Os primeiros exploradores
As primeiras incursões de portugueses e luso-brasileiros no es paço do atual Centro-Oeste ocorreram nos séculos XVI, XVII e XVIII e resultaram em aldeamentos indígenas realizados por missões religiosas e pelo bandeirismo, que visava descobrir ouro e pedras preciosas ou, ainda, aprisionar indígenas para vendê-los como escravos no Nordeste açucareiro.
Até o início do século XVIII, a população do território onde atualmente se loca-
lizam os estados do Centro-Oeste era composta basicamente de povos indígenas.
Desde então, com a descoberta de jazidas de ouro e de pedras preciosas, a
região passou a ser ocupada por mais pessoas.
Essas riquezas foram encontradas por meio de expedições bandeirantes, ou seja,
viagens de interesse particular feitas por desbravadores que partiam da antiga Vila de
São Paulo em direção ao interior do território brasileiro, também conhecido na época
como sertões. Desde meados do século XVII, expedições foram organizadas a fim de
buscar riquezas e capturar indígenas para serem escravizados.
Nos deslocamentos pelo território, os bandeirantes faziam pousos ou paradas para o descanso e, quando encontravam ouro ou pedras preciosas, fixavam-se no lugar, dando início a um arraial.
Por onde passavam, os bandeirantes estabeleciam pouso em lugares que se transformaram mais tarde
em vilas e, posteriormente, em ci
dades, como Bom Jesus de Cuiabá,
a
atual Cuiabá, capital do Mato
Grosso, fundada em 1719.
Com a ocupação dessa região,
iniciava-se também a expansão da
pecuária, atividade que ganhou des
taque econômico com o declínio da
mineração, no final do século XVIII.
Quando o ouro se esgotava nos cursos de água de onde era extraído, muitos desses arraiais eram abandonados. Entretanto, no início da exploração de filões auríferos, a população tornou-se sedentária, formando povoados, que se transformaram em vilas e cidades, como Cuiabá .
Já Corumbá, em Mato Grosso do Sul, e Cáceres, no estado de Mato Grosso, ambas nas margens do Rio Paraguai, têm as suas origens relacionadas a postos ou fortificações implantados por portugueses e luso-brasileiros.
A fronteira econômica e a intensificação
do povoamento
A reduzida quantidade de grandes vias de transporte ligando os pequenos nú
cleos urbanos da Região Centro-Oeste aos estados localizados a leste do território
brasileiro, principalmente os estados de Rio de Janeiro e São Paulo, maiores cen
tros consumidores da época, contribuiu para o reduzido povoamento da região
até a década de 1940.
Mas, a partir de meados do século XX, o governo brasileiro criou uma série
de projetos de colonização, entre eles as colônias agrícolas, a fim de incentivar o
aumento da produção agropecuária da região. Para promover o povoamento dessa
área, o governo também investiu na construção de rodovias e ferrovias, possibili
tando o transporte dessa produção agropecuária para outras regiões e a chegada
ao Centro-Oeste de produtos industrializados e de pessoas.
Com isso, a partir da década de 1950, a Região Centro-Oeste passou a ser o
destino de muitos investidores que apostavam principalmente no desenvolvimento
da agropecuária naquela parte do território brasileiro. A expansão dessa nova
fronteira agrícola atraiu muitos migrantes de outros estados, principalmente da
Região Sul, que, nas décadas seguintes, partiram para o Centro-Oeste em busca
de trabalho e de melhores condições de vida.
A construção de Brasília
A expansão da fronteira econômica em direção ao interior do território brasi
leiro tornou-se mais efetiva quando teve início a construção da cidade de Brasília.
A nova cidade, inaugurada em 1960, atraiu muitas pessoas, vindas principalmente
das regiões Norte e Nordeste do Brasil, para trabalhar na construção de ruas,
casas, prédios e outros estabelecimentos da capital federal.
A transferência da capital da cidade do Rio de Janeiro para a área central do
país proporcionou maior integração entre as regiões brasileiras e atraiu grandes
investimentos financeiros para a Região Centro-Oeste.
O crescimento populacional
Diferentemente das Regiões Nordeste e Sudeste, a Região Centro-Oeste manteve-se isolada e pouco povoada durante muito tempo.
Do período colonial até meados do século XX, a região não se transformou em forte área de atração populacional. Com exceção do curto
período em que ocorreu a exploração de metais e pedras preciosas, nos
séculos XVII e XVIII, não havia atrativos econômicos que justificassem
expressivos fluxos migratórios para a região.
Além disso, a falta de ferrovias e rodovias – com exceção da E. F. Noroeste do Brasil – dificultava
a exploração dos recursos naturais, principalmente no atual estado de
Mato Grosso e de Goiás.
Como já sabemos, até meados do século XX o
povoamento da Região Centro-Oeste era escasso. A economia era frágil e havia obstáculos que dificultavam o desenvolvimento, entre eles
a escassez de energia elétrica, a falta de estradas e desconhecimento técnico quanto à melhor forma de uso dos solos do Cerrado para a agricultura.
A expansão da fronteira econômica promoveu a integração de vastas áreas do Centro-Oeste com as regiões Sudeste e Sul. Tal fato colaborou para o expressivo aumento populacional nessa região do país, até então pouco povoada.
A população do estado de Goiás, por exemplo, saltou de 1,2 milhão de habitantes, em
1950, para aproximadamente 3,8 milhões, em 1980.
Segundo dados do IBGE, em 2021 a Região Centro-Oeste tinha aproximadamen
te 17 milhões de habitantes, concentrados, em sua maioria, nas áreas urbanas,
que receberam um grande contingente de trabalhadores expulsos do campo pela
intensa concentração fundiária.
A Expedição Roncador-Xingu: os irmãos Villas Bôas
No início dos anos 1940, o governo do presidente Getúlio Vargas lan
çou o projeto “Marcha para o Oeste” com o objetivo de promover o po
voamento do Centro-Oeste.
Entre outras iniciativas governamentais, foi
organizada a Expedição Roncador-Xingu, em 1943, em Mato Grosso,
que fez um amplo trabalho de reconhecimento e mapeamento de territórios até então desconhecidos, sob o comando dos irmãos Orlando (1914-2002), Cláudio
(1916-1998) e Leonardo (1918-1961)
Villas Bôas que, no início da década de
1940, integraram as expedições
de desbravamento do interior do
Brasil organizadas pelo Governo
Federal.
Por meio da abertura de estradas e da construção de campos de pouso de emergência, calcula-se que essa expedição deu origem a cerca de 40 municípios e 4 bases aéreas.
Ao terem contato com os indígenas que habitavam aquela região,
os irmãos se sensibilizaram com a
ideia de proteger o território des
ses povos para que pudessem preservar suas tradições.
Graças ao empenho dos irmãos Villas Bôas, foi criado em 1961, pelo governo federal, o Parque Nacional do Xingu – reserva indígena no alto do
Rio Xingu, no estado de Mato Grosso, que abriga indígenas de diversas aldeias e tem como objetivo preservar os seus territórios e valores culturais.
Assim, eles elaboraram um projeto de delimitação de uma área de proteção
para os povos indígenas que ocupavam a região do rio Xingu e lutaram pelo
reconhecimento nacional de sua política em defesa desses povos. Em 1961, con
seguiram apoio do Governo Federal para que fosse criado o Parque Indígena do
Xingu (PIX), localizado ao norte do
estado do Mato Grosso. Atualmente, o parque conta com aproxima
damente 16 etnias indígenas, que se
distribuem em diversas aldeias.
A integração do Centro-Oeste
Na década de 1950, o governo brasileiro passou a priorizar a construção de
estradas para promover a integração entre as diversas áreas do território, sobre
tudo das regiões Centro-Oeste e Norte e das principais cidades na faixa leste do
país, e incentivar seu processo de interiorização e ocupação.
Desde então, o meio
de transporte rodoviário passou a ser o mais utilizado no Brasil.
A construção de importantes rodovias, como a Belém-Brasília e a Cuiabá-Santarém, ao ampliar o fluxo de migrantes originários de diferentes lugares do país para
essas regiões menos povoadas, promoveu a expansão de atividades econômicas,
especialmente a agricultura e a pecuária, e impulsionou a formação e o crescimento
de cidades.
A rodovia BR-153 é também conhecida como rodovia Belém-Brasília ou
Transbrasiliana. Com aproximadamente 3677 km de extensão, ela passa pelos
estados do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, do Paraná, de São Paulo, de
Minas Gerais, de Goiás, de Tocantins e do Pará.
Devido à sua grande extensão, ela é considerada uma das principais rodovias responsáveis pela integração do território nacional e uma das mais importantes vias de acesso à região central do Brasil.
Assim, deu-se prosseguimento à construção das chamadas rodovias
da integração nacional: Brasília-Acre, Cuiabá-Santarém, Transpantaneira (ligando Corumbá a Cuiabá), Campo Grande-Três Lagoas, Cuiabá-Vitória e outras. As rodovias abriram novas possibilidades para o desen
volvimento econômico da região.
A Estrada de Ferro Noroeste do Brasil
Em 1914, a inauguração da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil foi um
marco importante para a articulação da Região Centro-Oeste, particu-
larmente do estado de Mato Grosso, com o estado de São Paulo (em
1914, não havia o estado de Mato Grosso do Sul, que foi criado em 1977,
após o desmembramento de Mato Grosso).
Partindo da cidade de Bauru, no interior de São Paulo, a E. F. Noroeste
do Brasil – hoje denominada Ferrovia Novoeste –, após atravessar o
oeste paulista e o Rio Paraná, entra em terras de Mato Grosso do Sul e
alcança Campo Grande. De lá, segue até a fronteira da Bolívia, atingindo
a cidade de Corumbá, às margens do Rio Paraguai.
A implantação da E. F. Noroeste do Brasil, com extensão de 1622 km,
alterou profundamente as comunicações entre o Centro-Oeste e o Su
deste. Antes de essa ferrovia ser implantada, a comunicação entre Campo
Grande, Corumbá e outras localidades, como Rio de Janeiro e São Paulo,
era feita pelo Rio Paraguai.
O trajeto era muito longo: do Rio Paraguai,
seguia-se pelo Rio da Prata, entre Buenos Aires (capital da Argentina)
e Montevidéu (capital do Uruguai), para então avançar, já no Oceano
Atlântico, rumo ao Rio de Janeiro e a Santos (SP).
A ferrovia permitiu a integração dos espaços geográficos do Centro-Oeste com outras áreas e estimulou as migrações, principalmente de
paulistas, para Mato Grosso do Sul, onde fundaram fazendas e abriram
novas fronteiras agropecuárias.
As eclusas e as hidrovias
Com os modernos recursos de engenharia, é possível tornar um rio
de planalto navegável por meio da construção de eclusas, como as que
existem no Rio Paraná e em outros rios da sua bacia, como o Rio Tietê.
Para garantir o aproveitamento hidroviário dos rios dessa bacia, foram construídas eclusas junto às barragens das usinas de Barra Bonita,
Jupiá, Três Irmãos, entre outras. Atualmente, um trecho grande da Bacia
do Paraná é navegável.
Marechal Rondon e o Centro-Oeste
No final do século XIX, o militar mato-grossense Cândido Mariano
da Silva Rondon comandou algumas das expedições promovidas
pelo governo brasileiro para o reconhecimento do território e de
áreas propícias ao povoamento.
Rondon, militar de
origem indígena nascido em Mato Grosso, iniciou um importante trabalho de reconhecimento dos sertões mato-grossense e amazônico. O marechal mapeou vastas áreas do Centro-Oeste e Norte,
defendeu os povos indígenas e levantou dados sobre as
características naturais da região. Rondon também organizou a
construção da primeira linha telegráfica do Centro-Oeste, entre
Cuiabá e a região do Araguaia.
Seus trabalhos de campo – nos quais mapeou rios, divisores de águas e
características do relevo, entre outros aspectos do meio natural – foram
muito importantes para a elaboração das primeiras cartas geográficas do
estado de Mato Grosso.
Sob o comando de Rondon foi construída, em 1890, uma linha tele
gráfica entre Cuiabá e a região do Rio Araguaia, habitada pelos indígenas
do povo Bororo.
Posteriormente, essa linha foi estendida até Goiás.
Rondon, ao mesmo tempo que supervisionava o trabalho de construção de linhas telegráficas e levantava dados sobre a natureza, fazia
o trabalho de atração, pacificação e proteção dos indígenas (consulte
a foto da página seguinte). É dele o lema “morrer se preciso for, matar
nunca”, referindo-se ao seu trabalho com os indígenas.
O trabalho de Rondon e de sua equipe estendeu-se por toda a primeira metade do século XX.
As expedições por ele chefiadas entraram
várias vezes nos territórios das atuais Regiões Centro-Oeste e Norte e
contribuí ram de forma significativa para o conhecimento do território
brasileiro, facilitando a expansão da fronteira agropecuária, a explora
ção comercial da região e, por conseguinte, a construção de espaços
geográficos.
Implantação de áreas de colonização
Para estimular o desenvolvimento econômico de Goiás e Mato Grosso
por meio do aproveitamento e da exploração dos recursos naturais, o
governo federal criou, na década de 1940, duas áreas de colonização: a
Colônia de Dourados, situada cerca de 220 quilômetros ao sul de Campo
Grande, e a Colônia de Goiás, no município de Ceres, aproximadamente
150 quilômetros ao norte de Goiânia.
Diante do sucesso dessa iniciativa, foram implantadas fazendas na
queles estados por um número crescente de pessoas originárias, sobre
tudo, de São Paulo, do Rio de Janeiro e do Paraná.
A partir de 1970, no estado de Mato
Grosso foram implantados outros proje
tos de colonização pelos governos fede
ral e estadual e por empresas particulares
que assentaram milhares de famílias, pro
cedentes de diversas regiões do Brasil,
em vários municípios (consulte o mapa).
Muitos desses projetos de colonização
ocuparam terras indígenas, provocando
conflitos de territorialidade.
Nesse processo, indígenas foram
desterritorializados, expulsos para ou
tras áreas, marginalizados, acultura
dos ou, ainda, integrados às comuni
dades locais como mão de obra nas
fazendas de gado, na produção agrícola
ou nos garimpos.
Migrações e a expansão da fronteira agropecuária
Desde antes dos anos 1940, existiam fazendas de gado no oeste pau
lista. Durante a expansão da pecuária, muitos fazendeiros ultrapassaram
o Rio Paraná e entraram em Mato Grosso (à época não existia o estado
de Mato Grosso do Sul, criado em 1977 pelo desmembramento do es
tado de Mato Grosso), enquanto outros partiram em direção à porção sul
do estado de Goiás, onde implantaram fazendas de gado no Cerrado.
O maior fluxo migratório interno para o Centro-Oeste ocorreu a partir
da década de 1960. Tal fluxo não era formado apenas por paulistas, mas,
sobretudo, por gaúchos, catarinenses e paranaenses.
Apoiados em es
tudos da Embrapa – empresa pública fundada em 1972 com o objetivo
de produzir tecnologia de apoio à agropecuária brasileira – e no uso da
calagem do solo, os migrantes transformaram muitos espaços do Centro-Oeste em áreas de agricultura e pecuária modernas.
As migrações e a expansão da fronteira agropecuária transforma
ram substancialmente a economia regional. Essa expansão, apoiada na
construção de rodovias, possibilitou a fundação de cidades e dinamizou
a economia. É esse o caso do município de Sorriso, localizado na região
norte de Mato Grosso, à beira da Rodovia Cuiabá-Santarém. As primeiras
levas de migrantes aí chegaram ao final da década de 1970. Sorriso é,
individualmente, o município brasileiro líder na produção de grãos,
principalmente soja e milho.
Do mesmo modo, a criação do núcleo urbano de Sapezal está atre
lada ao contexto de abertura da fronteira agrícola mato-grossense e da
migração sulista. Em 2020, o município foi o terceiro maior produtor
agrícola nacional, com destaque para as colheitas de algodão herbáceo,
soja, milho e feijão.
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