sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

O complexo regional nordestino

Assim como as demais regiões brasileiras, o Nordeste não é homogêneo. Em seu território há uma grande diversidade de paisagens, que podem ser agrupadas em sub-regiões, com condições naturais próprias e diferentes formas de organização das atividades econômicas, muitas delas herança do processo histórico de ocupação do espaço.
A região Nordeste abrange quatro áreas com características diferentes entre si: a Zona da Mata, o Agreste, o Sertão e o Meio-Norte. Essas divisões resultam das características físicas, como o clima e a vegetação.

A Zona da Mata 


É a sub-região com a maior densidade demográfica e onde estão os aglomerados urbanos mais antigos – muitos deles hoje capitais de estado – e duas das metrópoles regionais mais importantes do país: Recife e Salvador. Essa sub-região corresponde a uma faixa estreita, originalmente coberta pela Mata Atlântica, onde predomina o clima tropical úmido. 
A Zona da Mata estende-se por todo o litoral oriental do Nordeste, onde as chu vas são abundantes e os solos, bastante favoráveis à agricultura. Nos primeiros tempos da colonização, os portugueses disseminaram os engenhos e a lavoura de cana-de-açúcar na Zona da Mata, em vários núcleos, desde a Paraíba até o Recôncavo Baiano, uma região localizada em torno da Baía de Todos-os-Santos, no es tado da Bahia, abrangendo o litoral e a área do interior circundante à baía. A exploração de gás natural e, mais tarde, de petróleo,
Desde o início de sua ocupação, a Floresta Tropical tem sido derrubada. No princípio, foi para a extração de pau-brasil e depois para dar lugar ao cultivo de produtos agrícolas, como cana-de-açúcar, tabaco e cacau. Porém, no caso do cultivo do cacau, que ocorre no sul da Bahia, as árvores originais de grande porte foram poupadas para manter a sombra sobre os pés de cacau, que não se desenvolvem bem quando expostos diretamente ao sol. O clima e o solo, naturalmente fértil, foram importantes para o desenvolvimento dessas culturas. 
A Zona da Mata apresenta um período chuvoso e outro mais seco, típico do clima tropical, com variação entre as temperaturas máximas e mínimas ao longo do ano. 
A vegetação que predominava era a Mata Atlântica. Porém, desde a chegada dos portugueses ela passou a ser suprimida para a introdução da cana-de-açúcar. Além disso, a Zona da Mata concentra a maior parte da população nordestina e abriga grandes metrópoles, como Salvador e Recife, e outras de menor porte, como Aracaju. 
O sistema de produção da cana-de-açúcar, caracterizado pelo latifúndio monocultor, foi o principal responsável pela grande concentração fundiária nessa sub-região. Atualmente, restam apenas pequenos trechos de vegetação nativa preservados, em sua maior parte transformados em unidades de conservação, como o Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal (BA) e a Reserva Biológica Guaribas (PB).
Nessa faixa da região Nordeste estão localizados empreendimentos turísticos que adotam o modelo Sol e praia, ou seja, a construção de grandes hotéis à beira-mar para exploração turística. A diversidade de feições da costa nordestina permite desde apreciar um manguezal conservado, como no sul da Bahia, até forma ções sedimentares no Ceará, ou dunas no Rio Grande do Norte.

O Agreste 


O Agreste constitui uma faixa de transição entre a Zona da Mata e o Sertão nordestino e é marcado por uma diversidade de climas e tipos de vegetação. As temperaturas médias variam menos que na Zona da Mata. 
Nas áreas mais úmidas predomina uma vegetação com características de Mata Atlântica, uma floresta tropical com vegetação densa e árvores de vários portes e, nas mais secas, a Caatinga, tipo de vegetação adaptada a longos períodos sem chuva, formada por árvores de pequeno porte e arbustos, inclusive com algumas variedades de cactos e outras plantas com espinhos. 
Desde o período colonial até os dias atuais, a agricultura e a pecuária são muito comuns no Agreste, que oferece boas condições naturais para o desenvolvimento dessas atividades. Em função disso a vegetação original está pouco preservada. A localização do Agreste, próxima dos principais centros consumidores do litoral, foi outro fator que estimulou sua ocupação. 
Nos trechos mais úmidos, desenvolveu-se a produção de uma série de mercadorias bastante procuradas na Zona da Mata e no Sertão, tais como a rapadura, a farinha de mandioca, o feijão, o milho e o leite. 
Campina Grande, na Paraíba, é um importante polo industrial e um município com muitas atividades voltadas à ciência e tecnologia devido à presença de universidades públicas. Trata-se de um polo de inovação em diversos campos, com destaque para o desenvolvimento de aplicativos.
Entre as várias cidades que se desenvolveram no Agreste, destaca-se a de Caruaru, em Pernambuco, onde existe uma das maiores feiras nordestinas, verdadeira vitrine das atividades regionais.
A feira oferece ao visitante diferentes produtos, vendidos pelos pequenos produtores agrícolas do Agreste, e uma variedade de itens do artesanato regional: artigos de couro, palha, fibras ou corda, objetos de madeira e de barro. Ela também é um evento cultural, com apresentação de cantadores, de repentistas e exposição de literatura de cordel, que é uma forma de expressão popular muito importante que trata de temas variados.
Desde o período colonial, as atividades comerciais deram origem a importantes cidades dessa sub-região, como Feira de Santana (BA), Caruaru (PE) e Campina Grande (PB). Hoje há uma importante produção de frutas, grãos, legumes e verduras, além de leite e derivados, para o abastecimento das grandes cidades da própria sub-região e da Zona da Mata, produzidos principalmente em pequenas e médias propriedades familiares.

O Sertão


A principal característica do Sertão nordestino, a mais extensa das sub-regiões do Nordeste, é o predomínio do clima semiárido e da vegetação de Caatinga. As temperaturas se mantêm elevadas o ano inteiro e durante alguns meses não chove, por isso existem alguns rios intermitentes. 
Um dos fatores que ajudam a explicar a semiaridez do Sertão nordestino são as serras localizadas próximo ao litoral. Essas altitudes mais elevadas dificultam que a umidade vinda do oceano chegue ao interior do continente. Quando encontram com as serras, os ventos úmidos se elevam e ocorre precipitação em forma de chuva, impedindo que a umidade alcance o Sertão. 
O Sertão possui Clima Semiárido, no qual as chuvas são irregulares, e se estende do Ceará ao norte de Minas Ge rais. As chuvas são pouco frequentes pois o planalto da Borborema, que tem pontos que chegam a mais de 1 000 m de altitude, impede que as massas de ar com umidade do oceano cheguem ao Sertão. Por isso essa área apresenta baixa pluviosidade e períodos secos frequentes, que muitas vezes ultrapassam cinco anos. As temperaturas são elevadas na maior parte do sertão.
Nas serras localizadas no Agreste e no Sertão, a variação da altitude provoca redução nas médias térmicas anuais, tornando o clima bem mais ameno. Cidades das serras do planalto da Borborema, por exemplo, apresentam clima com temperaturas mais baixas, principalmente nos meses de inverno.
No Cariri (nome herdado pela presença do povo cariri que vivia nas terras que atualmente formam o sul do Ceará), a chapada do Araripe, localizada entre os estados do Ceará, Pernambuco e Piauí, permite um microclima diferente do resto do Sertão, com temperaturas um pouco mais baixas e períodos com mais chuvas que o entorno.
A vegetação predominante no Sertão é a Caatinga. No Sertão, a criação de gado é muito antiga. Também existe o cultivo, mas as secas periódicas geram dificuldades de abastecimento e irrigação. 
Desde o período colonial, nessa sub-região desenvolve-se a pecuária extensiva, que atualmente é uma atividade em declínio devido ao aumento da produção de carne em outras regiões que proporcionam melhores condições de criação. 
Com a escassez de água, a prática da agricultura no Sertão durante o ano inteiro só é possível em propriedades próximas aos rios perenes, onde o solo fica permanentemente úmido, como nos brejos ou em áreas em que há açudes e canais de irrigação. 
Em épocas de seca, parte da população do Sertão tem como alternativa para abastecimento de água as cacimbas, as cisternas e os açudes. Alguns desses açudes, apesar de construídos pelos governos estaduais e federal, estão em terras de grandes fazendeiros que vendem a água aos agricultores ou os deixam utilizá-la desde que votem em seus candidatos nas eleições. Por isso muitos pesquisadores afirmam que o problema do abastecimento de água na região Nordeste não é a falta de água, mas sim sua distribuição, que depende de fatores políticos. A chamada indústria da seca consiste em criar infraestrutura de acumulação de água em terras de grandes proprietários que a repassam a pequenos produtores em troca de apoio político.
Embora existam poços artesianos, açudes e represas desde o século XIX, somente nas últimas duas décadas o aumento dos investimentos tem permitido ampliar a área irrigada e conquistar novas terras para a agricultura. 
O Vale do São Francisco, por exemplo, depende de projetos de irrigação para manter a produção de frutas para exportação. A água é captada na margem do rio São Francisco e através de bombas é leva da até os canais, que cortam a Caatinga, chegando às plan tações. A produção de frutas tem proporcionado grande crescimento econômico para a região, contribuindo para a diversidade de paisagens. 

O Meio-Norte 


Essa porção da região Nordeste é uma sub-região de transição entre a Caatinga, o Cerrado e a Floresta Amazônica. Originalmente, predominava nessa sub-região a Mata dos Cocais, formada por palmeiras, como a carnaúba e o babaçu, com a presença de Floresta Amazônica na porção oeste do estado do Maranhão e do Cerrado na sua porção centro-sul.
Atualmente, a vegetação original está muito devastada por causa da expansão das atividades agrícolas, principalmente do cultivo de soja e algodão. Da mata original restaram apenas algumas áreas onde se pratica o extrativismo. Da carnaúba são utilizadas as sementes, na produção de óleo para uso industrial, e as folhas, na produção de uma cera utilizada em tintas e cosméticos e na confecção artesanal de cestos e esteiras, já que são fibrosas. 
O Meio-Norte abrange o Maranhão e grande parte do Piauí, em uma área de transição para a Ama zônia. Isso quer dizer que o clima vai se tornando cada vez mais quente e úmido, com um volume cada vez maior de chuvas, à medida que se aproxima do limite com o estado do Pará. Mas em meio a ele existem localidades como Teresina, capital do Piauí, que apresenta baixa pluviosidade 
Essas características climáticas refletem-se no tipo de vegetação predominante no Meio-Norte. Caminhando do Ceará para o Piauí, as paisagens de Caatinga vão cedendo lugar à Mata de Cocais. Do Maranhão para o Pará, o ambiente da Mata de Cocais vai se confundindo com uma floresta mais fechada e com maior variedade de espécies, já em plena Amazônia.
A Mata de Cocais forma a paisagem mais característica do Meio-Norte. No domínio do coqueiro babaçu e da carnaúba, desenvolve-se uma atividade extrativista que emprega muitos habitantes da região, tornando-a, sob muitos aspectos, semelhante à Amazônia. O babaçu e a carnaúba são muito usados na produção industrial.
A agricultura e a pecuária também são atividades bastante tradicionais no Meio-Norte, confundindo-se com o próprio processo de ocupação da região. A agricultura, tradicionalmente, situa-se ao longo do Vale do Itapecuru e do Baixo Mearim, ambos no Maranhão – este último, grande centro de produção de arroz e algodão. A criação de gado bovino ocupa as terras mais altas dos planaltos, cobertos pela vegetação de Cerrado. 
Atualmente, grandes projetos de extração mineral interligam o Meio-Norte à Amazônia Oriental. A causa principal dessa interligação é a exploração mineral na área de fronteira entre o Pará e o Maranhão, que está transformando a realidade regional. Mas existem outros pontos com exploração mineral e energética no Nordeste. 
A presença de petróleo na costa baiana, potiguar e cearense é importante e já conta com atividade exploratória. Além disso, tem-se a retirada de urânio, cromo e ouro em estados nordestinos. 
Nessa porção da região Nordeste também há o turismo voltado à exploração de áreas naturais como o delta do rio Parnaíba (PI), cuja visitação permite ver mangues e, muitas vezes, conhecer a coleta de caranguejos, usados não só como fonte de alimentação pela população, mas também comercializados para centros urbanos. 
Outra atração natural são os Lençóis Maranhenses (MA), que permitem caminhar por dunas e nadar em lagoas formadas por água de chuvas, resultando em uma bela e dinâmica paisagem que se altera ao longo do ano. Alcântara (MA) é outro foco de atenção turística pela presença de comunidades negras que desenvolvem intensa atividade cultural como o tambor de crioula. 
Lá também se encontra o Centro de Lançamento de Alcântara, vinculado à Força Aérea do Brasil, especializado no lançamento de foguetes que transportam satélites. No sul do Piauí, as terras mais altas das chapadas, ocupadas pelo Cerrado, também estão sofrendo profundas transformações graças à agricultura irrigada e ao uso intensivo de fertilizantes químicos e corretivos da acidez do solo. Esse processo está produzindo uma paisagem muito parecida com as existentes no Centro-Oeste.



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