O território que hoje faz parte do Brasil era habitado por diferentes grupos humanos há milhares de anos. Esses grupos viveram em diferentes épocas e lugares, e cada um deles tinha seu próprio modo de vida.
Estudos indicam que, milhares de anos atrás, o
ambiente da região onde mais tarde seria o Brasil era
diferente do atual: o nível do mar era mais baixo – o
que tornava o litoral mais extenso –, os cerrados cobriam grande parte do território e as florestas eram
menores. O clima era mais seco e mais frio. Já havia
animais como tatus, preguiças, antas e macacos,
além da preguiça-gigante e do tigre-dente-de-sabre,
animais extintos da megafauna.
Os primeiros habitantes do território que corresponde ao Brasil atual viviam da caça e da coleta. Contudo, à medida que se deslocavam, transformavam o ambiente e se adaptavam aos recursos naturais encontrados, esses povos foram se diferenciando e desenvolvendo novas formas de viver e de se organizar.
As discussões entre os arqueólogos para determinar quais rotas os grupos humanos percorreram para chegar à América e quando isso teria acontecido também se
repetem, evidentemente, quando o assunto é o povoamento do território brasileiro. Até
o momento, o que é aceito pelos cientistas é que, há pelo menos 12 mil anos, o território que hoje corresponde ao Brasil já era ocupado por pequenos grupos de caçadores
e coletores.
De acordo com estudos publicados em 2018, os primeiros
seres humanos chegaram à América há cerca de 17 mil anos, e
o povoamento da região que corresponde à atual América do Sul
aconteceu a partir de duas levas migratórias: a primeira ocorreu
entre 15 e 11 mil anos atrás, e a segunda, há 9 mil anos.
Pontas de lança e
de flechas feitas de
sílex e quartzo
encontradas em sítios
arqueológicos no
Brasil, fabricadas e
utilizadas por grupos
caçadores-coletores
da Pré-História.
Essas pesquisas chegaram a tais conclusões com base em
análises genéticas detalhadas dos fósseis humanos encontrados na
América. De acordo com tais análises, os grupos que povoaram o
continente eram formados apenas por populações mongoloides e
deram origem aos diversos povos indígenas que o ocuparam.
Estudos mais recentes, porém, indicam que dois grupos – de
origem mongoloide e não mongoloide – compuseram as primeiras
populações do território hoje chamado de Brasil. No decorrer dos
séculos, os povos indígenas de origem não mongoloide desapareceram, e os cientistas ainda não sabem explicar as razões para isso.
Uma das hipóteses é que tenham se extinguido após terem contato
com os europeus, que chegaram à América a partir do século XV.
Os vestígios mais antigos já encontrados sobre
os primeiros habitantes que viviam nas terras onde
hoje fica o Brasil estão no sítio arqueológico da Pedra Furada, no Piauí. Lá foram
encontrados objetos de pedra e inúmeras pinturas rupestres, nas quais estão
registrados elementos da flora e da fauna e cenas de caça, coleta, danças e guerras.
No mesmo local foram descobertos vestígios fossilizados de carvão sobre
os quais existe uma discussão científica. Alguns pesquisadores argumentam que
são restos de fogueiras feitas por seres humanos; outros defendem que são resultados da ação da natureza.
Testes realizados pela equipe da arqueóloga Niède
Guidon revelaram a provável idade desses vestígios: entre 60 mil e 100 mil anos,
o que contraria os resultados dos estudos genéticos feitos nas ossadas encontradas em outros sítios arqueológicos da América.
Pesquisas arqueológicas feitas pelo cientista brasileiro Walter Neves, entre
o final do século XX e o início deste século, identificaram em Lagoa Santa, Minas
Gerais, diversas evidências dos primeiros habitantes do Brasil. Nas escavações
foram encontrados, por exemplo, objetos pontiagudos de pedra e ossos, além
de sepulturas com ossadas humanas de adultos e crianças.
Na época, concluiu-se que a origem dos antigos habitantes poderia ser africana ou sul-asiática;
essa pesquisa ficou amplamente conhecida a partir da divulgação das imagens
do crânio de uma mulher apelidada de Luzia, a primeira brasileira. Na ocasião,
foi feita uma reconstrução facial do provável aspecto de Luzia, que teria traços
predominantemente africanos.
Recentemente, outras pesquisas com base no material genético das mesmas ossadas questionam as conclusões sobre a origem africana daqueles habitantes ancestrais e reafirmam seus argumentos em defesa da origem asiática.
As novas tecnologias de busca e análise de sítios arqueológicos, bem como
a possibilidade de novas descobertas, podem vir a modificar as teorias já
existentes.
Os primeiros habitantes do Brasil viviam principalmente em habitações a céu aberto
ou em abrigos sob rochas e, às vezes, em cavernas. No interior das cavernas, os moradores
costumavam fazer pinturas que mostravam cenas da vida cotidiana, figuras de animais e
de pessoas.
A descoberta de vestígios como artefatos de pedra, anzóis feitos de ossos e conchas per
furadas indica que tais povos praticavam a caça, a pesca e a coleta.
Os mais antigos vestígios de agricultura no território brasileiro datam de aproximadamente 7 mil anos atrás e foram encontrados na região amazônica. Os primeiros agricultores
plantavam milho, algodão e feijão, mas a mandioca era o principal cultivo. Raiz rica em
calorias, ainda hoje é uma fonte de energia fundamental para milhares de pessoas no Brasil.
Como aconteceu em outras regiões do mundo, mesmo após a descoberta da agricultura,
diversos povos continuaram sendo, basicamente, caçadores e coletores. Assim, os povos
agricultores mantiveram a caça e a pesca como parte das suas atividades cotidianas.
Caçadores-coletores
Os povos caçadores-coletores viviam da caça, da pesca e da
coleta de alimentos. Não praticavam a agricultura, mas tinham
o domínio do fogo e fabricavam instrumentos variados, feitos
de pedra e de ossos.
Embora existam muitas semelhanças entre os modos de
vida dos primeiros povos caçadores-coletores, também é
possível identificar diferenças entre eles. Aliando trabalho
e criatividade, esses povos desenvolveram culturas próprias.
A maioria das informações que temos sobre eles vem de
inscrições rupestres e dos vestígios de seus instrumentos, ali
mentos e habitações. No estado de São Paulo, por exemplo, os
pesquisadores acharam diversos tipos de ponta de flecha. Em
Minas Gerais e no Piauí, descobriram uma grande quantidade
de pinturas rupestres que provavelmente foram elaboradas
por esses povos.
Já no Rio Grande do Sul, foram encontradas facas de pedra
em forma de bumerangue e boleadeiras, que é um instrumento composto de duas ou três bolas de pedra amarradas
por um cordão, feito geralmente de couro. As boleadeiras
eram lançadas nas patas do animal para derrubá-lo. Até hoje
elas são usadas por alguns gaúchos que vivem no campo
e criam animais.
Os povos dos sambaquis
Por volta de 11 mil anos atrás, a temperatura terrestre começou a
se elevar, provocando o gradativo derretimento das geleiras e, consequentemente, o aumento do nível dos oceanos. Com essa mudança
climática, muitos grupos instalaram-se no litoral, pois o oceano
tornou-se uma fonte de alimentos fundamental.
Há aproximadamente 6 mil anos, no litoral dos atuais estados de Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, viveram comunidades que se sedentarizaram na região, praticando a caça, a coleta e o cultivo de tubérculos e vegetais. Além de manter as atividades de caça e coleta, esses povos passaram a consumir peixes,
moluscos e crustáceos. Esses povos construíram verdadeiras montanhas de conchas, chamadas sambaquis e, por isso, são chamados de sambaquieiros.
Sambaqui (palavra de origem tupi que significa “monte
de conchas”) é um acúmulo de conchas de moluscos e restos de animais, como peixes e aves, que essas comunidades
depositaram em determinados locais ao longo do tempo.
Existem sambaquis que atingem até 30 metros de altura
e 400 metros de comprimento por 100 metros de largura.
O sambaqui mais antigo do Brasil fica no Vale do Ribeira, no
interior do estado de São Paulo, e tem cerca de 9 mil anos de existência. Porém, a maior parte dos sambaquis brasileiros está no litoral
e os mais antigos têm aproximadamente 7,5 mil anos de existência.
Os cientistas não sabem as razões pelas quais
os sambaquieiros – nome dado aos moradores
dos sambaquis – faziam essas elevações. Eles
acreditam que, quanto mais alto fosse um sambaqui, maior seria o prestígio das pessoas que viviam
nele. Os sambaquieiros construíam suas residências e enterravam seus mortos nessas elevações.
Os estudos dos sambaquis sugerem que, até por volta
de mil anos atrás, muitos desses povos formavam aldeias
com cerca de 150 habitantes. Viviam da coleta, da caça e,
principalmente, da pesca. Utilizavam instrumentos feitos
de pedra (enfeites, facas, flechas, machados) e de osso (ar
pões, agulhas, anzóis). Tinham também o domínio do fogo
e assavam os alimentos. Os povos dos sambaquis
tornaram-se, portanto, sedentários, mesmo não baseando sua subsistência na prática da agricultura.
Nos diversos sambaquis, os arqueólogos encontraram esculturas e artefatos de pedra, osso, madeira e dentes de tubarão. A descoberta mais reveladora
da provável função dos sambaquis, porém, foram os esqueletos de crianças,
mulheres e homens, indicando que se tratavam de cemitérios coletivos.
Os sambaquis eram utilizados para enterrar os mortos
e seus objetos pessoais (enfeites, utensílios e armas). Isso
indica que, provavelmente, já existia entre os sambaquieiros uma preocupação religiosa com a morte. Esses povos
também costumavam construir suas habitações sobre os
montes de conchas.
Pesquisas recentes demonstram que os povos dos sambaquis escolheram
as conchas como material de construção porque, empilhadas de forma organizada, elas funcionam como um cimento que não se dissolve facilmente com o
passar do tempo. Assim, os sambaquieiros garantiam aos mortos uma posição
de destaque nas planícies do litoral.
Há sambaquis nas regiões Sul, Norte e Sudeste do Brasil, nos Estados Unidos, no Peru e no Chile. Alguns têm mais de 8 mil anos. Neles,
os arqueólogos encontraram importantes vestígios da presença humana,
como restos de alimentos (ossos de animais) e de fogueiras, artefatos
e zoólitos (esculturas em forma de animais da fauna local) feitos de
pedra polida, além de vestígios de moradias e de sepultamentos.
Além disso, a existência de vários sambaquis próximos uns dos outros revela que essas comunidades desenvolveram relações organizadas para explorar
os recursos naturais da região.
A expansão territorial dos sambaquieiros durou cerca
de 5 mil anos e foi interrompida pela ocupação de grande
parte do litoral e parte do interior por aldeias da etnia Tupi.
Os sambaquis das regiões Sul
e Sudeste são os mais conheci
dos e estudados do Brasil. Existe,
porém, grande quantidade de sambaquis na região da Amazônia, em
especial no litoral do Pará. Alguns deles são tão grandes que
chegam a atingir 30 metros de altura e 400 metros de comprimento. Os sambaquis litorâneos, que são os mais antigos, podem ter 7 mil anos de idade ou mais. Nesses
sítios arqueológicos foram encontradas peças feitas de cerâmica e
artefatos de pedra polida.
Mais do que montes formados de material orgânico e calcário, os sambaquis impressionam
por seu tamanho e intrigam por sua finalidade. Atualmente, acredita-se que o sambaqui
era um local preparado para enterrar os mortos e depositar oferendas. Isso explicaria os
esqueletos humanos descobertos nesses locais, cada um deles protegido por uma cerca,
como se fosse um ritual funerário.
Os sambaquieiros dispunham de comida
abundante proveniente da caça, da pesca e da
coleta de alimentos. Por isso, podiam permanecer por um bom tempo no mesmo lugar. Os
povos dos sambaquis desapareceram ao longo
do século XVI.
Os sambaquis fazem parte do patrimônio arqueológico do Brasil, mas sua preservação
está ameaçada pela atividade de exploração do calcário, largamente utilizado para a produção de cimento e cal.
À medida que as pesquisas em sítios arqueológicos no território
brasileiro se ampliarem, outras informações poderão complementar ou modificar as teorias existentes sobre o modo de vida dos
povos dos sambaquis.
Destruição dos sambaquis
No final do século XV, com a chegada dos europeus ao continente americano, muitos sambaquis foram destruídos. Alguns portugueses tiravam as conchas dos sambaquis para fabricar cal (material usado na construção de habitações).
Atualmente, a preservação dos sambaquis continua
sendo ameaçada. Eles são destruídos com o objetivo, por
exemplo, de abrir caminho para novas construções ou de
extrair materiais para a produção agrícola. Também é comum os sambaquis se deteriorarem por causa do trânsito
de pessoas e de veículos, sobretudo em áreas litorâneas
exploradas pelo turismo.
Apesar desse processo de destruição, ainda existem
sambaquis no litoral brasileiro, muitos deles estudados por
equipes de arqueólogos e historiadores.
Os sambaquis estão localizados desde o estado do Rio
Grande do Sul até o Espírito Santo. Têm idades variadas, em
bora seja difícil dizer exatamente quando foram formados.
Alguns, como o de Capelinha (São Paulo), têm cerca de
8 mil anos. Outros, como os de Paranaguá (Paraná), têm
entre 6 mil e 7 mil anos.
As sociedades amazônicas
No início do século XIX, naturalistas europeus encontraram cemitérios indígenas
às margens de diversos rios da floresta Amazônica. Nesses locais, foram encontrados
artefatos de cerâmica que datam de mais de 4 mil anos. Essas descobertas impulsionaram o estudo sobre os povos ceramistas que habitaram a Região Norte do Brasil.
Em suas pesquisas, os arqueólogos encontraram provas de que o ser humano já
habitava a Amazônia há cerca de 12 mil anos. Segundo suas investigações, as pessoas
da região organizavam-se nessa época em pequenos grupos e viviam da caça e da
coleta de alimentos na natureza.
Por oferecer uma variedade muito grande de recursos naturais, a região
amazônica passou a atrair diversos grupos nômades, que começaram a viver
no interior das florestas e nas proximidades de rios e outras fontes de água.
Hoje se sabe que esses povos ceramistas eram agricultores. Como cultivavam os
próprios alimentos, eles eram essencialmente sedentários. Suas moradias eram construídas de acordo com as condições geográficas dos lugares que habitavam.
Para evitar que suas aldeias fossem alagadas pelas águas dos rios nas épocas de
cheias, esses povos as construíam em morros artificiais chamados tesos.
Entre 3 mil e mil anos atrás, surgiram sociedades mais complexas, ou seja, com
uma organização social hierárquica e uma produção artesanal desenvolvida.
Esses grupos inicialmente praticavam a caça, a pesca e a coleta de frutos e se
mentes. Aos poucos, as atividades de extração e consumo de recursos naturais
provocaram grandes modificações na paisagem amazônica. As sementes de árvores e de plantas que forneciam alimentos eram descartadas pelos seres humanos,
o que propiciou a disseminação dessas espécies pelas terras da região, processo
ligado à origem do domínio de práticas agrícolas por esses grupos e que, posterior
mente, levou à sedentarização deles, formando grandes sociedades amazônicas.
O desenvolvimento das práticas agrícolas e a transformação da paisagem
amazônica possibilitaram o crescimento populacional das sociedades que se
estabeleceram na região, o que deu origem a grandes civilizações, como as culturas marajoara e tapajônica, no atual estado do Pará, e as da região do Alto
Xingu, norte do estado do Mato Grosso.
As sociedades amazônicas se organizavam a partir de aldeias que se interligavam e podiam formar grandes complexos urbanos. Além disso, desenvolveram
técnicas complexas de artesanato, cerâmica e produção de ferramentas diversas.
Culturas agrícolas da Amazônia
A ideia que predominou entre arqueólogos durante o século XX foi
a de uma Amazônia despovoada. Todavia, pesquisas feitas no final do
século XX oferecem outro panorama. A região é riquíssima em sítios
arqueológicos, que indicam uma ocupação iniciada há mais de 11 mil
anos e dão pistas valiosas sobre os hábitos de seus primeiros habitantes,
que viviam da caça, da pesca e da coleta.
Pesquisadores encontraram na Amazônia vestígios de sementes e
restos de plantas cultivadas, que são diferentes das plantas encontra
das na natureza, datados de 5000 a.C. Isso é um sinal de que ocorreu
ali um processo de domesticação de vegetais. Contudo, a agricultura
provavelmente só se tornou importante para as populações amazônicas por volta do ano 1000 a.C.
Segundo a arqueóloga Anna Roosevelt, os povos da região amazônica começaram a praticar a agricultura há cerca de 7 mil anos. Eles desenvolveram cultivos próprios, como plantas medicinais e corantes; mas a descoberta mais importante desses grupos foi o cultivo da cultivo da mandioca, raiz de alto valor nutritivo com algumas variedades venenosas.
A região amazônica teve destaque na introdução
da agricultura nas terras que atualmente compõem o
território brasileiro.
Segundo o arqueólogo Eduardo Góes Neves, é provável que povos da Amazônia tenham desenvolvido formas iniciais de agricultura a partir de 6000 a.C.
Por volta de 1000 a.C., esses povos já adotavam modos de vida plenamente
agrícolas. Isso contribuiu para que a população aumentasse e migrasse para
outras regiões do atual Brasil.
Nesse período, as sociedades estabelecidas nas várzeas do Rio
Amazonas, no norte do Brasil, e do Rio Orinoco, na atual Venezuela,
tornaram-se bastante numerosas e passaram a ser comandadas por
elites dirigentes, formando os chamados cacicados complexos.
Os cacicados eram uma forma de organização social e política em
que aldeias populosas estavam submetidas a um chefe poderoso, que
cobrava tributos e liderava guerras contra os vizinhos pelo controle
de recursos naturais. A sociedade era dividida em diferentes estratos,
o que tornava algumas pessoas mais importantes que outras. Também
havia quem se dedicasse a atividades específicas, como o artesanato,
a pesca e a agricultura.
Os cacicados eram formados por enormes áreas cultivadas com
várias espécies de planta. Seus habitantes criavam tartarugas e
peixes em viveiros e produziam um artesanato sofisticado, que era comercializado com outros povos. Além disso, eles realizavam obras
de terraplenagem e irrigação. Na Ilha de Marajó, por exemplo, foram
encontrados extensos morros artificiais construídos para evitar que
as vilas, densamente povoadas, fossem atingidas pela cheia dos rios
na época das chuvas.
Entre as plantas cultivadas por esses povos estão
mandioca, pupunha, abacaxi, maracujá, cacau, feijão, amendoim, tomate, abóbora, açaí e tabaco. Atualmente, essas plantas são amplamente comercializa
das e consumidas em várias regiões do mundo, como a América Latina, África,
Ásia e Europa.
Os povos ceramistas
Nas terras que hoje formam o Brasil, a agricultura começou a ser
praticada há cerca de 7 mil anos e parece ter sido quase sempre uma
atividade complementar à caça e à coleta.
Nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, pesquisadores encontraram vestígios de povos que produziram peças de cerâmica escura
relativamente pequenas e com paredes finas. Essa tradição ceramista,
conhecida como Itararé-Taquara, desenvolveu-se há cerca de 2 mil
anos e tinha características semelhantes às de culturas nativas que
existiram na mesma época na Argentina e no Uruguai.
Os povos dessa tradição alimentavam-se de produtos coletados na
região, como o pinhão, e da caça de pequenos animais. Há indícios de
que cultivavam amendoim, feijão e abóbora. Suas casas eram subterrâneas e apresentavam túneis, onde eles guardavam alimentos e por onde fugiam ou se abrigavam quando eram atacados por inimigos.
Também há cerca de 2 mil anos, espalharam-se pela região central
do Brasil grupos humanos da tradição Una. Esses povos fabricavam
instrumentos de pedra polida e objetos de cerâmica e viviam da caça,
da coleta de frutos silvestres, da pesca e do cultivo de alguns alimentos,
principalmente o milho.
Na região central do país também foram encontrados vestígios
da tradição Aratu-Sapucaí. Ela é associada à construção de grandes
aldeias, com cabanas dispostas em círculo, e à fabricação de tecidos e
objetos de pedra, além de uma cerâmica bastante simples, constituída
de vasilhas e urnas funerárias para sepultar os mortos.
Os povos ceramistas da Amazônia
Os povos ceramistas e agricultores da Amazônia produziam suas cerâmicas coletivamente, utilizando argila coletada nos rios da região. Com esse material eles
produziam diferentes peças, como estatuetas, vasos e outros utensílios.
Eles costumavam decorar esses artefatos com o uso de gravetos e ossos de animais, fazendo
marcações na argila ainda úmida. Depois de secas ao sol, as peças eram levadas a
altas temperaturas para que adquirissem rigidez e resistência.
Os vasos cerâmicos eram utiliza
dos para transportar água, guardar
os alimentos e cozinhá-los. Foram
encontrados também grandes vasos usados como urnas funerárias.
É provável que a produção de cerâmica tenha
sido iniciada no território brasileiro na mesma
época em que começou o cultivo de alimentos.
A atividade ceramista era exercida provavelmente por mulheres.
Estatueta da cultura Santarém.
c. 1000 a 1400. Cerâmica
restaurada, 23 × 28 cm.
Museu Paraense Emílio Goeldi,
Belém (PA).
Uma das mais antigas cerâmicas do Brasil
foi encontrada em um sambaqui da região
de Santarém, na junção do rio Tapajós com o
Amazonas. O fato de ela estar associada a um
sambaqui, e não à agricultura, nos leva a questionar a ideia de que a cerâmica foi desenvolvida
exclusivamente para armazenar grãos e cozinhar
alimentos.
É possível que algumas sociedades
ameríndias tenham produzido peças de cerâmica para fins cerimoniais. Exemplo disso são as urnas funerárias,
recipientes com tampa nos quais o corpo ou os ossos do morto
eram depositados.
A região amazônica também teve um importante papel na introdução da cerâmica. Foram encontradas cerâmicas no atual estado do Pará que datam de cerca de
5000 a.C. As cerâmicas amazônicas são consideradas
as mais antigas das Américas.
Os povos ceramistas da
Amazônia confeccionavam objetos como potes, vasos,
panelas, tigelas etc.
Embora exista uma forte relação entre o desenvolvimento da cerâmica e o da agricultura, isso não quer
dizer que todo povo ceramista fosse agricultor. Havia,
inclusive, povos caçadores-coletores que produziam
cerâmicas.
Entre os povos amazônicos, vamos destacar aqueles
que viviam no atual município de Santarém e na Ilha
de Marajó, ambos pertencentes ao atual estado do
Pará, há cerca de 2000 anos. Nessas regiões, foram
encontradas cerâmicas originais e bem elaboradas.
Foi na ilha de Marajó, na foz do Rio Amazonas, entre os séculos IV e XIV, que se desenvolveu a mais notável cultura amazônica: a volveu a mais notável cultura amazônica: a cultura marajoara. Os marajoaras parecem ter tido uma organização social complexa. Até o presente, nossa principal fonte para o conhecimento desse povo são os objetos de cerâmica que produziram.
A cerâmica marajoara era decorada com desenhos sugestivos e variados e com pinturas policromáticas. As cores mais usadas por eles eram o vermelho, o branco e o preto. Muitas de suas eles eram o vermelho, o branco e o preto. Muitas de suas urnas funerárias funerárias traziam representações do corpo feminino, o que, para alguns pesquisadores, demonstra a importância que as mulheres tinham na sociedade marajoara.
Vaso marajoara de cerâmica. Os marajoaras
usavam símbolos geométricos e grafismos
para decorar suas peças.
Os povos santarenos e marajoaras produziram diversos objetos de cerâmica, como
recipientes decorados, urnas funerárias e estatuetas com forma de seres humanos (antropomórficas) e de animais (zoomórficas).
Pingentes em forma de batráquios produzidos
com rochas diversas coletados no Complexo
Tapajós, em Santarém (PA).
Os povos santarenos e marajoaras produziram diversos objetos de cerâmica, como recipientes decorados, urnas funerárias e estatuetas com forma de seres humanos (antropomórficas) e de animais (zoomórficas).
Os santarenos criaram cerâmicas com pinturas, desenhos em relevo e esculturas que
eram moldadas separadamente e aplicadas nas bordas dos vasos. Já os marajoaras produziram objetos de cerâmica enfeitados com pinturas em preto e vermelho sobre um
fundo branco. Para alguns estudiosos, essas pinturas estão entre as mais belas do mundo.
Recipiente santareno decorado com esculturas em forma de
cabeça de urubu. Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém, Pará.
Os santarenos criaram cerâmicas com pinturas, desenhos em relevo e esculturas que eram moldadas separadamente e aplicadas nas bordas dos vasos. Já
os marajoaras produziram objetos de cerâmica enfeitados com pinturas em preto e vermelho sobre um fundo branco. Para alguns estudiosos, essas pinturas
são consideradas uma das mais belas do mundo.
Povo de Lagoa Santa
O primeiro cientista a estudar vestígios arqueológicos no Brasil, o dinamarquês Peter Lund, encontrou, em 1843, ossadas humanas e de animais extintos na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais. Nos anos de 1970, nessa mesma região, outros cientistas descobriram a maior coleção de esqueletos disponíveis para o estudo dos primeiros habitantes da América, incluindo Luzia.
Luzia e seu povo viveram na atual região de Lagoa Santa, no
estado de Minas Gerais, a poucos quilômetros de onde atualmente
fica Belo Horizonte.
Reconstituição
artístico-científica,
feita em 2000, do
provável rosto de
Luzia, com base no
crânio encontrado
em Lagoa Santa
(MG), em meados
dos anos 1970.
Os esqueletos encontrados permitem dizer que o povo de Lagoa Santa viveu entre 8 mil e 4 mil a.C.; que era baixo e magro e comia pequenos animais, frutos, peixes e caramujos grandes que viviam nos rios. Sua expectativa de vida era baixa: muitas crianças morriam cedo e pouquíssimos adultos atingiam 30 anos de idade. Veja a seguir algumas representações de objetos deixados pelo povo de Lagoa Santa.
Andavam em grupos de aproximadamente 25 pessoas e eram
nômades, ou seja, não se fixavam por longos períodos no mesmo
lugar. Tinham um acampamento base, no qual passavam a maior
parte do tempo, e alguns acampamentos mais distantes, utilizados
em seus deslocamentos em busca de comida. Construíam palhoças
como moradias ou dormiam em cavernas.
Como não dominavam a técnica da agricultura, sobreviviam
da caça e da coleta de frutas, como o pequi, o jatobá, o araçá, e de
vegetais. Enquanto a caça era praticada pelos homens, as colheitas
eram realizadas por mulheres e crianças.
Os primeiros habitantes de Lagoa Santa chegaram a conviver
com mamíferos gigantes, que desapareceram há cerca de 9 mil
anos, como o tigre-dentes-de-sabre e a preguiça-gigante, que
podia ter 6 metros de comprimento e pesar até 5 toneladas.
Povo da Serra da Capivara
No sudeste do estado do Piauí, a 530 km
da capital Teresina, está localizado o Parque
Nacional da Serra da Capivara, área com a
maior quantidade de sítios arqueológicos da
América e com a maior quantidade de pinturas rupestres do mundo.
A região da Serra da Capivara, no interior do Piauí, é um sítio
arqueológico que tem provocado muitas discussões entre especialistas.
Apoiada em pesquisas de campo, a arqueóloga Niède Guidon
(1933-) afirma que já havia seres humanos na região há cerca de
50 mil anos. Muitos estudiosos discordam dessa data. Caso esteja
correta, os cientistas serão obrigados a rever suas teorias a respeito
de quando e como teve início o povoamento da América.
O parque é tão importante que foi declarado Patrimônio Cultural da Humanidade
pela Unesco, em 1991. As cerâmicas lá encontradas têm cerca de 9 mil anos. Alguns
estudiosos consideram essas cerâmicas as
mais antigas do continente. Já as pinturas
rupestres em azul, conhecidas como veadinhos azuis, foram as primeiras dessa cor
descobertas no mundo.
Pintura rupestre no Parque
Nacional Serra da Capivara,
São Raimundo Nonato,
Piauí. Detalhe. Alguns
pesquisadores defendem
que as pinturas desse local
teriam quase 30 mil anos.
Seja como for, acredita-se que esses povos se organizavam
em pequenos grupos em lugares próximos a fontes de água,
viviam da caça e da coleta de alimentos, e produziam ferramentas
de pedra. Uma de suas principais características era o hábito de
fazer inscrições nos paredões rochosos
da região.
Pinturas rupestres de cerca de 12 mil anos no
Parque Nacional Serra da Capivara, em São
Raimundo Nonato (PI).
Muitas dessas pinturas mostram
animais (veados, emas, lagartos) e
aspectos da vida cotidiana do grupo (a
caça e os ritos cerimoniais). Por volta
de 3,5 mil anos atrás, esses povos já
dominavam a agricultura e fabricavam
objetos de cerâmica.
Esses grupos humanos viviam na
Serra da Capivara quando os europeus
chegaram à América, entre os séculos
XV e XVI.
O povo de Umbu
Alguns vestígios humanos encontrados nos atuais estados de São Paulo e do Rio
Grande do Sul apontam para a presença de outros grupos de caçadores-coletores
que teriam vivido no território que hoje corresponde ao Brasil há cerca de 6 mil anos.
Conhecidos como povo de Umbu, ou povo da flecha, esses grupos nômades produziam diversos instrumentos derivados de rochas, como o sílex, o quartzo e o
arenito, além de agulhas e anzóis feitos de ossos de animais.
Esses grupos habitavam
cavernas e caçavam animais de pequeno porte utilizando flechas e boleadeiras. Para
se alimentar, também coletavam frutos, raízes e vegetais.
A MEGAFAUNA DO QUATERNÁRIO
Os grandes animais que viviam na América e em outros continentes até o fim
da última glaciação eram mamíferos e são conhecidos hoje por “megafauna do
Quaternário”: fauna refere-se a “reino animal” e mega significa “muito grande”. Nos
últimos 50 mil anos, esses animais entraram em processo de extinção em todos os
continentes. Na América do Sul, contudo, 83% da megafauna desapareceu, índice
muito maior que o da África, de apenas 10%.
Ainda hoje os cientistas que estudam o desaparecimento da megafauna não
têm certeza absoluta do que causou a sua extinção. Mas eles suspeitam que as
variações climáticas ocorridas ao final da última glaciação e a ação humana podem
ter sido as responsáveis.
No caso das variações climáticas, acredita-se que a elevação da temperatura e
da umidade ao longo dos anos, com a consequente redução das áreas de savanas,
principal hábitat da maior parte desses animais, inviabilizou sua sobrevivência.
No caso da ação humana, a hipótese é que os primeiros habitantes do continente americano podem ter caçado animais em excesso, ou destruído paisagens
naturais de onde muitas espécies obtinham o alimento, causando a sua extinção.
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