quarta-feira, 26 de agosto de 2026

HISTÓRIA, MEMÓRIA E CULTURA

Os antigos gregos tinham o costume de atribuir ao mundo divino sentimentos e conhecimentos humanos. Criavam deuses e semideuses para quase tudo, associando essas divindades aos fenômenos naturais e às atividades culturais.
As musas gregas eram divindades filhas da deusa Memória e de Zeus, principal deus da mitologia grega. Estavam encarregadas de inspirar os homens na sua criação intelectual e artística.
Uma dessas musas se chamava Clio, divindade associada ao conhecimento histórico. História, para os gregos, significava “testemunho”, isto é, uma narrativa do que havia acontecido, um registro dos eventos para contar aos outros. 
A musa Clio inspirava as pessoas a registrar os acontecimentos antes que fossem esquecidos e ajudava os seres humanos a enfrentar as barreiras que Cronos, o deus do tempo, colocava no caminho de todos. A história era, portanto, uma batalha entre Cronos e Clio. Vamos conhecer um pouco o que é História?

O que é História?


História é o campo do conhecimento dedicado ao estudo das ações dos seres humanos no tempo e no espaço. Esse estudo envolve as realizações humanas, as transformações sociais, políticas e culturais que ocorrem nas sociedades, bem como as permanências, isto é, aquilo que pouco mudou ao longo do tempo. 
A História nos auxilia a conhecer o passado e, desse modo, compreender melhor o presente. Assim, tornamo-nos mais capazes de agir para transformar a sociedade.
A História é a ciência que estuda as ações dos seres humanos ao longo do tempo, desde o seu surgimento, há milhares de anos, até os dias atuais. Ela nos ajuda a compreender a cultura de diferentes povos, bem como suas origens, seus costumes e suas formas de organizar a sociedade.

O que é cultura ?


Tudo o que é produzido pela humanidade é considerado cultura, seja material, como ferramentas e obras de arte, seja imaterial, como ideias e maneiras de fazer algo. Assim, o conceito de cultura pode ser definido como um conjunto de conheci mentos, crenças, linguagens, hábitos e costumes compartilhados por um grupo de pessoas em determinado período.

O que é sociedade?


Sociedade é um conjunto de pessoas que convivem de maneira organizada, compartilhando regras, costumes, língua etc. Uma sociedade é composta de instituições e grupos sociais, como a família, a escola e o trabalho. Por meio dos grupos sociais, as pessoas se integram à sociedade, estabelecendo relações entre si.  Por isso, podemos dizer que uma sociedade é formada por pessoas que compartilham de elementos culturais comuns em determinado tempo e lugar.

Para que serve estudar História? 


O estudo da História tem vários objetivos, entre os quais podemos destacar: preservar memórias, interpretar culturas e promover cidadania.

- Preservar memórias 


No dia a dia, vivenciamos muitos acontecimentos que passam a fazer parte da nossa história. Algumas dessas vivências são lembradas e divulgadas, outras são esquecidas e silenciadas. Assim são construídas as memórias das pessoas, dos grupos e das sociedades. 
A construção da memória é influenciada por interesses sociais e, com frequência, os marcos históricos são escolhidos a partir das memórias dos grupos dominantes. Para reagir contra os esquecimentos, devemos desenvolver uma atitude historiadora que busca preservar as memórias dos diversos grupos sociais.

- Interpretar culturas 


Cultura é o modo de vida criado e transmitido de uma geração para outra. Abrange conhecimentos e obras, artes e ciências, normas e costumes. Envolve o que pensamos e fazemos como membros de um grupo social. Assim, as danças, os jogos, as comidas, as músicas e as linguagens são exemplos de manifestação cultural.
Quando viajamos para outros lugares ou estudamos História, entramos em contato com vários tipos de manifestação cultural e podemos notar semelhanças e diferenças nos modos de ser, pensar, sentir e agir das pessoas. 
Nesses contatos, algumas pessoas ou grupos podem discriminar o outro, pois julgam que a sua cultura é superior ou melhor. Esse comportamento é chamado de etnocêntrico, ou seja, a pessoa acha que sua cultura é o “centro do mundo”. O etnocentrismo provoca conflitos, pois sua prática implica negar, rejeitar, perseguir e repudiar o outro, o que é diferente. 
Uma atitude historiadora nos faz refletir que as culturas produzem diferentes respostas aos desafios da vida. Desse ponto de vista, não existem culturas superiores ou inferiores, melhores ou piores. O que existe são diferentes formas de se vestir, de comer, de falar, de brincar, de trabalhar, de pensar sobre a vida. É o que chamamos de diversidade cultural. Reconhecer as manifestações de nossa cultura é valorizar nossa identidade pessoal e social. Além disso, o convívio democrático exige o respeito pelo outro e a valorização da pluralidade das culturas.

- Promover a cidadania 


Cidadania é nossa maneira de pertencer à sociedade. Esse pertencimento ocorre quando, por exemplo, garantimos os direitos à vida, à liberdade, à educação, ao lazer, ao trabalho, ao voto, entre outros. 
Ao estudar História, percebemos que muitos direitos já foram conquistados no Brasil, como o voto feminino em 1932 e a igualdade jurídica entre homens e mulheres em 1988, proibindo-se a discriminação em função do sexo. Mas ainda há um longo caminho para alcançar a cidadania plena. Nesse sentido, basta pensar que no Brasil e no mundo existem enormes desigualdades entre ricos e pobres.
Uma atitude historiadora pode despertar a consciência de cada um de nós para a tarefa de construir uma sociedade mais justa e democrática, uma sociedade que inclua mais pessoas no exercício da cidadania, independentemente de idade, sexo, origem, cor da pele e religião.

Os seres humanos agem no mundo: constroem relacionamentos, trabalham e produzem objetos e saberes. Elaboram e compartilham leis, linguagens, afetos e uma infinidade de coisas relacionadas às suas identidades e ao tempo e ao espaço em que vivem.
Você já pensou por que existem diferenças culturais, ou por que nem todas as pessoas têm a mesma qualidade de vida? Por que é necessário preservar o meio ambiente? Essas questões se referem a diferentes situações do mundo atual. Para compreendê-las melhor, muitas vezes, torna-se necessário pesquisar o passado e conhecer a história das sociedades.
Os historiadores estudam essas ações e relações humanas no decorrer do tempo para tentar entender o passado, identificando as rupturas (mudanças) e as permanências (o que se manteve) entre ele e o presente. 
Um exemplo de ruptura na história do Brasil foi a imposição, no século XVIII, do português como idioma oficial. Até então, o nheengatu era a língua mais falada na colônia portuguesa. Um exemplo de permanência em seu dia a dia é o estudo da geometria, nas aulas de matemática. Essa ciência reúne sabe res que já eram conhecidos na Grécia antiga. Saberes como esse e ações realizadas desde tempos remotos têm impacto direto no presente.
Estudar História é refletir sobre o presente, comparar modos de vida; e viajar mentalmente pelo tempo, conhecer o modo de pensar e agir de diferentes povos, observar suas dificuldades e as tentativas de solucioná-las; e analisar a vida em sociedade em outras épocas e lugares.
Existem muitas razões para estudar História. Independentemente do local de nascimento ou da condição social, cada indivíduo tem a necessidade de conhecer seu passado e suas origens. Além disso, muito do que somos hoje reflete a herança do modo de viver e de pensar de outras épocas. Esse conjunto de experiências que aprendemos com nossa comunidade recebe o nome de cultura.

O que a História estuda? 


História é a ciência que estuda a vida e as ações dos seres humanos ao longo do tempo, analisando rupturas e continuidades que ocorrem nas sociedades. 
As rupturas (ou mudanças) acontecem quando as formas de organização de uma sociedade são modificadas – por exemplo, transformações na economia de um Estado. 
Essas rupturas podem ser resultados de eventos rápidos (que acontecem em um curto período de tempo) ou de processos históricos mais lentos (em um longo período de tempo com diferentes eventos que modificam, aos poucos, as características de uma sociedade).
A História estuda justamente o processo de mudanças ocorrido nas sociedades. Incluem-se aí as mudanças no campo da comunicação, da moda, da alimentação, da construção de moradias, do lazer, entre outras. Mas a História não estuda apenas as mudanças. 
Estuda também as permanências, ou , ou seja, aquilo que, mesmo com o passar dos anos, não mudou ou mudou pouco. Exemplos disso são as construções presentes em algumas cidades brasileiras, como Ouro Preto, São Luís, Olinda, Goiás e Salvador. Repare que elas são muito antigas; foram construídas há muito tempo e preservadas até hoje.

O trabalho do historiador 


O historiador estuda o passado tendo como base perguntas e dúvidas que surgem no presente. Suponhamos, por exemplo, que um historiador deseje compreender por que existem mais afrodescendentes no Sudeste e no Nordeste do Brasil do que na Região Sul. Para obter uma resposta, ele terá de investigar o tráfico de africanos escravizados para o Brasil e as atividades econômicas em que eles trabalhavam.
Carlo Ginzburg comparou o historiador a um detetive, pois ele também procura pistas, indícios e sinais para investigar um caso e chegar a uma conclusão. 
O estudo da História investiga o passado para nos ajudar a compreender o presente e entender o funcionamento das sociedades ao longo do tempo. A História é, também, a ciência que nos coloca em contato com outros povos, outros tempos e diferentes formas de pensar. Uma atitude que o historiador deve evitar é a análise anacrônica dos fatos, ou seja, quando ele busca utilizar ideias de uma época para analisar fatos de outro tempo.  
A pergunta que o historiador procurará responder pode estar relacionada a um passado recente ou a um passado bem distante. Ele pode, por exemplo, procurar saber como o hip-hop ou o rap chegaram ao Brasil, uma história relativamente recente. Mas, se a intenção for saber sobre o desenvolvimento do comércio, da democracia ou da ciência, o historiador terá de recuar sua investigação para um passado mais longínquo. O historiador investiga o que os seres humanos fizeram, pensaram e sentiram no contexto de suas culturas.
Como é possível para o historiador investigar um passado que não existe mais? Se você refletir sobre isso, vai concluir que as pessoas, ao longo da vida, deixam vestígios do que fizeram e pensaram. Tiram fotografias, escrevem cartas, leem livros, ouvem músicas, fabricam ou compram vários tipos de objeto, pintam telas, constroem edifícios e fazem muitas outras coisas que podem perdurar por milhares de anos.
Quando são utilizadas pelo historiador em suas pesquisas, essas marcas deixadas pelas pessoas recebem o nome de fontes históricas. Elas podem ser classificadas em fontes históricas materiais (documentos escritos de vários tipos, livros, fotografias, roupas, cartas, pinturas, monumentos etc.) e fontes históricas imateriais (memórias, músicas, lendas, línguas, crenças etc.). Para chegar a qualquer conclusão em seus estudos, os historiadores precisam examinar várias fontes diferentes.
Em muitos momentos, dependendo do enfoque e do tema da pesquisa, o historiador pode recorrer a outras áreas de conhecimento, como as ciências sociais, para compreender melhor os diferentes aspectos da experiência humana em estudo.
O historiador não fixa “verdades absolutas” ou definitivas. Seu trabalho depende de pesquisas, formulações de hipóteses e interpretações de fontes. A atividade do historiador envolve uma busca pelo conhecimento. E conhecer é uma tarefa contínua, que nunca tem fim. O historiador, aquele que estuda História, elabora uma narrativa a respeito de acontecimentos, com base em diferentes tipos de registros. Para isso, seleciona e organiza o que deseja estudar, para, em seguida, interpretar e relatar o que observou.
O trabalho do historiador se inicia com questões surgidas no presente. Ele pode estudar o passado (recente ou distante) para compreender a sociedade em que vive ou uma sociedade diferente da dele. Além disso, o historiador debate temas e acontecimentos atuais, identificando rupturas e continuidades que auxiliem na compreensão do presente. 

DIFERENTES FONTES E CONCEITOS DA HISTÓRIA 


Para investigar e compreender a organização social, o modo de vida e as práticas culturais em tempos e lugares específicos, o historiador utiliza fontes históricas, que também são conhecidas como documentos.

• fontes escritas: registros textuais manuscritos ou impressos, como documentos oficiais, jornais, revistas, livros, diários, anotações, etc.; 
• fontes sonoras: registros musicais e gravações em discos de vinil, fitas cassete, CDs ou em meios digitais; 
• fontes visuais: fotografias, pinturas, gravuras, charges, caricaturas, etc.; 
• fontes audiovisuais: filmes e vídeos; 
• fontes orais: relatos, depoimentos e entrevistas; 
• fontes materiais: artesanato, esculturas, construções, ferramentas, armas, roupas, etc.

Fontes históricas podem ser compreendidas como evidências de experiências humanas do passado. Os historiadores consideram esses sinais de outras épocas como “vestígios” que possibilitam a compreensão de parte das relações sociais cotidianas que já foram vividas.
São fontes históricas para análise do historiador: ruínas de cidades antigas, pinturas, textos de jornais, leis, fotografias, filmes, computadores, entre outros documentos que possam conter informações sobre o passado. É com base em fontes históricas que o historiador constrói narrativas sobre acontecimentos e descreve como as pessoas viviam em tempos anteriores.
As fontes podem ser classificadas pela originalidade – em fontes primárias e secundárias – e pela forma da informação – em fontes escritas e não escritas. Além disso, elas podem estar registradas em diversos suportes.
Independentemente do tipo, as fontes históricas devem ser estudadas e interpretadas de forma cuidadosa. Fontes antigas ou frágeis, como vasos e pergaminhos, devem ser manuseadas com grande cuidado. Fontes ambíguas ou fragmentárias, como obras de arte e documentos parcialmente queimados, exigem cuidado e esforço técnico e científico para que possam ser adequadamente organizadas e estudadas. 
Para estudar as fontes históricas, é possível utilizar alguns procedimentos. Vamos conhecê-los? 
Identificação: localização e descrição da fonte, bem como das condições que permitiram encontrá-la; 
Comparação: confronto com outras fontes que tratam do mesmo tema ou que foram encontradas no mesmo lugar; 
Contextualização: descrição do momento histórico em que a fonte foi produzida, explicando as características sociais, econômicas, culturais e políticas da época e de que maneira elas se relacionam com a fonte; 
Interpretação: explicação de possíveis significados da fonte histórica e elaboração de narrativas ou descrições que permitam a compreensão do passado; 
Análise: debate sobre os dados levantados pela interpretação de uma fonte, avaliando o o valor dela para a construção do conhecimento histórico.

Fontes primárias ou originais


São aquelas que fornecem uma informação direta, sem outras interferências. Também chamada de fonte original, é um registro direto do tempo estudado. Um documento oficial, como a Constituição brasileira ou uma certidão de nascimento, é uma fonte primária.

Fontes secundárias


São aquelas em que a informação não está em “primeira mão”, ou seja, já sofreu algum tipo de tratamento, análise, interpretação ou generalização. Assim, se a Constituição Federal de 1988 é uma fonte primária para juristas, historiadores e outros que desejem estudar as leis brasileiras, um livro que discuta os aspectos do texto constitucional é uma fonte secundária, pois quem conhece a Constituição por esse livro não tem acesso direto à própria Constituição.

Fontes escritas


São aquelas em que as informações são transmitidas pela linguagem escrita, composta de caracteres, letras ou símbolos que, em conjunto, formam mensagens. Alguns exemplos desse tipo de fonte são os livros, jornais, leis, documentos administrativos, revistas e panfletos. 
Existem diversos suportes possíveis para a escrita: pedra, pergaminho, papel e até mesmo um smartphone. Embora sejam importantes, as fontes escritas não são as únicas utilizadas pelos historiadores. Afinal, muito antes das primeiras formas de escrita, os seres humanos já se relacionavam social e politicamente, construíam moradias, se alimentavam, enfim, viviam e produziam suas próprias culturas e histórias.

Fontes não escritas


Fontes não escritas são as informações e evidências que não estão na forma de linguagem textual. As fontes não escritas podem ser orais, ou seja, são narrativas de pessoas, com base em suas memórias, sobre experiências pessoais e coletivas de momentos e fatos do passado. As entrevistas e os depoimentos são exemplos de fontes orais, mas não são as únicas. 
Os mitos, as lendas, as cantigas, as fábulas, enfim, as diferentes narrativas sobre o mundo, os seres humanos, suas origens, angústias e dramas, bem como seus valores éticos e morais, tudo isso pertence ao campo das fontes orais. Logo, essas fontes são relevantes para os historiadores. Em sociedades ágrafas, isto é, que não usam linguagem escrita, as fontes orais são fundamentais, pois, muitas vezes, são as únicas com as quais um povo, sua cultura e organização podem ser conhecidos e valorizados.
Outro tipo de fonte não escrita são as sonoras ou auditivas. No passado, essas fontes eram constituídas por músicas e canções, algumas das quais dialogavam diretamente com a tradição oral. 
No século XIX, surgiu a radio difusão como uma forma de transmitir sons. Com o passar do tempo, surgiram suportes que permitiam gravar os sons, como discos de vinil, CDs, fitas magnéticas, fitas cassete e pendrives. Com a evolução da tecnologia, os computadores e smartphones são ao mesmo tempo transmissores e suportes de fontes auditivas.
As fontes visuais ou iconográficas são objetos que contêm imagens, sinais e ícones. As diversas formas de imagens podem trazer informações sobre a sociedade que as produziu. Por exemplo, muitas das informações que temos sobre sociedades do passado, como incas, maias e astecas, são imagens presentes em suportes como vasos, blocos de pedra e construções, entre outros que, de alguma forma, foram preservadas ao longo do tempo. Contudo, nem todas as fontes visuais ou iconográficas vieram do passado distante ou nos ajudam a conhecer sociedades que já não existem mais. É possível compreender a história de povos e sociedades do presente analisando suas mudanças e continuidades por meio dos seus registros visuais. Telas, afrescos e murais continuam sendo formas de representar a natureza e os processos sociais. As fotografias também são fontes imagéticas. Na década de 1820 surgiram as fotografias, que são inicialmente registros de luz em contraste sobre uma super fície fotossensível. Com esse método, as fontes imagéticas se popularizaram e ganharam novas possibilidades de registro sociocultural. As peças publicitárias e, particularmente, as charges e as caricaturas, presentes em jornais, revistas e folhetos, também são considerados registros visuais importantes, particularmente na medida em que registram e interpretam fatos sociais, políticos e econômicos relevantes em diferentes povos e sociedades.
As fontes audiovisuais são caracterizadas por serem uma combinação entre elementos sonoros e visuais. Filmes, documentários e vídeos, muitos dos quais presentes em plataformas digitais, são exemplos relevantes de fontes audiovisuais. Desde o final do século XIX, quando os irmãos Lumière desenvolveram o cinematógrafo, ou seja, o precursor das câmeras cinematográficas, as diversas expressões do cinema produzem registros sobre as sociedades contemporâneas. Os programas de televisão, os DVDs e os videoclipes também são elementos que retratam aspectos do cotidiano. Da mesma forma, as lives e os webinários, cada vez mais presentes em nosso dia a dia, também são formas contemporâneas de registros e fontes audiovisuais.
As fontes materiais se referem a vestígios que têm materialidade, isto é, que podem ser tocados. São exemplos: monumentos, construções, vestígios arqueológicos diversos, máquinas, ferramentas e objetos para caçar, guerrear ou preparar alimentos. Os suportes de outros tipos de fontes também são consideradas fontes materiais, como a estrutura física de quadros, livros e CDs, pois ajudam a compreender a forma como as sociedades se expressam e registram informações e suas implicações sociais. O arqueólogo é o profissional habilitado para estudar as culturas e sociedades do passado por meio de vestígios materiais, que muitas vezes são encontrados em sítios arqueológicos.
As fontes imateriais correspondem a ideais, formas de pensar e organizar a sociedade, costumes e práticas sociais que foram mantidas e transmitidas entre as gerações, como festas, culinária, danças e saberes. Assim, por exemplo, a prática do judô pode nos ajudar a entender aspectos culturais da sociedade japonesa, bem como a capoeira diz muito sobre a formação social e histórica da sociedade brasileira.


A RELAÇÃO DO HISTORIADOR COM AS FONTES 


O modo como o historiador se relaciona com as fontes históricas também mudou ao longo do tempo. A História tornou-se uma disciplina escolar e um campo de conhecimento considerado científico há cerca de duzentos anos. 
Foi quando os historiadores da Escola Metódica, também chamados de positivistas, elaboraram métodos e procedimentos para a condução do trabalho de pesquisa. Para os historiadores dessa corrente, só era possível estudar a História pelos documentos escritos, sobretudo os produzidos por instituições oficiais do Estado, como as certidões, os registros, etc.
Essa concepção mudou com o surgimento, a partir de 1929, de uma nova corrente historiográfica, a Escola dos Annales, que ampliou o conceito de fontes históricas. De acordo com essa corrente, as fontes históricas são diversificadas e dependem do olhar do historiador e das perguntas feitas por esse profissional.
Essa ampliação trouxe uma gama imensa de novos temas, personagens e pontos de vista que enriqueceram o ofício do historiador. Os vestígios humanos não revelam por si mesmos o passado tal como ele aconteceu, mas devem ser pensados como representações que precisam ser interpretadas para que o historiador possa extrair delas todas as informações.
Além das ideias sobre as fontes históricas, outra concepção do século XIX não é mais aceita hoje: a de que a tarefa dos historiadores seria simplesmente revelar o que teria acontecido no passado, como se houvesse uma versão verdadeira, única e absoluta. Afinal, como chegar a uma versão única sobre o passado, se cada fato foi vivenciado por pessoas diferentes, que, ao registrá-los ou relatá-los, o fizeram a partir de seus pontos de vista? O próprio historiador seleciona e analisa aspectos do passado a partir da sua visão de mundo.
Hoje está claro para os historiadores que a História não é a reconstituição exata do passado, mas uma interpretação sobre parte desse passado. Podem existir, inclusive, várias interpretações ou relatos sobre o mesmo acontecimento. Isso não quer dizer, contudo, que qualquer versão pode ser aceita, porque a História não é um relato ficcional. 
Ao investigar o passado, os historiadores reúnem muitos documentos e versões diferentes sobre o período em estudo; em seguida, cruzam todas as informações, verificam se elas são confiáveis e escrevem uma narrativa consistente sobre os acontecimentos.
Assim, as profundas mudanças na concepção de conhecimento histórico nos mostram que a História também tem história e é pensada de diferentes maneiras com o passar do tempo. 
Todas essas transformações no campo do conhecimento histórico estimularam a pesquisa de muitos temas até então pouco estudados, como a história do Brasil na perspectiva dos escravizados e dos indígenas, a história da América Latina pensada segundo os povos nativos, a história da África com base em fontes historiográficas do continente africano, entre outros.
Tais questões são sempre despertadas por interesses e experiências da época em que o historiador vive. Dificilmente um historiador do século XIX se perguntaria, por exemplo, sobre sustentabilidade e fontes renováveis de energia. Afinal, temas como esses são prioridades do presente.

Interpretar fontes históricas


Ao analisar as fontes históricas, o historiador pode reunir pistas ou evidências que lhe permitam, por exemplo, reconhecer mudanças ocorridas em uma sociedade e o que as provocou. Os processos de mudança podem ocorrer na economia, nas artes, na política, na maneira de pensar, nas formas de viver e de sentir o mundo.
Além das mudanças, o historiador pode observar permanências, ou seja, aquilo que não se alterou. Por exemplo: ruas e construções que não se modificaram, embora quase toda a cidade tenha se transformado; maneiras antigas de realizar certos tipos de brincadeira, de trabalho, de atividade artística, etc.
Em uma mesma fonte histórica, o historiador pode perceber várias informações significativas. Ao encontrar um recibo de compra ou venda de escravo, por exemplo, ele já observou pelo menos uma informação básica: que houve escravidão nesse lugar, ou seja, que homens, mulheres e crianças foram considerados escravos e podiam ser negociados como se fossem mercadorias. O recibo também pode conter o nome da moeda utilizada naquela época, entre outras informações.
Os historiadores, quando estudam determinada sociedade, podem interpretá-la de diferentes maneiras, mas sempre com métodos científicos.
Dependendo dos métodos de pesquisa e das fontes de que dispõe, o historiador pode dar ênfase, por exemplo, em aspectos políticos, econômicos, sociais ou culturais. A ênfase em um ou mais desses aspectos possibilita ao historia dor construir a própria interpretação histórica com base no enfoque escolhido por ele e pela documentação analisada.
A historiadora e antropóloga brasileira Lilia Schwarcz, por exemplo, privilegia em seus estudos aspectos culturais das sociedades. Já o historiador Eric Hobsbawm (1917-2012) privilegiava em suas pesquisas aspectos políticos.

Fato histórico e processo histórico


A história humana é composta de muitos acontecimentos, resultados de interações e vivências entre diversos sujeitos históricos em lugares e épocas definidas. No entanto, nem tudo o que acontece na história vivida é escolhido pelo historiador, porque isso depende do interesse e do objeto de estudo escolhido como tema. 
Ele pode, por exemplo, querer entender como agiam os partidos políticos há muitos anos em um determinado lugar. Para isso, buscará artigos de jornal, depoimentos de pessoas, atas governamentais e assim por diante. 
Outro historiador poderá procurar entender como era organizada a família entre as pessoas mais pobres em uma época passada. Para isso, buscará registros de nascimento, listas de trabalha dores em fábricas, testamentos registrados em cartório etc.
O registro do tempo é importante porque permite organizar e compreender os fatos históricos. Segundo os antigos gregos, era nessa forma de medir o tempo que a musa Clio entrava em cena, empenhando-se em inspirar o registro dos fatos passados, os fatos históricos.
Mas o que é um fato histórico? É um episódio ou fenômeno que teve repercussão para alguma sociedade em particular ou até mesmo para o mundo. Portanto, dependendo do assunto que se quer conhecer, qualquer fato do passado pode ser considerado histórico.
Portanto, é o historiador quem seleciona e atribui relevância a determinados eventos, interpretados como fatos históricos. O fato histórico é uma construção desse profissional em seu trabalho de compreensão de aspectos da realidade passada, com base em indagações suscitadas pelo mundo que o cerca no tempo presente.
O conhecimento do passado não diz respeito apenas ao passado em si, mas também ao presente. A formulação de perguntas pelos historiadores sobre uma realidade passada é feita com base nos valores sociais e culturais dominantes em seu tempo. 
Tendo definido a questão que pretende investigar, ele analisa os documentos disponíveis e constrói uma interpretação histórica para sua pergunta. Por meio dessa análise, é possível até reformular a pergunta inicial, já que sua interpretação não pode forçar os documentos a afirmarem algo que não está neles.
A Lei Áurea, que aboliu a escravidão no Brasil é um exemplo de evento histórico. Quando se trata da questão das condições de vida das pessoas negras do Brasil, alguns autores podem discordar sobre a importância desse documento: se, por um lado, eliminou a escravidão, por outro, muitas pessoas negras tiveram de voltar a trabalhar de forma precária, uma vez que não contaram com auxílio para entrar no mercado de trabalho, estudar, ter acesso à moradia etc.
A chegada dos europeus à América, em 1492, por exemplo, é um fato histórico de extrema importância, porque foram colocados em contato povos que antes não sabiam da existência um do outro. Esse fato resultou em profundas transformações econômicas, políticas e sociais e também em relação aos costumes, uma vez que produtos nativos da América, como a batata, o milho, a mandioca, o amendoim e até o chocolate, passaram a ser consumidos em outras partes do mundo: na Europa, na África e na Ásia. A mudança de hábitos alimentares em grande parte do mundo promoveu mudanças graduais em várias sociedades. Assim, é também um fato histórico.
Há ainda fatos sociais de grande interesse histórico, como as revoltas populares. Há fatos econômicos importantes para a sociedade, como a inflação (isto é, o crescente aumento dos preços), ocorrida em várias épocas. Há fatos históricos ligados à tecnologia, como a utilização do vapor para impulsionar máquinas ou a invenção do telefone. Há também os fatos da vida cultural das sociedades, como as comemorações, as festividades, as brincadeiras de roda e as apresentações de música e de teatro.
Uma sucessão de fatos históricos, explicada pelo historiador com uma narrativa, é chamada de processo histórico. A ideia de processo está associada às ações dos sujeitos históricos que, com suas trajetórias, motivações, estratégias e escolhas, imprimem movimento e ritmo às trans formações. Assim, a partir de suas perguntas, as fontes disponíveis são analisadas para a elaboração de uma interpretação, estabelecendo uma relação entre sequências de fatos históricos.
O interesse do pesquisador em analisar um processo histórico está em compreender as mudanças e permanências que resultaram das ações humanas ao longo do tempo. Contudo, nem todas as mudanças têm a mesma duração: algumas são rápidas e podem ser percebidas no nosso cotidiano, no intervalo de dias ou meses. Outras, um pouco mais lentas, são notadas no espaço de algumas gerações, e, finalmente, existem aquelas que são muito lentas e só são percebidas ao longo dos séculos.

Sujeito histórico 


A História é construída por ações humanas no tempo. Isso significa que os eventos são produzidos entre seres humanos por meio das suas relações sociais. Constata-se, com base nessa reflexão, que aqueles responsáveis por movimentar a “roda da História” são os seres humanos em sua coletividade. Todas as pessoas, não importa sua condição social, financeira, cultural ou política, contribuem para a constituição das experiências de vida coletivas de uma sociedade.
Os historiadores são responsáveis por investigar o passado e tentar entender sua relação com o presente considerando os mais variados aspectos da vida humana. No entanto, os historiadores não "fabricam" a história. Ela é feita pelos sujeitos históricos. Quem são, então, esses “sujeitos”?
Para os historiadores, aqueles que, em determinado momento, produzem, reproduzem e transformam a realidade em que vivem são sujeitos históricos. Não estamos deslocados do mundo: nossos comportamentos, ideias, trabalho, relações de amizade, enfim, nossas relações em sociedade de alguma forma contribuem para mantê-la ou transformá-la.
É comum as pessoas definirem história como o resultado da ação de importantes personagens, que enfrentaram desafios para realizar feitos que mudaram os rumos da humanidade. Entretanto, homens e mulheres não mudam o mundo sozinhos. 
A história é resultado do jogo de forças de diferentes grupos em disputa no interior das sociedades. Quando estudamos a história, buscamos entender como as ações dessas pessoas se cruzam em determinado tempo e espaço. De modo individual ou coletivo, as ações dos sujeitos históricos contribuem para a construção da sociedade em que vivemos.
Há mais de cem anos, acreditava-se que os agentes ou sujeitos históricos eram somente os poderosos, como reis e rainhas, presidentes e generais, que pareciam decidir o destino da humanidade. Hoje se entende que todos são produtores de história: homens e mulheres, adultos e idosos, jovens e crianças de qualquer camada social.
A história dos jovens, dos trabalhadores rurais, de pessoas escravizadas e dos estudantes – suas práticas, sentimentos, ações e crenças – é tão importante quanto a de conhecidos líderes, ainda que não vire notícia. 
Há agentes históricos individuais (pessoas que, por conta própria, agem no mundo) e coletivos (como agremiações, partidos políticos, sindicatos, Organizações Não Governamentais – ONGs –, movimentos estudantis, igrejas e forças armadas), em que pessoas atuam em grupo.
É importante saber que cada sujeito é movido por interesses específicos. Além disso, é fundamental entender por que tal ação ou decisão foi tomada e quem se beneficiou dela. Isso ajuda a compreender como a história é produzida e contada.

O TEMPO E A HISTÓRIA 


Todo fato histórico acontece em local e tempo específicos. O tempo histórico, no entanto, organiza-se de forma diferente daquela como são estruturados o tempo cronológico e o tempo natural. Isso ocorre porque esse tempo é pensado segundo as experiências dos diversos grupos humanos.
O tempo histórico é assinalado por rupturas e permanências. As rupturas são as mudanças significativas que afetam uma sociedade ou um grupo inteiro, como o surgimento da internet, por exemplo. Já as permanências são as estruturas que podem ou não sofrer alterações, mas que persistem ao longo do tempo, como a religião católica, por exemplo.
Fernand Braudel (1902-1985), um dos mais proeminentes historiadores da Escola dos Annales. Na obra O Mediterrâneo e o mundo mediterrâneo na época de Filipe II, Braudel propõe a organização do tempo histórico em temporalidades de curta, média e longa duração. Foto de cerca de 1980.


Além disso, o tempo histórico pode ser dividido em temporalidades de curta, média e longa duração. As temporalidades de curta duração referem-se a eventos breves, que podem ocorrer em dias ou meses. Nesse caso, as transformações históricas acontecem mais rapidamente. As temporalidades de média duração referem-se a eventos um pouco mais longos, que acontecem no decorrer de anos ou décadas, mas, ainda assim, podem ser percebidos no curso de uma vida. As temporalidades de longa duração, por outro lado, referem-se a eventos que se estendem por séculos e são caracterizados por lentas transformações.

Cada sociedade tem sua história 


A história de todas as sociedades não é única; cada uma delas tem seu próprio desenvolvimento. O estudo da História nos mostra que em uma mesma época convivem sociedades com modos de vida semelhantes e muito diferentes. 
Por exemplo, enquanto algumas se fortaleceram com o comércio, outras se dedicaram principalmente à agricultura. Dentro de um mesmo povo também é possível observar variados grupos sociais que agem e pensam de forma diversa dos demais. 

História: uma produção de saber


A História é uma área de estudo que investiga as vivências humanas ao longo do tempo. Em sua origem grega, a palavra “história” significa “procurar saber” ou “informar-se”. Quando estudamos História, pesquisamos diversos aspectos da vida humana, por exemplo: formas de trabalho e tipos de diversão, alimentos produzidos e consumidos, relações de dominação e resistência entre pessoas.
Quem tem conhecimento histórico percebe que, se algumas coisas mudaram no passado, elas também podem mudar no presente. Sem consciência histórica, alguém pode achar, por exemplo, que certas injustiças sociais de nossa época e a exploração predatória do meio ambiente são “naturais”. Assim, muitas pessoas não enxergam a possibilidade de lutar por um mundo melhor. Estudar História nos permite refletir sobre como podemos construir um mundo mais livre, justo e sustentável.

Memória


A memória é nossa capacidade de guardar na mente histórias, experiências e impressões de situações que vivemos em diferentes épocas. Ela liga nosso passado ao nosso presente; sem ela, não temos como saber quem somos. No entanto, nossa memória não é uma guardiã segura do passado; ela pode falhar e distorcer acontecimentos. E, por ser muito subjetiva, o que experimentamos no passado pode ser diferente da experiência de outras pessoas no mesmo tempo e espaço.
A memória pode estar registrada em muitas criações e manifestações humanas: em histórias transmitidas de pais para filhos, em monumentos, em gravuras e em fotografias, por exemplo.
História e memória têm a ver com o passado, mas são diferentes. Ao estudar a história, usa-se a memória para resgatar aspectos do passado. Reúnem-se, verificam-se e interpretam-se várias memórias na tentativa de completar suas lacunas, escapar de suas armadilhas e até entender o significado dos esquecimentos e das distorções.
Alguns povos procuram preservar bens naturais ou culturais que compõem sua história e são significativos para sua cultura. Esses bens formam o patrimônio de um povo e podem ser materiais (edifícios, sítios arqueológicos e paisagísticos, acervos de museus ou bibliotecas, obras cinematográficas etc.) ou imateriais (como celebrações, formas de expressão, festas, saberes e modos de fazer tradicionais de algumas comunidades).


PERIODIZAÇÃO DA HISTÓRIA 


Muitos historiadores costumam classificar os períodos da História em idades (Pré-História, Antiga, Média, Moderna e Contemporânea). Essa periodização, no entanto, é bastante criticada na atualidade, pois toma como referência as experiências de povos europeus e, portanto, desconsidera processos, experiências e acontecimentos importantes vivenciados por povos de outros continentes. 
Atualmente, esses conceitos de periodização são retomados, porém, ressignificados, buscando contemplar as especificidades de cada povo, em cada época e território. 


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