O início do povoamento
São Vicente, no litoral do que é hoje o estado de São Paulo, foi o
primeiro núcleo de povoamento permanente instalado pelos por
tugueses no Brasil Colônia. Foi fundado em 1532, por Martim Afonso
de Sousa, comandante da primeira expedição colonizadora enviada por
Portugal.
Foram introduzidas na região a criação de animais, a cultura
da cana-de-açúcar, a agricultura de subsistência e a produção de açúcar.
Em seguida, os portugueses fundaram outros núcleos de povoamento
no litoral do que hoje consideramos a Região Sudeste: Vila Nossa Senho
ra da Vitória, em 1535, que deu origem ao município de Vila Velha; Todos-os-Santos, em 1546, que originou o município de Santos; Vila Nova
do Espírito Santo, em 1551, que se transformou no município de Vitória;
São Sebastião, em 1565, fundado por Estácio de Sá (capitão de uma
armada portuguesa), que deu origem ao município do Rio de Janeiro,
entre outros núcleos.
Após ultrapassar a barreira da Serra do Mar, o padre Manoel da
Nóbrega, superior dos jesuítas no Brasil, acompanhado por José de
Anchieta e outros padres, ergueu, em janeiro de 1554, um barra
cão para a catequese dos indígenas que recebeu o nome de Colé
gio de São Paulo. Localizado no planalto de Piratininga, entre os rios
Tamanduateí e Anhan
gabaú, afluentes do
Rio Tietê, o colégio
deu origem à cidade
de São Paulo. Assim, o povoamento que
antes se restringia ao
litoral instalou-se no
planalto, permitindo o
avanço para o interior
do território.
Da Vila de São Paulo para o interior
Durante os séculos XVI e XVII, a Vila de São Paulo manteve-se pobre e
isolada das áreas mais dinâmicas da economia do Brasil Colônia, como o
Nordeste açucareiro, que liderava a economia. A Vila de São Paulo tinha
poucos habitantes, que se dedicavam principalmente à lavoura de subsistência.
No entanto, foi nesse período que São Paulo se tornou centro
irradiador de bandeiras em direção ao interior com o objetivo de aprisionar indígenas e vendê-los
como escravos para as áreas
açucareiras do Rio de Janeiro, da Bahia e de Pernambuco.
Outras bandeiras se organizaram com o objetivo de descobrir ouro e pedras preciosas,
o que ocorreu por volta de
1695, nas Minas Gerais.
Devem-se a essas expedições armadas o início do po
voamento do interior e o da
construção de espaços ge
ográficos não só no Sudeste, mas também nas atuais
regiões Centro-Oeste e Sul.
O período de ouro
Embora algumas áreas do que viria a ser a região Sudeste tivessem sido ocupadas pelos colonizadores desde o início do século XVI, a primeira atividade econômica que atraiu grande número de pessoas para a região foi a exploração do ouro no fim do século XVII. Além disso, várias expedições, chamadas bandeiras, foram organizadas para percorrer o interior à procura de indígenas e riquezas minerais e também impulsionaram a ocupação.
Com a descoberta de ouro e pedras preciosas nas Minas Gerais, no
final do século XVII, ocorreu intensa migração de pessoas do Nordeste,
de São Paulo e até mesmo de Portugal para a área da mineração.
Por causa da atividade mineradora, a região que atualmente pertence ao estado de Minas Gerais tornou-se importante centro econômico e, no início do século XVIII, começaram a se desenvolver várias cidades.
A atividade mineradora nas Minas Gerais deu origem a vilas que se
transformaram em cidades. É o caso de São José del Rei, atual Tiradentes;
Vila Rica, atual Ouro Preto; Sabará; Ribeirão do Carmo, atual Mariana;
Diamantina e outras.
A exploração do ouro em Minas Gerais motivou a transferência da capital do país de Salvador para o Rio de Janeiro, em 1763, onde se localizava o principal porto de escoamento da produção. Desse modo, os governantes poderiam controlar melhor a produção e a circulação do ouro. O maior volume de produção vinha de Minas Gerais, mas o ouro também foi explorado em Goiás e Mato Grosso, onde a mineração estimulou o surgimento de cidades como Vila Boa (GO), Vila Bela e Vila Real (MT).
À população indígena nativa somaram-se milhares de
Estrada Real – século XVIII
pessoas livres vindas da região que hoje conhecemos
como Nordeste e muitas de Portugal. A maioria da população, no entanto, era composta de africanos escravizados
e seus descendentes, que trabalhavam nas minas.
Para abastecer com alimentos e outros produtos a população que chegava à região das minas, novas áreas co
meçaram a ser ocupadas para produção agrícola e pecuária,
20º S
principalmente no norte do estado de São Paulo, e foram
criadas rotas de tropeiros que levavam charque e muares.
No período da mineração de ouro, as cidades ganharam dinamismo, e a forma de povoamento predominante foi urbana, isto é, as atividades das cidades se desenvol
veram mais rapidamente que as rurais e já havia uma rede
de comunicação entre elas, através das estradas que ligavam as áreas de mineração em Minas Gerais aos portos
do Rio de Janeiro e de Parati.
As cidades brasileiras do período colonial eram muito
parecidas com as cidades portuguesas: caracterizavam-se
por sobrados residenciais geminados (colados uns aos
outros), construídos rente à calçada (sem recuo na frente)
e com quintal nos fundos. Havia também algumas peque
nas hospedarias, lojas, armazéns, sapatarias e, ocasional
mente, joalherias, oficinas de escultura, etc.
Em cidades
como Ouro Preto e Tiradentes muitas construções com
estilo colonial permanecem preservadas, não só por cau
sa da estagnação econômica do final do período de ex
ploração mineral, mas principalmente pelas medidas de
proteção que se seguiram aos seus tombamentos.
Por volta da segunda metade do século XVIII, teve início a decadência da mineração, em virtude, entre outros fatores, do esgotamento dos
aluviões auríferos.
Com isso, a economia mineira regrediu a um nível de autossubsis
tência. O espaço geográfico até então aí construído tornou-se uma área
de repulsão de população: famílias migraram em busca de solos mais
férteis para a prática da agricultura, e muitos se dirigiram para áreas dos
atuais estados de São Paulo e do Rio de Janeiro.
O período do café
Com o declínio da atividade mineradora, buscou-se um produto que
pudesse garantir os ganhos na Colônia. O produto encontrado foi o café,
planta de origem africana introduzida no Pará em 1727 pelo sargento-mor Francisco de Melo Palheta, com mudas trazidas clandestinamente da Guiana Francesa.
A cafeicultura, porém, não trouxe os resultados esperados pelos pro
dutores nos primeiros anos. A produção de grãos de café começou a crescer
somente a partir de 1816. Pouco tempo depois, em 1822, o Brasil conquistou sua independência política em relação a Portugal. O café tornou-se o principal produto agrícola do país na segunda metade do século
XIX.
Desse modo, as imediações da cidade do Rio de Janeiro tornaram-se o centro irradiador da cafeicultura a partir do final do século XVIII.
Daí a cultura do café se expandiu, em períodos diferentes, para o Vale do
Paraíba, em direção a São Paulo, para a Zona da Mata Mineira, para terras
do Espírito Santo e, bem posteriormente, para o Triângulo Mineiro e ou
tras regiões do Brasil, como é o caso do norte do Paraná e de Mato Grosso.
O cultivo de café para exportação foi a atividade econômica que mais se
expandiu na atual região Sudeste na segunda metade do século XIX. Das fazendas do Vale do rio Paraíba do Sul, região onde o cultivo teve início, as tropas
de mulas transportavam o café até o porto.
Nos pontos onde os tropeiros
paravam para descansar, desenvolveram-se várias cidades: Taubaté, Pindamo
nhangaba e Resende são algumas delas.
Os tropeiros desciam a serra do Mar para levar o café até pequenos portos no
litoral, para que fosse transportado para os portos do Rio de Janeiro e de Santos,
de onde seguia para o exterior.
A expansão da cafeicultura do Rio de Janeiro em direção a São Paulo
recuperou a economia do Vale do Paraíba, que atingira certo crescimento na fase áurea da mineração das Minas Gerais. Com a cafeicultura
se deram, então, a reorganização e a reconstrução do espaço geográfico
do Vale do Paraíba.
Esse movimento contribuiu para o desenvolvimento
de algumas cidades portuárias do litoral, como São Sebastião, Ubatuba e Parati, que
já havia sido um importante porto de escoamento da produção mineradora no século XVIII.
Muitas vilas e cidades até então decadentes voltaram a crescer. É o caso de Vassouras e Valença, no Rio de Janeiro, e
Bananal, Areias, Lorena, Guaratinguetá e Taubaté, em São Paulo –
cidades que, como outras da região, continuaram a ser, até 1880, grandes
produtoras de café.
Nessa época, ainda se utilizava mão de obra escrava nas lavouras.
No século XIX, os cafezais se estenderam para o interior de São Paulo e, no
século XX, alcançaram as terras do Oeste paulista e norte do Paraná, colocan
do o Brasil no posto de maior produtor e exportador mundial de café, posição
que ocupa até hoje.
Essa interiorização da produção de café só foi possível com a construção das
ferrovias. Embora o solo de boa parte do Oeste paulista seja muito fértil graças à
terra roxa, seria inviável plantar café a mais de 400 quilômetros do porto de Santos
e transportá-lo no lombo de animais. As ferrovias que ligam o porto de Santos ao
interior chegaram a Jundiaí em 1867, a Campinas em 1872 e a São Carlos em 1884.
No Vale do Paraíba, os cafeicultores utilizaram muita mão de obra escrava.
No entanto, na segunda metade do século XIX, ao mesmo tempo que o café
se tornava o principal produto da economia brasileira e sua área cultivada se
expandia aceleradamente, a Lei Eusébio de Queirós (1850) punha fim ao tráfico de escravos e a Lei Áurea (1888) abolia oficialmente a escravidão no país.
Assim, a partir de 1850 o Brasil incentivou a vinda de imigrantes (principal
mente italianos, mas também espanhóis e, mais tarde, japoneses) para suprir
a demanda de mão de obra nos cafezais do interior paulista.
No fim do século XIX e início do século XX, a cidade de São Paulo tornou-se o centro de comercialização da produção cafeeira, local de residência de
vários “barões do café”, sede de bancos, empresas de importação e exporta
ção e diversos outros serviços.
Com o fim da escravidão, recursos econômicos passaram a ser investidos
em outras atividades, como a modernização dos portos, a instalação de ferro
vias para facilitar o escoamento do café e a aquisição de máquinas para as
indústrias – cujo maior impulso ao crescimento ocorreu nas primeiras décadas
do século XX –, além de promover a diversificação do comércio e dos serviços
nas cidades, sobretudo em São Paulo.
Nas áreas da região Sudeste onde predominou a utilização de mão de obra
assalariada de europeus, principalmente italianos, seus descendentes compõem
grande parcela da população. Devido às más condições de trabalho a que
eram submetidos em muitas das fazendas, muitos imigrantes passaram a viver
nas áreas urbanas, trabalhando como operários nas indústrias que surgiam,
como comerciantes ou prestando algum serviço, já que muitos exerciam alguma profissão no país de origem.
Há também importantes núcleos de descendentes de japoneses no estado de São Paulo, em municípios como Aliança, Bastos e Iguape, que começaram como colônias de pequenos produtores rurais.
Por outro lado, o avanço da cafeicultura provocou imensos desmatamentos na Mata Atlântica que cobria o Vale do Paraíba. Era praticada
a agricultura itinerante, que, no caso da cafeicultura, se caracterizou
pela derrubada da mata, seguida de queimada dos restos da vegetação,
limpeza da área e cultivo das mudas.
Quando o solo não oferecia mais a
produtividade esperada, em virtude de seu esgotamento ou empobrecimento, a área era abandonada e uma nova área era desmatada, repetindo-se o processo.
Assim, a cafeicultura deixou atrás de si destruição ecológica, além de
provocar a decadência de muitas cidades, o que levou o escritor Monteiro
Lobato a chamá-las de “cidades mortas”. Estas somente se recuperariam
por volta de 1940.
Principais características da rede de cidades
A rede de cidades da região Sudeste, que é a mais densa e articulada
do país, não é uniforme. Há uma concentração
de cidades no sudeste de São Paulo, sudoeste do Rio de Janeiro e sul de
Minas Gerais, onde as atividades industriais e agroindustriais são mais dinâmicas.
Essa concentração tem origem na história de ocupação da região
e, entre outras atividades, está relacionada à instalação de fábricas e de
unidades agroindustriais e ao desenvolvimento das atividades terciárias,
que atraíram muitos trabalhadores e promoveram grande crescimento das
cidades nessas áreas. Já no norte de Minas Gerais, por exemplo, onde a
agropecuária é a principal atividade econômica, a rede de cidades é
mais esparsa.
A expansão das duas maiores cidades da região Sudeste originou as duas
maiores regiões metropolitanas do país: a região metropolitana de São Paulo,
criada em 1973, e a região metropolitana do Rio de Janeiro, criada em 1974,
após a fusão do estado da Guanabara com o estado do Rio de Janeiro.
A distribuição populacional é ainda menos uniforme que a distribuição das cidades pelos territórios dos estados da região. Mas, embora as regiões metropoli
tanas do Sudeste concentrem grande parte da população e apresentem as maio
res densidades demográficas, como podemos observar no mapa a seguir, há
importantes cidades de médio e grande porte espalhadas por todo o seu território.
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