quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Indicadores sociais - O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)

As desigualdades no mundo atual

Atualmente, o espaço geográfico mundial é marcado por grandes desigualda des socioeconômicas. Segundo cálculos realizados pelo Pnud, em 2020, cerca de 83% da população vivia em países com renda per capita menor do que a média mundial, que era de 15 348 dólares. 
Uma das principais causas desse cenário é a distribuição desigual da riqueza, que evidenciam contrastes referentes ao Produto Interno Bruto (PIB), à renda per capita média de diferentes países e que refletem a grande disparidade econômica entre alguns países do mundo.
Pnud: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, que consiste em uma das agências da Organização das Nações Unidas (ONU) e está presente em aproximadamente 193 países do mundo. 
Produto Interno Bruto: engloba todo valor de bens e serviços, ou seja, toda a riqueza produzida pelas atividades econômicas dentro do território de um país, de um estado e de um município. 
Renda per capita média: é obtida pela divisão do valor do PIB de um país (de um determinado ano) pelo seu número total de habitantes, o que resulta em uma média.
As desigualdades socioeconômicas podem ser verificadas também internamen te, entre diferentes grupos que compõem a população de um país. Em 2020, por exemplo, a soma da riqueza produzida pelos países do mundo era de aproximada mente 85 trilhões de dólares. Entretanto, apenas 17% da população mundial con centrava 50 trilhões de dólares. No Brasil, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pouco mais da metade da população tem rendimento igual ou inferior a dois salários mínimos, enquanto menos de 1% da população recebe mais de 20 salários mínimos. 
As desigualdades socioeconômicas podem ser percebidas, principalmente, nas paisagens de diversos países, sobretudo de países em desenvolvimento mais pobres, como os da América Latina e da África. Analisando a questão habitacional, por exem plo, verifica-se que, nessas regiões do mundo, onde apenas uma pequena parte da população vive em moradias de luxo, com acesso à infraestrutura e qualidade de vida, há um grande número de pessoas que enfrenta a falta de moradias ou vive em moradias precárias, sem infraestrutura, saneamento básico, saúde e educação.

Indicadores sociais

Chamamos de indicadores sociais os dados de uma população que, quando analisados em conjunto, revelam as condições de vida em determinado território e período. Embora tenham diferentes metodologias de cálculo, os indicadores têm algo em comum: eles mostram uma média, e isso significa que não são capazes de revelar situações particulares. 

Desigualdade de gênero 

Desde 2010 o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) coleta e sistematiza dados sobre as condições de vida das mulheres em seus países-membros.  O Índice de Desigualdade de Gênero (IDG) leva em consideração três dimensões da vida das mulheres: a saúde reprodutiva, a capacitação (participação política e escolaridade) e o mercado de trabalho.  Com acesso a dados sistematizados, os governos podem identificar a desigualdade de gênero e criar políticas públicas voltadas para sua resolução. 

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) foi criado, em 1990, pelo Pnud, com o objetivo de comparar as condições de vida nos países e de identificar aqueles que mais necessitam de apoio para reduzir a pobreza e a exclusão social. 
O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), indicador estabelecido pela ONU para avaliar o nível de desenvolvimento econômico e social dos países, foi criado por um grupo de especialistas para o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).
Expresso em relatórios periódicos, o IDH conta com dados sobre três dimensões básicas:
• renda, materializada pelo Produto Nacional Bruto (PNB) per capita, isto é, dividida pelo número de habitantes. 
• educação, por meio da média de anos de escolaridade; 
• saúde, por meio dos dados de expectativa de vida.
Segundo essa metodologia, os países são classificados em desenvolvimento humano muito elevado, elevado, médio e baixo. E, de tempos em tempos, o Pnud gera outros indicadores, como igualdade de gênero, emissão de gases poluentes e outras pressões sobre os recursos naturais, para atualizar o Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH). 
O primeiro Relatório do Desenvolvimento Humano foi publicado em 1990, e, desde então, é atualizado anualmente, classificando os países do globo de acordo com seu nível de desenvolvimento econômico e social. É preciso ressaltar que a geração de um volume cada vez maior de riquezas (bens e serviços) não garante melhoria das condições de vida da maioria dos habitantes dos países porque essa riqueza, em geral, é mal distribuída, principalmente nos países em desenvolvimento. 
O IDH dos países é divulgado todos os anos, e a situação de cada um é expressa por uma escala numérica que varia de 0 a 1. Quanto mais próximo de 1 se situa o IDH, melhor a situação do país; quan to mais próximo de zero, pior sua situação.
Nesse cálculo, os países são divididos em quatro grupos: IDH muito elevado (acima de 0,800), IDH elevado (0,700 a 0,799), IDH médio (0,550 a 0,699) e IDH baixo (abaixo de 0,550). 
Há diversos casos de países que apresentaram expressivo crescimento econômico entre a segunda metade do século XX e este início de século, porém não acompanhado de um desenvolvimento social efetivo, ou seja, com benefícios a toda a população nas áreas de saúde, educação, habitação, saneamento básico, transporte, etc. 
Em razão das más condições de vida de parte de suas populações e das fortes desigualdades sociais existentes, países como Brasil, México e Argentina, por exemplo, são classificados como emergentes.
O RDH de 2020 indicou que Noruega, Irlanda e Suíça apresentaram os mais elevados IDHs, enquanto nas últimas posições estavam Níger, República Centro-Africana e Chade. O Brasil estava no grupo de países com IDH elevado, com Cuba, Mongólia e Paraguai, por exemplo. 
Para classificar os países, o IDH leva em consideração três dimensões do processo de desenvolvimento humano: 
• a longevidade, medida pela expectativa ou esperança de vida ao nascer, con siderando as condições de moradia, saúde e alimentação; 
• o conhecimento, que considera a média de anos de escolaridade dos habitan tes com 25 anos ou mais e os anos de escolaridade esperados, ou seja, o número de anos de estudo que se espera de uma criança ao ingressar na escola; • o Rendimento Nacional Bruto (RNB) per capita (por indivíduo) ajustado, que é a renda nacional bruta dividida pelo número de habitantes do país, expressa em dólares, considerando o poder de compra da população.
Embora o IDH não seja um indicador ideal, ele apresenta a vantagem de con siderar o desenvolvimento de forma mais abrangente e avaliar, até certo ponto, o acesso da população aos benefícios proporcionados pelo crescimento econômico. Os indicadores mais gerais de desenvolvimento sempre estiveram limitados ao desempenho econômico, como o PIB ou o PIB per capita. 
A consideração do Índice de Riqueza Inclusiva exige uma alteração nos padrões de produção e consumo nos países. Demanda a busca por um desenvolvimento sustentável, ou seja, que atenda às necessidades das populações no presente sem comprometer as demandas das gerações futuras. 
Nessa perspectiva, a utilização dos recursos deve ocorrer de acordo com a capacidade de reposição da natureza, de modo que o crescimento econômico não agrida violenta e irreparavelmente os ecossistemas e possa, ao mesmo tempo, equacionar problemas sociais. Desse modo, deve ter como prioridade a diminuição da pobreza e da desigualdade social.

Insegurança alimentar

A Escala de Experiência em Insegurança Alimentar foi desenvolvida pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês) e visa identificar o número de pessoas sem acesso regular a alimentos em quantidade suficiente e com qualidade adequada. 
O número de pessoas em situação de insegurança alimentar cresceu durante a pandemia da covid-19. Segundo dados da ONU, de 2021, cerca de 811 milhões de pessoas enfrentaram a fome durante o primeiro ano da pandemia. Aproximadamente 12% da população global esteve em estado de insegurança alimentar grave nesse período.
Além da fome, a má nutrição é um problema que afeta gravemente a saúde, espe cialmente de crianças e jovens. Cerca de 155  milhões de crianças com menos de 5 anos sofrem atraso de crescimento (estatura baixa para a idade) e 52 milhões apresentam peso abaixo do ideal para sua estatura.
Outro problema relacionado à segurança alimentar é o sobrepeso. A Organi zação Mundial de Saúde (OMS) calcula que 124 milhões de crianças e jovens (entre 5 e 19 anos) no mundo estejam com sobrepeso, ou seja, com peso acima do con siderado saudável, a maioria deles em países em desenvolvimento. A obesidade adulta também é motivo de preocupação.
Essas tendências são resultado das profundas mudanças nos hábitos alimentares da população: o alto consumo de produtos ultraprocessados, ricos em açúcar, gordura e sal, é um dos principais fatores de risco de aumento de peso. 
Entre as consequências da obesidade, estão problemas de saúde crônicos, como diabetes e doenças cardiovasculares. Para tentar reverter esse cenário, a FAO recomenda que os países da região fortaleçam e ampliem suas políticas públicas para promover a alimentação saudável.

Acesso à saúde 

Um aspecto importante na qualidade de vida de uma população é o acesso à saúde, que, além de atendimento médico-hospitalar, envolve vacinação, orientação e saneamento básico. 
Os cuidados individuais, como a alimentação saudável e a prática de exercícios físicos, são importantes, mas, para que todos tenham acesso à saúde, é preciso que haja investimentos públicos no setor, ou seja, o Estado deve assumir a tarefa de ampliar e aplicar conhecimentos e recursos para garantir a saúde de sua população.
De acordo com dados estatísticos do relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Banco Mundial, de 2017, muitos avanços vêm ocorrendo na área da saúde em todo o mundo. A taxa de mortalidade infantil, por exemplo, registrou uma queda de 44% em relação ao ano 2000. Por outro lado, metade da população mundial ainda não tem acesso a cuidados de saúde essenciais.
Outros problemas de saúde apontados pela OMS são a má qualidade da água, o saneamento básico precário e a falta de higiene. Essas condições causam a morte de muitas pessoas, geralmente em comunidades de baixa renda, atingindo principalmente crianças menores de 5 anos de idade.

Acesso aos recursos naturais 

Recursos naturais são elementos encontrados na natureza e aproveitados pelos seres humanos para sua sobrevivência. Esses recursos podem ser renováveis ou não renováveis. 
Os recursos renováveis são aqueles que se renovam na natureza, como o ar, a água, a vegetação e a energia solar. Os recursos naturais não renováveis, por sua vez, são aqueles que existem em quantidade limitada na superfície terrestre e demoram centenas de milhares de anos para serem repostos na natureza. 
São exemplos os minérios, como o ferro, a bauxita e o ouro, e os combustíveis fósseis, como o carvão mineral, o gás natural e o petróleo. 
A distribuição dos recursos naturais no planeta é desigual: eles podem ser escassos em algumas áreas e abundantes em outras.

A questão da água 

Um grave problema relativo aos recursos naturais é o acesso à água. Mais uma vez, fatores naturais e, principalmente, fatores humanos contribuem para que haja uma distribuição espacialmente desigual desse recurso fundamental à vida. Estima-se que, do total da água gasta na produção das mercadorias comercializadas no globo, 10% são usados em produtos industrializados, 23% na produção animal e 67% na produção agrícola. 
Considerando a produção da alimentação diária de uma pessoa, são necessários de 2 mil a 5 mil litros de água. A carne bovina, o leite e seus derivados estão entre os alimentos que exigem maior consumo de água para serem produzidos. 
Atualmente, mais de 1,2 bilhão de pessoas vive em áreas com grave escassez de água e aproximadamente 1,6 bilhão de pessoas vive em bacias hidrográficas deficitárias, onde a capacidade humana e os recursos financeiros serão provavel mente insuficientes para desenvolver recursos hídricos adequados. 
A projeção futura é de que a disponibilidade de água no mundo diminua, cenário que deverá estar associado ao aumento das tensões e conflitos motivados pela disputa por esse recurso natural.

O acesso à energia 

Assegurar a todos o acesso à energia é um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. A Organização das Nações Unidas estima que, atual mente, quase 1 bilhão de pessoas no mundo vive sem eletricidade, e é possível que, até 2030, 780 milhões delas continuem sem acesso à rede elétrica. 
De maneira geral, essa carência atinge as populações mais pobres: os 75% mais pobres do mundo utilizam apenas 10% da oferta global. É importante também ressaltar que 85% das pessoas sem acesso a esse recurso vivem em áreas rurais.
Além da questão do acesso à energia, cabe ressaltar os impactos socioambientais de algumas fontes energéticas. A maior parte da energia consumida no mundo ainda provém de combustíveis fósseis, recursos naturais não renováveis e altamente poluentes.
Na América Latina, onde as reservas de água são abundan tes, há uma enorme produção de energia limpa, proveniente das hidrelétricas. 
No entanto, as grandes hidrelétricas são cada vez mais controversas, pois exigem o alagamento de extensas áreas. Nos últimos anos, Brasil e Chile bloquearam diversos projetos hidroelétricos em áreas ambientalmente sensíveis. 
Fontes de energia alternativas, como a eólica, a solar e a geotérmica, representam ape nas cerca de 2% da eletricidade gerada na América Latina, em comparação com uma média mundial de 4%. No entanto, essa participação deverá crescer.

O problema da distribuição de terras no mundo 

A distribuição de terras é outro problema que afeta populações em todo o mundo. Podemos evidenciar esse problema tomando como exemplo a região da América Latina e Caribe. Dados da FAO revelam que, em 2017, 51,19% da área agrícola da região era ocupada por 1% das fazendas ou estabelecimentos rurais. 
A Colômbia é um dos casos mais extremos: apenas 0,4% das propriedades concentram mais de 67% da terra produtiva. No Brasil, 45% da área rural se en contra nas mãos de menos de 1% dos proprietários rurais. A concentração de terras prejudica a produção de alimentos para subsistência. 
Nas grandes propriedades rurais, a produção é voltada principalmente para a exportação e para os interesses das grandes empresas agroindustriais. Geralmente, seus proprietários detêm poder econômico e político, usufruem de crédito público e têm acesso a tecnologias modernas de produção agrícola. 
No território brasileiro, a pequena produção é responsável por mais de 75% dos alimentos agrícolas consumidos diariamente. A pequena produção agrícola, no Brasil e no mundo, de modo geral, carece de acesso a crédito e a tecnologias modernas de produção, o que encarece os alimentos, prejudicando a qualidade de vida dos pequenos produtores e da população.

Acesso à moradia 

A precarização das condições de vida atinge parcela significativa da população mundial. Conforme você já observou, a exclusão social se manifesta na paisagem das grandes cidades. Esse quadro se agrava no contexto de rápido cresci mento urbano e populacional, contribuindo para intensificar o problema da falta de moradia, uma das mais graves manifestações da exclusão social nas áreas urbanas. 
O preço elevado dos imóveis localizados em áreas com melhor infraestrutura urbana, somado às altas taxas de desemprego, leva pessoas de baixa renda a ocupar áreas degradadas ou desprovidas de serviços básicos, geralmente localizadas nas periferias das cidades, ou terrenos desocupados, muitas vezes dando origem a favelas.
As políticas urbanas e as legislações urbanísticas dos países muitas vezes têm  se mostrado incapazes de desenvolver políticas sociais e habitacionais adequadas. Ao desenvolver programas de moradia, é importante analisar se contribuem para a integração social e habitacional das pessoas no espaço urbano ou, ao contrário, se reforçam a exclusão socioespacial.

A Divisão Internacional do Trabalho

Desde as Grandes Navegações, diferentes partes do mundo interagem realizando transações comerciais. Durante o período mercantilista (séculos XV-XVIII), por exemplo, as metrópoles mantiveram saldo positivo nas transações, pois exploravam recursos naturais das colônias e vendiam produtos manufaturados, com maior valor agregado valor agregado. 
A Divisão Internacional do Trabalho (DIT), iniciada nos séculos XV e XVI, correspondeu, a princípio, à delineação do papel das metrópoles e das colônias no contexto da produção e do comércio internacional. Coube às colônias o fornecimento de produtos agrícolas, como cana-de-açúcar, tabaco e algodão, e de especiarias e metais preciosos, que eram comercializados pelas metrópoles na Europa com grandes lucros.
No final do século XVIII, a Revolução Industrial desencadeou a desestruturação do sistema colonial, ou seja, da exclusividade de comércio imposta pelas metrópoles às suas colônias. A industrialização exigia maiores quantidades de matérias-primas e mais consumidores para as mercadorias, que passavam a ser produzidas em larga escala.
Com a Revolução Industrial, a Divisão Internacional do Trabalho foi intensificada, pois os “papéis” determinados para os países ficaram ainda mais evidentes:
• países de industrialização antiga, com vantagem nas transações comerciais por negociar produtos transformados; merciais por negociar produtos transformados; 
• países ainda não industrializados, com desvantagem, pois comercializavam matérias-primas de baixo valor. 
Nesse contexto, teve início, entre o final do século XVIII e o início do século XIX, o processo de independência de várias colônias, sob influência dos ideais da Revolução Francesa. No entanto, a independência política não trouxe independência econômica, tampouco modificou a realidade social das ex-colônias. Por outro lado, os países industrializados ampliaram sua capacidade produtiva e sua margem de lucro, intensificando as diferenças econômicas e sociais em relação aos países exportadores de matérias-primas.
A Divisão Internacional do Trabalho, portanto, caracteriza a interdependência entre as atividades econômicas realizadas em diferentes partes do globo e o pa pel que cada país ou cada região ocupa na economia mundial, considerando o que produz, o que exporta e o que importa, entre outros aspectos. Essa divisão do trabalho em âmbito internacional só ocorreu com a conso lidação do sistema capitalista, que integrou a economia mundial e estabeleceu, em cada uma de suas fases de evolução, o papel que cabia a cada região ou país.
Os Estados tiveram participação significativa na instalação das unidades de produção dessas empresas em seus territórios, pois foi necessário construir toda uma infraestrutura energética, de sistemas de telecomunicações e redes de transporte, entre outras. 
O desenvolvimento dos meios de transporte e das telecomunicações acrescentou outras características à nova Divisão Inter nacional do Trabalho. Ela está organizada em redes de produção, por meio das quais uma empresa transnacional contrata empresas em outras partes do mundo para realizar a atividade produtiva ou a distribuição e comercialização de seus produtos. Os países centrais concentram a fabricação de produtos de tecnologias mais sofisticadas, o desenvolvimento de novos produtos, o setor de marketing, os serviços financeiros e a gerência administrativa das grandes empresas.

A nova Divisão Internacional do Trabalho

No século XX, principalmente a partir de 1950, ocorreu a chamada industria lização tardia, que se caracterizou pela concentração industrial em países como Brasil, México e Argentina, na América Latina; África do Sul, no continente africa no; e, a partir da década de 1960, Coreia do Sul, Taiwan, Cingapura e outros países da Ásia.
Esse processo ocorreu por meio das transnacionais, que instalaram filiais em diversas partes do mundo, particularmente nos países atualmente denomi nados emergentes, pelo fato de oferecerem condições vantajosas: matérias-pri mas, mercado consumidor, mão de obra abundante e barata e baixos impostos. De modo geral, a industrialização desses países acabou atendendo a interes ses específicos das indústrias transnacionais, com algumas exceções, como em Taiwan e, sobretudo, na Coreia do Sul, onde o apoio estatal permitiu a formação de grandes corporações.
Esse contexto deu origem a uma nova Divisão Internacional do Trabalho, na qual alguns países em desenvolvimento, além de produzir e exportar matérias-primas agrícolas e minerais, transformaram-se em produtores e exportadores de produtos industrializados.

Características do desenvolvimento e dos países em desenvolvimento 

Para começar, analisamos alguns fatores que permitem classificar um país como “desenvolvido” ou “em desenvolvimento”, considerando o contexto mundial. Após conhecer as características gerais desses dois grupos, você vai analisar a seguir aspectos econômicos e sociais mais específicos. 
Os países desenvolvidos ou do centro são grandes polos financeiros e tecnolgicos mundiais e dominam as grandes decisões políticas e econômicas internacio nais. Entretanto, como visto anteriormente, os países emergentes também vêm in fluenciando as decisões tomadas no âmbito financeiro e econômico internacional. Nos países desenvolvidos predominam as atividades econômicas industriais, comerciais e de serviços. 
A agricultura é praticada com o auxílio de técnicas modernas e com elevado índice de mecanização, diminuindo a necessidade de mão de obra. Uma pequena parcela da população se dedica ao setor primário. Em muitos países desenvolvidos, esse percentual não chega a 5% da Popula ção Economicamente Ativa (PEA), como no caso dos Estados Unidos, do Canadá e da Austrália, por exemplo.
Nos países em desenvolvimento, a situação é bem diferente, apesar da diversidade de condições socioeconômicas. A agropecuária e o extrativismo são as principais atividades praticadas nesses países e, de modo geral, sobretudo na África e em alguns países da Ásia, essas atividades são praticadas de forma rudimentar, apresentando baixa produtividade.
A presença de uma atividade industrial amplamente diversificada, com alguns setores de tecnologia mais avançada, embora dependente dos países desenvolvidos, é restrita a poucos países que se industrializaram na segunda metade do século XX. 
Nos países em desenvolvimento, uma pequena parcela da população desfru ta de boas condições de vida, equiparadas às da população dos países desenvol vidos. Entretanto, a maioria da população se alimenta de forma insuficiente, mora em habitações precárias e apresenta alto índice de analfabetismo, entre outros indicadores negativos que justificam a baixa expectativa de vida em boa parte desse grupo de países. 
A escolarização de uma parcela significativa da população desses países é deficiente, o que compromete a qualificação profissional e o desenvolvimento socioeconômico futuro na maior parte dos países desse grupo. 
O índice de mortalidade infantil, elevado em comparação ao dos países desenvolvidos, ocorre em função de desnutrição das mães e dos recém-nascidos e das más condições de saúde e higiene oferecidas à população.


Desenvolvimento econômico e social no mundo capitalista

Mudanças decorrentes do sistema capitalista

Desde o início de sua formação, o sistema capitalista provocou profundas alterações no modo de vida das pessoas, nas relações econômicas entre os países e na organização do espaço geográfico. O capitalismo também transformou as re lações entre as diversas regiões do mundo. Nesse contexto, os países que realiza ram a Revolução Industrial até o século XIX construíram um vasto império colonial.
Além de terem estruturado os organismos internacionais que influenciam e regulam as relações entre os países, esses países mantiveram o domínio sobre os antigos territórios colonizados, mesmo após a descolonização.
Após conquistarem independência política, muitas ex-colônias permanece ram na mesma condição, ou seja, como países produtores e exportadores de ma térias-primas. Entretanto, no período posterior à Segunda Guerra Mundial (1939- -1945), vários desses países – como Brasil, México (Argentina e África do Sul – alcançaram grande desenvolvimento industrial e modernizaram diferentes setores de sua atividade produtiva.
Em uma etapa seguinte, diversos países da Ásia se destacaram pelo alto índice de crescimento industrial e pela modernização na economia, como Coreia do Sul, Taiwan, Cingapura e Hong Kong (atual Região Administrativa Especial da China), além da própria China. A partir dos anos 1990, vários outros países asiáticos ingressaram no processo de modernização, como Indonésia, Malásia e Vietnã, cada um, como no caso dos países anteriores, com as suas particularidades.

Países emergentes

Alguns países que se modernizaram a partir da segunda metade do século XX alcançaram maior protagonismo no cenário político-econômico internacional em razão de sua capacidade de geração de serviços, produção de bens e acúmulo de reservas internacionais. São exemplos a China, a Índia, o Brasil e a Coreia do Sul.
Esses e diversos outros países que não apresentam o mesmo nível de desenvolvimento social e econômico dos chamados desenvolvidos, como México, Argentina, Indonésia, África do Sul, Egito, Turquia, Filipinas, Malásia e Irã, são chamados países emergentes.
A China vem alcançando grande projeção no cenário econômico mundial, com papel determinante no desempenho da economia global. Em termos de capacidade produtiva, consumo de recursos minerais e acúmulo de reservas internacionais, é o país que mais se destaca no grupo dos emergentes e, atualmente, é a segunda maior economia do mundo, compondo com os Estados Unidos o G2 – grupo formado pelos dois maiores PIBs mundiais. A influência financeira e eco nômica chinesa vem crescendo em todos os continentes.
Entretanto, apesar da modernização na economia, do vigoroso crescimento econômico de alguns setores e do maior protagonismo no cenário global dos emergentes, os países que se industrializaram a partir da segunda metade do século XX não resolveram diversos de seus problemas sociais. Muitos ainda man têm forte dependência cultural e tecnológica em relação ao mundo desenvolvido.
Por outro lado, alguns países, graças a programas de transferência de renda, ga nhos reais no salário mínimo e aumento no valor das aposentadorias, apresen taram melhorias em termos de distribuição de renda, como ocorreu no Brasil na década passada.
Atualmente, a maior parte dos países da América Latina, da Ásia e quase to dos os países da África se encontram em uma situação marcada pelo subdesenvolvimento, com dependência econômica, financeira, tecnológica e cultural, seja dos países desenvolvidos, seja dos principais emergentes.

BRICS 

Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul formam o grupo que tem maior ex pressão entre os emergentes, denominado BRICS (sigla formada com a letra ini cial do nome de cada país, em inglês). Na crise econômico-financeira iniciada em 2008, os países do BRICS, sobre tudo os quatro primeiros, encontravam-se em situação privilegiada para enfren tar crises econômicas, principalmente em razão de suas elevadas reservas in ternacionais, de modo que havia um fluxo de investimentos de alguns países do BRICS e de outros emergentes para alguns países desenvolvidos. Por esse moti vo, desde 2011, os países emergentes vêm reivindicando uma participação mais ativa nos organismos financeiros internacionais, como o FMI. 
Outro aspecto relevante entre os países que compõem o BRICS é o comér cio internacional. Entre eles há uma intensa comercialização de produtos, desde commodities até outros de maior valor agregado, como máquinas e tecnologia.
Embora sejam muitas as diferenças entre os países que formam o BRICS – tanto no que diz respeito a aspectos internos (cultura, história, economia) quan to externos (relações internacionais) –, o grupo vem buscando se fortalecer no mercado internacional. 
Em 2014, os países do BRICS acertaram a criação de um banco, o NBD (Novo Banco de Desenvolvimento), com o objetivo de financiar pro jetos de infraestrutura em países emergentes. Essa é uma das ações do grupo no sentido de somar forças de modo a garantir maior independência em relação aos recursos internacionais e afirmar sua legitimidade. 
Se, por um lado, a construção de um grupo coeso e afinado é um desafio para o BRICS, visto que as disparidades entre seus membros são grandes, por outro, África do Sul, Brasil, China, Índia e Rússia, juntos, possuem um peso inegável no cenário internacional: reúnem quase 50% da população mundial, o que significa um imenso mercado produtor e consumidor, e cerca de 25% do PIB per capita.

As origens da dependência 

A origem do processo de formação dos países desenvolvidos e em desenvolvimento remonta às grandes navegações empreendidas pelos Estados nacionais europeus a partir do século XV, época em que a Europa expandia o seu comércio e em que o principal interesse eram as especiarias. 
Nesse processo, potências europeias como Portugal, Espanha, Países Baixos, França e Inglaterra (metrópoles) ocuparam e colonizaram diversos territó rios (colônias) na América, na África, na Ásia e na Oceania, submetendo os povos à sua cultura e controlando a extração de riquezas naturais e as atividades pro dutivas. Portugal e Espanha lideraram a primeira fase do colonialismo, que teve início na Europa Ocidental, criando rotas pelas Índias até alcançarem o Novo Mundo (América). 
A exploração dos recursos das colônias, como metais preciosos, minérios e produtos agrícolas, proporcionou grande enriquecimento das metrópoles. Exce ções a essa forma de colonialismo de exploração foram as ex-colônias nas quais houve colonialismo de povoamento, que deram origem aos atuais Estados Unidos, Canadá, Austrália e Nova Zelândia.

Expressões para designar os grupos de países 

Os termos subdesenvolvimento e Terceiro Mundo tiveram origem após a Se gunda Guerra Mundial, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) publicou uma série de dados estatísticos sobre a situação socioeconômica de vários países do mundo. A partir de então, os índices de desenvolvimento econômico e nível de qualidade de vida dos países começaram a ser quantificados. 
Essas duas expressões passaram a ser empregadas para classificar os países mais pobres do planeta, nos quais a maior parte da população apresentava más condições de vida, porém, com o tempo, se tornaram pejorativas, sinônimos de pobreza. Além disso, o conceito de Terceiro Mundo perdeu o sentido após o fim da Guerra Fria.
Atualmente, várias organizações internacionais, principalmente aquelas liga das à ONU, preferem utilizar o termo países em desenvolvimento, ressaltando a potencialidade desses países para atingir um nível mais elevado de desenvolvi mento e se tornarem desenvolvidos. Também são utilizadas as denominações centro, para designar os países desenvolvidos que têm papel de comando na economia mundial – chamados de países do Norte (pois a maioria está localizada nesse hemisfério) –, e periferia, para caracterizar os países em desenvolvimento (países do Sul). Os países do centro controlam a maior parte dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias e detêm a maior parte das universidades e as melhores instituições de ensino. 
É comum alguns economistas e outros especialistas utilizarem a expressão “semiperiferia” para se referir a países de periferia que atingiram um nível de industrialização maior do que o dos demais – o que os coloca no grupo dos países industrializados – e que apresentam valores expressivos de PIB. Esses são os chamados países emergentes.




Os blocos econômicos regionais

Outra tendência importante verificada na atual fase do sistema capitalista é a formação dos blocos econômicos regionais. Nesses blocos, os países buscam, em geral, maior integração econômica, negociando maior liberdade comercial entre os associados. São exemplos a União Europeia, o Mercosul e o acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA, das iniciais em inglês), entre outros. Cada um deles apresenta particularidades e diferentes níveis de integração, com o objetivo de se inserir no mundo globalizado de forma mais competitiva. Há também organizações e associações internacionais que reúnem um grupo de países.
Além da regionalização do mundo em países desenvolvidos e em desenvolvimento, a definição de grandes blocos econômicos e organizações regionais constitui outra maneira de regionalizar o espaço geográfico mundial. 
Nesses blocos, os países buscam, em geral, maior integração econômica, negociando maior liberdade comercial entre os associados. São exemplos a União Europeia, o Mercosul e o Nafta, entre outros.
Cada um deles apresenta particularidades e diferentes níveis de integração, com o objetivo de se inserir no mundo globalizado de forma mais competitiva. 
A globalização e a intensificação da concorrência no mercado mundial entre empresas e países impulsionaram a formação dessas alianças de integração econômica regional.
A expansão do sistema econômico capitalista pelo mundo ampliou o comércio mundial e, consequentemente, aumentou os fluxos de mercadorias, pessoas e capitais entre as diferentes regiões do planeta. A fim de conquistar cada vez mais espaço no comércio internacional e incentivar a cooperação econômica e política, muitos países passaram a se unir e a formar blocos econômicos e organizações regionais.
Os blocos econômicos procuram se beneficiar economicamente no cenário internacional por meio da ampliação das relações comerciais entre seus membros e deles com outros blocos econômicos ou organizações regionais do mundo. Isso ocorre, por exemplo, por meio de acordos que eliminam barreiras alfandegárias internas, isto é, os produtos passam a circular livremente entre as fronteiras nacionais dos países-membros sem pagar impostos ou pagando uma taxa mínima. Já as organizações regionais, em geral, dedicam-se também à cooperação em outras áreas além da economia, como cultura, segurança, educação e saúde.
A partir do final do século XX, vários blocos econômicos e organizações regionais se difundiram por todo o planeta. Os primeiros blocos econômicos regionais tiveram origem na Europa, após a Segunda Guerra Mundial, com a formação da Comunidade Econômica Europeia (CEE), em 1957, que evoluiu até se transformar, em 1993, em União Europeia (UE).
A liberalização comercial pode ocorrer tanto em âmbito mundial, por intermé dio da OMC, como em âmbito regional, com os acordos comerciais definidos em cada bloco econômico. 
Cerca de 60% a 70% do comércio mundial ocorre dentro dos acordos de livre-comércio ou de outras formas de integração comercial (ou tros tipos de blocos comerciais). As modalidades de blocos econômicos existentes no mundo são: 
• Zona ou acordo de livre-comércio: pressupõe acordos comerciais que visam exclusivamente à redução ou eliminação de tarifas aduaneiras (impostos de importação) entre os países-membros do bloco. Exemplo: Nafta. 
• União aduaneira: além de reduzir ou eliminar as tarifas aduaneiras entre os países do bloco, estabelece as mesmas tarifas de exportação e importação para o comércio com países fora do bloco, com a implantação da TEC (Tarifa Externa Comum). É o caso, atualmente, do Mercosul. 
• Mercado comum: visa à livre circulação de pessoas, mercadorias, capitais e serviços. O único bloco que atingiu essa etapa foi a União Europeia, que também constituiu uma união econômica e monetária com a adoção de uma moeda única.
É preciso lembrar que os blocos podem mudar sua forma de integração ao longo do tempo. Desse modo, uma simples Zona de Preferência Tarifária, por exemplo, pode se tornar uma União Econômica e Monetária. Além disso, novos membros podem entrar ou sair de um bloco. Vale ressaltar também que um mes mo país pode fazer parte de distintos blocos econômicos ou organizações que visam à cooperação regional, dependendo dos seus interesses.

Desafios da cooperação regional 

A ideia de articular forças para superar dificuldades e solucionar problemas e necessidades co muns nem sempre é fácil de ser colocada em prática. No plano internacional, considerando as rela ções entre os países e seus respectivos Estados, isso implica abrir mão de certo grau de sua sobe rania, isto é, de sua autonomia na tomada de decisões que dizem respeito a questões de interesse da população que representam. 
A redução de tarifas alfandegárias para alguns tipos de produto, por exemplo, pode afetar todo um setor da economia nacional, prejudicando-o. Por sua vez, essa mes ma ação pode beneficiar outros setores. Além disso, os países integrantes de um bloco muitas vezes apresentam disparidades econômicas, sociais e políticas que podem prejudicar a cooperação regional, afetando as negociações.

Crise financeira e econômica do final dos anos 2000

No início do segundo semestre de 2008, o mundo capitalista passou por uma séria crise financeira e econômica, que teve origem nos Estados Unidos, em 2007. Os analistas econômicos, tanto do setor privado como dos governos de países e organismos internacionais, classificaram essa crise como a mais grave ocorrida desde a intensificação do processo de globalização, a partir dos anos 1970/1980.
A crise foi desencadeada pela expansão dos financiamentos para compra de imóveis nos Estados Unidos, em razão dos juros baixos que o governo estadunidense vinha mantendo desde o início dos anos 2000. Essa política gerou forte valorização dos imóveis, estimulando as pessoas que haviam contraído financiamentos (mutuários) a refinanciar suas dívidas.
Nesse processo de refinanciamento, os mutuários recebiam uma diferença em dinheiro, em geral utilizada para consumo. Diversos bancos criaram títulos que tinham como garantia os financiamentos para compra de imóveis (títulos garantidos com hipotecas). Investidores que adquiriram esses títulos emitiam, por sua vez, outros títulos que tinham como garantia os títulos anteriores, e essa prática se espalhou por todo o sistema financeiro.
Com o consumo em alta, a inflação aumentou. Para frear esse aumento, o governo dos Estados Unidos elevou os juros, afetando as mensalidades dos finan ciamentos dos imóveis, que ficaram mais caros. Como consequência, centenas de milhares de proprietários deixaram de pagar os financiamentos, os preços dos imóveis despencaram e os títulos se desvalorizaram acentuadamente.
Em decorrência, houve quebra de bancos e empresas, cortes de empregos e redução da oferta de crédito por parte das instituições bancárias. As demissões reduziram o mercado de consumo e aqueles que mantiveram o emprego preferiram poupar. A crise se intensificou. Os governos dos países desenvolvidos, sobretudo dos Estados Unidos, injetaram recursos financeiros em empresas e bancos, na tentativa de ameni zar os efeitos da crise e de evitar uma quebra geral no sistema financeiro. 
Em razão da forte integração entre as economias nacionais no contexto da globalização, e pelo fato de a crise ter se originado nos Estados Unidos, afetando sua economia – o país gera 1/5 do PIB mundial –, seus efeitos foram rapidamente sentidos em todo o mundo, em maior ou menor grau. Entre 2010 e 2012, houve uma intensificação da crise e de seus desdobra mentos, com a ampliação significativa das dívidas públicas dos países desenvolvidos.
Com a crise, a desregulamentação do sistema financeiro internacional, um dos pilares do neoliberalismo, passou a ser fortemente questionada. A fiscalização e o controle mais rigorosos da economia por parte do Estado nos sistemas financeiros nacional e internacional, inibindo a especulação, passaram a ser apontados como medidas extremamente necessárias por diversos economistas.

Globalização e seus desdobramentos


O capitalismo, desde sua origem, proporcionou integração entre diversos países. Atualmente, porém, os Estados-nações vêm atingindo um grau de interdependência jamais visto antes. A economia mundial capitalista, principalmente a partir dos anos 1970/1980, passou por rápidas e profundas transformações, que ficaram conhecidas pelo termo globalização. 
A globalização, como é chamada a fase atual da expansão capitalista, é marcada pela intensificação dos fluxos de mercadorias, informações, capitais e pessoas, sustentada por novas infraestruturas de comunicação e transporte, decorrentes das inovações tecnológicas. O aumento dos fluxos também está intimamente vinculado às redes geográficas de produção, que, ao abranger todo o planeta, transformaram a tradicional divisão territorial e as características do mercado de trabalho

São exemplos desse processo:

• o rápido avanço das tecnologias e sua distribuição desigual no mundo;
• os novos padrões de organização da produção e da gestão das empresas;
• o mercado mundial, marcado por grande aumento na exportação/importa ção de mercadorias, e os mercados dentro de blocos econômicos regionais;
• o aumento dos fluxos de capitais, mercadorias, informações e pessoas, com maior interdependência entre os países, a partir da estruturação de redes geográficas globais;
• a abertura das economias, sobretudo dos países subdesenvolvidos indus trializados, cujos governos implementaram processos de privatização e passaram a dar mais liberdade à entrada de capitais estrangeiros, inclusive para a compra de empresas nacionais;
• a expansão das empresas transnacionais;
• a maior interferência de organismos internacionais, especialmente FMI e Banco Mundial, em políticas econômicas dos países subdesenvolvidos;
• a modificação no papel do Estado em vários países, principalmente nos países em desenvolvimento, que, em razão do grande endividamento externo, passaram a depender mais intensamente dos organismos internacionais e do capital de investidores estrangeiros e empresas transnacionais;
• a participação da Organização Mundial do Comércio (OMC).

O fenômeno da globalização proporcionou benefícios, como a disseminação de informações em escala mundial, a maior difusão cultural entre os países, o grande avanço tecnológico, a oferta de bens e serviços, a formação de ONGs que atuam globalmente, entre outros. 
No entanto, diversos geógrafos, economistas, sociólogos e outros estudiosos vêm alertando sobre os aspectos negativos desse processo, principalmente porque o aumento nos fluxos de capitais e de mercadorias e as políticas neoliberais têm intensificado as desigualdades, tanto entre os Estados-na ções como no interior deles. 
As desigualdades se tornam mais evidentes se considerarmos o fato de que a participação dos países mais pobres (20%) no comércio mundial de mercadorias e serviços passou de 4%, nos anos 1960, para 1%, na segunda década do século XXI, além do fato de existirem muitos países com baixa renda per capita e da má distribuição de renda no mundo. 

Divisão Internacional do Trabalho (DIT) 

Para entender o fenômeno da globalização, é importante conhecer as características da produção no mundo globalizado. O comércio mundial no qual cada país produz e exporta determinados tipos de bem ou serviço é conhecido como Divisão Internacional do Trabalho (DIT). 
Essa divisão é caracterizada, basicamente, pela existência de dois grupos de países: os exportadores de produtos industrializados (importadores de matérias-primas) e os exportadores de matérias-primas (importadores de produtos industrializados), ou seja, a Divisão Internacional do Trabalho deu origem à formação de um mercado mundial integrado, no qual um pequeno número de países exporta predominantemente produtos industrializados enquanto o restante exporta basicamente matérias-primas.
A Divisão Internacional do Trabalho se estabeleceu a partir da Primeira Revolução Industrial, iniciada no século XVIII, e principalmente no século XIX. Nessa época, a Europa fabricava produtos manufaturados para o restante do mundo, enquanto as colônias forneciam as matérias-primas necessárias às potências eu ropeias. Dessa forma, os países euro peus garantiam acesso à matéria-prima e ao mercado consumidor para seus produtos. 
Após a Segunda Guerra Mundial, a partir dos anos 1950, as fábricas ampliaram sua esfera de atuação e incrementaram sua produção. Em vez mundo. de atuarem apenas no país de origem, passaram a se instalar em países que ofereciam mão de obra mais barata, entre outras vantagens. Esse processo significou a “desconcentração” ou “descentralização” das atividades industriais no mundo.
A instalação de fábricas em países até então não industrializados modificou a divisão interna cional do trabalho. Entre esses países, chamados de novos países industrializados (NPI), estavam Brasil, México e Argentina, que passaram a fa bricar produtos antes feitos na Europa e nos Es tados Unidos, como os automóveis. 
Os NPIs exportavam grande parte das mercadorias produzidas em seu território, mas seu mercado. Fábrica de cobertores em Oxfordshire (Inglaterra), 1897. Esse país foi o berço da Revolução Industrial e sua produção era exportada para diversos países. interno também consumia parte significativa da produção. 
Embora boa parte da produção tenha sido transferida para as novas fábricas instaladas nesses países, os projetos continuaram a ser desenvolvidos nos países que se industrializaram primeiro. Ainda nos dias de hoje os países de senvolvidos costumam deter o controle do processo produtivo, além de dominar o processo de inovação tecnológica, exportando tecnologias avançadas para os NPIs. 
Globalização e transporte O termo globalização, no sentido em que é empregado atualmente, teve origem na década de 1980 e indica a interdependência de todos os países do mundo, não apenas econômica, mas também ambiental, social e cultural. 
Esse fenômeno, resultado dos avanços tecnológicos, compreende quatro tipos de flu xo: de mercadorias, informações, capitais e pessoas. A rede de computadores possibilita a transmissão de informações em tempo real e a interação instantânea entre pessoas, além de disseminar padrões culturais globais por meio da internet, da televisão, de filmes, jornais, revistas, etc., “encurtando” as distâncias graças à agilidade dos meios de comunicação e de transporte. 
O atual sistema global de transporte permite que os produtos e seus compo nentes sejam transferidos de um lugar a outro de forma muito mais rápida do que no passado.
Os avanços na tecnologia dos meios de transporte e comunicação também tornaram mais fácil a interligação de pessoas e lugares, facilitando o processo de globalização.
O transporte de mercadorias pelo mundo é feito, em grande parte, via trans porte marítimo. Segundo informativo da Organização Marítima Internacional (OMI)  e da Revisão de Transporte Marítimo da UNCTAD, em 2017 foram usados mais de 52 mil navios de carga no mundo, que movimentaram 829 bilhões de dólares em valores comerciais.
A partir da segunda metade da década de 1960, começaram a ser utilizados contêineres para o transporte de cargas no comércio internacional. O contêiner permite aos fabricantes organizar seus produtos para distribuição ainda dentro da fábrica. O recipiente é levado até o porto de embarque por caminhão ou trem para ser transportado por navio ao destino. Esse recurso, por um lado, diminuiu o tempo em que o navio ficava parado no porto para descarregar seu conteúdo, mas, por outro, gerou novas necessidades, como a modernização dos portos, que Daniel Bockwoldt/DPA/Agência France-Presse devem ser equipados com guindastes para a retirada dos contêineres do interior dos na vios.
As melhorias tecnológicas dos navios de carga, como a criação de frigoríficos para carregar mercadorias que exigem refrigeração e o desenvolvimento de motores mais eficientes possibilitaram realizar mais viagens em menos tempo, intensificando os fluxos de navios ao longo da história. Para um fabricante, isso é muito importante, já que é possível transportar um volume maior de carga.

Globalização e fluxos de informação 

A globalização não seria possível sem os fluxos de informação. Esses fluxos envolvem meios de comunicação, desde aplicativos de conversa usados em celu lares até programas sofisticados de comunicação interna das grandes empresas. Esse sistema de circulação de informações possui uma imensa base técnica de apoio que permite a transmissão de mensagens de voz, texto, imagens, vídeos, etc. 
Essa base técnica engloba uma extensa infraestrutura de redes de cabos submarinos e satélites. Desde o fim dos anos 1980, essas redes têm crescido exponencialmente. Além disso, as tecnologias empregadas são cada vez mais sofisticadas. No caso de cabos submarinos, responsáveis por cerca de 99% da comunicação de áreas separadas pelos oceanos (comunicação transoceânica), por exemplo, o uso da fibra óptica aumentou a velocidade e a capacidade da transmissão de dados.


A interligação econômica e financeira em um mundo desigual

Ao analisarmos a evolução do sistema capitalista, especialmente a partir da Primeira Revolução Industrial, destaca-se uma característica: o fortalecimento das relações internacionais. Graças ao desenvolvimento técnico, houve um au mento da produção e das exportações dos países, sobretudo dos mais industria lizados, o que proporcionou também a diversificação das atividades econômicas. 
Os países fortemente industrializados e com amplo domínio tecnológico, que formam o grupo dos países desenvolvidos, foram conquistando novos mercados. A partir de meados do século XX, suas empresas se expandiram e abriram filiais em diversas partes do mundo, inclusive nos países antes denominados subdesen volvidos, nos quais obtinham benefícios dos governos locais. Esses benefícios au mentavam as margens de lucro dessas transnacionais, particularmente no Brasil, no México e na Argentina, que apresentavam grandes mercados consumidores. 
A partir da década de 1980, o capitalismo passou por um processo de ex pansão no que se refere à sua abrangência mundial. Nesse contexto, os grandes agentes do processo de globalização são os países desenvolvidos, as empresas transnacionais e os organismos internacionais — FMI (Fundo Monetário Interna cional), Banco Mundial e OMC (Organização Mundial do Comércio), que substituiu o Gatt (iniciais em inglês de Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio) em 1994.
Os países desenvolvidos geram o maior volume dos investimentos para atividades produtivas e para aplicações financeiras. É principalmente nesse grupo de países que são geradas tecnologias para a fabricação de diversos produtos e para a inovação de sistemas de produção, entre outros. Esse grupo também investe maciçamente, por meio de recursos públicos e privados, em educação e pesquisa. 
Além de dominarem os fluxos de comércio internacional, esses países rece bem vultosas somas em dinheiro provenientes do pagamento de juros de dívida ex terna, principalmente dos países em desenvolvimento; das remessas de lucros das filiais de empresas multinacionais; do pagamento de royalties; dos lucros obtidos nas aplicações financeiras realizadas por bancos ou grandes investidores, etc. 
As empresas multinacionais, ou transnacionais, são as principais criadoras e detentoras da tecnologia avançada e controlam boa parte dos capitais mundiais. Enquanto no início dos anos 1970 havia cerca de 7 mil multinacionais em todo o mundo, no início do século XXI já são 56 mil. Elas também são responsáveis por grande parte dos fluxos internacionais de mercadorias e serviços.

Haiti

O Haiti ocupa uma área territorial de aproximadamente 27 mil quilômetros quadrados, o que corresponde à área do estado brasileiro de Alagoas...