A América Latina foi colonizada principalmente por portugueses e espanhóis. Apesar dos aspectos his tóricos e das semelhanças históricas, políticas, culturais e socioeconômicas entre os países que a constituem, essa região do continente americano é bastante diversa.
Território e população
A América Latina é formada por um conjunto de 33 Estados-nações e vários outros territórios que são possessões de países europeus ou dos Estados Unidos, que ocupam uma área territorial de aproximadamente 20 milhões de km2.
A população latino-americana encontra-se distribuída de maneira irregular pelo território. As áreas de grande concentração populacional na América Latina estão situadas, principalmente, nas proximidades das zonas cos teiras leste e oeste do continente, em áreas onde se iniciou o processo de colonização europeia.
De modo geral, as áreas de menor densidade populacional estão localizadas nas áreas de florestas da Amazônia, no centro-norte da América do Sul, e em terrenos inóspitos para a ocupação humana, como as altas montanhas andinas, as regiões desérti cas do Atacama, no norte do Chile, e da Patagônia, no extremo sul da Argentina e do Chile.
Crescimento demográfico da América Latina
A população total dos países latino-americanos não alcançava 168 milhões de habitantes em 1950, e, após trinta anos, já contava com mais de 360 milhões de pessoas. O rápido crescimento populacional dos países latino-americanos pode ser explica do pela redução das taxas de mortalidade e, especialmente, pelas elevadas taxas de natalidade registradas na região durante o século XX.
A diminuição da mortalidade e o aumento da expectativa de vida foram decorren tes de medidas médico-sanitárias que os países, de uma maneira geral, adotaram a partir de 1950, proporcionando assim melhor qualidade de vida à população, como o tratamento de água e esgoto e também a ampliação dos serviços de saúde (cam panhas de vacinação em massa da população, construção de hospitais, combate a epidemias etc.). Enquanto a mortalidade diminuía, a taxa de natalidade permanecia elevada e, com isso, o crescimento da população se acelerava.
Embora, a partir da década de 1970, vários países latino-americanos tenham apre sentado uma queda no índice de crescimento natural da população, ainda hoje muitos deles registram um crescimento populacional elevado quando comparado às taxas de países desenvolvidos.
Qualidade de vida na América Latina
De modo geral, uma significativa parcela da população latino-americana tem baixa qualidade de vida, ou seja, não possui acesso a uma moradia digna, sistema de saúde, educação de qualidade etc. Nessa região, é grande o número de pessoas que vive em situação de pobreza, sem condições de suprir necessidades básicas, como alimentação, vestuário e medicamentos.
Da segunda metade do século XX em diante, a população de alguns países latino-americanos foi beneficiada pela ampliação de serviços médico-sanitários, mas, mesmo assim, ainda hoje, milhões de pessoas convivem diariamente com um sistema público de saúde ineficiente.
Além desses problemas, a elevada concentração de renda nas mãos de uma pequena parcela da população é um fator que contribui para a baixa qualidade de vida.
Essa situação, agravada ain da mais pelos baixos salários da maioria dos latino-americanos, dificulta o acesso a alimentação, moradia e serviços básicos adequados, levando-os a viver em condições precárias.
A inexistência de serviços de infraestrutura e saneamento básico também contribui para o aumento da mortalidade entre os latino-americanos.
A baixa qualidade de vida de grande parte da população latino-americana pode ser verificada por meio dos indicadores sociais, como expectativa de vida, analfabetismo, mortalidade infantil e a renda per capita. Os indicadores socioeconômicos dos países latino-americanos são mais baixos quando comparados com os indicadores dos países desenvolvidos. Além disso, ela também nos mostra que existe um grande contraste socioeconômico entre os próprios países.
A urbanização dos países latino-americanos
A urbanização é uma tendência mundial e mais da metade da população do mun do vive em cidades. A América Latina é uma das regiões mais urbanizadas do mundo, tendo 90% da sua população total morando em áreas urbanas.
O processo de urbanização da América Latina ganhou força a partir da metade do século XX. Naquele período, a intensificação da concentração fundiária tornou cada vez mais difícil a vida dos pequenos agricultores, que se viram obrigados a migrar para as cidades em busca de melhores condições de vida. Em alguns países, como Brasil e Argentina, a mecanização do campo e o processo de industrialização intensificaram a migração. Nesses países, a inserção de ferramen tas e maquinários modernos no campo substituiu grande parte da mão de obra rural; com isso, muitos trabalhadores rurais desempregados passaram a buscar emprego nas fábricas das cidades.
Aspectos socioeconômicos e políticos
A América Latina engloba os países menos desenvolvidos do continente americano, em oposição à parte desenvolvida, a América Anglo-Saxônica. As diferenças socioeconômicas entre as duas regiões estão relacionadas, principalmente, a questões históricas e políticas.
Desde a independência, os Estados latino-americanos apresentam problemas semelhantes: má distribuição de renda e de terras, dependência de capitais e de tecnologia de países desenvolvidos, além de condições de vida precárias para grande parcela da população.
Apesar de algumas melhoras, estudos recentes da Cepal mostram que o percentual de pessoas vivendo em situação de pobreza na América Latina ainda é elevado. A pandemia de covid-19, iniciada em 2020, teve grande impacto sobre esses indicadores. Segundo dados de 2020:
- cerca de 21% (mais de 138 milhões de pessoas) moram em comunidades;
- 33% da população da América Latina (204 milhões de pessoas) é considerada pobre;
- 13,1% vivem em situação de pobreza extrema (81 milhões de pessoas), com deficiências críticas de acesso a educaçao, saneamento básico, água tratada, alimentaçao adequada, moradia digna, atendimento médico-hospitalar, entre outros serviços básicos.
Alguns problemas sociais, como moradias precárias e carência de infraestrutura, podem ser percebidos nas paisagens das grandes cidades da América Latina.
Politicamente, a América Latina foi marcada pela dependência em relação aos países europeus e, depois, aos Estados Unidos, que consideravam a região estratégica à sua política externa.
Os Estados Unidos criaram políticas como a Doutrina Monroe e o Big Stick para manter a América Latina subordinada aos seus interesses. Esse modelo foi bem-sucedido pois o governo estadunidense favorecia e era apoiado pelas elites locais, que muitas vezes estiveram à frente de golpes de Estado que implantaram ditaduras militares em vários países.
A partir da década de 1980, vários países latino-americanos iniciaram processos de redemocratização. No entanto, muitos deles ainda enfren tam instabilidades políticas, relacionadas principalmente à corrupção e à credibilidade dos governos e instituições.
ESPAÇO URBANO E RURAL
Na América Latina, os espaços rural e urbano articulam-se por meio de dinâmicas semelhan tes em vários países. A principal delas é a relação entre a concentração de terras e a migração do campo para as grandes e médias cidades, fatores responsáveis pela pobreza e pela desigualdade social em ambos os espaços.
Urbanização desordenada e desigual
O processo de urbanização da América Latina, assim como em outras regiões, adquiriu um ritmo muito acelerado e desordenado, que não foi acompanhado pelo desenvolvimento de serviços básicos urbanos, como ampliação de sistemas de trans portes, de abastecimento de água e de coleta de resíduos sólidos (lixo) e esgoto.
Com o passar do tempo, em várias cidades latino-americanas, começaram a se agravar os problemas urbanos, como o aumento de moradias precárias em áreas sem infraestrutura – rede de esgoto, eletricidade e água encanada, por exemplo; a falta de segurança; a intensificação do trânsito de veículos e de pessoas; e a insuficiên cia de rede de transportes coletivos públicos.
Em 70 anos, a população urbana na América Latina praticamente dobrou. Entre as décadas de 1950 e 1980, o rápido crescimento das cidades aprofundou as desigualdades sociais já existentes. Um número cada vez maior de pessoas passou a viver em moradias precárias, houve aumento do trabalho informal, do desemprego e da criminalidade. Nesse contexto, os Estados se mostram incapazes de oferecer infraestrutura adequada de serviços básicos, agravando problemas socioambientais.
De acordo com dados da Cepal, em 2020, 50,9% da população urbana da América Latina trabalhava no setor informal. Com a pandemia de covid-19, esse quadro foi agravado. Em 2021, 70% dos novos empregos criados estavam nesse setor. Essa desigualdade na estrutura social deu origem a cidades fragmentadas, que têm a segregação espacial como principal forma de organização do território, com áreas centrais valorizadas, por serem mais bem dotadas de infraestrutura e serviços, e áreas periféricas, geral mente situadas em áreas de risco e ocupadas pelas populações mais pobres, penalizadas com carência de serviços e infraestrutura.
As moradias precárias instaladas em encostas de morros e às margens de rios e córregos representam um risco em períodos de chuvas intensas. Além disso, com a falta de saneamento básico, as pessoas ficam mais expostas a doenças.
A oferta reduzida de serviços de educação, saúde, empregos formais e lazer faz com que a população da periferia precise se deslocar para as áreas centrais usando o transporte público, cuja infraestrutura é muitas vezes deficitária.
Estudos da Cepal mostram que, na América Latina, uma pessoa pode passar, em média, entre três e quatro horas de seu dia realizando o trajeto de casa para o trabalho. Assim, quanto mais distante do centro é sua moradia, mais tempo ela gasta.
O acelerado processo de urbanização da América Latina acarreta ainda diversos problemas de ordem ambiental. Entre esses problemas, que também afetam outras grandes cidades do mundo, podemos citar:
• a poluição da atmosfera, que compromete a qualidade do ar e contribui para intensificar o efeito estufa;
• a impermeabilização dos solos, que pode provocar enchentes – isso ocorre por que, em decorrência da grande quantidade de construções (casas, edifícios, ruas etc.), a água das chuvas não consegue se infiltrar naturalmente no solo e acaba provocando alagamentos;
• a ocupação de áreas de risco, como encostas de morros, que podem provocar deslizamentos de terra;
• a geração crescente de lixo e o descarte inadequado de resíduos domésticos e industriais, que podem causar doenças.
Favelas na América Latina
Bairro marginal, assentamento, barriada, alagado, invasão, comunidade, favela. Cerca de 20% da população urbana da América Latina vive nesses assentamentos informais que, apesar de serem diversos e receberem nomes diferentes, apresentam características comuns. De acordo com o Observatório de Favelas, os assentamentos informais são territórios que fazem parte das cidades, caracterizados pela:
- insuficiência de investimentos dos Estados e do mercado imobiliário, financeiro e de serviços;
- estigmatização socioespacial, principalmente por moradores de outras áreas da cidade;
- elevada taxa de subemprego e trabalho informal;
- predominância de autoconstruções e ocupação de áreas de risco;
- elevada densidade demográfica, acima da média do conjunto da cidade;
- presença de indicadores socioeconômicos, educacionais e ambientais abaixo da média do con junto da cidade;
- exposição elevada da população à violência, acima da média do conjunto da cidade.
Diante dos problemas enfrentados pelas populações das favelas latino-americanas, surgem ações de diversos setores da sociedade visando à melhoria das condições de vida. Um desses exemplos ocorreu em Medellín, cidade colombiana que, por muitos anos, teve sua imagem asso ciada ao tráfico de drogas.
Áreas rurais: pobreza e concentração de terras
Na maioria dos países da região, quase metade da população rural vive em situação de pobreza multidimensional, ou seja, com renda inferior à média nacional, em situação de carência alimentar e cobertura deficiente de serviços básicos, como saúde e educação.
Além da pobreza, que leva as populações rurais a migrar para os grandes centros urbanos, as áreas rurais latino-americanas são marcadas por uma estrutura caracterizada pela concentração fundiária por grandes proprietários de terras e empresas multinacionais.
O predomínio do latifúndio é herança do processo de colonização europeia, em que os povos originários foram expropriados de suas terras e escravizados, trabalhando na produção de artigos de exportação (cana-de-açúcar, algodão, cacau, café etc.).
Apesar das discussões sobre a necessidade de uma reforma agrária na América Latina, iniciadas no século XX com a Revolução Mexicana (1910-1917), pouco mudou. As reformas iniciadas na região por movimentos revolucionários ou organizados pela sociedade civil acabam sendo dificultadas pelas ações dos governos, que muitas vezes são pressionados pelos latifundiários e grandes grupos empresariais.
Tecnologia e trabalho no campo
A tecnologia tem ocupado cada vez mais espaço no setor agrope cuário, com a presença de máquinas com inteligência artificial, conexão com internet 5G, softwares para tomada de decisões, sensores, drones e até robôs autônomos. A chamada agricultura 4.0 também é marcada pelo surgimento de startups de tecnologia, conhecidas como Agtechs.
Na América Latina, essas empresas estão a serviço do agronegócio e são instaladas nos países onde as monoculturas voltadas para a exportação e a pecuária intensiva se destacam, o que explica a predominância de Agtechs no Brasil (51% do total), seguido de Argentina (23%), Chile, Colômbia, Uruguai, Peru e México.
O crescimento do uso de tecnologias, que promete maior produtividade e sustentabilidade, ainda não está disponível para os pequenos produtores, por causa do custo elevado e da preca riedade da conectividade em certas áreas no campo. Em 2020, 63% dos moradores das áreas rurais latino-americanas não tinham acesso à internet.
As desigualdades também podem ser observadas quando analisamos as mudanças no mundo do trabalho. A mecanização dos processos de plantio e colheita tem substituído o trabalhador e reforçado relações precárias de trabalho, pautadas pela informalidade. Para permanecer no campo, muitos trabalhadores se sujeitam a trabalhos temporários e mal remunerados, cuja oferta também está diminuindo.
MOVIMENTOS SOCIAIS NA CIDADE E NO CAMPO
Diante das desigualdades existentes na América Latina, movimentos sociais – urbanos e rurais – começaram a se organizar no final do século XX contra políticas que mantêm as populações mais vulneráveis à margem da socie dade. Muitas vezes, as reinvindicações desses movimentos convergem, pois tratam do direito à moradia adequada, à propriedade da terra, ao emprego, à defesa dos direitos humanos, entre outros.
Nas cidades latino-americanas os principais movimen tos sociais reivindicam o direito à cidade, que inclui acesso à moradia adequada, à mobilidade, ao saneamento básico, à liberdade de usufruir de espaços públicos e uma cidade que promova qualidade de vida para todos.
No Brasil, destaca-se o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), que reivindica o direito à moradia por meio da organização dos trabalhadores urbanos que se encontram sem moradia própria e/ou não conseguem pagar o aluguel. O movimento também reivindica uma reforma urbana, visando à redução do déficit habitacional.
As principais ações utilizadas pelo MTST são a ocupação de imóveis e terrenos, mobiliza çao dos trabalhadores e famílias para a construçao de casas em mutirões, além de marchas e manifestações com o objetivo de chamar a atenção do poder público para a importância da desapropriação de imóveis para moradia.
No campo, entre as reinvindicações dos movimentos sociais destacam-se a reforma agrária, o cumprimento de leis trabalhistas, a defesa da saúde do trabalhador rural e da agroecologia, o combate aos conflitos e à violência.
No Brasil, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) é uma referência para outros movimentos sociais latino-americanos. Criado em 1984, o MST ocupa terras improdutivas onde instala acampamentos para que as famílias aguardem o processo de desapropriação e regularização para, finalmente, poderem ser assentadas.
Além das organizações de trabalhadores rurais, os movimentos indígenas (que também atuam nas áreas urbanas) reivindicam a regularização, a demarcação e a proteção de suas terras.
No México, o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) se destaca. Criado em 1984, o movimento é formado principalmente por povos indígenas do estado de Chiapas, um dos mais pobres do país. As principais reivindicações do EZLN são democracia, autonomia, justiça, direito à terra, à moradia, à educação, à saúde e ao emprego.
O MST e o EZLN têm uma estratégia de comunicação sólida, utilizando a internet e as mídias sociais para divulgar suas ações e atrair apoiadores nos países onde atuam e no mundo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário