sábado, 28 de março de 2026

A Terra e seus movimentos


A TERRA NO SISTEMA SOLAR 


Há muito tempo, o ser humano vem observando o céu, seus incontáveis pontos brilhantes e tantos outros astros. Um astro é qualquer tipo de corpo celeste, como uma estrela, um cometa, um planeta. 
A Terra é um planeta localizado no Sistema Solar, um dos muitos sistemas planetários existentes no Universo. 
O Sistema Solar, conjunto de corpos celestes que orbitam o Sol – isto é, que se movimentam ao redor do Sol –, é composto de oito planetas: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. 
Todos os planetas do Sistema Solar realizam movimentos, assim como a Terra. Um desses movimentos é o que a Terra faz ao redor do Sol; outro movimento, é o que a Terra faz em torno do próprio eixo imaginário.

Movimento da Terra e a marcação do tempo


A espécie humana, como a conhecemos atualmente, surgiu há pelo menos 200 mil anos. Desde então, a humanidade passou por transformações e desenvolveu ferramentas e técnicas para otimizar a busca por alimentos e a sobrevivência. Por exemplo, a linguagem humana pode ter se desenvolvido há cerca de 70 mil anos, o que facilitou a comunicação e a vida em comunidade.
Medir a passagem do tempo foi uma das habilidades essenciais para a sobrevivência das primeiras comunidades humanas. Ao saírem para caçar e coletar comida, era muito importante que os membros dessas comunidades tivessem certa noção de quanto tempo ainda restava até o anoitecer; assim, evitavam voltar aos abrigos ao cair da noite, quando havia maior presença de predadores.
Atualmente, podemos prever o início da noite consultando um relógio. Mas você sabe como nossos antepassados faziam isso? Uma das principais formas de registrar a passagem do tempo, e que foi utilizada por diferentes civilizações, é a observação da sucessão dos dias e das noites.
Todos os dias, desde o nascer até o pôr do sol, temos a impressão de que o Sol se move no céu. Muito embora tenhamos a percepção de que o Sol se move no céu ao longo do dia, esse movimento é apenas aparente para um observador na Terra. Vista do espaço, é a Terra que está em movimento em torno do Sol.

O terceiro planeta 


Além de revelar o formato da Terra, imagens obtidas no espaço podem trazer informações sobre as mudanças atmosféricas. As previsões do tempo são feitas com base na análise de dados gerados por satélites colocados em órbita especialmente para esse fim. A luz e o calor solar influenciam as condições meteorológicas de cada lugar em diferentes épocas do ano. 
Existem períodos do ano em que os dias claros têm maior duração do que as noites. Em outras épocas acontece o contrário. Além disso, há locais em que as noites e os dias claros têm duração parecida na maior parte do ano e, ainda, lugares em que tanto os dias claros quanto as noites podem durar muitas semanas.
Os movimentos de rotação e translação ou revolução em torno do Sol nos permitem compreender a razão dessas diferenças de duração em todo o planeta. Conhecendo melhor as durações dos dias, vamos aprender a construir um relógio de sol.
A expressão “terceiro planeta” substitui o nome da Terra, principalmente quando falamos do Sistema Solar. A Terra é o terceiro de um conjunto de oito planetas que giram em torno do Sol. Poderíamos chamá-la de planeta azul e até mesmo de “lar” ou “casa”, num sentido mais amplo. Porém, nem sempre foi assim. Os conceitos de “planeta” e de “Sistema Solar”, entre outros, foram construídos com base em muitas suposições, hipóteses, pesquisas, reflexões e debates de ideias ao longo da História.
Estamos acostumados a ver lançamentos de foguetes transportando satélites e seres humanos para orbitar o nosso planeta. Muitos desses satélites artificiais foram enviados para fora da Terra com finalidades específicas: alguns para serem usados em telecomunicações; outros para monitorar ambientes como a Amazônia; existem ainda aqueles que ajudam a prever as condições meteorológicas, coletando dados e informações essenciais para a agricultura ou que têm impacto sobre a vida cotidiana das pessoas. 
Atualmente, existem empresas privadas que comercializam o lançamento de satélites para telecomunicações e para internet. Trata-se de um negócio bastante lucrativo. 
Além disso, também são comercializados pacotes turísticos de alto luxo para levar poucas pessoas em voos que chegam aos limites de nossa atmosfera (voos suborbitais) ou que realizam algumas voltas em torno do planeta Terra. 

Geoide 


A palavra “geoide” deriva do prefixo geo-, que está relacionado com a Terra. As palavras “geologia” (ciência que estuda a origem, história e estrutura da Terra), “geografia” (ciência que trata da descrição da Terra e do estudo dos fenômenos físicos, biológicos e humanos que nela ocorrem), “geostático” (Terra parada), “geocêntrico” (Terra no centro) e “georreferenciamento” (usar satélites para se localizar na Terra) são apenas alguns exemplos do uso do prefixo geo- para referir-se à Terra. 
Assim, geoide é todo corpo que tem formato semelhante ao da Terra. Os cientistas chegaram à forma geoide da Terra ao estudar as pequenas grandezas físicas ligadas à gravidade terrestre ao longo de toda a sua superfície. 
A gravidade é uma propriedade complexa, que, a princípio, se relaciona com uma força de atração que depende da massa dos corpos. Por exemplo, a Lua e a Terra se atraem e isso é o que faz a Lua girar em torno da Terra. Os satélites artificiais, dos quais falamos há pouco, também são atraídos pela Terra.  Fazer essas medições não é fácil, mas é assim que os cientistas definem a forma do planeta. Foi dessa maneira que se chegou ao formato geoide. 
Porém, nem sempre foi assim... Estudos científicos sobre o formato da Terra continuam sendo desenvolvidos nos tempos atuais, mas a preocupação com o formato e a localização da Terra existe desde a Antiguidade. 
Em outras palavras, os chineses, os sumérios e, posteriormente, os gregos e os romanos daquela época já discutiam esse tema e tinham suas concepções a respeito do formato de nosso planeta.

Os movimentos da Terra


Desde a ampla aceitação do modelo heliocêntrico, no século XVII, pesquisadores e cientistas passaram a admitir que a Terra realiza diversos movimentos que, muitas vezes, nós nem percebemos. Entre os movimentos da Terra, há dois principais que afetam diretamente nosso cotidiano e são responsáveis pela sucessão dos dias e das noites e pela mudança das estações ao longo do ano: a rotação e a translação.

Rotação


No movimento de rotação, a Terra gira em torno do próprio eixo no sentido da direção oeste para a direção leste. O eixo de rotação da Terra é uma linha imaginária que a atravessa do polo norte até o polo sul do planeta e é perpendicular a um plano formado por outra linha imaginária, o equador.
Uma volta completa da Terra em torno de seu eixo dura 23 horas, 56 minutos e 4 segundos, caracterizando o que chamamos dia terrestre. Na prática, arredondamos a duração do dia terrestre para 24 horas.



Dessas 24 horas, cada região do planeta pode permanecer iluminada pelo Sol durante 12 horas, em média. Nesse período, a posição aparente do Sol no céu vai sendo alterada da direção leste para a direção oeste, de forma que as sombras são projetadas da direção oeste para a direção leste no decorrer do dia.
Esse movimento giratório faz que as regiões da Terra iluminadas pelo Sol se alternem: quando uma região está iluminada pela luz solar, dizemos que é dia; na região oposta, não iluminada, dizemos que é noite.
O eixo de rotação da Terra é inclinado em relação ao plano que contém a órbita da Terra ao redor do Sol. Isso significa que o ângulo com que os raios solares chegam à superfície da Terra varia ao longo do ano.

A inclinação do eixo imaginário terrestre 


A duração dos períodos claros e escuros varia de acordo com a região do globo terrestre e também ao longo do ano. Isso se relaciona a outra característica terrestre: o eixo de rotação da Terra é inclinado em relação ao plano orbital terrestre. 
Dessa forma, a linha do Equador não está alinhada a esse plano e a quantidade de luz solar que atinge cada hemisfério varia ao longo do ano.

Translação


Além de girar ao redor de si, a Terra percorre uma trajetória ao redor do Sol. Ela completa uma volta ao redor do Sol em aproximadamente 365 dias e esse tempo foi definido, por tradição, como sendo a duração de um ano.
Na translação, a Terra percorre uma trajetória elíptica aproximadamente circular ao redor do Sol. Essa trajetória é chamada órbita.
Desde a Antiguidade, o Universo desperta a curiosidade do ser humano. O desejo de compreendê-lo motivou o ser humano a elaborar diferentes explicações sobre o movimento observado dos astros. Uma delas foi o geocentrismo (do grego geo = Terra). De acordo com o modelo geocêntrico, a Terra estaria no centro do Universo e os outros astros (inclusive o Sol) se moveriam ao redor dela. Alguns defensores dessa ideia foram Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), na Grécia Antiga, e o astrônomo grego Ptolomeu (cerca de 100 d.C.-170 d.C.), no século II d.C. 
Já de acordo com o heliocentrismo (do grego helios = Sol) a Terra e os demais planetas é que giravam ao redor do Sol, que ocupava o centro do Universo. O estudioso grego Aristarco (310 a.C-230 a.C) e o matemático e astrônomo polonês Nicolau Copérnico (1473-1543) defenderam essa ideia. 
A trajetória da Terra em torno do Sol também é chamada de órbita e é apenas um pouco mais oval do que uma circunferência, formando uma figura geométrica chamada elipse. A órbita da Terra é uma elipse tão sutil que é quase uma circunferência.



A ocorrência das estações do ano – primavera, verão, outono e inverno – é resultado da translação da Terra combinada com a inclinação de seu eixo de rotação. Em uma mesma época do ano (ou seja, para uma mesma posição da Terra em sua trajetória ao redor do Sol), a estação que se apresenta no hemisfério norte é diferente daquela que se apresenta no hemisfério sul. Isso porque a iluminação dos raios solares chega de maneira diferente em cada uma das regiões do planeta, especialmente devido à inclinação do eixo de rotação da Terra.
Quatro momentos muito importantes dessa trajetória são os equinócios e os solstícios. No solstício de junho, a incidência de raios solares é máxima no hemisfério norte e mínima no hemisfério sul. Já no solstício de dezembro, ocorre o contrário: a incidência é máxima no hemisfério sul e mínima no hemisfério norte. Os equinócios de março e setembro correspondem ao momento em que a incidência de raios é equivalente para os hemisférios sul e norte.
A combinação da translação da Terra com a inclinação do planeta em relação ao plano da órbita faz com que a luz do Sol ilumine os hemisférios norte e sul de modo diferente em momentos diferentes do ano.
Em 20 ou 21 de junho temos o início do inverno no hemisfério sul e o início do verão no hemisfério norte. Chamamos esse evento de solstício de verão ou inverno, dependendo do hemisfério em que se está. No solstício de verão, o dia é o mais longo da estação, enquanto no solstício de inverno a noite é a mais longa da estação.
Em 21 ou 22 de dezembro acontece o solstício de verão no hemisfério sul e o de inverno no hemisfério norte.
Já em 22 ou 23 de setembro, ambos os hemisférios da Terra são iluminados da mesma forma. Nessa ocasião, os dias e as noites têm a mesma duração: 12 horas. Temos o início da primavera no hemisfério sul e o início do outono no hemisfério norte. Esse evento é chamado de equinócio de primavera ou de outono, dependendo do hemisfério em que se está.
O outro equinócio acontece em 20 ou 21 de março: é o início do outono no hemisfério sul e o início da primavera no hemisfério norte.
Portanto, a rotação é responsável pela sucessão de dias e noites, e a translação, somada à inclinação do eixo de rotação da Terra, é responsável pela existência das diferentes estações do ano.
Como consequência da inclinação do eixo terrestre, que provoca a iluminação desigual dos hemisférios da Terra em momentos diferentes do ano, podemos observar que o Sol não nasce sempre no mesmo ponto do horizonte.

A Terra e o Sol


A expressão “nascer do sol” corresponde ao momento em que o Sol aparece no horizonte, na direção leste. O nascer do sol ocorre todos os dias, e esse período é também conhecido por alvorada. O pôr do sol também acontece todos os dias e pode ser chamado de crepúsculo. Ele ocorre na direção oeste. A duração do dia, assim como a da noite, varia ao longo do ano, com momentos específicos em que essa variação pode ser bastante acentua da. No hemisfério sul, o solstício de dezembro, que marca o começo do verão, corresponde ao dia mais longo do ano e à noite mais curta. Já no solstício de junho, quando começa o inverno, temos a noite mais longa do ano e o dia mais curto.
Chamamos a posição do nascer do sol nos equinócios de primavera e outo no de ponto cardeal leste. A partir desse ponto, podemos determinar os pontos cardeais norte, sul e oeste.
Ao longo da história, diferentes civilizações criaram observatórios astronômicos, construções destinadas, principalmente, a prever com precisão datas como equinócios e solstícios e a facilitar a determinação dos pontos cardeais.
Como exemplo desse tipo de construção, podemos citar o observatório mais antigo encontrado nas Américas, o Chankillo (Templo das 13 Torres), que foi construído há mais de 2 mil anos e fica localizado em Casma, no Peru.
É importante ressaltar que uma mesma es tação do ano pode não ter as mesmas características, se considerarmos lugares diferentes da Terra. O clima local depende de uma série de fatores, como a distância em relação ao mar, a disponibilidade de água, a latitude e a altitude. Além disso, quanto mais próximo da região equatorial, menor é a variação da duração da noite e do dia ao longo das estações.

Latitude: coordenada que informa o quão longe um ponto está da linha do equador.

Altitude: altura de um local em relação ao nível do mar.

As sombras formadas pelo Sol na Terra


Com o objetivo de compreender a regularidade de fenômenos astronômicos, muitas civilizações antigas fizeram construções que permitiam observar a posição de determinados astros no céu, principal mente o Sol e a Lua. Muitos desses locais, chamados atualmente observatórios astronômicos, são constituídos de blocos de pedras posicionados de maneira que marquem a posição de alguns astros em épocas específicas.
O primeiro observatório astronômico de que se tem registro foi construído há mais de 7 mil anos no Egito, em uma região chamada Nabta Playa. Nesse observatório, as pedras são alinhadas de modo a permitir marcar o que hoje chamamos solstício de verão. Essa data era importante para os povos da região porque correspondia ao início da estação das chuvas.


Círculo de blocos de pedras em Nabta Playa (Egito). Considerado o primeiro observatório astronômico da história, foi construído há mais de 7 mil anos.


A formação de sombras


Sombra é uma região do espaço que não recebe luz direta de uma fonte porque um corpo opaco bloqueia a passagem dessa luz. No caso dos relógios de sol e dos monumentos de blocos de pedras, como o de Nabta Playa, a fonte de luz é o Sol. Quando a luz do Sol incide nos blocos de pedras, eles impedem sua passagem e formam sombras.
Os aspectos da sombra de um corpo, como seu comprimento e direção, dependem do formato do corpo e da posição da fonte de luz em relação a ele. Podemos perceber isso em um teatro de sombras com as mãos: a fonte de luz pode ser uma lanterna, e a sombra projetada na parede varia de acordo com a disposição das mãos.
O Sol é a principal fonte de luz da Terra. Como todas as estrelas, o Sol tem for mato esférico, mas ele está tão distante da Terra (aproximadamente 150 milhões de quilômetros) que percebemos os raios solares como paralelos.

Gnômon e suas aplicações


O gnômon é um dos mais antigos instrumentos astronômicos construídos pelo ser humano. Esse instrumento possibilitou às antigas civilizações fazer a observação indireta do movimento aparente do Sol por meio da projeção das sombras no chão.
O gnômon é uma haste vertical fincada em uma superfície horizontal plana e exposta à luz solar. Um aparato simples como esse pode nos ajudar a marcar as horas do dia e a investigar os movimentos da Terra. Isso porque, durante o dia e ao longo do ano, o movimento aparente do Sol no céu provoca mudanças no comprimento e na direção da sombra projetada pelo gnômon.
A observação das mudanças de posição e comprimento das sombras ao longo do dia permite medir a passagem do tempo com mais precisão do que simplesmente saber que o dia começou com o nascer do sol e que ele acabará com o pôr do sol. Por esse motivo, o gnômon é uma ferramenta que permitiu a construção de um dos primeiros relógios usados por nossos antepassados – o relógio de sol.

Relógios de sol


A técnica de construir relógios de sol é chamada gnomônica. A haste que usamos na atividade anterior para a determinação das direções dos pontos cardeais recebe o nome de gnômon. Neles, a projeção da sombra de um objeto posicionado verticalmente em uma superfície permite aferir as horas do período iluminado do dia. Vamos entender o princípio desses relógios e os fatores que podem influenciar o funcionamento deles. Ao amanhecer, a sombra é mais comprida e vai diminuindo até atingir o seu menor comprimento ao meio-dia, quando o Sol está em sua posição mais alta no céu. Em seguida, a sombra volta a aumentar. A direção da sombra também muda de acordo com o movimento aparente do Sol.
Como já vimos, o movimento aparente do Sol no céu é resultado da rotação da Terra em torno de seu eixo imaginário. Portanto, as mudanças na sombra do gnômon ao longo de um dia são evidências do movimento de rotação da Terra.


Relógio de sol na Igreja Matriz de Santo Antônio, no município de Tiradentes (MG), 2019. O relógio marca aproximadamente 10 horas e 30 minutos.

Diferentes escalas de tempo 


Sabemos que a rotação da Terra define a duração do dia em 24 horas, enquanto a translação define a duração do ano em 365 dias. Mas, entre um dia e um ano, temos outra medida importante – os meses. De janeiro até dezembro, o ano é dividido em doze meses. A divisão do tempo em dias, semanas e meses é registrada em calendários. 
Os primeiros calendários usados pela humanidade datam de, aproximadamente, 2700 a.C. e surgiram na Mesopotâmia, em um território onde hoje estão localizados os países Síria, Ira que e Irã. Tais calendários já contavam com uma divisão em doze meses. Na mesma época, os chineses também desenvolveram seu próprio calendário, que é usado até hoje e cujo ano-novo não coincide com o início do ano do calendário que adotamos no Brasil. 
Enquanto aqui o fim do ano ocorre em 31 de dezembro, na China o ano-novo é marcado pela lua nova que ocorre entre 21 de janeiro e 20 de fevereiro. Além disso, o calendário chinês é organizado em ciclos de doze anos, e cada ano desse período é relacionado a um animal: rato, boi, tigre, coelho, dragão, serpente, cavalo, carneiro, macaco, galo, cachorro e porco.
O calendário que adotamos atualmente é chamado gregoriano e foi instituído em 1582 pelo papa Gregório XIII (1502-1585). Esse calendário deriva de uma antiga versão romana na qual o ano era dividido em dez meses. O nono e o décimo meses eram chamados, respectivamente, de novembro e dezembro. A esse calendário foram adicionados dois meses, incluídos no início do ano (janeiro e fevereiro). 
O período real de translação da Terra ao redor do Sol é de 365 dias, 6 horas e 8 minutos. Para corrigir as 6 horas e 8 minutos adicionais a cada ano, no calendário gregoriano, temos o acréscimo de 1 dia a cada 4 anos, formando o chamado ano bissexto. O mês escolhido para contemplar essa correção é o mês de fevereiro. 
Os povos indígenas brasileiros marcam o tempo geralmente com base na observação do movimento aparente das constelações e de diferentes eventos ambientais e sociais, o que pode ser considerado um calendário baseado em um ciclo anual. 

Solstícios e equinócios


Os dois pontos extremos, de máximo distanciamento para o Hemisfério Sul ou para o Hemisfério Norte, são chamados de solstícios. Nesses dias, o Sol também nasce e se põe muito próximo aos pontos de maior afastamento em relação aos pontos cardeais leste e oeste, respectivamente. 
A palavra “solstício” nasce da junção de duas palavras latinas, sol (Sol) e statis (parado), e se refere ao momento quando o Sol chega a seu limite de distanciamento angular para um hemisfério celeste. No solstício de verão para o Hemisfério Norte, o Sol passa sobre o Trópico de Câncer, e no solstício de verão para o Hemisfério Sul, o Sol passa sobre o Trópico de Capricórnio. 
Os pontos intermediários são chamados de equinócios. O termo está relacionado com o equilíbrio entre as durações do dia claro e da noite para os dois hemisférios do planeta.
Os equinócios se referem aos momentos do ano em que a luz solar incide de maneira equilibrada sobre os dois hemisférios, fazendo com que os dias e as noites tenham durações próximas entre si em grande parte do planeta.
Dependendo da latitude, o Sol realiza trajetórias maiores, iluminando e aquecendo mais a superfície da Terra. Em outras épocas, ele fica menos tempo acima do horizonte, iluminando menos a superfície. Isso varia de lugar para lugar, e os nossos antepassados entenderam que essas diferenças eram importantes para períodos de preparação da terra, plantios, colheitas ou, no caso dos caçadores-coletores, disponibilidade de alimento no ambiente. 


Características da Terra

Desde seu surgimento, e sobretudo nas primeiras civilizações, o ser humano observa o céu e nele busca conhecimentos para entender seu lugar no Universo. Por isso, pode-se dizer que a Astronomia, que estuda os astros e seus movi mentos, é uma das ciências mais antigas de que se tem registro.
O conhecimento dos astros e de seus movimentos, especialmente os do Sol e da Lua, ajudou as sociedades a entender os ciclos da natureza e a utilizar esse conhecimento em sua relação com o ambiente.

Características da Terra


A Terra é um planeta rochoso, que tem a forma de uma esfera ligeiramente achatada nos polos. Isso significa que, se medirmos seu diâmetro de polo a polo, teremos um valor menor do que seu diâmetro no equador.
No entanto, a diferença entre os diâmetros é tão pequena − cerca de 42 quilômetros, sendo que os diâmetros chegam a quase de 13 mil quilômetros − que não percebemos o achatamento da Terra nas imagens dela obtidas do espaço.


polo norte

 diâmetro polar 12 714 km
polo sul                                          diâmetro equatorial 12 756 km



A distância entre a Terra e o Sol permite uma combinação ideal para a existência de vida tal como a conhecemos: quantidade de luz e temperatura na medida certa para que a água exista na forma líquida.
Por isso, em nosso planeta, podemos encontrar água em abundância, sobretudo na forma líquida. Cerca de três quartos da superfície do planeta são cobertos por água líquida, que pode ser encontrada nos oceanos, rios, lagos e aquíferos.



Imagem da Terra vista do espaço obtida pela composição de várias fotografias de satélite. Montagem divulgada em abril de 2014 pela Nasa.

O satélite natural da Terra


A Lua é o corpo celeste que está mais próximo da Terra. Ela gira ao redor do nosso planeta a uma distância de, aproximadamente, 34 mil quilômetros, constituindo, assim, o único satélite natural da órbita terrestre. Ao mesmo tempo que gira em torno da Terra, a Lua também gira ao redor de si mesma.
Por não emitir luz própria, a luminosidade da Lua que observamos da Terra é consequência do reflexo da luz do Sol em sua superfície.
Em noite de lua cheia, quando o disco lunar está inteiramente visível no céu, é possível, usando um binóculo, observar as imensas crateras formadas pela queda de asteroides e meteoroides na superfície lunar.

Imagem da Lua obtida de dados da Nasa, fornecidos pela sonda Lunar Reconnaissance Orbiter, em 2021.

O formato da Terra


As evidências científicas sobre a esfericidade da Terra são relativamente recentes na história. Antes das viagens espaciais, que permitiram observar diretamente a Terra do espaço, foram elaboradas muitas hipóteses acerca de seu formato. As explicações sobre o formato da Terra misturavam-se, muitas vezes, com os mitos de criação dos povos.
Diferentes culturas, em diferentes épocas, criaram suas próprias visões de mundo. Para povos nórdicos, por exemplo, a Terra era como um disco ou uma calota, com superfície plana, apoiada na copa de uma enorme árvore sagrada. 
Para os hindus, nosso planeta era uma semiesfera apoiada nas costas de quatro grandes elefantes, que se equilibravam sobre uma tartaruga gigante. Uma das crenças mais antigas sobre o formato da Terra, presente em diferentes culturas, afirmava que nosso planeta é plano como um disco. Sobre ele, haveria uma abóbada celeste móvel, como uma tigela emborcada para baixo, onde estrelas e outros astros estariam fixados.
A forma da Terra já era estudada na Antiguidade. Na Grécia Antiga, Pitágoras (570 a.C.-496 a.C.) descrevia a Terra como um corpo esférico no século VI a.C. 
Cerca de dois séculos depois, também na Grécia, Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) forneceu evidências empíricas de que a Terra não era plana. Ele notou que: 
• para um viajante que vai em direção a um dos polos, algumas constelações aparecem cada vez mais altas no céu, conforme ele se distancia da linha do equador; 
• a sombra projetada pela Terra sobre a Lua durante os eclipses lunares é redonda.
No século III a.C., o astrônomo grego Eratóstenes (276 a.C.-194 a.C.) usou princípios matemáticos simples para argumentar que a Terra é esférica e conseguiu calcular o diâmetro do planeta com uma precisão notável para a época. Ele calculou a circunferência da Terra em torno de 40 000 quilômetros. A precisão dessa estimativa é impressionante: com uma tecnologia muito mais desenvolvida, hoje sabemos que a circunferência do planeta na linha do equador é de 40 076 quilômetros.
Em geral, ao observar o horizonte terrestre sem o uso de instrumentos, não conseguimos constatar nenhuma curvatura. Se estivermos em um local plano, enxergamos apenas uma linha reta. Por isso, alguns modelos da Antiguidade partiram dos dados imediatos da experiência e se basearam na hipótese de que a Terra seria um disco plano.
O conceito de Terra esférica foi adotado por muitos estudiosos, inclusive durante a Idade Média. Mais tarde, essa concepção de Terra esférica foi utilizada por navegadores, principalmente a partir das grandes navegações do século XV. Entre esses navegadores estão o genovês Cristóvão Colombo (1451-1506) e o português Fernão de Magalhães (1480-1521) – este, navegando, deu a volta ao redor da Terra.
Ao longo da história, no entanto, outras evidências diretas e indiretas da esfericidade do planeta foram sendo observadas, de modo que os modelos que não consideravam a curvatura do planeta não puderam ser sustentados.
Gradualmente, foram substituídos por modelos mais completos, que explicavam melhor uma série de fenômenos relacionados à Terra.

Na cultura babilônica, acreditava-se que o mundo tinha a forma de um disco que flutuava no oceano. Imagi Mundi, mapa-múndi da civilização babilônica, século VI a.C.

Estrelas que só podem ser vistas de um hemisfério 


Desde a Antiguidade, o ser humano percebeu que poderia utilizar as constelações para se orientar. No hemisfério sul, é comum utilizar para orientação a constelação do Cruzeiro do Sul, por ela ser facilmente identificável no céu noturno. Constituída de quatro estrelas que descrevem uma cruz imaginária no céu, a constelação do Cruzeiro do Sul pode ser observada apenas do hemisfério sul e de regiões do hemisfério norte próximas à linha do equador. 
No hemisfério norte, costuma-se utilizar para orientação a estrela Polaris. Conhecida também como Estrela Polar, ela parece estar fixa no céu noturno, pois situa-se, aproximadamente, sobre o polo norte. A es trela Polaris pode ser observada apenas do hemisfério norte.

Diferentes posições aparentes das estrelas 


A curvatura da Terra também faz que observadores em regiões diferentes do mesmo hemisfério observem a mesma constelação em regiões diferentes do céu noturno. Um observador em Porto Alegre (RS), por exemplo, observa o Cruzeiro do Sul em uma região mais alta no céu do que um observador em Macapá (AP), que está próxima à linha do equador.

Sombra da Terra na Lua 


Outra evidência decorrente da observação do céu noturno é o aspecto do eclipse lunar. Durante esse fenômeno, o Sol, a Terra e a Lua ficam alinhados, e a Lua fica na região de sombra projetada pela Terra. 
Na Grécia antiga, Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) observou que a sombra projetada pela Terra sobre a Lua durante um eclipse lunar sempre tinha formato aproximadamente circular. Essa observação levou-o a considerar que a Terra poderia ser esférica.

Sombra da Terra projetada na Lua durante eclipse lunar, em julho de 2018.


Evidências cientificas do formatos da Terra 


Durante muitos anos, povos antigos, como os gregos, defendiam que a Terra teria um formato plano, semelhante ao de um disco. Além disso, de acordo com esse modelo, o planeta seria coberto por um firmamento, em formato de cúpula. O Sol e a Lua se movimentariam dentro do espaço da cúpula e seriam bem menores do que a Terra.
Apesar de esse pensamento ter sido defendido por muitos estudiosos, havia aqueles que eram contrários ao modelo da Terra plana, como o filósofo grego Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.).
Há aproximadamente 2 mil anos, ao estudar o posicionamento das estrelas no céu, Aristóteles concluiu que a Terra deveria ter um formato esférico. Isso porque ao mudar de posição na superfície terrestre e observar o céu, havia uma mudança aparente na posição das estrelas. Ou seja, as constelações que eram observadas no céu variavam de acordo com a posição em que ele se encontrava na superfície terrestre.
Apesar de não conseguirmos observar a curvatura da Terra no horizonte, podemos verificá-la quando um navio se afasta da costa. Para um observador na costa, o navio não só fica cada vez menor devido ao distanciamento como também parece “afundar” à medida que se afasta: a primeira parte a desaparecer da visão do observador é o casco do navio (parte inferior), e a última, o mastro (parte superior). Se a superfície da Terra não fosse curva, o observador veria o navio cada vez menor, mas sempre inteiro, até ele desaparecer de seu campo de visão.
Algumas dessas ideias sobre a forma da Terra foram aproveitadas pela literatura, como no livro A cor da magia (1983), do escritor inglês Terry Pratchett (1948-2015). Esse é o primeiro livro de uma série chama da Discworld (Planeta Disco, em tradução livre para o português) sobre aventuras em um planeta plano. No livro, esse mundo em forma de disco está posicionado nas costas de quatro elefantes que se equilibram sobre uma tartaruga gigante. 
É justamente até a tartaruga que os aventureiros querem chegar. Não foi somente na Índia de muitos séculos atrás que coexistiram crenças de uma Terra plana ou redonda; o mesmo ocorreu na Grécia por determinado tempo. No século VI a.C., por exemplo, algumas pessoas defendiam um formato plano, outras um formato redondo. 
Com o passar do tempo, o modelo esférico foi tendo cada vez mais prestígio e o modelo plano foi sendo abandonado. Foi justamente na Grécia antiga que um pensador chamado Eratóstenes (276 a.C.-194 a.C.) obteve uma importante medida que serve de evidência para nossa investigação sobre o formato da Terra. Por volta de 250 a.C., o matemático grego Eratóstenes  fez algumas medições da Terra, conseguindo estimar o primeiro valor para o comprimento da circunferência do planeta.
Se o Sol estiver exatamente em cima de uma vareta vertical, ela não produzirá sombra. Essa posição do Sol é conhecida como “sol a pino”. Na época de Eratóstenes, muitas observações dos astros do céu já haviam sido feitas e era possível saber, com exatidão, o dia e o horário em que ocorreria o fenômeno do sol a pino em algumas localidades. Essas previsões podiam ser encontradas em bibliotecas, como a da cidade de Alexandria, uma das maiores e mais importantes bibliotecas do mundo na Antiguidade, fundada no início do século II a.C., no Egito. 
Ao pesquisar nos registros daquela biblioteca, Eratóstenes encontrou dados sobre o dia e o horário em que uma vareta não produziria sombra na cidade de Siena (atual Assuan, no Egito), no início do verão. Entretanto, naquela mesma data e naquele mesmo horário, o sol não estaria a pino em Alexandria. Então, ele cravou uma vareta sob o sol e mediu, para esse mesmo dia e horário, o comprimento da sombra da vareta em Alexandria. Caso a Terra fosse plana, não deveria haver diferença entre a sombra das varetas em Alexandria e em Assuan, mas a diferença existia. Se alguém repetir essa medida atualmente, fará a mesma observação que Eratóstenes. Essa é mais uma evidência a favor da curvatura da Terra.
Em 1519, o navegador português Fernão de Magalhães (1480-1521) iniciou a primeira circum-navegação registrada na história mundial, com o objetivo de encontrar um novo caminho para as Índias. Essa circum-navegação foi finalizada em 1522 sob o comando do navegador espanhol Juan Sebastián de Elcano (1476-1526). Com essa expedição marítima, registrou-se na prática que a Terra tem formato esférico.
Além das constatações abordadas anteriormente, podemos citar outras evidências de que a Terra tem formato aproximadamente esférico. 
Por exemplo, se a Terra tivesse formato plano, ao observar um objeto se deslocando em linha reta, como uma embarcação no oceano, veríamos ela diminuir de tamanho até que desaparecesse do nosso campo de visão. Porém, devido ao formato aproximadamente esférico da Terra, não é isso que acontece. 
À medida que a embarcação se afasta do observador, além de a imagem dela diminuir de tamanho, deixamos de enxergar algumas de suas partes, até que ela desapareça no horizonte.
Outra evidência da esfericidade da Terra é que se o planeta fosse plano, a incidência direta de luz solar seria igual em todas as regiões. No entanto, a superfície terrestre não é iluminada de maneira uniforme. Enquanto um local está totalmente iluminado pelo Sol, outro está numa posição em que não recebe luz solar diretamente. 
Devido a esses fatores e à globalização de atividades, como o comércio, a comunicação e as viagens internacionais, surgiu a necessidade de se padronizar os horários em diferentes regiões do planeta de acordo com as 24 horas do dia. 
No final do século XIX, o cientista canadense Sandford Fleming (1827-1915) propôs um sistema único de contagem do tempo em todo o planeta, o sistema de fusos horários. 
Ele sugeriu que a Terra fosse dividida em 24 faixas, partindo do meridiano de Greenwich, uma linha imaginária que passa pelo Observatório Real de Greenwich, em Londres, na Inglaterra. Cada faixa indica os locais cuja hora, por convenção, é a mesma.
Outro fato relacionado à esfericidade da Terra é que algumas constelações são observáveis apenas em um dos hemisférios terrestres. Se a Terra fosse plana, as constelações observadas seriam as mesmas em qualquer região da Terra.
A disposição das estrelas de algumas constelações também difere quando observadas do hemisfério Sul e do hemisfério Norte. A constelação de Órion, por exemplo, pode ser vista tanto do hemisfério Norte quanto do hemisfério Sul terrestre. No entanto, a disposição das estrelas que a constituem se apresenta de maneira distinta em cada hemisfério, devido à esfericidade do planeta Terra. 
Como você pôde perceber, existem diversas evidências da esfericidade da Terra, comprovando cientificamente o formato do planeta. No entanto, dependendo do estudo realizado, diferentes modelos da Terra podem ser propostos, com base no modelo esférico. Esses modelos representam o planeta de acordo com uma característica ou um conjunto de características específicas, como é o caso do modelo geoide.
Esse modelo foi elaborado com base em medições da gravidade no planeta, que varia entre as diferentes regiões da Terra. Essa variação ocorre porque a Terra é formada por camadas, as quais apresentam diferentes composições. Os diferentes materiais que compõem essas camadas apresentam densidades distintas, o que reflete na variação da gravidade nas diferentes regiões da Terra. 
Os dados das medições de gravidade terrestre foram obtidos por satélites artificiais que orbitam a Terra e foram traduzidos em uma representação – o modelo geoide. Nesse modelo, as diferenças na intensidade da gravidade terrestre são representadas por meio de variações no formato da superfície terrestre e nas colorações dessas regiões. Por apresentar a variação da gravidade, o modelo geoide representa a Terra de modo levemente distinto de seu formato esférico. 

Circum-navegação


Essa pesquisa nos leva a vários nomes, como o do português Fernão de Magalhães (1480-1521). Ele viveu na época das Grandes Navegações, em que Portugal e Espanha buscavam novas rotas comerciais para o Oriente, em especial para a Índia. Além das rotas pretendidas, as expedições levaram os viajantes a terras antes desconhecidas pelos europeus, como a América. 



Esquema de uma bola esférica e de um disco de vinil plano. Se a Terra for redonda como uma bola, navegar sempre na mesma direção contornaria o planeta. Mas, se a Terra for plana como um disco, em algum momento se chegaria ao limite; então, como seria esse fim?

Em 1519, a expedição comandada por Magalhães saiu da Espanha e seguiu sempre para oeste. Em 1521, ele morreu em uma batalha nas Filipinas, e seu lugar na expedição foi assumido pelo espanhol Juan Sebastián Elcano (1476-1526). Quase três anos depois, Elcano conseguiu retornar à Espanha. 
Magalhães e Elcano não chegaram ao fim da Terra, em um abismo no oceano, em um grande paredão de montanhas ou em qualquer outro obstáculo que os impedisse de continuar viajando sempre na mesma direção. O que fizeram foi completar uma volta inteira ao redor do planeta, outra evidência de que o modelo de Terra arredondada é mais adequado em comparação com o modelo de Terra plana.
Esses navegadores foram os primeiros a dar a volta ao mundo, o que chamamos de circum-navegação. Muitos outros homens e mulheres também fizeram viagens assim e, hoje, existem até competições de velocidade para circum-navegar o planeta.
Um brasileiro que deu uma volta completa navegando ao redor do mundo foi Amyr Klink (1955-). Em 1998, a bordo do veleiro Paratii, ele utilizou uma rota bem mais curta que a da expedição Magalhães-Elcano. Sua ideia foi navegar no entorno da Antártida, no polo sul. É uma travessia difícil por causa das correntezas e do frio, mas Klynk a completou após somente 88 dias. Em 2003, ele repetiu a façanha, em uma nova embarcação e com uma tripulação de cinco pessoas. Nessa segunda vez, completou a volta em 76 dias.

Modelos geocêntrico e heliocêntrico


Além de criar hipóteses sobre o formato da Terra, os povos da Antiguidade, ao observarem o céu com atenção, também começaram a elaborar teorias a respeito da posição e do movimento dos astros, inclusive do planeta em que vivemos. Desde aquela época, dois modelos que tentavam explicar a relação da Terra com os outros corpos celestes se destacaram: o geocêntrico e o heliocêntrico.

Modelo geocêntrico 


O filósofo grego Aristóteles adotou a hipótese de que a Terra estaria no centro do Universo, com a Lua, o Sol, os planetas e os demais astros girando ao seu redor. Essa tentativa de explicar o movimento dos astros no céu foi chamada modelo geocêntrico (em grego, geo = “terra”, que significava a Terra como centro). 
O sistema filosófico-científico aristotélico era bastante completo e propunha explicações tanto para o movimento dos astros no céu como para o movimento dos objetos na Terra. No século II, o matemático e astrônomo Ptolomeu (cerca de 100 d.C.-170 d.C.) desenvolveu uma base matemática complexa e aperfeiçoou esse modelo, que foi amplamente aceito até o século XV.

Representação do modelo geocêntrico proposto por Aristóteles. A imagem é a reprodução da gravura que integra o Harmonia Macrocósmica, grande atlas estelar publicado em 1660 e elaborado por Andreas Cellarius (1596-1665), matemático, cartógrafo e astrônomo holandês.


Modelo heliocêntrico


Aristarco de Samos (310 a.C.-230 a.C.), astrônomo grego, foi um dos primeiros a defender que a Terra girava em torno do Sol, e não o contrário. Esse modelo, chamado heliocêntrico (em grego, helios = “Sol”, o Sol como centro), propunha que o Sol estaria no centro do Uni verso e que os outros corpos celestes girariam em torno dele. 
Porém, com a hegemonia do modelo ptolomaico-aristotélico, que oferecia previsões muito precisas para a Astronomia da época, o heliocentrismo perdeu força e só veio a ser retomado na Europa no século XVI, durante o Renascimento. Um de seus primeiros defensores nesse período foi o polonês Nicolau Copérnico (1473-1543), que publicou sua teoria em 1543, ano de sua morte, após décadas de estudo. Depois, o modelo foi defendido e aperfeiçoado por Galileu Galilei (1564-1642), por Johannes Kepler (1571-1630) e por Isaac Newton (1643-1727). 
Galileu, em especial, contribuiu para o avanço da Astronomia ao usar uma luneta para estudar o céu noturno. Além disso, ele publicou uma extensa defesa do modelo copernicano heliocêntrico, criticando, de maneira consistente, o modelo defendido por Aristóteles e seus seguidores.

Representação do modelo heliocêntrico defendido por Nicolau Copérnico. Esta gravura também faz parte do atlas Harmonia Macrocósmica.

Modelo atual do Universo 


Com o avanço das teorias físicas sobre a interação entre os corpos e o aperfeiçoamento de instrumentos de observação do céu, os cientistas constataram que o Sol pode ser considerado o centro apenas do Sistema Solar, e não do Universo. Para além do Sistema Solar, que não está no centro nem da galáxia da qual faz parte (a Via Láctea), os astrônomos estimam que há inúmeros outros sistemas solares e galáxias no Universo.

Galileu Galilei 


Nascido na Itália, na cidade de Pisa, em 1564, é reconhecido por sua atuação em diferentes áreas do conhecimento, entre elas, Matemática, Física e Astronomia. Galileu foi também um grande inventor. 
Em 1633, foi investigado pela Inquisição por suas observações astronômicas, que contrariavam a visão geocêntrica adotada pela Igreja católica. Durante seu julgamento, Galileu foi ameaçado e obrigado a negar suas descobertas e afirmações anteriores. 
Assim, ele es capou da morte, mas foi condenado à prisão domiciliar. Somente em 1992 o papa João Paulo II (1920-2005) reconheceu, em nome da Igreja católica, a importância do trabalho de Galileu para a ciência e a humanidade e pediu perdão pelos erros cometidos pela instituição no passado. Em 2009, declarado Ano Internacional da Astronomia, o Vaticano fez uma homenagem ao astrônomo.

Retrato do astrônomo Galileu Galilei. Pintura de Justus Sustermans (c. 1640). 


Luneta 


A luneta foi desenvolvida para a observação de objetos que estão a uma grande distância do observador. Sua estrutura é bastante simples: é com posta de um tubo com lentes que, em conjunto, fornecem a imagem ampliada. Galileu foi o primeiro cientista a utilizar uma luneta para observar o céu e os astros. Ele aperfeiçoou uma luneta desenvolvida pelo holandês Hans Lippershey (1570-1619) anos antes. Em 1610, fez observações da Lua e descreveu suas crateras.

Seis representações da Lua feitas por Galileu Galilei, em cerca de 1610, com base nas observações que realizou com a luneta.

O MITO DA TERRA PLANA 


Nos últimos anos, a ideia de que a Terra é plana passou a ser propagada como se fosse verdade, especialmente na internet, com auxílio das redes sociais. 
Os argumentos usados para defender essa noção se baseiam em interpretações incorretas de conceitos científicos e, por isso, são classificados como pseudocientíficos (do grego pseudês: falso, mentiroso). 
Embora o formato esférico do nosso planeta já tenha sido comprovado há muito tempo e de diferentes maneiras, o mito da Terra plana é com partilhado nas redes sociais por dezenas de milhares de pessoas em diversos países. 
As plataformas on-line de compartilhamento de vídeos são uma das principais ferramentas usadas para disseminar esse tipo de desinformação. Por que será que tantas pessoas são convencidas de que a Terra é plana?

Representação fictícia do planeta utilizada por alguns grupos que defendem a ideia de que a Terra é plana.


sexta-feira, 20 de março de 2026

Brasil: o processo de industrialização

A indústria reúne matéria-prima, máquinas e trabalho humano; ela transforma a matéria-prima em produtos elaborados, que serão consumidos pela sociedade. A atividade industrial ocorre especialmente nos espaços urbanos e está atrelada a outros setores da economia, como a agropecuária e os serviços.
As primeiras indústrias no Brasil foram instaladas ainda no período colonial, no final do século XIX, quando o Império deu lugar à República. Entretanto, o país não se industrializou naquela época. 
No Período Colonial, havia pequenas indústrias artesanais domésticas (têxteis, de calçados, de embarcações etc.). O comando da metrópole portuguesa não permitia nenhum tipo de atividade industrial na colônia que pudesse competir com as de Portugal ou prejudicasse seus interesses comerciais.
Na realidade, o processo de industrialização brasileiro, no qual a economia passou a ser orientada principalmente pelas atividades industriais, ocorreu cerca de cem anos após ela se desenvolver na Europa, quando por lá o processo já estava bem mais avançado. Por isso, esse processo foi denominado de “industrialização tardia”.
A atividade industrial no Brasil é recente, se comparada à história da industrialização mundial, porque a política econômica brasileira era fundamentada na agricultura exportadora até a primeira metade do século XX.
Até o início do século XX, o Brasil ainda não havia se industrializado, a agropecuária respondia por 45% do PIB brasileiro e a produção de café para exportação era a principal atividade do país.
Foi somente a partir do século XIX, com a expansão da economia cafeeira na Região Sudeste, que teve início a primeira fase industrial do país
A primeira fase do processo de industrialização ocorreu entre 1880 e 1930, quando a exportação de café era a principal atividade econômica do Brasil e favoreceu o acúmulo de capitais para a estruturação de fábricas que se concentraram nas cidades de São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ). Nessa primeira fase, predominaram as indústrias têxteis, de vestuário, calçados e alimentos.
Fatores determinantes para isso foram a capitalização dos empreendedores nacionais (com dinheiro proveniente das vendas de café), a institucionalização do trabalho assalariado, a mão de obra imigrante, o aumento do mercado consumidor urbano, entre outros. 
Por muito tempo, os bens de consumo duráveis e os bens de produção, como máquinas e equipamentos pesados, eram importados.
Por aqui, a instalação das fábricas e o processo de industrialização decorreu da iniciativa privada, de empresários brasileiros, e sobretudo da ação do Estado, no final do século XIX e mais intensamente a partir da década de 1930.

Mercado consumidor e mão de obra


Em compasso com o avanço do crescimento industrial e urbano, o Brasil conheceu a formação de um mercado consumidor interno que se tornou importante para o crescimento econômico do país. Esse mercado se formou pela abolição da escravidão e pelo aumento do trabalho assalariado, realizado pela grande leva de imigrantes, sobretudo europeus. Diferentemente da mão de obra escravizada, o trabalhador livre e assalariado constitui-se como mercado consumidor para aquilo que é produzido pelo setor industrial de bens de consumo, alimentando, assim, parte da economia do país.
Na época, o trabalho não era regulamentado por leis trabalhistas como as que existem hoje. Dias e horas de trabalho, as funções do trabalhador, condições para sua realização e a remuneração eram praticamente definidos pelo empregador, com nenhum ou pouco diálogo com o operário. E as leis que havia, sobre, por exemplo, acidentes de trabalho, férias e contratação de menores de idade, eram pouco respeitadas e pouco fiscalizadas pelo governo.
Tentativas de organização entre operários, passeatas e algumas greves eram muito malvistas pela classe dominante. Não era incomum que os jornais relatassem as reivindicações como badernas e classificassem seus organizadores e participantes como pessoas ingratas por não valorizarem o trabalho que tinham, revelando heranças sobre as relações construídas no período escravagista e a desvalorização do trabalho braçal e das pessoas que o executavam.


Operários em fábrica de louças no estado de Santa Catarina, 1922. Observe que há crianças trabalhadoras, o que na época não era proibido pela legislação.

Crises externas e desenvolvimento industrial brasileiro


A maioria dos produtos industrializados que eram comercializados no Brasil ainda vinha da Europa, quando a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) eclodiu. O conflito provocou a diminuição da oferta de mercadorias dos países europeus e as tornou mais caras. Nesse período, novas fábricas surgiram no Brasil, substituindo as importações de alguns produtos estrangeiros. Na década de 1920, parte dos ganhos obtidos com a venda de café passou a ser investida na criação de bancos e indústrias.
As reduções do preço do café no mercado internacional e os períodos de crise econômica mundial, decorrente em parte da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e da quebra de empresas e da Bolsa de Valores de Nova York em 1929, levou ao deslocamento de parte dos recursos destinados à produção cafeeira para o desenvolvimento da indústria. Esses fatores criaram novas oportunidades de lucro com a produção e venda de bens até então importados pelo Brasil, para os quais já havia mercado consumidor interno.

Área de fábricas no bairro do Brás, um dos símbolos da industrialização local no início do século XX, em São Paulo (SP), 1925.


Em 1929, uma crise econômica começou nos Estados Unidos e afetou outros países. O preço internacional do café despencou e muitos cafeicultores faliram em nosso país. Com isso, o governo e os investidores se voltaram para a criação de indústrias, e, a partir da década de 1930, o Brasil intensificou sua industrialização. Por essa razão, foi chamado de “país de industrialização tardia”, quando comparado à Inglaterra, à França ou aos Estados Unidos.
O processo de industrialização brasileiro foi, em grande parte, possibilitado pelo capital acumulado na rede bancária e que não seria reinvestido nas plantações de café, em razão da reduzida possibilidade de lucro diante do contexto econômico mundial. 
Fabricou-se aqui, sobretudo, bens de consumo não duráveis e semiduráveis, como sapatos, roupas, produtos de higiene, alimentos, bebidas, gráfica (papelaria), móveis, etc., que exigiam pouco investimento financeiro e tecnologias mais simples. 
Para isso, importou-se máquinas dos países que eram expoentes industriais, deixando de investir no desenvolvimento tecno lógico nacional e tornando o país dependente da tecnologia externa.
Além do capital, da concentração da mão de obra e do mercado consumidor, o ciclo do café também propiciou a tecnificação dos territórios paulista e carioca, ou seja, a instalação de ferrovias, portos, es tradas, cidades, telégrafo, energia elétrica e o setor de serviços (bancos e comércio), fatores essenciais ao processo industrial, o que também explica a concentração espacial inicial da indústria no Brasil nessas áreas do atual Sudeste. 
Entretanto, esses sistemas de infraestruturas, em menor diversidade e densidade, também foram instalados em outras regiões brasileiras onde as atividades econômicas se mostravam mais dinâmicas, com destaque para a faixa litorânea do país.
A partir da década de 1930, gradativamente, a elite agrária foi dando espaço para a elite urbana, forma da por industriais, comerciantes e banqueiros.

Durante o governo Vargas 


Durante o governo de Getúlio Vargas (1930-1945 e 1951-1954), ocorreu uma mudança significativa na estrutura industrial brasileira. 
O Estado passou a investir fortemente na industrialização do país, sobretudo nas indústrias de base, que exigem grande volume de investimento e retorno a longo prazo e são essenciais (ainda mais naquela época) ao processo de industrialização, pois favorecem o desenvolvimento dos demais setores industriais.
A atividade industrial intensificou-se com a implantação de indústrias de base (siderurgia, metalurgia, mecânica, indústria de cimento etc.). Isso reduziu as importações e estimulou a produção nacional de bens de consumo duráveis. Nessa segunda fase da industrialização brasileira, a indústria tornou-se um importante setor da economia, superando o setor agrícola.
Destacam-se a criação de indústrias estatais de siderurgia (1941: Companhia Siderúrgica Nacional – CSN), bens de capital (1942: Fábrica Nacional de Motores – FNM) e mineração (1942: Companhia Vale do Rio Doce – CVRD). 
A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) também favoreceu a industrialização brasileira por meio de crises de abastecimento e necessidade de produção local daquilo que ainda era importado e de negociações que o governo fez para vincular seu apoio aos Aliados na guerra (Estados Unidos, Reino Unido e França) em troca de investimento e repasse de tecnologia industrial. Ou seja, novamente a substituição de importações foi um grande motivador do desenvolvimento industrial brasileiro.

Pós Segunda Guerra Mundial 


Na década de 1940, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o desenvolvimento da indústria nacional foi novamente estimulado pela substituição de produtos importados por nacionais. Esse foi um período de muitos investimentos estatais na produção de energia, aço e máquinas, sem os quais outras indústrias dificilmente surgiriam. 
Ao final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, a industrialização brasileira ganhou uma nova configuração ao se desenvolver por meio da instalação de filiais de empresas estrangeiras (de origem europeia, japonesa e estadunidense) que passaram a se internacionalizar na busca por mercado consumidor, oferta de matéria-prima e energia, mão de obra mais barata e legislação favorável. 

50 anos em 5 


No governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961) iniciou-se a terceira fase da industrialização brasileira, com o uso de capital externo e o desenvolvimento da indústria de bens de consumo duráveis. Com a entrada de capital estrangeiro, empresas multinacionais ingressaram no país. Nessa fase, foram feitos muitos investimentos e empréstimos a instituições financeiras para manter o ritmo de crescimento econômico nacional, o que gerou grande endividamento.
Durante o governo do presidente Juscelino Kubitschek, foi desenvolvido um ambicioso projeto de modernização do país, denominado Plano de Metas. O projeto tinha como slogan promover o avanço econômico do país de 50 anos em 5 anos, visando modernizar a indústria, com especial atenção para as áreas de energia, transporte e indústrias de base (química, siderúrgica, elétrica etc.). 
O incentivo à industrialização mobilizou a instalação de infraestrutura viária e desenvolvimento do setor energético. Aumentou-se consideravelmente a geração de energia elétrica e extração de petróleo, assim como a abertura e pavimentação de estradas, estimulando a vinda de montadoras automobilísticas estrangeiras ao país. Por outro lado, o transporte ferroviário foi praticamente abandonado. 
É desse período também o projeto e construção de Brasília, a sede da nova capital federal. Além disso, foram criados mecanismos fiscais e financeiros que incentivaram a importação de maquinário pelos empresários brasileiros e a entrada de capital estrangeiro na participação nos empreendimentos e na economia nacional. Esse período foi marcado pelo aumento da entrada de empresas multinacionais no território brasileiro.

Governos militares


Com a renúncia do presidente Jânio Quadros, em 1961, quem assumiu foi seu vice, João Goulart, que tentou promover um conjunto de reformas, como a agrária, a cambial, a tributária, a educacional, entre muitas outras que desagradaram os setores mais conservadores da sociedade, uma grande parte da elite urbana e rural, bem como parte de empresas e investidores estrangeiros, que se mobilizaram para impedi-las.
Em 1964, os militares brasileiros, com apoio de parte da sociedade civil, destituíram o presidente (Golpe de Estado), fecharam o Congresso e assumiram o poder executivo no país, que deixou de realizar eleições diretas para presidente até 1989.

Durante a Ditadura Militar no Brasil, foram feitos investimentos em projetos audaciosos e caros, e alguns apresentaram grandes dificuldades na execução e um resultado aquém do planejado, como na rodovia BR- 230, também conhecida como Transamazônica. Trajeto em Altamira (PA), 1972

Usina Nuclear de Angra dos Reis (RJ), 1977


Os governos militares assumiram uma postura desenvolvimentista e que promoveu a industrialização e a construção de grandes empreendimentos de infraestrutura, com significativo desenvolvimento do setor de bens de produção até por volta de 1980. Entre 1968 e 1973, o país cresceu a uma média de 10% ao ano. Em 1979, pela primeira vez na história do país, a exportação de bens industrializados superou o de gêneros primários (agrícolas, minérios, etc.). Esse desempenho foi chamado de “milagre brasileiro”. Entretanto, também foi o período de grande endividamento externo do país, redução do valor de compra do salário-mínimo, não reajustado adequadamente, e aumento da desigualdade social.
Na década de 1980, dificuldades de a indústria nacional obter novos equipamentos e crédito do governo marcaram o período conhecido como a “década perdida” para a economia do Brasil. 

Concentração e relativa desconcentração industrial


A década de 1980 foi conhecida como “a década perdida” por ter sido marcada pela grande recessão e crise econômica vivida pelo país e que se desdobrou até o início dos anos 2000. Foi um período de estagnação das atividades industriais e muitas fábricas foram deslocadas dos grandes centros urbanos para cidades menores no mesmo estado ou até para outros estados, que ofereciam condições fiscais mais vantajosas.
Na década de 1990, o país expandiu as atividades comerciais. Essa fase ficou marcada pela entrada de vários produtos estrangeiros (computadores, automóveis, eletrodomésticos, entre outros). Empresas estatais foram privatizadas, ou seja, deixaram de ser propriedades do governo e passaram a ser empresas privadas. 
A partir dessa década, o país ingressou na quarta fase industrial, marcada pela globalização e abertura econômica, pelo desenvolvimento de tecnologias de telecomunicações, informática, robótica, engenharia genética e transporte.
A partir de 1990, com a economia mais estável, alguns segmentos industriais voltaram a crescer. Outros, porém, tiveram dificuldade para superar a concorrência dos produtos importados após a abertura comercial desse período.
Já tendo um governo eleito democraticamente e com grande influência da globalização econômica e financeira, foi promovida no país uma abertura comercial e ampliada à concorrência com empresas estrangeiras. Esse movimento levou a uma maior competitividade interna, falência ou compra de empresas, privatizações e nova onda de modernização e competitividade (mão de obra bastante qualificada e novas tecnologias). 
Com o término de alguns mecanismos de protecionismo à indústria nacional, ocorreu a facilitação da entrada de máquinas e equipamentos industriais de última geração, possibilitando a modernização de parte do parque industrial brasileiro, melhorando a qualidade de alguns setores, tornando-os mais competitivos.
O setor industrial brasileiro está concentrado nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro e também em áreas da Região Sul e do litoral nordestino. 
Embora a indústria esteja concentrada em algumas áreas, nas últimas décadas muitas fábricas se deslocaram para o interior do país, em busca de mão de obra mais barata e de incentivos fiscais de governos estaduais ou prefeituras. 
Essa mudança na distribuição espacial das indústrias marca nova fase de desconcentração industrial. A desconcentração da produção tem modificado expressivamente os fluxos migratórios, por causa da demanda de trabalhadores.
A concentração industrial no Centro-Sul é um importante elemento para avaliar as desigualdades socioeconômicas entre as regiões brasileiras. A descentralização industrial, ainda que insuficiente, foi importante para o desenvolvimento técnico e produtivo de outros municípios e estados do país.
O setor industrial brasileiro no século XXI depende cada vez mais do desenvolvimento tecnológico para melhorar seu desempenho. Apesar de os investimentos em ciência e tecnologia serem crescentes, ainda não têm sido suficientes para tornar o Brasil independente tecnologicamente. 
Desde o início, a industrialização do Brasil concentrou-se na Grande Região Sudeste, principalmente nas Regiões Metropolitanas de São Paulo e do Rio de Janeiro. 
Na metrópole paulista, essa concentração ocorreu no chamado “ABCD”, que reúne os municípios de Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul e Diadema. 
A Rodovia Anchieta, que liga esses municípios ao Porto de Santos, a disponibilidade de energia elétrica e a proximidade do mercado consumidor foram fatores determinantes para a escolha dessa localização industrial. 
A partir da década de 1950, intensificou-se a implantação de indústrias ao longo de quatro principais eixos rodoviários paulistas: a Rodovia Presidente Dutra, a Rodovia Presidente Castelo Branco, o Sistema Anchieta-Imigrantes e o Sistema Bandeirantes-Anhanguera-Washington Luís.
A instalação de indústrias nesses eixos rodoviários mostra a desconcentração industrial em relação à Região Metropolitana de São Paulo. 
Entretanto, esse processo vem ocorrendo também em âmbito nacional. Assim, há um declínio relativo na atividade industrial do estado de São Paulo e da Grande Região Sudeste. Em outras palavras, a industrialização do estado de São Paulo e da Grande Região Sudeste está crescendo em um ritmo mais lento do que o de outros estados e regiões do Brasil, produzindo, assim, uma nova distribuição espacial das indústrias.

A desconcentração industrial e suas causas 


Apesar da relativa desconcentração industrial em curso, a Grande Região Sudeste, sobretudo o estado de São Paulo e as Regiões Metropolitanas de São Paulo e do Rio de Janeiro, continua sendo a principal área industrial do Brasil. 
Porém, é importante destacar os fatores que estão levando a essa desconcentração:

  • Política industrial do governo militar 


Durante o governo militar, no período de 1964 a 1985, instituíram-se diversas políticas de industrialização e planos econômicos de desenvolvimento dirigidos à descentralização industrial no país. Foram realizados investimentos em infraestrutura essenciais para a criação de polos industriais. 
Destacam-se a exploração de minérios em Carajás (PA), Trombetas (PA), Caraíba (BA) e Patos (MG); os portos de Itaqui (MA) e Tubarão (ES); as petroquímicas de Camaçari (BA), Paulínia (SP) e Canoas (RS); a indústria automobilística em Betim (MG); além de outros.

  • Elevação dos custos de produção 


Ao longo do tempo, a Grande Região Sudeste, sobretudo a Região Metropolitana de São Paulo, perdeu vantagens na produção industrial para outras unidades da federação e regiões do Brasil. Isso porque passou a apresentar altos custos produtivos resultantes de um conjunto de fato res, como congestionamento de trânsito e impostos e salários mais altos.

  • A guerra fiscal


Principalmente a partir da década de 1990, vem ocorrendo a atração de indústrias para fora da Grande Região Sudeste em razão da intensificação de vantagens fiscais oferecidas por governos estaduais, distrital ou municipais de outras regiões do Brasil. Exemplos dessas vantagens são: incentivo fiscal, doação de terrenos com infraestrutura de saneamento básico, de transporte, de comunicação etc. 
A chamada guerra fiscal, somada às outras causas da desconcentração industrial apresentadas, ajuda a explicar a atual distribuição das indústrias no Brasil e a participação desse setor da economia em cada região do país.

Indústria, inovação tecnológica e transformações socioeconômicas 


Durante o século XIX e parte do século XX, um dos fatores que diferenciavam os países do mundo em desenvolvidos, subdesenvolvidos e em desenvolvimento era o nível de industrialização por eles alcançado. 
As técnicas de produção, que impulsionaram a industrialização nesses séculos, assumiram, por volta da década de 1970, uma nova etapa graças à Terceira Revolução Industrial. Também conhecido como Revolução Técnico-Científico-Informacional, tal processo caracteriza-se pela intensa aplicação de conhecimentos científicos à produção e pelo desenvolvimento tecnológico em diversas áreas, como a informática – com o amplo uso de computadores e de redes de comunicação, como a internet; as telecomunicações – satélites artificiais; a robótica – uso de robôs no processo de produção; além de outras. 
Certos países já se encontram na Quarta Revolução Industrial, chama da também de Indústria 4.0, que se caracteriza pelo aperfeiçoamento das máquinas e dos equipamentos.

  • Economia do conhecimento 


A atividade industrial, considerada o “motor” do desenvolvimento econômico e social dos países durante os séculos XIX e XX, passou a disputar importância, de alguns anos atrás para os dias atuais, com a produção de conhecimento sobre as técnicas; daí se falar, hoje, em economia do conhecimento. 
O “saber fazer” tornou-se uma valiosa mercadoria, sendo produzida e comercializada em escala global, beneficiando países, instituições e pessoas que produzem conhecimento e desenvolvem novas tecnologias. 
No início da década de 1950, algumas empresas de tecnologia se estabeleceram no Vale do Silício (Silicon Valley), no estado da Califórnia, nos Estados Unidos, região onde há universidades importantes, como Stanford e Berkeley. Logo, a região transformou-se em importante polo de tecnologia avançada nos setores de eletrônica, informática e comunicação. 
O elemento químico silício inspirou o nome dado à região por ser a matéria-prima usada na produção de grande parte dos pequenos circuitos eletrônicos (chips). Várias empresas de tecnologia dinamizaram e promoveram uma reorganização do território na região. 
Elas atraíram pessoas de outras áreas dos Estados Unidos e do mundo, induziram o crescimento urbano, a construção de infraestruturas, o desenvolvimento do comércio e de indústrias etc. 
Não tardou para que surgissem polos de tecnologia avançada em outros países, como França, Alemanha, Japão, Reino Unido, Coreia do Sul e Países Baixos.

  • O Brasil e a economia do conhecimento 


A inserção do Brasil na economia do conhecimento ainda é modesta se comparada à dos grandes centros mundiais de produção científica e tecnológica. No país, as pesquisas são realizadas principalmente em universidades e instituições governamentais e, em menor proporção, em empresas do setor privado – diferentemente dos Estados Unidos, onde a maior quantidade de pesquisadores trabalha em empresas privadas. 
No Brasil, os pesquisadores de instituições governamentais enfrentam diversos problemas, entre eles a escassez de recursos financeiros, a ineficiência dos órgãos públicos para autorizar a aquisição de materiais e substâncias necessárias para a realização de pesquisas, além de outros. 

  • Parques científicos e tecnológicos no Brasil 


Um parque tecnológico corresponde a uma concentração geográfica de instituições dedicadas a atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D) e envolvidas na produção de bens e serviços, como universidades, centros de pesquisa, laboratórios e empresas. 
A instalação de um parque científico e tecnológico exige investimentos em infraestrutura e mão de obra qualificada. Porém, pode estimular a economia e integrar territórios com os espaços nacional e internacional. 

  • Parques científicos e tecnológicos e reorganização espacial


Além de atrair populações e empresas, os parques científicos e tecnológicos dinamizam a economia e estimulam o crescimento do setor terciário (comércio e serviços), favorecendo, assim, as comunidades locais. Têm, nesse sentido, uma função de reorganização do espaço geográfico. De modo geral, atraem e criam demanda por empreendi mentos, como agências bancárias, hotéis, centros de convenção, lojas, lanchonetes, hospitais, entre outros. 
Além disso, quando são implantados, geram a necessidade de infraestrutura básica (como a criação de vias de circulação, energia, saneamento e telecomunicações); fomentam a construção civil por meio de edificações para a instalação de empresas, laboratórios e outros espaços de trabalho etc.; e favorecem o surgimento de empresas de serviços (limpeza, segurança, alimentação, entre outras) para atender à sua estrutura administrativa.
Por exemplo, a implantação do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), respectiva mente nos anos de 1950 e 1971, no município de São José dos Campos, no estado de São Paulo, reorganizou o território do município e de suas proximidades. Em 1960, a população de São José dos Campos somava 40 mil habitantes e sua economia era predominantemente de base agrícola. 
Em 2021, sua população chegou a 730 mil habitantes e sua economia passou a ser de base industrial. O município conta com várias universidades e faculdades, atraindo estudantes de todo o Brasil e do exterior.

Guerra fiscal e guerra dos lugares 


São variados os fatores responsáveis pela maior dispersão industrial pelo território nacional e sua relativa desconcentração espacial, observada a partir da década de 1970, como: o desenvolvimento dos sistemas de transporte e comunicação, a maior oferta de energia em outras localidades, as transformações das técnicas produtivas, os novos maquinários e as novas matérias-primas, o crescimento populacional, etc. Além disso, aumento dos custos de produção em antigas localidades de tradição industrial associada com benefícios fiscais, imobiliários, financeiros e até ambientais, oferecidos pelos estados e municípios com o objetivo de atrair empreendimentos industriais para seus territórios na perspectiva de modernizá-lo e dinamizá-lo economicamente, levou muitas empresas a se deslocarem. Isso estimulou a competição entre os entes federativos para atrair determinadas indústrias por meio da oferta de condições fiscais e financiamento cada vez mais favoráveis a elas, fenômeno que é denominado “guerra fiscal” ou “guerra dos lugares”.

A indústria e o espaço rural 


A expansão da atividade industrial, motivada pela ampliação do consumo da população, aumenta a demanda por matérias-primas – produtos agrícolas, pecuários e extrativos –, que impulsiona o campo a aumentar a produção dos gêneros destinados a suprir o abastecimento das fábricas. 
Isso pode ser visto quando uma usina de açúcar e etanol é instalada em deter minado município: parte dos produtores rurais da região substitui seus cultivos tradicionais ou as pastagens por lavouras de cana-de-açúcar a fim de abastecer a demanda daquela indústria. 
Para suprir a demanda da produção industrial, o campo fornece um volume cada vez maior de matérias-primas. No entanto, para se tornarem mais produtivas, as propriedades rurais dependem da incorporação de recursos tecnológicos avançados. 
Isso exige investimentos em tratores, colheitadeiras, adubos, fertilizantes para as lavouras, rações, vacinas e medicamentos para a criação de animais, entre outros recursos. Dessa forma, ao mesmo tempo que o campo se organiza para atender à de manda da produção industrial, suas atividades também são impulsionadas pela indústria a se modernizarem, visando produzir cada vez mais

Decadência


Em meados da década de 1970, a indústria brasileira respondia por cerca de 22,5% do PIB nacional. No início de 2020, respondia por 12%. Após estar entre os 10 países mais industrializados no mundo por cinquenta anos, em 2020, o país saiu desse grupo. O Brasil, atualmente, contribui com cerca de 2% da produção industrial mundial e cerca de dois terços dessa produção é de baixa ou média tecnologia.


O Universo

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