Os antigos gregos tinham o costume de atribuir ao mundo divino
sentimentos e conhecimentos humanos. Criavam deuses e semideuses
para quase tudo, associando essas divindades aos fenômenos naturais
e às atividades culturais.
As musas gregas eram divindades filhas da deusa Memória e de Zeus,
principal deus da mitologia grega. Estavam encarregadas de inspirar os
homens na sua criação intelectual e artística.
Uma dessas musas se chamava Clio, divindade associada ao conhecimento histórico. História, para os gregos, significava “testemunho”, isto
é, uma narrativa do que havia acontecido, um registro dos eventos para
contar aos outros.
A musa Clio inspirava as pessoas a registrar os acontecimentos antes que fossem esquecidos e ajudava os seres humanos a
enfrentar as barreiras que Cronos, o deus do tempo, colocava no caminho de todos. A história era, portanto, uma batalha entre Cronos e Clio.
Vamos conhecer um pouco o que é História?
O que é História?
História é o campo do conhecimento dedicado ao estudo das ações dos seres humanos no tempo e no espaço. Esse estudo envolve as realizações humanas, as transformações sociais, políticas e culturais que ocorrem nas sociedades, bem como as permanências, isto é, aquilo que pouco mudou ao longo do tempo.
A História nos auxilia a conhecer o passado e, desse modo, compreender melhor o presente. Assim, tornamo-nos mais capazes de agir para transformar a sociedade.
A História é a ciência que estuda as ações dos seres humanos ao longo do tempo, desde o seu surgimento, há milhares de anos, até os dias atuais. Ela nos ajuda a
compreender a cultura de diferentes povos, bem como suas origens, seus costumes
e suas formas de organizar a sociedade.
O que é cultura ?
Tudo o que é produzido pela humanidade é considerado cultura, seja
material, como ferramentas e obras
de arte, seja imaterial, como ideias
e maneiras de fazer algo. Assim, o
conceito de cultura pode ser definido como um conjunto de conheci mentos, crenças, linguagens, hábitos
e costumes compartilhados por um
grupo de pessoas em determinado
período.
O que é sociedade?
Sociedade é um conjunto de pessoas que convivem de maneira organizada, compartilhando regras, costumes, língua etc. Uma sociedade é composta de instituições e grupos sociais, como a família, a escola e o trabalho. Por meio dos grupos sociais, as pessoas se integram à sociedade, estabelecendo relações entre si. Por isso, podemos dizer
que uma sociedade é formada por
pessoas que compartilham de elementos culturais comuns em determinado tempo e lugar.
Para que serve estudar História?
O estudo da História tem vários objetivos, entre os quais podemos destacar:
preservar memórias, interpretar culturas e promover cidadania.
- Preservar memórias
No dia a dia, vivenciamos muitos acontecimentos que passam a fazer parte
da nossa história. Algumas dessas vivências são lembradas e divulgadas, outras
são esquecidas e silenciadas. Assim são construídas as memórias das pessoas,
dos grupos e das sociedades.
A construção da memória é influenciada por interesses sociais e, com frequência, os marcos históricos são escolhidos a partir das memórias dos grupos dominantes. Para reagir contra os esquecimentos, devemos desenvolver uma atitude
historiadora que busca preservar as memórias dos diversos grupos sociais.
- Interpretar culturas
Cultura é o modo de vida criado e transmitido de uma geração para outra.
Abrange conhecimentos e obras, artes e ciências, normas e costumes. Envolve o que pensamos e fazemos como membros de um grupo social. Assim, as
danças, os jogos, as comidas, as músicas e as linguagens são exemplos de manifestação cultural.
Quando viajamos para outros lugares ou estudamos História, entramos em
contato com vários tipos de manifestação cultural e podemos notar semelhanças e diferenças nos modos de ser, pensar, sentir e agir das pessoas.
Nesses contatos, algumas pessoas ou grupos podem discriminar o outro,
pois julgam que a sua cultura é superior ou melhor. Esse comportamento é
chamado de etnocêntrico, ou seja, a pessoa acha que sua cultura é o “centro
do mundo”. O etnocentrismo provoca conflitos, pois sua prática implica negar,
rejeitar, perseguir e repudiar o outro, o que é diferente.
Uma atitude historiadora nos faz refletir que as culturas produzem diferentes respostas aos desafios da vida. Desse ponto de vista, não existem culturas
superiores ou inferiores, melhores ou piores. O que existe são diferentes formas
de se vestir, de comer, de falar, de brincar, de trabalhar, de pensar sobre a vida.
É o que chamamos de diversidade cultural.
Reconhecer as manifestações de nossa cultura é valorizar nossa identidade
pessoal e social. Além disso, o convívio democrático exige o respeito pelo outro
e a valorização da pluralidade das culturas.
- Promover a cidadania
Cidadania é nossa maneira de pertencer à sociedade. Esse pertencimento
ocorre quando, por exemplo, garantimos os direitos à vida, à liberdade, à educação, ao lazer, ao trabalho, ao voto, entre outros.
Ao estudar História, percebemos que muitos direitos já foram conquistados
no Brasil, como o voto feminino em 1932 e a igualdade jurídica entre homens
e mulheres em 1988, proibindo-se a discriminação em função do sexo. Mas
ainda há um longo caminho para alcançar a cidadania plena. Nesse sentido,
basta pensar que no Brasil e no mundo existem enormes desigualdades entre
ricos e pobres.
Uma atitude historiadora pode despertar a consciência de cada um de
nós para a tarefa de construir uma sociedade mais justa e democrática, uma
sociedade que inclua mais pessoas no exercício da cidadania, independentemente de idade, sexo, origem, cor da pele e religião.
Os seres humanos agem no
mundo: constroem relacionamentos, trabalham e produzem objetos
e saberes. Elaboram e compartilham leis, linguagens, afetos e
uma infinidade de coisas relacionadas às suas identidades e ao
tempo e ao espaço em que vivem.
Você já pensou por que existem diferenças culturais, ou por que nem
todas as pessoas têm a mesma qualidade de vida? Por que é necessário preservar o meio ambiente? Essas questões se referem a diferentes situações do
mundo atual. Para compreendê-las melhor, muitas vezes, torna-se necessário
pesquisar o passado e conhecer a história das sociedades.
Os historiadores estudam essas ações e relações humanas
no decorrer do tempo para tentar entender o passado, identificando as rupturas (mudanças) e as permanências (o que se
manteve) entre ele e o presente.
Um exemplo de ruptura na história do Brasil foi a imposição,
no século XVIII, do português como idioma oficial. Até então, o
nheengatu era a língua mais falada na colônia portuguesa.
Um exemplo de permanência em seu dia a dia é o estudo da
geometria, nas aulas de matemática. Essa ciência reúne sabe
res que já eram conhecidos na Grécia antiga. Saberes como
esse e ações realizadas desde tempos remotos têm impacto
direto no presente.
Estudar História é refletir sobre o presente, comparar modos de vida; e viajar mentalmente pelo tempo, conhecer o modo de pensar e agir de diferentes
povos, observar suas dificuldades e as tentativas de solucioná-las; e analisar a
vida em sociedade em outras épocas e lugares.
Existem muitas razões para estudar História. Independentemente do local de nascimento ou da condição social, cada indivíduo tem a necessidade de conhecer seu passado
e suas origens. Além disso, muito do que somos hoje reflete a herança do modo de viver
e de pensar de outras épocas. Esse conjunto de experiências que aprendemos com nossa comunidade recebe o
nome de cultura.
O que a História estuda?
História é a ciência que estuda a vida e as ações dos seres humanos ao longo
do tempo, analisando rupturas e continuidades que ocorrem nas sociedades.
As rupturas (ou mudanças) acontecem quando as formas de organização
de uma sociedade são modificadas – por exemplo, transformações na economia
de um Estado.
Essas rupturas podem ser resultados de eventos rápidos (que
acontecem em um curto período de tempo) ou de processos históricos mais
lentos (em um longo período de tempo com diferentes eventos que modificam,
aos poucos, as características de uma sociedade).
A História estuda justamente o processo de mudanças ocorrido nas sociedades. Incluem-se aí as mudanças no campo da comunicação, da moda, da alimentação, da construção de moradias, do lazer, entre outras. Mas a História não estuda apenas as mudanças.
Estuda também as permanências, ou , ou
seja, aquilo que, mesmo com o passar dos anos, não mudou ou mudou pouco. Exemplos
disso são as construções presentes em algumas cidades brasileiras, como Ouro Preto, São
Luís, Olinda, Goiás e Salvador. Repare que elas são muito antigas; foram construídas há muito tempo e preservadas até hoje.
O trabalho do historiador
O historiador estuda o passado tendo como base perguntas e dúvidas que surgem no
presente. Suponhamos, por exemplo, que um historiador deseje compreender por que existem mais afrodescendentes no Sudeste e no Nordeste do Brasil do que na Região Sul. Para
obter uma resposta, ele terá de investigar o tráfico de africanos escravizados para o Brasil e
as atividades econômicas em que eles trabalhavam.
Carlo Ginzburg comparou o historiador a um detetive, pois ele também procura pistas, indícios e sinais para investigar um caso e chegar a
uma conclusão.
O estudo da História investiga o passado para nos ajudar a compreender o presente e entender o funcionamento das sociedades ao
longo do tempo. A História é, também, a ciência que nos coloca em contato com outros povos, outros tempos e diferentes formas de pensar.
Uma atitude que o historiador deve evitar é a análise anacrônica dos fatos,
ou seja, quando ele busca utilizar ideias de uma época para analisar fatos de
outro tempo.
A pergunta que o historiador procurará responder pode estar relacionada a um passado
recente ou a um passado bem distante. Ele pode, por exemplo, procurar saber como o hip-hop ou o rap chegaram ao Brasil, uma história relativamente recente. Mas, se a intenção
for saber sobre o desenvolvimento do comércio, da democracia ou da ciência, o historiador
terá de recuar sua investigação para um passado mais longínquo. O historiador investiga o que os seres humanos fizeram,
pensaram e sentiram no contexto de suas culturas.
Como é possível para o historiador investigar um passado que não existe mais? Se você
refletir sobre isso, vai concluir que as pessoas, ao longo da vida, deixam vestígios do que
fizeram e pensaram. Tiram fotografias, escrevem cartas, leem livros, ouvem músicas, fabricam
ou compram vários tipos de objeto, pintam telas, constroem edifícios e fazem muitas outras
coisas que podem perdurar por milhares de anos.
Quando são utilizadas pelo historiador em suas pesquisas, essas marcas deixadas pelas
pessoas recebem o nome de fontes históricas. Elas podem ser classificadas em fontes históricas materiais (documentos escritos de vários tipos, livros, fotografias, roupas, cartas,
pinturas, monumentos etc.) e fontes históricas imateriais (memórias, músicas, lendas,
línguas, crenças etc.). Para chegar a qualquer conclusão em seus estudos, os historiadores
precisam examinar várias fontes diferentes.
Em muitos momentos, dependendo do enfoque e do tema da
pesquisa, o historiador pode recorrer a outras áreas de conhecimento, como as ciências sociais, para compreender melhor os
diferentes aspectos da experiência humana em estudo.
O historiador não fixa “verdades absolutas” ou definitivas. Seu trabalho depende de pesquisas, formulações de hipóteses e interpretações de fontes.
A atividade do historiador envolve uma busca pelo conhecimento. E conhecer é
uma tarefa contínua, que nunca tem fim. O historiador, aquele que estuda História, elabora uma narrativa a respeito de
acontecimentos, com base em diferentes tipos de registros. Para isso, seleciona e
organiza o que deseja estudar, para, em seguida, interpretar e relatar o que observou.
O trabalho do historiador se inicia com questões surgidas no presente. Ele
pode estudar o passado (recente ou distante) para compreender a sociedade
em que vive ou uma sociedade diferente da dele. Além disso, o historiador
debate temas e acontecimentos atuais, identificando rupturas e continuidades
que auxiliem na compreensão do presente.
DIFERENTES FONTES E CONCEITOS DA HISTÓRIA
Para investigar e compreender a organização social, o modo
de vida e as práticas culturais em tempos e lugares específicos,
o historiador utiliza fontes históricas, que também são conhecidas como documentos.
• fontes escritas: registros textuais manuscritos ou impressos, como documentos oficiais, jornais, revistas, livros,
diários, anotações, etc.;
• fontes sonoras: registros musicais e gravações em discos
de vinil, fitas cassete, CDs ou em meios digitais;
• fontes visuais: fotografias, pinturas, gravuras, charges,
caricaturas, etc.;
• fontes audiovisuais: filmes e vídeos;
• fontes orais: relatos, depoimentos e entrevistas;
• fontes materiais: artesanato, esculturas, construções,
ferramentas, armas, roupas, etc.
Fontes históricas podem ser compreendidas como evidências de experiências humanas do passado. Os historiadores consideram esses sinais de outras
épocas como “vestígios” que possibilitam a compreensão de parte das relações
sociais cotidianas que já foram vividas.
São fontes históricas para análise do historiador: ruínas de cidades antigas, pinturas, textos de jornais, leis, fotografias, filmes, computadores, entre
outros documentos que possam conter informações sobre o passado. É com
base em fontes históricas que o historiador constrói narrativas sobre acontecimentos e descreve como as pessoas viviam em tempos anteriores.
As fontes podem ser classificadas pela originalidade – em fontes primárias
e secundárias – e pela forma da informação – em fontes escritas e não escritas.
Além disso, elas podem estar registradas em diversos suportes.
Independentemente do tipo, as fontes históricas devem ser estudadas e
interpretadas de forma cuidadosa. Fontes antigas ou frágeis, como vasos e pergaminhos, devem ser manuseadas com grande cuidado. Fontes ambíguas ou
fragmentárias, como obras de arte e documentos parcialmente queimados, exigem cuidado e esforço técnico e científico para que possam ser adequadamente
organizadas e estudadas.
Para estudar as fontes históricas, é possível utilizar alguns procedimentos.
Vamos conhecê-los?
• Identificação: localização e descrição da fonte, bem como das condições
que permitiram encontrá-la;
• Comparação: confronto com outras fontes que tratam do mesmo tema ou
que foram encontradas no mesmo lugar;
• Contextualização: descrição do momento histórico em que a fonte foi produzida, explicando as características sociais, econômicas, culturais e políticas da
época e de que maneira elas se relacionam com a fonte;
• Interpretação: explicação de possíveis significados da fonte histórica e elaboração de narrativas ou descrições que permitam a compreensão do passado;
• Análise: debate sobre os dados levantados pela interpretação de uma
fonte, avaliando o o valor dela para a construção do conhecimento histórico.
Fontes primárias ou originais
São aquelas que fornecem uma informação
direta, sem outras interferências. Também chamada de fonte original, é um registro direto do
tempo estudado. Um documento oficial, como a Constituição brasileira ou
uma certidão de nascimento, é uma fonte
primária.
Fontes secundárias
São aquelas em que a informação não está em “primeira mão”, ou seja, já
sofreu algum tipo de tratamento, análise, interpretação ou generalização. Assim,
se a Constituição Federal de 1988 é uma fonte primária para juristas, historiadores e outros que desejem estudar as leis brasileiras, um livro que discuta os
aspectos do texto constitucional é uma fonte secundária, pois quem conhece a
Constituição por esse livro não tem acesso direto à própria Constituição.
Fontes escritas
São aquelas em que as informações são transmitidas pela
linguagem escrita, composta de caracteres, letras ou símbolos que,
em conjunto, formam mensagens. Alguns exemplos desse tipo de
fonte são os livros, jornais, leis, documentos administrativos, revistas e panfletos.
Existem diversos suportes possíveis para a escrita:
pedra, pergaminho, papel e até mesmo um smartphone. Embora
sejam importantes, as fontes escritas não são as únicas utilizadas
pelos historiadores. Afinal, muito antes das primeiras formas de
escrita, os seres humanos já se relacionavam social e politicamente,
construíam moradias, se alimentavam, enfim, viviam e produziam
suas próprias culturas e histórias.
Fontes não escritas
Fontes não escritas são as informações e evidências que não
estão na forma de linguagem textual.
As fontes não escritas podem ser orais, ou seja, são narrativas de pessoas, com base em suas memórias, sobre experiências pessoais e
coletivas de momentos e fatos do passado. As entrevistas e os depoimentos
são exemplos de fontes orais, mas não são as únicas.
Os mitos, as lendas, as
cantigas, as fábulas, enfim, as diferentes narrativas sobre o mundo, os seres
humanos, suas origens, angústias e dramas, bem como seus valores éticos e
morais, tudo isso pertence ao campo das fontes orais. Logo, essas fontes são
relevantes para os historiadores. Em sociedades ágrafas, isto é, que não usam
linguagem escrita, as fontes orais são fundamentais, pois, muitas vezes, são as
únicas com as quais um povo, sua cultura e organização podem ser conhecidos
e valorizados.
Outro tipo de fonte não escrita são as sonoras ou auditivas. No passado,
essas fontes eram constituídas por músicas e canções, algumas das quais
dialogavam diretamente com a tradição oral.
No século XIX, surgiu a radio
difusão como uma forma de transmitir sons. Com o passar do tempo, surgiram suportes que permitiam gravar os sons, como discos de vinil, CDs, fitas
magnéticas, fitas cassete e pendrives. Com a evolução da tecnologia, os computadores e smartphones são ao mesmo tempo transmissores e suportes de
fontes auditivas.
As fontes visuais ou iconográficas são objetos que contêm imagens, sinais
e ícones. As diversas formas de imagens podem trazer informações sobre a
sociedade que as produziu. Por exemplo, muitas das informações que temos
sobre sociedades do passado, como incas, maias e astecas, são imagens presentes em suportes como vasos, blocos de pedra e construções, entre outros
que, de alguma forma, foram preservadas ao longo do tempo. Contudo, nem
todas as fontes visuais ou iconográficas vieram do passado distante ou nos
ajudam a conhecer sociedades que já não existem mais. É possível compreender a história de povos e sociedades do presente analisando suas mudanças
e continuidades por meio dos seus registros visuais. Telas, afrescos e murais
continuam sendo formas de representar a natureza e os processos sociais. As
fotografias também são fontes imagéticas. Na década de 1820 surgiram as
fotografias, que são inicialmente registros de luz em contraste sobre uma super
fície fotossensível. Com esse método, as fontes imagéticas se popularizaram e
ganharam novas possibilidades de registro sociocultural. As peças publicitárias
e, particularmente, as charges e as caricaturas, presentes em jornais, revistas
e folhetos, também são considerados registros visuais importantes, particularmente na medida em que registram e interpretam fatos sociais, políticos e
econômicos relevantes em diferentes povos e sociedades.
As fontes audiovisuais são caracterizadas por serem uma combinação entre elementos sonoros e visuais. Filmes, documentários e
vídeos, muitos dos quais presentes em plataformas digitais, são exemplos relevantes de fontes audiovisuais. Desde o final do século XIX,
quando os irmãos Lumière desenvolveram o cinematógrafo, ou seja,
o precursor das câmeras cinematográficas, as diversas expressões do
cinema produzem registros sobre as sociedades contemporâneas. Os
programas de televisão, os DVDs e os videoclipes também são elementos que retratam aspectos do cotidiano. Da mesma forma, as lives e os
webinários, cada vez mais presentes em nosso dia a dia, também são
formas contemporâneas de registros e fontes audiovisuais.
As fontes materiais se referem a vestígios que têm materialidade, isto é,
que podem ser tocados. São exemplos: monumentos, construções, vestígios
arqueológicos diversos, máquinas, ferramentas e objetos para caçar, guerrear
ou preparar alimentos. Os suportes de outros tipos de fontes também são consideradas fontes materiais, como a estrutura física de quadros, livros e CDs, pois
ajudam a compreender a forma como as sociedades se expressam e registram
informações e suas implicações sociais. O arqueólogo é o profissional habilitado para estudar as culturas e sociedades do passado por meio de vestígios
materiais, que muitas vezes são encontrados em sítios
arqueológicos.
As fontes imateriais correspondem a ideais, formas
de pensar e organizar a sociedade, costumes e práticas
sociais que foram mantidas e transmitidas entre as gerações, como festas, culinária, danças e saberes. Assim,
por exemplo, a prática do judô pode nos ajudar a entender aspectos culturais da sociedade japonesa, bem como
a capoeira diz muito sobre a formação social e histórica
da sociedade brasileira.
A RELAÇÃO DO HISTORIADOR COM AS FONTES
O modo como o historiador se relaciona com as fontes históricas também mudou ao longo do tempo.
A História tornou-se uma disciplina escolar e um campo de
conhecimento considerado científico há cerca de duzentos anos.
Foi quando os historiadores da Escola Metódica, também chamados de positivistas, elaboraram métodos e procedimentos
para a condução do trabalho de pesquisa. Para os historiadores
dessa corrente, só era possível estudar a História pelos documentos escritos, sobretudo os produzidos por instituições oficiais do Estado, como as certidões, os registros, etc.
Essa concepção mudou com o surgimento, a partir de 1929,
de uma nova corrente historiográfica, a Escola dos Annales, que
ampliou o conceito de fontes históricas. De acordo com essa
corrente, as fontes históricas são diversificadas e dependem do
olhar do historiador e das perguntas feitas por esse profissional.
Essa ampliação trouxe uma gama imensa de novos temas,
personagens e pontos de vista que enriqueceram o ofício do historiador. Os vestígios humanos não revelam por si mesmos o
passado tal como ele aconteceu, mas devem ser pensados como
representações que precisam ser interpretadas para que o historiador possa extrair delas todas as informações.
Além das ideias sobre as fontes históricas, outra concepção do século XIX não é mais aceita
hoje: a de que a tarefa dos historiadores seria simplesmente revelar o que teria acontecido
no passado, como se houvesse uma versão verdadeira, única e absoluta. Afinal, como chegar
a uma versão única sobre o passado, se cada fato foi vivenciado por pessoas diferentes, que,
ao registrá-los ou relatá-los, o fizeram a partir de seus pontos de vista? O próprio historiador
seleciona e analisa aspectos do passado a partir da sua visão de mundo.
Hoje está claro para os historiadores que a História não é a reconstituição exata do passado, mas uma interpretação sobre parte desse passado. Podem existir, inclusive, várias
interpretações ou relatos sobre o mesmo acontecimento.
Isso não quer dizer, contudo, que qualquer versão pode ser aceita, porque a História não é
um relato ficcional.
Ao investigar o passado, os historiadores reúnem muitos documentos e
versões diferentes sobre o período em estudo; em seguida, cruzam todas as informações, verificam se elas são confiáveis e escrevem uma narrativa consistente sobre os acontecimentos.
Assim, as profundas mudanças na concepção de conhecimento histórico nos mostram
que a História também tem história e é pensada de diferentes maneiras com o passar
do tempo.
Todas essas transformações no campo do
conhecimento histórico estimularam a pesquisa de muitos temas até então pouco estudados, como a história do Brasil na perspectiva dos escravizados e dos indígenas, a história
da América Latina pensada segundo os povos
nativos, a história da África com base em
fontes historiográficas do continente africano, entre outros.
Tais questões são sempre despertadas por interesses e
experiências da época em que o historiador vive. Dificilmente
um historiador do século XIX se perguntaria, por exemplo, sobre
sustentabilidade e fontes renováveis de energia. Afinal, temas
como esses são prioridades do presente.
Interpretar fontes históricas
Ao analisar as fontes históricas, o historiador pode reunir pistas ou evidências que lhe permitam, por exemplo, reconhecer mudanças ocorridas em uma
sociedade e o que as provocou. Os processos de mudança podem ocorrer na
economia, nas artes, na política, na maneira de pensar, nas formas de viver e
de sentir o mundo.
Além das mudanças, o historiador pode observar permanências, ou seja,
aquilo que não se alterou. Por exemplo: ruas e construções que não se modificaram, embora quase toda a cidade tenha se transformado; maneiras antigas de
realizar certos tipos de brincadeira, de trabalho, de atividade artística, etc.
Em uma mesma fonte histórica, o
historiador pode perceber várias informações significativas. Ao encontrar um
recibo de compra ou venda de escravo,
por exemplo, ele já observou pelo menos
uma informação básica: que houve escravidão nesse lugar, ou seja, que homens,
mulheres e crianças foram considerados
escravos e podiam ser negociados como
se fossem mercadorias. O recibo também
pode conter o nome da moeda utilizada
naquela época, entre outras informações.
Os historiadores, quando estudam determinada
sociedade, podem interpretá-la de diferentes maneiras, mas sempre com métodos científicos.
Dependendo dos métodos de pesquisa e das
fontes de que dispõe, o historiador pode dar
ênfase, por exemplo, em aspectos políticos, econômicos, sociais ou culturais. A ênfase em um
ou mais desses aspectos possibilita ao historia
dor construir a própria interpretação histórica
com base no enfoque escolhido por ele e pela
documentação analisada.
A historiadora e antropóloga brasileira Lilia
Schwarcz, por exemplo, privilegia em seus estudos aspectos culturais das sociedades. Já o historiador Eric Hobsbawm (1917-2012) privilegiava em
suas pesquisas aspectos políticos.
Fato histórico e processo histórico
A história humana é composta de muitos
acontecimentos, resultados de interações e
vivências entre diversos sujeitos históricos em
lugares e épocas definidas. No entanto, nem
tudo o que acontece na história vivida é escolhido pelo historiador, porque isso depende do
interesse e do objeto de estudo escolhido como
tema.
Ele pode, por exemplo, querer entender
como agiam os partidos políticos há muitos
anos em um determinado lugar. Para isso, buscará artigos de jornal, depoimentos de pessoas,
atas governamentais e assim por diante.
Outro
historiador poderá procurar entender como
era organizada a família entre as pessoas mais
pobres em uma época passada. Para isso, buscará registros de nascimento, listas de trabalha
dores em fábricas, testamentos registrados em
cartório etc.
O registro do tempo é importante porque permite organizar e compreender os fatos históricos.
Segundo os antigos gregos, era nessa forma de medir o tempo que a musa Clio entrava em cena,
empenhando-se em inspirar o registro dos fatos passados, os fatos históricos.
Mas o que é um fato histórico? É um episódio ou fenômeno que teve repercussão para alguma
sociedade em particular ou até mesmo para o mundo. Portanto, dependendo do assunto que se
quer conhecer, qualquer fato do passado pode ser considerado histórico.
Portanto, é o historiador quem seleciona
e atribui relevância a determinados eventos,
interpretados como fatos históricos. O fato histórico é uma construção desse profissional em
seu trabalho de compreensão de aspectos da
realidade passada, com base em indagações
suscitadas pelo mundo que o cerca no tempo
presente.
O conhecimento do passado não diz respeito apenas ao passado em si, mas também ao presente. A formulação de perguntas pelos historiadores sobre uma realidade passada é feita com base nos
valores sociais e culturais dominantes em seu tempo.
Tendo definido a questão
que pretende investigar, ele analisa os documentos disponíveis e constrói uma
interpretação histórica para sua pergunta. Por meio dessa análise, é possível
até reformular a pergunta inicial, já que sua interpretação não pode forçar os
documentos a afirmarem algo que não está neles.
A Lei Áurea, que aboliu a escravidão no Brasil é um exemplo de evento histórico.
Quando se trata da questão das condições de vida das pessoas negras do Brasil,
alguns autores podem discordar sobre a importância desse documento: se, por um
lado, eliminou a escravidão, por outro, muitas pessoas negras tiveram de voltar a
trabalhar de forma precária, uma vez que não contaram com auxílio para entrar no
mercado de trabalho, estudar, ter acesso à moradia etc.
A chegada dos europeus à América, em 1492, por exemplo, é um fato histórico de extrema importância, porque foram colocados em contato povos que antes não sabiam da existência um do
outro. Esse fato resultou em profundas transformações econômicas, políticas e sociais e também
em relação aos costumes, uma vez que produtos nativos da América, como a batata, o milho, a
mandioca, o amendoim e até o chocolate, passaram a ser consumidos em outras partes do mundo: na Europa, na África e na Ásia. A mudança de hábitos alimentares em grande parte do mundo
promoveu mudanças graduais em várias sociedades. Assim, é também um fato histórico.
Há ainda fatos sociais de grande interesse histórico, como as revoltas populares. Há fatos econômicos importantes para a sociedade, como a inflação (isto é, o crescente aumento dos preços),
ocorrida em várias épocas. Há fatos históricos ligados à tecnologia, como a utilização do vapor
para impulsionar máquinas ou a invenção do telefone. Há também os fatos da vida cultural das
sociedades, como as comemorações, as festividades, as brincadeiras de roda e as apresentações
de música e de teatro.
Uma sucessão de fatos históricos, explicada
pelo historiador com uma narrativa, é chamada
de processo histórico. A ideia de processo está
associada às ações dos sujeitos históricos que,
com suas trajetórias, motivações, estratégias e
escolhas, imprimem movimento e ritmo às trans
formações. Assim, a partir de suas perguntas, as
fontes disponíveis são analisadas para a elaboração de uma interpretação, estabelecendo uma
relação entre sequências de fatos históricos.
O interesse do pesquisador em analisar
um processo histórico está em compreender as
mudanças e permanências que resultaram das
ações humanas ao longo do tempo. Contudo,
nem todas as mudanças têm a mesma duração: algumas são rápidas e podem ser percebidas no nosso cotidiano, no intervalo de dias
ou meses. Outras, um pouco mais lentas, são
notadas no espaço de algumas gerações, e, finalmente, existem aquelas que
são muito lentas e só são percebidas ao longo dos séculos.
Sujeito histórico
A História é construída por ações humanas no tempo. Isso significa que
os eventos são produzidos entre seres humanos por meio das suas relações
sociais. Constata-se, com base nessa reflexão, que aqueles responsáveis por
movimentar a “roda da História” são os seres humanos em sua coletividade.
Todas as pessoas, não importa sua condição social, financeira, cultural ou
política, contribuem para a constituição das experiências de vida coletivas de
uma sociedade.
Os historiadores são responsáveis por investigar o passado e
tentar entender sua relação com o presente considerando os mais
variados aspectos da vida humana. No entanto, os historiadores não
"fabricam" a história. Ela é feita pelos sujeitos históricos. Quem são,
então, esses “sujeitos”?
Para os historiadores, aqueles que, em determinado momento, produzem,
reproduzem e transformam a realidade em que vivem são sujeitos históricos.
Não estamos deslocados do mundo: nossos comportamentos, ideias, trabalho,
relações de amizade, enfim, nossas relações em sociedade de alguma forma
contribuem para mantê-la ou transformá-la.
É comum as pessoas definirem história como o resultado da
ação de importantes personagens, que enfrentaram desafios para
realizar feitos que mudaram os rumos da humanidade. Entretanto, homens e mulheres não mudam o mundo sozinhos.
A história é
resultado do jogo de forças de diferentes grupos em disputa no
interior das sociedades. Quando estudamos a história, buscamos
entender como as ações dessas pessoas se cruzam em determinado
tempo e espaço. De modo individual
ou coletivo, as ações dos sujeitos históricos contribuem para a construção da sociedade em que vivemos.
Há mais de cem anos, acreditava-se que os agentes ou
sujeitos históricos eram somente os poderosos, como reis e
rainhas, presidentes e generais, que pareciam decidir o destino
da humanidade. Hoje se entende que todos são produtores de
história: homens e mulheres, adultos e idosos, jovens e crianças de qualquer camada social.
A história dos jovens, dos trabalhadores rurais, de pessoas
escravizadas e dos estudantes – suas práticas, sentimentos,
ações e crenças – é tão importante quanto a de conhecidos líderes, ainda que não vire notícia.
Há agentes históricos individuais (pessoas que, por conta
própria, agem no mundo) e coletivos (como agremiações, partidos políticos, sindicatos, Organizações Não Governamentais –
ONGs –, movimentos estudantis, igrejas e forças armadas), em
que pessoas atuam em grupo.
É importante saber que cada sujeito é movido por interesses
específicos. Além disso, é fundamental entender por que tal ação
ou decisão foi tomada e quem se beneficiou dela. Isso ajuda a
compreender como a história é produzida e contada.
O TEMPO E A HISTÓRIA
Todo fato histórico acontece em local e tempo específicos.
O tempo histórico, no entanto, organiza-se de forma diferente
daquela como são estruturados o tempo cronológico e o tempo
natural. Isso ocorre porque esse tempo é pensado segundo as
experiências dos diversos grupos humanos.
O tempo histórico é assinalado por rupturas e permanências. As rupturas são as mudanças significativas que afetam
uma sociedade ou um grupo inteiro, como o surgimento da internet, por exemplo. Já as permanências são as estruturas que
podem ou não sofrer alterações, mas que persistem ao longo do
tempo, como a religião católica, por exemplo.
Fernand Braudel (1902-1985),
um dos mais proeminentes
historiadores da Escola dos
Annales. Na obra O Mediterrâneo
e o mundo mediterrâneo na época
de Filipe II, Braudel propõe a
organização do tempo histórico em
temporalidades de curta, média e
longa duração. Foto de cerca
de 1980.
Além disso, o tempo histórico pode ser dividido em temporalidades de curta, média e longa duração. As temporalidades de
curta duração referem-se a eventos breves, que podem ocorrer
em dias ou meses. Nesse caso, as transformações históricas
acontecem mais rapidamente. As temporalidades de média duração referem-se a eventos um pouco mais longos, que acontecem
no decorrer de anos ou décadas, mas, ainda assim, podem ser
percebidos no curso de uma vida. As temporalidades de longa duração, por outro lado, referem-se a eventos que se estendem por
séculos e são caracterizados por lentas transformações.
Cada sociedade tem sua história
A história de todas as sociedades não é única; cada uma delas tem seu próprio
desenvolvimento. O estudo da História nos mostra que em uma mesma época
convivem sociedades com modos de vida semelhantes e muito diferentes.
Por
exemplo, enquanto algumas se fortaleceram com o comércio, outras se dedicaram
principalmente à agricultura. Dentro de um mesmo povo também é possível observar variados grupos sociais que agem e pensam de forma diversa dos demais.
História: uma produção de saber
A História é uma área de estudo que investiga as vivências humanas ao longo do
tempo. Em sua origem grega, a palavra “história” significa “procurar saber” ou “informar-se”.
Quando estudamos História, pesquisamos diversos aspectos da vida humana, por
exemplo: formas de trabalho e tipos de diversão, alimentos produzidos e consumidos,
relações de dominação e resistência entre pessoas.
Quem tem conhecimento histórico percebe que, se algumas coisas mudaram no passado, elas também podem mudar no presente. Sem consciência histórica, alguém pode
achar, por exemplo, que certas injustiças sociais de nossa época e a exploração predatória
do meio ambiente são “naturais”. Assim, muitas pessoas não enxergam a possibilidade
de lutar por um mundo melhor.
Estudar História nos permite refletir sobre como podemos construir um mundo mais
livre, justo e sustentável.
Memória
A memória é nossa capacidade de guardar na mente histórias,
experiências e impressões de situações que vivemos em diferentes
épocas. Ela liga nosso passado ao nosso presente; sem ela, não temos
como saber quem somos. No entanto, nossa memória não é uma
guardiã segura do passado; ela pode falhar e distorcer acontecimentos. E, por ser muito subjetiva, o que experimentamos no passado
pode ser diferente da experiência de outras pessoas no mesmo
tempo e espaço.
A memória pode estar registrada em muitas criações e manifestações humanas: em histórias transmitidas de pais para
filhos, em monumentos, em gravuras e em fotografias, por exemplo.
História e memória têm a ver com o passado, mas são diferentes. Ao estudar a história, usa-se a memória para resgatar aspectos do passado. Reúnem-se, verificam-se e interpretam-se várias memórias na tentativa de completar suas lacunas, escapar de suas armadilhas e até entender o significado dos esquecimentos e
das distorções.
Alguns povos procuram preservar bens naturais ou culturais
que compõem sua história e são significativos para sua cultura.
Esses bens formam o patrimônio de um povo e podem ser materiais
(edifícios, sítios arqueológicos e paisagísticos, acervos de museus
ou bibliotecas, obras cinematográficas etc.) ou imateriais (como
celebrações, formas de expressão, festas, saberes e modos de fazer
tradicionais de algumas comunidades).
PERIODIZAÇÃO DA HISTÓRIA
Muitos historiadores costumam classificar os períodos da
História em idades (Pré-História, Antiga, Média, Moderna e
Contemporânea). Essa periodização, no entanto, é bastante criticada na atualidade, pois toma como referência as experiências
de povos europeus e, portanto, desconsidera processos, experiências e acontecimentos importantes vivenciados por povos de
outros continentes.
Atualmente, esses conceitos de periodização são retomados, porém, ressignificados, buscando contemplar as especificidades de cada povo, em cada época e território.
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