quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

O caso do Timor Leste

Introdução

Em 1859, portugueses e holandeses, que disputavam o controle do comércio de especiarias no Sudeste Asiático, dividiram a Ilha do Timor. A parte leste da ilha sob domínio de Portugal recebeu o nome de Timor Português, enquanto a parte oeste foi chamada de Timor Ocidental Holandês. Os portugueses exerceram autoridade indireta sobre o Timor Leste, aliando-se à elite local. Com a Revolução dos Cravos, em 1974, o governador do Timor formou uma coligação entre a União Democrática Timorense (UDT) e a Frente Revolucionária de Timor Leste Independente (Fretilin) a fim de discutir os caminhos para a independência da região. Em novembro de 1975, a Fretilin rompeu a coligação e declarou a independência do Timor Leste, mas no mês seguinte o país foi invadido pela Indonésia. O violento conflito durou até 1999, quando foi realizada uma consulta popular que decidiu pela independência do Timor Leste. Até 2002, a ONU permaneceu no país para assegurar a transição para um governo democraticamente eleito.

A época colonial


A ilha foi colonizada, desde o III milênio a.C., por grupos papuas e outras etnias melanésias, como os belu, que estabeleceram uma sociedade estruturada em cinco grandes categorias: os liuari (chefes e reis), os dato (nobres guerreiros), os ema-reino (plebeus livres), os ata (escravos) e os lutum (pastores nômades). Timor era conhecida de chineses e árabes que comerciavam com os autóctones as madeiras preciosas da ilha. Com a chegada dos portugueses, em 1520, iniciaram-se cinco séculos de ocupação colonial, com a resistência dos timorenses, que protagonizaram grandes rebeliões (1719, 1895, 1959), duramente reprimidas pelo poder colonial. Em 1640, Portugal e os Países Baixos, que tinham expulsado os portugueses de Malaca, assinaram um tratado que repartia a ilha entre as duas potências coloniais: os Países Baixos recebiam a parte ocidental de Timor (cedida à Indonésia em 1946) e Portugal mantinha o controle da região oriental. A exploração desmedida dos bosques provocou um verdadeiro desastre ecológico. O desflorestamento tornou a cultura do café a principal atividade econômica da ilha.

O fim do domínio português


Em meados da década de 1960, a oposição independentista de Timor-Leste começou a organizar-se e, em 1974, a luta pela independência estava espalhada por todo o território. O 25 de abril de 1974 teve consequências para o Timor, tendo sido legalizada a oposição independentista, que, em setembro, se unificou na Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente (Fretilin). Apesar das promessas do novo governo português, a administração colonial promoveu a criação da União Democrática de Timor (UDT), partidária de uma federação com Portugal e da manutenção do estatuto colonial. Por seu lado, a Indonésia fez o mesmo com a Associação Popular Democrática de Timor (Apodeti) para favorecer a integração do território na Indonésia. Em agosto de 1975, a UDT promoveu um golpe de Estado. Perante a situação, a Fretilin iniciou uma insurreição geral armada, controlando o país, e em 28 de novembro proclamou a independência criando a República Democrática de Timor-Leste, que não foi reconhecida por Portugal. Em 7 de dezembro, tropas indonésias invadiram o território, que foi anexado à Indonésia (1976) com a aprovação da Assembleia do Povo, formada por membros da UDT e da Apodeti. A anexação não foi reconhecida pela ONU, mas sim pela Austrália (1977).

A ocupação indonésia


A Fretilin, obrigada a abandonar as cidades, continuou a luta armada, apoiada por Portugal e por países socialistas. Em 1978, Nicolau dos Reis Lobato, presidente da República e líder da Fretilin, foi morto em combate. Para acabar com a resistência, a Indonésia aplicou uma brutal política de genocídio que custou a vida a um terço dos timorenses, apesar das solicitações da ONU (1982) para que abandonasse o território. Em 1988, a aliança entre a Fretilin e a UDT levou à formação da Convergência Nacionalista. Em 1989, uma rebelião estudantil provocou graves incidentes em Dili, onde foram destruídas as casas dos oficiais do exército indonésio. A colocação de um cartaz favorável à Fretilin durante a celebração de uma grande missa, rezada em Dili pelo papa João Paulo II, causou uma brutal repressão. O tetum, a língua nacional, foi proibido. Procedeu-se à esterilização forçada de milhares de mulheres timorenses e houve numerosas carnificinas. Por outro lado, foi levada a cabo uma intensa política de transmigração que pretendeu tornar os timorenses uma minoria. Em 1991, durante o enterro pacífico de um estudante assassinado, o exército disparou indiscriminadamente contra a multidão, provocando dezenas de mortos. Organizações internacionais de defesa dos Direitos Humanos acusaram os governos dos EUA, Reino Unido, Austrália, Países Baixos e Japão, cujas empresas detinham participação importante na exploração das jazidas petrolíferas do mar de Timor, de não concederem importância a este genocídio. A Convergência Democrática solicitou ao governo português que intercedesse perante a UE para pôr fim à relação comercial preferencial que mantinha com a Indonésia, no seio da ASEAN. Em novembro de 1992, o líder timorense Xanana Gusmão foi detido. Em 1993, a ONU chamou a atenção para a violação constante dos direitos humanos em Timor-Leste. Três anos depois, José Ramos Horta, um ativista timorense exilado, e o bispo católico D. Ximenes Belo receberam o prêmio Nobel da Paz, apesar dos protestos da Indonésia. Em fevereiro de 1999, o ministro da Informação da Indonésia manifestou a disposição do seu Governo em considerar a independência do Timor se a sua população não aceitasse o projeto de autonomia.

A independência


Em maio de 1999, representantes dos governos de Lisboa e Jacarta acordavam os pormenores do referendo no qual os timorenses deviam decidir entre as duas opções. Semanas antes do referendo, grupos paramilitares pró-indonésios iniciaram uma campanha de terror contra os militantes independentistas que produziu centenas de mortos e a deslocação de milhares de refugiados em direção à parte ocidental da ilha. Finalmente, o presidente indonésio, Habibie, anunciou a libertação de Xanana Gusmão e comprometeu-se em aceitar o resultado do referendo, que ocorreu em 30 de agosto de 1999. Com 98 % de participação, o sim à independência obteve 78 % dos votos. Os paramilitares reiniciaram então as ações terroristas. Duas semanas depois, chegava a Dili uma força de interposição da ONU (Interfet) que travou os paramilitares e tomou posições ao longo da fronteira. Em 25 de outubro foi proclamada a soberania de Timor, com Sérgio Vieira de Melo como presidente da Autoridade de Transição para o Timor. Xanana Gusmão começou por fazer parte do Conselho Consultivo. Em fevereiro de 2000, Vieira de Melo tomou o comando da Interfet. Porém, a atuação dos paramilitares continuou a impedir a chegada de ajuda humanitária aos milhares de refugiados que ainda se encontravam na parte oeste da ilha. Em maio de 2002, Xanana Gusmão foi eleito presidente. Em fevereiro de 2002 o Timor Oriental incorporou-se ao Movimento de Países não-Alinhados (NOAL) e em setembro do mesmo ano a Assembleia Geral da ONU aceitou a adesão do Timor Oriental que foi convertido no Estado-membro 191 das Nações Unidas. Em maio de 2005, Indonésia e Timor Oriental criaram a Comissão para a Verdade e a Amizade, destinada a investigar os crimes e abusos cometidos no país asiático durante o período de ocupação (1976-1999) pelo exército e as milícias paramilitares indonésias. As eleições presidenciais de 2007 deram como vencedor ao primeiro ministro José Ramos-Horta, um dos principais líderes da independência. Depois de tomar posse do cargo, nomeou Gusmão como primeiro ministro. Em 11 de fevereiro de 2008, houve uma tentativa de golpe de Estado liderada por Alfredo Reinado. Os soldados rebeldes, em vários atentados, dispararam contra o primeiro ministro, Xanana Gusmão, que saiu ileso do ataque, e contra o presidente Ramos Horta, que ficou gravemente ferido. Reinado morreu no enfrentamento com o exército e Ramos Horta, gravemente ferido, foi trasladado a um hospital da Austrália, saindo do coma apenas dez dias depois para iniciar recuperação.

Movimentos de identidade africana

Os primeiros movimentos de afirmação da identidade africana ocorreram no fim do século XIX. Em 1897, o advogado trinitino Henry Sylvester Williams fundou a Associação Africana, que organizou a Primeira Conferência Pan-Africana ocorrida em Londres, três anos depois. Os participantes da conferência produziram o documento Comunicado às nações do mundo, no qual reivindicaram que os líderes europeus se posicionassem a favor da luta contra o racismo e garantissem a soberania das colônias na África. Ao longo das primeiras décadas do século XX, o pan-africanismo se fortaleceu, estimulando o diálogo entre intelectuais negros, como o professor estadunidense Burghardt Du Bois e o deputado senegalês Blaise Diagne. Juntos, eles organizaram o Primeiro Congresso Pan-Africano, ocorrido em Paris, em 1919. Os participantes desse congresso defenderam a emancipação gradual das colônias africanas, a ampliação dos direitos civis dos negros estadunidenses e incentivaram os descendentes de africanos a retornar à África.

Em 1934, em Paris, os poetas Aimé Césaire (nascido na Martinica) e Léopold Sédar Senghor (originário do Senegal) lançaram as bases de um movimento literário e político de resgate e revalorização das raízes africanas enfraquecidas após séculos de escravidão e imposição dos valores ocidentais. Os integrantes do movimento nomeado negritude buscavam despertar nos afrodescendentes a consciência de uma identidade comum e reconstruir o orgulho africano. Assim, o sistema colonial na África passou a ser progressivamente contestado, com base na afirmação da negritude positiva e do ideal de união dos povos africanos.

Pan-africanismo 

O pan-africanismo é um movimento cujas raízes ideológicas, do final do século XIX, culminaram em movimentos políticos inicialmente nos Estados Unidos e na região do Caribe, a partir das reivindicações de intelectuais, profissionais liberais e estudantes negros. Para eles, o continente africano deveria ser compreendido como sua pátria, da qual eles foram destituídos. Os primeiros ativistas pan-africanos defendiam a união dos povos africanos da África (aqueles que nasceram e vivem no continente) e da diáspora negra (aqueles que foram escravizados e sujeitados à migração forçada e seus descendentes fora do continente africano). A emancipação deveria ser construída com base em uma luta conjunta contra o colonialismo na África e contra o racismo nos Estados Unidos e no mundo, como nos explica Nei Lopes (1942-), escritor e pesquisador das culturas africanas e afro-brasileiras. Após a realização dos primeiros congressos pan-africanos, o movimento se consolidou em torno da luta de William Edward Burghardt Du Bois (1868-1963), sociólogo e historiador estadunidense. As conferências de Du Bois contribuíram para conscientizar coletivos de negros tanto em diáspora (fora do continente africano) como aqueles que viviam em países da África. Em conjunto com ideias de outros pensadores e pensadoras negros, suas conferências trouxeram diversos argumentos que, posteriormente, ajudaram a mobilizar os processos de independência dos países africanos. O 5 o Congresso Pan-Africano, realizado na cidade inglesa de Manchester, em 1945, contribuiu diretamente para a formação de grupos nacionalistas africanos que lideraram o processo de independência por intermédio da atuação de líderes como o queniano Jomo Kenyatta (1894-1978) e o guineano Sékou Touré (1868-1963). Nos anos 1960, o pensamento pan-africano passou então a orientar a noção de África livre, sem interferências externas, o que acabou por reforçar as identidades políticas dos novos países.

Negritude 

O movimento negritude foi uma corrente cultural relacionada ao pan-africanismo que se difundiu principalmente na África colonial francesa. Esse movimento literário e intelectual questionava, por exemplo, a noção de identidade e o destino dos povos que sofreram com a dominação colonial racista. A ideia de negritude surgiu entre os estudantes negros das colônias francesas da África e da América que estudavam em Paris. A negritude defende que os africanos e seus descendentes devem tomar consciência de sua identidade negra africana, de sua repressão pelo racismo e pela dominação colonial e do patrimônio cultural comum que as pessoas de ascendência africana possuem. Nesse sentido, os escritores desse movimento literário procuravam em suas obras estabelecer pontos de contato e laços entre os negros da Europa, da África e da América. Esses intelectuais, além de valorizar a cultura africana tradicional, combatiam o eurocentrismo, que era resultado do colonialismo europeu e da educação ocidental tradicional. Os valores do movimento negritude eram transmitidos na publicação do jornal L’Étudiant noir (“O estudante negro”, em tradução do francês), fundado em Paris no ano de 1934 e que tinha como editores Aimé Césaire (1913-2008), nativo da Martinica, Léon-Gontran Damas (1912-1978), da Guiana Francesa, e Léopold Sédar Senghor (1906-2001), do Senegal.
Após a Segunda Guerra Mundial, a ideia de negritude começa a ganhar atenção com o aparecimento de outras publicações que promoviam o conceito. O movimento também foi importante ao convencer os jovens africanos a não procurar uma assimilação cultural com as metrópoles europeias. Na década de 1960, depois que a maioriadas colônias francesas conseguiu se emancipar, o movimento negritude começou a perder força e inclusive passou a ser criticado pela geração de escritores negros pós-coloniais.


Ditaduras e neoliberalismo

Nos anos 1970, alguns países com governos militares ditatoriais na América Latina atravessaram um período de relativa prosperidade econômica, impulsionada por fatores externos, como o aumento no preço das commodities. Esses governos obtiveram créditos no exterior para financiar seu desenvolvimento, principalmente do Fundo Monetário Internacional (FMI). Com isso, entre as décadas de 1970 e 1980, a dívida externa desses países aumentou muito.

No final dos anos 1980, a drástica queda no preço das commodities e a má administração pública contribuíram para que uma grave crise econômica se alastrasse pelo continente. Essa crise dificultou o pagamento das dívidas externas, enfraqueceu as ditaduras militares e levou à implantação de políticas neoliberais na região, que foram impostas por credores internacionais como condição de uma renegociação da dívida externa.

De modo geral, o neoliberalismo defende a redução do tamanho do Estado e a ampliação do livre mercado e da iniciativa privada. A “receita” neoliberal defende, por exemplo, a privatização de empresas estatais, o controle da inflação e dos gastos públicos e a desregulamentação da economia. Na maioria dos países da América Latina, a onda neoliberal ocorreu com a redemocratização, após o fim das ditaduras militares, com exceção do caso chileno. Políticas neoliberais foram implantadas, por exemplo:

• no Chile, já durante o governo militar de Augusto Pinochet (1973-1990), que inaugurou essas políticas na América Latina, proibindo manifestações sindicais e privatizando a Previdência Social e algumas empresas estatais;

• no México, pelo governo de Carlos Salinas de Gortari (1988-1994), que promoveu abertura econômica aos Estados Unidos, privatizações e estabilização monetária;

• na Argentina, pelo governo de Carlos Menem (1989-1999), que diminuiu tarifas comerciais, controlou a inflação, diminuiu o número de funcionários públicos para 1/3 do que existia e fixou o valor de 1 peso argentino a 1 dólar;

• no Peru, pelo governo de Alberto Fujimori (1990-2000), que privatizou minas e serviços públicos, controlou a inflação, realizou uma reforma tributária e reduziu os subsídios governamentais.

Alguns economistas apontam que essas políticas tornaram os países da América Latina mais competitivos no mercado globalizado. Porém, houve perdas sociais e trabalhistas, com aumento do desemprego, da pobreza e da concentração de renda. Além disso, esses países ficaram dependentes economicamente dos países desenvolvidos e dos bancos internacionais, nos quais contraíram dívidas imensas.

Cuba contemporânea

Durante a Guerra Fria, Cuba foi favorecida pelas relações comerciais com a União Soviética, que comprava cerca de 60% do açúcar produzido na ilha. Além disso, os soviéticos forneciam aos cubanos uma série de produtos subsidiados, como petróleo, veículos e equipamentos militares. Porém, a partir de 1991, com o fim da União Soviética, a situação econômica de Cuba passou a apresentar dificuldades. Em busca de alternativas, o governo cubano passou a investir na agroecologia e no turismo, e as praias e o patrimônio histórico da ilha passaram a ser as principais atrações. Também foram intensificadas as relações comerciais com a China, a Venezuela e outros países da América Latina.

Depois de décadas no poder, o governo cubano conquistou êxitos no campo social, como a eliminação do analfabetismo, a ampliação do acesso à saúde pública e a redução da taxa de mortalidade infantil. Entretanto, o país permanece sob o controle do Partido Comunista, com um governo ditatorial e personalista, além de enfrentar o sucateamento das instituições e a liberdade política restrita. Fidel Castro ficou à frente do governo por 49 anos. Em fevereiro de 2008, transferiu o poder ao seu irmão, o general Raúl Castro (1931).

Fidel Castro morreu em novembro de 2016, aos 90 anos de idade. Raúl Castro exerceu a presidência de Cuba por 10 anos. Durante seu governo, reduziu o número de funcionários públicos e promoveu abertura econômica parcial, autorizando os cidadãos a trabalhar em lojas particulares e a abrir pequenos negócios, criando zonas de desenvolvimento para a instalação de empresas estrangeiras.

Em dezembro de 2014, Barack Obama, presidente dos Estados Unidos na época, e Raúl Castro anunciaram a retomada das relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos, depois de 53 anos de afastamento entre as duas nações. Em 2018, Raúl Castro transferiu o cargo de presidente de Cuba para Miguel Díaz-Canel. Depois, em 2021, ao completar 90 anos de idade, Raúl Castro também lhe entregou o comando do Partido Comunista.

Uma nova ordem mundial

A desagregação do bloco socialista marcou definitivamente o fim da velha ordem bipolar e a emergência de uma nova ordem mundial. Mas quais seriam as características dessa nova ordem mundial? Como passou a funcionar essa nova configuração internacional do poder? Em um primeiro momento, falava-se muito da “vitória” do capitalismo sobre o socialismo. Afinal, o bloco socialista havia chegado ao fim. Para muitos observadores e analistas que testemunharam os acontecimentos do início dos anos 1990, foi justamente naquele período que teve início o alinhamento ideológico e político de governos e organismos internacionais à hegemonia mundial exercida pelos Estados Unidos. No entanto, a ideia de um mundo unipolar (ou seja, com a supremacia dos Estados Unidos) não se confirmou.

O surgimento de novas potências econômicas, por exemplo, e a rearticulação de potências tradicionais sob novas estruturas de poder deram forma a um cenário internacional cada vez mais complexo e descentralizado. Por isso, a tendência é dizer que a nova ordem mundial se caracteriza por uma configuração de poder multipolar.

Alguns eventos ocorridos a partir da década de 1990 nos mostram isso, como a reestruturação política e econômica da Alemanha após a reunificação; a consolidação da União Europeia; o fortalecimento econômico de potências asiáticas, principalmente da China; o crescimento econômico dos países emergentes, como Rússia, Brasil e Índia; e as graves crises que atingiram as economias mundias entre 2008 e 2011 e, principalmente, entre 2020 e 2021, com a pandemia da covid-19. Se, por um lado, a configuração da nova ordem mundial multipolar evidencia as diferentes correlações de força que estão em disputa pela hegemonia de poder, por outro, é possível perceber a conexão e interdependência econômica entre os diversos países do mundo.

A crise econômica que afetou os Estados Unidos em 2008, por exemplo, especialmente as instituições financeiras e o capital especulativo, teve repercussão global, atingindo as bolsas de valores da maioria dos países. A pandemia da covid-19 que atingiu, a partir de 2020, as diversas populações do globo, teve como consequência uma profunda crise econômica, humanitária, social e de saúde, que também se alastrou mundialmente.

A EXPANSÃO DAS ECONOMIAS EMERGENTES


A descentralização da produção e a expansão econômica dos países emergentes foi estudada pelo banco de desenvolvimento econômico Goldman Sachs, em 2001. A partir do estudo, foram indicados cinco países emergentes com potencial para serem as maiores economias do mundo, junto aos Estados Unidos, nos 50 anos seguintes. Faziam parte dessa estimativa Brasil, Índia, China e Rússia, denominados de BRIC. Em 2011, a África do Sul passou a integrar o grupo de países, formando o que conhecemos por Brics. 
É válido ressaltar que não se trata de um bloco econômico e, sim, um grupo de coopera ção mútua para o desenvolvimento dos países em diversas áreas como ciência, tecnologia, saúde, inovação, infraestrutura, entre outras, totalizando 30 áreas de cooperação entre os membros. 
Uma das ações desenvolvidas para a cooperação entre os países membros foi o Novo Banco de Desenvolvimento do Brics (NDB), criado em 2014, com sede em Xangai. O banco é uma alternativa aos organismos internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, para a concessão de empréstimos e financiamentos de ações em prol de melhorias e desenvolvimento dos países-membros. Em 2021, o NBD forneceu US$ 153 milhões de dólares para o Brasil aumentar e melhorar a malha rodoviária do Pará e US$ 1 bilhão de dólares para a recuperação econômica da África do Sul, pós-pandemia.

O CONSUMO NO CAPITALISMO FINANCEIRO


As mudanças técnicas e tecnológicas nos sistemas de informação e a financeirização da economia proporcionaram mudanças nas práticas de consumo. Um exemplo disso é o uso de sites e aplicativos de compras, que utilizam plataformas de e-commerce (comércio eletrônico) para realizar suas vendas aos clientes. De acordo com dados divulgados pelo relatório da Neotrust, que monitora as vendas em sites e aplicativos, o faturamento nessas plataformas aumentou em 27% entre 2019 e 2021. Cartões de crédito e débito em conta corrente ainda são os líderes entre as formas de paga mento dos brasileiros; porém, em 2021, houve uma pequena queda nos pagamentos com débito em conta corrente em relação a 2020, em função do aumento da escolha pelo Pix.
 No e-commerce, o pagamento dos produtos é realizado de maneira automática, por meio de plataformas digitais que se conectam com os sistemas de crédito articulados às contas bancárias e aos cartões de crédito. Não há utilização física de dinheiro, que circula instantaneamente via informação digital da conta bancária do usuário para a empresa que produziu a mercadoria. 
O banco e as empresas do setor de crédito e cobrança medeiam essa transferência de dinheiro, retendo parte da transação em forma de taxas e juros. Assim, o consumo no capitalismo financeiro se baseia na fluidez, na facilidade do consumidor em ter acesso à mercadoria de que necessita ou que deseja. Para isso, a otimização do tempo é fundamental. A cultura de consumo no capitalismo financeiro conduz a transformações nas relações pro dutivas, o que gera uma série de impactos ambientais, sociais e na organização dos espaços.  

Independências no Oriente Médio

Os processos de independência no Oriente Médio tiveram início ao final da Primeira Guerra Mundial. Com a derrota e a desagregação do Império Turco-Otomano após o conflito, grande parte dos seus domínios no Oriente Médio passou a ser administrada pela Grã-Bretanha e pela França. A Palestina e os atuais Iraque e Jordânia, por exemplo, tornaram-se áreas tuteladas pelos ingleses, enquanto a Síria e o Líbano ficaram subordinados à jurisdição francesa. O processo de independência das nações do Oriente Médio ocorreu de forma gradual. Teve início com a independência do Iraque em 1932 e do Egito em 1936, estendendo-se pela década de 1940. A independência do Líbano se deu em 1943, quando dirigentes políticos libaneses foram libertados pelos franceses e a emancipação do país foi reconhecida. A Jordânia conquistou sua independência em 1946, ao ser assinado o Tratado de Londres entre o governo do Reino Unido e o governo de Abdulá I. Nesse mesmo ano, as últimas tropas francesas se retiraram da Síria, selando a independência do país.

Em 1948, Egito, Líbano, Síria, Jordânia e Iraque, membros da Liga Árabe, aliaram-se na guerra contra o recém-criado Estado israelense, inaugurando os intensos conflitos no Oriente Médio em torno da Questão Palestina.

Os Estados Unidos no mundo contemporâneo

Resultado das políticas neoliberais dos Estados Unidos, a crise econômica de 2008 abalou a confiança no sistema bancário estadunidense e deu origem a movimentos populares que defendiam mudanças radicais no modelo econômico do país. O mais famoso desses movimentos, conhecido como Occupy Wall Street, mobilizou diversas manifestações em diferentes partes dos Estados Unidos a partir de 2011. Os protestos, entretanto, tiveram pouco sucesso, e mudanças efetivas não foram implementadas.

É importante lembrar que Barack Obama, candidato do Partido Democrata, tornou-se o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos, em 2008. Muitos tinham a expectativa de que seu governo tomasse medidas para controlar a ação dos bancos e combater a desigualdade social. Entretanto, do ponto de vista prático, pouca coisa mudou: dados indicam que a parcela de riqueza controlada pelos 10% mais ricos dos Estados Unidos aumentou de 34%, na década de 1990, para 47% em 2017, por exemplo. Isso não significa que o governo Obama não tenha tomado algumas medidas sociais importantes, como a criação de um sistema de saúde destinado às pessoas pobres. Porém, essas medidas foram pontuais e não afetaram diretamente o modelo neoliberal de organização da economia. Do mesmo modo, a gestão Obama deu continuidade à política externa adotada desde os ataques terroristas de 2001. Operações militares em diferentes partes do mundo continuaram sendo organizadas com o objetivo de conter movimentos considerados perigosos para a segurança dos Estados Unidos. Exemplo disso foi a manutenção das tropas estadunidenses no Afeganistão.

A presidência de Donald Trump


Após dois mandatos de Obama, Donald Trump, do Partido Republicano, chegou ao poder em 2016. Durante a campanha eleitoral, Trump criticou a glo - balização, mas defendeu medidas neoliberais mais radicais e a adoção de uma postura ainda mais agressiva contra ameaças externas. Por diversas vezes, em suas redes sociais e nos discursos de campanha, Trump atacou minorias étni - cas e desvalorizou as pautas sociais, raciais e de gênero. O candidato associava aos imigrantes o aumento dos índices de violência dos Estados Unidos, além de atribuir aos estrangeiros a piora nos salários e na qualidade de vida da classe trabalhadora estadunidense. Uma de suas propos - tas era a construção de um muro na fronteira com México. Posteriormente à vitória de Trump, soube-se que sua campanha nas redes sociais foi feita com base em dados de eleitores obtidos de grandes empresas de tecnologia sem o consentimento deles. O fato motivou a discussão sobre a manipulação dos usuários das redes sociais pelos algoritmos das empresas de tecnologia digital, que determinam quais notícias, imagens e mensagens entram automaticamente na rede dos usuários, o que limita sua liberdade de escolha e os envolve em uma bolha de publi - cações que direciona suas ideias e opiniões. O caso tam - bém ampliou os debates sobre o direito à privacidade em diversas partes do mundo.

Principais medidas do Governo Trump


O início da gestão de Trump foi marcado pelo endurecimento das negociações internacionais e pela reversão de medidas sociais da gestão anterior. Além disso, ele defendia a redução dos impostos dos setores mais ricos e o fim de mecanismos estatais de intervenção na economia. Nas relações exteriores, o presidente ampliou a intervenção americana em conflitos internacionais. No Iraque, por exemplo, decidiu intervir no combate ao Estado Islâmico, contrariando a promessa da gestão Obama de não enviar novas tropas àquele país. Já em relação à Coreia do Norte, após surgirem evidências de que o país dominava tecnologia para a produção de mísseis nucleares de longo alcance, Trump ameaçou frequentemente iniciar uma operação militar para derrubar o regime norte-coreano. No contexto da pandemia de covid-19, o presidente Trump negou a disseminação da doença, minimizou os efeitos do coronavírus, além de desencorajar o uso de máscaras e o distanciamento social como forma de combate à propagação do vírus. O presidente estadunidense também fez propaganda de trata - mentos sem eficácia científica e pôs em dúvida a eficácia das vacinas.

Questões raciais nos EUA 


Em 1964, após muita luta dos afro-americanos, a Lei dos Direitos Civis estabeleceu a igualdade de negros e brancos perante a lei e proibiu a discriminação e segregação racial. Diferentes programas de ação afirmativa buscaram equiparar as condições de acesso dos negros a serviços básicos, como saúde e educação. No entanto, ainda hoje os índices de desenvolvimento e emprego mostram que os brancos têm maior escolaridade e renda. Desde 2013, o Black Lives Matter (BLM) – “Vidas Negras Importam”, em português – surgiu nos Estados Unidos como um movimento social de combate ao racismo estrutural. O grupo, por meio das redes sociais, passou a denunciar sistematicamente a violência policial para com as populações negras no país. Em maio de 2020, ainda em meio à pandemia, a morte de George Floyd durante uma abordagem da polícia em Mineápolis mo bilizou milhares de pessoas na luta antirracista nos Estados Unidos e em outras partes do mundo, dando maior visibilidade ao movimento.

A corrida eleitoral e a virada de Biden 


Com Donald Trump, o nível de tensão e a polarização política nos Estados Unidos aumentou consideravelmente. Sem conseguir se reeleger, Trump recusou-se a aceitar a derrota e moveu uma série de ações judiciais para anular o pleito, alegando, sem provas, que havia ocorrido fraude eleitoral. Em 6 de janeiro de 2021, quando o Parlamento iria validar o resultado das eleições, Trump convocou seus partidários a se dirigirem ao Capitólio, em Washington, para protestar e impedir a realização da sessão. Uma multidão violenta invadiu o prédio, gritando palavras de ordem e intimidando os parlamentares. O episódio levou a Câmara dos Deputados a colocar em votação dois pedidos de impeachment contra o, ainda, presidente.

Em 20 de janeiro de 2021, Joe Biden – ex-vice de Obama e membro do Partido Democrata – assumiu a presidência com a “missão” de restabelecer a ordem e reconciliar os estadunidenses. No combate à pandemia, o novo governo investiu na testagem em massa e na campanha de vacinação. Em março daquele ano, Biden conseguiu aprovar no Congresso um pacote de US$ 1,9 trilhão para combater os impactos da pandemia na economia. Em relação à imigração, Biden reviu políticas de seu antecessor e paralisou a construção do muro na fronteira com o México. Em 2021, cerca de 2 milhões de pessoas foram flagradas pelas autoridades cruzando a fronteira, das quais 165 mil eram menores.

Ecologia

O termo “Ecologia” foi empregado pela primeira vez em 1869 pelo biólogo alemão Ernst Haeckel (1834-1919), que combinou a palavra grega oik...