Colonização da região Sul
Durante todo o século XVI, Portugal demonstrou pouco interesse pelas terras que hoje correspondem à Região Sul. Várias expedições de outros países visitaram-na em busca, principalmente, de pau-brasil, sem, contudo, estabelecer núcleos permanentes de povoamento.
No início da colonização portuguesa no Brasil, as terras que hoje pertencem
aos estados da região Sul não foram prontamente ocupadas, como aconteceu
no Nordeste, por exemplo. Como a região não dispunha de minérios conside
rados valiosos por Portugal, como ouro e prata, e suas condições climáticas eram
inadequadas ao cultivo de produtos tropicais, ela não oferecia possibilidades de
exploração comercial, mineral ou agrícola que dessem lucros à metrópole.
Assim, inicialmente nessas terras foram implantadas apenas algumas missões
jesuíticas, isto é, aldeamentos criados e administrados por padres jesuítas para
catequizar os indígenas.
Já a partir de meados do século XVII, os bandeirantes
passaram a adentrar as terras da atual região Sul para capturar indígenas e
vendê-los como escravos.
As reduções jesuíticas e o bandeirismo
O povoamento europeu do Sul iniciou-se no século XVII, em virtude de iniciativas como a implantação de reduções jesuíticas por padres espanhóis, nas terras que hoje pertencem ao Rio Grande do Sul e ao Paraná, onde catequizavam os indígenas e praticavam a agricultura e a pecuária bovina.
As reduções, também chamadas missões, foram sistematicamente invadidas por bandeirantes paulistas, que se dedicavam ao apresamento de indígenas com o objetivo de escravizá-los. Apesar disso, contribuí ram para a formação de cidades localizadas no atual estado do Rio Grande do Sul, como Santo Ângelo, São Borja, São Luiz Gonzaga, São Nicolau e São Miguel das Missões.
As bandeiras que partiram de São Vicente (SP) e da Vila de São Paulo, em busca de ouro e do apresamento de indígenas, encontraram o metal pre cioso onde hoje ficam as cidades de Paranaguá, no litoral, e de Curitiba, ambas no Paraná.
No entanto, por falta de conhecimentos técnicos, essa exploração foi de curta duração, levando a população dessas localidades a se dedi car à agricultura e à criação de gado bovino, com o objetivo de abastecer a região das Minas Gerais. Quanto às terras que hoje pertencem a Santa Catarina, continuaram pouco povoadas por portugueses e luso-brasileiros na primeira metade do século XVII.
A primeira povoação estável foi fundada no litoral em 1658, com o nome de Nossa Senhora da Graça do Rio São Francisco, atual São Francisco do Sul. Em seguida, em 1675, a Ilha de Santa Catarina foi povoada com a fundação da Vila de Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis. E, em 1676, foi fundada Laguna.
No século XVIII, a Coroa portuguesa começou a doar
terras para atrair imigrantes europeus que se dispusessem a povoar aquela área,
uma vez que o povoamento era a melhor forma de garantir o domínio do terri
tório e evitar invasões estrangeiras. Naquela época, vigorava o princípio cha
mado uti possidetis (expressão em latim que significa “propriedade por posse”),
que garantia a posse das terras a quem as ocupasse e promovesse sua colonização.
As terras doadas concentravam-se principalmente nos vales e nas áreas
montanhosas dos atuais estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.
No mesmo século, o desenvolvimento da mineração em Minas Gerais incentivou a formação de fazendas de gado nos Pampas, também conhecidos como
Campanha Gaúcha, para fornecer charque ao crescente mercado das cidades
que surgiam em torno das minas de ouro e de pedras preciosas. Houve, então,
o ingresso de pessoas escravizadas, que foram trazidas à força do continente
africano para trabalhar nos Pampas.
O processo de colonização da região Sul foi marcado pela imigração de pessoas de várias origens. No século XVII houve ingresso de portugueses na região, que
fundaram Nossa Senhora do Desterro
(atual Florianópolis), em 1673, e Colônia
do Santíssimo Sacramento (hoje Colônia
de Sacramento, no Uruguai), em 1680. Já
em 1772, fundaram São Francisco do Porto dos Casais (atual Porto Alegre).
Muitos
deles, bem como seus descendentes,
possuíam grandes fazendas de criação de
gado nas áreas planas da Campanha Gaúcha, onde eram frequentes os conflitos
com colonizadores espanhóis que imigraram para o atual território do Uruguai e
da Argentina.
Açorianos
O maior povoamento da Região Sul teve início com a chegada de
ilhéus açorianos. Em 1742, casais vindos dos Açores fundaram a Vila do
Porto dos Casais, hoje Porto Alegre, e se fixaram no vale de vários rios,
como o Gravataí, o Sinos e o Jacuí, onde deram origem a diversas cidades.
Em Santa Catarina, entre 1748 e 1756, desembarcaram cerca de 5 mil
açorianos, iniciando o povoamento de trechos do litoral e da Vila de
Nossa Senhora do Desterro, que deu origem à cidade de Florianópolis.
A articulação do Sul com as Minas Gerais
No final do século XVII e início do século XVIII, a necessidade de couro
e de carne para a região mineradora das Minas Gerais incentivou o des
locamento de paulistas para os campos do Sul em busca de gado. Ini
cialmente, o objetivo foi aproveitar o rebanho bravio, disperso na área,
resultante da destruição das missões. Posteriormente, em decorrência
do crescimento populacional da região da mineração, o fornecimento
de gado por meio da caça tornou-se insuficiente. Iniciou-se, então, a for
mação de estâncias na vegetação nativa dos Campos.
Isso ocorreu inicialmente no litoral, em Rio Grande e Pelotas, e depois
avançou para o interior, pela região de Bagé, o que estimulou a instalação
de charqueadas nessa região. A mão de obra para a expansão da criação de gado no Rio Grande
do Sul contou com a participação de africanos escravizados e açorianos.
Com indígenas e espanhóis, esses grupos deram origem à cultura gaúcha. Deve-se em grande parte a eles a manutenção das fronteiras do
Brasil com o Uruguai e a Argentina.
As tropas e a produção
Para escoar o charque e o couro para os
mercados compradores, entre eles a região das
Minas, os tropeiros deslocavam-se por gran
des distâncias, do sul para o norte, transpor
tando suas mercadorias em lombos de mulas e
burros. Ao longo do trajeto, paravam para des
cansar, pernoitar e tratar dos animais.
Alguns pousos dos tropeiros e caminhos
de gado deram origem a cidades como: Osório,
São Gabriel, Vacaria e Viamão, no Rio Grande
do Sul; São Joaquim, Mafra, Porto União,
em Santa Catarina; Castro e Lapa, no Paraná
(localize essas cidades no mapa da página
seguinte).
O relevo mais plano das depressões facilitou
os deslocamentos sul-norte dos tropeiros, que
chegavam a durar três meses.
A imigração e a produção de espaços no Sul
O século XIX marca um novo período da ocupação das terras e de pro
dução de espaços na Região Sul. Além da maior ocupação do litoral, o
povoamento do interior intensificou-se com a imigração europeia, o que
acentuou a apropriação das terras indígenas.
Após a vinda do príncipe D. João para o Brasil, em 1808, a Coroa por
tuguesa tomou várias providências para povoar mais o sul da colônia.
Para atrair imigrantes, D. João assinou um decreto permitindo que
estrangeiros se tornassem proprietários de terras no Brasil, custeou as
despesas de transporte para os imigrantes, disponibilizou empréstimos
para a compra de instrumentos agrícolas e de animais de transporte,
além de oferecer outras facilidades.
Como o clima da porção sul do Brasil não era adequado para a produção de gêneros tropicais, como a cana-de-açúcar, estabeleceu-se na
região uma agricultura em pequenos lotes de terra. Isso deu origem,
na região, à pequena propriedade rural, diferentemente do ocorrido
com a cultura da cana-de-açúcar no Nordeste, com a cafeicultura no
Sudeste e com a pecuária nos campos do Rio Grande do Sul, que se
estabeleceram em grandes propriedades, os latifúndios.
Portugueses açorianos
Aproveitando as vantagens ofereci
das em 1808, a corrente de colonos por
tugueses, vindos principalmente das
Ilhas dos Açores, intensificou-se. Deu-se
preferência aos imigrantes que formas
sem grupos familiares, o que constituiu
exceção na história da ocupação da co
lônia até aquele momento.
As 1500 fa
mílias de açorianos que imigraram para
o Brasil nesse período fixaram-se no li
toral do Rio Grande do Sul e em Santa
Catarina, dedicando-se principalmente
à pesca e à agricultura de subsistência.
Alemães
As primeiras levas de imigrantes ale
mães foram para o Rio Grande do Sul e
se instalaram na região do vale do rio dos
Sinos, onde formaram a colônia de São
Leopoldo, em 1824. Com o tempo foram
se constituindo pequenos núcleos urbanos, que posteriormente deram origem
a vilas e cidades, entre elas, Novo Hamburgo, nas proximidades de Porto Alegre. No norte de Santa Catarina (no vale do rio Itajaí), eles foram responsáveis pela
fundação de Blumenau, em 1850, e de Joinville, em 1851, entre outras cidades.
Os imigrantes alemães deram importante contribuição à ocupação
do sul do Brasil: em 1824, D. Pedro I iniciou a imigração alemã para o Rio
Grande do Sul, em São Leopoldo, nas mesmas bases da imigração açoriana; em 1827, 600 imigrantes alemães fixaram-se em Rio Negro, no
Paraná; em 1850, famílias alemãs fundaram Blumenau, em Santa Cata
rina, hoje importante centro industrial e comercial; em 1851, foi fundada a colônia de Dona Francisca, em Santa Catarina, que deu origem
à cidade de Joinville, hoje também importante centro comercial e industrial.
Além desses núcleos urbanos, os alemães fundaram muitos outros
no sul do Brasil. Muitos deles tornaram-se importantes cidades, como
é o caso de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul.
Italianos, poloneses e ucranianos
A partir da segunda metade do século XIX, os italianos começaram a se instalar no vale do rio Tubarão (no sul do estado de Santa Catarina) e na
serra Gaúcha. Eles fundaram cidades como Criciúma,
Caxias do Sul, Garibaldi e Bento Gonçalves.
No Rio Grande do Sul, os imigrantes italianos dedicaram-se principalmente à cultura da uva (vinicultura) e à sua industrialização. Muitos
de seus núcleos iniciais transformaram-se em cidades importantes,
como Bento Gonçalves, Garibaldi e Caxias do Sul.
Em Santa Catarina, os italianos dedicaram-se a uma agricultura variada
e também fundaram importantes cidades, como Nova Trento, Urus
sanga e Nova Veneza.
A partir de 1869, o estado do Paraná recebeu muitos imigrantes eslavos, como poloneses e ucranianos, que se fixaram em Curitiba e nas proximidades de Ponta Grossa,
Castro, Lapa e Ivaí, no Paraná.
Todos esses imigrantes dedicaram-se à agricultura e à pecuária.
Com
o tempo, houve diversificação da atividade econômica. O artesanato
doméstico, por exemplo, deu origem a indústrias de grande porte
voltadas, por exemplo, para a tecelagem, a confecção de roupas e a pro
dução de cristais, motores elétricos, tintas etc.
Japoneses
A última grande corrente imigratória estrangeira para a região Sul, já no século XX, foi a dos japoneses, que se dedicaram, principalmente, à cafeicultura no Sudeste.
Posteriormente, com a expansão do café
para o norte do Paraná, por volta de 1930,
imigrantes japoneses deslocaram-se para a
região, fixando-se nos municípios de Londrina e Maringá. Também no norte do Paraná
fundaram as cidades de Uraí e Assaí.
A organização das colônias
Foi muito difícil para os imigrantes abandonar seu país de origem e iniciar
o povoamento de um novo lugar, onde a natureza era praticamente intacta e
tendo de produzir absolutamente tudo para sobreviver. Havia, ainda, o isola
mento imposto principalmente pela falta de meios de comunicação.
Para vencer esses obstáculos, os imigrantes que povoaram a região Sul
organizavam grupos em seus países de origem e, ao chegarem ao Brasil, as
sentavam-se em colônias.
Os imigrantes fixavam-se em pequenas e médias propriedades, utilizando
mão de obra familiar e praticando a policultura. Com algumas exceções, qua
se não se utilizou trabalho escravo na região Sul: em grande parte, os indígenas
foram aprisionados por bandeirantes, expulsos ou assassinados pelos novos
ocupantes, e os africanos foram levados em menor número para lá, já que os
imigrantes não dispunham de dinheiro para comprar escravos.
Nas colônias havia uma divisão do trabalho.
Por exemplo: uma família pro
duzia trigo e arroz, outra criava alguns animais, outra produzia legumes, e assim
por diante. A produção era vendida (ou trocada) e consumida na própria colô
nia. Já no extremo sul da região, na Campanha Gaúcha, a produção de carne,
couro e animais de carga (muares) abastecia principalmente o Sudeste, primei
ro a região das minas e, posteriormente, do café.
No século XIX, era famosa a
feira de muares de Sorocaba, no estado de São Paulo, que comercializava
animais criados no Sul.
Ao longo de todo o século XIX, principalmente na sua segunda metade, a
entrada de imigrantes foi um fator importante no crescimento demográfico da
região Sul, que, recebeu sobretudo imigrantes europeus.
Também no século XX o deslocamento de pessoas influenciou fortemente a dinâmica populacional na região, provocando primeiro a elevação e
depois a redução das taxas de crescimento populacional. Naquela época, porém, os impactos foram
causados pela migração interna.
No período de 1950 a 1960, a região Sul (assim
como a Centro-Oeste) apresentou taxas de cres
cimento elevadas, se comparadas às das demais
regiões.
A
abertura de novos espaços produtivos para a ati
vidade agrícola atraiu expressivos fluxos migratórios, principalmente para o Paraná, aumentando
de forma acentuada a sua população.
Em 1950,
metade de sua população era composta de brasileiros provenientes de outros estados, a maioriade São Paulo e Minas Gerais, e de estrangeiros, principalmente japoneses.
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