A expansão da cafeicultura em direção ao interior de São Paulo
Chegando às terras mais interiores da província de São Paulo, na primeira metade do século XIX, a cafeicultura desenvolveu-se amplamente. Por volta de 1840 ocupou terras da Depressão Periférica Paulista, entre elas a área do atual município de Campinas (SP), que se situa na zona de contato entre essa depressão, a oeste, e o Planalto Cristalino ou Oriental, a leste.
Depois, avançou para o Planalto Ocidental Paulista, tanto na direção do Rio Grande, na divisa de Minas Gerais, como em direção ao Rio Paraná e ao Rio Paranapanema. No Planalto Ocidental Paulista, a cafeicultura encontrou condições de clima e solo bastante favoráveis para o seu desenvolvimento: clima tropical, com verão chuvoso e inverno seco, e médias anuais de temperatura superiores a 20 °C, além de manchas de terra roxa de grande fertilidade.
Assim como aconteceu com os canaviais do Nordeste nos séculos XVI e XVII e também com a expansão da monocultura cafeeira no Vale do Paraíba e na Zona da Mata Mineira, o avanço da cafeicultura no Planalto Ocidental Paulista provocou a devastação de grande parte da cobertura vegetal natural. A Mata Tropical e o Cerrado foram progressivamente substituídos por culturas agrícolas – café, amendoim, cana-de-açúcar etc. –, pela pecuária e ainda pela urbanização e construção de ferrovias.
Ferrovias, cafeicultura e produção
As ferrovias tiveram papel importante na ocupação humana e, por
conseguinte, na produção de espaços geográficos no Sudeste, particu-
larmente no estado de São Paulo.
Muitas cidades surgiram ao redor de estações ferroviárias, destinadas
a receber a produção cafeeira e outros produtos. É o caso, por exemplo,
de Adamantina, Araçatuba, Bauru, Lins, Lucélia, Penápolis, Pompeia, São
José do Rio Preto, Tupã e Votuporanga, todas no estado de São Paulo.
Ao mesmo tempo que foram construídas para escoar a produção
cafeeira, devemos considerar que as ferrovias foram importantes para
a industrialização inicial de São Paulo e do Rio de Janeiro ao propiciar o
transporte tanto de matérias-primas para as indústrias como da produ
ção industrial para o interior. Observe a localização das culturas de
café ao longo das ferrovias paulistas no mapa.
As ferrovias cumpriram esse papel até, aproximadamente, os anos
1950, quando teve início o desenvolvimento rodoviário.
A cafeicultura e a imigração estrangeira
Em 1850, com a Lei Eusébio de Queirós, que proibiu o tráfico de pes
soas escravizadas da África para o Brasil, o problema da falta de mão de
obra para a cafeicultura em expansão se agravou, pois o preço do escravo
aumentou para quem desejasse comprá-lo. Esses fatos, somados ao movimento abolicionista, levaram os grandes plantadores de café a pensar se
não seria mais conveniente e mais barato empregar trabalhadores livres.
Considerando-se que o número de brasileiros livres nos espaços da
cafeicultura era insuficiente para o trabalho nas fazendas, a solução
encontrada pelos fazendeiros e pelo governo da época foi buscar mão
de obra fora do Brasil. Agentes enviados para a Europa passaram a
divulgar que o Brasil estava precisando de imigrantes para o trabalho
na lavoura de café. Criou-se, então, um fluxo migratório para o país, que
se acentuou após a abolição da escravidão, em 1888, particularmente
para a província de São Paulo.
Imigrantes de várias nacionalidades vieram para São Paulo: espa
nhóis, portugueses, japoneses, italianos e outros. Os italianos foram os
que vieram em maior número. Contribuíram, assim, de forma significativa, como trabalhadores na cultura cafeeira, para a ocupação do território e a produção de espaços geográficos.
Trabalho livre e mercado interno
Durante o período da escravidão, o mercado interno de consumo era
bastante limitado. Os trabalhadores livres eram em pequeno número e
os escravizados não recebiam salário por seu trabalho. Estavam, portanto, impossibilitados de comprar bens ou mercadorias.
Com a expansão das relações assalariadas de trabalho e o estabe
lecimento dos fluxos imigratórios, essa situação se alterou. Ao receber
dinheiro pelo trabalho, o trabalhador passou a consumir e, em consequência, estimulou a produção interna de mercadorias e a industrialização. Além disso, muitos imigrantes trouxeram consigo técnicas de
fabricação de variadas mercadorias. Uma parte deles montou oficinas
ou pequenas fábricas que ao longo do tempo, em vista do crescimento
urbano, transformaram-se em indústrias.
Desse modo, desde o final
do século XIX, começou a se
formar um mercado interno
de consumo que favoreceu
o desenvolvimento urbano,
comercial, agrícola, indus
trial, financeiro (dos bancos)
e de prestação de serviços
(escolas, hospitais, rede de
água e de esgoto, coleta de
lixo etc.).
A cafeicultura, com
seu dinamismo, movimen
tou a economia e forneceu
o capital financeiro para essas
transformações no Sudeste,
principalmente em São Paulo
e no Rio de Janeiro. Os espaços geográ
ficos, até então produzidos
de acordo com uma economia voltada para o mercado
externo (espaços extrovertidos), passaram também a ser
produzidos para atender às
suas próprias necessidades.
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