O estudo das células está associado à invenção e evolução dos microscópios. Muito tempo se passou desde a observação da célula até a elaboração da teoria celular e isso só foi possível graças à divulgação científica, onde os estudos foram sendo complementados.
Em 1665, o físico inglês Robert Hooke (1635-1703), em sua obra Micrografia, descreveu a observação que fez em microscópio, de lascas finas de cortiça da casca de uma árvore. Hooke verificou que elas tinham estrutura semelhante a favos de colmeia de abelhas, ou seja, uma rede de cavidades preenchidas por ar e denominou as cavidades de célula.
Em 1671, Anton van Leewenhoek (1632-1723) produziu vários manuscritos em que desenhava a observação de células, porém não utilizava essa denominação, mas sim cavidades. No mesmo ano, Nehemiah Grew (1641-1712) também as registrou, utilizando entre outras terminologias, o termo células.
Ao longo do tempo, vários cientistas fizeram registros sobre a existência de células. Em 1839, a partir
dos estudos de Mathias Schleiden (1804-1881) e Theodor Schwann (1810-1882) sobre a origem ou formação das células em vegetais e animais, pesquisadores passaram a defender a ideia de que todos os seres
vivos são formados por células, a unidade básica dos organismos, e que há um princípio comum de desenvolvimento. Essa ideia foi chamada de teoria celular.
A teoria celular fortaleceu-se em 1858, quando o médico alemão Rudolf Virchow (1821-1902) constatou
que toda célula surge de outra célula já existente.
A célula
O corpo de todos os seres vivos é formado por unidades muito pequenas, chamadas células.
As células são as menores unidades estruturais e funcionais dos seres vivos. É por meio do metabolismo celular que o corpo obtém energia para que sejam realizados processos essenciais à vida, como nutrição, respiração, reprodução, entre outros.
Seres vivos unicelulares e multicelulares
Os seres vivos não apresentam o mesmo número de células. Alguns são
formados por apenas uma célula e são chamados de unicelulares – por
exemplo, as bactérias; outros são formados por muitas células, como os animais e as plantas que conhecemos, e são chamados de multicelulares (ou
pluricelulares).
Estrutura das células
As células dos diversos organismos variam em forma, tamanho e outras características, mas todas apresentam uma estrutura básica formada por: membrana plasmática, citoplasma e material genético.
As três partes mencionadas, membrana plasmática, citoplasma e núcleo, são típicas das células dos animais, das plantas e dos fungos, e também de muitos organismos formados por apenas uma célula (unicelulares), como as amebas, que vivem em ambiente aquático.
Fotomicrografia mostrando uma ameba em que foi aplicado corante vital para melhor
visualização. Ela mede cerca de 0,7 mm de comprimento e é comum em água doce.
A célula da ameba pode mudar de forma, tornando-se mais arredondada ou alongada.
A mudança de forma da célula nas amebas é importante para o deslocamento e também
para a captura do alimento. Esta é uma das maiores espécies de amebas e, embora possamos
vê-las a olho nu, não conseguimos ver os detalhes de sua estrutura sem microscópios.
Samambaias, peixes, como o curimbatá, e cogumelos são alguns exemplos de
organismos que apresentam células formadas por membrana, citoplasma e núcleo.
As samambaias medem cerca de 1 m de altura; o curimbatá mede 80 cm de
comprimento; e os cogumelos medem aproximadamente 5 cm de altura.
Membrana plasmática: envolve a célula, separando-a do meio externo. Ela
regula a entrada e saída de materiais na célula.
Citoplasma: é o interior da célula, preenchido por material gelatinoso no
qual as estruturas celulares – organelas – ficam imersas. Cada organela realiza uma função específica e essencial para a célula, como respiração, digestão, excreção etc.
Material genético: estrutura responsável pelas informações de características e funcionamento da célula e do organismo. Essas informações são transmitidas da célula-mãe para a célula-filha.
Em alguns organismos, o material genético encontra-se disperso no citoplasma. Essas células são chamadas de procariontes. Em outras células o
material genético é envolvido por uma membrana nuclear e são chamadas de
eucariontes.
Células eucariontes
As células eucariontes possuem
várias organelas e um núcleo onde o
material genético fica envolvido por
uma membrana. Os seres formados
por esse tipo de célula podem ser
unicelulares (protozoários, alguns
tipos de algas e de fungos) ou multicelulares (plantas, animais e outros
tipos de fungos).
A célula vegetal
Além do que já foi apresentado, as
células vegetais apresentam algumas
peculiaridades: uma parede celular rígida ao redor da membrana plasmática,
composta de celulose; a presença de
cloroplasto, que é uma organela com
clorofila, substância verde que absorve
a energia luminosa durante a fotossíntese (processo em que as plantas obtêm
energia).
A cor verde das folhas, de alguns caules e dos frutos deve-se a esse
pigmento. Nas células vegetais existem
grandes vacúolos, estruturas preenchidas por um líquido com nutrientes e outras substâncias.
Células procariontes
As células procariontes não apresentam a membrana que separa seu material genético do citoplasma. Também
possuem parede celular e não apresentam algumas organelas que encontramos nas células das imagens anteriores.
Os seres formados por esse tipo de célula são unicelulares, como as bactérias
e cianobactérias (também conhecidas
como cianofíceas ou algas azuis).
Diversidade de células
As células têm tamanhos variados, mas quase todas são tão pequenas que
somente podem ser vistas por meio de um microscópio.
O organismo dos seres multicelulares tem células diferentes umas das outras.
No caso do ser humano, por exemplo, temos células alongadas, achata
das, ramificadas, esféricas, cúbicas etc. e com funções muito distintas.
As células animais
Com base nos poucos exemplos que demos de células do corpo humano, pode-se notar que em um mesmo organismo há diferentes formatos
de células e diferentes funções. Mesmo assim, conseguimos fazer comparações e notar que elas apresentam estruturas em comum.
Vimos que
todas as células são delimitadas por uma membrana muito fina, chama
da membrana plasmática. Ela funciona como uma barreira protetora que
separa o conteúdo da célula do ambiente externo.
Uma característica essencial da célula é a sua comunicação com o
meio externo.
A célula necessita de água e nutrientes, assim como precisa eliminar certos materiais para se manter viva. É a membrana plasmática que controla as substâncias que entram na célula e que dela saem.
Assim, essa membrana delimita a célula e lhe confere proteção, mas não
a isola completamente do meio externo.
O citoplasma tem consistência gelatinosa e é rico em água. Imersas
nesse material gelatinoso há várias estruturas delimitadas por membrana e que executam funções específicas, muito importantes para
o funcionamento da célula. São chamadas organelas membranosas.
Um exemplo é a mitocôndria, responsável pela respiração celular,
processo por meio do qual a célula obtém energia.
O retículo endo
plasmático está relacionado com a produção de certas substâncias e
com a distribuição delas pela célula. O complexo golgiense está relacionado com a modificação das substâncias produzidas pelo retículo
endoplasmático, o armazenamento delas e o envio de algumas para
fora da célula.
Além disso, há também estruturas não delimitadas por
membranas, como os ribossomos, onde ocorre a produção de proteínas. Eles ocorrem livres no citoplasma e associados a regiões do retículo endoplasmático que, assim, também atua na síntese de proteínas.
Analise, agora, o esquema mostrado a seguir, que representa uma célula
animal generalizada, ou seja, ela não é um tipo celular em especial.
Representação
esquemática de célula
animal, representada
tridimensionalmente e
em corte para mostrar
sua organização
interna. Elementos
representados em
tamanhos não
proporcionais entre si.
Cores fantasia.
O citoplasma encontra-se separado do material nuclear por uma
membrana dupla, chamada envelope nuclear (ou carioteca). O envelope
nuclear, no entanto, não isola totalmente o material nuclear. Ele apresenta poros através dos quais há troca controlada de substâncias entre o
citoplasma e o núcleo.
No núcleo está o material genético das células: os
cromossomos, que armazenam as informações para o funcionamento da
célula e participam do processo de divisão celular.
As células animais, em geral, têm apenas um núcleo, ou seja, são uni
nucleadas. Note que é o caso das células do revestimento interno da boca e
dos glóbulos brancos do sangue. Há outros tipos
celulares, como algumas células dos músculos, no entanto, que apresentam
vários núcleos. As hemácias, por outro lado, não têm núcleo e, por isso, não
são capazes de se dividir, já que a divisão celular depende dos cromossomos
presentes no núcleo.
A produção de novas hemácias ocorre a partir de células
nucleadas da medula óssea vermelha. Essas células, ao se diferenciarem em
hemácias, perdem o núcleo. As hemácias vivem por certo tempo e morrem.
As células das plantas
Analisamos até agora como são as células animais, tomando como
exemplo as do ser humano. Vamos ver agora como são as células das
plantas e no que se assemelham e diferem das células animais. Para
isso, analise a fotomicrografia a seguir que mostra células de planta ao
microscópio de luz.

Fotomicrografia de células de planta. Por apresentarem pigmentos naturais (cor verde), é possível ver os cloroplastos dessas células sem o uso de corantes. Ampliação: aproximadamente mil vezes.
Observe na fotomicrografia que as células têm um limite bem estabelecido. Isso ocorre porque elas apresentam, além da membrana plasmática, um envoltório externo mais espesso e resistente, que é a parede celular. Com isso, a forma da célula da planta muda menos do que a forma da célula animal.
Além disso, é possível notar a presença de várias estruturas esverdeadas dentro de cada célula. Essas estruturas são organelas membranosas chamadas cloroplastos.
Os cloroplastos contêm em seu interior o pigmento clorofila, que dá
a cor verde às plantas. Eles realizam o processo de fotossíntese, que
depende da luz.
Na fotossíntese, o gás carbônico e a água participam de
reações complexas que originam açúcar e gás oxigênio, que é lançado
na atmosfera. O açúcar produzido por esse processo é usado pelas próprias plantas para sua sobrevivência e pelos animais, ao se alimentarem
das plantas.
No interior das células das plantas há uma organela membranosa bem
desenvolvida que, muitas vezes, chega a ocupar grande parte do volume celular: o vacúolo. Nele há muita água onde estão dissolvidas várias
substâncias.
Representação
esquemática de célula
vegetal, representada
tridimensionalmente e
em corte para mostrar
sua organização
interna. Cores fantasia.
As células dos fungos
Os fungos são organismos que se alimentam absorvendo nutrientes do
meio. Para isso, liberam para fora do corpo enzimas que digerem a matéria orgânica presente no meio ao seu redor e absorvem os nutrientes que
serão empregados na manutenção de seu corpo.
Há fungos formados por apenas uma célula, como as leveduras, e fungos formados por várias células, caso dos cogumelos. Nos fungos multicelulares, o corpo é formado por filamentos chamados hifas, que se
organizam constituindo um micélio.
Eletromicrografia de
varredura de células de
levedura Saccharomyces
cerevisiae (aumento de
7 mil vezes). Colorida
artificialmente. As
leveduras podem ser
utilizadas na produção
de pão, vinho e cerveja.
Tanto os fungos unicelulares quanto os multicelulares possuem células formadas por parede celular, membrana plasmática, citoplasma, núcleo, vacúolo e mitocôndrias. Além delas, há outras organelas membranosas, como o complexo golgiense, o retículo endoplasmático e os ribossomos.
Embora as células dos fungos apresentem parede celular e vacúolo
como as células das plantas, a composição química da parede celular
desses organismos é diferente: nos fungos, a parede celular é formada
basicamente por quitina e, nas plantas, basicamente por celulose.
Assim como as células animais, os fungos não apresentam cloroplastos.
As células das bactérias
Vimos até agora que as células de organismos como amebas, fungos,
plantas e animais apresentam em sua estrutura básica membrana, cito
plasma com organelas membranosas e núcleo. Há, no entanto, outros seres
vivos cujas células não apresentam núcleo nem organelas membranosas.
É o caso das bactérias.
A célula bacteriana tem parede celular, membrana plasmática e cito
plasma, onde estão os ribossomos. Não há núcleo, e o material genético
delas fica em uma região especial do citoplasma chamada nucleoide.
Em geral, as células bacterianas são muito menores que as células dos
demais organismos. Muitas espécies de bactérias podem ser visualiza
das em microscópios de luz, mas na maioria dos casos a melhor maneira
de estudá-las é com o microscópio eletrônico.
Eletromicrografia de uma célula de bactéria, colorida artificialmente, mostrada em corte (aumento de cerca
de 13 500 vezes).
Vírus
A teoria celular diz que todo ser vivo é forma
do por célula. Há, no entanto, um grupo muito
peculiar de seres que não é composto de célula,
mas que apresenta algumas características presentes nos seres vivos.
Estamos falando do grupo dos vírus.
Além de não serem formados por célula, os
vírus não apresentam outras características que
usamos para definir um ser vivo: não reagem a
estímulos nem utilizam energia, água e nutrientes. Porém, apresentam material genético e se
reproduzem.
Essa reprodução, no entanto, depende de estarem dentro de uma célula. Fora
das células, eles não apresentam manifestações
vitais. Pelo fato de os vírus terem características
muito peculiares, ainda se discute se podem ser
considerados seres vivos.
Eletromicrografia de vírus do tipo bacteriófago
(aumento de cerca de 125 mil vezes). Colorida
artificialmente.
O tamanho das células
Em geral, quando precisamos medir o comprimento de uma sala ou
a altura de uma pessoa, usamos como unidade de medida o metro (m).
Para medir comprimentos muito maiores ou muito menores, porém, uti
lizamos múltiplos e submúltiplos do metro, respectivamente.
Um dos múltiplos mais utilizados é o quilômetro (km), que equivale
a 1 000 metros; entre os submúltiplos, os mais usados são o centímetro (cm), que equivale a 1 metro dividido por 100, ou seja, a centésima
parte do metro, e o milímetro (mm), que equivale a 1 metro dividido por
1 000 (a milésima parte do metro).
As células, porém, são muito pequenas para serem medidas com essas
unidades. Para medir o comprimento das células, usamos um submúltiplo ainda menor que o milímetro: o
micrometro
, cujo símbolo é
m
m
e que
corresponde à milésima parte do milímetro, ou seja, 1 milímetro dividido por 1 000. A letra m vem do alfabeto grego e pronuncia-se “mi”.
Apesar de a maioria das células ser microscópica, existem exceções.
Já comentamos que há espécies de amebas que medem cerca de
0,7 mm e podem ser vistas a olho nu.
Outro exemplo é o organismo unicelular do gênero Noctiluca, que vive nas águas superficiais dos mares e
emite uma luminescência que pode ser vista à noite como um brilho nas
águas do mar e na areia molhada da praia. Este é justamente o significado de seu nome científico: brilho (luca) da noite (nocti). A célula desse
organismo mede cerca de 1 mm de diâmetro.
Eletromicrografia de
varredura de gameta
feminino e gameta
masculino humanos, para
efeito de comparação de
suas formas e tamanhos
(aumento de cerca de
400 vezes). Colorida
artificialmente.
Fotomicrografia mostrando
vários indivíduos de
Noctiluca (medem cerca
de 1 mm de diâmetro
cada). Esses organismos
são predadores. Um dos
indivíduos mostrados
na fotografia ingeriu
um pequeno animal,
interessante exemplo
em que um organismo
unicelular é predador de
um multicelular.
Outro exemplo é a alga verde unicelular do gênero Acetabularia, que vive no mar. A célula mede entre 0,5 cm e 10 cm de altura e apresenta três regiões especializadas: a base, o pedúnculo e o chapéu.
Mesmo sendo visíveis a olhu nu, não é possível visualizar os detalhes
ou estruturas internas dessas células sem o auxílio dos microscópios.
Se por um lado há unicelulares visíveis a olho nu, por outro há multicelulares que só são visíveis ao microscópio. É o caso dos rotíferos. Esses
pequenos animais, comuns no ambiente aquático, medem entre 0,02 mm
e 3 mm. Muitas espécies são, portanto, menores que as amebas, os noctilucas e as acetabulárias. Em qualquer amostra de água de um lago, por
exemplo, é possível ver ao microscópio de luz vários desses animais.
Fotomicrografia de um rotífero. Na porção anterior do seu corpo, há uma coroa ciliada expandida, empregada na filtração de bactérias e outros microrganismos consumidos como alimento. Este indivíduo mede cerca de 0,3 mm.
Fotomicrografia de um rotífero. Na porção anterior do seu corpo, há uma coroa ciliada expandida, empregada na filtração de bactérias e outros microrganismos consumidos como alimento. Este indivíduo mede cerca de 0,3 mm.
Os tardígrados
Eles aguentam incólumes o frio de 270 °C negativos, o vácuo, a radiação solar em intensidade mil vezes maior do que humanos e sobrevivem por décadas sem água.
Em 2007, 800 deles
foram enviados ao espaço. E foram recuperados vivíssimos. Os tardígrados são os animais mais
resistentes do mundo.
Tardígrado sobre uma
folha de musgo, visto ao
microscópio eletrônico de
varredura (aumento de
270 vezes). Os tardígrados
medem entre 0,05 mm e
1 mm de comprimento.
Têm uma boca redonda, um corpo roliço e quatro pares de pernas atarracadas com garrinhas nas pontas que saltam de seu corpo rugoso. As patinhas lembram as de um urso, e por isso
os tardígrados são conhecidos também como ursos d’água.
Os tardígrados são um filo que contém mais de 1 000 espécies. Por causa de sua surpreendente
resiliência – a capacidade de se recuperar mesmo depois de passar por condições extremas –,
atraem a atenção de pesquisadores pelo mundo em busca de repostas para os limites da vida.
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