segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Centro-Oeste: ocupação e população

Os primeiros exploradores

As primeiras incursões de portugueses e luso-brasileiros no es paço do atual Centro-Oeste ocorreram nos séculos XVI, XVII e XVIII e resultaram em aldeamentos indígenas realizados por missões religiosas e pelo bandeirismo, que visava descobrir ouro e pedras preciosas ou, ainda, aprisionar indígenas para vendê-los como escravos no Nordeste açucareiro.
Até o início do século XVIII, a população do território onde atualmente se loca- lizam os estados do Centro-Oeste era composta basicamente de povos indígenas. Desde então, com a descoberta de jazidas de ouro e de pedras preciosas, a região passou a ser ocupada por mais pessoas. 
Essas riquezas foram encontradas por meio de expedições bandeirantes, ou seja, viagens de interesse particular feitas por desbravadores que partiam da antiga Vila de São Paulo em direção ao interior do território brasileiro, também conhecido na época como sertões. Desde meados do século XVII, expedições foram organizadas a fim de buscar riquezas e capturar indígenas para serem escravizados.
Nos deslocamentos pelo território, os bandeirantes faziam pousos ou paradas para o descanso e, quando encontravam ouro ou pedras preciosas, fixavam-se no lugar, dando início a um arraial. 
Por onde passavam, os bandeirantes estabeleciam pouso em lugares que se transformaram mais tarde em vilas e, posteriormente, em ci dades, como Bom Jesus de Cuiabá, a atual Cuiabá, capital do Mato Grosso, fundada em 1719. 
Com a ocupação dessa região, iniciava-se também a expansão da pecuária, atividade que ganhou des taque econômico com o declínio da mineração, no final do século XVIII.
Quando o ouro se esgotava nos cursos de água de onde era extraído, muitos desses arraiais eram abandonados. Entretanto, no início da exploração de filões auríferos, a população tornou-se sedentária, formando povoados, que se transformaram em vilas e cidades, como Cuiabá .
Já Corumbá, em Mato Grosso do Sul, e Cáceres, no estado de Mato Grosso, ambas nas margens do Rio Paraguai, têm as suas origens relacionadas a postos ou fortificações implantados por portugueses e luso-brasileiros.

A fronteira econômica e a intensificação do povoamento

A reduzida quantidade de grandes vias de transporte ligando os pequenos nú cleos urbanos da Região Centro-Oeste aos estados localizados a leste do território brasileiro, principalmente os estados de Rio de Janeiro e São Paulo, maiores cen tros consumidores da época, contribuiu para o reduzido povoamento da região até a década de 1940. 
Mas, a partir de meados do século XX, o governo brasileiro criou uma série de projetos de colonização, entre eles as colônias agrícolas, a fim de incentivar o aumento da produção agropecuária da região. Para promover o povoamento dessa área, o governo também investiu na construção de rodovias e ferrovias, possibili tando o transporte dessa produção agropecuária para outras regiões e a chegada ao Centro-Oeste de produtos industrializados e de pessoas. 
Com isso, a partir da década de 1950, a Região Centro-Oeste passou a ser o destino de muitos investidores que apostavam principalmente no desenvolvimento da agropecuária naquela parte do território brasileiro. A expansão dessa nova fronteira agrícola atraiu muitos migrantes de outros estados, principalmente da Região Sul, que, nas décadas seguintes, partiram para o Centro-Oeste em busca de trabalho e de melhores condições de vida.

A construção de Brasília 

A expansão da fronteira econômica em direção ao interior do território brasi leiro tornou-se mais efetiva quando teve início a construção da cidade de Brasília. 
A nova cidade, inaugurada em 1960, atraiu muitas pessoas, vindas principalmente das regiões Norte e Nordeste do Brasil, para trabalhar na construção de ruas, casas, prédios e outros estabelecimentos da capital federal. 
A transferência da capital da cidade do Rio de Janeiro para a área central do país proporcionou maior integração entre as regiões brasileiras e atraiu grandes investimentos financeiros para a Região Centro-Oeste.

O crescimento populacional

Diferentemente das Regiões Nordeste e Sudeste, a Região Centro-Oeste manteve-se isolada e pouco povoada durante muito tempo.
Do período colonial até meados do século XX, a região não se transformou em forte área de atração populacional. Com exceção do curto período em que ocorreu a exploração de metais e pedras preciosas, nos séculos XVII e XVIII, não havia atrativos econômicos que justificassem expressivos fluxos migratórios para a região. 
Além disso, a falta de ferrovias e rodovias – com exceção da E. F. Noroeste do Brasil – dificultava a exploração dos recursos naturais, principalmente no atual estado de Mato Grosso e de Goiás. 
Como já sabemos, até meados do século XX o povoamento da Região Centro-Oeste era escasso. A economia era frágil e havia obstáculos que dificultavam o desenvolvimento, entre eles a escassez de energia elétrica, a falta de estradas e desconhecimento técnico quanto à melhor forma de uso dos solos do Cerrado para a agricultura. 
A expansão da fronteira econômica promoveu a integração de vastas áreas do Centro-Oeste com as regiões Sudeste e Sul. Tal fato colaborou para o expressivo aumento populacional nessa região do país, até então pouco povoada. 
A população do estado de Goiás, por exemplo, saltou de 1,2 milhão de habitantes, em 1950, para aproximadamente 3,8 milhões, em 1980. 
Segundo dados do IBGE, em 2021 a Região Centro-Oeste tinha aproximadamen te 17 milhões de habitantes, concentrados, em sua maioria, nas áreas urbanas, que receberam um grande contingente de trabalhadores expulsos do campo pela intensa concentração fundiária.

A Expedição Roncador-Xingu: os irmãos Villas Bôas

No início dos anos 1940, o governo do presidente Getúlio Vargas lan çou o projeto “Marcha para o Oeste” com o objetivo de promover o po voamento do Centro-Oeste. 
Entre outras iniciativas governamentais, foi organizada a Expedição Roncador-Xingu, em 1943, em Mato Grosso, que fez um amplo trabalho de reconhecimento e mapeamento de territórios até então desconhecidos, sob o comando dos irmãos Orlando (1914-2002), Cláudio (1916-1998) e Leonardo (1918-1961) Villas Bôas que, no início da década de 1940, integraram as expedições de desbravamento do interior do Brasil organizadas pelo Governo Federal. 
Por meio da abertura de estradas e da construção de campos de pouso de emergência, calcula-se que essa expedição deu origem a cerca de 40 municípios e 4 bases aéreas. 
Ao terem contato com os indígenas que habitavam aquela região, os irmãos se sensibilizaram com a ideia de proteger o território des ses povos para que pudessem preservar suas tradições.
Graças ao empenho dos irmãos Villas Bôas, foi criado em 1961, pelo governo federal, o Parque Nacional do Xingu – reserva indígena no alto do Rio Xingu, no estado de Mato Grosso, que abriga indígenas de diversas aldeias e tem como objetivo preservar os seus territórios e valores culturais.
Assim, eles elaboraram um projeto de delimitação de uma área de proteção para os povos indígenas que ocupavam a região do rio Xingu e lutaram pelo reconhecimento nacional de sua política em defesa desses povos. Em 1961, con seguiram apoio do Governo Federal para que fosse criado o Parque Indígena do Xingu (PIX), localizado ao norte do estado do Mato Grosso. Atualmente, o parque conta com aproxima damente 16 etnias indígenas, que se distribuem em diversas aldeias.

A integração do Centro-Oeste 

Na década de 1950, o governo brasileiro passou a priorizar a construção de estradas para promover a integração entre as diversas áreas do território, sobre tudo das regiões Centro-Oeste e Norte e das principais cidades na faixa leste do país, e incentivar seu processo de interiorização e ocupação. 
Desde então, o meio de transporte rodoviário passou a ser o mais utilizado no Brasil. A construção de importantes rodovias, como a Belém-Brasília e a Cuiabá-Santarém, ao ampliar o fluxo de migrantes originários de diferentes lugares do país para essas regiões menos povoadas, promoveu a expansão de atividades econômicas, especialmente a agricultura e a pecuária, e impulsionou a formação e o crescimento de cidades. 
A rodovia BR-153 é também conhecida como rodovia Belém-Brasília ou Transbrasiliana. Com aproximadamente 3677 km de extensão, ela passa pelos estados do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, do Paraná, de São Paulo, de Minas Gerais, de Goiás, de Tocantins e do Pará. 
Devido à sua grande extensão, ela é considerada uma das principais rodovias responsáveis pela integração do território nacional e uma das mais importantes vias de acesso à região central do Brasil.
Assim, deu-se prosseguimento à construção das chamadas rodovias da integração nacional: Brasília-Acre, Cuiabá-Santarém, Transpantaneira (ligando Corumbá a Cuiabá), Campo Grande-Três Lagoas, Cuiabá-Vitória e outras. As rodovias abriram novas possibilidades para o desen volvimento econômico da região.

A Estrada de Ferro Noroeste do Brasil

Em 1914, a inauguração da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil foi um marco importante para a articulação da Região Centro-Oeste, particu- larmente do estado de Mato Grosso, com o estado de São Paulo (em 1914, não havia o estado de Mato Grosso do Sul, que foi criado em 1977, após o desmembramento de Mato Grosso). 
Partindo da cidade de Bauru, no interior de São Paulo, a E. F. Noroeste do Brasil – hoje denominada Ferrovia Novoeste –, após atravessar o oeste paulista e o Rio Paraná, entra em terras de Mato Grosso do Sul e alcança Campo Grande. De lá, segue até a fronteira da Bolívia, atingindo a cidade de Corumbá, às margens do Rio Paraguai.
A implantação da E. F. Noroeste do Brasil, com extensão de 1622 km, alterou profundamente as comunicações entre o Centro-Oeste e o Su deste. Antes de essa ferrovia ser implantada, a comunicação entre Campo Grande, Corumbá e outras localidades, como Rio de Janeiro e São Paulo, era feita pelo Rio Paraguai. 
O trajeto era muito longo: do Rio Paraguai, seguia-se pelo Rio da Prata, entre Buenos Aires (capital da Argentina) e Montevidéu (capital do Uruguai), para então avançar, já no Oceano Atlântico, rumo ao Rio de Janeiro e a Santos (SP). 
A ferrovia permitiu a integração dos espaços geográficos do Centro-Oeste com outras áreas e estimulou as migrações, principalmente de paulistas, para Mato Grosso do Sul, onde fundaram fazendas e abriram novas fronteiras agropecuárias.

As eclusas e as hidrovias 

Com os modernos recursos de engenharia, é possível tornar um rio de planalto navegável por meio da construção de eclusas, como as que existem no Rio Paraná e em outros rios da sua bacia, como o Rio Tietê. 
Para garantir o aproveitamento hidroviário dos rios dessa bacia, foram construídas eclusas junto às barragens das usinas de Barra Bonita, Jupiá, Três Irmãos, entre outras. Atualmente, um trecho grande da Bacia do Paraná é navegável. 

Marechal Rondon e o Centro-Oeste 

No final do século XIX, o militar mato-grossense Cândido Mariano da Silva Rondon comandou algumas das expedições promovidas pelo governo brasileiro para o reconhecimento do território e de áreas propícias ao povoamento.
Rondon, militar de origem indígena nascido em Mato Grosso, iniciou um importante trabalho de reconhecimento dos sertões mato-grossense e amazônico. O marechal mapeou vastas áreas do Centro-Oeste e Norte, defendeu os povos indígenas e levantou dados sobre as características naturais da região. Rondon também organizou a construção da primeira linha telegráfica do Centro-Oeste, entre Cuiabá e a região do Araguaia.
Seus trabalhos de campo – nos quais mapeou rios, divisores de águas e características do relevo, entre outros aspectos do meio natural – foram muito importantes para a elaboração das primeiras cartas geográficas do estado de Mato Grosso.
Sob o comando de Rondon foi construída, em 1890, uma linha tele gráfica entre Cuiabá e a região do Rio Araguaia, habitada pelos indígenas do povo Bororo. 
Posteriormente, essa linha foi estendida até Goiás. Rondon, ao mesmo tempo que supervisionava o trabalho de construção de linhas telegráficas e levantava dados sobre a natureza, fazia o trabalho de atração, pacificação e proteção dos indígenas (consulte a foto da página seguinte). É dele o lema “morrer se preciso for, matar nunca”, referindo-se ao seu trabalho com os indígenas. O trabalho de Rondon e de sua equipe estendeu-se por toda a primeira metade do século XX. 
As expedições por ele chefiadas entraram várias vezes nos territórios das atuais Regiões Centro-Oeste e Norte e contribuí ram de forma significativa para o conhecimento do território brasileiro, facilitando a expansão da fronteira agropecuária, a explora ção comercial da região e, por conseguinte, a construção de espaços geográficos.

Implantação de áreas de colonização 

Para estimular o desenvolvimento econômico de Goiás e Mato Grosso por meio do aproveitamento e da exploração dos recursos naturais, o governo federal criou, na década de 1940, duas áreas de colonização: a Colônia de Dourados, situada cerca de 220 quilômetros ao sul de Campo Grande, e a Colônia de Goiás, no município de Ceres, aproximadamente 150 quilômetros ao norte de Goiânia. 
Diante do sucesso dessa iniciativa, foram implantadas fazendas na queles estados por um número crescente de pessoas originárias, sobre tudo, de São Paulo, do Rio de Janeiro e do Paraná. 
A partir de 1970, no estado de Mato Grosso foram implantados outros proje tos de colonização pelos governos fede ral e estadual e por empresas particulares que assentaram milhares de famílias, pro cedentes de diversas regiões do Brasil, em vários municípios (consulte o mapa). Muitos desses projetos de colonização ocuparam terras indígenas, provocando conflitos de territorialidade. 
Nesse processo, indígenas foram desterritorializados, expulsos para ou tras áreas, marginalizados, acultura dos ou, ainda, integrados às comuni dades locais como mão de obra nas fazendas de gado, na produção agrícola ou nos garimpos.

Migrações e a expansão da fronteira agropecuária 

Desde antes dos anos 1940, existiam fazendas de gado no oeste pau lista. Durante a expansão da pecuária, muitos fazendeiros ultrapassaram o Rio Paraná e entraram em Mato Grosso (à época não existia o estado de Mato Grosso do Sul, criado em 1977 pelo desmembramento do es tado de Mato Grosso), enquanto outros partiram em direção à porção sul do estado de Goiás, onde implantaram fazendas de gado no Cerrado. 
O maior fluxo migratório interno para o Centro-Oeste ocorreu a partir da década de 1960. Tal fluxo não era formado apenas por paulistas, mas, sobretudo, por gaúchos, catarinenses e paranaenses. 
Apoiados em es tudos da Embrapa – empresa pública fundada em 1972 com o objetivo de produzir tecnologia de apoio à agropecuária brasileira – e no uso da calagem do solo, os migrantes transformaram muitos espaços do Centro-Oeste em áreas de agricultura e pecuária modernas.
As migrações e a expansão da fronteira agropecuária transforma ram substancialmente a economia regional. Essa expansão, apoiada na construção de rodovias, possibilitou a fundação de cidades e dinamizou a economia. É esse o caso do município de Sorriso, localizado na região norte de Mato Grosso, à beira da Rodovia Cuiabá-Santarém. As primeiras levas de migrantes aí chegaram ao final da década de 1970. Sorriso é, individualmente, o município brasileiro líder na produção de grãos, principalmente soja e milho. 
Do mesmo modo, a criação do núcleo urbano de Sapezal está atre lada ao contexto de abertura da fronteira agrícola mato-grossense e da migração sulista. Em 2020, o município foi o terceiro maior produtor agrícola nacional, com destaque para as colheitas de algodão herbáceo, soja, milho e feijão.

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