Relógios, calendários e agendas são alguns exemplos de invenções feitas pelas sociedades humanas
para medir e controlar o tempo.
Mesmo sem relógios e calendários, desde os tempos mais antigos os seres humanos notavam que
depois do dia vinha a noite, que as plantas, os animais
e as pessoas, com o tempo, envelheciam e um dia
morriam, que a Lua mudava de fases. Ou seja, os grupos humanos percebiam a passagem do tempo observando a natureza, da qual eles também faziam parte.
O tempo é fundamental para os estudos históricos. Existem, no entanto, diferentes maneiras de compreendê-lo. Vamos conhecer a seguir algumas delas.
Tempo da natureza
Existe o tempo que passa naturalmente e não depende da vontade humana, ou seja, não é cultural. Esse é o chamado tempo da natureza, que pode ser percebido, por exemplo, pelo crescimento das árvores e pelo envelhecimento das pessoas.
Entre as formas de pensar e organizar o tempo estão a observação e a marcação de eventos naturais, como as estações do
ano, as fases da lua, a posição das estrelas no céu, a dinâmica
de seca e chuva, de cheia e vazante dos rios, de plantio e colheita nos campos, etc. Esse tempo é conhecido como tempo da
natureza.
Tempo cronológico
Diferentemente do tempo da natureza, o tempo linear, que podemos medir e organizar sequencialmente, é conhecido como tempo cronológico. Esse tempo é organizado em unidades de medida, como horas, dias,
meses, anos, séculos, etc. Para calculá-lo, utilizamos instrumentos de medição de tempo, como o relógio, que assinala
as horas, e o calendário, que demarca os dias, as semanas, os
meses e os anos.
Esse tempo é um elemento cultural, pois foi o ser humano que criou as diversas formas de medição do tempo.
O tempo cronológico pode ser dividido em unidades de medida: segundo, minuto, hora, dia, mês, ano etc. Atualmente, os principais instrumentos usa dos para medir a passagem do tempo cronológico são o relógio e o calendário.
Tempo histórico
O tempo cronológico, como vimos, pode ser marcado por instrumentos de medição, por exemplo, o relógio e o calendário, pois sua contagem é feita com unidades fixas de medida, como a hora, o dia ou o ano.
O tempo histórico, por sua vez, apresenta diferentes ritmos e durações e pode
ser verificado principalmente por meio das permanências e transformações que
ocorrem nas sociedades. São os historiadores que, em seu trabalho, analisam os
elementos que caracterizam o tempo histórico.
O tempo histórico é o tempo da experiência de um
povo, de um país ou de uma época. Diz respeito, por
exemplo, ao tempo da democracia no Brasil ou da globalização no mundo. A noção de tempo histórico possibilita dar significado às transformações vividas pelas
sociedades humanas em suas relações com seu entorno.
Um dos principais vícios que podem contaminar a análise histórica é o
anacronismo (do grego, ana = “contra” + cronismo = “relativo ao tempo”).
O anacronismo nos leva a julgar pessoas utilizando critérios atuais, como se
fossem válidos para todas as épocas. Desse modo, o anacronismo consiste
em atribuir aos sujeitos do passado razões ou sentimentos que não faziam
parte de seu tempo histórico.
Por exemplo, não faz sentido dizer que o colonizador português desprezava a Ecologia ao derrubar árvores da Mata Atlântica.
O motivo é que, entre os europeus do século XVI, prevalecia a noção de que
os recursos naturais eram tão abundantes que podiam ser explorados de
forma descontrolada ou indiscriminada. Afinal, a Ecologia é uma área do
conhecimento que se desenvolveu, sobretudo, a partir do século XX.
O tempo histórico e suas durações
As pessoas e as sociedades se transformam no decorrer do tempo, porém
muitos elementos permanecem semelhantes.
O tempo histórico acompanha os ritmos das transformações de cada sociedade: umas apresentam um
ritmo mais acelerado de transformações, outras
nem tanto.
Para facilitar o entendimento das transformações
e das permanências, o historiador francês Fernand
Braudel propôs três diferentes durações do tempo
histórico: a curta, a média e a longa duração.
O tempo de curta duração é caracterizado por
eventos breves, com data e lugar determinados, como a descoberta
de uma vacina, como um golpe político, uma disputa
eleitoral ou a assinatura de uma lei.
O tempo de média duração é marcado por
transformações mais lentas, mas que podem ser
percebidas no decorrer da vida de uma pessoa, como
a vigência de um sistema econômico ou a duração do
reinado de um monarca. Tais fenômenos
são chamados de conjunturais, pois resultam de flutuações no interior de uma estrutura.
O tempo de longa duração é formado por processos
históricos que demoram longos períodos de tempo
para se concretizarem. É o caso dos valores morais,
que se transformam muito lentamente. Fenômenos
como o cristianismo ocidental,
o capitalismo, entre outros. Tais fenômenos são chamados
de estruturais, e, para compreendê-los, é preciso inseri-los na longa duração.
Com base nessa representação dos três tempos históricos, formulada por Fernand Braudel, podemos perceber que, como o oceano, o tempo é um só,
mas apresenta camadas temporais da mesma forma que o oceano contém camadas
de água. Nos dois casos, as camadas são sobrepostas e simultâneas.
É importante observar que os acontecimentos e processos históricos, apesar de
terem diferentes durações, estão interligados e podem ser simultâneos. Por isso, o
historiador, ao analisá-los, precisa levar em conta essas durações.
A periodização dos processos históricos
Para facilitar a compreensão dos processos históricos, os estudiosos geralmente
dividem o tempo em períodos, com base em acontecimentos que servem como marcos
históricos. Desse modo, são criadas as periodizações, as quais não são naturais, pois são
criações feitas pelos seres humanos e, portanto, fazem parte da cultura, podendo variar
de lugar para lugar.
Os critérios utilizados na criação de uma periodização podem ser, por exemplo, políticos,
econômicos ou culturais.
Dependendo dos critérios, podem ser estabelecidas diferentes
periodizações para uma mesma sociedade. A divisão da história do Brasil nos períodos
Colonial, Imperial e Republicano é uma das mais adotadas, mas não é a única. Trata-se de
uma convenção que destaca os acontecimentos políticos.
Os calendários
O calendário é um sistema de medição de dias inteiros, e não de horas, como
fazem os relógios. Por isso, o tempo medido pelos calendários é bem mais longo.
O calendário é um instrumento utilizado para medir a passagem do tempo e
dividi-lo em unidades, como dias, meses e anos.
Em nosso país, é adotado oficialmente o calendário gregoriano, introduzido
em 1582 pelo então papa Gregório XIII.
Esse calendário é solar, ou seja, um ano
corresponde a uma volta da Terra em torno do Sol. Nesse calendário, o ano tem
365 dias e, a cada quatro anos, ocorre um ano bissexto.
O ano bissexto é aquele cujo mês de fevereiro possui 29 dias, somando ao todo, nos doze meses, 366 dias. Isso ocorre para alinhar nosso calendário com o
movimento de translação da Terra em relação ao Sol.
Antes e depois de Jesus Cristo
Os historiadores adotaram o calendário cristão para definir a cronologia geral da História usando
como referência o ano de nascimento de Jesus de Nazaré. Esse é o ano 1 da chamada “Era Cristã”.
No calendário gregoriano, a contagem dos anos tem início na data atribuída ao
nascimento de Jesus Cristo. Por isso, nos estudos históricos, é comum encontrarmos as
siglas a.C. e d.C., que significam “antes de Cristo” e “depois de Cristo”, respectivamente.
Dessa forma, o ano contado a partir do nascimento de Cristo é o ano 1, o segundo é o
ano 2, e assim sucessivamente, em ordem crescente. Os anos “depois de Cristo” podem ou
não ser acompanhados da sigla d.C.
Da mesma forma, o primeiro ano anterior ao nascimento de Cristo é o ano 1 a.C., isto é,
“antes de Cristo”, o segundo é o ano 2 a.C., e assim sucessivamente, em ordem decrescente.
O ano 1400 a.C., por exemplo, é anterior ao ano 1300 a.C. O
número maior é o mais antigo. Já
na Era Cristã ou “depois de Cristo”,
o ano 300 d.C., por exemplo, vem
antes do ano 400 d.C. Nesse caso,
o número menor é o mais antigo.
Outros calendários
Embora o calendário gregoriano seja o mais utilizado em nosso país, é importante ressaltar que vários povos desenvolveram outras formas para medir e registrar a passagem do tempo.
As sociedades humanas criaram diferentes calendários ao longo do tempo.
O dos egípcios, criado por volta de 6 mil anos atrás, está entre os mais antigos.
Baseado no ciclo lunar, ele tinha 12 meses que somavam 354 dias. Cerca de mil
anos depois, os egípcios adotaram um calendário solar de 360 dias, divididos em
12 meses. Ao final do 12o mês eram acrescentados cinco dias complementares.
Os antigos habitantes da América também inventaram diferentes calendários.
O povo inca, por exemplo, que habitava grande parte da faixa oeste da América
do Sul por volta de 550 anos atrás, tinha um calendário que combinava o ano solar
de 365 dias com 12 meses lunares. Cada mês tinha seu próprio festival, marcado
por celebrações de culto ao Sol, aos mortos e à agricultura.
Com base em cálculos e observações, as sociedades criaram diferentes tipos de calendário de acordo
com a sua época e suas necessidades. De modo geral,
podemos afirmar que os calendários têm uma relação
direta com o modo de vida da sociedade que os criou,
apresentando, assim, características variadas.
Além do calendário cristão, existem outros tipos de calendários que têm origem
religiosa. No calendário judaico, por exemplo, o marco inicial é a data em que,
para os judeus, Deus criou o Universo. Esse fato teria ocorrido no ano 3760 a.C.
do calendário cristão. Os muçulmanos, por sua vez, estabeleceram a Hégira como
marco inicial do seu calendário. A data corresponde à saída do profeta Maomé da
cidade de Meca em direção a Medina, ocorrida no ano 622 do calendário cristão.
Embora o calendário gregoriano tenha sido adotado como referência em quase todo o mundo, há países que não o utilizam. Outros,
como Japão e Israel, usam mais de um calendário ao mesmo tempo. Por isso, se você acessar a versão digital de um jornal de Israel,
em que a maioria da população é judaica, encontrará na capa duas
datas: a do calendário gregoriano – por exemplo, 24 de julho de
2024 – e a do calendário judaico – 18 Tamuz de 5784.
O calendário chinês
O calendário tradicional chinês, assim como o inca, é lunissolar, ou seja, combina influências das atividades do Sol e da Lua. Ele também tem 12 meses, cada
um deles relacionado a um animal, segundo esta ordem: rato, boi, tigre, coelho,
dragão, serpente, cavalo, carneiro, macaco, galo, cão e porco. Após doze anos, o ciclo se reinicia e os nomes dos animais voltam a se repetir.
O que poucas pessoas sabem é que na China se adotam dois calendários.
O calendário ocidental, solar, é usado para atividades civis e administrativas: dia a
dia do trabalho, escola, comércio, bancos, instituições públicas etc.
O calendário tradicional é usado principal
mente para datar eventos
relacionados à cultura do
país, como o Ano-Novo
Chinês e o Festival do
Meio-Outono, dois feria
dos nacionais na China.
A divisão do tempo em períodos
Outra unidade de medida criada pelos estudiosos é o período. Cada um deles
corresponde a uma longa extensão de tempo em que as sociedades humanas
apresentaram determinadas características marcantes, diferentes das de outros
períodos.
A periodização mais utilizada em livros de História foi criada por estudiosos europeus no século XIX. Eles dividiram a História em cinco períodos: Pré-história, Idade
Antiga (ou Antiguidade), Idade Medieval, Idade Moderna e Idade Contemporânea.
Muitos estudiosos
criticam essa divisão porque ela leva em consideração apenas os acontecimentos
da história europeia e anulam a história de outros povos. Essa periodização tradicional também recebe críticas porque está centrada em
uma visão histórica voltada para os povos da Europa. É, portanto, eurocêntrica.
Também apontam que
essa divisão pode dar a impressão de que o modo de vida dos europeus teria
permanecido o mesmo em cada período – por exemplo, durante os mil anos do
período medieval –, o que seria um grande erro.
Por fim, o termo Pré-História também é criticado, pois o marco que separaria a
História da Pré-História seria o surgimento da escrita. Hoje, esse critério perdeu o
sentido, pois é consenso entre os historiadores que desde que os seres humanos
surgiram existe história, independentemente de essa história ter ou não registro escrito.
Mesmo sem dominar a escrita, muitas sociedades produziram
ferramentas, aproveitaram os recursos da natureza para garantir sua
sobrevivência, criaram diferentes formas de arte e de religião e deixaram vestígios dos modos de vida que construíram. Essas sociedades
apresentavam noções temporais próprias e formas particulares de
medir a passagem do tempo.
Existem no presente sociedades cuja cultura não necessita da produção de registros escritos. É o caso de grupos nativos das Américas,
da África, da Sibéria ou da Austrália. Alguns deles, por causa de seus
contatos com as sociedades que dependem da escrita, adotaram
alfabetos de outras línguas, como o latino, para registrar os sons de
seus idiomas.
Os historiadores atuais não aceitam essa divisão entre Pré-História e História, porque consideram que:
• as conquistas humanas anteriores à escrita (como o domínio do fogo, a invenção da
roda, a prática da agricultura) são tão importantes quanto as posteriores;
• os povos que não desenvolveram a escrita também possuem uma história movimentada, que precisa e pode ser melhor conhecida.
A distinção entre Pré-História e História foi criada por historiadores europeus
que viveram no século XIX. Eles davam grande importância às fontes escritas
porque supunham que elas eram mais confiáveis.
Atualmente, os estudiosos não dão tanta importância para essa distinção
entre fontes escritas e não escritas. Isso porque há várias formas de registro do
passado que podem ser interpretadas. Além disso, o ser humano, desde que
surgiu na Terra, é um ser histórico.
Além disso, nessa divisão é classificada como Pré-história todo o
período anterior à invenção da escrita. O termo “pré-histórico” pode
ser entendido de maneira pejorativa, pois se baseia na ideia de que
os povos que não conheciam a escrita não tinham história, eram
“atrasados” ou “não civilizados”. Acontece que nem todas as sociedades sentiram necessidade de desenvolver formas de registro escrito.
Muitas se desenvolveram ao seu modo, transmitindo conhecimentos
por meio da oralidade e de imagens gravadas sobre diferentes suportes.
Há outras razões para crer que essa divisão da História não é satisfatória, entre as quais se destacam:
• A escolha do surgimento da escrita como critério para separar a
Pré-História da História sugere que os povos sem escrita não tiveram ou não têm história. Com ou sem escrita, todos os povos têm
história.
• A expressão Idade Média, que só serve para separar a Idade Antiga da
Idade Moderna, nada explica.
• A expressão Idade Contemporânea, usada para cobrir o período
que vai da Revolução Francesa aos dias de hoje, perdeu o sentido,
pois foram muitas as mudanças ocorridas na história mundial desde então.
O principal problema dessa periodização, entretanto, é o fato de que
toda a História é pensada com base na Europa. É, portanto, uma periodização eurocêntrica ou europocêntrica.
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