Os governos que se estruturaram após os processos de independência foram, de modo geral, marcados pelo autoritarismo e pela corrupção. Além disso, as disputas pelo poder entre nações rivais, a carência de recursos financeiros e a economia fortemente voltada para a exportação, aliadas aos interesses econômicos e político-militares das grandes potências (incluindo Estados Unidos e ex-União Soviética no pós-Segunda Guerra Mundial), entre outros fatores, dificultaram reformas na organização política e socioeconômica da maioria dos países africanos.
Esse quadro, associado aos longos períodos de seca e à pressão demográfica sobre os recursos naturais, tem ocasionado situações de fome crônica e disseminação de doenças em vários países da África. Além disso, a utilização de muitas terras férteis do continente para a produção de gêneros de exportação impactou a produção de alimentos. Entre 1960 e 2010, enquanto a produção de gêneros alimentícios no mundo cresceu 150%, no continente africano caiu 10%.
Novos paradigmas
Desde a segunda metade do século XX, muitos países africanos buscaram
sua independência em relação às potências coloniais da Europa. Com o fim da
Guerra Fria, a África integrou-se à Nova Ordem Mundial como uma espécie de
nova fronteira para os negócios internacionais.
Após violento processo marcado por guerras civis e conflitos entre grupos
étnicos locais, em que a antiga URSS e os EUA tomaram partido em função
de seus interesses, governos dos países africanos foram se estabelecendo, ora
eleitos, ora instituídos por golpes de Estado, e abriram-se para a entrada de
investimentos internacionais.
No contexto da economia globalizada – caracterizada por intensos fluxos financeiros, desenvolvimento de tecnologia avançada e busca de mão de obra qualificada e mercados consumidores para produtos de alta tecnologia –, a maioria dos países africanos, sobretudo os subsaarianos (que se situam ao sul do deserto do Saara), tem o desafio de melhorar e ampliar a infraestrutura energética, de telecomunicações e de transportes, além de qualificar mão de obra a fim de atrair investimentos. A participação do continente africano no PIB global é de apenas 2,7%.
A maioria dos países subsaarianos dispõe basicamente de matérias-primas minerais e agrícolas, cujos preços apresentaram alta na primeira década do século XXI, porém sofreram redução na demanda e nos valores na segunda década deste século. A alta de preços alavancou o crescimento econômico de alguns países, como Angola, Guiné Equatorial e Nigéria, cujas taxas chegaram a se manter superiores a 5% ao ano.
Os setores produtores de matérias-primas minerais e energéticas (petróleo e gás), embora gerem expressivas receitas por meio da exportação para alguns países, não contribuem expressivamente para a geração de empregos. Daí a necessidade de diversificação econômica nos países da região, cuja exceção é a África do Sul (que faz parte do Brics).
Ações no sentido de atrair mais investimentos e diversificar a economia africana têm sido empreendidas por países como a Etiópia, na África Oriental, cujo governo montou parques industriais em alguns setores da economia (agroalimentar, farmacêutico, têxtil e de curtume), e o Quênia, que em 2015 aprovou uma nova legislação para atividades econômicas, que inclui a criação de uma Zona Econômica Especial para a estruturação de empresas da indústria de transformação. No entanto, os investimentos estrangeiros ainda se concentram em boa parte nos setores de produção de matérias-primas.
Com a ascensão do bloco econômico denominado Brics (Brasil, Rússia, Índia,
China e África do Sul), alguns países africanos foram favorecidos com acordos
comerciais em um contexto de fortalecimento das relações políticas sul-sul, isto é,
entre economias emergentes e em desenvolvimento.
Ainda assim, muitos países
do continente figuram entre as piores colocações no ranking mundial de desenvolvimento humano e entre algumas das economias mais enfraquecidas do mundo.
De modo geral, a economia dos países africanos é baseada no setor primário, sendo a agricultura a principal atividade. A África também se destaca na
produção mundial de minérios.
A África do Sul é o país mais industrializado do
continente, a maior economia africana e um dos países com o maior índice de desigualdade econômica
e social do mundo.
Agropecuária
As potências coloniais não tinham interesse em
desenvolver economias locais fortes, e sim man
tê-las atreladas ao antigo modelo de exploração.
Assim, como herança do Período Colonial, permanece no continente africano o modelo de pequenas
lavouras de subsistência, nas quais trabalha grande
parte da população, bem como as monoculturas voltadas para a exportação.
principalmente nas áreas de florestas e
nas savanas. Esse tipo de prática agrí
cola – baseada no uso coletivo da terra –
tem como finalidade o autoabastecimento,
ocupando grande parcela da mão de obra
feminina na África. Em geral, esse sistema
de cultivo – fundamental para a segurança
alimentar dos países africanos – desenvol
ve-se em pequenas e médias propriedades,
nas quais se utilizam técnicas mais simples,
com menores rendimentos.
A monocultura
exportadora foi introduzida no continente
pelos colonizadores com a finalidade de
exportar os produtos tropicais para abaste
cer os mercados internos da Europa. Esse
tipo de prática agrícola comercial denomina--se plantation.
As plantations predominam na África
Subsaariana e, atualmente, são controla
das, sobretudo, por investimentos estrangeiros, com estrutura de beneficiamento
de produção e sistemas ferroviários que
atendem às exportações.
Por serem essencialmente agrícolas, os
países africanos têm uma economia frágil,
uma vez que dependem de fatores ambien
tais (períodos de seca e de cheia), bem como dos preços das commodities no
mercado internacional.
As condições desiguais de produção agrícola e de investimentos existentes
entre as nações ricas ou emergentes e os países africanos causam desvantagem
aos governos locais africanos, impedindo muitas vezes uma boa lucratividade
oriunda da comercialização de sua produção agrícola.
Além disso, muitos países ricos costumam subsidiar seus produtores
para incentivar a produção agrícola local, medida que garante preços mais
atrativos de certos produtos no mercado mundial. Essa concorrência desi
gual impede uma maior expansão na exportação de produtos agrícolas produzidos na África e, consequentemente, dificulta o crescimento da economia
no continente.
Por causa das desigualdades sociais, as melhores terras e a tecnologia são
empregadas em grande parte na agricultura destinada à exportação, que, por
sua vez, ocupa cada vez mais as áreas onde a agricultura de subsistência era
praticada. Alguns países já buscam desenvolver a agricultura local por meio
de projetos que misturam a aplicação de tecnologia de ponta, conhecimen
tos tradicionais e estratégias de ascensão social, como é o caso do Instituto
Queniano de Agricultura Orgânica, que atua na inclusão social de camadas
empobrecidas da população por meio do fomento de técnicas orgânicas de
cultivo de alimentos.
Quanto à atividade criatória, destaca-se no continente africano a pecuária
extensiva. Na África do Sul estão alguns dos maiores rebanhos de ovinos do
mundo. Alguns dos projetos internacionais de incentivo à economia africana
direcionam seus investimentos para a agropecuária, uma vez que o desenvolvimento do setor é fundamental no combate à desnutrição e à fome.
Mineração
O continente africano conta com metade das reservas mundiais de ouro
e com dois terços das reservas mundiais de diamante e cobalto. Além disso,
no subsolo africano existem grandes reservas de fontes energéticas, como o
petróleo, cuja extração está destinada, na maior parte, à exportação.
Nigéria e
Angola são os maiores produtores de petróleo no continente. Na produção de
carvão mineral, destacam-se África do Sul e Moçambique.
Desde o Período Colonial, as reservas minerais africanas foram motivo de
cobiça e interesse. Nas últimas décadas, a maior parte dos investimentos estran
geiros empregados em países africanos foi direcionada à exploração mineral.
A maioria dos polos de crescimento econômico atuais no continente con
centra-se na exploração mineral. Em
2009, a China se tornou o maior parceiro comercial da África, superando
os Estados Unidos, e, recentemente,
intensificou o comércio com os países africanos. Além dos empréstimos
concedidos, os chineses constroem
estradas, usinas hidrelétricas e termelétricas, hospitais e escolas no
continente. Observe no mapa ao lado
as taxas de trocas comerciais entre os
países africanos e a China.
O controle e a extração dos
recursos minerais da África (sobre
tudo petróleo e diamantes) causam
muitos conflitos; e a abundância
desses recursos não se reverte em
qualidade de vida para a população.
Países que direcionaram a economia para a exportação de petróleo
(Nigéria, Gabão, Sudão, Congo,
Guiné Equatorial e Chade) registram
uma longa história de conflitos civis
e golpes militares.
Parte das riquezas minerais do conti
nente foi usada para financiar a violência
contra as próprias populações africanas,
como os “diamantes de sangue” (nome dado
às pedras contrabandeadas para fora do
país que financiavam grupos envolvidos em
conflitos) de Angola, Congo e Serra Leoa.
A outra parte enriqueceu grandes investidores estrangeiros, por causa dos governos
instáveis e corruptos do continente apoia
dos por empresários corruptores de muitos
outros países.
Indústria
Atualmente, as indústrias de bens de consumo são as que mais se desen
volvem no continente. Nos últimos 10 anos, os produtos manufaturados dupli
caram na África, tendo como destino principal as economias emergentes, em
detrimento das potências tradicionais, o que fortaleceu as relações políticas e
comerciais sul-sul.
Responsável por quase metade de toda a produção industrial africana, a
África do Sul é o país mais industrializado do continente. Pertence ao grupo
dos países de economia emergente, sendo o único da África Subsaariana a se
destacar no setor industrial, além de ter o mais avançado e diversificado parque
industrial do continente. Sobressai-se nas indústrias automobilística, petroquímica, têxtil, siderúrgica e alimentícia.
A Nigéria e o Senegal também são países da África Subsaariana em que a
indústria começa a ter relevância no setor econômico. No Norte da África, por
sua vez, há países com importantes áreas industriais, com destaque para os
gêneros alimentícios, têxteis, petroquímicos e siderúrgicos.
A estrutura geológica bastante antiga do continente possibilitou a formação
de um subsolo rico em recursos minerais. Isso proporcionaria ao continente o
desenvolvimento de amplas
atividades industriais, que
ainda não ocorreu em consequência da falta de investimento dos Estados africanos
em desenvolvimento tecnológico por causa da frágil
situação econômica, da corrupção de alguns governantes e da falta de interesse
das maiores potências do
mundo em estabelecer parcerias; além desses motivos,
a falta de maiores investi
mentos na indústria também
é consequência da herança
colonial, que desprezava a
industrialização na África.
INVESTIMENTOS, INOVAÇÃO E COOPERAÇÃO
Considerando as diretrizes das grandes empresas multinacionais, os países africanos atraíram
investimentos em diversos setores. A região do Golfo da Guiné, rica em petróleo, passou a atrair
empresas do setor petrolífero. As primeiras a chegar foram as empresas europeias, que ainda
dominam a extração de petróleo e gás natural na região.
A britânica Royal Dutch Shell é a maior produtora de petróleo na Nigéria. No Gabão, está a
francesa Total. Há também empresas dos Estados Unidos na Guiné Equatorial (Exxon) e em Angola
(Chevron). Mais recentemente, a competição pelo petróleo africano passou a incluir empresas dos
chamados países emergentes, como Índia, Brasil e, principalmente, China.
Além disso, muitas empresas à procura de oportunidades de investimento veem na África
um mercado promissor no setor de tecnologia e de inovação.
Os problemas socioeconômicos e de infraestrutura em muitos países
africanos atraem investidores do setor de inovação para desenvolver soluções
adaptadas à realidade local, especialmente na África do Sul, na Nigéria e no
Quênia.
De acordo com o estudo da African Private Equity and Venture Capital
Association, em 2021, empresas do setor privado investiram mais de 5 bilhões
de dólares em startups africanas que desenvolvem inovações para o setor
agrícola, energético, de telefonia celular, acesso à internet e serviços digitais.