sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Região Sul - Ocupação Territorial

Colonização da região Sul 

Durante todo o século XVI, Portugal demonstrou pouco interesse pelas terras que hoje correspondem à Região Sul. Várias expedições de outros países visitaram-na em busca, principalmente, de pau-brasil, sem, contudo, estabelecer núcleos permanentes de povoamento.
No início da colonização portuguesa no Brasil, as terras que hoje pertencem aos estados da região Sul não foram prontamente ocupadas, como aconteceu no Nordeste, por exemplo. Como a região não dispunha de minérios conside rados valiosos por Portugal, como ouro e prata, e suas condições climáticas eram inadequadas ao cultivo de produtos tropicais, ela não oferecia possibilidades de exploração comercial, mineral ou agrícola que dessem lucros à metrópole. Assim, inicialmente nessas terras foram implantadas apenas algumas missões jesuíticas, isto é, aldeamentos criados e administrados por padres jesuítas para catequizar os indígenas. 
Já a partir de meados do século XVII, os bandeirantes passaram a adentrar as terras da atual região Sul para capturar indígenas e vendê-los como escravos. 

As reduções jesuíticas e o bandeirismo

O povoamento europeu do Sul iniciou-se no século XVII, em virtude de iniciativas como a implantação de reduções jesuíticas por padres espanhóis, nas terras que hoje pertencem ao Rio Grande do Sul e ao Paraná, onde catequizavam os indígenas e praticavam a agricultura e a pecuária bovina.
As reduções, também chamadas missões, foram sistematicamente invadidas por bandeirantes paulistas, que se dedicavam ao apresamento de indígenas com o objetivo de escravizá-los. Apesar disso, contribuí ram para a formação de cidades localizadas no atual estado do Rio Grande do Sul, como Santo Ângelo, São Borja, São Luiz Gonzaga, São Nicolau e São Miguel das Missões.
As bandeiras que partiram de São Vicente (SP) e da Vila de São Paulo, em busca de ouro e do apresamento de indígenas, encontraram o metal pre cioso onde hoje ficam as cidades de Paranaguá, no litoral, e de Curitiba, ambas no Paraná.
No entanto, por falta de conhecimentos técnicos, essa exploração foi de curta duração, levando a população dessas localidades a se dedi car à agricultura e à criação de gado bovino, com o objetivo de abastecer a região das Minas Gerais. Quanto às terras que hoje pertencem a Santa Catarina, continuaram pouco povoadas por portugueses e luso-brasileiros na primeira metade do século XVII. 
A primeira povoação estável foi fundada no litoral em 1658, com o nome de Nossa Senhora da Graça do Rio São Francisco, atual São Francisco do Sul. Em seguida, em 1675, a Ilha de Santa Catarina foi povoada com a fundação da Vila de Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis. E, em 1676, foi fundada Laguna.
No século XVIII, a Coroa portuguesa começou a doar terras para atrair imigrantes europeus que se dispusessem a povoar aquela área, uma vez que o povoamento era a melhor forma de garantir o domínio do terri tório e evitar invasões estrangeiras. Naquela época, vigorava o princípio cha mado uti possidetis (expressão em latim que significa “propriedade por posse”), que garantia a posse das terras a quem as ocupasse e promovesse sua colonização. 
As terras doadas concentravam-se principalmente nos vales e nas áreas montanhosas dos atuais estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. 
No mesmo século, o desenvolvimento da mineração em Minas Gerais incentivou a formação de fazendas de gado nos Pampas, também conhecidos como Campanha Gaúcha, para fornecer charque ao crescente mercado das cidades que surgiam em torno das minas de ouro e de pedras preciosas. Houve, então, o ingresso de pessoas escravizadas, que foram trazidas à força do continente africano para trabalhar nos Pampas.
O processo de colonização da região Sul foi marcado pela imigração de pessoas de várias origens. No século XVII houve ingresso de portugueses na região, que fundaram Nossa Senhora do Desterro (atual Florianópolis), em 1673, e Colônia do Santíssimo Sacramento (hoje Colônia de Sacramento, no Uruguai), em 1680. Já em 1772, fundaram São Francisco do Porto dos Casais (atual Porto Alegre). 
Muitos deles, bem como seus descendentes, possuíam grandes fazendas de criação de gado nas áreas planas da Campanha Gaúcha, onde eram frequentes os conflitos com colonizadores espanhóis que imigraram para o atual território do Uruguai e da Argentina.

Açorianos 

O maior povoamento da Região Sul teve início com a chegada de ilhéus açorianos. Em 1742, casais vindos dos Açores fundaram a Vila do Porto dos Casais, hoje Porto Alegre, e se fixaram no vale de vários rios, como o Gravataí, o Sinos e o Jacuí, onde deram origem a diversas cidades. Em Santa Catarina, entre 1748 e 1756, desembarcaram cerca de 5 mil açorianos, iniciando o povoamento de trechos do litoral e da Vila de Nossa Senhora do Desterro, que deu origem à cidade de Florianópolis.

A articulação do Sul com as Minas Gerais 

No final do século XVII e início do século XVIII, a necessidade de couro e de carne para a região mineradora das Minas Gerais incentivou o des locamento de paulistas para os campos do Sul em busca de gado. Ini cialmente, o objetivo foi aproveitar o rebanho bravio, disperso na área, resultante da destruição das missões. Posteriormente, em decorrência do crescimento populacional da região da mineração, o fornecimento de gado por meio da caça tornou-se insuficiente. Iniciou-se, então, a for mação de estâncias na vegetação nativa dos Campos. 
Isso ocorreu inicialmente no litoral, em Rio Grande e Pelotas, e depois avançou para o interior, pela região de Bagé, o que estimulou a instalação de charqueadas nessa região. A mão de obra para a expansão da criação de gado no Rio Grande do Sul contou com a participação de africanos escravizados e açorianos. 
Com indígenas e espanhóis, esses grupos deram origem à cultura gaúcha. Deve-se em grande parte a eles a manutenção das fronteiras do Brasil com o Uruguai e a Argentina.

As tropas e a produção 

Para escoar o charque e o couro para os mercados compradores, entre eles a região das Minas, os tropeiros deslocavam-se por gran des distâncias, do sul para o norte, transpor tando suas mercadorias em lombos de mulas e burros. Ao longo do trajeto, paravam para des cansar, pernoitar e tratar dos animais. 
Alguns pousos dos tropeiros e caminhos de gado deram origem a cidades como: Osório, São Gabriel, Vacaria e Viamão, no Rio Grande do Sul; São Joaquim, Mafra, Porto União, em Santa Catarina; Castro e Lapa, no Paraná (localize essas cidades no mapa da página seguinte). 
O relevo mais plano das depressões facilitou os deslocamentos sul-norte dos tropeiros, que chegavam a durar três meses.

A imigração e a produção de espaços no Sul 

O século XIX marca um novo período da ocupação das terras e de pro dução de espaços na Região Sul. Além da maior ocupação do litoral, o povoamento do interior intensificou-se com a imigração europeia, o que acentuou a apropriação das terras indígenas. Após a vinda do príncipe D. João para o Brasil, em 1808, a Coroa por tuguesa tomou várias providências para povoar mais o sul da colônia. Para atrair imigrantes, D. João assinou um decreto permitindo que estrangeiros se tornassem proprietários de terras no Brasil, custeou as despesas de transporte para os imigrantes, disponibilizou empréstimos para a compra de instrumentos agrícolas e de animais de transporte, além de oferecer outras facilidades. 
Como o clima da porção sul do Brasil não era adequado para a produção de gêneros tropicais, como a cana-de-açúcar, estabeleceu-se na região uma agricultura em pequenos lotes de terra. Isso deu origem, na região, à pequena propriedade rural, diferentemente do ocorrido com a cultura da cana-de-açúcar no Nordeste, com a cafeicultura no Sudeste e com a pecuária nos campos do Rio Grande do Sul, que se estabeleceram em grandes propriedades, os latifúndios.

Portugueses açorianos

Aproveitando as vantagens ofereci das em 1808, a corrente de colonos por tugueses, vindos principalmente das Ilhas dos Açores, intensificou-se. Deu-se preferência aos imigrantes que formas sem grupos familiares, o que constituiu exceção na história da ocupação da co lônia até aquele momento. 
As 1500 fa mílias de açorianos que imigraram para o Brasil nesse período fixaram-se no li toral do Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, dedicando-se principalmente à pesca e à agricultura de subsistência.

Alemães

As primeiras levas de imigrantes ale mães foram para o Rio Grande do Sul e se instalaram na região do vale do rio dos Sinos, onde formaram a colônia de São Leopoldo, em 1824. Com o tempo foram se constituindo pequenos núcleos urbanos, que posteriormente deram origem a vilas e cidades, entre elas, Novo Hamburgo, nas proximidades de Porto Alegre. No norte de Santa Catarina (no vale do rio Itajaí), eles foram responsáveis pela fundação de Blumenau, em 1850, e de Joinville, em 1851, entre outras cidades. 
Os imigrantes alemães deram importante contribuição à ocupação do sul do Brasil: em 1824, D. Pedro I iniciou a imigração alemã para o Rio Grande do Sul, em São Leopoldo, nas mesmas bases da imigração açoriana; em 1827, 600 imigrantes alemães fixaram-se em Rio Negro, no Paraná; em 1850, famílias alemãs fundaram Blumenau, em Santa Cata rina, hoje importante centro industrial e comercial; em 1851, foi fundada a colônia de Dona Francisca, em Santa Catarina, que deu origem à cidade de Joinville, hoje também importante centro comercial e industrial.
Além desses núcleos urbanos, os alemães fundaram muitos outros no sul do Brasil. Muitos deles tornaram-se importantes cidades, como é o caso de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul.

Italianos, poloneses e ucranianos 

A partir da segunda metade do século XIX, os italianos começaram a se instalar no vale do rio Tubarão (no sul do estado de Santa Catarina) e na serra Gaúcha. Eles fundaram cidades como Criciúma, Caxias do Sul, Garibaldi e Bento Gonçalves.
No Rio Grande do Sul, os imigrantes italianos dedicaram-se principalmente à cultura da uva (vinicultura) e à sua industrialização. Muitos de seus núcleos iniciais transformaram-se em cidades importantes, como Bento Gonçalves, Garibaldi e Caxias do Sul.
Em Santa Catarina, os italianos dedicaram-se a uma agricultura variada e também fundaram importantes cidades, como Nova Trento, Urus sanga e Nova Veneza. 
A partir de 1869, o estado do Paraná recebeu muitos imigrantes eslavos, como poloneses e ucranianos, que se fixaram em Curitiba e nas proximidades de Ponta Grossa, Castro, Lapa e Ivaí, no Paraná. Todos esses imigrantes dedicaram-se à agricultura e à pecuária. 
Com o tempo, houve diversificação da atividade econômica. O artesanato doméstico, por exemplo, deu origem a indústrias de grande porte voltadas, por exemplo, para a tecelagem, a confecção de roupas e a pro dução de cristais, motores elétricos, tintas etc. 

Japoneses 

A última grande corrente imigratória estrangeira para a região Sul, já no século XX, foi a dos japoneses, que se dedicaram, principalmente, à cafeicultura no Sudeste. 
Posteriormente, com a expansão do café para o norte do Paraná, por volta de 1930, imigrantes japoneses deslocaram-se para a região, fixando-se nos municípios de Londrina e Maringá. Também no norte do Paraná fundaram as cidades de Uraí e Assaí.

A organização das colônias 

Foi muito difícil para os imigrantes abandonar seu país de origem e iniciar o povoamento de um novo lugar, onde a natureza era praticamente intacta e tendo de produzir absolutamente tudo para sobreviver. Havia, ainda, o isola mento imposto principalmente pela falta de meios de comunicação. 
Para vencer esses obstáculos, os imigrantes que povoaram a região Sul organizavam grupos em seus países de origem e, ao chegarem ao Brasil, as sentavam-se em colônias. 
Os imigrantes fixavam-se em pequenas e médias propriedades, utilizando mão de obra familiar e praticando a policultura. Com algumas exceções, qua se não se utilizou trabalho escravo na região Sul: em grande parte, os indígenas foram aprisionados por bandeirantes, expulsos ou assassinados pelos novos ocupantes, e os africanos foram levados em menor número para lá, já que os imigrantes não dispunham de dinheiro para comprar escravos. Nas colônias havia uma divisão do trabalho. 
Por exemplo: uma família pro duzia trigo e arroz, outra criava alguns animais, outra produzia legumes, e assim por diante. A produção era vendida (ou trocada) e consumida na própria colô nia. Já no extremo sul da região, na Campanha Gaúcha, a produção de carne, couro e animais de carga (muares) abastecia principalmente o Sudeste, primei ro a região das minas e, posteriormente, do café. 
No século XIX, era famosa a feira de muares de Sorocaba, no estado de São Paulo, que comercializava animais criados no Sul.
Ao longo de todo o século XIX, principalmente na sua segunda metade, a entrada de imigrantes foi um fator importante no crescimento demográfico da região Sul, que, recebeu sobretudo imigrantes europeus.
Também no século XX o deslocamento de pessoas influenciou fortemente a dinâmica populacional na região, provocando primeiro a elevação e depois a redução das taxas de crescimento populacional. Naquela época, porém, os impactos foram causados pela migração interna.
No período de 1950 a 1960, a região Sul (assim como a Centro-Oeste) apresentou taxas de cres cimento elevadas, se comparadas às das demais regiões.
A abertura de novos espaços produtivos para a ati vidade agrícola atraiu expressivos fluxos migratórios, principalmente para o Paraná, aumentando de forma acentuada a sua população. 
Em 1950, metade de sua população era composta de brasileiros provenientes de outros estados, a maioriade São Paulo e Minas Gerais, e de estrangeiros, principalmente japoneses.

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