No Nordeste, a interação entre sociedade
e natureza imprimiu traços marcantes na paisagem e no território.
Por causa da ampla diversidade, o Nordeste foi regionalizado em quatro sub-regiões.
Tendo por base as condições naturais, principalmente o clima, a Região Nordeste pode ser dividida em quatro sub-regiões: a Zona da Mata, o Agreste, o Sertão e o Meio-Norte.
Elas são muito distintas, tanto
no que se refere aos aspectos naturais – originais e transformados – como aos aspectos
culturais, sociais e econômicos.
A Zona da Mata: localização e condições naturais
Chamada também de litoral oriental do Nordeste, a Zona da Mata compreende uma faixa de terras que acompanha o litoral desde o Rio Grande do Norte até o sul da Bahia.
A Zona da Mata é a mais povoada. Seu nome faz referência à Mata Atlântica que
cobria originalmente essa
área. Mais urbanizada das
sub-regiões, é nela que se
concentra o maior número
de indústrias. É uma área
que atrai muitos turistas de
outras regiões do Brasil e do
exterior, por causa de suas
praias. Nela predominam as
grandes propriedades rurais.
Clima
Na Zona da Mata ocorre o clima tropical litorâneo úmido. A tempera tura média anual oscila entre 24 °C e 26 °C, e a precipitação total anual é superior a 1200 milímetros – em algumas áreas, esse número supera os 2000 milímetros. As chuvas se concentram no período entre abril e julho.
Essas características climáticas são influenciadas pelas massas de ar úmidas provenientes do Oceano Atlântico, principalmente a barlavento do Planalto da Borborema e da Serra Geral, no sul da Bahia, onde ocorrem chuvas orográficas. Já na sotavento a umidade diminui, o que contribui para a formação das paisagens semiáridas que caracterizam parte do Agreste e o Sertão.
Relevo e vegetação
O relevo da Zona da Mata é formado, principalmente, por planícies,
onde se localizam praias e tabuleiros litorâneos.
Essa sub-região foi ocupada, no passado, pela Mata Atlântica, o que
explica o nome Zona da Mata. No
decorrer dos mais de cinco séculos de ocupação humana dessa sub-região, a Mata Atlântica foi retirada em quase toda a sua extensão.
No Nordeste, o desmatamento iniciou-se no século XVI, com a chegada
dos colonizadores portugueses, que passaram a explorar o pau-brasil.
Mas foi com a expansão da cultura da cana-de-açúcar e da fabricação de
açúcar na Zona da Mata – atividades responsáveis pela organização inicial do espaço dessa sub-região – que seu desmatamento se acelerou,
ainda no século XVI.
Por séculos, contribuíram para o desmatamento da Mata Atlântica
a cultura do tabaco no Recôncavo Baiano (realizada desde o século XVI),
a criação de gado, o uso da lenha nos lares e nas caldeiras dos engenhos
para a fabricação de açúcar e o processo de urbanização.
No litoral da Zona da Mata, as vegetações costeiras encontram-se bastante alteradas em decorrência da exploração de petróleo, especulação
imobiliária, urbanização, das atividades portuárias e do turismo.
Zona da Mata: as metrópoles
A Zona da Mata é a sub-região mais populosa do Nordeste. Nela se
situam seis capitais de estados: Salvador (BA), Aracaju (SE), Maceió (AL),
Recife (PE), João Pessoa (PB) e Natal (RN).
Entre essas capitais, duas são classificadas pelo IBGE como metrópo
les: Salvador e Recife (Fortaleza, que está localizada no Sertão, também
é uma metrópole). Elas exercem ampla influência no espaço nordestino por oferecerem serviços diversificados, como comerciais, portuários,
médico-hospitalares, educacionais, culturais, turísticos etc., atendendo
habitantes do Agreste e do Sertão.
As capitais dos demais estados nor
destinos são capitais regionais importantes, mas suas áreas de influên
cia são menores que as das metrópoles.
Salvador é a capital mais populosa, seguida por Fortaleza.
Como ocorre em outras cidades do Brasil, as metrópoles do Nordeste
apresentam graves problemas: deficiência em saneamento básico, habitações precárias, poluição de córregos e rios, desigualdade de rendimento entre seus habitantes, entre outros.
Zona da Mata: aspectos gerais da economia
Na Zona da Mata podemos identificar três porções do espaço geográ
fico que se individualizam segundo a
sua produção tradicional: Zona da Mata
açucareira, Zona da Mata cacaueira
e Recôncavo Baiano.
A Zona da Mata açucareira
Essa sub-região é utilizada principalmente para o cultivo da cana-de-açúcar,
importante produto agrícola local desde o período colonial. A cana é cultivada praticamente em todos os estados do litoral oriental, cujos principais produtores são
Pernambuco e Alagoas. Pernambuco ocupa o segundo lugar na produção brasileira de açúcar e álcool, superado apenas pelo estado de São Paulo.
Estende-se desde o Rio Grande do
Norte até as proximidades do município
de Salvador, na Bahia. O espaço é ocupado por latifúndios monocultores de
cana-de-açúcar e por usinas produtoras
de açúcar e álcool. Aí também se localizam as regiões urbanas e industriais importantes de Salvador e do Recife.
Na Região Metropolitana do Recife (municípios de Cabo de Santo Agostinho, Jaboatão dos Guararapes, Paulista e outros), a partir dos anos de
1960, estruturou-se uma importante e
diversificada área industrial. Depois da
Região Metropolitana de Salvador, a do
Recife apresenta a maior produção em
valor industrial do Nordeste.
A Zona da Mata cacaueira
Situa-se no sul da Bahia, e nela se destacam os municípios de Itabu
na e Ilhéus, cujas economias giram em torno do comércio e da exportação de cacau. Sua produção começou a se destacar no início do século XIX, especialmente no litoral sul
da Bahia, nos municípios de Ilhéus e Itabuna.
Cultivado predominantemente em
grandes propriedades, na forma de monocultura para exportação (plantation), o
cacau necessita de sombra (fornecida pela Mata Atlântica) e de muita umidade
para se desenvolver.
Até os anos 1980, o Brasil era um dos principais exportadores mundiais de
cacau. O aumento do consumo interno do produto somado à queda da produção,
causada por problemas no cultivo (como severas estiagens, o ataque de pragas e
o baixo investimento em tecnologia para aumento da produtividade), fizeram com
que a participação das exportações brasileiras no mercado mundial apresentasse
uma queda bastante acentuada. No final dos anos 1990, o Brasil passou a importar o produto.
As dificuldades na produção de cacau levaram muitos agricultores a explorar
madeira ou introduzir outros tipos de cultivo, que acabaram devastando trechos
remanescentes da Mata Atlântica.
Atualmente a sua produção encontra-se em recuperação, após a praga “vassoura-de-bruxa“ ter destruído muitas plantações.
No caso de Ilhéus, o fluxo de turistas e o polo industrial do setor eletroeletrônico (equipamentos para comunicação e informática) mantiveram a economia aquecida.
O Recôncavo Baiano
Abrange vários municípios no entorno de Salvador e, além de ser
uma tradicional e importante área produtora de tabaco, apresenta um polo industrial importante.
O fumo, cujo cultivo requer grande quantidade de mão de obra, também é
um produto de destaque na economia regional nordestina.
O Nordeste dedica-se
sobretudo à produção de fumos escuros, para charutos, contribuindo com mais
de 16% do total nacional. As principais áreas produtoras são: o Recôncavo Baiano;
os municípios de São Félix e Cachoeira, na Bahia; e Arapiraca, em Alagoas, responsável pela maior parte da produção nordestina.
Desde a descoberta de petróleo, em 1939, no Recôncavo Baiano, e da construção da refinaria de petróleo em Mataripe), a economia começou a ser dinamizada.
Na década de 1970, com a implantação do polo petroquímico
de Camaçari, no município de mesmo nome, o crescimento econômico
se acelerou e o processo de industrialização promoveu grande transformação socioeconômica.
Esse polo estimulou a instalação de outras indústrias na Região Metropolitana de Salvador e o desenvolvimento do
comércio e do setor de serviços. Aí são encontradas indústrias dos ramos químico, metalomecânico, madeireiro, têxtil, farmacêutico, eletroe
letrônico, além de indústrias de artefatos de plástico e borracha, de fertilizantes, bebidas, móveis, automóveis, entre outros.
Outro importante complexo industrial do Recôncavo Baiano é o de
Aratu. Localizado nos municípios de Simões Filho e Candeias, destaca-se nos setores químico, têxtil, mineral, plástico, eletroeletrônico, de fertilizantes, bebidas e móveis.
O Agreste: localização e condições naturais
A sub-região do Nordeste denominada Agreste estende-se do Rio
Grande do Norte até o sul da Bahia, entre as sub-regiões da Zona da
Mata e do Sertão.
O Agreste é uma área de transição entre a Zona da Mata, de clima Tropical Úmido, e o Ser
tão, de clima Tropical Semiárido. No Agreste, predominam as pequenas e médias proprie
dades rurais, onde se desenvolvem a policultura (cultivo de diversos tipos de plantas) e a
pecuária leiteira. Seus produtos abastecem, principalmente, o maior mercado consumidor
do Nordeste — a Zona da Mata.
Vegetação
Essa sub-região apresenta algumas áreas semiáridas e outras úmidas.
Nela, há trechos com vegetação de Caatinga, principalmente na porção oeste
(mais próxima do Sertão), onde a pluviosidade é mais baixa que na porção leste (mais próxima do litoral), área coberta por trechos de vegetação mais densa
— arbórea —, sobretudo nos brejos.
Em decorrência de sua localização, o Agreste apresenta diversas paisagens. Nos trechos mais úmidos, restam fragmentos da Mata Tropical, que foi desmatada para a prática da agricultura e da
pecuária. Nas áreas mais secas, a Caatinga, transformada pela ação humana, domina a paisagem.
O relevo e o clima
O Planalto da Borborema é a forma de relevo que caracteriza o
Agreste na sua porção norte. O Agreste ocupa a fachada leste desse
planalto; já a porção oeste corresponde ao Sertão. A fachada leste do
Planalto da Borborema está sujeita ao que resta de umidade dos ventos que sopram de sudeste, que não precipita na Zona da Mata.
Assim,
no Agreste encontramos áreas úmidas semelhantes às da Zona da Mata
ilhadas por áreas secas, com médias de temperatura mais baixas em
virtude das suas altitudes mais elevadas. Essas áreas mais úmidas no
Nordeste recebem o nome de brejos, e nelas não há seca. Possuem,
inclusive, pequenos rios permanentes.
Um exemplo de brejo é o de Garanhuns, situado no Agreste per
nambucano, no Planalto da Borborema. Aí se desenvolveu a cidade
de mesmo nome, Garanhuns, a 822 metros de altitude, com chuvas de
869 milímetros anuais e temperatura média anual de 21 °C.
Em virtude dessas características cli
máticas, a cidade, que possuía 141347
habitantes em 1° de julho de 2021, atrai
turistas do Nordeste e de outras regiões,
principalmente nos meses de junho e
julho, quando as médias de temperatu
ra são mais baixas, em torno de 18 °C.
Garanhuns é um verdadeiro oásis no
meio da paisagem semiárida do Agreste, contrariando a ideia geral de que no
interior do Nordeste há apenas clima
quente e seco.
As cidades do Agreste
Os primeiros povoadores do Agreste foram os criadores de gado
vindos da Zona da Mata, que também introduziram a agricultura para
abastecer de alimentos aquela sub-região. A expansão da atividade
agrícola no Agreste estimulou a interiorização da criação de gado em
direção ao Sertão e ao vale do Rio São Francisco.
Entre os séculos XVI e XVIII, a criação de gado, a agricultura, a mineração
e as missões jesuítas e de outras congregações religiosas foram respon
sáveis pela fundação de vilas que, ao longo do tempo, se transformaram
em cidades.
No Agreste encontram-se cidades importantes, como Campina Grande, na Paraíba; Caruaru e Garanhuns, em Pernambuco; Feira de Santana e Vitória da Conquista, na Bahia.
Nessas cidades, que atraem migrantes de vários municípios, princi
palmente do Sertão, a vida comercial é bastante ativa e o setor de serviços é mais desenvolvido que em cidades menores da rede urbana
do Nordeste.
Agreste: economia
Desde o período colonial, o Agreste assumiu, dentro da divisão territorial da produção, a função de fornecer gêneros agrícolas de subsistência (alimentos), carne, couro, leite e animais (bovinos, equinos, asininos,
caprinos etc.) para a Zona da Mata açucareira.
Vê-se, então, que o espaço
geográfico do Agreste foi construído e reconstruído em função da Zona
da Mata açucareira.
Atualmente, o Agreste continua sendo um espaço de policultura, que
se destaca na produção de milho, arroz, feijão, mandioca, algodão, café,
frutas tropicais e agave.
Continua sendo também uma zona de criação
de gado bovino para abastecer de leite e derivados as cidades da Zona
da Mata e outros mercados.
No período de corte da cana-de-açúcar (período de safra), muitos trabalhadores do Agreste deixam seus minifúndios e se empregam como
temporários nas usinas de cana-de-açúcar da Zona da Mata.
Principalmente nos estados de Pernambuco e da Paraíba, além da pecuária leiteira, pratica-se a agricultura em pequenas e médias propriedades, na forma de policultura, diferentemente do que ocorre no Sertão e na Zona da Mata, onde predominam
as grandes propriedades. Dos vários produtos cultivados nessas áreas, destacam-se
os gêneros alimentícios (feijão, milho, mandioca, batata, hortaliças e outros), que se
destinam ao abastecimento da população local e também da Zona da Mata.
Aqueles
que permanecem nos minifúndios cuidam da escassa produção.
Os centros urbanos do Agreste se destacam na atividade comercial
e em vários outros setores de prestação de serviços,
além de apresentarem certo desenvolvimento industrial, fruto do processo de desconcentração dessa atividade em curso no Brasil.
Sobressaem, ainda, o cultivo do algodão e o do sisal ou agave — planta têxtil
da qual se produz uma fibra utilizada na fabricação de cordas, estofamentos de
veículos e de sofás . Essas culturas de plantas industriais são pratica
das em propriedades de porte médio.
O Sertão: localização e condições naturais
O Sertão é a sub-região mais extensa do Nordeste. Localiza-se entre o
Agreste e o Meio-Norte e se estende até o litoral setentrional do Nordes
te, chegando às praias do Ceará e do Rio Grande do Norte. Nesse litoral de solo arenoso, o cajueiro, cuja exploração mantém muitas famílias, encontra o seu hábitat.
O Sertão apresenta muitos rios temporários e baixo índice pluviométrico, com características de irregularidade,
pois ocorrem longos períodos sem chuva (estiagem). Em
alguns trechos do Sertão, pratica-se a criação de gado e,
em outros, a agricultura, inclusive irrigada, principalmente
no Vale do São Francisco. A vegetação predominante nessa
sub-região é a Caatinga.
Clima
Predomina, no Sertão, o clima tropical semiárido com 6 a 8 meses secos
por ano, como pode ser observado no mapa. Entretanto, existem áreas
onde a semiaridez é mais acentuada, com 9 a 11 meses secos. É esse
o caso de parte do Sertão da Paraíba, onde se localiza Cabaceiras, município brasileiro de menor média anual de chuva (278 milímetros).
No clima tropical semiárido do Sertão, além
de escassas, as chuvas são irregulares e mal distribuídas no decorrer do ano.
Nem todo o Sertão é seco
Assim como ocorre no Agreste, o Sertão também possui áreas úmidas: os brejos. O principal deles é o do Cariri, localizado no sul do Ceará, na base da
encosta norte da Chapada do Araripe.
O Cariri possui fontes de água que possibilitam o de
senvolvimento da agricultura e da criação de gado no ambiente da Caatinga.
No Cariri, desenvolveram-se cidades
importantes, como Crato e Juazeiro do Norte, cuja área de
influência se estende a vários municípios.
Em virtude de suas condições naturais favoráveis, o
Cariri é a segunda porção mais povoada do território do
Ceará, atrás apenas da Região Metropolitana de Fortale
za. Considerando-se o Sertão, o Cariri é a área que tem a
maior densidade demográfica.
Vegetação e relevo
A vegetação nativa do Sertão é a Caatinga, que na língua tupi significa
“mata branca”. Ela se encontra bastante modificada
pela ocupação humana, iniciada na segunda metade do século XVI, com
a criação de gado.
O relevo apresenta diversas altitudes, com chapadas e depressões,
destacando-se a Depressão Sertaneja e do São Francisco, por onde cor
re o importante Rio São Francisco, o grande rio permanente ou perene
(que não seca) que atravessa o Sertão.
O Rio São Francisco
O Rio São Francisco, com 2700 quilômetros
de extensão, nasce na Serra da Canastra, em
Minas Gerais, a mais de 1000 metros de altitu
de, e deságua no Oceano Atlântico, marcando
a divisa entre os estados de Alagoas e Sergipe.
Por ser um rio de planalto, apresenta em seu
curso várias quedas-d’água, que são aproveita
das para a produção de energia elétrica. Ao lon
go de seu curso estão instaladas as usinas hidre
létricas de Paulo Afonso, Itaparica, Sobradinho e
Xingó. O Rio São Francisco é navegável de Pira
pora (MG) até Jua zeiro (BA) e Petrolina (PE), onde
serve de limite entre essas duas cidades.
Destaca-se, também, sua importância para a
pesca, a irrigação de terras e a agricultura de va
zante, realizada sobre os sedimentos deposita
dos pelo rio em suas margens na época de cheia.
Desde o período colonial, o Rio São Francisco tem importante papel na comunicação e no transporte, possibilitando o
intercâmbio entre Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste.
Foi primordial para
a criação de gado, servindo de via para o transporte de alimentos (milho,
carne-seca, feijão, farinha), para o abastecimento da região das minas,
e por ele seguiam escravos e garimpeiros vindos de outras regiões.
Diferentemente de grande parte dos rios do Sertão, que são intermitentes ou temporários, isto é, secam no período de estiagem, o Rio São
Francisco é perene (ou permanente). Apesar da baixa pluviosidade e da
grande evaporação de suas águas no semiárido, e do fato de seus afluentes da margem direita serem temporários, esse rio não seca porque sua
nascente é alimentada pelas chuvas que caem na Serra da Canastra (MG),
e seus afluentes situados em território mineiro também estão em áreas
bem regadas por chuvas.
Esse rio tem sido secularmente alterado pela ação humana. Além da
poluição da água por resíduos industriais, domésticos e de garimpo,
o desmatamento das margens tem causado seu assoreamento.
A transposição das águas do Rio São Francisco
A ideia de desviar parte das águas do Rio São Francisco para irrigar o Sertão surgiu
em 1858. Após essa data, ela foi debatida algumas vezes, sem ter se concretizado.
Em 2004, foi aprovado um projeto para a transposição do Rio São Francisco, e as
obras foram iniciadas em 2008. Parte das águas do rio será bombeada para áreas de al
titudes mais elevadas, em direção a dois eixos, onde correrão por aquedutos e canais
para outros rios, reservatórios e açudes, abastecendo a população do Sertão.
Sertão: economia
Desde o período da economia colonial, desenvolveu-se no Sertão a
criação de gado bovino vindo do Agreste. O Sertão abriga a maior parcela de caprinos do Nordeste, que ocupa o primei
ro lugar na criação de caprinos no Brasil. Quanto ao rebanho bovino, ele é mais
numeroso no estado da Bahia.
As seguintes cidades, entre outras, tiveram sua origem ligada a essa atividade: Brotas de Macaúbas, Brumado, Jaguaquara, Jequié, Morro do Chapéu e São Felipe, localizadas na
Bahia; Oeiras e Paulistana, no Piauí; e Pastos Bons, no Maranhão.
A expansão da criação de gado para o interior do Nordeste ocorreu a partir de Olinda e Recife, em Pernambuco, e de Salvador, na Bahia.
A criação praticada no Sertão é feita em caráter extensivo, em fazendas de
grandes dimensões. Nos períodos de seca, para suprir a falta de espécies vegetais
(plantas forrageiras), são aproveitados alguns tipos de cactos, como o xiquexique, o
mandacaru e o facheiro, que servem de alimento ao gado. Quando, porém, as secas
são mais fortes e duradouras, o gado é conduzido às regiões serranas. O gado sertanejo é de pequeno porte e tem pouco peso, o que o desvaloriza
bastante do ponto de vista comercial.
Poucos produtos agrícolas conseguem se desenvolver sob as condições climáticas do Sertão nordestino, sem o uso intensivo da irrigação. Dois deles são: o
algodão arbóreo e o sisal.
O algodão arbóreo apresenta fibras longas e é de grande valor para a ativi
dade industrial têxtil. Os estados do Ceará, da Paraíba e do Rio Grande do Norte
destacam-se nessa produção.
O sisal, conforme vimos anteriormente, é utilizado para confeccionar cordas,
encher estofamentos e produzir pasta para a indústria de celulose. Cerca de cem
municípios do interior baiano estão ligados à cultura do sisal, que emprega apro
ximadamente 1 milhão de pessoas.
As condições de trabalho, entretanto, são precárias. É grande o número de
casos em que o trabalhador perde os dedos ou mesmo as mãos no processo de
beneficiamento do produto, pois as máquinas utilizadas são arcaicas e não ofere
cem segurança. Além disso, é comum o emprego ilegal de crianças nessa ativida
de, caracterizando o trabalho infantil.
A agricultura sertaneja é praticada
ao longo do curso de alguns rios, nos seus
leitos, no fundo de lagos e lagoas, aprovei
tando o pouco da umidade que resta du
rante a seca. A essas culturas agrícolas
dá-se o nome de cultura de vazante.
Ao longo do curso do rio São Francisco — único que atravessa o Sertão sem
secar —, em alguns trechos, pratica-se
a agricultura com o auxílio da irrigação
(cebola, arroz, cana-de-açúcar, tomate,
etc.).
A fruticultura desenvolveu-se com sucesso
no Sertão graças ao uso de técnicas de irrigação
implantadas a partir dos anos 1980. Duas áreas
se destacam: a do vale do Rio Açu, no Rio Grande do Norte, e a do vale submédio do Rio São
Francisco, onde se localizam dois centros urbanos muito importantes: os municípios de Petrolina (PE) e Juazeiro (BA).
Ali são cultivados uva,
manga, melão, abacaxi, mamão e outras frutas,
que são vendidas aos mercados interno e externo. As áreas irrigadas permitem até quatro safras anuais, dependendo da fruta cultivada.
A produtividade nesse local é a maior do país (a
produtividade da uva, por exemplo, é cerca de 2,5 vezes maior do que em outras
regiões) e sua produção se concentra
em Petrolina (PE) e Juazeiro (BA), municípios limítrofes. As culturas irrigadas do
Vale do rio São Francisco respondem por
cerca de 90% de toda a manga e a uva exportadas pelo Brasil para a Europa e os
Estados Unidos. Também no interior do Rio Grande do Norte, pratica-se intensivamente a agricultura irrigada de frutas, principalmente do melão.
Em Petrolina, uma das principais
fontes de renda e de geração de em
pregos é a agricultura irrigada. Nessa
região, vem crescendo a produção de vinho, que apresenta boa qualidade e tem
recebido prêmios no Brasil e no exterior.
Essas áreas irrigadas, entretanto, são insuficientes para atender todos os agricultores da região. Desse modo, convivem no vale submédio do Rio São Francisco uma agricultura agroexportadora em escala internacional, com forte tendência à concentração da propriedade da terra, e outra baseada em minifúndios que não dispõem de sistemas de irrigação. As famílias proprietárias dos minifúndios constituem a mão de obra assalariada empregada nas grandes propriedades das áreas irrigadas.
As culturas dos projetos de irrigação possibilitaram o aumento dos rendimentos, mas acabaram gerando renda localizada, ou seja, controlada e apropriada
por uma pequena parcela da população, especialmente os donos das terras. Além
disso, a utilização intensiva da irrigação pode ocasionar problemas ambientais,
tanto para o solo como para os rios de onde a água é retirada.
Dessa forma, é
preciso melhorar a distribuição de renda para que um número maior de pessoas
se beneficie desse recurso. Também é necessário avaliar os impactos da irrigação
no solo, como a salinização, e nos rios.
O oeste da Bahia, a região de Barreiras e o sul do Piauí, apesar de
pertencerem à sub-região do Sertão, são cobertos pelo Cerrado. Nessa área, vêm
se desenvolvendo, desde os anos 1980, as culturas da soja, do algodão e do mi
lho, que têm atraído inclusive indústrias alimentícias que utilizam principalmente
a soja como matéria-prima.
Isso vem trazendo transformações socioespaciais significativas, pois
trata-se de uma agricultura moderna apoiada em boa parte na monocultura e
acentuadamente integrada à atividade industrial.
Há também uma forte vincu
lação com o mercado externo, uma vez que parte da produção de soja é destinada às exportações.
Esse processo e toda essa estrutura levaram à concentração da propriedade
rural em amplos trechos dessa porção do Nordeste.
Na década de 1990, particularmente, o oeste baiano passou a ser ocupado
também pelas culturas irrigadas de feijão, arroz e café, este último com os índices
de produtividade bastante elevados para os padrões do Brasil
As questões sociais e políticas da seca
As secas prolongadas são um problema antigo no Nordeste – há
referências a elas desde o século XVI –, e suas implicações sociais e polí
ticas marcam a história da região.
A indústria da seca
Muitas famílias que habitam o semiárido enfrentam dificuldades du
rante os períodos de seca prolongada. Para minimizar esse problema, os
governos federal e estaduais repassam verbas (dinheiro) aos municípios
mais afetados pela falta de chuva para socorrer as vítimas e construir
obras emergenciais, como açudes.
Entretanto, nem sempre o dinheiro é
aplicado de maneira correta. Muitas vezes, parte dessa verba é desviada
por maus políticos que se aproveitam do problema para fazer benfeitorias
em suas propriedades. Esse tipo de prática recebe o nome de “indústria
da seca”.
Por essa razão, iniciativas da sociedade civil organizada buscam desenvolver outras soluções e romper com a lógica assistencialis
ta do “combate à seca” e seus problemas, como é o caso da Articulação
Semiárido Brasileiro (ASA).
Pobreza, migrações e seca
A seca tem sido considerada, de maneira incorreta, a principal causa da
condição de pobreza em que vive uma parcela da população do Nordeste,
da migração de seus habitantes para outras regiões do Brasil ou da existência de famílias de retirantes.
Em verdade, as principais causas são de natureza social e política – os
problemas ocasionados pelas secas poderiam ter sido superados se tivesse havido, historicamente, mais preocupação dos governos federal e
estaduais em combatê-los, uma vez que existem, desde muito tempo,
recursos técnicos disponíveis para isso, como a irrigação de terras.
Cabe ainda lembrar que as secas ocorrem no Sertão e não na Zona
da Mata; porém, nesta última sub-região, por causa da pobreza de boa
parte de sua população, muitos também migram para outras regiões do
Brasil em busca de melhores condições de vida.
O Meio-Norte: localização
e condições naturais
A sub-região do Nordeste denominada Meio--Norte ou Nordeste Ocidental compreende parte
do estado do Piauí e todo o estado do Maranhão.
Vegetação
O Meio-Norte é uma sub-região de transição
entre o Sertão semiárido e a Amazônia úmida (clima equatorial úmido).
Na sua porção oeste predomina a Floresta Amazônica, bastante desmatada pela ocupação humana; na porção sul predomina o Cerrado; na
porção leste predomina a Caatinga; e na porção
centro-norte, a Mata dos Cocais. Em algumas áreas essas paisagens vegetais se misturam.
Nessa sub-região, destacam o extrativismo vegetal (carnaúba e babaçu) e o cultivo do arroz.
Relevo e hidrografia
O Meio-Norte possui terras predominantemente em altitudes baixas (entre 0 e 200 metros); apenas na porção mais ao sul as terras si
tuam-se em altitudes mais elevadas (entre 200 e 500 metros) e, em
pequenos trechos, em altitudes entre 500 e 800 metros, onde nascem
vários rios que formam a rica rede hidrográfica do Meio-Norte.
Destaca-se nessa sub-região o Rio Parnaíba, com extensão de 1414
quilômetros (observe a foto). Ele faz a divisa entre os estados do Piauí e
Maranhão e deságua no Oceano Atlântico. Sua foz, em forma de delta,
localiza-se no município de Parnaíba, onde se encontra o principal porto do estado do Piauí.
Em seu alto curso e em parte do curso médio, é um típico rio de pla
nalto, com várias corredeiras.
Nele, foram construídas a barragem e a Usina
Hidrelétrica de Boa Esperança. O rio é navegável em sua porção de planície,
sobretudo entre Teresina, capital do Piauí, e Parnaíba, no litoral do estado.
Clima
No Meio-Norte predomina o clima
tropical com verão úmido e inverno seco.
No extremo oeste do Maranhão, o clima
é equatorial úmido. As médias térmicas
anuais situam-se entre 24 °C e 26 °C e a
precipitação total anual varia, conforme
a área considerada, de 1000 mm a mais de
2000 mm.
Em São Luís, capital do Maranhão, que se localiza em área litorânea, a
precipitação é elevada (2200 mm anuais). Em Teresina, no
Piauí, a única capital da Região Nordeste
que não se localiza no litoral, a precipitação é menor (1678 mm anuais).
Meio-Norte: construção
inicial do espaço
A construção inicial do espaço geográ
fico do Meio-Norte está relacionada a qua
tro acontecimentos:
• a fundação da cidade de São Luís, em
1612, pelos franceses, que preten
diam ali se fixar, mas que, em 1615, foram expulsos por tropas formadas por
soldados e colonos portugueses e luso-brasileiros. Após a expulsão, os colonos
iniciaram o plantio de cana-de-açúcar
e a produção de açúcar nas imedia
ções de São Luís;
• o povoamento inicial do Piauí, diferen
temente de outras porções do territó
rio brasileiro, foi realizado do interior
para o litoral. Vaqueiros vindos dos cur
rais do Rio São Francisco entraram em
terras que hoje correspondem ao Piauí
e, ao encontrar pastagens naturais, ini
ciaram o povoamento daquela área;
• as expedições de apresamento de indígenas, com o objetivo de trans
formá-los em mão de obra escrava nos engenhos de açúcar de São
Luís e de Pernambuco, favoreceram o surgimento de povoados;
• os aldeamentos indígenas realizados pelos padres jesuítas e de
outras congregações transformaram-se em cidades.
Na segunda metade do século XVIII e no século XIX, o Maranhão teve
maior desenvolvimento e povoamento por causa da introdução do
cultivo de algodão e sua exportação. Data desse período a modernização da cidade de São Luís. Com o dinheiro obtido com a exportação
desse produto, grandes plantadores e comerciantes construíram casarões que podem ser observados ainda hoje.
As capitais regionais
e outras cidades
As duas capitais regionais do Meio-Norte são
Teresina (PI) e São Luís (MA). Em 1o de julho de 2021,
segundo estimativas do IBGE, possuíam respectiva
mente 871126 e 1115932 habitantes. Considerando
a rede urbana do Meio-Norte, outras cidades se des
tacam, como Imperatriz, Codó, Caxias e São José de
Ribamar, no Maranhão, e Parnaíba, no Piauí.
O município de Alcântara, situado na baía de São Marcos,
sobressai pela arquitetura antiga (sua fundação data
de 1755) e por possuir um centro de lançamento de
foguetes espaciais.
Essas cidades, assim como muitas outras no Brasil,
apresentam carência de infraestrutura urbana, que se
estende desde a questão habitacional até a precarie
dade de saneamento básico.
Meio-Norte: economia
No Meio-Norte, através da atividade extrativa, duas espécies de palmeiras constituem fonte de renda para a população:
a carnaúba e o babaçu.
Enquanto a carnaúba é a mais importante no Piauí, o babaçu destaca-se no
Maranhão. Da carnaúba, tudo se aproveita: a madeira, que é resistente; as raízes,
para a obtenção de compostos medicinais; o fruto, que serve de alimento para
o gado; as folhas, com as quais são feitas esteiras e redes; a semente, da qual
se extrai o óleo de cozinha; e a cera, sua principal riqueza, extraída da camada
superficial das folhas. Por toda essa utilidade, a carnaúba é chamada de “árvore
da providência”.
O babaçu é empregado sobretudo na produção de óleos. Dele também são
extraídos o palmito, de cujas folhas são feitos cestos e esteiras, e a amêndoa.
No Maranhão, nos vales dos rios Mearim e Pindaré, sobressai o cultivo do
arroz, que é o principal produto agrícola desse estado.
O Piauí ainda tem tradição na plantação de mamona, que alcançou significativa
produção entre as décadas de 1960 e 1970, destinada à fabricação de óleo de rícino.
Depois desse período, houve uma grande queda no plantio. A tentativa de recuperação apoiada em incentivos do governo federal para a produção de biodiesel acabou
fracassando: 80% da produção desse combustível é realizada a partir da soja.
Até aproximadamente 1960, a economia do Meio-Norte assentava-se na criação de gado, cultura do algodão, extração do babaçu, produção de açúcar, plantio e beneficiamento de arroz e extração da cera de
carnaúba. Era uma economia, portanto, de base agropecuária.
A partir dos anos 1970, iniciou-se, na região, um processo de modernização econômica. Investimentos foram realizados na agropecuária, principalmente por fazendeiros originários da Região Sul, e no extrativismo
vegetal e mineral.
O Maranhão passou a ser o escoadouro das riquezas
minerais da Serra dos Carajás, no estado do Pará. Para tanto, foi construída a Estrada de Ferro Carajás, ligando as jazidas minerais ao Porto
de Itaqui, no Maranhão. Esse porto foi equipado para exportar minério
de ferro e receber navios de grande capacidade de transporte.
A Ferrovia Norte-Sul
Espera-se que outro grande impulso à economia do Meio-Norte seja
dado com a conclusão da construção da Ferrovia Norte-Sul (observe o
mapa). Essa ferrovia faz entroncamento com a Estrada de Ferro Carajás
(EFC), em Açailândia (MA), permitindo acesso ao Porto de Itaqui, em São
Luís (MA). De Açailândia ela segue em direção a Araguaína (TO).
Em sua extensão total, a ferrovia ligará o município de Rio Grande (RS)
a Belém (PA), em um percurso total de 4200 quilômetros.
A produção agropecuária do sul do Maranhão, Piauí e Tocantins (soja,
carne etc.), atualmente com dificuldades de escoamento, deverá se dinamizar com a maior facilidade de acesso ao Porto de Itaqui, que, por
sua localização, facilita a exportação para Europa, Estados Unidos e
Canal do Panamá, por onde se pode chegar até a Ásia.
Além disso, a facili
dade de transporte por essa ferrovia deverá estimular a ocupação de novas terras e o aumento da produção, criando uma nova fronteira agrícola
no Brasil e a reorganização do espaço. A ampliação e a modernização
da infraestrutura do transporte ferroviário promoverão mais avanços
econômicos, integração nacional e competitividade global.
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