As desigualdades no mundo atual
Atualmente, o espaço geográfico mundial é marcado por grandes desigualda
des socioeconômicas. Segundo cálculos realizados pelo Pnud, em 2020, cerca de
83% da população vivia em países com renda per capita menor do que a média
mundial, que era de 15 348 dólares.
Uma das principais causas desse cenário é a distribuição desigual da riqueza, que evidenciam contrastes referentes ao Produto Interno Bruto (PIB), à renda per capita média de diferentes países e que refletem
a grande disparidade econômica entre alguns países do mundo.
Pnud: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, que consiste em uma das agências da Organização das
Nações Unidas (ONU) e está presente em aproximadamente 193 países do mundo.
Produto Interno Bruto: engloba todo valor de bens e serviços, ou seja, toda a riqueza produzida pelas atividades
econômicas dentro do território de um país, de um estado e de um município.
Renda per capita média: é obtida pela divisão do valor do PIB de um país (de um determinado ano) pelo seu número
total de habitantes, o que resulta em uma média.
As desigualdades socioeconômicas podem ser verificadas também internamen
te, entre diferentes grupos que compõem a população de um país. Em 2020, por
exemplo, a soma da riqueza produzida pelos países do mundo era de aproximada
mente 85 trilhões de dólares. Entretanto, apenas 17% da população mundial con
centrava 50 trilhões de dólares. No Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE), pouco mais da metade da população tem rendimento igual ou
inferior a dois salários mínimos, enquanto menos de 1% da população recebe mais
de 20 salários mínimos.
As desigualdades socioeconômicas podem ser percebidas, principalmente, nas
paisagens de diversos países, sobretudo de países em desenvolvimento mais pobres,
como os da América Latina e da África. Analisando a questão habitacional, por exem
plo, verifica-se que, nessas regiões do mundo, onde apenas uma pequena parte da
população vive em moradias de luxo, com acesso à infraestrutura e qualidade de vida, há um grande número de pessoas que enfrenta a falta de moradias ou vive em
moradias precárias, sem infraestrutura, saneamento básico, saúde e educação.
Indicadores sociais
Chamamos de indicadores sociais os dados de uma população que,
quando analisados em conjunto, revelam as condições de vida em determinado território e período. Embora tenham diferentes metodologias de cálculo, os indicadores têm algo em comum: eles mostram uma média, e isso significa que não
são capazes de revelar situações particulares.
Desigualdade de gênero
Desde 2010 o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) coleta e sistematiza dados sobre as condições de vida das mulheres em seus países-membros. O Índice de Desigualdade de Gênero (IDG) leva
em consideração três dimensões da vida das mulheres: a saúde reprodutiva, a capacitação (participação política e escolaridade) e o mercado de trabalho. Com acesso a dados sistematizados, os governos podem identificar a desigualdade de gênero e criar políticas públicas voltadas para sua resolução.
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) foi criado, em 1990, pelo
Pnud, com o objetivo de comparar as condições de vida nos países e de
identificar aqueles que mais necessitam de apoio para reduzir a pobreza
e a exclusão social.
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), indicador estabelecido pela ONU para avaliar o nível de desenvolvimento econômico e social dos países, foi criado por um grupo de especialistas para o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
Expresso em relatórios periódicos, o IDH conta com dados sobre três
dimensões básicas:
• renda, materializada pelo Produto Nacional Bruto (PNB) per capita, isto
é, dividida pelo número de habitantes.
• educação, por meio da média de anos de escolaridade;
• saúde, por meio dos dados de expectativa de vida.
Segundo essa metodologia, os países são classificados em desenvolvimento humano muito elevado, elevado, médio e baixo. E, de tempos
em tempos, o Pnud gera outros indicadores, como igualdade de gênero,
emissão de gases poluentes e outras pressões sobre os recursos naturais, para atualizar o Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH).
O primeiro Relatório do Desenvolvimento Humano foi publicado em 1990, e, desde então, é atualizado anualmente, classificando os países do globo de acordo com seu nível de desenvolvimento econômico e social. É preciso ressaltar que a geração de um volume cada vez maior de riquezas (bens e serviços) não garante melhoria das condições de vida da maioria dos habitantes dos países porque essa riqueza, em geral, é mal distribuída, principalmente nos países em desenvolvimento.
O IDH dos países é divulgado todos os anos, e
a situação de cada um é expressa por uma escala
numérica que varia de 0 a 1. Quanto mais próximo
de 1 se situa o IDH, melhor a situação do país; quan
to mais próximo de zero, pior sua situação.
Nesse cálculo, os países são divididos em quatro grupos: IDH muito elevado
(acima de 0,800), IDH elevado (0,700 a 0,799), IDH médio (0,550 a 0,699) e IDH
baixo (abaixo de 0,550).
Há diversos casos de países que apresentaram expressivo crescimento econômico entre a segunda metade do século XX e este início de século, porém não acompanhado de um desenvolvimento social efetivo, ou seja, com benefícios a toda a população nas áreas de saúde, educação, habitação, saneamento básico, transporte, etc.
Em razão das más condições de vida de parte de suas populações e das fortes desigualdades sociais existentes, países como Brasil, México e Argentina, por exemplo, são classificados como emergentes.
O RDH de 2020 indicou que Noruega, Irlanda e Suíça apresentaram
os mais elevados IDHs, enquanto nas últimas posições estavam Níger,
República Centro-Africana e Chade. O Brasil estava no grupo de países
com IDH elevado, com Cuba, Mongólia e Paraguai, por exemplo.
Para classificar os países, o IDH leva em consideração três dimensões do processo de desenvolvimento humano:
• a longevidade, medida pela expectativa ou esperança de vida ao nascer, con siderando as condições de moradia, saúde e alimentação;
• o conhecimento, que considera a média de anos de escolaridade dos habitan tes com 25 anos ou mais e os anos de escolaridade esperados, ou seja, o número de anos de estudo que se espera de uma criança ao ingressar na escola; • o Rendimento Nacional Bruto (RNB) per capita (por indivíduo) ajustado, que é a renda nacional bruta dividida pelo número de habitantes do país, expressa em dólares, considerando o poder de compra da população.
Embora o IDH não seja um indicador ideal, ele apresenta a vantagem de con siderar o desenvolvimento de forma mais abrangente e avaliar, até certo ponto, o acesso da população aos benefícios proporcionados pelo crescimento econômico. Os indicadores mais gerais de desenvolvimento sempre estiveram limitados ao desempenho econômico, como o PIB ou o PIB per capita.
A consideração do Índice de Riqueza Inclusiva exige uma alteração nos padrões de produção e consumo nos países. Demanda a busca por um desenvolvimento sustentável, ou seja, que atenda às necessidades das populações no presente sem comprometer as demandas das gerações futuras.
Nessa perspectiva, a utilização dos recursos deve ocorrer de acordo com a capacidade de reposição da natureza, de modo que o crescimento econômico não agrida violenta e irreparavelmente os ecossistemas e possa, ao mesmo tempo, equacionar problemas sociais. Desse modo, deve ter como prioridade a diminuição da pobreza e da desigualdade social.
Insegurança alimentar
A Escala de Experiência em Insegurança Alimentar foi desenvolvida
pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês) e visa identificar o número de pessoas sem
acesso regular a alimentos em quantidade suficiente e com qualidade
adequada.
O número de pessoas em situação de insegurança alimentar cresceu
durante a pandemia da covid-19. Segundo dados da ONU, de 2021, cerca
de 811 milhões de pessoas enfrentaram a fome durante o primeiro ano da
pandemia. Aproximadamente 12% da população global esteve em estado
de insegurança alimentar grave nesse período.
Além da fome, a má nutrição é um problema que afeta gravemente a saúde, espe cialmente de crianças e jovens. Cerca de 155 milhões de crianças com menos de 5 anos sofrem atraso de crescimento (estatura baixa para a idade) e 52 milhões apresentam peso abaixo do ideal para sua estatura.
Outro problema relacionado à segurança alimentar é o sobrepeso. A Organi
zação Mundial de Saúde (OMS) calcula que 124 milhões de crianças e jovens (entre
5 e 19 anos) no mundo estejam com sobrepeso, ou seja, com peso acima do con
siderado saudável, a maioria deles em países em desenvolvimento. A obesidade
adulta também é motivo de preocupação.
Essas tendências são resultado das profundas mudanças nos hábitos alimentares da população: o alto consumo de produtos ultraprocessados, ricos em açúcar, gordura e sal, é um dos principais fatores de risco de aumento de peso.
Entre as consequências da obesidade, estão problemas de
saúde crônicos, como diabetes e doenças cardiovasculares. Para tentar reverter
esse cenário, a FAO recomenda que os países da região fortaleçam e ampliem suas
políticas públicas para promover a alimentação saudável.
Acesso à saúde
Um aspecto importante na qualidade de vida de uma população é o acesso à
saúde, que, além de atendimento médico-hospitalar, envolve vacinação, orientação
e saneamento básico.
Os cuidados individuais, como a alimentação saudável e a
prática de exercícios físicos, são importantes, mas, para que todos tenham acesso
à saúde, é preciso que haja investimentos públicos no setor, ou seja, o Estado deve
assumir a tarefa de ampliar e aplicar conhecimentos e recursos para garantir a
saúde de sua população.
De acordo com dados estatísticos do relatório da Organização Mundial da
Saúde (OMS) e do Banco Mundial, de 2017, muitos avanços vêm ocorrendo na área
da saúde em todo o mundo. A taxa de mortalidade infantil, por exemplo, registrou
uma queda de 44% em relação ao ano 2000. Por outro lado, metade da população
mundial ainda não tem acesso a cuidados de saúde essenciais.
Outros problemas de saúde apontados pela OMS são a má qualidade da água,
o saneamento básico precário e a falta de higiene. Essas condições causam a
morte de muitas pessoas, geralmente em comunidades de baixa renda, atingindo
principalmente crianças menores de 5 anos de idade.
Acesso aos recursos naturais
Recursos naturais são elementos encontrados na natureza e aproveitados
pelos seres humanos para sua sobrevivência. Esses recursos podem ser renováveis
ou não renováveis.
Os recursos renováveis são aqueles que se renovam na natureza, como o ar, a
água, a vegetação e a energia solar. Os recursos naturais não renováveis, por sua
vez, são aqueles que existem em quantidade limitada na superfície terrestre e
demoram centenas de milhares de anos para serem repostos na natureza.
São
exemplos os minérios, como o ferro, a bauxita e o ouro, e os combustíveis fósseis,
como o carvão mineral, o gás natural e o petróleo.
A distribuição dos recursos naturais no planeta é desigual: eles podem ser
escassos em algumas áreas e abundantes em outras.
A questão da água
Um grave problema relativo aos recursos naturais é o acesso à água. Mais
uma vez, fatores naturais e, principalmente, fatores humanos contribuem para
que haja uma distribuição espacialmente desigual desse recurso fundamental
à vida.
Estima-se que, do total da água gasta na produção das mercadorias comercializadas no globo, 10% são usados em produtos industrializados, 23% na produção animal e 67% na produção agrícola.
Considerando a produção da alimentação
diária de uma pessoa, são necessários de 2 mil a 5 mil litros de água. A carne
bovina, o leite e seus derivados estão entre os alimentos que exigem maior consumo de água para serem produzidos.
Atualmente, mais de 1,2 bilhão de pessoas vive em áreas com grave escassez
de água e aproximadamente 1,6 bilhão de pessoas vive em bacias hidrográficas
deficitárias, onde a capacidade humana e os recursos financeiros serão provavel
mente insuficientes para desenvolver recursos hídricos adequados.
A projeção
futura é de que a disponibilidade de água no mundo diminua, cenário que deverá
estar associado ao aumento das tensões e conflitos motivados pela disputa por
esse recurso natural.
O acesso à energia
Assegurar a todos o acesso à energia é um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. A Organização das Nações Unidas estima que, atual
mente, quase 1 bilhão de pessoas no mundo vive sem eletricidade, e é possível
que, até 2030, 780 milhões delas continuem sem acesso à rede elétrica.
De maneira geral, essa carência atinge as populações mais pobres: os 75% mais pobres
do mundo utilizam apenas 10% da oferta global. É importante também ressaltar
que 85% das pessoas sem acesso a esse recurso vivem em áreas rurais.
Além da questão do acesso à energia, cabe ressaltar os impactos socioambientais de algumas fontes energéticas. A maior parte da energia consumida
no mundo ainda provém de combustíveis fósseis, recursos naturais não renováveis e altamente poluentes.
Na América Latina, onde as
reservas de água são abundan
tes, há uma enorme produção
de energia limpa, proveniente
das hidrelétricas.
No entanto, as
grandes hidrelétricas são cada
vez mais controversas, pois exigem o alagamento de extensas
áreas. Nos últimos anos, Brasil e
Chile bloquearam diversos projetos hidroelétricos em áreas
ambientalmente sensíveis.
Fontes de energia alternativas, como a eólica, a solar e a
geotérmica, representam ape
nas cerca de 2% da eletricidade gerada na América Latina, em comparação com
uma média mundial de 4%. No entanto, essa participação deverá crescer.
O problema da distribuição de terras no mundo
A distribuição de terras é outro problema que afeta populações em todo o
mundo. Podemos evidenciar esse problema tomando como exemplo a região da
América Latina e Caribe. Dados da FAO revelam que, em 2017, 51,19% da área
agrícola da região era ocupada por 1% das fazendas ou estabelecimentos rurais.
A Colômbia é um dos casos mais extremos: apenas 0,4% das propriedades
concentram mais de 67% da terra produtiva. No Brasil, 45% da área rural se en
contra nas mãos de menos de 1% dos proprietários rurais. A concentração de
terras prejudica a produção de alimentos para subsistência.
Nas grandes propriedades rurais, a produção é voltada principalmente para a
exportação e para os interesses das grandes empresas agroindustriais. Geralmente, seus proprietários detêm poder econômico e político, usufruem de crédito
público e têm acesso a tecnologias modernas de produção agrícola.
No território brasileiro, a pequena produção é responsável por mais de 75%
dos alimentos agrícolas consumidos diariamente. A pequena produção agrícola,
no Brasil e no mundo, de modo geral, carece de acesso a crédito e a tecnologias
modernas de produção, o que encarece os alimentos, prejudicando a qualidade de
vida dos pequenos produtores e da população.
Acesso à moradia
A precarização das condições de vida atinge parcela significativa da população
mundial. Conforme você já observou, a exclusão social se manifesta na
paisagem das grandes cidades. Esse quadro se agrava no contexto de rápido cresci
mento urbano e populacional, contribuindo para intensificar o problema da falta de
moradia, uma das mais graves manifestações da exclusão social nas áreas urbanas.
O preço elevado dos imóveis localizados em áreas com melhor infraestrutura
urbana, somado às altas taxas de desemprego, leva pessoas de baixa renda a
ocupar áreas degradadas ou desprovidas de serviços básicos, geralmente localizadas nas periferias das cidades, ou terrenos desocupados, muitas vezes dando
origem a favelas.
As políticas urbanas e as legislações urbanísticas dos países muitas vezes têm se mostrado incapazes de desenvolver políticas sociais e habitacionais adequadas.
Ao desenvolver programas de moradia, é importante analisar se contribuem para
a integração social e habitacional das pessoas no espaço urbano ou, ao contrário,
se reforçam a exclusão socioespacial.
Nenhum comentário:
Postar um comentário