quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

A INTENSIFICAÇÃO DAS MIGRAÇÕES

Os deslocamentos populacionais vêm se tornando mais intensos nas últimas décadas, sobretudo os de países do continente africano, do Oriente Médio e do Leste Europeu em direção à Europa Ocidental. No entanto, o fenômeno da migração é tão antigo quanto a humanidade, que sempre se deslocou para novos territórios. 
Embora não existam dúvidas de que cada vez mais pessoas têm migrado nas últimas décadas, os fenômenos migratórios e a presença de migrantes entre as populações nativas também foram marcantes em outras épocas e contextos.
Entre o século XIX e o início do século XX, período em que as nações europeias desenvolveram uma nova fase do expansionismo colonial denominada Imperia lismo, predominou a migração de europeus para os outros continentes. Atualmente, vem ocorrendo o inverso, pois povos de todos os continentes migram em direção à Europa e também em direção à América do Norte.
Esses deslocamentos têm causas diversas. As pessoas que fogem de conflitos armados ou de perseguições por motivos de origem étnica, religião, nacionalidade, opinião política ou participação em grupos sociais e necessitam de asilo em outro país são reconhecidas internacionalmente como refugiadas. De acordo com o direito internacional, não devem ser expulsas ou reenviadas ao país de origem enquanto estiverem em perigo. Já aquelas pessoas que deixam seu país de origem em busca de melhores condições de vida são chamadas de migrantes. As migrações quase sempre ocorrem por razões econômicas de pobreza extrema associada à fome ou em decorrência de desastres naturais. 
No Brasil, em 2020, havia mais de 26 mil pessoas vivendo oficialmente na condição de refugiadas, segundo o relatório Refúgio em números, elaborado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Fuga de cérebros 


Os fluxos populacionais em direção a países desenvolvidos não são vistos simplesmente como problemas para governantes desses países. No caso, uma recepção diferenciada é oferecida aos trabalhadores qualificados provenientes de países em desenvolvimento. 
Muitos migrantes são trabalhadores qualificados que mudam de seus países com empregos garantidos ou com plenas condições de viver no exterior. 
Esses trabalhadores especializados, oriundos de países como Índia, buscam melhores oportunidades profissionais nos países ricos, pro porcionando o fenômeno conhecido como “fuga de cérebros”, isto é, a dispersão de talentos de um país.
Embora, nos últimos anos, o surgimento de indústrias de alta tecnologia na Índia e em outros países emergentes tenham contribuído para diminuir a emi gração desses indivíduos, são conhecidos os numerosos casos de indianos – e também de pessoas de outros países – trabalhando ou especializando-se em universidades e centros de pesquisa estadunidenses ou da Europa, em áreas como a engenharia, a medicina e a informática. Os países de origem desses profissionais perdem com es ses fluxos de indivíduos, já que eles são muito importantes para seu desenvolvimento.
Existem também os trabalhadores com baixa qualificação que decidem deixar seus países de origem em busca de melhores condições de vida. Os migrantes com esse perfil costumam enfrentar muitas dificuldades. Geralmente, exercem trabalhos pouco valorizados, insalubres e mal remunerados. Também são frequentes os casos em que, por falta de documentação, veem-se obrigados a viver clandestinamente, correndo o risco de serem deportados.

Migração Sul-Sul 


Uma tendência significativa em relação aos fluxos populacionais atuais é a intensificação da chamada migração Sul-Sul. Esse tipo de migração representa uma parcela cada vez maior das migrações mundiais, sendo caracterizado pelo deslocamento de indivíduos que deixam países em desenvolvimento para buscar oportunidades de trabalho e renda em países emergentes, com grau de desen volvimento e industrialização mais elevados. 
Um exemplo desses fluxos é o deslocamento de indivíduos de países da África Subsaariana para a África do Sul, além das migrações da África, da América Central e, principalmente, da América do Sul em direção ao Brasil no século XXI. Esses fluxos migratórios são oriundos de países no qual se verificam problemas como pobreza elevada, desemprego, crises políticas e econômicas. Destacam-se nesse sentido, por exemplo, bolivianos, haitianos e, mais recentemente, venezuelanos. 
Os imigrantes no Brasil, principalmente africanos, haitianos e bolivianos (o grupo mais numeroso), formam comunidades expressivas nas grandes cidades, como São Paulo, onde buscam se adaptar à realidade e cultura brasileira, ao mesmo tempo que procuram manter suas tradições e expressões culturais, que passam a ser parte da paisagem dessas cidades. 
No entanto, grupos desses imigrantes vêm sofrendo com a discriminação de parte da população. Além disso, muitos acabam se deparando com uma condição de vida muito diferente da que esperavam.
Essa decepção é uma realidade, principalmente, entre os imigrantes que vivem no país ilegalmente, ocupando subempregos e inserindo-se na economia informal. 
Em alguns casos, diante das dificuldades, sem o devido auxílio para sua integra ção e em situação financeira vulnerável, indivíduos imigrantes também terminam por ser vítimas do trabalho análogo à escravidão. 
Os estrangeiros, sobretudo haitianos, bolivianos e venezuelanos, estão entre as principais vítimas dessa prática nas grandes metrópoles brasileiras. Eles realizam tarefas diversas dentro de longas jornadas de trabalho, sem remuneração, em condições precárias e sob risco de acidentes. Em troca, ganham alimentação e acomodação, dividindo cômodos pequenos com outras pessoas na mesma situação. 
Em alguns casos, a viagem dos imigrantes – desde seu país de origem até o local de trabalho – é financiada pelo próprio empregador, de forma que esses indivíduos acabam contraindo altas dívidas, cujo pagamento pode levar meses ou anos. Durante esse período, eles ficam impossibilitados de retornar ao seu país de origem, de procurar outra atividade e até mesmo de deixar o local de trabalho. 
Em razão da experiência em seu país no ramo têxtil, por exemplo, os imigrantes bolivianos são atraídos principalmente pelo trabalho em fábricas de roupas, que funcionam em casarões antigos na parte central da cidade de São Paulo. Esses locais, em geral, também servem de moradia a esses imigrantes, os quais se instalam em situações degradantes. Diversos casos de oficinas clandestinas de confecções, em que o trabalho análogo à escravidão é uma realidade, já foram denunciados e interditados pelos órgãos públicos brasileiros.

Dificuldades que enfrentam os migrantes


O crescimento das migrações internacionais nas últimas décadas tem criado diversos focos de tensão, pois há vezes em que governos e cidadãos não aceitam de forma pacífica a chegada de estrangeiros em seus países. Essa postura faz com que os Estados endureçam as políticas migratórias e criem regras cada vez mais rígidas para autorizar o ingresso de migrantes em seus territórios. 
Um efeito preocupante do crescimento das migrações é a intensificação de discursos xenófobos e autoritários. Em muitos países, políticos de extrema direita ganharam poder por causa desses discursos. Esses políticos afirmam que os migrantes são responsáveis pelo agravamento da crise econômica, pelo crescimento do desemprego e, até mesmo, pela disseminação de doenças.
Esse tipo de discurso não condiz com a realidade, já que os problemas econômicos são causados principalmente pelas políticas sociais e econômicas adotadas pelos governos. Além disso, como parte da população economicamente ativa, os migrantes contribuem com seu trabalho para o desenvolvimento nacional e pagam impostos como qualquer cidadão.

Refugiados


Outro tipo de migrante é o refugiado, isto é, aquele que deixa seu local de origem devido a guerras, a perseguições, a catástrofes ambientais ou outras ameaças que colocam sua vida em risco. A principal diferença entre um migrante e um refugiado é que o migrante opta por deixar seu país e viver em outro (migração voluntária), enquanto o refugiado desloca-se porque se vê obrigado a fazê-lo (migração forçada).
As crises econômicas provocadas pelo modelo neoliberal, os eventos extremos provocados pelo aquecimento global e os conflitos sociais e militares em diversas regiões do mundo têm levado milhões de pessoas a abandonarem seus lares em busca de refúgio em outros países. 
De acordo com dados da Acnur, em 2021, havia cerca de 89,3 milhões de pessoas vivendo fora de seus países após serem obrigadas a se deslocar em função de violações dos direitos humanos. Desse grupo, apenas 25,9 milhões de pessoas havia obtido status de refugiado de acordo com a legislação internacional. 
Segundo dados da Agência das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR, na sigla em inglês) cerca de 100 milhões de pessoas encontravam-se em situação de deslocamento forçado no mundo em maio de 2022. A maior parte delas vivia em países vizinhos de suas nações. 
A condição dos refugiados figura como um verdadeiro desafio ao ideal da solidariedade internacional, defendido pela ONU e pelos mais diversos governos, movimentos sociais e outras entidades civis ou políticas. 
Ainda em 2021, cerca de 69% dos refugiados no mundo eram provenientes de apenas cinco países: Síria, Venezuela, Afeganistão, Sudão do Sul e Mianmar, a maioria deles afetados por guerras civis. Recentemente, refugiados da Ucrânia somam mais de 5 milhões de pessoas abrigadas, principalmente em países vizinhos, em razão da guerra com a Rússia, iniciada em 2022.
A maior parte dos refugiados vive atualmente em países vizinhos, contudo exis tem refugiados em países da União Europeia e também no Brasil. 
Nos últimos anos, o governo brasileiro concedeu status de refugiado a milhares de indivíduos de diferentes países, como Angola, Síria, Ucrânia e Venezuela. 
De acordo com o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), no final de 2021, existiam mais de 50 mil refugiados legalmente reconhecidos vivendo no Brasil, a maioria vivendo em grandes cidades do país.
Embora os países sejam obrigados a conceder refúgio para indivíduos que tenham suas alegações com provadas, as solicitações de refúgio em alguns casos são negadas ou demoram muito tempo para serem processadas.
Refugiados e migrantes não têm as mesmas proteções legais quando estão em um país estrangeiro. O governo de cada Estado estabelece a legislação e os procedimentos que tratam dos imigrantes, enquanto as normas e a proteção dos refugiados são definidas por acordos internacionais. 
Muitas vezes, as dificuldades enfrentadas pelos migrantes ou refugiados agravam-se na chegada ao país de destino. É muito comum que um migrante atue como mão de obra desqualificada e tenha baixa remuneração no país de destino, vivendo em grande medida em regime de semiescravidão e na clandestinidade.
Soma-se a esse cenário o drama dos campos de refugiados, locais destinados a abrigar refugiados para que essas pessoas possam aguardar, em segurança, a resolução de sua situação. 

Globalização e xenofobia 


Atualmente, a discriminação e o preconceito contra imigrantes, sobretudo aqueles vindos de países pobres, são aspectos marcantes em países desenvolvidos e até mesmo em alguns países emergentes. Tal reação é provocada pelo sentimento conhecido como xenofobia, caracterizado pela aversão à pessoa estrangeira, à sua crença e ao seu modo de vida. 
Embora a xenofobia seja um sentimento compartilhado apenas por parte da população desses países, em alguns deles são praticadas políticas migratórias rígidas contra a entrada de imigrantes. 
A xenofobia também está associada a um pensamento equivocado de que os imigrantes são concorrentes em um mercado de trabalho cada vez mais saturado nos países desenvolvidos, e que ameaçam a mão de obra local, aumentando o desemprego e pressionando os salários para níveis mais baixos. 
Em alguns países da Europa, assim como nos Estados Unidos e na África do Sul, a quantidade crescente de agressões e hostilidades de grupos locais contra famílias de imigrantes é um fator preocupante.
Já em países que recebem refugiados são frequentes as atitudes xenofóbicas, ou seja, de aversão ao estrangeiro e de medo ou antipatia por aqueles que vêm de fora, que não pertencem originariamente a determinado local, ou, ainda, em relação àqueles que professam uma cultura diferente.
Na Hungria, em 2015, por exemplo, o primeiro-ministro Viktor Orbán declarou que os refugiados, especialmente os muçulmanos, eram uma ameaça às origens cristãs da Europa. No mesmo ano, o Parlamento húngaro aprovou a construção de um muro na fronteira com a Sérvia, para impedir a entrada ilegal de refugiados ou imigrantes. Nesse período, em vários países europeus, sobretudo na França, na Grécia e na Alemanha, aumentavam os casos de agressão contra refugiados. 
Outra dificuldade que enfrentam imigrantes e refugiados relaciona-se à chegada ao destino pretendido. Eventualmente, os governos de países europeus, para onde tem havido enorme afluxo de imigrantes do Oriente Médio e de regiões da África, recusam-se a recebê-los. 

Migrações clandestinas e o tráfico internacional de pessoas 


A migração constitui um tema importante para os governos dos países, que possuem legislações específicas com regras para autorizar ou não a entrada e a permanência de indivíduos estrangeiros em seu território. 
Atualmente, o que se tem notado com grande frequência é uma maior rigidez nas legislações dos países desenvolvidos em relação à imigração, objetivando conter, sobretudo, fluxos de imigrantes clandestinos, que não possuem os requi sitos e a documentação necessária para entrar e permanecer no país de destino. Os fluxos migratórios clandestinos ocorrem, principalmente, em direção aos países desenvolvidos. 
Nos Estados Unidos, por exemplo, em 2019, havia cerca de 10,3 milhões de imigrantes clandestinos vivendo no país, o que correspondia a cerca de 23% de todos os imigrantes vivendo no país. Na União Europeia, em 2021, eram cerca de 681 mil imigrantes clandestinos. 
Na intenção de entrar clandestinamente no território que escolhem como des tino, milhões de pessoas se submetem, anualmente, às mais variadas formas e rotas de transporte, em condições precárias e de risco. 
O tráfico internacional de pessoas, ou contrabando de imigrantes, é um grave problema relacionado a essa questão, envolvendo a atuação de redes internacionais do crime organizado e diversas violações de direitos humanos. 

A rota do Mediterrâneo 


Africanos de diferentes países deixam sua terra natal em busca de melhores condições de vida em países europeus. No entanto, sem autorização para viver na Europa de maneira regular, uma grande quantidade de pessoas, inclusive crianças, procuram por meios e caminhos clandestinos para conseguir chegar ao continente. 
Entre as rotas utilizadas, destacam-se aquelas que atravessam o Mar Mediterrâneo, feitas geralmente em embarcações precárias que transportam passageiros além do limite máximo permitido. 
Durante a travessia, muitas embarcações naufragam, causando diversas mortes. Um dos casos mais graves ocorreu em 2015 próximo à ilha italiana de Lampedusa, com o naufrágio de um pesqueiro que transportava cerca de 700 imigrantes ilegais.

A rota do México 


Além dos africanos de diferentes países que buscam atravessar o Mar Mediterrâneo em busca de adentrar clandes tinamente em países da União Europeia, são bastante conhe cidos os fluxos de imigrantes de países da América Latina que buscam entrar clandestinamente nos Estados Unidos pelo México.
Mais recentemente, imigrantes oriundos da América Central, sobretudo de Costa Rica, Honduras, El Salvador e Guatemala, têm chegado ao México para, em longas e arriscadas jornadas, tentar a travessia pela ampla área desértica até a Califórnia, em particular a cidade de Los Angeles, onde imigrantes hispânicos costumam permanecer. 
Esses imigrantes são atraídos pela oportunidade de uma vida melhor e por pro messas feitas pelos “coiotes”, que atuam na zona de fronteira entre o México e os Estados Unidos. Os coiotes são indivíduos especializados em tráfico humano, os quais cobram para transportar pessoas clandestinamente, garantindo aos imigrantes que não serão pegos pela Polícia de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE). 
Muitas vezes, os traficantes conduzem os imigrantes até determinados lugares e depois os abandonam, principalmente em caso de cansaço ou ferimento. Quan do os imigrantes ilegais são encontrados pela polícia de imigração, eles são detidos e, posteriormente, encaminhados ao país de origem.
Embora os migrantes clandestinos em busca de trabalho sejam as maiores vítimas do tráfico humano internacional, alguns grupos tendem a estar mais vulneráveis: as mulheres e, em menor medida, as crianças. 
Há muitos casos de aliciamento por meio de promessas de trabalho que jamais são cumpridas, levando essas pessoas a ingressar na prostituição, no trabalho análogo à escravidão ou no tráfico de drogas. O comércio ilegal de crianças para adoção internacional também constitui um significativo exemplo de tráfico humano. 
Os imigrantes clandestinos que conseguem escapar dessas redes, além de não ter acesso aos mesmos direitos dos cidadãos locais ou dos imigrantes legalizados, não têm direito a buscar empregos formais. Portanto, acabam se inserindo no comércio informal ou ocupando subempregos, sujeitos à discriminação e sob o constante risco de deportação. 
Por esses motivos, muitos imigrantes clandestinos de mesma origem costumam estabelecer redes de solidariedade e amizade nos países onde se encontram, a fim de prestar auxílio mútuo, principalmente aos que acabam de chegar.

Os refugiados ambientais 


Também têm sido cada vez mais numerosos os casos de refugiados ambientais, grupos humanos deslocados em razão de desastres naturais ou desequilíbrios ambientais, como enchentes, inundações causadas por grandes obras, acidentes com componentes nucleares, terremotos, áreas em processo de desertificação, entre outros. De acordo com estimativas da ONU, existem atualmente cerca de 20 milhões de refugiados ambientais. 

Desigualdades sociais na América Latina

As práticas econômicas neoliberais disseminaram-se rapidamente pela América Latina. Entre as décadas de 1980 e de 1990, muitos países da região adotaram medidas para promover a abertura da economia, diminuir o papel do Estado na regulamentação das atividades produtivas e flexibilizar as relações trabalhistas. Os defensores dessas medidas afirmavam que isso promoveria a modernização das economias latinas. Porém, as práticas neoliberais ampliaram as desigualdades e acabaram intensificando os problemas sociais da América Latina. Serviços como saúde, educação e moradia tiveram seus recursos reduzidos. A pobreza aumentou: até os anos 1990, mais de 200 milhões de pessoas viviam em condições de pobreza e de pobreza extrema. Na década de 1970, esse número era de 130 milhões. 
No final da década de 1990 e no início da década seguinte, diversos países da região elegeram governantes que defendiam mudanças de rumo na economia, rompendo com certas medidas neoliberais e promovendo ações para a redução das desigualdades sociais. Entre elas estavam a distribuição de renda, a redução da pobreza e da fome, a criação de empregos, o aumento de mercado consumidor e a valorização dos salários dos trabalhadores. Essas ações apresentaram bons resultados iniciais, mas a crise econômica iniciada em 2007 provocou o enfraquecimento de muitos desses governantes. Nos anos seguintes, a crise se intensificou. Os efeitos sociais das políticas adotadas perderam força e os problemas econômicos e sociais voltaram a crescer. Uma onda de conservadorismo se espalhou na década de 2010 pelo continente, e em muitos países, como o Brasil, governos chegaram ao poder defendendo o retorno de preceitos inspirados no neoliberalismo. No entanto, a grave crise desencadeada no cenário da pandemia de covid-19 mostrou, mais uma vez, os limites das políticas neoliberais, já que a ação do Estado, inclusive na regulação de relações econômicas, se mostrou fundamental para a superação das crises política, social e sanitária.

O NEOLIBERALISMO ENTRA EM CENA

Com o fim da Guerra Fria, entrou em crise o modelo conhecido como Estado de bem-estar social, no qual o Estado deve garantir mecanismos e leis de proteção aos trabalhadores. Esse modelo criou sistemas de aposentadoria e o salário-desemprego, além de realizar investimentos em áreas sociais, como a saúde e a educação. Adotado inicialmente na União Soviética, o Estado de bem-estar social foi também um fenômeno de grande força no pós-guerra na Europa Ocidental, em alguns países capitalistas, com o objetivo de conter o avanço da influência da União Soviética.
As mudanças econômicas a que nos referimos até aqui não ocorreram de repente. Em grande parte, tiveram início na década de 1970. Foi nessa época que alguns políticos e economistas passaram a defender um conjunto de princípios econômicos conhecido como neoliberalismo. 
A partir dos anos 1990, o Estado de bem-estar social foi considerado ultrapassado por muitos políticos ocidentais que adotaram ideias neoliberais. Segundo o neoliberalismo, o Estado deve regular apenas a justiça e a segurança, deixando que o mercado atue livremente na economia, de forma que esta seja regulada pelas leis da oferta e da procura.
Uma das características dos primeiros governos neoliberais foi a redução das medidas de proteção criadas durante a vigência do Estado de bem-estar social. Para os neoliberais, o Estado deve intervir o mínimo possível na economia e restringir os gastos públicos. As empresas estatais (como as que cuidam de serviços de saneamento, telefonia e abastecimento de água) devem ser privatizadas, ou seja, vendidas à iniciativa privada. Os neoliberais afirmam que o Estado deve afrouxar as regras dos sistemas financeiros para facilitar a atuação das empresas e eliminar as barreiras alfandegárias para intensificar o comércio mundial. Essas ideias se concretizaram após a eleição de Margaret Thatcher para primeira-ministra da Inglaterra, em 1979, e de Ronald Reagan para presidente dos Estados Unidos, em 1980. Esses dois políticos e suas equipes iniciaram um amplo processo de retirada de investimentos públicos da economia e abertura para a iniciativa privada – seguido por muitas nações do mundo, inclusive o Brasil, a partir da década de 1990.
Na maior parte do mundo, a implantação de políticas neoliberais envolveu a privatização de empresas estatais, o fim do controle de preços e dos subsídios a determinados setores da economia, a redução do número de funcionários públicos, a limitação dos gastos com a previdência social, a diminuição dos encargos trabalhistas e a abertura da economia a investimentos externos. A aplicação dessa política gerou reações da sociedade civil organizada que se viu prejudicada com essas medidas. No contexto da globalização, tal política levou os países mais ricos a pressionar os países mais pobres para que extinguissem as tarifas alfandegárias protecionistas e liberassem a entrada de produtos e de investimentos estrangeiros.

A crise do capitalismo

A promessa de que as políticas neoliberais resolveriam os problemas econômicos, reduzindo a pobreza e acelerando o desenvolvimento global, não se efetivou na prática. Muitos estudos revelam que esse tipo de política deixou a população mais pobre sem a assistência do Estado, enquanto as empresas privadas e os grupos mais ricos da sociedade saíram favorecidos. Em 2016, um artigo publicado por três economistas do Fundo Monetário Internacional (FMI), um dos maiores defensores dos preceitos neoliberais, apontou que algumas políticas neoliberais acabaram por aumentar as desigualdades, o que coloca em risco uma expansão econômica mais duradoura. Observe os dados do infográfico a seguir, que evidenciam essas desigualdades.

Tais diferenças se acentuaram ainda mais com a crise econômica de proporções globais iniciada em 2007. Uma de suas causas foi justamente o afrouxamento do controle exercido pelo Estado sobre os sistemas financeiros (uma das propostas dos neoliberais). Bancos poderosos e grandes seguradoras desenvolveram formas de especulação antes proibidas. Quando esse sistema veio abaixo, empresas de financiamento, bancos e seguradoras de vários lugares do mundo decretaram falência. Bolsas de valores do mundo inteiro despencaram, e teve início uma crise mundial. A fome e o desemprego aumentaram nos países que aplicaram políticas neoliberais, inclusive nos Estados Unidos. Diante desse cenário, e contra os princípios do neoliberalismo, governos de diversos países injetaram mais de 4 trilhões de dólares na economia a fim de impedir o agravamento da crise.

Geopolítica e os organismos internacionais

Após o fim da Segunda Guerra, ganhou força a ideia de se criar organismos internacionais capazes de mediar as relações entre os países e, assim, garantir a manutenção da paz mundial. Foi nesse cenário que, em 1945, 51 nações de todos os continentes fundaram a Organização das Nações Unidas (ONU). 
Com sede em Nova York (Estados Unidos), a ONU é, atualmente, a maior e a mais importante organização governamental internacional. Hoje, 193 países fazem parte da ONU. As organizações internacionais se multiplicaram e se fortaleceram nas últimas décadas, ao mesmo tempo que o processo de globalização e a integração econômica global se intensificaram. 
Nesse contexto, tais organizações assumiram a missão de promover o ordenamento das relações internacionais, elaborar acordos entre as nações e regular seus cumprimentos. Buscam, assim, garantir a viabilização dos interesses coletivos e promover um entendimento em torno de demandas globais.
A manutenção da paz, a defesa da igualdade, dos direitos e das liberdades do ser humano e a promoção do desenvolvimento econômico, social e cultural são seus objetivos principais.

Objetivos de Desenvolvimento do Milênio 


Na tentativa de se fortalecer como organização coordenadora de ações mun diais, a ONU organizou, no ano 2000, a Cúpula do Milênio, na qual os países-membros se comprometeram a implantar políticas para atingir oito grandes objetivos de desenvolvimento até 2015.
Durante os 15 anos em que os oito objetivos do milênio nortearam as ações dos governos e das organizações internacionais, muitos avanços ocorreram. A pobreza diminuiu, mais crianças passaram a frequentar a escola e as taxas de mortalidade infantil caíram. Porém, ainda é preciso realizar esforços para atingir esses objetivos de forma satisfatória. 
Em 2015, houve outra reunião da Cúpula de Desenvolvimento Sustentável, em que os países-membros da ONU e a sociedade civil redefiniram uma agenda de desenvolvimento sustentável, que deverá ser atingida até 2030, composta de 17 objetivos.

Agências da ONU 


A ONU é composta de agências especializadas, programas e fundos que desenvolvem ações em diversas áreas, como saúde, educação e defesa dos direitos humanos. 
Atualmente, além da ONU, existem diversas organizações internacionais, entre elas a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e a Organização Mundial da Saúde (OMS). Conheça algumas dessas instituições.

Organização Mundial da Saúde (OMS) 


Fundada em 1948, com sede em Genebra (Suíça), a OMS atua em 194 países, fornecendo apoio técnico e assistência na prevenção e no tratamento de doenças, como programas de vacinação em massa e fornecimento de medicamentos.
No contexto da pandemia da covid-19, a OMS assumiu um papel de destaque, atuando pela integração das políticas internacionais de combate à pandemia, pela regulamentação dos protocolos adotados pelos países e pela ampla vacinação em todo o mundo. Também esforçou-se em conter a disseminação de fake news e de informações imprecisas que pudessem comprometer a prevenção contra a doença.

Banco Mundial 


Fundado em 1944, o Banco Mundial conta com 187 países-membros. Com sede em Washington (Estados Unidos), a instituição atende somente países em desenvolvimento, for necendo-lhes empréstimos e experiência técnica para projetos como construção de escolas, hospitais, estradas, hidrelétricas etc.

Organização Mundial do Comércio (OMC)


Nesse novo contexto de maior integração financeira e comercial entre os países, a Organização Mundial do Comércio (OMC) passou a ter papel relevante na regulamentação das novas regras econômicas mundiais. Ela estabelece as normas para o comércio internacional dos 164 países (no início de 2022) que a integram. 
Na OMC, cada país tem direito a um voto e nenhum dos membros tem poder de veto. Em dezembro de 2011, a 8ª Conferência Ministerial da OMC havia aprovado o protocolo de adesão da Rússia, única grande economia mundial que não pertencia à organização. A adesão definitiva ocorreu com a aprovação oficial do Parlamento Russo, em 2012.

Fundo Monetário Internacional (FMI) 


Com sede em Washington (Estados Unidos), o FMI, criado em 1944, tem como principal objetivo a estabilidade do sistema financeiro internacional, por meio de cooperação entre os 188 países-membros. O Fundo fornece empréstimos e exige políticas de ajustes econômicos que, muitas vezes, prejudicam o desen volvimento social dos tomadores.

Organização das Nações Unidas ara Agricultura e Alimentação (FAO) 


Criada em 1945, tem sede em Roma (Itália) e atua em 194 países. Seu objetivo é a promoção do desenvolvimento agrícola, o aumento da produção de alimentos e a erradicação da fome, da subnutrição e da carência de alimentos.

Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) 


A Unesco, sediada em Paris (França), foi criada em 1945. É constituída por 193 países que buscam promover o desen volvimento nas áreas de educação; ciências humanas, sociais e naturais; informação; cultura e comunicação.

Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) 


O Unicef, sediado em Nova York (Estados Unidos), foi criado em 1946. O Fundo desenvolve políticas e campanhas de vacinação, prevenção da aids, educação, combate ao trabalho infantil e à discriminação de crianças e adolescentes, entre outras ações.

Programa das Nações Unidas para o meio ambiente (Pnuma) 


O Pnuma foi criado em 1972, como resultado da primeira conferência da ONU sobre meio ambiente, realizada no mesmo ano, em Estocolmo (Suécia). Com sede em Nairóbi (Quênia), tem como objetivos promo ver a conservação e o uso racional dos recursos naturais, alertar sobre problemas e ameaças ao meio ambiente, entre outros. Atua em parceria com os setores governamental, não governa mental, acadêmico e privado. 
As conferências mundiais sobre meio ambiente realizadas depois da criação do Pnuma têm por objetivo promover debates e buscar soluções para os problemas ambientais globais. Analise a linha do tempo com as principais conferências e seus desdobramentos.

Fórum Social Mundial (FSM) 


O FSM é um encontro aberto realizado quase todos os anos, do qual participam movimentos sociais, ONGs e diversas pessoas do mundo, com o objetivo de debater problemas sociais e políticos, formular propostas e trocar experiências. 
O primeiro FSM aconteceu em Porto Alegre em 2001 e foi concebido em oposição ao Fórum Econômico Mundial, organização internacional que reúne anualmente na cidade de Davos (Suíça), apenas por meio de convite, líderes políticos, empresários, especialistas de diversas áreas, jornalistas, religiosos, ONGs, entre outros, para discutir e apontar soluções para questões mundiais que envolvem economia, educação, saúde, ambiente, pobreza, conflitos internacionais etc. Desde então, encontros nacionais, regionais e temáticos passaram a ocorrer a fim de discu tir temas específicos, como saúde e migrações.

Os blocos econômicos 


Outra característica da segunda metade do século XX foi a formação de blocos econômicos. O objetivo era assegurar melhor capacidade de negociação de cada nação e eliminar barreiras alfandegárias entre os membros de cada bloco. Dessa forma, os países de um bloco poderiam comerciar entre si sem cobrar impostos sobre as importações.
O mais antigo desses blocos começou a ser criado em 1957, com a formação da Comunidade Econômica Europeia (também chamada de Mercado Comum Europeu). Em 1992, depois de várias mudanças e ampliações, esse bloco passou a se chamar União Europeia (UE). Atualmente, a UE reúne 27 Estados-membros, principalmente na Europa Ocidental. Dezenove deles adotam a mesma moeda, o euro.
Outros blocos se formaram nos anos 1990, entre eles o Acordo de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês), formado por Estados Unidos, Canadá e México; e o Mercado Comum do Sul (Mercosul), que reúne Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. Em 2021, entrou em vigor um novo bloco formado por 54 dos 55 países africanos, a Zona de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA, na sigla em inglês).
Nos últimos anos, os blocos econômicos começaram a ser avaliados de maneira negativa por grupos nacionalistas. Movimentos de extrema direita afirmam que esses blocos são prejudiciais para as economias nacionais, e defendem que os países endureçam as barreiras alfandegárias e abandonem os acordos de livre circulação. Além disso, apoiam medidas anti-imigração, estimulando, inclusive, a expulsão de imigrantes de certos países. Um dos principais desdobramentos desse movimento contrário aos blocos econômicos deu-se em 2016, quando 52% dos eleitores britânicos decidiram que o Reino Unido deixasse a União Europeia. A saída, votada em plebiscito, se concretizou em 2020. Esse movimento ficou conhecido como Brexit, termo em inglês que combina as palavras Britain, que significa “Bretanha”, e exit, que significa “saída”.

O consumismo: o planeta ameaçado

Com os avanços tecnológicos das últimas décadas, foi possível produzir mais, em menor tempo e em diversos lugares. As multinacionais se espalharam pelo mundo e foram responsáveis por uma característica do espaço urbano atual: o consumo de produtos industrializados. 
Assim, na atual fase do capitalismo, os hábitos de consumo e o acesso aos produtos e serviços sofreram grandes trans formações, influenciando a cultura de diversos povos, de maneira global. A essa sociedade industrial que valoriza o consumo de forma excessiva, damos o nome sociedade de consumo.
O consumismo se caracteriza pela compra de artigos que satisfazem às necessidades secundárias, ou seja, que não são essenciais à subsistência. 
Além do estímulo das vitrines, das propagandas e dos crediários, há o apelo constante à substituição de produtos com pouco tempo de uso. A todo instante, o mercado recebe produtos mais modernos e avançados tecnologicamente, tornando ultrapassados os anteriores. Outros são fabricados para ter vida útil cada vez menor e, com isso, ser rapidamente substituídos.
Os indivíduos também são estimulados a adquirir esses produtos pelas facilidades no pagamento, ainda que muitas delas sejam enganosas. O resultado é o consumo desenfreado, muitas vezes sem necessidade, de mercadorias, bens e serviços. É o que chamamos consumismo.
O ato de consumir para suprir as necessidades básicas sempre esteve presente nas sociedades humanas. O consumo é vital para a subsistência, mas o padrão de consumo mudou muito nas sociedades ao longo da história. Na maioria delas, existiram grupos com maior poder aquisitivo em razão de sua posição política, social ou econômica. Com a Revolução Industrial, iniciada no final do século XVIII, houve um aumento inédito na disponibilidade de produtos à venda, o que, em parte, favoreceu a capacidade de compra dos indivíduos.
No mundo globalizado, é cada vez maior o estímulo ao consumo. A ideologia dominante incentiva a substituição constante de produtos por outros mais avançados tecnologicamente. 
Adquirir produtos que acabaram de sair das fábricas ou que foram divulgados por determinado artista ou influencer tornou-se o objetivo de vida de muitas pessoas. Nessa toada, boa parte das mercadorias que as pessoas consomem se torna descartável após pouco tempo de uso. 
Além disso, nas últimas décadas, fabricam-se produtos que duram menos e há lançamento constante de modelos que tornam o anterior ultrapassado. Essas estratégias são chamadas de obsolescência programada e de obsolescência perceptiva. 
A obsolescência programada ocorre quando um fabricante projeta seu pro duto para ter uma curta vida útil. Ou seja, o produto é fabricado para que se torne obsoleto e deixe de funcionar em determinado período, levando o consu midor a adquirir um novo. 
Já no caso da obsolescência perceptiva, o fabricante lança um modelo novo, com visual mais moderno, fazendo o produto de modelo anterior parecer ultra passado, mesmo que funcione. Assim, o consumidor, para se sentir valorizado na sociedade, vai substituir o produto anterior por um mais moderno, garantindo o lucro do fabricante. O melhor exemplo desses dois casos de obsolescência na atualidade é o de aparelhos celulares. 
O desenvolvimento de uma cultura orientada para o consumo e a enorme diversidade de mercadorias, bens e serviços incentivam o hábito de consumir. Para isso, todo tipo de artifício é válido, como a apropriação cultural, o uso de celebridades e a associação de marcas e produtos a ideologias e estilos de vida.
O consumismo é o principal aspecto de uma sociedade de consumo. O estímulo ao consumo, principalmente através dos meios de comunicação, é uma forma de ampliar a produtividade e o lucro, alimentando um ciclo que possibilita o cresci mento das indústrias e outras empresas, que necessitam aumentar ainda mais sua produção, gerando mais empregos e mais consumidores.
O impacto do consumismo pode ser facilmente percebido em nossa vida cotidiana. Os estabelecimentos comerciais estão repletos de produtos expostos nas prateleiras e vitrines. São alimentos, eletrodomésticos, roupas, eletroeletrônicos, enfim, uma infinidade de itens.  
As campanhas publicitárias desempenham um importante papel para fomentar o consumismo ao retratar mercadorias, bens e serviços como indispensáveis. Elas buscam convencer os consumidores de que alguns produtos são essenciais ou que podem lhes conferir um status social melhor, por exemplo. 
Segundo alguns especialistas, o consumismo tem se revelado um problema sério e de graves consequências para as sociedades contemporâneas, especialmente aquelas de maior poder aquisitivo. Seduzidas e embaladas pelo consumismo, algumas pessoas tendem a substituir as relações afetivas (familiares e de amizade) pela compra compulsiva.
Esse tipo de comportamento está atrelado à ansiedade e à depressão, e pode levar ao endividamento.

Consumo e meio ambiente 


O nível de consumo está crescendo em muitos países do mundo, e as exigências da sociedade moderna têm aumentado o ritmo das atividades econômicas. A fim de abastecer a crescente demanda por produtos, as empresas têm ampliado sua produção e, com isso, utilizado de maneira intensa os recursos da natureza. 
O aumento da intervenção humana na natureza para intensificar a produção está gerando sérios problemas ambientais. Isso ocorre porque a exploração dos recursos naturais para a obtenção de matérias-primas tem sido feita, em geral, sem grande preocupação com a conservação do meio ambiente, como recuperação de áreas alteradas ou redução dos impactos das atividades.
Com o descarte cada vez maior e mais rápido dos produtos, o acúmulo de lixo, principalmente de produtos tecnológicos, tornou-se outro sério problema para o planeta. Muitos produtos (como o plástico) levam séculos para se desfazer na natureza e vários têm componentes que poluem o solo, levando substâncias tóxicas para as plantações e para os lençóis freáticos que abastecem as populações.
Dessa forma, o consumismo contribui para o uso cada vez mais intenso dos recursos naturais, pois au menta a demanda por matériasprimas necessárias à produção de novas mercadorias, o que acelera a degradação ambiental em todo o planeta. Esse problema é agravado pelo uso crescente de produtos descartáveis (garrafas e sacolas plásticas, latas de alu mínio, embalagens de papel etc.), que muitas vezes não passam por um processo apropriado de reciclagem e abarrotam os aterros sanitários.
Estudiosos do tema afirmam que o planeta não tem condições de continuar a fornecer os recursos necessários a esse consumo desenfreado e corre o risco de entrar em colapso. Portanto, é preciso repensar urgentemente a relação com o consumo e desenvolver formas mais sustentáveis de suprir nossas necessidades cotidianas, considerando sobretudo o manejo equilibrado dos recursos naturais.
Os resultados dessa exploração são intensos prejuízos tanto para a conserva ção do meio ambiente como para a qualidade de vida do ser humano. A degra ação ambiental está comprometendo intensamente as paisagens terrestres, além de formações vegetais naturais e os hábitats de algumas espécies animais. 
Veja a seguir alguns dos principais problemas relacionados a esse modelo de produção e consumo: 
•exploração excessiva dos recursos naturais, o que intensifica os impactos associados à sua extração e pode até mesmo levar ao seu esgotamento; 
•descarte indevido de materiais, como o plástico, que podem demorar até cen tenas de anos para se decompor naturalmente, resultando no acúmulo de resí duos no solo, nos rios e nos oceanos;
• poluição dos recursos hídricos (rios, águas subterrâneas e oceanos) pelo despejo de resíduos industriais e domésticos e pelo derramamento de óleo de navios petroleiros e plataformas de petróleo; 
• uso de combustíveis energéticos fósseis, como o petróleo, em regiões indus triais, agravando a poluição atmosférica e o efeito estufa; 
• uso indiscriminado de agrotóxicos, poluindo os solos e as águas; 
• desmatamento de florestas e outros tipos de vegetação nativa para a criação de extensas áreas urbanas e agropecuárias.
O modelo de consumo excessivo gera impactos que são sentidos globalmente, principalmente nas grandes cidades de países em desenvolvimento, onde os efei tos são ainda mais sentidos pela população, como a intensa poluição atmosférica e dos rios e as grandes quantidades de lixo descartadas de forma inadequada.

O consumo e o lixo 


A grande produção de resíduos sólidos, o que chamamos lixo, está diretamen te ligada à urbanização nas sociedades contemporâneas, ao aumento populacional e ao crescimento sem precedentes dos níveis de consumo. Praticamente tudo o que consumimos produz resíduos ou rejeitos. 
Assim, o lixo é um dos grandes problemas do mundo contemporâneo, pois os resíduos sólidos representam uma ameaça tanto para a sociedade quanto para o meio ambiente. O lixo urbano é coletado dos domicílios e na limpeza pública das ruas. Costuma-se classificá-lo, de modo geral, em resíduo úmido (composto de materiais orgâ nicos, como os restos de comida) e resíduo seco (potencialmente reciclável, como as embalagens plásticas). 
Ao serem depositados nos lixões, os resíduos causam a poluição do solo. Quando a água das chuvas entra em contato com o chorume, a contaminação pode atingir os lençóis e aquíferos subterrâneos. A presença de montanhas de lixo a céu aberto favorece a reprodução de agentes que proliferam doenças, como moscas, ratos e baratas, além do mau cheiro e da paisagem degradada.
A decomposição dos resíduos sólidos também gera gases nocivos, principal mente o metano (CH4) – que, além de tóxico, é altamente inflamável – e o dióxido de carbono (CO2) – que, com outros gases, contribui para o efeito estufa. Se o despejo de lixo em locais inapropriados gera problemas, a situação se torna ainda mais crítica quando a coleta é inexistente ou deficitária, pois os resíduos acumu lados bloqueiam as redes de drenagem urbana, provocando enchentes e uma série de problemas de saúde pública. 
Em razão dos altos níveis de consumo, a proporção de lixo produzida pelos habitantes dos países desenvolvidos, que contam com renda mais alta, é maior do que a dos países pobres. Os Estados Unidos, grande produtor mundial de resíduos, produziram em 2018 cerca de 292 milhões de toneladas de lixo. 
No entanto, em muitos países em desenvolvimento, esse problema vem aumentando em razão da concentração urbana e da crescente adoção de padrões de vida e de consumo semelhantes aos dos países ricos.
Uma cidade como São Paulo, por exemplo, com aproximadamente 12 milhões de habitantes, produz cerca de 18 mil toneladas diárias de resíduos sólidos, das quais 12 mil toneladas são lixo domiciliar, o que chega a um total de 6,5 milhões de toneladas ao ano. Se apenas parte desse lixo é descartado incorretamente, o impacto ao ambiente já é devastador.

Consumo e sustentabilidade 


Atualmente, além de órgãos governamentais, outros agentes vêm colabo rando com a divulgação de práticas de consumo consciente. Entre eles, desta ca-se o Instituto Akatu pelo Consumo Consciente, uma associação civil sem fins lucrativos, cujo objetivo é mobilizar os consumidores para a promoção da sustentabilidade e da vida no planeta. 
Criado em 2001, o Instituto Akatu trabalha em estreita colaboração com empresas e meios de comunicação, produ zindo e divulgando materiais educativos. Para consumir de forma consciente, é necessário refletir sobre a real necessidade da compra, além de planejar o momento certo de fazê-la. Também é importante ouso responsável do crédito oferecido por bancos e estabelecimentos comer ciais, a fim de evitar problemas de inadimplência. 
Ao adquirir uma mercadoria, também é importante avaliar os impactos am bientais de seu consumo e de seu descarte, assim como optar por produtos cujos fabricantes tomam o devido cuidado ambiental.

Produção e consumo desigual 


O consumo no mundo é desigual, ou seja, os maiores consumidores mundiais estão concentrados nos países mais ricos. Nos mais pobres, por sua vez, apenas a parcela da população com mais poder aquisitivo adquire bens em maior quan tidade ou a preços mais elevados. 
Em virtude das limitações de parte da população, o sistema capitalista oferece recursos, como as prestações e os financiamentos, mediante aprovação de crédito, para ampliar a capacidade de compra de alguns indivíduos. 
Em nenhum momento da história da humanidade o ser humano produziu e consumiu tanto quanto hoje. Estudos indicam que, no mundo, o percentual refe rente à produção e à venda de refrigeradores, computadores, televisores, telefo nes celulares e automóveis aumentou intensamente nas últimas cinco décadas. 
Parte significativa da renda das pessoas é destinada à compra de produtos supérfluos, ou seja, que não são imprescindíveis à sua sobrevivência. 
De modo geral, uma parte da população mundial passou a ter acesso a um conjunto de mercadorias que, até pouco tempo atrás, era privilégio das socieda des estadunidense, japonesa e dos países ricos da Europa. Isso significa que econo mias em desenvolvimento, como a China e a Índia, vêm apresentando um merca do consumidor em ascensão, uma vez que parte significativa da sua população tem ampliado seu poder aquisitivo.
No entanto, como há disparidade no consumo mundial, do mesmo modo que cresceu o número de indivíduos com maior poder aquisitivo, existem muitas pessoas que vivem abaixo da linha de pobreza, ou seja, com menos de US$ 1,90 dólar por dia, e com isso não conseguem suprir suas necessidades básicas. 
Esse nível desigual de consumo no mundo é consequência do diferente desen volvimento econômico interno nos países. A população dos Estados Unidos representa 4% da po pulação mundial. No entanto, o nível de consumo desse país é extremamente eleva do, quando comparado à média de consumo no mundo. 
Como exemplo, podemos citar a produção petrolífera: de todo o petróleo consumido no mundo, cerca de 20% é destinado ao mercado estadu nidense. Isso significa que se todos os países apresentassem o padrão de consumo de pe tróleo dos Estados Unidos, o planeta teria suas reservas es gotadas em poucas décadas.

Consumo desigual de água 


A água é de fundamental importância para a existência da vida na Terra, pois todo ser vivo necessita desse líquido. O corpo humano de um adulto, por exem plo, tem cerca de 60% de sua massa composta de água. Nós vivemos em um planeta que tem aproximadamente 73% de sua superfície coberta de água. 
Esse recurso pode ser encontrado em estado líquido, sólido ou gasoso. No entanto, a maior parte de toda a água, 97,5%, é salgada e está nos ocea nos e mares. O restante, 2,5%, corresponde à água doce, que se encontra em grande maioria nas calotas polares e geleiras, ou seja, é de difícil acesso ao ser humano. 
O volume total de água doce na superfície terrestre é fixo, não aumenta nem diminui. Isso significa que, entre outros motivos, o aumento da população e a consequente superexploração desse recurso tendem a levá-lo à escassez. 
Atualmente, em diversos países, parte da população vem sofrendo com a escassez de água, até mesmo aqueles que possuem esse recurso em abundância, como é o caso do Brasil.
Em 2021, a população mundial chegou à marca de 7,9 bilhões de pessoas. Um dos principais desafios do crescimento populacional é a falta de água. Estima-se que por volta de 2050 quase metade da população mundial estará vivendo em países com escassez hídrica. 

Produção e consumo de alimentos no mundo 


Nos últimos anos, ocorreram vários avanços e melhorias com relação à produ tividade dos alimentos, às técnicas de produção e à disponibilidade de ingredien tes e produtos vindos de todas as partes do mundo. Ainda assim, a alimentação da população mundial constitui um grave dilema e um dos maiores desafios que a humanidade terá de enfrentar no século XXI. 
De modo geral, o panorama alimentar global é preocupante, pois diversos países e regiões do mundo estão com índices alarmantes de insegurança alimentar, que resultam em fome e subnutrição. Esse cenário, em geral, não é decorrente da baixa quantidade de alimentos produzida, mas sim pela distribuição desigual e pela falta de acesso aos alimentos por parte da população. 
Entre os fatores que restringem esse acesso estão a miséria, a existência de modelos de produção que priorizam as demandas industriais e de exportação, as guerras, os impactos ambientais e as mudanças climáticas.

A globalização e a cultura

A globalização tem também transformado o campo cultural. As trocas culturais entre sociedades tão distintas vêm promovendo um processo que alguns sociólogos chamam de transculturação, isto é, quando traços culturais de uma sociedade passam a fazer parte de outra. Assim, elementos culturais de sociedades ocidentais, por exemplo, passam a ser observados em sociedades orientais, africanas ou indígenas. Porém, essas trocas culturais nem sempre acontecem de forma igual.

Os países com maior poder econômico disseminam seus valores, suas ideias e seus costumes de forma muito mais intensa e abrangente que os demais países. Pense, por exemplo, no grande poder de distribuição da indústria cinematográfica estadunidense. Um filme produzido nos estúdios de Hollywood pode ser lançado simultaneamente nos cinco continentes, alcançando um público de milhões de pessoas. O mesmo não ocorre com produções de outras nações que, muitas vezes, mal ultrapassam as fronteiras de seu país de origem.

A internet e as plataformas de streaming de música e de filmes também desempenham importante papel nesse processo, contribuindo para a disseminação de determinados produtos em detrimento de outros, impulsionando uma homogeneização cultural. E isso também pode ser observado em outros hábitos culturais, como na alimentação. Pense no caso das redes de fast-food: um sanduíche comprado em uma lanchonete tipo fast-food em Nova York será bem semelhante a outro sanduíche adquirido em Londres, Tóquio ou Salvador, por exemplo. A globalização e a homogeneização culturais, contudo, não implicam o fim das culturas locais.

A internet, um dos principais símbolos do mundo globalizado, tem sido usada por muitos povos tradicionais para a preservação e a difusão de seus valores culturais. Por isso, estudiosos afirmam que, ao mesmo tempo que vivemos um processo de homogeneização cultural, também atravessamos um processo de heterogeneização cultural, pois a humanidade nunca pôde travar contato com povos e culturas tão diversos quanto agora.

MUNDIALIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO

A mundialização se inicia com as Grandes Navegações, nos séculos XV e XVI, período de expansão comercial da Europa e da conquista de territórios na América, principalmente, o primeiro momento desse processo (chamado capitalismo comercial). Sua intensificação se dá com a Revolução Industrial, com as inovações técnicas e com o aumento da produtividade, inaugurando uma nova etapa do capitalismo, o industrial.
Um segundo momento da mundialização estrutura-se nos séculos XIX e XX, com a exploração de recursos e a aplicação de investimentos de países euro peus em muitos locais do mundo, no contexto do imperialismo, formação do capitalismo monopolista ou financeiro. Em seguida, também, intensificam-se os investimentos estadunidenses nos países da Europa, no período do pós-Segun da Guerra Mundial.
A partir dos anos 1970, uma nova etapa se estrutura: a globalização, uma vez que compreende a padronização de hábitos de consumo e a circulação de informações e de capitais de modo instantâneo e em escala global. Consumimos produtos provenientes de vários países. Também temos conhecimento sobre fatos que ocorrem em todo o mundo quase instantaneamente (em tempo real). Muitos problemas econômicos e con flitos que ocorrem em outros países podem influenciar a economia do Brasil e nosso cotidiano rapidamente. 
A economia atual é considerada globalizada porque as atividades produtivas, o consumo de mercadorias e serviços e, portanto, os fluxos ocorrem em escala global.
A globalização tem sido possível graças ao atual estágio do sistema capitalista, em que predomina a lógica das finanças. No capitalismo financeiro, a economia é dirigida, em grande medida, por instituições e entidades monetárias, assim como corporações internacionais e corretoras de investimentos, envolvendo operações de empréstimos, especulações imobiliárias e mercadológica, além da valorização e rentabilidade por meio de juros, com o objetivo de aumentar a lucratividade de empresários e acionistas.
A participação do setor bancário destaca-se, influenciando diretamente o desenvolvimento econômico de um país. Além dos bancos, as empresas transnacionais são pilares no contexto da globalização.

A interligação econômica em escala global


Com o desenvolvimento do capitalismo industrial e financeiro, houve necessidade de nova circulação de matérias-primas e mercadorias, de especialização da mão de obra e de ampliação do mercado consumidor. O crescimento das grandes empresas levou à formação de gigantescos complexos industriais – as multinacionais e transnacionais –, que se espalharam pelo mundo.
Uma das características marcantes do mundo atual é a aceleração das comunicações e dos transportes. Informações, produtos industriais e culturais (estilos de vida, músicas, filmes ou apresentações de artistas transmitidas ao vivo), e mobilizações sociais (em torno de causas como o feminismo e o antirracismo, por exemplo) chegam rapidamente a quase todos os lugares do mundo. 
Atualmente, quase todos os países estão profundamente ligados. As fronteiras que separavam as economias e as culturas dos diversos povos tornaram-se praticamente inexistentes. Esse processo é conhecido como globalização. Na economia, ele tornou possível encontrar fontes de matérias-primas mais acessíveis em qualquer lugar do mundo, transportar essas matérias-primas de um lugar para outro e fabricar produtos cada vez mais sofisticados em pouco tempo.
A partir de então, o termo globalização passou a ser usado para se referir ao crescimento da interdependência entre países, governos, empresas e povos do mundo, sugerindo uma ideia de unificação mundial. 
Para alguns pesquisadores, a globalização corresponde à etapa atual do processo de mundialização da economia, iniciado no período das Grandes Navegações (século XV) e ampliado progressivamente pelos crescentes fluxos internacionais de informações, mercadorias, pessoas, serviços e capitais.
O crescimento desses fluxos ocorreu principalmente pela evolução tecnológica dos meios de comunicação e transporte, que passam a sensação de que o mundo está cada vez menor. Esse aspecto caracteriza a chamada aldeia global, termo sugerido pelo pesquisador canadense Marshall McLuhan (1911-1980). O uso do termo vem do fato de o mundo ganhar um sentido de lugar pequeno, conhecido por todos, onde as relações entre as pessoas são mais próximas. Embora muitas vezes usados como sinônimos, globalização e mundialização são conceitos distintos, porém relacionados. 
O conceito de mundialização é empregado para se referir ao contexto da expansão e do desenvolvimento dos mercados e fluxos de capitais no mundo. As bolsas de valores, instituições onde ocorrem as transações de compra e venda de ações e títulos de empresas do mundo todo, são um símbolo desse processo.
Já a globalização refere-se à integração do espaço geográ fico mundial, pois, além dos aspectos econômicos, envolve certa padronização de costumes, com ação predominante dos meios de comunicação. Os efeitos da globalização podem ser percebidos em aspec tos diversos da sociedade, desde a homogeneização de hábitos alimentares até a velocidade da propagação de doenças conta giosas, experienciada com a recente pandemia de covid-19. Por ser um fenômeno atual, podemos dizer que a globalização ainda é um processo em construção.
Na sociedade, ele tem expandido a chamada cultura de massa. Assim, com a globalização, tornou-se possível o desenvolvimento de uma economia transnacional. A sede de uma empresa transnacional, por exemplo, pode estar em um país que oferece benefícios fiscais (como isenção de impostos), enquanto a equipe que projeta seus produtos pode localizar-se em outro país, geralmente em centros de inovação e alta tecnologia. A matéria-prima utilizada por essa empresa, por sua vez, é extraída em países economicamente pobres, onde é mais barata.
Às vezes, os componentes de um único produto são fabricados em países diferentes e, depois, reunidos para serem montados em fábricas instaladas em regiões pobres, onde os salários são mais baixos. Por fim, a venda do produto ao consumidor final pode ser feita em lugares do mundo que ofereçam margens de lucro mais atraentes para a empresa transnacional. Essa oferta muitas vezes tem abrangência global, o que faz com que consumidores de lados opostos do globo tenham acesso às mesmas mercadorias.
A globalização econômica, caracterizada pela crescente abertura econômica e comercial entre os países e pela adoção do chamado Estado mínimo (menor participação do Estado na economia), está atrelada às ideias neoliberais implementadas entre o fim da década de 1970 e o início dos anos 1980 na Inglaterra e nos Estados Unidos. Todos esses fatores, acrescidos das atribuições promovidas pela Revolu ção Técnico-Científico-Informacional, alteraram de forma mais intensa e com grande rapidez o panorama produtivo mundial.
Com a modernização dos meios de comunicação e dos sistemas de trans porte, houve também aumento crescente do comércio internacional, com o incremento de importações e exportações de produtos e mercadorias. As últimas décadas do século XX caracterizaram-se pela expansão capitalista no mundo e pela aceleração do processo de globalização da economia, o que intensificou o fluxo internacional de comércio e de capitais que se mantém até hoje.

Mundialização do capitalismo e expansão das multinacionais


A principal força da globalização são as empresas transnacionais. Elas controlam boa parte da produção mundial, são responsáveis pela maior fatia do comércio internacional e, sobretudo, pelo desenvolvimento das novas tecnologias. A capacidade financeira dessas empresas é superior aos recursos de diversos países e seus investimentos podem afetar de maneira favorável ou negativa a economia e a sociedade de diferentes regiões do mundo.
A mundialização do capitalismo e a economia globalizada levaram a uma nova distribuição espacial das indústrias e provocaram grandes mudanças na organização produtiva dos países. Isso foi possível por causa da expansão das multinacionais, empresas que têm matriz em um país e desenvolvem atividades em diversas outras nações por meio de filiais. 
A partir de meados do século XX, a fabricação de mercadorias passou a ser feita em diferentes países, de acordo com as vantagens que cada um oferecia. Isso causou uma significativa expansão de capitais, provenientes das nações mais ricas e industrializadas (como Estados Unidos, Japão e países da Europa ocidental), para as mais pobres, que ofereciam vantagens lucrativas, como mão de obra barata, oferta de matérias-primas e recursos naturais, menor carga tributária etc. 

As corporações transnacionais


Na atual fase da globalização, essas empresas também ampliaram seus mercados com a negociação de produtos em praticamente todos os países, aumentaram o número de filiais em todo o planeta e compraram muitas outras empresas, principalmente nos países em desenvolvimento, assumindo papel de comando na economia mundial. Algumas delas têm forte poder de decisão sobre aspectos das políticas econômicas dos países onde estão instaladas. 
As empresas do setor financeiro são as que apresentam maiores lucros e cresceram enormemente com a consolidação do capitalismo monopolista/financeiro.
Essas empresas estruturam redes ou cadeias globais de produção nas quais as unidades produtivas estão espalhadas por diversos países. Seus centros de pesquisa e de inovação também não estão situados em um país somente. Apro veitando a mão de obra qualificada, a concentração de cientistas e pesquisa dores e o nível de especialização de determinados setores industriais em alguns países desenvolvidos, esses centros estão estrategicamente localizados onde as pesquisas podem ser otimizadas. 
Apesar de as transnacionais estarem presentes no mundo todo, o destino de boa parte dos lucros transferidos pelas filiais, as grandes decisões sobre investimentos e os centros de pesquisas para desenvolvimento de tecnologia permanecem concentrados em suas sedes (matrizes), principalmente nos países desenvolvidos.
A interferência das grandes corporações na economia dos países também contribuiu para mudanças nos padrões de consumo e em outros hábitos da população. Atualmente, as multinacionais são responsáveis pelo vertiginoso crescimento do comércio em âmbito mundial. Algumas dessas empresas chegam a ter um faturamento maior do que o Produto Interno Bruto (PIB) de um único país. 
A globalização econômica foi decisiva para o surgimento da Nova Divisão Internacional do Trabalho (NDIT), na qual países que produziam exclusiva mente gêneros primários (commodities) passaram a receber indústrias e, consequentemente, produzir em larga escala e exportar bens manufaturados.
A partir de 1960, a NDIT possibilitou o aparecimento de uma nova categoria de países, os Novos Países Industrializados, que receberam investimentos estrangeiros para promover a industrialização. Brasil, México, Coreia do Sul e Singapura são alguns exemplos.
Novas potências econômicas e industriais emergiram no século XXI e suas economias têm se desenvolvido em um ritmo acelerado e constante, como resultado da internacionalização de suas empresas e do aporte de capital. A China, por exemplo, abriu sua economia para os moldes capitalistas; outros países emergentes, como a Índia, o Brasil e a África do Sul também se destacam nesse cenário. 
A China é considerada o “dragão industrial” da atualidade e tem feito gran des investimentos em países da África. Além de dispenderem recursos no setor de infraestrutura, os chineses dedicam-se à extração de minérios e buscam fon tes que satisfaçam sua demanda por petróleo. Há empresas chinesas instaladas na Ásia e na Europa; as indianas se fixaram na Europa e nos Estados Unidos; e as brasileiras têm expandido seus negócios pela América Latina e pela África.

Globalização e desigualdades 


Embora caminhe paralelamente à expansão do mercado mundial, a globalização afeta o mundo de modo desigual. Algumas regiões estão muito mais integradas do que outras a esse processo, o que acentua as diferenças entre as economias dos países. Com isso, intensificaram-se as tensões entre os interesses dos países desenvolvidos e os chamados “emergentes”. Muitos países de economia primária que se industrializaram nas últimas décadas ainda apresentam diferenças em relação às nações mais ricas. 
Nos países menos desenvolvidos, com a escala globalizada de produção, apenas uma minoria da população é privilegiada, enquanto a maior parte não usufrui dos bens e das riquezas produzidos. Embora a globalização tenha integrado o mundo e encurtado distâncias, criando a denominada “aldeia global”, o que fez as pessoas se aproximarem cada vez mais, os benefícios não chegam a todos os indivíduos. Apenas uma pequena parte da população tem acesso a tudo o que a internet oferece. 
Para muitos estudiosos, a globalização e o desenvolvimento tecnológico não estão atendendo às aspirações das pessoas por uma vida melhor, sobre tudo no campo profissional. Atribui-se à automação nas empresas a causa desse cenário, cujos efeitos já são sentidos em muitas áreas industriais e de serviços, nas quais as máquinas substituem o trabalho humano.

A regionalização do espaço mundial

Vivemos em um mundo no qual vêm ocorrendo grandes mudanças em ritmo cada vez mais intenso, mas que apresenta fortes desigualdades: países co...