quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

REGIÃO CENTRO-OESTE

Região Centro-Oeste, formada por três estados – Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás – e o Distrito Federal, onde fica Brasília, a capital do Brasil. Essa é a segunda maior região em extensão territorial, com 1,6 milhão de km2, equivalente a 19% do território nacional. 
Entre as cinco regiões brasileiras, a Região Centro-Oeste é a única que não é banhada pelo Oceano Atlântico, pois está totalmente localizada no interior do território. É também a única a fazer limite com todas as demais regiões. Além disso, faz fronteira com dois países da América do Sul: Bolívia e Paraguai.

Centro-Oeste: povoamento, urbanização e agronegócio


O Brasil é o segundo maior produtor de soja do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Destacam-se, em nível nacional, justamente os três estados da Região Centro-Oeste: Mato Grosso, principal produtor brasileiro, Goiás e Mato Grosso do Sul, seguidos do Paraná e do Rio Grande do Sul, na Região Sul. A produção dessa commodity agrícola é um fator importante para o desenvolvimento econômico do país, ain da que cause diversos impactos ambientais.

Povoamento e produção do espaço 


Durante muito tempo, a região central do território brasileiro foi habitada por diversos povos indígenas, nativos dessas terras. A ocupação de áreas da atual Região Centro-Oeste pelos portugueses ocorreu somente cerca de 200 anos depois do começo da colonização. Por volta do início do século XVIII, ocorreu novo povoamento nas áreas auríferas da região, o que causou mudanças na organização espacial dos territórios indígenas.
Ao longo do processo de ocupação e de povoamento do Centro-Oeste, as populações indígenas foram expulsas de suas terras em razão dos novos pro cessos de produção do espaço. Ao mesmo tempo, a cobertura vegetal original foi drasticamente reduzida. 
No início do século XVIII, ocorreram as primeiras jornadas de ocupação por tuguesa em áreas que atualmente compõem a Região Centro-Oeste. Os ban deirantes paulistas desempenharam papel fundamental nesse processo, sendo considerados os principais atores na ocupação do interior da colônia.
Com a descoberta de ouro, houve grande deslocamento de portugueses e luso-brasileiros para o interior. Muitos eram motivados pela busca de riquezas, o que elevou a mineração a uma posição de destaque na economia colonial, com indígenas e, principalmente, afri canos escravizados sendo levados às regiões das minas para trabalhar no garimpo. 
A atividade de mineração absorvia o trabalho de muitas pessoas; assim, formaram-se os mais antigos núcleos de povoa mento que existem ainda hoje, como as cidades de Cuiabá (MT), Vila Bela da Santíssima Trindade (MT) e Goiás (GO), antiga Vila Boa de Goiás. 
O governo português tinha interesse em ocupar a região por causa das riquezas minerais e para evitar o avanço de espanhóis, que colonizavam as terras a oeste, seguindo o que estava estipulado no Tratado de Tordesilhas.
A demanda por alimento nas áreas de mineração impulsionou a pecuária, que se desenvolveu parale lamente à atividade mineradora. Com o esgotamento das minas e a decadência da exploração aurífera, a Região Centro-Oeste deixou de ser área de atração econômica e populacional. 
As atividades de pecuária e agricultura passaram a ser mais importantes; no entanto, economicamente tinham expressão apenas local, e a população praticamente parou de crescer.

Marcha para o Oeste 


Já no século XVIII, estabeleceram-se os primeiros povoados e as vilas na Região Centro-Oeste, principalmente em razão da atividade mineradora, impulsionada pelos bandeirantes paulistas, como foi o caso da cidade de Goiás Velho (GO). 
Até as primeiras décadas do século XX, o Centro-Oeste apresentava grandes vazios demográficos, em comparação a outras regiões brasileiras. Era con siderado uma região desintegrada e desarticulada das demais e, por muitos, de economia estagnada.
Em 1914, a construção da ferrovia Noroeste, que liga o estado de São Paulo ao oeste de Mato Grosso e se estende até Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, aproximou a Região Centro-Oeste da Região Sudeste. Essa aproximação não se limitava apenas às trocas comerciais, mas acabou estimulando a migração de paulistas para o Mato Grosso.
Mas foi somente a partir do século XX que se desenvolveu um grande processo de ocupação da região, promovido pelo go verno federal, nos anos 1940: a Marcha para o Oeste, um pro grama governamental para ocupação das regiões Centro ‑Oeste e Norte do país, por meio da criação de colônias de povoamento e do desenvolvimento da produção agrícola e pecuária. Esse programa oferecia terras na região com valores baixos e crédito bancário facilitado, para estimular a migração voluntária de trabalhadores e o desenvolvimento da agricultura familiar. 
Na década de 1940, o governo brasileiro intensificou o incentivo à migração para o Centro-Oeste, ampliando os povoados e as cidades que já existiam e incentivando a criação de gado. Essa política visava garantir a integração do território nacional e sua ocupação. Em decorrência dessa iniciativa, mais populações indígenas foram perdendo suas terras de forma violenta.
Assim, várias colônias se formaram nos estados de Mato Grosso e Goiás, ora por incentivos federais, ora estaduais e mu nicipais, e até mesmo por incentivos particulares. Intensos fluxos migratórios ocorreram na região, sobretudo de nordestinos. 
Dos anos 1950 até o início dos anos 1980, ocorreram muitas mudanças na região, refletindo a economia e a sociedade brasileiras, que passaram a se caracterizar pela industrialização e urbanização. Em áreas limítrofes com o estado de São Paulo, desenvolveu-se a atividade da pecuária melhorada, com a instalação de frigoríficos.
Nesse período, em razão da construção de Brasília, que passou a ser a capital federal em 1960, ocorreu uma grande onda migratória para a região, em espe cial de pessoas vindas do Norte e do Nordeste brasileiros. 
Um dos principais objetivos da construção da capital era ocupar áreas do interior do país. Muitos trabalhadores foram atraídos para a região, o que integrou o Centro-Oeste ao resto do território brasileiro e contribuiu para aumentar seu povoamento. 
A construção de rodovias ligando Brasília às demais regiões propiciou maior integração econômica e comercial, facilitando as migrações.

Colonização e cidades planejadas 


A partir da década de 1960, o processo de ocupação do Centro-Oeste ganhou novos contornos, em uma articulação da urbanização com a colonização agrícola. Assim, os projetos de colonização oficiais e particulares passaram a criar “cidades pla nejadas” no interior do Mato Grosso e em áreas da chamada Amazônia Legal. A formação de novas colônias agrícolas obje tivava diminuir os conflitos agrários que ocorriam em diferentes partes do país.
 Destacou-se também nesse período a participação dos sulistas no processo de ocupação da região, uma vez que muitos migrantes eram do Paraná e do Rio Grande do Sul. A ocupação reorganizou a região econômica e politicamente – um exemplo foi a criação do estado do Mato Grosso do Sul, em 1977 – e atraiu novas ondas migratórias nas décadas seguintes.

Produção agropecuária na atualidade


O processo de ocupação do Centro-Oeste consolidou a região, a partir da década de 1980, como importante área de produção de monoculturas para ex portação. Entre essas monoculturas, destacam‑se as plantações de cana‑de-açúcar, soja, milho, arroz, algodão, entre outras. 
Mais recentemente, o uso de sementes transgênicas contribuiu para ampliar as áreas de mono cultura, com o objetivo de elevar a produção de commodities e a geração de divisas para o Brasil, apesar das diversas críticas a essa prática. Já vimos que os três estados da Região Centro-Oeste se destacam na pro dução de soja; conforme dados do Censo Agropecuário (2017), Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul colheram, juntos, mais de 48 milhões de toneladas desse grão no período analisado, sendo Mato Grosso o maior produtor. 
Nos estados de Goiás e Mato Grosso do Sul destacam-se, também, a produ ção das culturas de milho, cana-de-açúcar e sorgo, enquanto no Mato Grosso a produção de algodão está em segundo lugar. Segundo o IBGE (2018), esse estado era o principal produtor brasileiro de algodão respondendo por, aproxi madamente, 66% de toda a produção nacional.
Grande parte da colheita de cana-de-açúcar é destinada à produção de etanol. Em Mato Grosso, somente em 2018, foram plantados mais de 220 mil hectares, cuja colheita foi destinada para a produção de, aproximadamente, 215 mi lhões de litros desse combustível. 
A produção agropecuária é praticada de forma extensiva e intensiva na região. Nos estados de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso destacam-se a criação de bovinos e a de gali náceos, seguidas pela criação de suínos. Em Goiás, além de galináceos e bovinos, a criação de perus também se desenvolve bem. Segundo o IBGE (2017), em termos nacionais, a Região Centro‑Oeste lidera a criação de bovinos com 34,5% da cria ção nacional (cerca de 75 milhões de cabeças); a maior parte do rebanho está concentrada em Mato Grosso. A criação de equinos também se destaca na região, com, aproximadamen te, um milhão de cabeças, distribuídas pelos três estados.

Os produtos agrícolas transgênicos


Os chamados organismos transgênicos ou organismos geneticamente modificados (OGM) são seres vivos que rece beram genes das células de outros organismos para modificar algumas de suas características naturais. 
Nas últimas décadas, os genes de várias plantas de grande valor econômico, como soja e milho, foram alterados pela introdu ção de material genético de outras espécies vegetais, ou mesmo de animais, fungos ou bactérias. A ideia é tornar essas plantas mais resistentes à falta de água ou às pragas que as atacam durante o crescimento, por exemplo. 
A criação e o uso de produtos agrícolas transgênicos têm desencadeado muitas discussões na sociedade, porque vários especialistas afirmam que ainda não foram feitos estudos suficientes e conclusivos mostrando que a introdução desses organismos na natureza e para o uso humano seja segura. 

Crescimento das cidades


Os primeiros núcleos urbanos da Região Centro-Oeste surgiram a partir do século XVIII, com o desenvolvimento das atividades de mineração de metais preciosos. Posteriormente, já em meados do século XX, com o desenvolvimento de programas governamentais e de empresas particulares, a formação de cidades intensificou-se na região. 
Naquele período, dois fatores foram fundamentais para acelerar a urbani zação: a construção de Brasília e, principalmente, o processo de modernização das atividades agropecuárias, com aplicação intensiva de tecnologias, como máquinas e equipamentos que dimi nuem o uso da mão de obra no campo. Associado a esses fatores, o crescimento das atividades industriais ligadas ao beneficiamento de produtos agrícolas, dos serviços e do comércio potencializou a urbanização do Centro-Oeste. 
Se na década de 1940 essa era a região menos urbanizada do país (21,52%), o cenário se modificou nas décadas se guintes. De acordo com o IBGE, em 2020, a taxa de urbanização chegou a aproxi madamente 90% e o Centro‑Oeste pas sou a ser a segunda região mais urbanizada do Brasil.
Nos últimos anos, o crescimento populacional médio da Região Centro-Oeste é o maior do Brasil, notadamente marcado pela presença de migrantes. Segundo o IBGE, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Contínua (Pnad) de 2018, a participação média dos migrantes na população total do Centro‑Oeste ultrapassava 34%, com destaque para Mato Grosso, que apresentava um índice de 38%.

Importantes centros regionais e nacionais 


Além de Brasília (DF), as capitais esta duais Cuiabá (MT), Goiânia (GO) e Campo Grande (MS) tornaram-se importantes centros regionais e nacionais. Há tam bém, em todos os estados, municípios que atuam como polos agroindustriais, comerciais ou centros prestadores de serviços. No Mato Grosso destacam-se, por exemplo, Rondonópolis, como polo agroindustrial, e as cidades de Sinop e Sorriso, como centros prestadores de serviços e comércio.
Em Mato Grosso do Sul, destacam-se municípios como Dourados, com a se gunda maior população do estado, com economia bastante diversificada e bom desenvolvimento nas áreas de educação e turismo; e Corumbá, que faz divisa com Bolívia e Paraguai e tem o quarto maior PIB do estado. 
Em Goiás, destacam-se os municípios de Catalão, Anápolis, Itumbiara, Rio Verde e Jataí, entre outros. Em Catalão, a agropecuária tem grande peso eco nômico, com destaque para a produção de soja, milho, arroz, trigo e café, além de atividades de extração mineral, como as minas de argila, fosfato, nióbio, ti tânio etc. Jataí se destaca por ser o maior produtor de grãos e leite do estado de Goiás e por dispor de um importante distrito agroindustrial, que comporta diferentes empresas.

Brasília e a integração nacional 


A necessidade de integração do território nacional preocupava a sociedade e os governantes do Brasil há muito tempo e já havia sido abordada na Consti tuição de 1891. Uma das medidas pensadas para promover essa integração era a mudança da capital federal do litoral para o interior. Porém, somente na década de 1950 esse projeto passou a ser concretizado, com a construção de Brasília durante o governo de Juscelino Kubitschek. As obras se iniciaram em 1957, com o estabelecimento da área do Distrito Fede ral (DF). A nova capital foi inaugurada em 1960. 
As obras de construção da capital federal estimularam um grande fluxo migratório, inicialmente marcado por trabalhadores da construção civil, que se deslocavam de diversos lugares do país, especialmente do Nordeste, para tra balhar nas obras do Plano Piloto (onde se localizam os prédios administrativos, as residências oficiais, as embaixadas, as asas Norte e Sul, entre outras edifica ções do governo federal). 
Os migrantes que se deslocaram para o Planalto Central eram chamados de candangos. Estima-se que durante os quatro anos de construção da capital federal, aproximadamente 60 mil pessoas fizeram esse movimento migratório. Posteriormente, a migração se intensificou, uma vez que, nos anos seguin tes à inauguração, diversas atividades começaram a ser desenvolvidas em Brasília e no seu entorno, impulsionadas, entre outros fatores, pela chegada de funcionários públicos e outras pessoas para trabalhar no comércio e nos servi ços urbanos. 
Isso acelerou o projeto de criação das cidades-satélite, as quais, conforme o projeto inicial, deveriam ser construídas para abrigar a maior parte dos trabalhadores. Nas últimas décadas, algumas cidades-satélite tornaram-se tão populosas quanto Brasília, como Taguatinga e Ceilândia. Além disso, a aglomeração urbana transformou o Distrito Federal em uma importante metrópole, com influên cia em praticamente todo o território nacional.
reúnem uma população de cerca de 3,3 milhões de habitantes, com grande parcela de migrantes. Segundo o IBGE (2017), a população de Brasília apresenta boa expectativa de vida ao nascer, baixa taxa de mortalidade infantil, elevado IDH e baixas taxas de analfabetismo, em comparação com outras capitais e cidades brasileiras. 
Entretanto, há diversos problemas derivados da urbanização acelerada, como aumento da favelização e dos índices de violência urbana, sistema de transporte ineficiente e insuficiente para atender à demanda da sociedade e carência de infraestrutura de serviços de saúde, saneamento etc., especialmente nas cidades-satélite, onde vive a maior parte dos trabalhadores.

A malha rodoviária consolida a integração 


A construção de Brasília e o processo de ocupação territorial do Distrito Federal causa ram grande reconfiguração na Região Centro‑Oeste, que, a partir dos anos 1960, passou a ganhar maior projeção no cenário nacional. A execução do projeto de transferência da ca pital pode ser considerada a continuidade de uma política territorial iniciada, como vimos, com a Marcha para o Oeste, nos anos 1940. 
Essa política articulou ações de povoamento com intenso deslocamento populacional e a construção de vias de transporte e comuni cação que visavam integrar áreas chamadas de “vazios demográficos” – as regiões Norte e Centro‑Oeste – com as regiões litorâneas, mais densamente ocupadas e com maior desenvolvimento econômico, com destaque para o Centro-Sul e parte do Nordeste. Após a construção de Brasília, a partir dos anos 1970, já nos governos militares, finalizou-se a construção de rodovias federais para estimu lar o povoamento do Centro-Oeste e do Norte, com destaque para as que ligam Belém (PA) a Brasília (DF); Cuiabá (MT) a Santarém (PA) e Porto Velho (RO); e Brasília (DF) a Fortaleza (CE).

Centro-Oeste: biomas ameaçados


Nos últimos anos, por causa de belezas naturais, as atividades de turismo aumentaram enormemente na Região Centro-Oeste. Nesse contexto, destaca-se o município de Bonito, no estado do Mato Grosso do Sul, que conta com vários rios, cachoeiras, cavernas e fauna e flora exuberantes, que atraem muitos visitantes para a região. A partir de então, conheceremos as características de destaque do quadro natural da Região Centro-Oeste no que se refere a seus principais biomas: Cerrado, Floresta Amazônica e Pantanal.

Cerrado


O Cerrado é o segundo maior bioma em extensão do Brasil. Ele predo mina em todo o Centro-Oeste e caracteriza-se por vegetações de gramíneas e de arbustos, os quais, em geral, não ultrapassam a altura de 20 metros. Os espécimes dessa vegetação arbustiva são mais afastados entre si e seus galhos são retorcidos, com casca grossa. As raízes das plantas são profundas, pois, nos períodos de seca, torna-se necessário captar água em maiores profundidades para hidratação. Além dessas características gerais, as formações vegetais de cerrado podem ser diferenciadas.
O solo desse bioma é considerado antigo, profundo, e contém muito alumínio, manganês e ferro. Por essa razão, é um solo ácido e com baixo índice de nutrientes, sendo necessário usar corretivos agrícolas nele, como calcário e fertilizantes, para a prática da agricultura. A biodiversidade no Cerrado é enorme. Estima-se que existam mais de 2 500 espécies de animais, entre eles mamíferos, como antas, preás, quatis e macacos, além de aves, répteis e insetos, como borboletas. 
As áreas da Região Centro-Oeste pelas quais se es tende esse bioma são banhadas por cursos de água pertencentes a quatro grandes bacias hidrográficas: as dos rios Paraná, Paraguai, Araguaia-Tocantins e São Francisco. Além disso, boa parte do Aquífero Guarani se encontra nos três estados da região. Devido a essa grande riqueza hídrica, o Cerrado recebe o apelido de “Caixa-d’água do Brasil”.
Introduzida no Brasil pelos imigrantes japoneses no início do século XX, a produção de soja tornou-se relevante somente a partir da década de 1970, com o processo de modernização agrícola do país. Grande parte da Região Centro-Oeste, principalmente as áreas de Cerrado, tornou-se preferencial para a expansão do plantio desse grão. Isso porque, ainda que os solos necessitem de correção – como foi dito, eles são “pobres em nutrientes” –, as áreas de Cerrado encontram-se preferencialmente sobre rele vos de planalto, chapadas e depressões, com terrenos muito planos e que permitem a ampla mecanização das lavouras, ou seja, o uso de máquinas e equipa mentos agrícolas, como tratores, colheitadeiras e sis temas automatizados de irrigação.
O cultivo da soja em áreas do Cerrado é tão marcante que representa, aproxi madamente, 90% de tudo o que é plantado no Centro-Oeste. Entre 2000 e 2014, por exemplo, a expansão dessa cultura foi de 87%, ou seja, a soja tomou o lugar da vegetação original do Cerrado, de outros produtos agrícolas e, também, de pastagens. Isso contribuiu para que o Brasil se transformasse em um dos principais exportadores de soja do mundo. Na safra de 2018/2019 foram exportadas, aproximadamente, 75 milhões de toneladas. Atualmente, o Brasil desponta como um dos maiores produtores de soja do mundo, disputando, ano a ano, a primeira colocação com os Estados Unidos e estando à frente de países como a Argentina, a China, a Índia e o Paraguai. 

Soja e danos socioambientais 


O avanço da soja sobre o bioma Cerrado tem resultado em diversos impac tos socioambientais. Isso porque, para tornar a área agricultável, são utilizadas técnicas altamente agressivas ao meio ambiente. A sequência de imagens a se guir mostra como geralmente ocorre o processo de ocupação de áreas nativas de Cerrado pelos agricultores e pecuaristas.
Várias ONGs que trabalham para proteger o Cerrado brasileiro apontam que, entre os impactos do desmatamento acentuado e da introdução de culturas agrícolas na região, está a diminuição da biodiversidade, pois as atividades põem em risco muitas espécies de animais, como onças, tamanduás-bandeira, emas, entre outras. 
Além disso, o aumento das queimadas resulta em maior emissão de gases de efeito estufa, e a correção do solo, acom panhada do uso intenso de agrotóxicos nas lavouras, con tamina a terra e as águas superficiais e subterrâneas. Por fim, é importante destacar que diversas comunidades tradicionais (quilombolas, indígenas, ribeirinhos etc.) são afetadas e, muitas vezes, obrigadas a se deslocar, já que suas áreas são ocupadas pela soja e outras monoculturas, como a cana-de-açúcar e o algodão.

Floresta Amazônica

 
Parte da Região Centro-Oeste é recoberta pelo bioma amazônico, especialmente o norte e o noroeste do estado do Mato Grosso. São, aproximadamente, 500 mil km2 de densa floresta, com árvores de mais de 50 metros de altura e grande diversidade ecológica. Nessa porção do território, encontram-se o Parque Nacional do Xingu e o Parque Estadual do Cristalino. 
A área ocupada por projetos de colonização e com atividades agrope cuárias e madeireiras nessa parte do Centro-Oeste ficou conhecida pelo nome de franja amazônica. Esse processo de ocupação tornou-se mais intenso nas décadas de 1960 e 1970, assim como ocorreu em outros espaços geográficos do Centro-Oeste e do Norte do Brasil. Os governos federal, estaduais e muni cipais foram os principais articuladores dessa expansão, em associação com empresas de colonização privadas.

Impactos socioambientais da franja amazônica 


Até o início do século XX houve uma ocupação “espontânea” dessa franja da floresta, realizada por pequenos agricultores que se deslocavam especial mente do Nordeste do Brasil. Como vimos, posteriormente, empresas privadas promoveram projetos de colonização estimulando a ocupação e o desenvolvi mento agropecuário em vários municípios. Assim, as ocupações do norte do Mato Grosso foram marcadas pelas seguintes características:
- elevado desmatamento e queimadas para a implantação de culturas, como as de café, com intenso uso de agrotóxicos; 
- plantio de lavouras introduzidas pelos primeiros colonos, como de arroz, feijão e milho, substituídas, em vários municípios, pela pastagem para criação de gado bovino (corte e leite); 
- desenvolvimento de exploração mineral e de madeira (extração de ma deira em toras, em grande escala e, muitas vezes, de forma irregular, em áreas indígenas); 
- expansão da fronteira da soja, com grandes desmatamentos e poluição do solo e das águas. 
Atualmente, ainda se observam nessa franja do bioma atividades de extra tivismo vegetal, pequenas lavouras familiares, práticas de pecuária extensiva e intensiva, além do avanço da agricultura comercial, com vários impactos ambientais, como os já citados. 
Observam-se, também, o avanço de algu mas doenças tropicais, como a malária, resultantes do desmatamento e da ocupação desordenada da região; grande destruição da floresta; e contamina ção de ecossistemas aquáticos causada pelo uso dos agrotóxicos e de mercúrio nos garimpos. Além dos danos ambientais, todos esses problemas atingem diretamente as populações indígenas que vivem na região.

Pantanal 


O Pantanal é um bioma que se estende, em território brasileiro, pelos es tados do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul. Nos países vizinhos, ele tam bém ocupa parte da Bolívia e do Paraguai, totalizando uma área com cerca de 250 mil km2, sendo considerado, pela Organização das Nações Unidas (ONU), Patrimônio Natural Mundial e Reserva da Biosfera. 
Nele encontramos vá rias áreas indígenas homologadas (com a demarcação administrativa ratificada por decreto presidencial) e algumas delimitadas e declaradas (já identificadas e com os limites estabelecidos e demarcados pelo Ministério da Justiça) ou em estudo (áreas em fase de levantamento para identificação e delimitação). Predomina no bioma Pantanal o clima tropical, com elevados índices pluvio métricos, especialmente no verão.
Nesse bioma, há grande ocorrência de gra míneas, arbustos e árvores de porte médio. Também há elevada biodiversidade, com muitas espécies de fauna e flora da Mata Atlântica, da Floresta Amazônica e do Cerrado. Calcula-se que existam mais de mil espécies catalogadas nessa área, entre peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos. 
Há ainda uma riqueza de plantas muito grande, e várias delas têm excelente poder medicinal. O relevo da região é extremamente plano – ela é conhecida como planície do Pantanal – e sua altitude varia de 100 a 200 metros. A quase totalidade dos rios que banham esse bioma são afluentes do Rio Paraguai que, devido à planura do relevo, são bastante afetados pelo fenômeno das cheias (meses de verão) e das vazantes (meses de inverno) que ocorre durante o ano.

Pecuária e o meio ambiente pantaneiro


Em decorrência da presença de imensos campos com pastagens e da gran de disponibilidade de água, a pecuária avançou muito na região pantaneira nas últimas décadas. Além desses recursos naturais, diversos pecuaristas, pro curando aumentar a produtividade, têm retirado a vegetação nativa e plantado pastagens para alimentação dos rebanhos. Esse processo é feito com aplicação de diversos insumos, para a correção e fertilização dos solos, que contaminam tanto os solos quanto as águas do Pantanal. Ao mesmo tempo, a expansão das áreas de pastagens aumentou o assoreamento dos rios do bioma. 
Essa prática da pecuária tem contribuído também para diminuir a exploração econômica de outra potencialidade regional: o turismo. A região do Pantanal apresenta inúmeras belezas naturais, porém a expansão da atividade pecuária reduziu as áreas naturais da região, transformando-as em grandes pastagens. 



quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

REGIÃO SUL

Sul: ocupação, economia e urbanização


Curitiba, capital do estado do Paraná, é uma importante metrópole da Região Sul. Ao lado de Florianópolis (SC) e Porto Alegre (RS), as outras duas capitais estaduais da região, a capital paranaense tem grande relevância econômica e cultural nos âmbitos regional e nacional. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a Região Sul respondeu em 2019 por 17% de todo o PIB brasileiro, perdendo apenas para o Sudeste.

Ocupação e fluxos migratórios


Originalmente, as terras que hoje formam a Região Sul eram ocupadas por povos indígenas, como os charruas, os kaingangs e os guaranis, sendo estes últimos considerados os primeiros agricultores dessa porção do continente. Parte dessas terras foi, séculos atrás, controla da pela Espanha. Com a assinatura do Tratado de Madri, em 1750, os limites fronteiriços en tre as áreas pertencentes à Coroa espanhola e à Coroa portuguesa foram, então, redefini dos. Assim, o Sul passou a ser governado pelos portugueses, que, objetivando ocupar e domi nar todo o território, estimularam a imigração para essas áreas.
Assim, em meados do século XVIII, houve a primeira política migratória no país, já que Portugal incentivou sobretudo a vinda de famí lias paulistas e de casais açorianos (portugue ses do Arquipélago dos Açores) para ocupar a zona litorânea da região. Para tanto, a Coroa cedia terras, dinheiro, moradia, ferramentas e animais para ser usados no trabalho da lavoura.
Ainda no século XVIII, a mineração em Minas Gerais ajudou no cresci mento das terras que hoje formam a Região Sul, já que algumas de suas áreas se especializaram na pecuária para abastecer as áreas mineiras pro dutoras de ouro e diamantes, que careciam de gêneros alimentícios para a subsistência da população. Assim, nas estâncias (fazendas) do Rio Grande do Sul, criava-se gado para a produção de charque, que era vendido para a população mineira, a qual crescia a cada ano. Esse produto era transpor tado por tropas de mulas que levavam a carga ao lombo. Como a distância era grande, estabeleceram-se pousos para os tropeiros ao longo do tra jeto. Muitos desses locais se transformaram, posteriormente, em cidades importantes dessa região brasileira, como Erechim (RS), Lages (SC) e Ponta Grossa (PR).

Imigração e centros urbanos sulistas


Até a segunda metade do século XIX, a ocupação da Região Sul estava basi camente limitada às áreas litorânea e de planalto próximas à costa. Essa rea lidade mudou com a chegada de grandes levas de imigrantes europeus. Eram famílias de várias nacionalidades, sobretudo alemãs, italianas, polonesas, ucra nianas e espanholas, que se instalaram principalmente em colônias, ou seja, lo calidades compostas de pequenas e médias propriedades rurais, cuja produção agrícola era baseada, sobretudo, na policultura e na criação de aves e de gado leiteiro. Algumas dessas colônias de imigrantes deram origem a importantes centros urbanos da atualidade, como as cidades de Novo Hamburgo e Caxias do Sul (RS) e Blumenau e Joinville (SC).
Mais tarde, já no início do século XX, com a expansão das plantações de café, houve uma nova “onda migratória” do interior de São Paulo em direção ao norte do Paraná. Além dos imigrantes paulistas, essa área re cebeu mineiros, nordestinos, descendentes de europeus e muitos japo neses. Com esse processo de ocupação e a riqueza econô mica gerada pela produção de café, foram fundados importan tes centros urbanos, como as cidades de Londrina e Maringá (PR). Isso tornou a ocupação da região mais homogênea, ainda que existissem áreas pouco po voadas, como o oeste de Santa Catarina e o oeste e sudoeste do Paraná. 

Deslocamentos internos e emigração


A partir de 1950, a modernização conservadora da agricultura, ou seja, o processo baseado na expansão do latifúndio, da monocultura e da mecanização do campo, provocou um grande deslocamento populacional dentro da própria Região Sul. Muitas famílias, sobretudo gaúchas, migraram em busca de ter ras mais baratas no oeste de Santa Catarina e no sudoeste e oeste do Paraná, fazendo com que a atividade madeireira e a agricultura se destacassem nessas áreas, o que provocou o desenvolvimento de núcleos urbanos, como Chapecó (SC) e Cascavel (PR).
Contudo, a abertura dessas novas áreas de ocupação não foi suficiente para a fixação da população, o que provocou ondas de emigração, ou seja, a saída de sulistas para ou tras regiões brasileiras. Assim, entre as décadas de 1960 e 1990, grande quantidade de catarinenses, gaúchos e para naenses deslocaram-se em busca de novas terras, princi palmente no interior de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Rondônia, chegando a fixarem-se também em países vizinhos, como o Paraguai e a Bolívia. Destacam-se nesse mo vimento emigratório os deslocamentos provenientes do norte do Paraná e do Rio Grande do Sul, talvez o mais expressivo de todos. Segundo o IBGE, no ano de 2010, aproximadamente 2 mi lhões de gaúchos e paranaenses viviam fora de seu estado de origem. 

Agropecuária sulista 


O processo de ocupação da Região Sul esteve ligado ao desenvolvimento de atividades agropecuárias, baseadas sobretudo na mão de obra familiar, com exceção da pecuária extensiva em grandes pro priedades rurais no Rio Grande do Sul. Contudo, durante a segunda metade do século XX, essa realidade começou a mudar com a expansão da chamada agropecuária comercial. Vamos entender como se desenvolvem na atualidade essas duas modalidades agrícolas na Região Sul.

Agricultura familiar


A produção rural desenvolvida em pequenas e médias propriedades (chácaras e sítios) e com base na mão de obra familiar, em que trabalham quase ex clusivamente apenas famílias de camponeses, é um aspecto marcante da paisa gem da Região Sul do Brasil. De acordo com dados do IBGE (2018), cerca de 600 mil famílias se encontram envolvidas com a modalidade da agricultura familiar nos três estados sulistas. Nessas propriedades rurais, prioriza-se a produção de gêneros alimentícios, como arroz, feijão, milho, mandioca, ovos e leite, e de produtos artesanais, como queijos, farinhas, doces e embutidos.
A partir da década de 1970, verificou-se um processo de modernização de boa parte das pro priedades familiares nessa região, com a introdu ção do chamado sistema integrado de produção. Esse sistema consiste na parceria entre os peque nos e médios proprietários rurais e as chamadas agroindústrias, como frigoríficos, laticínios, vi nícolas e outros tipos de indústrias alimentícias. Estas cedem insumos agrícolas, como sementes, filhotes de aves e assistência técnica (agrônomos e veterinários) aos agricultores familiares, os quais se comprometem em comercializar sua produção exclusivamente com essas empresas.

Agricultura comercial moderna 


O espaço rural da Região Sul passou por profundas transformações a partir da década de 1970. Ao lado da modernização de parte das pe quenas e médias propriedades rurais, houve também um intenso processo de concentração de terras (aumento do número de grandes propriedades rurais), de mecanização das lavouras e do cultivo de produtos voltados à exportação, as chamadas commodities. 
Dessa forma, a área de produção do trigo, do milho, do café e principalmen te da soja foi ampliada na região, resultando, nas décadas seguintes, na expulsão de muitos trabalhadores rurais, obrigados a se deslocar para os centros urbanos próximos – e outras regiões distantes, como vimos na página 157. Atualmente, a agricultura comercial moderna é praticada em grandes propriedades e com alta tecnologia (uso de sementes selecionadas, tratores, colheitadeiras etc.). Destacam-se a produção de soja, cana-de-açúcar, algodão e trigo no estado do Paraná; arroz, soja e trigo no Rio Grande do Sul; e arroz e soja em Santa Catarina. 
Segundo o IBGE, em 2020 o Paraná colheu sozinho, por meio dessa modalidade, aproximadamente 20 milhões de toneladas de soja em grãos e 35 milhões de toneladas de cana-de-açúcar. No caso do trigo, destacaram-se o Rio Grande do Sul e o Paraná, que são os principais produtores desse grão no país. Além da produção de grãos, destaca-se a monocultura de eucalipto e pínus (silvicultura), que tem avançado em todo o território brasileiro. Na Região Sul, cuja área planta da é de 35% do total nacional, o estado com maior área plantada – a segunda do Brasil – é o Paraná, 1 milhão e meio de hectares, do qual cerca de 53% são de pínus.

Impactos socioambientais no espaço rural 


É possível afirmar que o processo de modernização das atividades agrícolas aumentou a produtividade das lavouras e das criações, gerando riquezas mo netárias para a Região Sul e para o Brasil. Por outro lado, é importante enten dermos que a agricultura e a pecuária comercial moderna também têm causa do graves impactos ecológicos e sociais, que derivam de suas práticas. 
Entre esses impactos estão: a contaminação do solo e da água decorrente do uso excessivo de fertilizantes e agrotóxicos, o aumento do desmatamento das vegetações nativas e, consequentemente, a diminuição da biodiversidade e o aumento da erosão e da perda de fertilidade natural dos solos.
Do ponto de vista social, verificam-se alguns impactos negativos, como a concentração de terras e a expulsão de milhares de famílias camponesas. Na maioria das vezes, estas acabam tendo de atuar como trabalhadores rurais volantes ou migrar para as áreas urbanas da região ou para outras partes do país em busca de melhores condições de vida. Além disso, nas últimas décadas cresceu grandemente a dependência do produtor rural em relação às grandes empresas do setor, que exercem controle sobre a distribuição de sementes e de outros itens da produção agropecuária.

Impactos causados por hidrelétricas


Além da concentração de terras, outro fato que tem expulsado centenas de famílias sulistas de suas propriedades rurais é a construção de barragens de usinas hidrelétricas, pois elas inundam centenas de quilômetros quadrados de terras a fim de formar seus lagos artificiais. Calcula-se que, nas últimas décadas, milhares de famílias tiveram de deixar suas terras em razão da construção de hidrelétricas no Sul do Brasil, e boa parte delas, até hoje, não recebeu a devida indenização pela perda das propriedades. 
O relevo da Região Sul é composto de extensas áreas de planaltos, com terrenos acidentados e muitas serras (veja o mapa ao lado). Essa caracte rística proporciona elevado potencial para a explração de energia hidrelétrica, sobretudo, por meio da construção de barragens em rios de planalto, que cortam os vales bem encaixados à região. É o que ocorre nos vales tanto dos rios Paraná e Iguaçu, no Paraná, como nos rios Uruguai e Pelo tas, na divisa entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Calcula-se que o Sul gere aproximada mente 25% de toda a energia elétrica consumida no Brasil. Por outro lado, os lagos formados pelas barragens dessas hidrelétricas cobriram milhares de hectares de terras produtivas.

Urbanização e indústria 


A origem de várias cidades da Região Sul está relacio nada aos fluxos migratórios e ao desenvolvimento de atividades econômicas ligadas à agropecuária. Até os anos 1970, o processo de urbanização sulista foi bastante vagaroso, com exceção das capitais Porto Alegre (RS) e Curitiba (PR). De maneira geral, enquanto o Sudeste apresentava, naquela década, uma urba nização mais acelerada, já com taxas acima de 70%, no Sul elas encontravam-se em torno de 40%. 
Na década de 1990, a taxa de urbanização dessa região chegou a 74% e, em 2010, atingiu 85%. Esse salto no processo de urbanização sulista é decorrente do intenso êxodo rural ocorrido no período, quando milhares de famílias que viviam no campo se dirigiram às cidades, devido, como vimos, à modernização das lavouras, à concentração de terras ou à desapropriação para construção de barragens de usinas hidrelétricas. 
Além desses aspectos, deve-se ressaltar que, nesse mesmo período, a re gião passou por um acelerado desenvolvimento industrial e uma ampliação de seu sistema de transportes (rodovias, portos e aeroportos) e de comunicações, o que atraiu ainda mais pessoas para os centros urbanos. Atualmente, o parque industrial sulista é o segundo maior do Brasil – perde apenas para o Sudeste –, apresentando grande abrangência de setores.

Densa rede de cidades 


Porto Alegre e Curitiba são as principais metrópoles do Sul e exercem grande influência sobre outros centros urbanos. Ao analisarmos a rede urbana da re gião, verificamos que Curitiba, por exemplo, influencia cidades como Londrina, Ponta Grossa e Cascavel, no Paraná. Porém, essa ação ultrapassa os limites do estado, atingindo Florianópolis, Blumenau e Chapecó, em Santa Catarina. Por sua vez, Porto Alegre influencia todas as cidades do Rio Grande do Sul. Além das duas metrópoles regionais, outras cidades se destacam na rede urbana sulista. 

Clima subtropical e biomas sulinos


O clima tropical típico atua somente na parte norte do estado do Paraná. No restante do Sul, que é a maior parte, atua o clima subtropical, caracterizado por boa distribuição de chuvas durante o ano e por médias térmicas anuais inferiores às das demais regiões brasileiras. Sobretudo no inverno, as tem peraturas são bem baixas em comparação com outros lugares do Brasil. Isso ocorre em razão da influência da massa polar atlântica (mPa), uma massa fria que ocasiona geadas e até neve nas áreas de pla nalto com maiores altitudes. Essa massa de ar é responsável tam bém pela geração de minuano, um vento frio que adentra a Região Sul no outono e no inverno, atuando predominantemente no Rio Grande do Sul. Durante o verão, as tempe raturas aumentam, já que há a pre dominância de atuação da massa tropical atlântica (mTa) e da massa tropical continental (mTc).

Biomas sulinos 


As características climáticas e suas inter-relações com outros aspectos natu rais, como o relevo e a hidrografia, criam as condições necessárias à existência dos seguintes biomas na Região Sul: a Mata de Araucárias, a Mata Atlântica, a Vegetação Litorânea e os Pampas ou Campos Sulinos. Observe a distribuição espacial desses biomas pela região no mapa ao lado. Em seguida, vamos conhe cer as características de cada um deles.

Mata de Araucárias 


A Mata de Araucárias, também denominada Mata de Pinhais, ocorre em conjunto com áreas do bioma da Mata Atlântica. Essa formação vegetal desenvolve-se, princi palmente, nas regiões de planaltos de maiores altitudes (como na fotografia da página 166), onde as temperaturas são mais baixas, desde o sul do estado de São Paulo, até o norte do Rio Grande do Sul. Entre as espécies predominan tes destaca-se a Araucaria angustifolia, um pinheiro (conífera) com folhas pontiagudas. São árvores de grande porte, que podem chegar a mais de 30 metros de altura. Entre tanto, na mata, verifica-se a presença de outras espécies, como o cedro, a canela, jacarandá e a guabiroba. A Mata de Araucárias foi intensamente degradada des de a ocupação inicial da Região Sul, tanto pelo desmatamento para a implantação de projetos agropecuários – como o plantio de erva-mate e a criação de gado – quanto pela exploração da madeira para a produção de móveis, por exemplo.

Mata Atlântica e Vegetação Litorânea 


Na Região Sul, bem como em outros locais do territó rio brasileiro, a Mata Atlântica predomina nas áreas de clima mais quente e com maior frequência de chuvas. Esse bioma tem aspecto muito exuberante nas regiões mais próximas ao litoral, como na Serra do Mar, no Paraná e em Santa Catarina, assim como em partes do interior dos três estados sulinos. 
A Mata Atlântica encontra-se bastante degradada na Região Sul, devido à explora ção das áreas ocupadas na época colonial,  e à implantação das monoculturas – como a do café, no norte do Paraná – na primeira me tade do século XX. 
Além das atividades agrícolas, os proces sos de urbanização e industrialização con tribuíram para acelerar essa degradação do bioma, reduzindo drasticamente sua área.

Pampas


O bioma de Pampas, também chamado de Campos Sulinos, ocupa quase a metade do território do estado do Rio Grande do Sul, além de partes do ter ritório dos países vizinhos Uruguai e Argentina. É um bioma caracterizado pela presença de gramíneas e vegetação arbus tiva bem esparsa. O solo é considerado fértil, porém bastante arenoso, muito propenso à erosão.
Desde o Período Colonial, há cerca de 300 anos, os Campos Sulinos são utilizadoscomo pastagens naturais para a criação de gado bovino e ovino. Além da atividade pecuária, mais recentemente, nas últimas décadas, os Pampas também têm sido ocupados pelas lavouras de grãos, em especial de soja. Esse processo de exploração trouxe a essa região sul-rio-grandense gra ves impactos ambientais, como o fenômeno de arenização dos solos.



REGIÃO SUDESTE

A Região Sudeste é a mais populosa do Brasil, com cerca de 90 milhões de habitantes em 2021, distribuídos em quatro estados: Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Juntas, essas unidades da Federação ocupam uma área de aproximadamente 925 mil km². Isso torna o Sudeste a região mais povoada do país, com uma densidade demográfica média de 86 habitantes por km².  

Sudeste: centro econômico nacional


A Região Sudes te tem a maior participação no PIB brasileiro, gerando a maior parte da riqueza nacional. Isso se deve ao fato de ela concentrar os maiores polos industriais, comerciais e de serviços do país, bem como desenvolver atividades agrope- cuárias modernas e altamente produtivas.
Além disso, o Sudeste conta com uma complexa rede urbana, encabeçada por importantes metrópoles, com destaque para as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro (centros financeiros e culturais do país), além de centros urbanos de porte médio, regionais e locais. Essa rede urbana é interligada por uma densa malha viária e de telecomunicações, pela qual se desloca um intenso fluxo de pessoas, mercadorias, informações e capitais. Neste capítulo vamos conhecer um dos principais aspectos econômicos do Sudeste: o alto nível de industrialização. Identificaremos os fatores de concentração da atividade industrial nessa região, conheceremos a infraes trutura criada para atendê-la e sua distribuição espacial.

Concentração industrial no Sudeste


Entre as atividades econômicas que geram grande parte do PIB do Sudeste está a atividade industrial. Atualmente, a região abriga o maior parque fabril brasileiro, com uma produção bastante diversificada, de matérias-primas pro cessadas (aço, papel, álcool etc.) e máquinas (equipamen tos industriais, tratores, caminhões etc.), além de bens de consumo (eletrodomésticos, automóveis, alimentos etc.) e equipamentos de alta tecnologia (computadores, aviões, sa télites artificiais etc.). 
O processo de industrialização do Sudeste tomou força entre as décadas de 1930 e 1950, sobretudo devido aos incentivos financeiros do governo federal e dos governos estaduais. Inicialmente, foram criadas in dústrias de base, como mineradoras, siderúrgicas e petroquímicas. Assim, desenvolveram-se importantes siderúrgicas nessa região, como a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), no estado do Rio de Janeiro; a Acesita e a Belgo-Mineira, em Minas Gerais; e a Companhia Siderúrgica Paulista (Cosipa), em São Paulo. 
Também foram fundadas a Petrobras, com sede no Rio de Janeiro, com a função de procurar, extrair e refinar petróleo e gás natural, e a Companhia Vale do Rio Doce (atual Vale), em Minas Gerais, até hoje uma das maiores empresas de extração de minério de ferro do mundo.

A área do Quadrilátero Ferrífero 


O desenvolvimento da indústria de base no Sudeste, sobretudo dos parques siderúrgico e metalúrgico, apoiou-se na presença de jazidas minerais, como as de ferro, manganês e bauxita, matérias-primas essen ciais para a fabricação de ligas metálicas. Destacam-se importantes jazidas localizadas na parte central do estado de Minas Gerais, área denominada de Quadrilátero Ferrífero. Durante o último século, milhares de toneladas de minérios têm sido extraídas das jazidas dessa área, tanto para servir de matéria-prima às indústrias nacionais como para a exportação para outros países do mundo.

Parque industrial diversificado


A partir das décadas de 1950 e 1960, houve a diversificação do parque industrial do Sudeste, com a instalação de indústrias de bens intermediários e de consumo, como fábricas de tratores, caminhões e automóveis, eletrodo mésticos e alimentos.

Mão de obra e mercado consumidor 


Além dos investimentos dos governos federal e estaduais, uma numerosa mão de obra e um amplo mercado consumidor para os produtos manufaturados foram fatores essenciais ao pro cesso de concentração industrial no Sudeste. Vimos no Capítulo 5 que, no final do século XIX e nas pri meiras décadas do século XX, o Sudeste foi, entre as regiões brasileiras, a que recebeu um maior contingente de imigrantes estrangeiros. Desembarcaram nessa região, principalmente, italianos, espanhóis, portugueses, sírios e libaneses, além de muitos japoneses. 
Boa parte desses imigrantes já tinha algu ma experiência como operários em fábricas de seus países de origem, o que facilitou o preenchimento das vagas nas indús trias do Sudeste do Brasil. A presença de um grande mercado consumidor para os produtos fabricados também foi importante para a instalação das indústrias, sobretudo nos grandes centros urbanos, como as cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. Isso ocorreu por que, já na primeira metade do século XX, o Sudeste se tornou a região mais populosa do país, o que possibilitou o desenvolvimento de ampla rede de co mercialização de produtos, tanto no atacado como no varejo.

Infraestrutura de transportes e de geração de energia 


Outros dois aspectos fundamentais para o desenvolvimento industrial da Região Sudeste foram os altos investimentos dos governos na construção de infraestrutura de transportes e de energia elétrica. Enquanto a infraestrutura dos transportes faci litou a circulação de matérias-primas e dos produtos manufaturados, a de geração de energia elétrica foi essencial para movimentar as máquinas industriais e para que a população pudesse utilizar eletrodomésticos, eletroeletrônicos, entre outros. 
No caso dos transportes, a expansão da rede foi focada na ampliação e na construção de rodovias. Isso ocorreu porque, já no final da década de 1950, im portantes indústrias mecânicas, de peças automotivas, de pneus e montadoras de veículos (cami nhões, ônibus e automóveis) ins talaram-se no Sudeste, fazendo com que a região priorizasse o transporte rodoviário. Tal fato levou a região a ter, atualmente, a mais extensa malha de rodo vias do país, reunindo, inclusive, a maior parte das autopistas (rodovias com pistas duplas). 
Por outro lado, também foram muito importantes os investimentos feitos na am pliação dos portos marítimos da região, como os de Santos (SP), Rio de Janeiro (RJ) e Tubarão (ES), que auxiliam no escoamento da produção de bens manufaturados, minérios e produtos agrícolas para outras regiões brasileiras e para o exterior. 
Destaca-se, ainda, a rede de aeroportos: dos cinco terminais mais movi mentados do país de cargas e de passageiros, quatro estão na Região Sudeste: Guarulhos (SP), Campinas (SP), Confins (MG) e Rio de Janeiro (RJ).
No caso da ampliação da infraestrutura de geração de energia, além de termoelétricas, a partir da década de 1960 houve a priorização da construção de usinas hidrelétricas, como forma de aproveitar o potencial natural existen te na região. 
O território da maior parte dos estados do Sudeste é composto de planaltos, com a presença de muitos vales e rios caudalosos, o que propi cia a construção de barragens para a geração de energia hidráulica, também chamada de hidroeletricidade. A construção de usinas hidrelétricas em grande escala tornou o Sudeste a região que mais produz energia elétrica no Brasil.

Centros tecnológicos 


A partir da década de 1970, os governos estaduais do Sudeste passaram a investir em centros de pesquisa focados no desenvolvimento de alta tecnologia no entorno de impor tantes universidades e instituições públicas e privadas. 
São exemplos a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), as universidades federais do Rio de Janeiro (UFRJ) e de Minas Gerais (UFMG), o Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) e o Instituto de Tecnologia da Aeronáutica (ITA).
Esses centros tecnológicos, também chamados de tecnopolos, influencia ram diretamente a implantação de indústrias nacionais e estrangeiras, que, atualmente, fabricam materiais de telecomunicações, médico-hospitalares, bio químicos, de informática e de tecnologia aeroespacial. A implantação de tecnopolos também foi responsável, em boa parte, por um processo de desconcentração da atividade industrial na própria Região Sudeste. 
Isso ocorreu porque, até então, a maior parte da produção industrial estava concentrada nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro e em alguns municípios de seu entorno. A partir da década de 1980, verificou-se um deslo camento de várias indústrias, sobretudo aquelas ligadas à área de tecnologia, para áreas do interior, como a região das cidades de Campinas (SP), São José dos Campos (SP), Resende (RJ) e a região metropolitana de Belo Horizonte (MG).

Complexo agroindustrial do Sudeste


A partir da segunda metade do século XX, a concentração e a diversificação das atividades industriais no Sudeste provocaram um amplo processo de mo dernização das atividades agropecuárias, que atingiu não somente essa região como também outras partes do Brasil. 
Isso ocorreu porque as indústrias passaram a fornecer mercadorias ma nufaturadas com novas tecnologias aos proprietários rurais, como tratores, colheitadeiras e arados mecânicos; defensivos agrícolas, adubos químicos e sementes selecionadas; vacinas, medicamentos e rações balanceadas para os animais de criação, entre outros produtos. O emprego dessas tecnologias no campo provocou aumentos expressivos na produtividade agrícola, propor cionando uma maior rentabilidade a sitiantes e fazendeiros. 
Particularmente no Sudeste, essas e outras inovações desencadearam pro fundas mudanças na paisagem rural do interior dos estados, já que foi priorizada a produção de matérias-primas com grande importância para as agroindústrias e para a exportação, como café, soja, laranja e cana-de-açúcar, e a criação de gado bovino e de aves para o fornecimento de carne, leite e ovos. 
Extensas áreas de plantação desses pro dutos agrícolas e de pastagens para animais ocuparam as grandes propriedades rurais dos municípios, ao passo que as áreas plan tadas com culturas alimentares, como feijão, mandioca, batata, frutas e hortaliças em geral, desenvolvidas em pequenas propriedades ou por grupos comunitários de camponeses, foram reduzidas. 
Esse processo de modernização acabou consolidando o Sudeste como um dos polos do setor agroindustrial do Brasil. Compare no mapa abaixo a distribuição e diversificação de agroindústrias na região em que você vive com a do Sudeste.

Produtos agropecuários de destaque no Sudeste


Nas últimas décadas, boa parte das atividades agropecuá rias desenvolvidas no Sudeste passou por um amplo processo de modernização, apresentan do atualmente elevado grau de emprego de tecnologia. Entre aquelas que mais se destacam estão as atividades agrícolas que envolvem as lavouras de cana--de-açúcar, laranja, café, além da pecuária de corte e leiteira. 
A produção de laranja tem muita relevância econômica para essa região e estabelece uma grande articulação com a indús tria na produção de sucos. No que se refere à pecuária, observamos o predomínio da pe cuária melhorada ou intensiva em grande parte do território dos estados do Sudeste. Destaca-se a criação de bovinos destinada à produção leiteira, que fornece matéria-prima para as principais agroindústrias de laticínios do país.
O café é outro produto agrícola de destaque do Sudeste, que é a principal região produtora do país. Historicamente, o Brasil tem uma forte tradição no cultivo de cafeeiros e é, na atualida de, o maior produtor mundial de café, o que se deve sobretudo às colheitas obtidas nos quatro estados do Sudeste.

Agricultura 4.0 


Além de importantes instituições de pesquisa, no Sudeste também estão sediadas grandes empresas, algumas delas multinacionais que desenvolvem equipamentos e técnicas de cultivo e de criação com a mais alta tecnologia. Isso vem influenciando diretamente a forma de produzir no campo, dando origem àquilo que especialistas chamam de “agricultura 4.0”. É uma nova eta pa da produção agrícola que agrega recursos tecnológicos avançados como GPS, imagens de satélite, drones e computadores, todos conectados em tempo real.

Produção da cana-de-açúcar


De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o Brasil é atualmente o maior produtor de cana-de-açúcar do mundo. Na safra entre 2018 e 2019, foram colhidos 625 milhões de toneladas desse produto agrícola no país. A liderança dessa produção fica com a Região Sudeste, com cerca de 405 milhões de toneladas. 
 Em nosso país, as safras da cana-de-açúcar são divididas em dois momen tos. Entre abril e novembro, há um excelente período de safra nos estados da porção centro-sul. Já de setembro a março, essa produção se destaca no eixo norte-nordeste. 
O estado de São Paulo é o maior produtor de cana-de-açúcar do país, porém também há significativa produção nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo. 
A cana-de-açúcar é uma matéria-prima agrícola com excelente articulação com a indústria, for mando um complexo agroindustrial para a pro dução de açúcar refinado e álcool combustível, chamado etanol. A Região Sudeste responde por mais de 60% de toda a produção nacional desse tipo de combustível, e a maior produção de etanol anidro e etanol hidratado ocorre nos estados de São Paulo e Minas Gerais. 

As transformações no campo e a urbanização do Sudeste


Na segunda metade do século XX estabeleceu-se no Sudeste um amplo complexo agroindustrial. Esse processo foi apoiado pelos governos estaduais e federal, beneficiando a modernização de atividades agrícolas co merciais, em sua maioria desenvolvidas em grandes propriedades rurais, em detrimento daquelas atividades mais tradicionais, praticadas geralmente em pequenas e médias propriedades. Esse modelo de desenvolvimento agrícola causou profundas transforma ções no espaço rural da região, pois: - ocasionou, por um lado, a perda da terra por boa parte dos agricultores familiares devido às dívidas bancárias e à baixa produtividade de suas pequenas propriedades, e, por outro lado, o aumento da área ocupada por grandes fazendas; 
- provocou a dispensa de um número expressivo de trabalhadores, cuja força de trabalho foi substituída, em sua maioria, por máquinas, implementos agrícolas e outras tecnologias empregadas nas grandes propriedades rurais.
Dessa forma, principalmente entre as décadas de 1970 e 1990, centenas de milhares de pequenos proprietários e de trabalhadores rurais, sem alternativa de sobrevivência, abandonaram o campo e migraram, sobretudo para os médios e grandes centros urbanos da região, em um intenso processo de êxodo rural.

Rápido processo de urbanização


Além do êxodo rural, a mi gração de pessoas de outras regiões brasileiras, principal mente de estados do Nordeste, e as altas taxas de natalidade al cançadas no final do século XX desencadearam um intenso processo de urbanização do Sudeste, ou seja, de aumento da proporção de pessoas vi vendo em cidades. Veja o grá fico ao lado. 
Atualmente, além de ser a região mais populosa do país, com cerca de 90 milhões de habitantes (em 2020), o que corresponde a 43% do total da população brasileira, o Sudeste conta com aproximadamente 95% de seus habitantes vivendo em cidades, boa parte delas de médio e grande porte, como é o caso das metrópoles paulistana, carioca e belo-horizontina. 
Além disso, a Região Sudeste abriga a maior conurbação urbana do país, a chamada megalópole brasileira, também denominada pelo IBGE de Complexo Metropolitano do Sudeste. Dele também fazem parte as cidades localizadas na região do Vale do Rio Paraíba do Sul, como São José dos Campos (SP), Tauba té (SP), Volta Redonda (RJ) e Resende (RJ), e as regiões metropolitanas da Baixa da Santista e de Campinas, ambas localizadas no estado de São Paulo. No total, viviam nessa área, em 2020, aproximadamente 48 milhões de pessoas, ou cerca de 23% do total da população brasileira.

Problemas das metrópoles do Sudeste


Assim como em outras regiões brasileiras, o rápido crescimento das capitais e cidades de porte médio do Sudeste ocasionou uma série de problemas liga dos à infraestrutura urbana, como a falta de saneamento básico e de moradia, o aumento do preço dos imóveis, o colapso do sistema de transportes e a po luição de rios e córregos e do ar atmosférico. 
Além disso, ainda que o crescimento da atividade industrial e principalmen te do comércio e dos serviços tenha ampliado os postos de trabalho, a oferta de emprego não cresceu na mesma proporção que a população urbana. Dessa forma, houve um processo de empobrecimento dos trabalhadores, o que au mentou as desigualdades sociais e a segregação do espaço urbano, sobretudo no interior das grandes cidades. 

Impactos das atividades agroindustriais e da urbanização nos biomas


O processo de crescimento e expansão das atividades agropecuárias e in dustriais, aliado ao intenso ritmo de urbanização, têm causado profundos impactos nos biomas do Sudeste. 
Entre os biomas que se estendem pela região, há a Caatinga, sobretudo no norte de Minas Gerais, o Cerrado, principalmente no interior dos estados de São Paulo e Minas Gerais, e a Mata Atlântica, atualmente em trechos preser vados apenas na porção leste dos estados do Sudeste.

Mata Atlântica: maior biodiversidade do mundo


Dentre os biomas da Região Sudeste, certamente o mais impactado pelas atividades humanas é o da Mata Atlântica. Isso porque, já no início do século XIX, sua vegetação passou a ser derrubada em grande escala para a expansão das lavouras de café e, mais tarde, durante o século XX, para o avanço das la vouras de cana-de-açúcar, laranja e soja. 
Além disso, nas últimas décadas, nos domínios desse bioma houve uma “explosão” do crescimento de boa parte das cidades do Sudeste, com destaque para os centros urbanos: Rio de Janeiro, São Paulo, Vitória e Santos.

Florestas, manguezais e restingas


A maior parte da área remanescente do bioma de Mata Atlântica do Brasil está localizada no Sudeste. Atualmente, ela se encontra protegida em parques e em outras áreas de preservação, sobretudo na região da Serra do Mar e do litoral. Nessa região, a área de Mata Atlântica pode ser dividida em três biomas: a floresta atlântica, nas porções de serras e vales; os manguezais, nas áreas alagadas pelas cheias e vazantes das marés nas áreas de planícies litorâneas; e as restingas, que se desenvolvem nos trechos de areia seca das praias e das dunas. Cada bioma apresenta sua complexidade de fauna e flora.
A biodiversidade existente nos domínios de Mata Atlântica do Sudeste é considerada a maior do planeta. Nela vivem centenas de espécies de fauna e flora, sendo boa parte delas endêmicas, ou seja, encontram-se exclusivamen te nessas áreas remanescentes da região e em mais nenhuma outra parte do Brasil ou do mundo. Entretanto, por causa da pressão exercida pelas atividades humanas, é nesse bioma que cerca de 60% de todas as espécies ameaçadas de extinção de nosso país estão abrigadas.






REGIÃO NORTE

Região Norte, a mais extensa do país, com mais de 3,8 milhões de quilômetros quadrados de área, correspondendo a aproximadamente 45% do território brasileiro. 
A porção norte é atravessada pela Linha do Equador, ou seja, a região está totalmente localizada na zona tropical do planeta. Ela faz fron teira com Guiana Francesa, Suriname, Guiana, Venezuela, Colômbia, Peru e Bolívia. Além disso, uma pequena faixa, ao norte, é banhada pelo Oceano Atlântico. A região é pouco populosa, com 18 906 962 milhões de habitantes (estimativas do IBGE em 2021), e pouco povoada – são cerca de 4,12 hab./km2. 
Uma das características marcantes da paisagem da Região Norte é o domínio natural, evidenciado pela Floresta Equatorial Amazônica e pela Bacia Hidrográfica Amazônica.

Ocupação da região 

Os primeiros habitantes das áreas que hoje com preendem a Região Norte, assim como de todo o res tante do território brasileiro, foram os povos indígenas. Depois da chegada dos colonizadores, houve uma gradual alteração dos espaços e do modo de vida da população nativa. 
No período da colonização, a partir de meados do século XVII, os bandeirantes chegaram à região em busca de metais preciosos e procuravam indígenas com o objetivo de escravizá-los. Eles não pretendiam ocupar e povoar aquelas terras, pois sua moti vação era econômica. Por conta do trabalho de catequização feito pelos padres jesuítas, mais europeus chegaram à região. 
O propósito dos jesuítas era disse minar os ensinamentos cristãos entre os indígenas, como você pode observar na pintura acima. Aos poucos, os colonizadores portugueses perceberam que as chamadas “drogas do sertão”, que nada mais eram do que os produtos da floresta, como castanha-do-pará, guaraná, louro, canela e cravo, somadas à grande disponibi lidade de madeira da floresta, poderiam atrair a cobiça e o interesse de outras potências europeias da época, como franceses e holandeses. 
Assim, a estratégia adotada foi a construção de fortes, principalmente ao longo do vale do Rio Amazonas. Essas fortificações deram origem a novos núcleos de povoamento.

Povoamento recente 

Os movimentos populacionais mais recentes (final do século XIX e início do século XX) também ocorreram por motivação econômica. Foi o caso do período da extração do látex, entre 1860 e 1910. O látex, utilizado na fabricação de borracha, é um produto extraído da seringueira, árvore nativa da Floresta Amazônica. 
Nessa época, a indústria do automóvel come çava a surgir nos Estados Unidos e na Europa, o que demandava grande produção de pneus. A impor tância da borracha no período atraiu muitos traba lhadores de outras partes do país, principalmente do Nordeste, que contribuíram para o povoamento da região formando comunidades na floresta.
Na segunda metade do século XX, o governo brasileiro entendeu que era preciso adotar algumas iniciativas para estimular o domínio e o controle do território. Assim, passou a estimular a efetiva ocupação da região. 
Foram criados projetos de pesquisa com o objetivo de fazer o levantamento e o mapeamento dos recursos da região e planejar a construção de estradas para acessá-la. Exemplo disso foi a construção da Rodovia Transamazônica na década de 1970, que atravessaria o Brasil de leste a oeste. 
Essa estrada se tornou importante símbolo de integração nacional, promovida pelo governo militar da época. Entretanto, ela não foi concluída – há alguns trechos em fun cionamento. A obra ficou cara demais e as condições naturais impuseram várias dificuldades a seu andamento. 
Como a região é muito úmida, com chuvas diá rias, e a construção da estrada exigia o desmatamento de amplas áreas, o solo, desprotegido, sofreu erosão e foi sendo destruído, o que resultou em grande impacto ambiental.
Outras iniciativas que visavam incentivar a pro dução na Região Norte a partir da segunda metade do século XX foram a criação da Zona Franca de Manaus e de diversos projetos agropecuários e minerais. Esses projetos atraíram tanto habitantes locais quanto de outras regiões do país. Até hoje, os nordestinos continuam sendo o grupo que mais se deslocou para a Região Norte. 
Em todo esse período histórico, antigo e recente, os rios foram um fator natural fundamen tal para a ocupação do Norte. Como se trata de um território extenso, coberto de florestas e inúmeros rios, a hidrovia é um sistema bastante eficiente de deslocamento nessa área. Se, por um lado, algumas investidas coloniais e projetos recentes proporcionaram maior povoa mento e ocupação da Região Norte, por outro, também foram – e são – responsáveis pela ocupa ção irregular das terras indígenas e por parte da devastação da floresta.

Amazônia: um bioma complexo

Muitas vezes confunde-se a Região Norte com a Amazônia. Na verdade, a Região Norte é apenas parte desse bioma.
Região Norte, compreende os estados do Acre (AC), Amazo nas (AM), Amapá (AP), Pará (PA), Rondônia (RO), Roraima (RR) e Tocantins (TO).
A Amazônia, como também pode ser chamado o bioma amazônico, compreende a floresta equatorial amazônica e áreas menores de campos e cerrados, formações vegetais que extrapolam os limites dos sete estados da Região Norte, compondo a chamada Amazônia Legal, delimitação legal estabelecida em 1996 para fins de políticas de Estado (por exemplo, incentivos fiscais). Compreende os estados da Região Norte, bordas e áreas vizinhas, como o norte de Mato Grosso e o oeste do Maranhão,
Ao todo, o bioma amazônico ocupa aproximadamente 7,5 milhões de km², estendendo-se também por parte do território de oito países vizinhos ou próximos ao Brasil. É a área da chamada Amazônia Internacional, onde cerca de 4,5 milhões de km² estão em território brasileiro. Com florestas associadas a outros ecossistemas (mangue, cerrado, campos, várzeas etc.). Estende-se, também, a outros países da América do Sul. O bioma Amazônia também coincide, aproximadamente, com o domínio fitoclimático Amazônico.
Vamos estudar as principais características do bioma amazônico, entendendo, sobretudo, como os elementos da natureza se inter-relacionam e criam diferentes tipos de paisagens, proporcionando as condições neces sárias para a existência de uma grande biodiversidade nessa região do Brasil.

Domínio fitoclimático Amazônico

Predominam nesse domínio formas de relevo com baixas altitudes (planícies, depressões e baixos planaltos), clima equatorial, vasta rede hidrográfica e vegetação florestal, asso ciada a outras coberturas, como cerrado, campos e manguezais. Esse domínio, o qual estudaremos em detalhes a seguir, abrange a área da Região Norte.

Relevo 

Para entender o relevo dessa e das demais regiões, é importante lembrar que, sobre essas formas de relevo (planícies, planaltos, serras, morros, vales etc.), as sociedades constroem o espaço geográfico, onde ocorrem constantes interações entre os seres humanos e a natureza. Para compreender a natureza da Região Norte, você deve retomar o que aprendeu nos estudos do relevo do Brasil, ou seja, como as diferentes formas de relevo estão distribuídas pelo país. As grandes formas do relevo são: as montanhas, os planaltos, as depressões, os tabuleiros e planícies.
O relevo da Região Norte é formado, na maior parte, por depressões. As depressões apresentam baixa altitude e formas de relevo com predomínio de colinas, com pouca irregularidade na morfologia. Na Região Norte, as depressões se diferenciam em: 
• Depressão ou Superfície Norte-amazônica, nos estados de Roraima e do Amapá e no norte dos estados do Pará e do Amazonas; 
• Depressão ou Superfície Sul-amazônica, no estado de Rondônia e no sul do Pará; 
• Depressão da Amazônia Ocidental, no estado do Acre e em boa parte do estado do Amazonas; 
• Depressão do Guaporé, no estado de Roraima; 
• Depressão do Araguaia-Tocantins, no estado do Tocantins. As áreas de planaltos da Região Norte destacam-se, sobretudo, nas bor das da região: são áreas de nascentes de rios e funcionam como divisores de águas. 
Ao norte encontram-se os Planaltos Residuais Norte-amazônicos, que apresentam as maiores altitudes da região. Esses planaltos dividem as águas das bacias hidrográficas do Rio Amazonas e do Rio Orinoco, na Venezuela. 
É nele também, na Serra do Imeri, localizada no norte do estado do Amazonas, que fica o ponto mais alto do Brasil: o Pico da Neblina, com 2 995 metros de altitude.
Ao longo do Rio Amazonas e de suas áreas de influência direta encontra-se a planície mais extensa da região, um terreno plano e baixo – a Planície do Rio Amazonas. É nela que se concentra a maior parte da população da Região Norte, com destaque para os povos ribeirinhos, que vivem às margens dos rios.

Hidrografia 

O território brasileiro é cortado por muitos rios. Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), o país tem, em suas diversas bacias hidrográficas, 13% da água doce disponível no planeta. 
Apenas a Região Norte concentra, aproximadamente, 68% de todos os recursos hídricos do país. É nela que está a maior bacia hidrográfica do mundo: a Bacia Amazônica. Formada pelo Rio Amazonas e por seus inúmeros afluentes e subafluentes, ela estende-se por áreas do Brasil e de países vizinhos. No leste da região há ainda a Bacia do Tocantins-Araguaia e a do Atlântico Nordeste Ocidental, de menor extensão.
O maior e mais importante rio da região é o Rio Amazonas, cuja nascente está na Cordilheira dos Andes, no Peru, e origina-se do degelo da neve das montanhas. 
Ao entrar no Brasil é chamado de Rio Solimões e, depois da confluência com o Rio Negro (próximo à cidade de Manaus), passa a se chamar Rio Amazo nas, até a foz, no Oceano Atlântico, ao nordeste do Pará. Os rios da Região Norte são a principal via de transporte local. 
Como há poucas estradas, por causa dos limites impostos pela Floresta Amazônica, o Rio Amazonas e seus afluentes são utilizados como hidrovias, que funcionam como se fossem as estradas da região. Em época de cheia dos rios, a vida da população ribeirinha sofre limitações, principalmente em relação ao plantio de subsistência. 
A navegação é favorecida pelo fato de a Região Norte se estender em um terreno de baixa altitude (planícies e depressões), que forma uma imensa área navegável. Como alguns rios da Bacia Amazônica – Xingu e Tapajós, por exem plo – percorrem longos trechos de áreas planálticas, formam quedas-d’água que têm grande potencial hidráulico. 
O potencial elétrico de aproveitamento da energia hidráulica do Brasil está entre os cinco maiores do mundo. Desse potencial, cerca de 40,5% estão loca lizados na Bacia Hidrográfica do Amazonas. No total, a Região Norte detém aproximadamente 60% de todo o potencial hidrelétrico do país, mas boa parte tem restrições ambientais para exploração.
Na Região Norte também se encontra o maior volume de água subterrânea do mundo, o Sistema Aquífero Grande Amazônia (Saga), localizado principalmente no sub solo dos estados do Amazonas, Pará e Amapá. Várias cidades da região utilizam suas águas para consumo humano, com destaque para Manaus. 
Estudos feitos por pesquisadores brasileiros, principalmente por cien tistas da região amazônica, avaliam que o Saga é quatro vezes maior que o Aquífero Guarani (que se estende por parte do território do Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina).

Clima

A Região Norte registra constantemente altas temperaturas e grande quantidade de chuvas. Isso ocorre principalmente em razão da baixa latitude, ou seja, do fato de essa região se localizar nas proximidades da Linha do Equador. 
A zona tropical ou intertropical é a que recebe mais intensamente a inci dência de raios solares. A região tam bém apresenta baixas altitudes, com maior pressão atmosférica e retenção de calor.
Como você pôde constatar na leitura do mapa da página anterior, na Região Norte pre domina o clima equatorial. Esse tipo climático caracteriza-se por apresentar altas tempera turas e chuvas muito intensas (elevada pluviosidade) durante todo o ano. 
A formação de chuvas também é influenciada pela exuberante cobertura vegetal, cuja água decorrente da transpiração evapora e se condensa, contri buindo para a formação das nuvens. As médias térmicas variam entre 25 °C e 28 °C, o que indica baixa amplitude térmica anual, e o índice de chuvas varia de 1 500 mm a 2 500 mm anuais. Em razão dessas características, o clima equato rial configura-se como quente e muito úmido.
Além da evapotranspiração, a evaporação das águas dos rios da Bacia Amazônica também contribui para o elevado nível de chuvas da região. Essa umidade é transportada pelos ventos a outras partes do país. 
Na Região Norte, apesar de o clima ser predominantemente quente e úmido, pode ocorrer um fenômeno denominado friagem, caracterizado por uma queda brusca de temperatura. Esse fenômeno se deve à atuação da Massa Polar Atlântica (mPa), que entra pelo sul do Brasil. Quando chega com muita intensidade, atinge a porção ocidental da Região Norte, especificamente no sul do Amazonas, no Acre e em Rondônia. 
Em um trecho do norte da região, em uma pequena parte do sudeste do Pará e no estado do Tocantins, o tipo climático é o tropical, que se caracteriza pelas altas temperaturas durante todo o ano, com estações bem definidas: uma estação seca e outra chuvosa.

Vegetação

O território brasileiro é amplo, e em razão de sua extensão latitudinal, apresenta diversos tipos climáticos. Essa condição está associada à variedade de tipos de vegetação.
A Floresta Amazônica abrange, ape nas no território brasileiro, uma área de aproximadamente 4,2 milhões de quilômetros quadrados. Nessa imensa área há muitos ecossistemas, os quais abrigam uma rica fauna e flora – a maior biodiversi dade do planeta. 
Na Região Norte também são encontrados, em pequenas áreas, o cerrado, os campos e a vegetação litorânea, em especial os manguezais. Grande parte da diversidade e das características biológicas da região é ainda bastante desconhecida.

Nessa floresta distinguem-se quatro níveis de vegetação, decorrentes de pequenas variações do relevo, do tipo de solo e da proximidade dos rios. 

1. Mata periodicamente inundável sobre diques marginais fluviais;
2. Mata e gramíneas em várzea – terras inundadas (Caa-igapó);
3. Mata de terra firme sobre terraços fluviais;
4. Mata de terra firme sobre colinas.

Conjuntos florestais da Amazônia

Muitas vezes, quando falamos na Amazônia, logo vem à mente a imagem de uma imensa floresta verde, com extensão a “perder de vista”. De fato, a Floresta Amazônica é a principal formação vegetal do bioma amazônico. Sua vegetação é composta de grandes árvores, cujas copas proporcionam certo aspecto homogêneo à paisagem da região.
Entretanto, é importante entender que esse bioma tem características de relevo, solos, cursos de água, clima e de espécies de fauna e flora que dão origem a quatro tipos principais de conjuntos florestais diferentes: as matas de igapó, as matas de várzea, a floresta de terra firme e a floresta semiúmida.

Campos e cerrados amazônicos

Além das áreas florestais, há dois tipos de formações vegetais que se desta cam na área de domínio do bioma amazônico: os campos e os cerrados. Os campos amazônicos, também chamados de campinaramas, ocorrem sobretudo no norte do Amazonas e no sul de Roraima. Em geral, são formações abertas, compostas de gramíneas, palmeiras e peque nos arbustos.  
Os cerrados se desenvolvem no sul do Pará, em Roraima e, sobretudo, no Tocantins, expandindo-se também para o centro do Mato Grosso. Além de gramíneas, nos cerrados há muitos arbustos de médio porte dis tribuídos de forma esparsa pela paisagem. 

Inter-relações entre elementos naturais na Amazônia 

A existência de diferentes paisagens naturais, com formações florestais, cerrados e campos, deve-se a uma complexa inter-relação entre os elemen tos da natureza, sobretudo entre clima, relevo, hidrografia, solos, fauna e flora locais. 

Inter-relações de clima, vegetação e hidrografia 

O tipo de clima predominante na Região Norte é o equatorial. Contudo, para entender melhor as dinâmicas naturais da Amazônia brasileira, é necessário de talhar os aspectos dos climas que atuam nessa região.
De maneira geral, predominam na Amazônia os climas quentes, ou seja, com altas temperaturas médias (em torno de 25 °C), e bastante chuvosos, variando entre 1 500 mm e 3 300 mm anuais de pluviosidade. Há, contudo, algumas diferenças entre esses tipos climáticos que devem ser consideradas: na porção oeste ou ocidental da região, por exemplo, existe uma distribuição mais regular de chuvas entre os meses; já em sua porção central e oriental, há uma estação mais seca e outra mais chuvosa durante o ano. 
Deve-se destacar também que existe uma diferença nos períodos do ano em que ocorrem as estações seca e chuvosa entre a porção norte e sul da Amazônia. Verifique que a estação chuvosa em Boa Vista (RR), localizada na porção norte, ocorre entre abril e setembro, e a seca, de outubro a março; em Porto Velho (RO), por sua vez, a estação chuvosa vai de outubro a março, e a seca, de abril a setembro. Portanto, é a alternância entre estações secas e chuvosas que influencia diretamente as épocas de cheias e de vazantes dos rios da região.
Ainda que se observem diferenças climáticas na Amazônia, um aspecto im portante é que a abundância de chuvas e as altas temperaturas em toda a re gião criam condições favoráveis para o desenvolvimento de formações vegetais exuberantes, com inúmeras espécies vegetais, assim como uma gigantesca diversidade de espécies animais.

Inter-relações dos solos, rios e vegetação 

Além do clima, há aspectos dos solos e da hidrografia da Amazônia que tam bém influenciam as características da floresta. De acordo com estudos realiza dos por especialistas, cerca de 90% dos solos da região amazônica são predo minantemente arenosos e pobres em nutrientes. No entanto, sobre esse solo existe uma camada de matéria orgânica, composta de fezes de animais, folhas, frutos, galhos e troncos em decomposição, entre outros. 
É dessa camada rica em húmus, denominada serrapilheira (ou serapilheira), que praticamente to das as plantas da Floresta Amazônica extraem os nutrientes necessários para sua sobrevivência. De maneira geral, os solos mais férteis da Amazônia encontram-se nas ma tas de igapó e de várzea. Essas áreas recebem, sobretudo na época das cheias, uma grande quantidade de sedimentos e de matéria orgânica trazida pelos cur sos de água e que se deposita sobre os solos. Assim, rios e igarapés têm um papel fundamental na manutenção da vida no bioma amazônico. 
As águas dos rios alcançam largas faixas de terras nas matas de igapó, já que na Bacia Amazônica predomina o relevo relativamente plano. Com mais de sete mil cursos de água principais, a bacia hidrográfica amazônica é a maior do mundo. No leito de seus rios e outros corpos de água corre cerca de 20% de toda a água doce superficial existente na Terra.
No centro da bacia, está o Amazonas, o maior rio em extensão e em volume de água do planeta, com aproximadamente sete mil quilômetros de extensão. Na maior parte da bacia hidrográfica amazônica, em razão do relevo pre dominantemente plano, os rios são caudalosos e repletos de meandros. Esses cursos de água são as principais vias de comunicação e, consequentemente, o transporte hidroviário é o principal meio de deslocamento da população e de mercadorias na região.

Biodiversidade da Amazônia

Além da inter-relação dos elementos físico-naturais, como nos exemplos es tudados nas páginas anteriores, outra particularidade que se destaca no bioma amazônico, sobretudo na Região Norte do Brasil, é sua grande biodiversidade. 
Aqui se entende por biodiversidade ou diversidade biológica a variedade de espécies da fauna, flora e microrganismos e suas respectivas funções em um ecossistema. Até o momento, os especialistas conhecem cerca de 150 mil espécies de seres vivos na Amazônia. Contudo, acredita-se que esse número não representa nem a metade das espécies existentes, havendo muitas outras ainda desconhecidas e não catalogadas pela ciência. 
Entre os seres vivos conhecidos, há aproximadamente 40 mil espécies de vegetais, 1 300 de aves, 1 400 de peixes e 300 de mamíferos, sem contar as dezenas de milhares de espécies de insetos e microrganismos. Calcula-se que 80% desses seres vivos sejam endêmicos, ou seja, vivem exclusivamente nesse bioma e em nenhuma outra parte do planeta. 
Muitos cientistas têm alertado para o fato de que podemos acabar não conhe cendo toda a riqueza do bioma amazônico em virtude do intenso processo de ocupação e de destruição desse ambiente, observado sobretudo nas últimas décadas. 

Atividades econômicas

Por muito tempo, o extrativismo foi a única fonte de renda de grande parte da população da região, e ainda é a atividade que envolve a maioria dos habi tantes da floresta. Apesar disso, a indústria e, sobretudo, a agropecuária têm se ampliado nas últimas décadas.

Extrativismo 

Antes da chegada dos colonizadores, os povos indígenas da região já extraíam da floresta o necessário para sua sobrevivência. A atividade desses povos era sustentável, isto é, não gerava impactos ambientais relevantes. 
Pos teriormente, os portugueses viram nessa atividade a possibilidade de comercia lização e enriquecimento, o que deu origem a processos de grandes impactos ambientais na região. Atualmente, o grande desafio é promover a exploração das riquezas naturais da floresta de forma sustentável, preservando o equilíbrio ambiental para seu aproveitamento pelas gerações futuras. 
Uma iniciativa importante para quem vive da atividade extrativista é a organização dos trabalhadores em cooperativas. Nelas, povos da floresta aprendem a retirar o sustento do meio ambiente respeitando-o. É o conceito de extrativismo que mantém a “floresta em pé”. 
No sistema cooperativista, as pessoas trabalham de maneira integrada, organizando a coleta e a venda dos produtos em feiras locais. Dependendo do desenvolvimento da atividade, podem formar uma agroindústria dos produtos coletados e, assim, dividir o lucro e melhorar a qualidade de vida dos cooperados. 
Ainda hoje o extrativismo vegetal é uma importante atividade econômica na região, com destaque para os seguintes recursos: castanha-do-pará (usada na produção de alimentos, cosméticos, óleos, remédios), látex (borracha), guaraná, açaí, madeira (móveis, carvão, construção civil) e cupuaçu (sucos, cremes, geleia, doces, sorvetes), entre outros. 
O extrativismo animal na Região Norte é representado sobretudo pela pesca. Os rios da Bacia Amazônica têm grande variedade de peixes que servem de alimento para a população. 
Por questões ambientais, a pesca na região é controlada e monitorada por órgãos governamentais. Essa atividade extrati vista ocorre praticamente em toda a região, pois é fonte de alimento para a população ribeirinha. Atualmente, muitas empresas nacionais e internacionais operam na exploração mineral do Norte do país, pois é grande a quantidade de minerais no subsolo amazônico.

Implantação das atividades mineradoras e industriais 

Na década de 1970, foram descobertas na Região Norte importantes jazidas minerais de ferro, cobre, manganês, ouro, cassiterita, entre outros. Com isso, a Sudam estimulou a implantação de projetos de extração em escala industrial, como o Projeto Grande Carajás, na Serra dos Carajás, no Pará. Esse projeto envolveu a construção da infraestrutura necessária para a exploração da maior jazida de minério de ferro do mundo: rodovias de acesso, alojamentos de ope rários, hidrelétrica para o fornecimento de energia e ferrovia para o escoamento da produção.
O Programa Grande Carajás (PGC), implantado na década de 1980, é um dos maiores projetos de ocupação econômica da Região Norte. Está localizado no estado do Pará, em uma área de 900 mil quilômetros quadrados – conside rada a maior “província mineral” da Terra. A área mineralógica é fundamental para a região porque possui diversos recursos, como grandes e variadas jazidas minerais de ferro, manganês, bauxita, cobre e outros.
Além da extração, a Sudam passou a financiar a construção de indústrias de transformação de minérios, por exemplo, o polo siderúrgico da Albras/Alunorte no município de Barcarena, tam bém no Pará, que transforma a bauxita extraída na região em alumínio, matéria-prima exporta da para todo o país e o exterior. 
A implantação de atividades mineradoras como essa na Região Norte transformou o Brasil em um dos maiores produto res mundiais de ferro, bauxita e ouro. Entre os grandes compradores da maior parte desses minérios estão, ainda hoje, países da Europa, os Estados Unidos, a China e o Japão. 
Outra ação de destaque da Sudam foi a criação do Polo In dustrial de Manaus (PIM), área fabril localizada na periferia da capital amazonense. Em pleno “coração” da Floresta Amazônica, foram instaladas dezenas de em presas nacionais e multinacionais que produzem desde artigos eletroeletrônicos e motocicletas até insumos químicos. No ano de 2020, o PIM reunia cerca de 500 empresas e gerava aproximada mente meio milhão de empregos diretos e indiretos.
Contudo, a intensa exploração dos recursos na Região Norte tem levado ao esgotamento das reservas, como é o caso da exploração do minério de manga nês na Serra do Navio (AP). Além disso, observa-se diversos impactos ambien tais ligados às atividades minerais. 
Um dos casos mais significativos ocorre com a exploração de ouro feita, em certos casos, de forma ilegal. Ela ocasiona gran des danos ambientais. Alguns deles surgem pelo uso de mercúrio, elemento líquido que ajuda na coleta e separação do ouro. 
Ele causa poluição hídrica e contamina os peixes, um dos principais alimentos consumidos pela população local. Destaca-se também na região a extração de minerais fósseis – como o petróleo e o gás natural – na Amazônia, nas proximidades do Rio Urucu (Campo de Urucu), no estado do Amazonas.

Agropecuária 

Na Região Norte é comum a agricultura de subsistência, praticada sobretudo pela população ribeirinha nas várzeas dos rios, cujo solo recebe matéria orgânica quando ocor rem as cheias. Os principais produtos cultivados são cana-de-açúcar, arroz e banana. 
Na agricultura comercial, destacam-se a cultura da pimenta-do-reino, da mandioca, do arroz, do feijão, da soja e do cacau. A fruticultura, com des taque para o cultivo de banana, merece destaque na região. Ao longo da história da Região Norte, muitos projetos agropecuários fra cassaram. Além de causar profundos impactos ambientais, eles acabaram contribuindo para o aumento de conflitos rurais – a região concentra o maior número de conflitos por terras do país. 
Nos estados do Pará, Tocantins, Acre e Rondônia predomina a criação extensiva de gado bovino para corte. Grandes áreas de floresta foram derru badas para o plantio do pasto destinado à criação extensiva de gado, em espe cial em Rondônia e no Pará. Segundo estudos, a maior parte da área desmatada da região é ocupada pela pecuária. 
Nas últimas décadas, tem ocorrido na região um aumento da ocupação de terras para pecuária extensiva. A “terra limpa” pela pecuária e pela extração madeireira, aliada ao relevo mais aplainado e aos baixos custos das terras e da produção, atraiu muitos empresários do ramo da soja vindos do Sul e do Sudeste. 
Há um enorme potencial de expansão da agricultura mecanizada de grãos – com destaque para soja e milho – nas áreas onde o relevo e os solos são mais favoráveis, o que põe em risco uma área considerável da floresta.

Indústria 

Na Região Norte, o maior destaque do setor industrial é a Zona Franca de Manaus, criada pela Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), entre os anos de 1967 e 1972, com o objetivo de incrementar a atividade industrial na região. O plano do governo de ocupação e desenvolvimento econômico da região oferecia às empresas facilidades e incentivos fiscais por meio da isenção da taxação de impostos.
A iniciativa atraiu muitos investimentos. Hoje, estão fixadas na cidade mais de 500 empresas de diversas atividades. O governo prorrogou o prazo de isen ção de impostos para 2073. Atualmente, o Polo Industrial de Manaus tem importante participação no PIB da região, empregando, de forma direta, mais de 100 mil pessoas. 
As principais indústrias são as de eletroeletrônicos (televisores, computadores, celula res, aparelhos de som etc.), além das montadoras de motocicletas. Entretanto, a capital do Amazonas não é a única cidade com produção industrial: Belém, capital do Pará, também é um centro industrial importante na região.

Região Norte: última fronteira econômica

Até os anos 1950, a circulação de pessoas e de mercadorias na Região Norte era feita, integralmente, por meio de sua ampla rede hidrográfica. Com a instalação do governo militar no Brasil (1964-1985), foi colocado em prática um plano de incorporação efetiva que pretendia transformar a Amazônia em uma região economicamente produtiva integrada ao restante do país. Para tanto, foi estabeleci do o chamado Plano de Integração Nacional (PIN), que visava, entre outros pontos:
- à construção de rodovias que interligas sem o Norte às demais regiões, principalmente ao Sul e ao Sudeste; 
- à implantação de projetos de colonização agrícola, com a distribuição ou a venda a baixo custo de pequenas, médias e grandes propriedades rurais; 
- à criação de polos de desenvolvimen to industrial e de extração mineral em meio à floresta. 
Para executar o PIN, o governo federal criou a Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). Esse órgão governamental foi res ponsável por viabilizar a implantação dos projetos de colonização e exploração agropecuária e mineral e dos polos de desenvolvimento da Amazônia, como a Zona Franca de Manaus, local para onde a instalação de empresas nacionais e estrangeiras era estimulada devido à isenção de impostos, na periferia da capital amazonense, em plena Floresta Amazônica. Além disso, linhas de crédito foram aprovadas pelo governo por meio do Banco da Amazônia, com baixas taxas de juros, para financiar obras públicas e o estabelecimento de empresas na Região Norte.

Norte: integração pelas rodovias 

A construção de rodovias foi uma das primeiras ações do governo federal, que buscava integrar o Norte às demais regiões brasileiras. Entre as décadas de 1960 e 1980, foram construídas as rodovias Cuiabá-Porto Velho e Cuiabá-Santarém e reestruturada a Belém-Brasília (iniciada nos anos 1950), exemplos dos chamados eixos de integração no sentido sul-norte. 
O governo também projetou vias de penetração no sentido leste-oeste, como as rodovias Transamazônica e Perimetral Norte, que percorreriam, respectivamente, as margens direita e es querda do Rio Amazonas. Contudo, destas últimas, somente a Transamazônica foi parcialmente concluída, ligando o Maranhão ao estado do Amazonas. 

Avanço das atividades florestais e agropecuárias 

A fim de promover o desenvolvimento das atividades florestais e agro pecuárias na região amazônica, além da Sudam, o governo federal criou o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para estabe lecer as diferentes modalidades de ocupação. A maioria delas iniciou-se na década de 1970, sendo implantadas próximas aos grandes eixos rodoviários que rasgavam a floresta. As três principais modalidades de ocupação são:
- agrovilas, núcleos urbano-rurais criados para assentar famílias de migran tes, sobretudo nordestinos, nos estados do Amazonas, Pará e Rondônia. Cada família recebia uma casa e uma pequena área de terra onde plantava produtos de subsistência (milho, mandioca, feijão etc.); 
- propriedades médias rurais, áreas de terras vendidas para empresas de co lonização que visavam, prioritariamente, atrair migrantes sulistas, como paulis tas, paranaenses, gaúchos e catarinenses. As principais áreas de implantação se localizavam nos estados de Rondônia, Tocantins e no norte de Mato Grosso; Agrovilas: 
- grandes propriedades empresariais, imensas extensões de terras públicas vendidas a baixíssimos preços para empresas nacionais e estrangeiras, que buscavam desenvolver atividades ligadas principalmente à extração de madeira nativa e de reflorestamento e à pecuária extensiva.

Agrovilas: um projeto que não prosperou

Entre os objetivos do Plano de Integração Nacional (PIN) esteve o programa de coloniza ção da Região Norte, o qual promoveu a vinda de migrantes do Nordeste e demais regiões brasileiras. Especificamente no trecho da ro dovia Transamazônica, entre os municípios de Altamira e Itaituba, no Pará, foram estabeleci das as chamadas agrovilas. Em áreas de apro ximadamente 100 hectares, eram implantados entre 48 e 64 lotes urbanos para abrigar os colonos assentados. Estes também recebiam lotes rurais, para terem criação e lavoura. 
Além das residências, cada agrovila deveria contar com escolas, posto médico, centro de lazer, entre outros. Ainda que bem elaborado, o pla no governamental não prosperou, pois muitas famílias não se adaptaram a vida em meio à floresta e ao isolamento, deixando posterior mente a região. A primeira agrovila, batizada de Medicilândia (PA), é um dos poucos centros ur banos existentes na região atualmente.

População da Região Norte 

A Região Norte abrange sete estados. Nela concentram-se mais de 18,9 milhões de pessoas (segundo estimativa do IBGE, em 2021). Como se trata de uma região de grande extensão territorial, dominada por densas florestas, há áreas com baixa densidade demográfica.
A maior densidade demográfica é registrada em Manaus e nas proximidades, área localizada no vale do curso médio do Rio Amazonas. Outro alto adensamento popu lacional ocorre na Região Metropolitana de Belém, onde desemboca o Rio Pará. Em média, a Região Norte tem 4 hab./km2. 
Nas proximidades dos rios concentra-se a população ribeirinha, que os utiliza amplamente para transporte e obtenção de alimentos. Aproximadamente 75% da população reside em cidades, em uma região que tem cerca de 450 municípios.
A Região Norte tem dez regiões metropolitanas (dados de 2020): Manaus (AM), Belém (PA), Santarém (PA), Palmas (TO), Gurupi (TO), Macapá (AP), Porto Velho (RO), Capital (RR), Central (RR) e Sul do Estado (RR). 
Nas regiões metropolitanas de Manaus, Belém e Macapá há maior concentração de pessoas e ocorre o desenvolvimento de atividades ligadas aos setores secundário e terciário.
Assim como em outras regiões do país, no Norte há uma expressiva popu lação de imigrantes, além de descendentes de indígenas nativos. Tal como ocorreu com os portugueses – os primeiros colonizadores da região –, houve grande imigração de japoneses. Eles aportaram nas proximidades de Belém, no início do século XX, onde passaram a cultivar pimenta-do-reino e, posterior mente, frutas. 
Os africanos e afrodescendentes estabeleceram-se, sobretudo, nas áreas litorâneas dos estados do Amapá e Pará. 
Há grande população de pardos com ascendência indígena e de brancos europeus. Todas essas etnias têm presença marcante na composição da população da Região Norte. 

Urbanização da Região Norte 

O Norte é a região geográfica brasileira com as menores densidades demográficas. Entretanto, cabe ressaltar que, nas últimas décadas, tem ocorrido um acelerado crescimento de sua população: enquanto a média de crescimento populacional brasileiro foi, no início da década de 2020, de 0,8% ao ano, o índice do Norte foi de aproximadamente 1,6% ao ano, o maior entre as regiões brasileiras. 
Outro recorde de crescimento da região está relacionado à taxa de urbanização, que saltou de 35%, no final da década de 1960, para os atuais 77%. Contudo, diferentemente do que vem ocorrendo com as demais regiões geográficas – em que há concentração da população em cidades de médio e grande porte (com população entre 100 mil e 1 milhão de habitantes ou mais) –, na Região Norte as taxas de urbanização são maiores nas cidades pequenas, com até 50 mil habitantes. As exceções são alguns centros urbanos regionais, na maioria capitais de estado, como Porto Velho, em
Rondônia (cerca de 500 mil habitantes), e Palmas, no Tocantins (cerca de 300 mil habitantes). Existem ainda as duas grandes metrópoles da Amazônia, Belém (Pará) e Manaus (Amazonas), cidades que abrigam, respectivamente, 1,5 milhão e 2 milhões de habitantes aproximadamente.

Problemas urbanos da Região Norte 

O rápido crescimento da população urbana na Região Norte deve-se, em grande parte, aos seguintes fatores:  
- fracasso dos projetos voltados ao assentamento de agricultores em pequenas propriedades rurais; 
- desapropriação de extensas áreas de terras do governo federal para a implantação de grandes projetos e obras de infraestrutura, como estradas e hidrelétricas;  
- expansão das grandes fazendas, da grilagem de terras e de áreas de garimpo, levando à expulsão das populações tradicionais, como posseiros, ribeirinhos e indígenas de seus lugares de origem, obrigando-as a migrar para os centros urbanos. 
Ao chegarem às cidades, a maioria desses migrantes acaba indo morar em locais sem infraestrutura adequada para abrigá-los, por exemplo, ruas sem calçamento e bairros sem sistema de distribuição de água ou de coleta de esgoto. Além disso, nessas cidades não existem moradias e empregos suficientes, o que contribui enormemente para a expansão da miséria e da existência de bairros carentes.

Impactos na Amazônia e na biosfera

Nas últimas décadas, o processo de ocupação da Região Norte, e mais amplamente da Amazônia, foi baseado na implantação de diversos projetos econômicos que visavam à exploração de recursos naturais e à colonização de terras. Esse processo tem provocado, desde então, o desmatamento ou desflorestamento de extensas áreas para a extração de madeira da floresta nativa e a formação de pastos para a criação de gado bovino e o estabelecimento de lavouras, sobretudo de soja. 
O desflorestamento e a introdução de áreas de pastos e de plantações têm impactado diretamente nas atividades extrativas tradicionais no interior, por exemplo, dos territórios indígenas, bem como nos seringais e castanhais, já que destroem os ecossistemas da região. Além disso, o avanço das grandes proprie dades com atividades agropecuárias e madeireiras sobre áreas indígenas e o processo de grilagem de terras têm desestruturado as formas de subsistência e a cultura de centenas de comunidades tradicionais da Amazônia. Tal fato provocou, nas últimas décadas, um intenso movimento migratório para os centros urbanos da Região Norte.

Comunidades tradicionais da Amazônia 

Além dos povos indígenas originários, a Região Norte recebeu, entre a se gunda metade do século XIX e início do século XX, intensos fluxos migratórios de camponeses provenientes, sobretudo, da Região Nordeste. 
Assim, há mais de um século, convivem em meio ao bioma amazônico co munidades indígenas, de ribeirinhos e de quilombolas, que trabalham, por exemplo, como seringueiros, castanheiros e açaizeiros. Esses habitantes desenvolvem, além do extrativismo vegetal, a caça, a pesca e uma pequena agricultura de roçado, gerando recursos para milhares de famílias, com um baixo impacto no meio ambiente regional. 
Outro grupo que se constituiu com a chegada de trabalhadores nordestinos foram os posseiros, agricultores que se instalaram em terras sem uso do governo federal ou mesmo em fazendas improdutivas, desenvolvendo uma agricultura de subsistência, ou seja, produzindo basicamente alimentos para suas famílias. 
Calcula-se que existam atualmente milhares de famílias de pos seiros em toda a Região Norte e na Amazônia de maneira geral, vivendo e pro duzindo sem ter a propriedade da terra.
 
Saberes tradicionais em risco 

Como resultado do processo de ocupação do Norte e da Amazônia, é possível afirmar que existe na região uma grande diversidade sociocultural. Nela convivem cerca de 180 povos indígenas, totalizando aproximadamente 250 mil pessoas, 357 comunidades quilombolas e milhares de comunidades de seringueiros, ribeirinhos, castanheiros, açaizeiros, babaçueiros etc. 
Todos esses povos e comunidades detêm um amplo conhecimento dos fenômenos naturais e da biodiversidade existente nesse bioma. Contudo, os projetos econômicos de ocupação vêm ameaçando o domínio dessas comunidades sobre esses saberes. 
Isso ocorre porque, além de suas terras serem ameaçadas por madeireiros, garimpeiros e fazendeiros, esses povos têm sido vítimas de outra forma de fraude: o roubo de seus conhecimentos práticos a respeito da fauna e da flora amazônicas por universidades e empresas, sobre tudo aquelas dos ramos químico e farmacêutico. Essa prática é conhecida como biopirataria.

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