segunda-feira, 2 de março de 2026

Narcotráfico: flagelo latino-americano

Nos últimos anos, os Estados Unidos vêm utilizando o combate ao narcotráfico – o comércio ilegal de drogas – como argumento para interferir na política interna de vários países da América Latina. As interferências mais inten sas ocorrem na Colômbia e no México, cujos governos recebem ajuda militar e financeira dos estadunidenses com o objetivo de erradicar, sobretudo, as plantações de coca e maconha, e combater os traficantes e os grupos guerrilheiros envolvidos na produção delas. Com essa estratégia, o governo estadunidense visa diminuir a oferta dos entorpecentes em seu país, maior mercado consumidor dessas drogas.
O narcotráfico ocupa atualmente o segundo lugar entre as atividades co merciais ilícitas mais rentáveis do mundo, atrás apenas do comércio de armas, e movimenta centenas de bilhões de dólares todos os anos. É uma prática criminosa, pois promove a distribuição de substâncias tóxicas (drogas) que provocam alterações com portamentais e podem causar, em seus usuários, dependência física, psicológica e, inclusive, a morte. A cocaína é a droga mais produ zida e exportada na América Lati na, principalmente por Colômbia, Peru, Bolívia e México.

Camponeses, narcotráfico e deslocamentos na América Latina


Mascar folhas de coca é um hábito secular entre os povos de algumas regiões dos Andes e, por isso, faz parte da cultura local. A planta, considera da sagrada por esses grupos, tem propriedades nutritivas e analgésicas. No entanto, após a descoberta do processo que transforma a folha em droga, seu cultivo aumentou consideravelmente.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), Bolívia, Peru e Colômbia são os maiores produtores de coca do mundo. Não há números exatos sobre isso, mas, de toda a coca produzida nesses países, apenas a menor parte é usada com finalidades legais. Essa situação resulta no empobrecimento da população camponesa, causado principalmente pela queda do lucro com culturas tradicionais, como feijão e laranja.
Por meio do cultivo de coca, os cocaleros (nome dado aos agricultores que cultivam a planta) garantem uma renda bem superior à que obteriam se cultivassem outros produtos que são a base da alimentação da maior parte da população nativa. Além disso, muitos camponeses são pressionados por narcotraficantes e grupos guerrilheiros para cultivar coca, garantindo a produção da droga e o consequente lucro dessas organizações.
Além dos camponeses andinos, também são vítimas dos narcotraficantes outras milhares de famílias latino-americanas em países pobres como Honduras, Guatemala e El Salvador, e aquelas que vivem na região fronteiriça do México com os Estados Unidos, que são obrigadas, pelos grupos mafiosos, a trabalhar no comércio ilegal.

Espaço agrário latino-americano

Entre as principais características do espaço agrário da América Latina está a alta concentração fundiária. Em grande parte da América Latina, há grande desigualdade na distribuição das terras. Isso quer dizer que um pequeno número de proprietários rurais concentra a maior parte das terras rurais cultiváveis, constituindo os chamados latifúndios. Por outro lado, a maioria dos proprietários camponeses divide o restante das terras, constituindo as pequenas e médias propriedades.
No Período Colonial, a ocupação do território latino-americano ocorreu, basicamente, mediante a formação de imensas propriedades rurais, tanto para a criação de gado quanto para o cultivo de lavouras monocultoras de exportação. Portanto, a atual estrutura fundiária concentrada na América Latina teve ori gem no sistema de produção colonial. Observe a situação da estrutura fundiária no Brasil e na Bolívia, como exemplos da realidade latino-americana.
De acordo com órgãos e instituições internacionais, como a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e o Banco Mundial, uma das possíveis soluções para esse problema é a reforma agrária. A refor ma seria a reorganização do espaço rural com o objetivo de distribuir terras aos trabalhadores do campo e, ao mesmo tempo, promover a modernização das pequenas e médias propriedades, tornando-as mais lucrativas e competi tivas. Além disso, é necessária uma política agrícola de incentivo aos pequenos proprietários, que produzem para o mercado interno de cada país, assim como ocorre com os grandes proprietários, que produzem para o mercado externo.

Questão da terra e reforma agrária


Segundo estudos, a realização de uma reforma agrária nos moldes mencio nados anteriormente pode contribuir para a estabilidade social e política de um país na medida em que possibilita melhores condições de vida, sobretudo para os camponeses e os trabalhadores rurais sem terra, diminuindo a pobreza, a marginalidade e a exclusão social. Do mesmo modo, ela também reduz as tensões sociais no campo ao eliminar a disputa pela terra.
Os programas de reforma agrária não se desenvolvem na América Latina porque na maioria desses países os latifundiários (donos de grandes extensões de terras rurais) exercem forte influência no cenário político interno. Em defesa de interesses dessa classe social, muitas vezes impedem a realização, pelo Estado, de projetos voltados à implantação dessa reforma. Por isso, acabam surgindo grupos e movimentos populares que reivindicam a distribuição mais igualitária das terras, entre outras medidas de interesse social.
Em alguns casos, a luta desses grupos envolve ações armadas que enfrentam as forças do governo. Podemos citar como exemplos de milícias armadas o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), no México, e o Exército de Libertação Nacional (ELN), na Colômbia. Em outros casos, a luta ocorre de maneira mais pa cífica, por meio de protestos que pressionam o governo a promover a reforma agrária. É o caso do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no Brasil, que prega a ocupação de terras improdutivas como forma de pressão.

Produção agrícola da América Latina


Os contrastes do espaço agrário da América Latina se refletem em sua produção agropecuária. Essa situa ção constitui um dos principais entraves ao desenvolvi mento do setor agrícola da região.
As pequenas e médias propriedades respondem por uma parcela significativa dos produtos destinados à alimentação básica da população, como milho, feijão, batata, inhame e mandioca, e por uma pequena parcela da produção pecuária.
Entretanto, a produtividade dessas proprieda des é baixa, pois, em geral, recebem escassos apoio financeiro e assistência técnica dos governos, o que dificulta sua modernização.
Os latifúndios monocultores, por sua vez, apre sentam produtividade rela tivamente maior que a das pequenas e médias propriedades. Nessas grandes áre as são plantadas as monoculturas de commodities, ou seja, gêneros agrícolas que têm alto valor para comercialização no mercado mundial.
São exemplos desses gêneros na América Latina a cana-de-açúcar, o café, a soja, o trigo, o cacau e as frutas tropicais, cujas produções são quase total mente destinadas ao mer cado externo. Em alguns países da América Latina, a criação de gado de corte, sobretudo bovino, também é destinada à exportação.
Muitos países latino-americanos, como Paraguai, Equador, Nicarágua e outros da América Central, ainda se apoiam amplamente no sistema agrário-exportador, pois sua economia depende basicamente da exportação de gêneros agrícolas.

Êxodo rural e urbanização


O aumento da concentração fundiária no espaço agrário latino-americano, principalmente a partir de meados do século XX, associado às difíceis condições de vida no campo, levou uma imensa parcela de camponeses a abandonar suas terras e migrar para as cidades. Esse movimento migratório de êxodo rural, que intensificou o processo de urbanização em vários países da América Latina, deveu-se ainda a outros fatores, como:

- o desenvolvimento da atividade industrial, a exemplo do que ocorreu no Brasil, no México e na Argentina, que gerou muitos postos de trabalho nas fábricas, no comércio e no setor de serviços, atraindo numerosa mão de obra para as cidades;
- a modernização das atividades agrícolas, sobretudo com a introdução de máquinas e equipamentos que substituíram a mão de obra camponesa, eliminando milhares de postos de trabalho na área rural;
- a violência sofrida pelos camponeses por parte de milícias e terroristas sedia dos no interior de pa íses como Colômbia, México e Peru. A perseguição levou cerca de 10 milhões de pes soas, nas últimas dé cadas, a se deslocar internamente nesses três países, buscando refúgio nas cidades.

Além desses fatores, a urbanização dos países latino-americanos deve-se ao crescimento natural da população urbana. Segundo informações de 2018 da Organização das Nações Unidas (ONU), a América Latina é a mais urbanizada das regiões subdesenvolvidas, pois sua taxa média de urbanização encontra-se em torno de 80%, bem maior que a da Ásia (50%) e a da África (42%).





Multinacionais na América Latina

A economia latino-americana é influenciada pela presença de empresas multinacionais estrangeiras, também chamadas transnacionais. Essas empresas, oriundas principalmente dos Estados Unidos, do Japão e da Europa, instalaram-se na região sobretudo a partir da segunda metade do século XX, aproveitan do as condições favoráveis oferecidas pelos países latino-americanos, como:

- custo reduzido da mão de obra se comparado aos salários pagos por essas empresas nos países de origem;
- abundância de matérias-primas em muitos desses países;
- existência, em muitos desses países, de um mercado consumidor grande e em expansão, suficiente para absorver a produção dessas multinacionais;
- vantagens que muitos países ofereciam, como in fraestrutura implantada pelo Estado e concessão de incentivos fiscais (isenção de impostos, financiamentos e subsídios generosos), além da liberdade para remeter os lucros às empresas matrizes.

Esses fatores favoreceram a expansão das multi nacionais, que, atualmente, estão instaladas em qua se todos os países da América Latina, sobretudo nos mais industrializados.

América Latina: atividade industrial

De maneira geral, o nível de industrialização dos países da América Latina na atualidade ainda é bastante reduzido. As exceções são Brasil, México, Argentina e, mais recentemente, Colômbia, Venezuela e Chile, países nos quais a atividade industrial assume participação maior no Produto Interno Bruto em relação às atividades primárias, sobretudo as agrícolas.
Mesmo entre os países latino-americanos com predomínio de atividades primárias, existe um tipo de atividade industrial que se destaca: a indústria extrativa. Esse tipo de indústria se caracteriza, em geral, pelo emprego de tecnologia avançada e de equipamentos pesados na extração de minérios como ferro, cobre ou bauxita, além de petróleo e gás natural, o que é feito em larga escala. 
Há ainda, complexos extrativos minerais e de recursos energéticos fósseis, destacando-se as áreas de extração de cobre e de gás natural nos altipla nos andinos chileno e boliviano; as bacias petrolíferas de Campos e do Pré-Sal, no Brasil, de Yucatán, no México, e de Maracaíbo e Orinoco, na Venezuela, e os complexos de extração de minério de ferro de Carajás e de Minas Gerais, no Brasil. Além desses recursos primários, a América Latina destaca-se na produção de ouro, prata, estanho, carvão, manganês, entre outros.
A exploração desses recursos minerais e energéticos fósseis é voltada basicamente para exportação, suprindo amplamente a demanda de países altamente industrializados, como Estados Unidos, China e Japão, além da União Europeia. Essa característica reforça a manutenção da clássica divisão internacional do trabalho, na qual os países latino-americanos se configuram como fornecedores de recursos primários, situação que perdura desde os tempos coloniais.

Industrialização por substituição de importações


Entre os países da América Latina com nível de industrialização mais expressiva estão Brasil, México e Argentina. Nessas nações, o crescimento da atividade industrial foi motivado por acontecimentos externos, desencadeados sobretudo pelas duas grandes guerras mundiais, na primeira metade do século XX. Durante esses conflitos, os países que tradicionalmente forneciam produtos industrializados à América Latina (Estados Unidos, Inglaterra, França e Alemanha, por exemplo) diminuíram de forma drástica suas exportações.
Para manter o abastecimento do mercado interno, alguns países latino-americanos passaram a produzir os gêneros que, até então, eram importa dos. Dessa forma, tanto o Brasil como o México e a Argentina começaram a investir, inicialmente, no desenvolvimento da atividade industrial, sobretudo no setor de bens de consumo, como vestuário, artigos têxteis, calçados, gêneros alimentícios e utensílios em geral. Mais adiante, vieram os investimentos em outros setores estratégicos, por exemplo, indústrias de base e de bens inter mediários, como siderúrgicas, máquinas industriais, montadoras de veículos, entre outras. 
Esse desenvolvimento ficou conhecido como industrialização por substituição de importações. Diferentemente dos países mais desenvolvidos de outras regiões do mundo, que se industrializaram ainda nos séculos XVIII e XIX, Brasil, México e Argentina tiveram uma industrialização tardia, iniciada apenas no século XX. Ela se caracterizou pela transferência de capitais e de tecnologias dos países mais industrializados para aqueles que apresentavam tecnologia deficiente. 
Como resultado desse processo, temos nesses países latino-americanos um parque industrial diversificado, abrangendo praticamente todos os setores desse segmento. 

América Latina: relevo e hidrografia

Para a caracterização do quadro natural latino-americano, são fundamen tais também os aspectos relacionados ao relevo e à hidrografia da região. No que se refere ao relevo, é possível identificar unidades geomorfológicas como planaltos, depressões, montanhas e planícies.
Planícies costeiras: surgem em praticamente todo o litoral oriental e são decorrentes do constante processo de deposição de sedimentos trazidos pelas correntes marítimas.
Planícies interiores: ocorrem sobretudo nas áreas próximas às margens dos grandes rios e resultam do constante processo de deposição de sedimentos trazidos pelos rios da região, como o Rio Amazonas e o Rio da Prata.
Planaltos e depressões: localizam-se principalmente na região central do México e no centro-leste da América do Sul. São áreas compostas por ter renos geologicamente antigos (alguns datam da era pré-cambriana) e que foram bastante aplainados pelo processo erosivo. Por isso, apresentam alti tudes médias (entre 300 e 1 200 metros).
Montanhas: estendem-se por toda a parte ocidental da América do Sul, América Central e do México. São as formas de relevo geologicamente mais recentes que existem (em geral da Era Cenozoica). Por isso, foram pouco desgastadas pela erosão e atingem as maiores altitudes da região.

As unidades geomorfológicas estudadas anteriormente são fundamentais para compreendermos os aspectos ligados à hidrografia latino-americana. Com base nelas, é possível delimitar cinco grandes bacias hidrográficas na região. Veja a seguir.
Bacia do Bravo ou Grande: estende-se pelo extremo norte do México e parte dos Estados Unidos. Seu rio principal é o Rio Bravo ou Grande, com cerca de 3 mil quilômetros de extensão.
Bacia Platina: seu rio principal é o Rio da Prata, formado pelo encontro dos rios Paraná e Uruguai. Abrange boa parte dos territórios da Argentina, Uruguai, Paraguai, Brasil e Bolívia.
Bacia do Orinoco: abrange o extremo norte da América do Sul. Seu curso de água principal é o Rio Orinoco, que deságua no Mar do Caribe.
Bacias dos Rios Patagônicos e do Rio Salado: é um conjunto de bacias hidrográficas cujos rios principais, como o Salado, o Colorado, o Negro e o Chubut, têm suas nascentes na Cordilheira dos Andes, correm pela Patagônia argentina, no sentido oeste-leste, e deságuam no Oceano Atlântico.
Bacia Amazônica: com cerca de 7 milhões de km², é a maior bacia hidrográ fica do mundo em extensão, abrangendo parte do território de oito países sul-americanos. Seu rio principal é o Rio Amazonas, que recebe águas de milhares de cursos de água diferentes. Nele correm aproximadamente 20% da água doce do planeta.

Os aquíferos Guarani e Grande Amazônia


Além dos mananciais, que dão origem às redes hidrográficas compostas por rios e lagos, existem, na América Latina, importantes mananciais de águas subter râneas. Entre eles destacam-se os aquíferos Grande Amazônia, cuja maior parte se localiza no território brasileiro, e o Guarani, que se distribui por quatros países da América do Sul.

O Aquífero Grande Amazônia ou Alter do Chão, como também é chamado, estende-se por aproximadamente 437 mil km2 sob a porção central da Bacia Hidrográfica do Rio Amazonas. Tem uma capacidade estimada de 86 mil km3 de água doce, o que, segundo os especialistas, seria suficiente para abastecer toda a população mundial durante décadas. Por isso, é considerado a maior reserva de água potável do mundo.
O Aquífero Guarani é um sistema de lençóis subterrâneos que se estende por aproximadamente 1,2 milhão de km2 e abrange parte dos territórios da Argentina, do Uruguai e do Paraguai, além de oito estados brasileiros: Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Estima-se que ele retenha 39 mil km3 de água. Ainda que seja mais extenso do que o Aquífero Alter do Chão, pesquisas recentes mostram que o manejamento do lençol subterrâneo do Guarani exige muitos cuidados, pois seu potencial hídrico pode ser menor do que se supõe.

América Latina: clima e vegetação

Por se estender desde as regiões próximas do Trópico de Câncer até as proximidades do Círculo Polar Antártico, passando pelos paralelos da Linha do Equador e do Trópico de Capricórnio, a América Latina tem uma ampla variedade de climas, de extremamente frios e temperados a climas quentes; dos semiáridos e desérticos até aqueles com altos índices de pluviosidade (ou seja, com chuvas abundantes). Como decorrência da inter-relação com essas características do clima, há também grande diversidade de formações vegetais, desde estepes e formações áridas e semiáridas a exuberantes florestas tropicais.

Domínio equatorial: ocorre no norte da América do Sul, parte do istmo e das ilhas do Caribe. Devido às elevadas temperaturas médias (em torno de 26 °C) e à abundante quantidade de chuvas, entre 2 mil e 3 mil milímetros (mm), bem distribuídas entre os meses do ano, desenvolvem-se as exuberantes florestas tropicais equatoriais, como a Amazônica. O calor e a farta evapotranspiração causam a formação de nuvens e o fenômeno chamado chuvas de convecçã. Os elevados índices de umidade e calor são condições favoráveis para o desenvolvimento de ampla biodiversidade nesses ambientes.

Domínio tropical: estende-se pela parte central-leste e norte da América do Sul, do México, da América Central e do Caribe. Assim como o domínio equatorial, apresenta médias térmicas anuais elevadas, em torno de 24 °C, e duas estações climáticas bem definidas – uma estação chuvosa e outra seca, com precipitação média de 2 mil mm anuais. Essas são as condições naturais propícias para o desenvolvimento das formações vegetais de savanas, como o Cerrado brasileiro e o Chaco argentino e paraguaio. A exceção fica para as áreas de serras, voltadas para o oceano, que são controladas pelas chamadas chuvas orográficas (veja o esquema a seguir). Aí as precipitações provocadas pelos ventos oceânicos, carregados de umidade, dão origem a florestas frondosas, como é o caso da Mata Atlântica, no Brasil.

Domínio de altas montanhas: característico das regiões mais elevadas do continente, em geral acima dos 1 500 metros de altitude. Tem clima frio, com médias térmicas em torno de 10 °C, e invernos rigorosos, muitas vezes com precipitação de neve. Nele podem se desenvolver florestas temperadas de coníferas, estepes ou, em altas altitudes, a vegetação de tundra.

Domínios desértico e semiárido: ocorrem principalmente em regiões que recebem forte influência de correntes marítimas frias, como os desertos do Atacama e do Peru, na América do Sul (sob influência da corrente fria de Humboldt), e do Deserto de Sonora, no noroeste do México (sob influência da corrente da Califórnia). De maneira geral, as correntes frias retiram a umidade do ar oceânico, causando longos períodos de seca, que podem durar vários anos. Já o semiárido ocorre em áreas de baixa precipitação, cerca de 300 mm anuais, como a Patagônia argentina e o Sertão nordestino brasileiro, onde predominam, respectivamente, a vegetação de estepes e a de Caatinga.

Domínios subtropical e temperado: estendem-se, sobretudo, pelo sul e sudeste da América do Sul. Caracterizam-se por temperaturas médias anuais mais amenas (sempre abaixo dos 20 °C), com precipitações muito bem distribuídas durante o ano, acumulando cerca de 1 500 mm anuais. São condições climáticas propícias ao desenvolvimento de florestas temperadas de pinheiros, como a Mata de Araucárias e as pradarias, chamadas de Pampas argentino, uruguaio e brasileiro.

América Latina: Diversidade étnico-cultural

A América Latina é uma região do extenso continente americano. O que confere unidade à região é o fato de o idioma oficial da maioria dos países nela localizados ser uma língua de origem neola tina, como o espanhol e o português. Contudo, essa forma de regionalizar não esconde a grande diversidade linguística e étnico-cultural desses países.
A partir do século XVI, com o estabelecimento dos exploradores europeus, iniciou-se o desenvolvimento da atividade mineradora e da agricultura mono cultora nas áreas coloniais. Isso exigiu o emprego de numerosa mão de obra. Para tanto, os colonizadores exploraram, em regime de escravidão, o trabalho das populações nativas que habitavam os territórios e também o dos povos trazidos de várias partes da África. Dessa forma, iniciou-se o processo de formação étnico-cultural da América Latina, que contou com a participação de três grupos principais: indígenas, europeus e africanos.
A miscigenação entre tais povos resultou na grande diversidade cultural do espaço latino-americano. Porém, esse processo não ocorreu da mesma maneira em todo o território. Assim, atualmente, a cultura de alguns países, como o Brasil, resulta do contato entre os três grupos mencionados; já em países como Bolívia, Guatemala e Peru, predominou a cultura indígena, visto que a maioria da po pulação descende desse grupo. A população afrodescendente é mais marcante, por exemplo, no Haiti e na Jamaica, ao passo que a população e as tradições de origem europeia predominam em países como Argentina e Uruguai.
Embora existam essas diferenças, a influência do colonizador europeu foi, sem dúvida, muito marcante na formação cultural dos países latino-americanos, sobretudo em razão da imposição da religião e do idioma dele. Além disso, o passado histórico de colonização europeia resultou em diferentes formas de preconceito contra descendentes de africanos e indígenas, mesmo nos países em que eles constituem a maioria da população.


O Triângulo do Lítio

Bolívia, Argentina e Chile detêm 56% das reservas mundiais de lítio, sendo o Chile o segundo maior produtor do mundo. Os depósitos situam-se em salares na fronteira entre os três países.
O lítio é um metal muito leve, ótimo condutor de energia térmica e com grande capacidade de armazenar energia elétrica. Por todas essas características, vem sendo cada vez mais utilizado na produção de baterias para carros elétricos, computadores, telefones celulares e outros equipamentos eletrônicos, pilhas, ligas metálicas para aviões, vidros e cerâmicas de alta resistência ao calor e alguns medica mentos. Em 2001, apenas 5% de todo o lítio produzido era usado na fabricação de baterias. Em 2021, esse percentual atingiu 74%.
No contexto de transição energética, a indústria vem estimulando a fabricação e o uso de carros elétricos, o que aumenta a demanda por lítio, que está adquirindo importante papel na economia mundial. Diversos países têm buscado garantir seus suprimentos do metal, gerando uma corrida pela descoberta de novas áreas de exploração e de técnicas de extração e transformação do produto.
O lítio é extraído de uma substância aquosa rica em minerais (salmoura) que é bombeada para a superfície e armazenada em piscinas de evaporação durante meses, para que o lítio se concentre. O processo de extração do lítio utiliza grandes volumes de água em uma das regiões mais áridas do mundo, causando impactos ambientais nos ecossistemas dos salares.

GUIANAS

As Guianas apresentam composição étnico-cultural complexa. Escravizados africanos e imigrantes chineses, indonésios e indianos juntaram-se a povos indígenas, ingleses, holandeses e fran ceses, contribuindo para a formação de sociedades com ampla variedade étnica, linguística e religiosa.
A Guiana Francesa é um depar tamento ultramar da França, com cerca de 90% de seu território coberto por florestas. A economia baseia-se na extra ção de madeira, especialmente pau-rosa, usado na produção de perfumes, e na atividade pesqueira. As principais relações comerciais ocorrem quase exclusivamente com a França.
O Suriname, antiga Guiana holandesa, conquistou sua independência em 1955. Atualmente, o ouro é o principal metal extraído no país, e a agricultura apoia-se no cultivo de arroz, café e cana-de-açúcar.
A Guiana, antiga colônia inglesa que se tornou independente em 1966, é o país da região que mais se destaca na exploração e produção de recursos minerais, com destaque para a bauxita. Em 2020, a mineração representava aproximadamente 30% do PIB do país. Os principais produtos agrícolas são cana-de-açúcar, algodão e arroz.
Em 2015, importantes jazidas de petróleo foram descobertas em alto-mar no espaço terri torial da Guiana. A exploração dessas jazidas, cujas reservas são estimadas em quase 11 bilhões de barris, teve início em 2020. Nesse mesmo ano, as receitas obtidas com o petróleo somaram mais de 185 milhões de dólares.
A tendência é que a exploração petrolífera aumente nos próximos anos, permitindo a produ ção de 1 milhão de barris ao dia até 2025. Para atingir essa meta, a Guiana estabeleceu parcerias com grandes empresas estadunidenses e chinesas, pois não possui a tecnologia necessária para a extração do petróleo em plataformas.
O interesse pelo petróleo na Guiana, que tem potencial para se tornar uma das maiores produtoras da América do Sul, tem gerado algumas preocupações:

- garantia da soberania do país com a exploração do recurso, por causa da influência crescente de investidores estrangeiros no setor;
- melhoria efetiva nas condições de vida da população com a renda gerada pelo petróleo – já que boa parte dela vai para as empresas parceiras;
- riscos ambientais decorrentes do aumento da emissão dos gases de efeito estufa e da perfuração de poços profundos, que afetam os ecossistemas marinhos;
- o retorno das tensões com a Venezuela que, retomou as reivindicações pela região do Essequibo, que corresponde a dois terços da Guiana e de suas águas territoriais.




O canal do Panamá

O Panamá localiza-se onde o istmo da América Central se junta à América do Sul. Seu território é cortado pelo Canal do Panamá, que liga os oceanos Atlântico e Pacífico e por onde passam mais de 13 mil embarcações anualmente.
Durante o século XVI, os exploradores europeus já tinham interesse em encurtar os caminhos entre o Atlântico e o Pacífico. Em 1523, o rei Charles V (1500-1558) solicitou estudos para a construção de um canal no istmo do Panamá, mas nenhum projeto foi realizado.
Séculos depois, em 1879, a Colômbia – que manteve a posse do território panamenho até 1903 – autorizou a França a iniciar as obras de abertura de um canal, mas o empreendimento foi à falência dez anos depois.
Uma rebelião incentivada pelos Estados Unidos em 1903 levou o Panamá a se separar da Colômbia, proclamando sua independência. No mesmo ano, os Estados Unidos obtiveram do governo panamenho o direito de retomar as obras de construção do canal, que foi inaugurado em 1914.
Em troca do controle perpétuo da zona do canal, o governo estadunidense pagava uma quantia anual ao Panamá. No entanto, após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), cresceu a tensão interna contra a presença estadunidense no país.
Somente em 1977 foi assinado um acordo entre Panamá e Estados Unidos, garantindo que o canal e suas instalações passariam ao controle panamenho no ano 2000, o que efetivamente aconteceu. Mas o acordo reserva aos Estados Unidos o direito de intervir na zona do canal, caso a livre navegação seja ameaçada.
Para que a obra de construção do canal fosse bem-su cedida, foi necessário construir o Lago Gatún, situado 25 metros acima do nível do mar, e várias eclusas que represam água dentro de grandes tanques e permitem que os navios vindos do Atlântico alcancem o Pacífico.
Atualmente, o Canal do Panamá ocupa posição de destaque no cenário internacional, movimentando 3,5% do comércio marítimo mundial e conectando mais de 140 rotas que ligam 1 700 portos em 160 países.
A ampliação entregue em 2016 permite que porta-con têineres maiores circulem na região. A capacidade máxima dos navios passou de 5 mil para 14 mil contêineres, reduzindo o custo final dos produtos transportados e confirmando a importância estratégica dessa obra, em uma travessia que pode ser feita entre oito e dez horas.

América Latina: conflitos e tensões

Os principais conflitos na América Latina estão relacionados a dis putas territoriais que remontam ao passado colonial e aos processos de independência dos países, à presença de guerrilhas, como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), ao narcotráfico e a conflitos pela exploração de recursos naturais.
Os conflitos entre os países são mediados por organismos internacionais vinculados à ONU, entre os quais destacam-se a Corte Internacional de Justiça (CIJ) e a Organização dos Estados Americanos (OEA).
A CIJ foi instituída em 1945 e, entre as missões que lhe são confiadas, está a resolução de disputas territoriais entre os Estados, tomando-se por base a aplicação de tratados interna cionais. Para que a decisão da CIJ seja acatada, é preciso que os Estados envolvidos estejam de acordo, o que nem sempre acontece já que, em muitos casos, há interesses econômicos envolvidos. O interesse principal de uma resolução rápida e pacífica deveria ser o de proteger as populações locais, que são bastante prejudicadas por essas disputas, pois geralmente perdem acesso aos meios de sobrevivência.
Nessas situações, outros organismos interferem na mediação, como a OEA, cuja missão é “garantir a paz e a justiça, defendendo a soberania, a integridade territorial e a independência dos Estados americanos” (artigo 1° da Carta OEA).

MIGRAÇÕES NA AMÉRICA LATINA

Na América Latina, os fluxos migratórios contemporâneos ocorrem com menos intensidade quando comparados aos de outras regiões do globo, como na Europa, América do Norte, Ásia e África.
Atualmente, os grandes fluxos migratórios na América Latina estão relacionados a países da América Central, México e Venezuela.
Durante as últimas décadas do século XX, em decorrência de crises econômicas, o aumento do desemprego e da pobreza, as migrações de latino-americanos se diri giam principalmente em direção aos países desenvolvidos, sobretudo para os Estados Unidos e o continente europeu.
No início do século atual, entretanto, os fluxos migratórios de latino-americanos também se intensificaram no interior da própria região, ou seja, eles passaram a se deslocar também para os países vizinhos. Entre 2009 e 2015, por exemplo, o fluxo migratório entre os países da região aumentou em 50%.

Entre as razões que vêm contribuindo para o aumento das migrações na região destacam-se:
• a adoção de regras mais rígidas para a entrada dos imigrantes la tinos nos países desenvolvidos;
• as características históricas e cul turais comuns entre os países da região;
• as oportunidades no mercado de trabalho, sobretudo nos países de maior economia da região, como o Brasil, a Argentina e o Chile.

Em geral, os latinos encontram certa facilidade para deixar seu país de origem e entrar em outros países da região. A maioria dos governos da região adota políticas migratórias pouco restritivas, permitindo a entrada dos imigrantes. Por outro lado, pela falta de fiscalização e de controle nas zonas de fronteiras, muitos imigrantes conseguem chegar clandestinamente aos países de destino.
De maneira geral, a busca por trabalho e melhores condições de vida são os prin cipais fatores que levam os latino-americanos a deixar seus países de origem. Nos últimos anos, por exemplo, milhares de venezuelanos têm migrado para os países vizinhos, inclusive para o Brasil, em decorrência da grave crise econômica que afeta a economia daquele país. Mas, além dos problemas socioeconômicos, as migrações na região também têm outras causas. Em 2010, o forte terremoto que atingiu o Haiti, um dos países latino-americanos mais pobres, localizado no mar do Caribe, causou milhares de mortes e deixou milhões de desabrigados, muitos dos quais migraram para outros países, inclusive para o Brasil.
O Brasil também participa das migrações que ocorrem na América Latina, tanto recebendo imigrantes latino-americanos quanto tendo a saída de brasileiros para ou tros países da região. De acordo com dados de 2020, entre os imigrantes latinos em maior número no Brasil estão os venezuelanos (172 mil), os haitianos (149 mil), os bolivianos (56 mil) e os argentinos (25 mil). Os emigrantes brasileiros, por sua vez, também são numericamente expressivos em vários países do continente. Cerca de 240 mil brasileiros vivem no Paraguai, 89 mil na Argentina, 72 mil na Guiana Francesa e 43 mil no Uruguai.
A pandemia de covid-19 teve impactos na dinâmica migratória latino-americana. Apesar da imposição de restrições para entrada e saída de pessoas dos países, mais rigorosa no ano de 2020, os fluxos migratórios não pararam, já que as migrações, nesse contexto, são forçadas. Além disso, com o aumento da pobreza e das desigualdades pós-pandemia, tudo indica que haverá uma intensificação desses fluxos nos próximos anos.

Em linhas gerais, a América Latina apresenta três tendências migratórias importantes:
- dos países da América Latina para a América Anglo-Saxônica (aproximadamente 26 milhões de migrantes);
- dos países da América Latina para outras regiões do mundo (aproximadamente 6 milhões de migrantes);
- entre os países da América Latina (aproximadamente 11 milhões de migrantes).

Os Estados Unidos são o principal destino de migrantes do mundo. Em 2020, 51 milhões de migrantes internacionais viviam no país. Desse total, 67% eram latino-americanos.
Além dos cubanos, dominicanos e mexicanos, que têm grandes populações migrantes nos Estados Unidos, o país tem recebido muitos hondurenhos, guatemaltecos e salvadorenhos. A população desses países centro-americanos está em situação de grande vulnerabilidade.
Os problemas econômicos, a violência causada pelo tráfico de drogas e eventos climáticos, como enchentes, secas e furacões, forçam milhões de pessoas ao êxodo. Esses migrantes se organizam em caravanas para realizar a viagem.
O percurso, saindo da América Central, passando pelo México e chegando à fronteira dos Estados Unidos, é um dos mais perigosos do mundo, sendo muito frequentes casos de desaparecimento, agressões e mortes.
Apesar das promessas de revisão das leis de imigração, os Estados Unidos continuam a fazer um rígido controle diante da quantidade de pessoas que chegam à fronteira do país. A fiscalização foi reforçada e medidas polêmicas vêm sendo adotadas, como a detenção e deportação de migrantes e o uso da violência por policiais.

Fluxos intrarregionais


Em 2020, mais de 11 milhões de pessoas migraram no interior da América Latina. As migra ções intrarregionais têm como principal destino Argentina, Colômbia e Chile, atraindo pessoas dos países andinos e do Paraguai.
A situação da Venezuela tem alterado os fluxos na região. Aproximadamente 85% dos mais de 5 milhões de venezuelanos que já deixaram o país permaneceram na América Latina, tendo a Colômbia como principal destino. Pela proximidade geográfica, também são áreas de atração de venezuelanos, República Dominicana, Trinidad e Tobago e Guiana.
O México é um país de trânsito e de imigração. Milhares de migrantes latino-americanos atravessam o país e se juntam aos mexicanos que tentam, diariamente, entrar nos Estados Unidos, ampliando a crise migratória. Com as detenções e deportações na fronteira, a tendência é que os migrantes permaneçam no México, agravando a situação socioeconômica do país.
Muitos desses migrantes vivem no Sul e na Costa Oeste dos Estados Unidos, onde são conhe cidos por braceros (trabalhadores) e atuam na colheita de produtos agrícolas. Outros trabalham em indústrias, na construção civil, no setor de serviços, entre outras ocupações.
A Venezuela é o principal produtor e exportador de petróleo da América Latina. A renda gerada pela atividade é controlada pelo governo e distribuída de forma desigual, o que contribui para o grande número de pessoas vivendo na pobreza e em condições precárias no país.
No ano de 2014, o preço do barril do petróleo começou a cair rapidamente no mundo todo. A consequência imediata foi a diminuição das receitas e o agravamento das dificuldades econômicas e sociais já existentes.
Foram feitos cortes nos programas sociais, e uma grave crise de abastecimento de produtos básicos teve início, pois a Venezuela importa mais de 70% dos produtos que consome. Esse contexto, somado à insatisfação popular com o governo e à altíssima inflação, mergulhou o país em uma grave crise econômica e humanitária, forçando os venezuelanos a deixar o país.


Narcotráfico: flagelo latino-americano

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