Origem dos povos americanos
Há controvérsias sobre a data da chegada dos primeiros grupos humanos na América e sobre as rotas que percorreram. Com base em pesquisas arqueológicas na Serra da Capivara, no estado do Piauí, área onde há grande concentração de sítios arqueológicos, a antropóloga brasileira Niède Guidon afirma que há cerca de 50 mil anos já havia humanos na região. No entanto, seu estudo é pouco aceito pela comunidade científica porque a datação não foi feita com ossos, e sim com carvão de supostas fogueiras humanas.
Pesquisa mais precisa publicada na revista científica Nature em 2012 por uma equipe internacional de cientistas liderada pelo colombiano Andrés Ruiz-Linares (professor de genética humana da University College de Londres) aponta uma data mais recente. Ela foi feita com base nos estudos genéticos de comunidades indígenas do Canadá à Terra do Fogo (sul da Argentina) e indicou que a ocupa ção da América se deu com grupos humanos vindos da Ásia em pelo menos três ondas migratórios através do estreito de Bering há pouco mais de 15 mil anos, quando as águas do mar estavam congeladas e serviram de ponte para a pas sagem dos migrantes.
É a mesma datação apontada pelo antropólogo brasileiro Walter Neves com base no esqueleto de Luzia, fóssil de cerca de 12 mil anos encontrado no sítio arqueológico de Lagoa Santa (MG). Ele também defende que os índios americanos são descendentes de grupos humanos vindos da Ásia ha cerca de 15 mil anos. Atualmente essa é a tese mais aceita.
Povos pré-colombianos
Foram os descendentes desses mi grantes pioneiros que muito tempo depois desenvolveram as hoje chama das civilizações pré-colombianas (em referência a Cristóvão Colombo), po vos que os europeus encontraram ao aportarem na América no final do sé culo XV.
Os incas (nos Andes), os maias, os astecas e os toltecas (nas áreas onde atualmente se localizam a América Cen tral e o México) estavam entre as civili zações mais organizadas que se desen volveram na América. Esses povos em pregavam técnicas agrícolas sofisticadas para a época, desenvolviam atividades urbanas diversificadas e tinham o poder político já bastante centralizado.
Os incas construíram uma impo nente civilização, cujos vestígios sobre viveram aos séculos, como mostram as ruínas de Machu Picchu (Peru), cidade fundada em 1450. Observe a fotografia. Localizadas na cordilheira dos Andes, a cerca de 80 quilômetros da cidade de Cuzco, essas ruínas foram descobertas em 1911 por um arqueólogo americano chamado Hiram Bingham e hoje fazem parte do Patrimônio da Humanidade.
No México há diversas marcas das civilizações pré-colombianas, como as deixadas pelos povos astecas e toltecas. No século XIV houve uma divisão entre os astecas e parte do grupo mi grou de sua região de origem e fun dou a cidade de Tenochtitlán em 1325, num local onde atualmente fica a Cidade do México. Em seu novo assen tamento, passaram a ser chamados de mexicas, daí o nome do país. A toma da de Tenochtitlán pelos espanhóis em 1521 simboliza o domínio espanhol que se estendeu por todo o período colonial.
Havia no Brasil uma enorme diversidade de povos com diferentes línguas e culturas. Estima-se que eram faladas mais de mil línguas. Em outras regiões da América do Sul também havia outros povos, como os Guarani (cujos descendentes vivem no Paraguai e ainda mantêm sua língua) e os Patagon, no sul da Argentina, daí o nome dessa região: Patagônia.
A colonização europeia e a escravidão
Embora a história da América não tenha se iniciado com a chegada dos europeus, foi a colonização europeia que inseriu esse continente na história do capitalismo comercial, que havia começado na Europa no final do século XV, e deixou marcas profundas nos países atuais.
Entre os séculos XV e XVII, espanhóis, portugueses, franceses, holandeses e ingleses ocuparam o continente americano e iniciaram o domínio dos povos nativos e a colonização dos territórios.
Nos territórios invadidos e dominados pelos portugueses, que mais tarde pertenceriam ao Brasil, os conflitos entre os colonizadores e os povos nativos provocaram genocídio e etnocídio de muitos povos. Com relação aos povos que não foram exterminados, houve empenho por parte dos portugueses em convertê-los à fé cristã (o que não deixa de ser um processo de etnocídio).
Os espanhóis destacaram-se na conquista territorial principalmente nos Andes, na América Central e no México, ocupando áreas ricas em metais preciosos, como ouro e prata. Essa conquista e ocupação também não acontece ram sem a resistência das populações nativas. Os que sobreviveram perderam sua identidade cultural e foram escravizados para a exploração das minas – o que desorganizou as comunidades e contribuiu para o desaparecimento das civilizações pré-colombianas.
Durante o período colonial, a agricultura voltada para a exportação foi a principal atividade realizada em dife rentes áreas do continente americano, como nos territórios dos atuais Brasil, Colômbia, Venezuela, Cuba e no sul dos Estados Unidos. Era a monocultura (produção de um só produto para a exportação), praticada em latifúndios (grandes propriedades) e com base na exploração do trabalho de africanos escravizados. Esse sistema de produ ção agrícola ficou conhecido como plantation(plantação). O tripé latifúndio, monocultura exportadora e escravismo caracterizou as colônias de exploração na América, inclusive no sul dos Estados Unidos.
A adoção da plantation promoveu uma transferência maciça de africanos para o continente americano. Estima-se que, somente no Brasil, ingressaram mais de 5 milhões de africanos escravi zados até 1850, quando essa prática foi proibida. A partir desse ano, teve início o tráfico ilegal, que continuou até a abolição da escravatura, em 1888.
Na segunda metade do século XIX, a escravidão foi abolida em toda a América do Sul, sendo o Brasil o último país a extingui-la. Nessa época, o subcontinente passou a receber milhões de imigrantes europeus que buscavam terra e oportunidades de trabalho. Com isso, houve a substituição da mão de obra escrava nas lavouras pela de trabalhadores em sistema de parceria e gradativamen te de assalariamento e, assim, foi dada continuidade à ocupação do território. Como os africanos inicialmente foram escravizados e posteriormente não foram incorporados ao mercado de trabalho (como meeiros, assalariados, nem como proprietários de terras), ficaram marginalizados socioeconomicamente.
Uma lei de 1950, chamada Lei de Terras, estabeleceu a compra como a única forma de acesso à terra, condição que claramente os impedia de se transfor marem em proprietários. Além disso, sofreram preconceito por serem ex-escravos e foram substituídos por trabalhadores imigrantes da Europa e da Ásia. Essa situação se refletiu na sua condição de vida e de seus descendentes. Atualmente, todos os indicadores sociais – especialmente os de renda e de escolaridade – dos afrodescendentes brasileiros são inferiores aos dos brancos, embora essa desigualdade venha se reduzindo lentamente nas últimas décadas graças a políticas de ação afirmativa, como as cotas nas universidades.
Diversidade étnica e cultural
Como herança desse contexto histórico e das migrações que ocorreram ao longo do século XX, a América do Sul apresenta atualmente uma grande diversidade étnica, com diferenças acentuadas entre os países e também entre as regiões de um mesmo país.
Os descendentes dos vários povos americanos nativos, assim como os afrodescendentes, deram importantes contribuições para a formação cultural dos países latino-americanos. Muitos povos indígenas mantiveram suas línguas, religiões e costumes, sobretudo nas regiões andina e amazônica, na América Central e no México.
Muitos povos africanos conseguiram manter suas religiões, apesar das perse guições, e deram importantes contribuições linguísticas, culinárias, musicais, etc. nos diversos países do subcontinente. Isso é muito visível no Brasil, por exemplo.
Por isso, hoje em dia uma das questões mais importantes que se colocam nesse mosaico de povos e culturas que é o Brasil, a América do Sul e toda a América é o respeito e a valorização dessa diversidade, o que nem sempre acontece.
Distribuição da população
Cerca de 90% da população do subcontinente mora nas proximidades do litoral, numa faixa de cerca de 250 quilômetros em direção ao interior, a partir tanto do oceano Atlântico como do Pacífico, onde se encontram as maiores aglo merações urbanas. Portanto, nessa faixa a densidade demográfica é bem maior.
A concentração da população no litoral teve origem no modelo colonial de ocupação, voltado para a exploração de recursos agrícolas e minerais (cana-de-açúcar, algodão, cacau, café, ouro, prata e outros) para a exportação. A saída para o mar era essencial para a circulação das mercadorias.
Somente a partir da segunda metade do século XX houve a ocupação sistemática do interior da América do Sul, principalmente do Brasil, da Argentina, da Colômbia, da Venezuela e do Peru. Isso ocorreu com o avan ço da industrialização em alguns países, a abertura de rodovias e ferrovias, a expansão da área cultivada e a maior exploração de recursos energéticos e minerais.
Problemas urbanos
A elevada taxa de urbanização dos países da América do Sul foi acompa nhada pelo crescimento desordenado das cidades. Atualmente, todas as gran des cidades sul-americanas em maior ou menor grau enfrentam problemas de ordem social e ambiental.
A elevada demanda por moradia, por exemplo, não é acompanhada pela oferta. Muitas pessoas vivem em moradias precárias, muitas vezes sem acesso a saneamento básico e a serviços regulares de fornecimento de energia elétrica e internet.
Geralmente situadas na periferia das cidades, distante das áreas mais centrais e mais estruturadas ou em áreas não próprias para ocupação, chamadas zonas de risco, como encostas de morros, ou áreas próximas aos cursos de água, sujeitas a alagamentos (áreas geralmente menos valorizadas e por isso mais baratas), essas comunidades também não são atendidas de maneira satisfatória por outros serviços públicos essenciais para uma vida digna, como saúde, educação e lazer. Dessa maneira, é possível perceber a segregação socioespacial existente nas cidades.
Porém, mesmo em bairros localizados nas áreas mais centrais de grandes cidades sul-americanas, como São Paulo (Brasil), Buenos Aires (Argentina), Bogotá (Colômbia) e Caracas (Venezuela), devido ao alto custo da moradia e ao mesmo tempo do abandono de muitos prédios, têm crescido os movimentos de ocupação organizados por diversos movimentos sociais de sem-teto.
Há movimentos de sem-teto em diversos países sul-americanos e latino-americanos porque todos compartilham do mesmo problema: muitas pessoas de baixa renda vivendo nas cidades e altos custos de moradia, especialmente nas maiores.
A maioria deles é local ou nacional, mas há movimentos que têm uma organização mais abrangente, como o Techo (ou Teto em português). Esse movimento de luta por moradia digna nasceu no Chile em 1997 e a partir de 2001 começou a se expandir por outros países da América Latina. Em 2018 estava organizado em dez países sul-americanos, oito centro-americanos e no México, além de possuir dois escritórios nos Estados Unidos para buscar alian ças e financiamentos.
Além dos problemas de habitação e da segregação socioespacial, as grandes cidades apresentam um problema que atinge toda a população: a poluição do ar e das águas. A poluição do ar pode comprometer a saúde das pessoas, sobretu do nas grandes cidades, onde é muito elevada por causa da concentração de indústrias e veículos que soltam no ar grande quantidade de gases resultantes da queima do combustível. Muitos rios recebem resíduos domésticos e industriais sem tratamento, o que prejudica a qualidade da água e do abastecimento. Na maioria das cidades o sistema de transporte também é insuficiente para atender à demanda da população que depende do serviço público.
No Brasil, assim como em outros países da América do Sul, há a preo cupação dos governos e das socieda des em geral em reduzir os problemas urbanos. Muitos governos têm procu rado aumentar o investimento em transporte coletivo, moradias populares, saúde preventiva e segurança. Em muitos casos, têm contado com o apoio de organismos internacionais, como as agências da ONU, o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). No entanto, muitas vezes isso tem se mostrado insuficiente. Nas favelas, a população geralmente não conta com serviços públicos essenciais a uma vida digna.
Indicadores sociais
Os países sul-americanos são marcados por desigualdades sociais e, como vimos nas páginas anteriores, essa desigualdade se materializa nas paisagens, sobretudo nas das grandes cidades, onde vive a maioria das pessoas. São, portanto, desigualdades socioespaciais. Podemos identificar as desigualdades sociais também em indicadores, como o índice de desenvolvimento humano (IDH).
De forma geral, a partir da década de 1990, vários setores da economia dos países da América do Sul se modernizaram e os indicadores sociais melhoraram. Contudo, a concentração de renda ainda permanece elevada e o percentual de pessoas que vivem na pobreza ainda é alto em alguns deles.
A contínua melhora dos indicadores sociais depende de crescimento eco nômico, de uma distribuição de renda mais equilibrada e de investimentos sociais adequados. No século XXI, de forma geral os países sul-americanos têm apresentado crescimento econômico. Além disso, gradativamente os governos têm aumentado os investimentos em setores importantes como educação, saúde e proteção social. Isso tem contribuído para reduzir a pobreza e melhorar as condições de vida de parte da população.
Porém, é fundamental que o crescimento econômico seja ecologicamente sustentável, ou seja, que o meio ambiente seja protegido, garantindo boas condições de vida para a população. Como se observa no gráfico, os países latino-americanos ainda investem pouco em proteção do meio ambiente.
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