quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

América do Sul: economia

Os países sul-americanos têm uma economia muito variada, apesar da herança colonial, da história comum de desigualdades sociais e da influência política, econômica e cultural dos Estados Unidos desde o início do século XX.
Há, por exemplo, países emergentes com um parque industrial relativamen te diversificado, como o Brasil, a Argentina, o Chile e a Colômbia, enquanto em outros, menos desenvolvidos, predominam as atividades minerais e agrárias, como a Bolívia, o Equador, o Paraguai e a Guiana.
No setor agrícola dos países sul-americanos há agroindústrias que utilizam tecnologia avançada na produção de alimentos, biocombustíveis e matérias-primas para indústrias de papel, móveis, químico-farmacêuticas, etc. Ao mesmo tempo, há regiões em que prevalece a agricultura tradicional apenas para o consumo da própria família.
Nos países emergentes, o parque industrial é integrado à economia mun dial em diversos setores, como o de bens de capital (máquinas e equipamentos), bens intermediários (aço, celulose, derivados de petróleo etc.) e bens de consumo (automóveis, eletrônicos, vestuário, alimentos, etc.). Além disso, contam com investimento de capital privado nacional e estrangeiro, além de capital estatal.

O Produto Interno Bruto

O Brasil é o país que possui o maior PIB do subcontinente, mais de três vezes maior que o segundo colocado, a Argentina. Em todos os países, o setor de serviços (que inclui o comércio) é o que mais contribui na composição do PIB e também o que ocupa mais mão de obra. Novamente, é o Brasil a economia em que esse setor tem mais peso, seguido pela Argentina.
Já nos países em que a agricultura ainda tem grande participação no PIB, como é o caso do Paraguai e da Guiana, a participação dos serviços se reduz um pouco, mas ainda é predominante.
Durante a alta do preço das commodities nos anos 2000, as economias dos países sul-americanos cresceram com taxas elevadas, o que contribuiu para a redução do desemprego e a melhoria das condições gerais de vida da população. 
No entanto, após a passagem desse ciclo de alta (e também como resultado de políticas econômicas malsucedidas), desde 2010 as economias dos países sul-americanos vêm reduzindo o ritmo de crescimento, com alguns paí ses passando por recessão econômica. Em 2018, a pior situação é a da Vene zuela, cujo PIB vem encolhendo fortemente desde 2014.

Agropecuária

Os dois países que dispõem das maiores extensões de terras agrícolas são o Brasil e a Argentina. No Brasil, pratica-se agricultura mecanizada em grandes propriedades no estado de São Paulo, com destaque para a cana-de-açúcar (produção de açúcar e etanol) e nos estados da região Centro-Oeste, com destaque para o cultivo de soja e milho.
Esses dois cultivos também são desenvolvidos no Paraná e no Rio Grande do Sul e a soja tem sido muito cultivada no oeste da Bahia. Vale destacar ainda o cultivo de café em grandes e médias propriedades no sul de Minas Gerais e do Espírito Santo (nesses estados o grau de mecanização é menor devido ao relevo montanhoso).
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricul tura (FAO), em 2016 o Brasil era o maior produtor mundial de cana-de-açúcar e de café, o segundo produtor de soja e o terceiro de milho. Essa produção em grande parte é voltada para a exportação. No Brasil central também se concentra a maior parte dos 218 milhões de cabeças que compõem o rebanho bovino brasileiro, o maior do mundo, outro produto importante na pauta de exportação brasileira.
A modernização das atividades agrícolas reduziu sensivelmente a utilização de mão de obra empregada no setor primário da economia. Sem contar que dos poucos que permanecem empregados se exige maior qualificação: hoje em dia, a agricultura moderna emprega engenheiros agrônomos, técnicos em agricultura, tratoristas, mecânicos de máquinas, etc.
Na Argentina, a agricultura mais importante encontra-se na região da planície dos Pampas, com destaque para a soja (terceiro produtor mundial), o milho (quarto produtor) e o trigo, cultivados em grandes proprie dades com alto grau de mecanização. Esses produtos aparecem, respecti vamente, na pauta de exportação de ambos os países, sendo que o Brasil importa trigo argentino. A Argentina também se destaca como grande produtor e exportador de carne bovina.
Outro país que tem uma agricultu ra relevante é o Chile, com destaque para a fruticultura – uva, pêssegos, pe ras, cerejas, entre outras. As frutas têm um grande peso na pauta de exporta ção chilena, só ficando atrás do cobre. A agricultura chilena se concentra na região central, pois o sul é muito frio e o norte é muito árido e ocupado pelo deserto de Atacama.

Recursos minerais e indústria

Em conjunto, os países do subcontinente produzem quase todos os produtos minerais e energéticos de que necessitam. A produção de petróleo é relevante no Brasil, na Venezuela e na Colômbia. Este país e o Brasil, apesar de não serem membros da Opep, também são exportadores de petróleo.
Vale destacar a produção de minério de cobre, no Chile e no Peru; de estanho e gás natural, na Bolívia; e de ferro, manganês e bauxita, no Brasil. Esses recursos minerais têm grande importância na pauta de exportações dos respec tivos países. A Venezuela, cuja economia passa por profunda crise desde 2014. Segundo estimativas do Banco Mundial, suas exportações caíram de 65,7 bilhões de dólares em 2010 para 23,9 bilhões de dólares em 2017. Isso se deve à desagregação socioeconômica que o país vive. Cerca de 95% da pauta de exportação da Venezuela é composta de petróleo.
As maiores regiões industriais se localizam no Brasil e na Argentina, as duas maiores e mais industrializadas economias sul-americanas. No Brasil a indústria contribui com 18% do PIB, e emprega 28,2% dos trabalhadores e 10,1% das traba lhadoras; na Argentina esse setor é responsável por gerar 22% do PIB e em pregar 34,1% dos trabalhadores e 8% das trabalhadoras no país.
No Brasil, a produção industrial é muito diversificada e, embora tenha se espalhado pelo território, ainda está bastante concentrada nas regiões metro politanas de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, com indústrias de ali mentos, de vestuário, automobilísticas, petroquímicas, farmacêuticas, etc.
Na Argentina, a maior concentração industrial encontra-se no eixo formado pela região metropolitana de Buenos Aires e a cidade de Rosário, com indústrias de alimentos, de vestuário, automobilísticas, petroquímicas, etc. Além dessas duas regiões industriais principais, há outras concentrações menores na América do Sul.
Sobretudo no Brasil, há polos in dustriais de alta tecnologia, com des taque para a região de Campinas (SP). Nessa cidade do interior paulista exis te um importante tecnopolo em torno da Universidade Estadual de Campi nas (Unicamp) e de outros centros de pesquisa, que formam mão de obra qualificada para trabalhar nas indús trias da região (eletrônicas, telecomu nicações, mecânicas, biotecnologia, entre outras), assim como produzem avanços científico-tecnológicos, fruto de suas pesquisas.

Turismo

No setor de serviços, uma das atividades que mais tem crescido e gerado renda na América do Sul é o turismo. Em todos os países sul-americanos, os setores de comércio e serviços são os que empregam maior percentual da população economicamente ativa.
O subcontinente tem diversas cidades históricas tanto do período pré-colombiano como do período colonial, que atraem muitos turistas interessados principalmente na arquitetura das construções, que imprimem na paisagem as marcas de outros tempos.
Além disso, pelo extenso litoral (principalmente do Brasil) em zona inter tropical, é muito favorecido para o desenvolvimento do turismo de sol e praia, mas também o de montanha (lembre-se de que é nesse subcontinente que está uma das maiores cadeias de montanha do planeta, a cordilheira dos An des), de inverno (nas áreas situadas ao sul do trópico de Capricórnio) e ecológico (em função dos diversos parques nacionais e outras áreas protegidas).
Dos turistas internacionais que entram nos países da América do Sul, boa parte é oriunda do próprio subcontinente. Muitos dos turistas internacionais que entram na Argentina, por exemplo, são brasileiros (e vice-versa), assim como grande parte dos visitantes estrangeiros no Chile é composta de brasileiros. Há também um significativo fluxo interno de turistas, especialmente no Brasil.

Blocos econômicos regionais

A busca de integração no continente Americano é antiga. Ela vem desde 1948, ano de criação da Organização dos Estados Americanos (OEA), com a assinatura da Carta da OEA, em Bogotá (Colômbia). A OEA constitui um orga nismo regional dentro do sistema da ONU, de caráter político. Em seu artigo primeiro, apregoa que o objetivo da organização é alcançar nos Estados-mem bros “uma ordem de paz e de justiça, para promover sua solidariedade, inten sificar sua colaboração e defender sua soberania, sua integridade territorial e sua independência”.
No entanto, desde sua origem, a OEA, é controlada pelos Estados Unidos, que procurou organizá-la de acordo com seus interesses. Como exemplo, podemos citar a expulsão de Cuba, em 1962, a fim de isolar o regime de Fidel Castro (1926-2016), que em 1959 havia liderado a derrubada do governo do ditador Fulgencio Batista (1901-1973), aliado dos Estados Unidos, e implantado, em 1952, um regime de partido único (Partido Comunista de Cuba), estatizan do a economia e se aproximando da União Soviética. Com o fim da União Soviética e da Guerra Fria, em 1991, cresceu a pressão de países do continen te para o fim da suspensão de Cuba, o que acabou ocorrendo em 2009. No entanto, Raúl Castro, que assumiu o poder após a saída de seu irmão Fidel, não manifestou interesse por voltar à organização, pois, segundo ele, desde sua concepção, a OEA foi e continua sendo um instrumento de dominação imperialista dos Estados Unidos.
O fim da União Soviética e, portanto, da ajuda que concedia a Cuba, por exemplo, vendendo petróleo a preços abaixo do mercado internacional, agra vou os problemas de desabastecimento do país. Com a chegada de Hugo Chávez (1954-2013) ao poder na Venezuela, em 1999, houve uma aproximação entre os regimes chavista e castrista e esse país sul-americano passou a forne cer petróleo em condições vantajosas a Cuba.
Tentando romper o isolamento desses dois países, especialmente o cuba no, em 2004 Chávez e Fidel criaram a Alba – Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América, com a participação de Venezuela, Colômbia e Peru. Mais tarde se uniram a ela a Bolívia, o Equador e a Nicarágua. Esses países tinham em comum governos interessados em criar uma alternativa à inte gração a um acordo comercial liderado pelos Estados Unidos. No entanto, acabou não vingando.
A Alba se enfraqueceu depois da morte de Hugo Chávez em 2013 e prin cipalmente após a grave crise econômica que atingiu a Venezuela no governo de seu substituto, Nicolás Maduro.
No entanto, já há bastante tempo os países latino-americanos buscam criar outras organizações de integração regional, especialmente no campo comercial. Um exemplo foi a criação da Aladi – Associação Latino-Americana de Integração, em 1980, com sede em Montevidéu (Uruguai). Ela permitiu a assinatura de acor dos entre apenas dois ou mais países-membros. Isso fez com que aumentasse o número de acordos assinados no âm bito da Aladi. Mas como essa organiza ção é muito ampla, conta com 13 países latino-americanos, de difícil conciliação de interesses, acabou ofuscada pelo crescimento de blocos regionais menores e mais focados em redução de barreiras para o fluxo de mercadorias.
Os blocos econômicos são agrupa mentos de países que fazem acordos regionais para facilitar o trânsito de ca pitais, serviços e, sobretudo, de merca dorias entre eles – isto é, ampliar os mer cados para as empresas. Há quatro tipos de blocos econômicos regionais: zona de livre co mércio, união aduaneira, mercado co mum e união econômica e monetária.

Comunidade Andina (CAN)

Em 1969, com a assinatura do Acordo de Cartagena, foi criado o Pacto An dino, com sede em Lima (Peru). O objetivo do bloco era incentivar a integração política e econômica entre os países-membros: Bolívia, Chile, Colômbia, Peru e Equador, que formaram uma zona de livre-comércio.
Em 1973, a Venezuela aderiu ao grupo. Em 1976, o Chile renunciou. Em 1997, os países integrantes iniciaram um processo para transformar-se em união aduaneira e mudaram o nome para Comunidade Andina.
Em 2006, com o início das negociações para sua entrada no Mercosul, a Venezuela também se retirou do bloco. Atualmente restam apenas quatro países. Com processo em curso de adesão da Bolívia ao Mercosul e com a entrada de Colômbia e Peru na Aliança do Pacífico, que veremos a seguir, a tendência é haver um esvaziamento da Comunidade Andina.

União das Nações Sul-Americanas (Unasul)

Os doze países independentes da América do Sul integram a Unasul (a Guiana Francesa não faz parte). Criado em 2008, esse grupo tem poderes para negociar com outros países e blocos econômicos e representa os países-mem bros na Organização Mundial do Comércio (OMC) e em outros órgãos multila terais. Sua sede fica em Quito (Equador).
O objetivo da organização é estabelecer um espaço de integração política, cultural, social e econômica, criando um envolvimento dos países-membros em áreas como a infraestrutura de transportes, energia e comunicações, além do incentivo à cooperação nos setores de educação, saúde, defesa e outros. Se gundo a própria Unasul: “Nosso desafio é eliminar a desigualdade socioeconô mica, alcançar a inclusão social, aumentar a participação cidadã, fortalecer a democracia e reduzir as disparidades existentes”. Ou seja, vai muito além de um acordo comercial como os outros blocos.

Aliança do Pacífico

A Aliança do Pacífico é o mais recente bloco econômico criado na América Latina. Essa zona de livre-comércio é formada por três países andinos da Amé rica do Sul – Chile, Colômbia, Peru – mais o México, país da América do Norte.
Este é o único bloco econômico realmente latino-americano, os outros são sul-americanos ou centro-americanos. Criada em 2011, entre seus objetivos destacam-se: impulsionar o crescimento econômico e a competitividade das economias de seus integrantes, buscando a liberalização do comércio de bens e serviços; promover a livre circulação de pessoas entre os países-membros, transcendendo o âmbito comercial; promover uma arti culação política e de projeção ao mundo, com ênfase na região da Ásia-Pacífico. A integração tem sido bem sucedida: mais de 90% dos produtos comercia lizados entre eles já circulam com tarifa zero.

Mercado Comum do Sul (Mercosul)

O Mercosul é um acordo econômico assinado em 1991 por Argentina, Bra sil, Paraguai e Uruguai. Sua sede fica em Montevidéu (Uruguai). Em 2006, a Venezuela foi admitida como país-membro, mas em 2017 foi suspensa porque o governo de Nicolás Maduro desrespeitou o compromisso democrático esta belecido pelo Protocolo de Ushuaia (acordo assinado em 1998 nessa cidade argentina), que prevê em seu artigo 1o que “A plena vigência das instituições democráticas é condição essencial para o desenvolvimento dos processos de integração entre os Estados Partes”. Nessa condição, o país perdeu o direito de participar nos diferentes órgãos do bloco e tem seus direitos e obrigações também suspensos, como prevê o artigo 5o desse protocolo. Em 2018, a Bolívia estava em processo de adesão.
O Mercosul criou facilidades para a circulação de mercadorias entre os paí ses-membros, visando, primeiramente, à implantação de uma zona de livre-co mércio. Em janeiro de 1995, passou a vigorar também uma tarifa externa comum, que ainda não é válida para todos os produtos, por isso o bloco é considerado uma união aduaneira imperfeita.
Essa proposta de integração econômica não é livre de conflitos de interes ses. A Argentina, por exemplo, de forma recorrente estabelece cotas de impor tação de produtos brasileiros e eleva as tarifas aduaneiras de forma unilateral.
Desde a criação do Mercosul, o objetivo maior é tornar a economia dos países sul-americanos mais forte e competitiva e com maior poder de negocia ção com os Estados Unidos, a União Europeia (com quem negociava, em 2018, um acordo de livre-comércio), a China e outros parceiros comerciais.
O Mercosul, além dos Estados-membros, também chamados de Estados-partes, tem seis países que são considerados Estados associados – Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Peru e Suriname. Com esses países, o Mercosul tem acordos de livre-comércio e eles estão autorizados a participar das cúpulas do bloco.

Investimentos brasileiro e chinês

O Brasil é o país que produziu o maior PIB dentre os países da América do Sul, e por isso podemos considerá-lo a maior economia do subcontinente. Embora tenha apresentado a menor taxa de crescimento no perío do 2000-2017, a economia brasileira é bem maior que a de seus vizinhos, o que faz com que naturalmente tenha mais influência na região. Por exemplo, há mui tas empresas multinacionais brasileiras atuando na América do Sul e mesmo na América do Norte.
No entanto, nos últimos anos, assim como vem acontecendo na África, também na América do Sul tem havido um aumento dos investimentos chineses em diversas atividades.
A China tem investido em infraestrutura, mineração e agricultura para lhe assegurar o forneci mento de alimentos, de matérias-primas minerais e agrícolas, além de vender seus produtos industrializados. Como a economia brasileira é bem maior e mais complexa do que as dos países vizinhos, aqui o capital produtivo chinês, além de investir em infraestrutura, mineração e agricultura, como ocorre em toda a América do Sul, também tem comprado indústrias nacionais e montado fábricas novas.
No entanto, os chineses estão inte ressados apenas em abastecer o mercado interno brasileiro, e não em usar o território nacional como plataforma de exportações de produtos industrializados. Eles preferem abastecer os vizinhos sul-americanos a partir da produção das fábricas instaladas em seu próprio território, concorren do diretamente com produtos brasileiros no mercado regional. Em 2007, de todas as importações dos países da América do Sul, 14,8% provinham do Brasil e 10% da China. Em 2013, a participação brasileira no abastecimento dos países vizinhos caiu para 11,2%, enquanto a chinesa subiu para 17,4%. Em outras palavras, a indústria brasileira tem perdido mercado para a produção chinesa.

América do Sul: população e diversidade cultural

Origem dos povos americanos

Há controvérsias sobre a data da chegada dos primeiros grupos humanos na América e sobre as rotas que percorreram. Com base em pesquisas arqueológicas na Serra da Capivara, no estado do Piauí, área onde há grande concentração de sítios arqueológicos, a antropóloga brasileira Niède Guidon afirma que há cerca de 50 mil anos já havia humanos na região. No entanto, seu estudo é pouco aceito pela comunidade científica porque a datação não foi feita com ossos, e sim com carvão de supostas fogueiras humanas.
Pesquisa mais precisa publicada na revista científica Nature em 2012 por uma equipe internacional de cientistas liderada pelo colombiano Andrés Ruiz-Linares (professor de genética humana da University College de Londres) aponta uma data mais recente. Ela foi feita com base nos estudos genéticos de comunidades indígenas do Canadá à Terra do Fogo (sul da Argentina) e indicou que a ocupa ção da América se deu com grupos humanos vindos da Ásia em pelo menos três ondas migratórios através do estreito de Bering há pouco mais de 15 mil anos, quando as águas do mar estavam congeladas e serviram de ponte para a pas sagem dos migrantes.
É a mesma datação apontada pelo antropólogo brasileiro Walter Neves com base no esqueleto de Luzia, fóssil de cerca de 12 mil anos encontrado no sítio arqueológico de Lagoa Santa (MG). Ele também defende que os índios americanos são descendentes de grupos humanos vindos da Ásia ha cerca de 15 mil anos. Atualmente essa é a tese mais aceita.

Povos pré-colombianos

Foram os descendentes desses mi grantes pioneiros que muito tempo depois desenvolveram as hoje chama das civilizações pré-colombianas (em referência a Cristóvão Colombo), po vos que os europeus encontraram ao aportarem na América no final do sé culo XV.
Os incas (nos Andes), os maias, os astecas e os toltecas (nas áreas onde atualmente se localizam a América Cen tral e o México) estavam entre as civili zações mais organizadas que se desen volveram na América. Esses povos em pregavam técnicas agrícolas sofisticadas para a época, desenvolviam atividades urbanas diversificadas e tinham o poder político já bastante centralizado.
Os incas construíram uma impo nente civilização, cujos vestígios sobre viveram aos séculos, como mostram as ruínas de Machu Picchu (Peru), cidade fundada em 1450. Observe a fotografia. Localizadas na cordilheira dos Andes, a cerca de 80 quilômetros da cidade de Cuzco, essas ruínas foram descobertas em 1911 por um arqueólogo americano chamado Hiram Bingham e hoje fazem parte do Patrimônio da Humanidade.
No México há diversas marcas das civilizações pré-colombianas, como as deixadas pelos povos astecas e toltecas. No século XIV houve uma divisão entre os astecas e parte do grupo mi grou de sua região de origem e fun dou a cidade de Tenochtitlán em 1325, num local onde atualmente fica a Cidade do México. Em seu novo assen tamento, passaram a ser chamados de mexicas, daí o nome do país. A toma da de Tenochtitlán pelos espanhóis em 1521 simboliza o domínio espanhol que se estendeu por todo o período colonial.
Havia no Brasil uma enorme diversidade de povos com diferentes línguas e culturas. Estima-se que eram faladas mais de mil línguas. Em outras regiões da América do Sul também havia outros povos, como os Guarani (cujos descendentes vivem no Paraguai e ainda mantêm sua língua) e os Patagon, no sul da Argentina, daí o nome dessa região: Patagônia.

A colonização europeia e a escravidão

Embora a história da América não tenha se iniciado com a chegada dos europeus, foi a colonização europeia que inseriu esse continente na história do capitalismo comercial, que havia começado na Europa no final do século XV, e deixou marcas profundas nos países atuais.
Entre os séculos XV e XVII, espanhóis, portugueses, franceses, holandeses e ingleses ocuparam o continente americano e iniciaram o domínio dos povos nativos e a colonização dos territórios.
Nos territórios invadidos e dominados pelos portugueses, que mais tarde pertenceriam ao Brasil, os conflitos entre os colonizadores e os povos nativos provocaram genocídio e etnocídio de muitos povos. Com relação aos povos que não foram exterminados, houve empenho por parte dos portugueses em convertê-los à fé cristã (o que não deixa de ser um processo de etnocídio).
Os espanhóis destacaram-se na conquista territorial principalmente nos Andes, na América Central e no México, ocupando áreas ricas em metais preciosos, como ouro e prata. Essa conquista e ocupação também não acontece ram sem a resistência das populações nativas. Os que sobreviveram perderam sua identidade cultural e foram escravizados para a exploração das minas – o que desorganizou as comunidades e contribuiu para o desaparecimento das civilizações pré-colombianas.
Durante o período colonial, a agricultura voltada para a exportação foi a principal atividade realizada em dife rentes áreas do continente americano, como nos territórios dos atuais Brasil, Colômbia, Venezuela, Cuba e no sul dos Estados Unidos. Era a monocultura (produção de um só produto para a exportação), praticada em latifúndios (grandes propriedades) e com base na exploração do trabalho de africanos escravizados. Esse sistema de produ ção agrícola ficou conhecido como plantation(plantação). O tripé latifúndio, monocultura exportadora e escravismo caracterizou as colônias de exploração na América, inclusive no sul dos Estados Unidos.
A adoção da plantation promoveu uma transferência maciça de africanos para o continente americano. Estima-se que, somente no Brasil, ingressaram mais de 5 milhões de africanos escravi zados até 1850, quando essa prática foi proibida. A partir desse ano, teve início o tráfico ilegal, que continuou até a abolição da escravatura, em 1888.
Na segunda metade do século XIX, a escravidão foi abolida em toda a América do Sul, sendo o Brasil o último país a extingui-la. Nessa época, o subcontinente passou a receber milhões de imigrantes europeus que buscavam terra e oportunidades de trabalho. Com isso, houve a substituição da mão de obra escrava nas lavouras pela de trabalhadores em sistema de parceria e gradativamen te de assalariamento e, assim, foi dada continuidade à ocupação do território. Como os africanos inicialmente foram escravizados e posteriormente não foram incorporados ao mercado de trabalho (como meeiros, assalariados, nem como proprietários de terras), ficaram marginalizados socioeconomicamente.
Uma lei de 1950, chamada Lei de Terras, estabeleceu a compra como a única forma de acesso à terra, condição que claramente os impedia de se transfor marem em proprietários. Além disso, sofreram preconceito por serem ex-escravos e foram substituídos por trabalhadores imigrantes da Europa e da Ásia. Essa situação se refletiu na sua condição de vida e de seus descendentes. Atualmente, todos os indicadores sociais – especialmente os de renda e de escolaridade – dos afrodescendentes brasileiros são inferiores aos dos brancos, embora essa desigualdade venha se reduzindo lentamente nas últimas décadas graças a políticas de ação afirmativa, como as cotas nas universidades.

Diversidade étnica e cultural

Como herança desse contexto histórico e das migrações que ocorreram ao longo do século XX, a América do Sul apresenta atualmente uma grande diversidade étnica, com diferenças acentuadas entre os países e também entre as regiões de um mesmo país.
Os descendentes dos vários povos americanos nativos, assim como os afrodescendentes, deram importantes contribuições para a formação cultural dos países latino-americanos. Muitos povos indígenas mantiveram suas línguas, religiões e costumes, sobretudo nas regiões andina e amazônica, na América Central e no México.
Muitos povos africanos conseguiram manter suas religiões, apesar das perse guições, e deram importantes contribuições linguísticas, culinárias, musicais, etc. nos diversos países do subcontinente. Isso é muito visível no Brasil, por exemplo.
Por isso, hoje em dia uma das questões mais importantes que se colocam nesse mosaico de povos e culturas que é o Brasil, a América do Sul e toda a América é o respeito e a valorização dessa diversidade, o que nem sempre acontece.

Distribuição da população

Cerca de 90% da população do subcontinente mora nas proximidades do litoral, numa faixa de cerca de 250 quilômetros em direção ao interior, a partir tanto do oceano Atlântico como do Pacífico, onde se encontram as maiores aglo merações urbanas. Portanto, nessa faixa a densidade demográfica é bem maior.
A concentração da população no litoral teve origem no modelo colonial de ocupação, voltado para a exploração de recursos agrícolas e minerais (cana-de-açúcar, algodão, cacau, café, ouro, prata e outros) para a exportação. A saída para o mar era essencial para a circulação das mercadorias.
Somente a partir da segunda metade do século XX houve a ocupação sistemática do interior da América do Sul, principalmente do Brasil, da Argentina, da Colômbia, da Venezuela e do Peru. Isso ocorreu com o avan ço da industrialização em alguns países, a abertura de rodovias e ferrovias, a expansão da área cultivada e a maior exploração de recursos energéticos e minerais.

Problemas urbanos

A elevada taxa de urbanização dos países da América do Sul foi acompa nhada pelo crescimento desordenado das cidades. Atualmente, todas as gran des cidades sul-americanas em maior ou menor grau enfrentam problemas de ordem social e ambiental.
A elevada demanda por moradia, por exemplo, não é acompanhada pela oferta. Muitas pessoas vivem em moradias precárias, muitas vezes sem acesso a saneamento básico e a serviços regulares de fornecimento de energia elétrica e internet.
Geralmente situadas na periferia das cidades, distante das áreas mais centrais e mais estruturadas ou em áreas não próprias para ocupação, chamadas zonas de risco, como encostas de morros, ou áreas próximas aos cursos de água, sujeitas a alagamentos (áreas geralmente menos valorizadas e por isso mais baratas), essas comunidades também não são atendidas de maneira satisfatória por outros serviços públicos essenciais para uma vida digna, como saúde, educação e lazer. Dessa maneira, é possível perceber a segregação socioespacial existente nas cidades.
Porém, mesmo em bairros localizados nas áreas mais centrais de grandes cidades sul-americanas, como São Paulo (Brasil), Buenos Aires (Argentina), Bogotá (Colômbia) e Caracas (Venezuela), devido ao alto custo da moradia e ao mesmo tempo do abandono de muitos prédios, têm crescido os movimentos de ocupação organizados por diversos movimentos sociais de sem-teto.
Há movimentos de sem-teto em diversos países sul-americanos e latino-americanos porque todos compartilham do mesmo problema: muitas pessoas de baixa renda vivendo nas cidades e altos custos de moradia, especialmente nas maiores.
A maioria deles é local ou nacional, mas há movimentos que têm uma organização mais abrangente, como o Techo (ou Teto em português). Esse movimento de luta por moradia digna nasceu no Chile em 1997 e a partir de 2001 começou a se expandir por outros países da América Latina. Em 2018 estava organizado em dez países sul-americanos, oito centro-americanos e no México, além de possuir dois escritórios nos Estados Unidos para buscar alian ças e financiamentos.
Além dos problemas de habitação e da segregação socioespacial, as grandes cidades apresentam um problema que atinge toda a população: a poluição do ar e das águas. A poluição do ar pode comprometer a saúde das pessoas, sobretu do nas grandes cidades, onde é muito elevada por causa da concentração de indústrias e veículos que soltam no ar grande quantidade de gases resultantes da queima do combustível. Muitos rios recebem resíduos domésticos e industriais sem tratamento, o que prejudica a qualidade da água e do abastecimento. Na maioria das cidades o sistema de transporte também é insuficiente para atender à demanda da população que depende do serviço público.
No Brasil, assim como em outros países da América do Sul, há a preo cupação dos governos e das socieda des em geral em reduzir os problemas urbanos. Muitos governos têm procu rado aumentar o investimento em transporte coletivo, moradias populares, saúde preventiva e segurança. Em muitos casos, têm contado com o apoio de organismos internacionais, como as agências da ONU, o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). No entanto, muitas vezes isso tem se mostrado insuficiente. Nas favelas, a população geralmente não conta com serviços públicos essenciais a uma vida digna.

Indicadores sociais

Os países sul-americanos são marcados por desigualdades sociais e, como vimos nas páginas anteriores, essa desigualdade se materializa nas paisagens, sobretudo nas das grandes cidades, onde vive a maioria das pessoas. São, portanto, desigualdades socioespaciais. Podemos identificar as desigualdades sociais também em indicadores, como o índice de desenvolvimento humano (IDH).
De forma geral, a partir da década de 1990, vários setores da economia dos países da América do Sul se modernizaram e os indicadores sociais melhoraram. Contudo, a concentração de renda ainda permanece elevada e o percentual de pessoas que vivem na pobreza ainda é alto em alguns deles.
A contínua melhora dos indicadores sociais depende de crescimento eco nômico, de uma distribuição de renda mais equilibrada e de investimentos sociais adequados. No século XXI, de forma geral os países sul-americanos têm apresentado crescimento econômico. Além disso, gradativamente os governos têm aumentado os investimentos em setores importantes como educação, saúde e proteção social. Isso tem contribuído para reduzir a pobreza e melhorar as condições de vida de parte da população.
Porém, é fundamental que o crescimento econômico seja ecologicamente sustentável, ou seja, que o meio ambiente seja protegido, garantindo boas condições de vida para a população. Como se observa no gráfico, os países latino-americanos ainda investem pouco em proteção do meio ambiente.


América do Sul: economia

Os países sul-americanos têm uma economia muito variada, apesar da herança colonial, da história comum de desigualdades sociais e da influên...