
Para isso, ficou determinado que os países desenvolvidos membros da OCDE deveriam converter 0,7% de sua renda nacional bruta (RNB) em doações e em préstimos que amenizassem problemas vivenciados pelas nações pobres do mun do. Entre os projetos, podem ser destacados a ajuda alimentar, o auxílio militar e financeiro e a assistência técnica em setores estratégicos, como a defesa (treina mento de tropas e fornecimento de equipamentos e suprimentos para o combate a grupos extremistas e milícias).
Ao longo dos anos, foram poucas as nações que atingiram a meta estipula da pela ONU. Com exceção de Luxemburgo, Suécia, Países Baixos, Noruega e Dinamarca, todos os outros incumbidos dessa responsabilidade, como Estados Unidos, Itália e Japão, não atingiram o valor estipulado que deveria ser desti nado a ajudar os países em desenvolvimento. 
A ajuda econômica aos países africanos, principalmente os da África Subsaariana, também envolve críticas em razão da elevada corrupção presente em muitos governos da região, dado que os recursos destinados à saúde e à educação não são devidamente investidos. Para muitos africanos, tal auxílio não encaminha para a resolu ção do problema, pois à medida que se destinam empréstimos aos países em desenvolvimento, como vimos anteriormente, estes se tornam cada vez mais dependentes e endividados, já que as taxas de juros aumentam o montante do valor emprestado.

OCDE: Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, formada por 30 países, muitos deles altamente industrializados. Com sede em Paris, na França, a OCDE tem como um de seus objetivos promover o desenvolvimento econômico de seus países-membros.

Integração e a União Africana (UA)

Os países da África ainda não têm o mesmo nível de integração política e eco nômica verificado entre nações de outros continentes. Isso é evidenciado, por exemplo, pelo fato de que a vasta maioria dos Estados africanos realiza boa parte de suas transações comerciais com países de outras regiões do mundo. 
No entanto, avanços significativos direcionados a uma maior integração entre as nações africanas ocorreram no século XXI. O principal deles se deu em 2002, quando foi oficializada a UA, em substituição a sua antecessora, a Organização da Unidade Africana. Atualmente, todos os países do continente integram essa organização, cuja sede foi construída em Adis Abeba, na Etiópia, com investimentos chineses.
A UA abarca diversos órgãos e atua para promover a cooperação política, assegurar a manutenção da paz e estimular as relações comerciais entre seus países-membros. O principal órgão dessa organização é a Assembleia da União Africana, formada pelos chefes de Estado de todos os países africanos.
Além da integração econômica e política, um dos grandes desafios a ser supe rados pela UA atualmente é a promoção da democracia no continente, ainda mar cado pela presença de governos autoritários. A organiza ção busca também reduzir as desigualdades econômicas e, consequentemente, elevar o peso político e comercial da maioria de seus países-membros, muitos dos quais ainda estão à margem das ne gociações inter-regionais no continente.

As Comunidades Econômicas Regionais 

O órgão da UA responsável pelo desenvolvimento e estímulo à integração eco nômica é a Comunidade Econômica Africana (CEA). Para o futuro, destaca-se o plano de criar uma zona de livre-comércio no continente africano.
Atualmente, no entanto, os pilares da integração econômica da África são as Comu nidades Econômicas Regionais, ou CER, que atuam como blocos econômicos regionais do continente. 
Exemplos são a Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (em inglês, SADC), a Comunidade da África Oriental (em inglês, EAC) e o Mercado Comum da África Oriental (em inglês, COMESA). Hoje em dia, a mais expressiva dessas comunidades é a SADC, bloco instituído ainda em 1992 com o propósito de estabelecer um mercado comum e intensificar as relações comerciais entre seus países-membros. 
Atua mente, 15 países africanos, que estão no mapa a seguir, compõem a SADC. Juntos, eles somam um PIB de apro ximadamente 623 bilhões de dólares e reúnem uma população de cerca de 362 milhões de pessoas.
Entre os países-membros, a África do Sul é o que mais se destaca, por ser a economia mais industrializada do continente. Nesse sentido, os produtos indus trializados sul-africanos dominam parte dos mercados nos demais países da SADC, e o país também é um dos maiores investidores do bloco.


A África e a China

Por causa do passado colonial e das ligações históricas, econômicas e culturais, predominam capitais europeus no continente africano. Em geral, cada país europeu concentra o investimento em sua ex-colônia, como os negócios portugueses em Angola. Os Estados Unidos também investem no continente, sobretudo na África do Sul. 
Os países da África têm fortalecido parcerias comerciais e financeiras tanto entre si como com países de outros continentes, visando aumentar suas produções econômicas, atrair investimentos e diversificar os destinos de suas exportações.
Nesse contexto, muitos parceiros comerciais vêm surgindo no cenário econômico africano nas últimas décadas, sendo o principal deles a China. 
O desenvolvimento econômico acelerado vivenciado pela China a partir dos anos 1990 culminou na busca por matérias-primas e fontes de energia em vários países, muitos deles localizados na África. Desde 2009, a China é o principal parceiro comercial do continente africano. Além da exploração de recursos naturais, a China tem investido em projetos de infraestrutura (ferrovias, estradas, usinas hidrelétricas, portos, aeroportos etc.).
Em 2011, a África do Sul aderiu formalmente ao Brics. A participação do país africano é estratégica. Além de garantir aos demais integrantes – e sobretudo à China – acesso a um mercado consumidor em plena expansão, permite alavancar investimentos para continuar se desenvolvendo economicamente.
Os chineses, atualmente, são os principais parceiros comerciais da maioria dos países do continente e vêm aumentando consideravelmente seus investimentos na África.
Os chineses têm se empenhado em garantir seu abastecimento de alimentos, matérias-primas agrícolas e minerais, bem como de fontes de energia, para sustentar seu enorme crescimento econômico (no período de 2000-2017, o PIB chinês cresceu em média 9,7% ao ano).
Esse interesse nos países africanos é explicado por diversos motivos. A China é atualmente o segundo maior consumidor mundial de petróleo e obtém cerca de um terço de seu abastecimento do continente africano.
Além disso, em razão do aumento – também enorme – de suas exportações, eles acumularam grandes volumes de reservas internacionais (em 2017, eram 3,2 trilhões de dólares). Ou seja, os chineses estão com muito dinheiro em caixa e possuem grandes empresas que buscam se internacionalizar. Por isso, cada vez mais têm tomado o lugar dos europeus e estadunidenses como investidores no continente africano; no entanto, há uma diferença importante com a chegada dos chineses. 
Na época do imperialismo (século XIX e início do século XX), as potências europeias dominaram política e territorialmente as nações africanas, que foram transformadas em colônias de exploração. Queriam com isso garantir o fornecimento da matérias-primas baratas para seu processo de industrialização. 
Na época da Guerra Fria (1947-1991), os Estados Unidos estavam mais interessados em difundir seu modelo político-econômico aos países recém-independentes, para conter o avanço da influência soviética, do que em fazer investimentos produtivos. 
No início do século XXI, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, agências de financiamento internacional controladas pelos Estados Unidos, só concedem empréstimos mediante a imposição de certas condições, como que os países adotem as políticas econômicas defendidas por essas instituições. 
Já a China, na atual fase da globalização, não está interessada em dominar politicamente os países africanos nem em lhes impor seu modelo político-econômico; quer sim investir suas enormes reservas de capitais acumulados, seja por meio de investimentos produtivos ou de empréstimos. Dessa forma, a China pretende assegurar seu fornecimento de alimentos, matérias-primas e fontes de energia, garantindo seu desenvolvimento econômico e o dos países africanos, onde também tem investido em infraestrutura.
Os chineses também são compradores de 60% da madeira exportada da África, além de diversos recursos minerais essenciais à sua atividade industrial. Além de possuir numerosas fontes de recursos naturais e energéticos, o continente africano representa um grande mercado consumidor potencial dos produtos industrializados chineses.
Dessa forma, buscando fortalecer sua influência econômica e política nos países do continente por meio de uma diplomacia amigável e comercialmente favorável, os chineses vêm estreitando suas relações com as nações da África.
Os chineses defendem uma interação internacional baseada em ganhos mútuos. Por essa razão, têm aumentado sua presença em países em desenvolvimento, tanto na África como na América Latina. À medida que a presença da China aumenta, é natural que cresça também sua influência política, sobretudo em economias pequenas e dependentes, como as de muitos países africanos.
Em troca de acordos para a importação de recursos minerais e outras matérias-primas, os chineses concedem aos países africanos empréstimos em condições favoráveis e investem na ampliação da infraestrutura do continente, facilitando a inserção das nações da África nas cadeias mundiais de produção.
Nesse contexto, os chineses constroem pontes, estradas, ferrovias, usinas hidrelétricas, hospitais e escolas nos países africanos, participando até mesmo com a mão de obra, motivo pelo qual milhares de trabalhadores chineses têm migrado todos os anos para a África.
Entre as principais críticas a essa presença, destaca-se a dependência excessiva que alguns países têm em relação à economia chinesa atualmente, assim como o apoio chinês a governos autoritários, dificultando o avanço da democracia no continente.
Alguns analistas entendem que a China está interessada exclusivamente na exploração das riquezas naturais e no aumento de sua influência na África, que permanece como expor tadora de produtos primários e importadora de produtos industrializados. Essa posição está de acordo com o que pensam muitos cientistas e políticos dos Estados Unidos e da União Europeia, principais concorrentes da China. Essa corrente de pensamento frequentemente acusa o país asiático de “neocolonialista”.
No entanto, outros estudiosos consideram a aproximação da China com a África como vantajosa para ambos. A África ganharia com a exportação de produtos primários, melhoria da infraestrutura, geração de empregos e diminuição da pobreza.



África: aspectos econômicos

Problemas econômicos na África 

Embora haja muitos contrastes socioeconômicos entre as nações da África, o continente abriga alguns dos países em desenvolvimento mais pobres do plane ta. Em 2019, por exemplo, 9 das últimas 10 posições no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) global eram ocupadas por países da África Subsaariana, região com indicadores econômicos e sociais inferiores aos da África do Norte e de outras regiões do mundo.
As condições econômicas que atualmente marcam os países mais pobres da África têm raízes em seu passado colonial, com a intensa exploração das populações nati vas e a pilhagem dos recursos naturais presentes em seus territórios. Atualmente, embora o continente possua diversas riquezas naturais importantes, responde por apenas uma pequena fração de tudo o que é gerado no mundo.
A desigualdade econômica entre os países africanos é, contudo, um aspecto marcante. Apenas Nigéria, Egito e África do Sul respondiam por cerca de metade do PIB do continen te em 2021. 
A Nigéria tem o maior PIB do continente, mas a África do Sul re presenta o país com a economia mais moderna, diversificada e industrializada. 

Economia pouco desenvolvida 

Atualmente, a maior parte das nações africanas tem uma economia essencial mente primária. Além de questões históricas, esse é um dos fatores pelos quais a África participa da DIT como fornecedora de commodities e consumidora de pro dutos industrializados. Contudo, em muitos países africanos, a prestação de serviços e a indústria têm se destacado na composição do PIB. 
Nos últimos anos, Nigéria, África do Sul, Egito, Angola, Argélia, Etiópia e Tunísia, entre outras nações da África, vêm apresentando relativo crescimento econômico. No entanto, tal crescimento não diminui a gravidade da pobreza que assola vários países do continente. Embora muitos tenham se esforçado para diversificar seus parques industriais, uma série de desafios impediu que esse objetivo fosse conquistado, como falta de mão de obra qualificada, corrupção, ocorrência de conflitos internos e longos períodos de ditadura. Além disso, a falta de recursos financeiros e a precária infra estrutura (redes de transporte, energia e comunicação) em diversos países preju dica imensamente a inserção dessas nações na economia mundial. Nos últimos anos, a África participou de apenas 2% das relações comerciais mundiais e recebeu aproximadamente 4% de investimentos diretos provenientes de outros países.

A atividade agrária da África 

A agricultura e a pecuária, assim como o extrativismo, representam atividades de grande importância para a população e para a economia de boa parte dos paí ses do continente africano. Outros problemas interferem significativamente na economia de alguns desses paí ses, entre eles os efeitos proporcionados pelas condições climáticas adversas e práti cas tradicionais das atividades agropecuárias, que vêm gerando impactos ambientais como desertificação e erosão, ambos responsáveis pela perda de solo cultivável.
Em 2019, as atividades agrícolas eram responsáveis por empregar cerca de 53% da população da África Subsaariana, e os produtos agropecuários respondiam por 13% da pauta de exportações de seus países. Em alguns, como Serra Leoa e Chade, aproximadamente 30% do PIB provêm da agricultura.
De modo geral, o espaço agrário africano ainda preserva características do período colonial, proporcionando a existência simultânea das lavouras de subsis tência (agricultura tradicional) e também de grandes monoculturas de exportação (agricultura comercial). Entre os principais cultivos desenvolvidos, destacam-se alguns gêneros que compõem a base da alimentação das populações africanas e que são produzidos, principalmente, pela agricultura tradicional em pequena escala, como arroz, banana, mandioca, milhete, milho e painço. 
Já entre os principais cultivos para exportação, realizados por meio da agricultura comercial em larga escala, destacam-se algodão, cacau, café, chá, flores e óleo de palma (azeite de dendê). Nos extremos norte e sul do continente, os climas temperado e mediterrâneo também permitem o desenvolvimento de cultivos como trigo, oliveiras e uvas.
Contrastes entre modos de produção modernos e tradicionais ocorrem entre os países africanos. No Marrocos e na África do Sul, por exemplo, parte da produção agro pecuária comercial é desenvolvida por meio de técnicas modernas.
Com relação à produção pecuária, são importantes também as criações de bovinos, ovinos, suínos e aves, de acordo com a região do continente. Nas regiões mais ári das da África, é comum o pasto reio nômade, no qual as criações percorrem longas distâncias em busca de água e alimento.
Além dos efeitos da desertificação e das condições climáticas, podemos citar a bai xa fertilidade natural dos solos (cerca de um terço do continente é marcado pela presença de desertos e semiáridos), o uso inadequado da terra e a ausência de políticas que facilitem o acesso ao crédito rural e a insumos para os pequenos agricultores.
A maior parte das terras férteis do continente é ocupada pelas propriedades mo nocultoras de exportação. Muitos países africanos, embora exportem diversos pro dutos agrícolas, atualmente dependem da importação de alimentos, e assim necessitam investir recursos financeiros para importar comida. Além disso, a falta de in vestimentos locais e o baixo acesso a tecnologias digitais e sustentáveis, aplicadas para uma produção mais eficiente e menos nociva ao meio ambiente, contribuem para o escasso desenvolvimento de atividades rurais em vários países da África. 
Os recursos minerais e energéticos da África Atualmente, a mineração e a agropecuária representam, juntas, a base da eco nomia de muitos países africanos. Enquanto em alguns as economias são essen cialmente agrícolas, em outros a maior parte da receita de exportações advém do extrativismo mineral. 
No território africano, há uma grande diversidade de recursos minerais, como diamantes, ouro e cobre, além de recursos energéticos fósseis, como petróleo e gás natural. 
Entre os países africanos de economias petroleiras, destacam-se Angola e Nigéria, ambos membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), além de Gabão, Congo, Sudão do Sul, Sudão e Chade.
Desde o período colonial, a explora ção das riquezas minerais da África tem ficado, em sua maior parte, a cargo de grandes empresas transnacio nais do setor, associadas algumas vezes a empresas estatais africanas. 
Nas últimas décadas, muitos países desen volvidos europeus e também a China têm feito investimentos no continente, a fim de ampliar a exploração e controlar suas riquezas minerais.

A atividade industrial da África 

De modo geral, os países da África têm setores industriais pouco diversificados e dependem da importação de diversos produtos industrializados, sobretudo os que são tecnologicamente mais avançados. Em muitos casos, as indústrias instaladas na África estão ligadas diretamente às atividades agrícolas e minerais, responsáveis por fornecer os principais produ tos e matérias-primas da pauta de exportação de vários países africanos. 
Alguns países do continente destacam-se nos setores industriais mais desen volvidos, como África do Sul, Angola, Argélia, Egito, Marrocos e Nigéria. Recente mente, a Etiópia também vem se tornando um polo manufatureiro no continente, atraindo indústrias estrangeiras por meio de vantagens, como mão de obra e energia baratas, e elevando suas exportações de produtos industrializados.
Os reduzidos investimentos externos e a falta de capital interno estão entre os principais empecilhos para o progresso do setor industrial africano. Muitos países desse continente, em razão do baixo crescimento econômico, não dispõem de meios necessários para se fortalecer e, assim, expandir a competitividade das ati vidades industriais. 
A maioria tem mercados consumidores ainda pouco expressivos e não dispõe de mão de obra qualificada e infraestrutura de energias e de transportes eficien tes. Alguns, como Zâmbia, Uganda e Botsuana, não têm saída para o mar, tornan do ainda mais oneroso o transporte de mercadorias das regiões produtoras até os portos para a exportação.

Economias vulneráveis

Ao mesmo tempo que os países do continente africano dependem da importação de gêneros industrializados e alimentos, a pauta de exportações dessas nações não é diversificada e inclui poucos produtos industrializados. Grande parte das exportações desses países africanos corresponde a gêneros primários. Essa característica torna os países do continente muito vulneráveis às oscilações no preço desses produtos no mercado internacional, pois significa que, se o preço desses produtos cair, as receitas de exportações dos países serão prejudicadas.
Os países com melhores redes de infraestrutura, com destaque para a África do Sul, oferecem vantagens às indústrias, que importam matérias-primas e exportam produtos com menores custos.

O crescimento econômico dos países africanos 

Desde o começo do século XXI, alguns países africanos têm despontado entre os que mais rapidamente crescem economicamente no mundo. 
Em 2020, os países africanos produtores de petróleo exploraram em média cerca de 7 milhões de barris desse combustível por dia, o que representa aproximadamente 8% da demanda mundial. A África atualmente abrange cerca de 7,2% das reservas de petróleo do mundo, e alguns países se destacam na produção desse recurso.
No entanto, a riqueza gerada pela exportação de petróleo leva a muitas contra dições. A maioria da população não se beneficia do fluxo de recursos provenientes dessas receitas, que acabam enriquecendo pequenas elites e empresas es trangeiras e não são revertidas em serviços essenciais. Além disso, a exploração petrolífera está associada a impactos ambientais e sociais. 
O desenvolvimento econômico da África, além da riqueza gerada pelo petróleo, carece tanto de investimentos em fontes de energia sustentáveis como em melhorias na qualidade de vida da população.


A ÁFRICA E SUAS REGIÕES

O continente africano também pode ser regionalizado com base na localização geográfica dos países, formando cinco grandes conjuntos.  Essa d...