Assim como as demais regiões brasileiras, o Nordeste não é homogêneo. Em seu território há uma grande diversidade de paisagens, que podem ser agrupadas em sub-regiões, com condições naturais próprias e diferentes formas de organização das atividades econômicas, muitas delas herança do processo histórico de ocupação do espaço.
A região Nordeste abrange quatro áreas com características diferentes entre si: a Zona da Mata, o Agreste, o Sertão e o Meio-Norte. Essas divisões resultam das características físicas, como o clima e a vegetação.
A Zona da Mata
É a sub-região com a maior densidade demográfica e onde
estão os aglomerados urbanos mais antigos – muitos deles hoje
capitais de estado – e duas das metrópoles regionais mais importantes do país: Recife e Salvador.
Essa sub-região corresponde a uma faixa estreita, originalmente coberta pela Mata Atlântica, onde predomina o clima tropical úmido.
A Zona da Mata estende-se por todo
o litoral oriental do Nordeste, onde as chu
vas são abundantes e os solos, bastante
favoráveis à agricultura. Nos primeiros
tempos da colonização, os portugueses
disseminaram os engenhos e a lavoura de
cana-de-açúcar na Zona da Mata, em vários núcleos, desde a Paraíba até o Recôncavo Baiano, uma região localizada em
torno da Baía de Todos-os-Santos, no es
tado da Bahia, abrangendo o litoral e a área
do interior circundante à baía. A exploração
de gás natural e, mais tarde, de petróleo,
Desde o início de sua ocupação, a Floresta
Tropical tem sido derrubada. No princípio, foi para a extração
de pau-brasil e depois para dar lugar ao cultivo de produtos
agrícolas, como cana-de-açúcar, tabaco e cacau. Porém, no caso
do cultivo do cacau, que ocorre no sul da Bahia, as árvores originais de grande porte foram poupadas para manter a sombra sobre os pés
de cacau, que não se desenvolvem bem quando expostos diretamente ao sol.
O clima e o solo, naturalmente fértil, foram importantes para o desenvolvimento dessas culturas.
A Zona da Mata apresenta um período chuvoso e outro mais seco, típico do
clima tropical, com variação entre as temperaturas máximas e mínimas ao longo
do ano.
A vegetação que predominava era a Mata Atlântica. Porém, desde a chegada
dos portugueses ela passou a ser suprimida para a introdução da cana-de-açúcar.
Além disso, a Zona da Mata concentra a maior parte da população nordestina e
abriga grandes metrópoles, como Salvador e Recife, e outras de menor porte,
como Aracaju.
O sistema de produção da cana-de-açúcar, caracterizado pelo latifúndio
monocultor, foi o principal responsável pela grande concentração fundiária
nessa sub-região.
Atualmente, restam apenas pequenos trechos de vegetação nativa preservados, em sua maior parte transformados em unidades de conservação, como
o Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal (BA) e a Reserva Biológica
Guaribas (PB).
Nessa faixa da região Nordeste estão localizados empreendimentos turísticos
que adotam o modelo Sol e praia, ou seja, a construção de grandes hotéis à beira-mar para exploração turística. A diversidade de feições da costa nordestina permite desde apreciar um manguezal conservado, como no sul da Bahia, até forma
ções sedimentares no Ceará, ou dunas no Rio Grande do Norte.
O Agreste
O Agreste constitui uma faixa de transição entre a Zona da Mata e o Sertão
nordestino e é marcado por uma diversidade de climas e tipos de vegetação. As temperaturas médias variam menos que na Zona da Mata.
Nas áreas mais úmidas predomina uma vegetação com características de Mata
Atlântica, uma floresta tropical com vegetação densa e árvores de vários portes e, nas mais secas, a Caatinga, tipo de vegetação adaptada a longos períodos sem chuva, formada por árvores de pequeno porte e arbustos, inclusive
com algumas variedades de cactos e outras plantas com espinhos.
Desde o período colonial até os dias atuais, a agricultura e a pecuária são
muito comuns no Agreste, que oferece boas condições naturais para o desenvolvimento dessas atividades. Em função disso a vegetação original está
pouco preservada.
A localização do Agreste, próxima
dos principais centros consumidores do
litoral, foi outro fator que estimulou sua
ocupação.
Nos trechos mais úmidos, desenvolveu-se
a produção de uma série de mercadorias bastante procuradas na Zona da Mata e no Sertão,
tais como a rapadura, a farinha de mandioca, o
feijão, o milho e o leite.
Campina Grande, na
Paraíba, é um importante polo industrial e um
município com muitas atividades voltadas à
ciência e tecnologia devido à presença de universidades públicas. Trata-se de um polo de
inovação em diversos campos, com destaque
para o desenvolvimento de aplicativos.
Entre as várias cidades que se desenvolveram no Agreste, destaca-se a de
Caruaru, em Pernambuco, onde existe uma das maiores feiras nordestinas, verdadeira vitrine das atividades regionais.
A feira oferece ao visitante diferentes produtos, vendidos pelos pequenos
produtores agrícolas do Agreste, e uma variedade de itens do artesanato regional:
artigos de couro, palha, fibras ou corda, objetos de madeira e de barro. Ela também
é um evento cultural, com apresentação de cantadores, de repentistas e exposição
de literatura de cordel, que é uma forma de expressão popular muito importante
que trata de temas variados.
Desde o período colonial, as
atividades comerciais deram origem a
importantes cidades dessa sub-região,
como Feira de Santana (BA), Caruaru
(PE) e Campina Grande (PB).
Hoje há uma importante produção
de frutas, grãos, legumes e verduras,
além de leite e derivados, para o abastecimento das grandes cidades da
própria sub-região e da Zona da Mata,
produzidos principalmente em pequenas e médias propriedades familiares.
O Sertão
A principal característica do Sertão nordestino, a mais extensa das sub-regiões
do Nordeste, é o predomínio do clima semiárido e da vegetação de Caatinga.
As temperaturas se mantêm elevadas o ano inteiro e durante alguns meses não
chove, por isso existem alguns rios intermitentes.
Um dos fatores que ajudam a explicar a semiaridez do Sertão nordestino são
as serras localizadas próximo ao litoral. Essas altitudes mais elevadas dificultam
que a umidade vinda do oceano chegue ao interior do continente. Quando encontram com as serras, os ventos úmidos se elevam e ocorre precipitação em
forma de chuva, impedindo que a umidade alcance o Sertão.
O Sertão possui Clima Semiárido, no qual as chuvas são irregulares, e se estende do Ceará ao norte de Minas Ge rais. As chuvas são pouco frequentes pois o planalto da Borborema, que tem pontos que chegam a mais de 1 000 m de altitude, impede que as massas de ar com umidade do oceano cheguem ao Sertão. Por isso essa área apresenta baixa pluviosidade e períodos secos frequentes, que muitas vezes ultrapassam cinco anos. As temperaturas são elevadas na maior parte do sertão.
Nas serras localizadas no Agreste e no Sertão, a variação da altitude provoca
redução nas médias térmicas anuais, tornando o clima bem mais ameno. Cidades
das serras do planalto da Borborema, por
exemplo, apresentam clima com temperaturas mais baixas, principalmente nos
meses de inverno.
No Cariri (nome herdado pela presença do povo cariri que vivia nas terras
que atualmente formam o sul do Ceará),
a chapada do Araripe, localizada entre os estados do Ceará, Pernambuco e Piauí,
permite um microclima diferente do resto do Sertão, com temperaturas um pouco mais baixas e períodos com mais chuvas que o entorno.
A vegetação predominante no Sertão é a Caatinga. No Sertão, a criação de gado é muito antiga. Também existe o cultivo, mas as secas periódicas geram dificuldades de abastecimento e irrigação.
Desde o período colonial, nessa sub-região desenvolve-se a pecuária extensiva, que atualmente é uma atividade em declínio devido ao aumento da produção de carne em outras regiões que proporcionam melhores condições de
criação.
Com a escassez de água, a prática da agricultura no Sertão durante o
ano inteiro só é possível em propriedades próximas aos rios perenes, onde o
solo fica permanentemente úmido, como nos brejos ou em áreas em que há
açudes e canais de irrigação.
Em épocas de seca, parte da população do Sertão tem como alternativa para
abastecimento de água as cacimbas, as cisternas e os açudes. Alguns desses
açudes, apesar de construídos pelos governos estaduais e federal, estão em terras
de grandes fazendeiros que vendem a água aos agricultores ou os deixam utilizá-la desde que votem em seus candidatos nas eleições. Por isso muitos pesquisadores afirmam que o problema do abastecimento de água na região Nordeste não
é a falta de água, mas sim sua distribuição, que depende de fatores políticos. A
chamada indústria da seca consiste em criar infraestrutura de acumulação de água
em terras de grandes proprietários que a repassam a pequenos produtores em
troca de apoio político.
Embora existam poços artesianos, açudes e represas desde o século XIX,
somente nas últimas duas décadas o aumento dos investimentos tem permitido
ampliar a área irrigada e conquistar novas terras para a agricultura.
O Vale do São Francisco, por
exemplo, depende de projetos de irrigação para manter a
produção de frutas para exportação. A água é captada na
margem do rio São Francisco e através de bombas é leva
da até os canais, que cortam a Caatinga, chegando às plan
tações. A produção de frutas tem proporcionado grande
crescimento econômico para a região, contribuindo para a
diversidade de paisagens.
O Meio-Norte
Essa porção da região Nordeste é uma sub-região de transição entre a Caatinga, o Cerrado e a Floresta Amazônica. Originalmente, predominava nessa sub-região a Mata dos Cocais, formada por palmeiras, como a carnaúba e o babaçu, com a presença de Floresta Amazônica na porção oeste do estado do Maranhão e do Cerrado na sua porção centro-sul.
Atualmente, a vegetação original está muito devastada por causa da expansão das atividades agrícolas, principalmente do cultivo de soja e algodão. Da mata original restaram apenas algumas áreas onde se pratica o extrativismo. Da carnaúba são utilizadas as sementes, na produção de óleo para uso industrial, e as folhas, na produção de uma cera utilizada em tintas e cosméticos e na confecção artesanal de cestos e esteiras, já que são fibrosas.
O Meio-Norte abrange o Maranhão e grande parte do Piauí, em
uma área de transição para a Ama
zônia. Isso quer dizer que o clima vai
se tornando cada vez mais quente e
úmido, com um volume cada vez
maior de chuvas, à medida que se
aproxima do limite com o estado do
Pará. Mas em meio a ele existem
localidades como Teresina, capital
do Piauí, que apresenta baixa pluviosidade
Essas características climáticas
refletem-se no tipo de vegetação
predominante no Meio-Norte. Caminhando do Ceará para o Piauí, as paisagens de Caatinga vão cedendo lugar à
Mata de Cocais. Do Maranhão para o Pará, o ambiente da Mata de Cocais vai se
confundindo com uma floresta mais fechada e com maior variedade de espécies,
já em plena Amazônia.
A Mata de Cocais forma a paisagem mais característica do Meio-Norte. No
domínio do coqueiro babaçu e da carnaúba, desenvolve-se
uma atividade extrativista que emprega muitos habitantes da região, tornando-a,
sob muitos aspectos, semelhante à Amazônia. O babaçu e a carnaúba são muito usados na produção industrial.
A agricultura e a pecuária também são atividades bastante tradicionais no
Meio-Norte, confundindo-se com o próprio processo de ocupação da região. A
agricultura, tradicionalmente, situa-se ao longo do Vale do Itapecuru e do Baixo
Mearim, ambos no Maranhão – este último, grande centro de produção de arroz
e algodão. A criação de gado bovino ocupa as terras mais altas dos planaltos,
cobertos pela vegetação de Cerrado.
Atualmente, grandes projetos de extração mineral interligam o Meio-Norte à
Amazônia Oriental. A causa principal dessa interligação é a exploração mineral na
área de fronteira entre o Pará e o Maranhão, que está transformando a realidade
regional. Mas existem outros pontos com exploração mineral e energética no
Nordeste.
A presença de petróleo na costa baiana, potiguar e cearense
é importante e já conta com atividade exploratória. Além disso, tem-se a retirada
de urânio, cromo e ouro em estados nordestinos.
Nessa porção da região Nordeste também há o turismo voltado à exploração
de áreas naturais como o delta do rio Parnaíba (PI), cuja visitação permite ver
mangues e, muitas vezes, conhecer a coleta de caranguejos, usados não só como
fonte de alimentação pela população, mas também comercializados para centros
urbanos.
Outra atração natural são os Lençóis Maranhenses (MA), que permitem
caminhar por dunas e nadar em lagoas formadas por água de chuvas, resultando
em uma bela e dinâmica paisagem que se altera ao longo do ano. Alcântara (MA)
é outro foco de atenção turística pela presença de comunidades negras que
desenvolvem intensa atividade cultural como o tambor de crioula.
Lá também se
encontra o Centro de Lançamento de Alcântara, vinculado à Força Aérea do
Brasil, especializado no lançamento de foguetes que transportam satélites.
No sul do Piauí, as terras mais altas das chapadas, ocupadas pelo Cerrado,
também estão sofrendo profundas transformações graças à agricultura irrigada e
ao uso intensivo de fertilizantes químicos e corretivos da acidez do solo. Esse
processo está produzindo uma paisagem muito parecida com as existentes no
Centro-Oeste.
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