segunda-feira, 9 de março de 2026

América Latina – contexto atual

Na primeira década deste século, a América Latina registrou um significativo desempenho econômico – a média de crescimento anual da região foi de cerca de 4% entre 2002 e 2011 –, apoiado, sobretudo, na exportação de matérias-primas agrícolas e minerais, alimentos e produtos energéticos. Nesse período, houve também aumento do nível de emprego, que, aliado à aplicação de programas de transferência de renda, proporcionou redução dos níveis de pobreza.
No entanto, a reversão dessa tendência na década de 2010 é um dos diversos desafios econômicos, políticos, sociais e ambientais que atingem a maior parte dos países latino-americanos, inclusive aqueles que se caracterizam como países industrializados, como Argentina e México.

A crise econômica


A partir de meados da década de 2010, o desempenho econômico da América Latina decaiu, e o crescimento médio anual do Produto Interno Bruto (PIB) da região foi de apenas 0,3% entre 2014 e 2019. Esse quadro foi agravado pela crise provocada pela pandemia de covid-19, que se disseminou pelo mundo em 2020, resultando no aumento do desempre go, da inflação, da informalidade e do número de pessoas vivendo em situação de pobreza (com menos de US$ 5,50 por dia) e de pobreza extrema (com menos de US$ 1,90 por dia).
Como se pode constatar pela análise da tabela, a redução da pobreza, em geral, foi interrompida a partir de 2014. A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) apontou, como causas do retrocesso nos índices de pobreza, as crises econômicas em países como o Brasil e a Venezuela.
Diversos fatores contribuíram para o agravamento da situação econômica nos países latino-americanos, entre eles, a queda do preço das matérias-primas no mercado internacional e os muitos problemas estruturais nas economias da região, como baixo nível de investimentos.
No atual contexto mundial, com a ação humana na natureza provocando sérios problemas ambientais, novos padrões de desenvolvimento econômico e social são necessários para melhorar as condições de vida de milhões de pessoas em situação de pobreza e de miséria na América Latina.

Desafios para os países latino-americanos 


As particularidades geográficas latino-americanas oferecem grande poten cial de desenvolvimento. Nesse sentido, podemos destacar a possibilidade de produção de fontes energéticas renováveis (biocombustíveis, por exemplo), a ampla disponibilidade de recursos hídricos (águas superficiais e subterrâneas), minerais e energéticos, a existência de extensas áreas para a produção agrope cuária e a enorme biodiversidade verificada nos países da região.
Um dos desafios que se apresentam aos países latino-americanos é a difi culdade em criar condições para a inclusão social, a conservação da natureza e a preservação das identidades culturais locais (dos povos indígenas, por exemplo), aspectos que deveriam estar presentes nos projetos governamentais de todos os países latino-americanos.
Outros desafios envolvem gerar maior crescimento econômico, superando, por exemplo, a carência em termos de infraestrutura. No caso dos transportes, diversas obras de redes viárias (rodovias, ferrovias e hidrovias) vêm sendo reali zadas em territórios sul-americanos, algumas interligando os países. No entan to, sobretudo no Brasil, o transporte rodoviário – mais caro do que o ferroviário e o hidroviário – ainda é predominante, elevando o custo da circulação de pessoas e mercadorias.
As obras viárias de interligação do continente sul-americano são muito im portantes, particularmente para o Brasil. Além de facilitar o escoamento de pro dutos brasileiros (os demais países da América do Sul compram do Brasil cerca de dois terços do total de bens industrializados exportados), há muitos investi mentos de empresas brasileiras nos países vizinhos.
A China se consolidou como principal parceiro comercial de vários países latino-americanos e realiza investimentos em obras de infraestrutura na região, com destaque para o setor de transportes. Isso é parcialmente explicado pelo fato de as rodovias, as ferrovias e os portos serem fundamentais para o escoa mento da produção, viabilizando fluxos de matérias-primas exportadas pelos países latino-americanos para a China.

O processo de diversificação industrial


Brasil, México e Argentina concentram aproximadamente 90% da produção industrial da América Latina. Colômbia, Chile e Venezuela, na América do Sul, e Costa Rica, na América Central, são países relativamente industrializados. A partir da década de 1950, o processo de crescimento industrial do Brasil, da Argentina e do México ficou conhecido como Industrialização por Substi tuição de Importações (ISI) e trouxe algumas consequências negativas. Nesse período, a chegada de empresas do setor automobilístico – com sede nos Estados Unidos, na Europa e no Japão – estimulou a expansão do trans porte rodoviário nesses países. Isso acabou levando, principalmente no caso brasileiro, à redução de investimentos em outros tipos de transporte, como o ferroviário, cujo custo é inferior.
Até a década de 1970, o modelo econômico em questão possibilitou um expressivo crescimento, estimulando a geração de empregos, a ampliação do mercado consumidor e a diversificação da pauta de produtos exportados, que passou a incluir diversos bens industrializados.
Entretanto, esse modelo acarretou a falência de muitas empresas nacionais, que não suportaram a concorrência das empresas transnacionais estrangeiras, ampliou a dependência tecnológica em relação aos países desenvolvidos e aos investimentos estrangeiros, contribuiu para o crescimento da dívida externa e não alterou, de modo expressivo, o perfil de baixo valor tecnológico e agregado dos produtos industrializados exportados.
O crescimento econômico, embora tenha sido expressivo, foi alcançado à custa de grande concentração de riqueza nas mãos de poucas pessoas. Apesar das relativas melhorias nas condições de vida da população, esses países não desenvolveram políticas públicas eficientes de distribuição de renda e apresen tam carência de investimentos nas áreas de educação, habitação, saúde, inovação e pesquisa.

Urbanização acelerada e desigualdade social 


Os países latino-americanos apresentam elevados índices de urbanização. O ritmo acelerado de crescimento da população urbana na segunda metade do século XX foi estimulado pelo êxodo rural, caracterizado pela intensa migração campo-cidade em um curto intervalo de tempo.

Entre os fatores que contribuíram para esse processo, podemos citar: o desemprego rural – provo cado pelo predomínio dos grandes latifúndios e pela mecanização das ativida des agrícolas –; a falta de incentivo aos pequenos produtores; a industrialização; o crescimento das atividades econômicas do setor terciário nas cidades; e a busca por serviços urbanos, como saúde e educação.
O crescimento acelerado das cidades, motivado também pelos fatores de expulsão da população rural, e a falta de investimentos em educação e formação profissional, ajudam a explicar os problemas urbanos verificados nos países da América Latina, como o desemprego e os altos índices de informalidade.
Um aspecto marcante das grandes metrópoles latino-americanas é a segregação socioespacial, resultante da ocupação de espaços bem definidos por classes sociais específicas. 
Nas áreas em que se concentra a população com menor renda, a falta de atuação do Estado é marcante e se manifesta na presença de bairros com enorme carência de serviços e equipamentos urbanos – como ruas asfaltadas, iluminação pública, redes de água e esgoto, postos de saúde, creches e escolas.
Essa realidade contrasta com as condições de vida verificadas em bairros ocupados pelas populações de maior poder aquisitivo, que contam com boa infraestrutura – casas e edifícios de médio e alto padrão, ruas asfalta das e bem iluminadas, fácil acesso a escolas, faculdades, hospitais, bibliotecas, parques, teatros, centros de cultura, cinemas, além de outros serviços.

Assentamentos urbanos precários e projetos inovadores de melhoria


A pobreza e a segregação socioespacial na América Latina estimulam a formação de favelas e a ocupação de áreas de risco, como encostas de morros propensas a deslizamentos, locais sujeitos a enchentes (onde as construções, em geral, são feitas sobre palafitas) e inundações (áreas marginais, que ficam em planícies de inundação ou de várzea).
Nesses ambientes, caracterizados como as sentamentos urbanos precários, a população sofre com carência de serviços básicos de saúde, educação e saneamento, decorrente da falta ou insuficiência de políticas habitacionais dos governos latino-americanos para atender às necessidades das populações mais vulneráveis.
Boa parte dos assentamentos urbanos precários se situa nas periferias das grandes cidades, levando também a sérios problemas relacionados ao transporte e à mobilidade urbana – muitas pessoas percorrem grandes distâncias para se deslocar de casa até o trabalho (e vice-versa), e os meios de transporte públicos costumam operar muito acima da capacidade.
Nesse contexto, o desenvolvimento de projetos inovadores de melhoria e recuperação urbana, inclusive com o uso de tecnologias sustentáveis, se destaca como alternativa para ajudar a solucionar alguns desses problemas.


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