A formação histórica e territorial
A superação do período histórico da Idade Média na Europa, marcada pelo
sistema socioeconômico feudal, e o advento da Idade Moderna, caracterizada pelo
surgimento dos Estados Nacionais e Territoriais e do capitalismo comercial, foram
acompanhados da expansão europeia pelo mundo. Essa expansão foi motivada,
principalmente, pela busca de especiarias, pelo interesse na difusão do cristianismo e pelo desejo de estabelecimento de rotas comerciais ainda não controladas
pelos árabes.
O empreendimento das expedições marítimas como projeto político-econômico foi se fortalecendo à medida que os Estados europeus foram se formando.
Portugal foi pioneiro nesse processo, o que possibilitou aos portugueses serem os
primeiros a contornar a África para alcançar as Índias, conquistando uma nova rota
de comércio no mar Mediterrâneo. Na sequência, a Espanha se lançou à aventura
marítima, financiando, em 1492, o navegador genovês Cristóvão Colombo (1451-1506), que entrou para a história como o primeiro europeu a chegar às terras hoje
conhecidas como América.
Nos séculos seguintes, distintos
povos europeus se dedicaram às navegações e impuseram seus domínios
pelo mundo. A América foi paulatina
mente ocupada por portugueses, espanhóis, franceses, ingleses e holandeses, que disputavam entre si a
hegemonia do que consideravam
“Novo Mundo”.
Em comum, o domínio europeu
da América significou o genocídio de
povos ameríndios que habitavam es
sas terras, acompanhado do desloca
mento forçado e da escravização de
pessoas capturadas na África. Entre
tanto, as diferentes formas de conquista e ocupação do continente
americano tiveram desdobramentos
históricos que chegam a nossos dias
e fundamentam a regionalização do
continente em América Latina e
América Anglo-Saxônica.
A expansão comercial
No século XV, a Europa viveu um período de transição entre o feudalismo e o capitalismo comercial. Portugal e Espanha tornaram-se as primeiras nações europeias a navegar pelo oceano Atlântico. Elas se lançaram ao mar em busca de novas rotas marítimas que as levassem ao Oriente e a outros lugares, a fim de explorar riquezas e expandir o comércio de seus produtos. Tal processo ficou conhecido como Grandes Navegações.
Destacamos alguns dos principais objetivos das Grandes Navegações:
- a procura por novas rotas para o comércio das especiarias do Oriente, como pimenta-do-reino, noz-moscada, cravo, canela e gengibre, visto que as rotas terrestres estavam bloqueadas pela ocupação muçulmana da cidade de Constantinopla (atual Istambul, na Turquia);
- a busca por metais preciosos, como ouro e prata, com os quais os monarcas pretendiam cunhar moedas.
Com a expansão comercial, foram descobertas novas terras e novos povos, dando início, então, a um processo de colonização e dominação do mundo pelas nações europeias. As consequências disso foram inúmeros conflitos territoriais entre os colonizadores e os povos que habitavam a região. Os continentes afri cano e americano vivenciaram intensa atividade colonizadora e exploradora nesse período. Portugueses e espanhóis – assim como britânicos e franceses nos séculos XVIII e XIX –, ao encontrarem novos territórios, os quais ofere ciam os recursos que buscavam, deparavam-se com civilizações que já dominavam essas regiões e lutavam para mantê-las e continuar vivendo ali.
A COLONIZAÇÃO NA AMÉRICA
No capitalismo comercial, o papel das novas colônias era fornecer mercadorias a serem comer
cializadas por suas respectivas nações europeias em suas metrópoles, como Portugal, Espanha,
Holanda, Inglaterra e França. Para fazer a distribuição delas, foram criados entrepostos comerciais
em todo o mundo, em um sistema que inaugurou uma organização econômica mundial. Esses
entrepostos foram denominados de feitorias.
O avanço das conquistas europeias no continente americano, tanto na América do Norte
quanto na América do Sul, teve como fatores principais um movimento político estimulado e
financiado pelas coroas europeias e a propagação da fé cristã. Os primeiros a conseguir foram os
espanhóis, representados por Cristóvão Colombo (1451-1506), que chegou ao Caribe em 1492.
Já os portugueses tinham experiências bem-sucedidas nas costas leste e oeste da África
(Moçambique e Angola). O sistema colonial já estava consolidado com base no domínio desses
territórios e dos portos costeiros, que estabeleciam relações entre as colônias africanas.
Um
traço muito característico da colonização da América foi o trabalho escravizado. Em um primeiro
momento, os indígenas foram submetidos a trabalhos forçados; depois, os africanos, que tiveram
seus conhecimentos técnicos e sua força de trabalho explorados em grandes plantações e na
extração de minérios.
Os interesses econômicos na colonização da América
O interesse dos europeus no continente americano era, a princípio, a exploração dos recursos
naturais, principalmente ouro e prata. No entanto, acabaram descobrindo novas áreas de cultivo
para culturas, como a de cana-de-açúcar, e novos produtos, como o tabaco, além de áreas para
a pecuária.
O processo de conquista na América se deu em um violento embate entre potências econômicas e bélicas da Europa e os povos que aqui viviam, os quais lutavam para manter os seus
territórios. As disputas territoriais eram constantes; os embates entre as comunidades indígenas e
os colonizadores, além das epidemias trazidas pelos portugueses, resultaram na morte de milhares
de indígenas que ocupavam aquela região.
A colonização da América inglesa
Muitos ingleses imigraram para a América do Norte, criando colônias ao longo da costa
leste entre o final do século XVI e o início do século XVII.
No século XVII, os ingleses se estabeleceram ao norte do trópico de Câncer e
dividiram a área próxima à faixa litorânea em treze colônias.
O projeto de ocupação dos ingleses
iniciou-se com a atividade de caçadores e mercenários pertencentes à Companhia Virgínia de
Londres (1606) – que fundou Chesapeake e as colônias do Sul – e à Companhia de Plymouth
(1609) – origem da Nova Inglaterra.
À medida que os britânicos prosperavam e expandiam seus territórios nas planícies costeiras,
fundando portos e negociando peles e carnes, mais ingleses chegavam ao novo continente com
suas famílias, incentivados pela chance de prosperidade na nova terra.
As colonizações do Norte (Nova Inglaterra) e do Sul não ocorreram da mesma forma. Na primeira, usavam mão de obra livre, e a propriedade das terras pertencia aos colonos. Na segunda, a economia era baseada no plantio de tabaco e no trabalho escravizado, mais semelhante à lógica colonizadora da América Latina.
Nas colônias do norte, foi adotado o modelo de colonização de
povoamento. As terras foram dis
tribuídas a famílias imigrantes vin
das da Inglaterra, que recebiam um
lote de terra para cultivar, gerou certa autonomia e desenvolvimento econômico da região. Nas
colônias do sul, predominou o mo
delo de exploração, com o objetivo
de fornecer riquezas para a metrópole. Nessas colônias, a agricultura
era praticada no sistema de plantation (grandes propriedades agrícolas monocultoras com uso de
mão de obra africana escravizada). Desse modo, as colônias do sul tiveram mais dificuldade em se desenvolver, ficando economicamen
te atrasadas em relação às colônias
do norte.
Como resultado, na América Anglo-Saxônica, estabeleceu-se o comércio triangular, que
envolvia a colônia americana, a metrópole europeia e a costa africana. A colônia era responsável
pelo envio de matéria-prima, como açúcar, arroz,
tabaco etc. A metrópole
britânica enviava produtos
manufaturados e trocava
produtos por mão de obra
escravizada vinda da costa
africana.
Entre os séculos XVII e XVIII, a população da Nova Inglaterra era constituída de camponeses
expulsos da Europa, de protestantes condenados que fugiam e de renegados pela justiça.
Os
produtos obtidos com as atividades pesqueira e manufatureira, assim como os produtos de cultivo
(por exemplo, alfafa, trigo e centeio), não despertavam o interesse da metrópole, pois também
eram produzidos na Inglaterra. Assim, a falta de produtos tropicais lucrativos para os comerciantes
ingleses propiciou uma relativa autonomia econômica dessas colônias e a gênese de uma estrutura
social estadunidense.
Para além das Treze Colônias,
outras áreas foram dominadas por
franceses, holandeses e espanhóis. Os franceses chegaram aos Grandes Lagos pelo rio São Lourenço e
depois seguiram em direção ao sul até o golfo do México. No norte, criaram a
província de Quebec, que atualmente integra o Canadá. Após alguns conflitos com
os ingleses, um tratado assinado em 1763 entre França e Inglaterra estabeleceu
que essas terras francesas passariam ao domínio inglês.
Os holandeses criaram a cidade que hoje conhecemos como Nova York (Es
tados Unidos), mas que, na época da colonização, se chamava Nova Amsterdã. Seu nome foi alterado quando os holandeses perderam suas terras para os
ingleses.
Os espanhóis dominavam um vasto território que se estendia por toda a faixa
oeste americana, desde o atual sul dos Estados Unidos até o extremo sul continental. As terras americanas sob o domínio espanhol mais ao norte foram perdidas em disputas com os franceses, que as passaram aos ingleses, posteriormente. Parte das terras pertencentes aos espanhóis foi vendida para os Estados Unidos
e outra parte foi perdida.
Aos poucos, a Inglaterra aumentou seus domínios territoriais na parte norte
da América, apesar da resistência de franceses e de povos indígenas, que lutaram
contra a presença “branca” no oeste americano.
O COLONIALISMO ESPANHOL NA AMÉRICA
Os territórios que foram alvo da colonização espanhola iam do oeste dos Estados Unidos até
os países da América Central e até a costa oeste do continente sul-americano.
Inicialmente, os espanhóis organizaram um sistema de saque; depois, passaram a explorar as
jazidas minerais na América Andina e no México. Para isso, desestruturaram politicamente socie
dades pré-colombianas, como os impérios Inca e Asteca, e escravizaram a população, usando-a
como mão de obra na mineração, formando uma rede de circulação de mercadorias para a Coroa
espanhola.
Todas as riquezas exploradas
pela Coroa espanhola eram levadas
diretamente à Espanha, diferente
mente da América Anglo-Saxônica – cuja produção ia para os portos
africanos para compra de escravizados. Essa rota é conhecida como
porto único. Para escoar a produção dos territórios localizados mais
no interior do continente, os colonizadores utilizavam os rios e demais
cursos-d’água.
Usando o trabalho escravizado
dos indígenas, eles formaram uma
rede de circulação de mercadorias
monopolizada pela Coroa, o que
garantia à Espanha direitos exclusivos sobre a América espanhola.
Essa rede de circulação contava
com o curso natural de rios e com
os sistemas de portos únicos – a
Espanha era o único destino das
riquezas embarcadas.
O monopólio da Coroa inibia
o desenvolvimento de outras ativi
dades na colônia, impossibilitando a
formação e o crescimento de uma
economia própria que reunisse todos
os vice-reinos espanhóis da América.
Assim como no processo de colonização por parte da Coroa portuguesa, os povos tradicionais
que habitavam o México, as ilhas centrais e os Andes foram dizimados por causa dos intensos
conflitos com os colonizadores e pelas doenças trazidas nos navios, as quais resultavam em epi
demias. Os territórios asteca e inca foram tomados pelos colonizadores e a população originária já não existe mais.
O COLONIALISMO PORTUGUÊS NA AMÉRICA
Uma das estratégias de Portugal
para ocupar as terras sob seu domínio
foi a transferência de grandes pro
priedades, chamadas de capitanias
hereditárias, a pessoas que se
comprometiam a ocupar, explorar
e administrar o território. Assim, os
portugueses garantiam a ocupação
das terras, ao mesmo tempo que as
protegiam das invasões de outros
povos europeus e de piratas. Os
custos dos empreendimentos coloniais foram, desse modo, transferidos
para particulares.
A divisão das terras em capita
nias hereditárias configurou uma
forma de organização territorial
do período colonial. Para estimular
a ocupação do território, a Coroa
portuguesa autorizou os donatários
a doar grandes extensões de terras
(chamadas de sesmarias) para quem
quisesse cultivá-las.
Inicialmente, a ocupação das
terras se concentrou no litoral, onde
exploravam ouro, pau-brasil e tabaco.
Com as ameaças de invasão do território pelo domínio espanhol, a Coroa
portuguesa iniciou o processo de
interiorização. Nesse período, missio
nários jesuítas e bandeirantes eram
enviados para as expedições rumo ao
interior do território.