segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Os povoadores do território brasileiro

O território que hoje faz parte do Brasil era habitado por diferentes grupos humanos há milhares de anos. Esses grupos viveram em diferentes épocas e lugares, e cada um deles tinha seu próprio modo de vida.
Estudos indicam que, milhares de anos atrás, o ambiente da região onde mais tarde seria o Brasil era diferente do atual: o nível do mar era mais baixo – o que tornava o litoral mais extenso –, os cerrados cobriam grande parte do território e as florestas eram menores. O clima era mais seco e mais frio. Já havia animais como tatus, preguiças, antas e macacos, além da preguiça-gigante e do tigre-dente-de-sabre, animais extintos da megafauna.
Os primeiros habitantes do território que corresponde ao Brasil atual viviam da caça e da coleta. Contudo, à medida que se deslocavam, transformavam o ambiente e se adaptavam aos recursos naturais encontrados, esses povos foram se diferenciando e desenvolvendo novas formas de viver e de se organizar.
As discussões entre os arqueólogos para determinar quais rotas os grupos humanos percorreram para chegar à América e quando isso teria acontecido também se repetem, evidentemente, quando o assunto é o povoamento do território brasileiro. Até o momento, o que é aceito pelos cientistas é que, há pelo menos 12 mil anos, o território que hoje corresponde ao Brasil já era ocupado por pequenos grupos de caçadores e coletores. 
De acordo com estudos publicados em 2018, os primeiros seres humanos chegaram à América há cerca de 17 mil anos, e o povoamento da região que corresponde à atual América do Sul aconteceu a partir de duas levas migratórias: a primeira ocorreu entre 15 e 11 mil anos atrás, e a segunda, há 9 mil anos.
Pontas de lança e de flechas feitas de sílex e quartzo encontradas em sítios arqueológicos no Brasil, fabricadas e utilizadas por grupos caçadores-coletores da Pré-História.

Essas pesquisas chegaram a tais conclusões com base em análises genéticas detalhadas dos fósseis humanos encontrados na América. De acordo com tais análises, os grupos que povoaram o continente eram formados apenas por populações mongoloides e deram origem aos diversos povos indígenas que o ocuparam.
Estudos mais recentes, porém, indicam que dois grupos – de origem mongoloide e não mongoloide – compuseram as primeiras populações do território hoje chamado de Brasil. No decorrer dos séculos, os povos indígenas de origem não mongoloide desapareceram, e os cientistas ainda não sabem explicar as razões para isso. Uma das hipóteses é que tenham se extinguido após terem contato com os europeus, que chegaram à América a partir do século XV.
Os vestígios mais antigos já encontrados sobre os primeiros habitantes que viviam nas terras onde hoje fica o Brasil estão no sítio arqueológico da Pedra Furada, no Piauí. Lá foram encontrados objetos de pedra e inúmeras pinturas rupestres, nas quais estão registrados elementos da flora e da fauna e cenas de caça, coleta, danças e guerras. 
No mesmo local foram descobertos vestígios fossilizados de carvão sobre os quais existe uma discussão científica. Alguns pesquisadores argumentam que são restos de fogueiras feitas por seres humanos; outros defendem que são resultados da ação da natureza. 
Testes realizados pela equipe da arqueóloga Niède Guidon revelaram a provável idade desses vestígios: entre 60 mil e 100 mil anos, o que contraria os resultados dos estudos genéticos feitos nas ossadas encontradas em outros sítios arqueológicos da América.
Pesquisas arqueológicas feitas pelo cientista brasileiro Walter Neves, entre o final do século XX e o início deste século, identificaram em Lagoa Santa, Minas Gerais, diversas evidências dos primeiros habitantes do Brasil. Nas escavações foram encontrados, por exemplo, objetos pontiagudos de pedra e ossos, além de sepulturas com ossadas humanas de adultos e crianças. 
Na época, concluiu-se que a origem dos antigos habitantes poderia ser africana ou sul-asiática; essa pesquisa ficou amplamente conhecida a partir da divulgação das imagens do crânio de uma mulher apelidada de Luzia, a primeira brasileira. Na ocasião, foi feita uma reconstrução facial do provável aspecto de Luzia, que teria traços predominantemente africanos.
Recentemente, outras pesquisas com base no material genético das mesmas ossadas questionam as conclusões sobre a origem africana daqueles habitantes ancestrais e reafirmam seus argumentos em defesa da origem asiática. As novas tecnologias de busca e análise de sítios arqueológicos, bem como a possibilidade de novas descobertas, podem vir a modificar as teorias já existentes.  
Os primeiros habitantes do Brasil viviam principalmente em habitações a céu aberto ou em abrigos sob rochas e, às vezes, em cavernas. No interior das cavernas, os moradores costumavam fazer pinturas que mostravam cenas da vida cotidiana, figuras de animais e de pessoas.
A descoberta de vestígios como artefatos de pedra, anzóis feitos de ossos e conchas per furadas indica que tais povos praticavam a caça, a pesca e a coleta. 
Os mais antigos vestígios de agricultura no território brasileiro datam de aproximadamente 7 mil anos atrás e foram encontrados na região amazônica. Os primeiros agricultores plantavam milho, algodão e feijão, mas a mandioca era o principal cultivo. Raiz rica em calorias, ainda hoje é uma fonte de energia fundamental para milhares de pessoas no Brasil. Como aconteceu em outras regiões do mundo, mesmo após a descoberta da agricultura, diversos povos continuaram sendo, basicamente, caçadores e coletores. Assim, os povos agricultores mantiveram a caça e a pesca como parte das suas atividades cotidianas.

Caçadores-coletores


Os povos caçadores-coletores viviam da caça, da pesca e da coleta de alimentos. Não praticavam a agricultura, mas tinham o domínio do fogo e fabricavam instrumentos variados, feitos de pedra e de ossos. Embora existam muitas semelhanças entre os modos de vida dos primeiros povos caçadores-coletores, também é possível identificar diferenças entre eles. Aliando trabalho e criatividade, esses povos desenvolveram culturas próprias.
A maioria das informações que temos sobre eles vem de inscrições rupestres e dos vestígios de seus instrumentos, ali mentos e habitações. No estado de São Paulo, por exemplo, os pesquisadores acharam diversos tipos de ponta de flecha. Em Minas Gerais e no Piauí, descobriram uma grande quantidade de pinturas rupestres que provavelmente foram elaboradas por esses povos.
Já no Rio Grande do Sul, foram encontradas facas de pedra em forma de bumerangue e boleadeiras, que é um instrumento composto de duas ou três bolas de pedra amarradas por um cordão, feito geralmente de couro. As boleadeiras eram lançadas nas patas do animal para derrubá-lo. Até hoje elas são usadas por alguns gaúchos que vivem no campo e criam animais.

Os povos dos sambaquis 


Por volta de 11 mil anos atrás, a temperatura terrestre começou a se elevar, provocando o gradativo derretimento das geleiras e, consequentemente, o aumento do nível dos oceanos. Com essa mudança climática, muitos grupos instalaram-se no litoral, pois o oceano tornou-se uma fonte de alimentos fundamental. 
Há aproximadamente 6 mil anos, no litoral dos atuais estados de Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, viveram comunidades que se sedentarizaram na região, praticando a caça, a coleta e o cultivo de tubérculos e vegetais. Além de manter as atividades de caça e coleta, esses povos passaram a consumir peixes, moluscos e crustáceos. Esses povos construíram verdadeiras montanhas de conchas, chamadas sambaquis e, por isso, são chamados de sambaquieiros.
Sambaqui (palavra de origem tupi que significa “monte de conchas”) é um acúmulo de conchas de moluscos e restos de animais, como peixes e aves, que essas comunidades depositaram em determinados locais ao longo do tempo. Existem sambaquis que atingem até 30 metros de altura e 400 metros de comprimento por 100 metros de largura.
O sambaqui mais antigo do Brasil fica no Vale do Ribeira, no interior do estado de São Paulo, e tem cerca de 9 mil anos de existência. Porém, a maior parte dos sambaquis brasileiros está no litoral e os mais antigos têm aproximadamente 7,5 mil anos de existência.
Os cientistas não sabem as razões pelas quais os sambaquieiros – nome dado aos moradores dos sambaquis – faziam essas elevações. Eles acreditam que, quanto mais alto fosse um sambaqui, maior seria o prestígio das pessoas que viviam nele. Os sambaquieiros construíam suas residências e enterravam seus mortos nessas elevações. 
Os estudos dos sambaquis sugerem que, até por volta de mil anos atrás, muitos desses povos formavam aldeias com cerca de 150 habitantes. Viviam da coleta, da caça e, principalmente, da pesca. Utilizavam instrumentos feitos de pedra (enfeites, facas, flechas, machados) e de osso (ar pões, agulhas, anzóis). Tinham também o domínio do fogo e assavam os alimentos. Os povos dos sambaquis tornaram-se, portanto, sedentários, mesmo não baseando sua subsistência na prática da agricultura.
Nos diversos sambaquis, os arqueólogos encontraram esculturas e artefatos de pedra, osso, madeira e dentes de tubarão. A descoberta mais reveladora da provável função dos sambaquis, porém, foram os esqueletos de crianças, mulheres e homens, indicando que se tratavam de cemitérios coletivos.  
Os sambaquis eram utilizados para enterrar os mortos e seus objetos pessoais (enfeites, utensílios e armas). Isso indica que, provavelmente, já existia entre os sambaquieiros uma preocupação religiosa com a morte. Esses povos também costumavam construir suas habitações sobre os montes de conchas.
Pesquisas recentes demonstram que os povos dos sambaquis escolheram as conchas como material de construção porque, empilhadas de forma organizada, elas funcionam como um cimento que não se dissolve facilmente com o passar do tempo. Assim, os sambaquieiros garantiam aos mortos uma posição de destaque nas planícies do litoral.

Sambaqui do sítio arqueológico Santa Marta III, em Laguna (SC).


Há sambaquis nas regiões Sul, Norte e Sudeste do Brasil, nos Estados Unidos, no Peru e no Chile. Alguns têm mais de 8 mil anos. Neles, os arqueólogos encontraram importantes vestígios da presença humana, como restos de alimentos (ossos de animais) e de fogueiras, artefatos e zoólitos (esculturas em forma de animais da fauna local) feitos de pedra polida, além de vestígios de moradias e de sepultamentos.
Além disso, a existência de vários sambaquis próximos uns dos outros revela que essas comunidades desenvolveram relações organizadas para explorar os recursos naturais da região.
A expansão territorial dos sambaquieiros durou cerca de 5 mil anos e foi interrompida pela ocupação de grande parte do litoral e parte do interior por aldeias da etnia Tupi.
Os sambaquis das regiões Sul e Sudeste são os mais conheci dos e estudados do Brasil. Existe, porém, grande quantidade de sambaquis na região da Amazônia, em especial no litoral do Pará. Alguns deles são tão grandes que chegam a atingir 30 metros de altura e 400 metros de comprimento. Os sambaquis litorâneos, que são os mais antigos, podem ter 7 mil anos de idade ou mais. Nesses sítios arqueológicos foram encontradas peças feitas de cerâmica e artefatos de pedra polida.
Mais do que montes formados de material orgânico e calcário, os sambaquis impressionam por seu tamanho e intrigam por sua finalidade. Atualmente, acredita-se que o sambaqui era um local preparado para enterrar os mortos e depositar oferendas. Isso explicaria os esqueletos humanos descobertos nesses locais, cada um deles protegido por uma cerca, como se fosse um ritual funerário.
Os sambaquieiros dispunham de comida abundante proveniente da caça, da pesca e da coleta de alimentos. Por isso, podiam permanecer por um bom tempo no mesmo lugar. Os povos dos sambaquis desapareceram ao longo do século XVI.

Conchas de sambaquis no sítio arqueológico Ponta da Garopaba do Sul, em Jaguaruna, SC.

Os sambaquis fazem parte do patrimônio arqueológico do Brasil, mas sua preservação está ameaçada pela atividade de exploração do calcário, largamente utilizado para a produção de cimento e cal.
À medida que as pesquisas em sítios arqueológicos no território brasileiro se ampliarem, outras informações poderão complementar ou modificar as teorias existentes sobre o modo de vida dos povos dos sambaquis.

Destruição dos sambaquis


No final do século XV, com a chegada dos europeus ao continente americano, muitos sambaquis foram destruídos. Alguns portugueses tiravam as conchas dos sambaquis para fabricar cal (material usado na construção de habitações).
Atualmente, a preservação dos sambaquis continua sendo ameaçada. Eles são destruídos com o objetivo, por exemplo, de abrir caminho para novas construções ou de extrair materiais para a produção agrícola. Também é comum os sambaquis se deteriorarem por causa do trânsito de pessoas e de veículos, sobretudo em áreas litorâneas exploradas pelo turismo.
Apesar desse processo de destruição, ainda existem sambaquis no litoral brasileiro, muitos deles estudados por equipes de arqueólogos e historiadores. 
Os sambaquis estão localizados desde o estado do Rio Grande do Sul até o Espírito Santo. Têm idades variadas, em bora seja difícil dizer exatamente quando foram formados. Alguns, como o de Capelinha (São Paulo), têm cerca de 8 mil anos. Outros, como os de Paranaguá (Paraná), têm entre 6 mil e 7 mil anos. 

As sociedades amazônicas 


No início do século XIX, naturalistas europeus encontraram cemitérios indígenas às margens de diversos rios da floresta Amazônica. Nesses locais, foram encontrados artefatos de cerâmica que datam de mais de 4 mil anos. Essas descobertas impulsionaram o estudo sobre os povos ceramistas que habitaram a Região Norte do Brasil.
Em suas pesquisas, os arqueólogos encontraram provas de que o ser humano já habitava a Amazônia há cerca de 12 mil anos. Segundo suas investigações, as pessoas da região organizavam-se nessa época em pequenos grupos e viviam da caça e da coleta de alimentos na natureza.
Por oferecer uma variedade muito grande de recursos naturais, a região amazônica passou a atrair diversos grupos nômades, que começaram a viver no interior das florestas e nas proximidades de rios e outras fontes de água. 
Hoje se sabe que esses povos ceramistas eram agricultores. Como cultivavam os próprios alimentos, eles eram essencialmente sedentários. Suas moradias eram construídas de acordo com as condições geográficas dos lugares que habitavam. Para evitar que suas aldeias fossem alagadas pelas águas dos rios nas épocas de cheias, esses povos as construíam em morros artificiais chamados tesos.
Entre 3 mil e mil anos atrás, surgiram sociedades mais complexas, ou seja, com uma organização social hierárquica e uma produção artesanal desenvolvida.
Esses grupos inicialmente praticavam a caça, a pesca e a coleta de frutos e se mentes. Aos poucos, as atividades de extração e consumo de recursos naturais provocaram grandes modificações na paisagem amazônica. As sementes de árvores e de plantas que forneciam alimentos eram descartadas pelos seres humanos, o que propiciou a disseminação dessas espécies pelas terras da região, processo ligado à origem do domínio de práticas agrícolas por esses grupos e que, posterior mente, levou à sedentarização deles, formando grandes sociedades amazônicas.
O desenvolvimento das práticas agrícolas e a transformação da paisagem amazônica possibilitaram o crescimento populacional das sociedades que se estabeleceram na região, o que deu origem a grandes civilizações, como as culturas marajoara e tapajônica, no atual estado do Pará, e as da região do Alto Xingu, norte do estado do Mato Grosso. 
As sociedades amazônicas se organizavam a partir de aldeias que se interligavam e podiam formar grandes complexos urbanos. Além disso, desenvolveram técnicas complexas de artesanato, cerâmica e produção de ferramentas diversas.

Culturas agrícolas da Amazônia


A ideia que predominou entre arqueólogos durante o século XX foi a de uma Amazônia despovoada. Todavia, pesquisas feitas no final do século XX oferecem outro panorama. A região é riquíssima em sítios arqueológicos, que indicam uma ocupação iniciada há mais de 11 mil anos e dão pistas valiosas sobre os hábitos de seus primeiros habitantes, que viviam da caça, da pesca e da coleta.
Pesquisadores encontraram na Amazônia vestígios de sementes e restos de plantas cultivadas, que são diferentes das plantas encontra das na natureza, datados de 5000 a.C. Isso é um sinal de que ocorreu ali um processo de domesticação de vegetais. Contudo, a agricultura provavelmente só se tornou importante para as populações amazônicas por volta do ano 1000 a.C.
Segundo a arqueóloga Anna Roosevelt, os povos da região amazônica começaram a  praticar a agricultura há cerca de 7 mil anos. Eles desenvolveram cultivos próprios, como plantas medicinais e corantes; mas a descoberta mais importante desses grupos foi o cultivo da cultivo da mandioca, raiz de alto valor nutritivo com algumas variedades venenosas.
A região amazônica teve destaque na introdução da agricultura nas terras que atualmente compõem o território brasileiro. 
Segundo o arqueólogo Eduardo Góes Neves, é provável que povos da Amazônia tenham desenvolvido formas iniciais de agricultura a partir de 6000 a.C. Por volta de 1000 a.C., esses povos já adotavam modos de vida plenamente agrícolas. Isso contribuiu para que a população aumentasse e migrasse para outras regiões do atual Brasil. 
Nesse período, as sociedades estabelecidas nas várzeas do Rio Amazonas, no norte do Brasil, e do Rio Orinoco, na atual Venezuela, tornaram-se bastante numerosas e passaram a ser comandadas por elites dirigentes, formando os chamados cacicados complexos.
Os cacicados eram uma forma de organização social e política em que aldeias populosas estavam submetidas a um chefe poderoso, que cobrava tributos e liderava guerras contra os vizinhos pelo controle de recursos naturais. A sociedade era dividida em diferentes estratos, o que tornava algumas pessoas mais importantes que outras. Também havia quem se dedicasse a atividades específicas, como o artesanato, a pesca e a agricultura.
Os cacicados eram formados por enormes áreas cultivadas com várias espécies de planta. Seus habitantes criavam tartarugas e peixes em viveiros e produziam um artesanato sofisticado, que era comercializado com outros povos. Além disso, eles realizavam obras de terraplenagem e irrigação. Na Ilha de Marajó, por exemplo, foram encontrados extensos morros artificiais construídos para evitar que as vilas, densamente povoadas, fossem atingidas pela cheia dos rios na época das chuvas.
Entre as plantas cultivadas por esses povos estão mandioca, pupunha, abacaxi, maracujá, cacau, feijão, amendoim, tomate, abóbora, açaí e tabaco. Atualmente, essas plantas são amplamente comercializa das e consumidas em várias regiões do mundo, como a América Latina, África, Ásia e Europa.

Os povos ceramistas


Nas terras que hoje formam o Brasil, a agricultura começou a ser praticada há cerca de 7 mil anos e parece ter sido quase sempre uma atividade complementar à caça e à coleta. 
Nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, pesquisadores encontraram vestígios de povos que produziram peças de cerâmica escura relativamente pequenas e com paredes finas. Essa tradição ceramista, conhecida como Itararé-Taquara, desenvolveu-se há cerca de 2 mil anos e tinha características semelhantes às de culturas nativas que existiram na mesma época na Argentina e no Uruguai.
Os povos dessa tradição alimentavam-se de produtos coletados na região, como o pinhão, e da caça de pequenos animais. Há indícios de que cultivavam amendoim, feijão e abóbora. Suas casas eram subterrâneas e apresentavam túneis, onde eles guardavam alimentos e por onde fugiam ou se abrigavam quando eram atacados por inimigos. 
Também há cerca de 2 mil anos, espalharam-se pela região central do Brasil grupos humanos da tradição Una. Esses povos fabricavam instrumentos de pedra polida e objetos de cerâmica e viviam da caça, da coleta de frutos silvestres, da pesca e do cultivo de alguns alimentos, principalmente o milho.
Na região central do país também foram encontrados vestígios da tradição Aratu-Sapucaí. Ela é associada à construção de grandes aldeias, com cabanas dispostas em círculo, e à fabricação de tecidos e objetos de pedra, além de uma cerâmica bastante simples, constituída de vasilhas e urnas funerárias para sepultar os mortos.

Os povos ceramistas da Amazônia


Os povos ceramistas e agricultores da Amazônia produziam suas cerâmicas coletivamente, utilizando argila coletada nos rios da região. Com esse material eles produziam diferentes peças, como estatuetas, vasos e outros utensílios. 
Eles costumavam decorar esses artefatos com o uso de gravetos e ossos de animais, fazendo marcações na argila ainda úmida. Depois de secas ao sol, as peças eram levadas a altas temperaturas para que adquirissem rigidez e resistência.
Os vasos cerâmicos eram utiliza dos para transportar água, guardar os alimentos e cozinhá-los. Foram encontrados também grandes vasos usados como urnas funerárias.
É provável que a produção de cerâmica tenha sido iniciada no território brasileiro na mesma época em que começou o cultivo de alimentos. A atividade ceramista era exercida provavelmente por mulheres.

Estatueta da cultura Santarém. c. 1000 a 1400. Cerâmica restaurada, 23 × 28 cm. Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém (PA).

Uma das mais antigas cerâmicas do Brasil foi encontrada em um sambaqui da região de Santarém, na junção do rio Tapajós com o Amazonas. O fato de ela estar associada a um sambaqui, e não à agricultura, nos leva a questionar a ideia de que a cerâmica foi desenvolvida exclusivamente para armazenar grãos e cozinhar alimentos. 
É possível que algumas sociedades ameríndias tenham produzido peças de cerâmica para fins cerimoniais. Exemplo disso são as urnas funerárias, recipientes com tampa nos quais o corpo ou os ossos do morto eram depositados.
A região amazônica também teve um importante papel na introdução da cerâmica. Foram encontradas cerâmicas no atual estado do Pará que datam de cerca de 5000 a.C. As cerâmicas amazônicas são consideradas as mais antigas das Américas. 
Os povos ceramistas da Amazônia confeccionavam objetos como potes, vasos, panelas, tigelas etc. Embora exista uma forte relação entre o desenvolvimento da cerâmica e o da agricultura, isso não quer dizer que todo povo ceramista fosse agricultor. Havia, inclusive, povos caçadores-coletores que produziam cerâmicas. 
Entre os povos amazônicos, vamos destacar aqueles que viviam no atual município de Santarém e na Ilha de Marajó, ambos pertencentes ao atual estado do Pará, há cerca de 2000 anos. Nessas regiões, foram encontradas cerâmicas originais e bem elaboradas.
Foi na ilha de Marajó, na foz do Rio Amazonas, entre os séculos IV e XIV, que se desenvolveu a mais notável cultura amazônica: a volveu a mais notável cultura amazônica: a cultura marajoara. Os marajoaras parecem ter tido uma organização social complexa. Até o presente, nossa principal fonte para o conhecimento desse povo são os objetos de cerâmica que produziram.
A cerâmica marajoara era decorada com desenhos sugestivos  e variados e com pinturas policromáticas. As cores mais usadas por eles eram o vermelho, o branco e o preto. Muitas de suas eles eram o vermelho, o branco e o preto. Muitas de suas urnas funerárias funerárias traziam representações do corpo feminino, o que, para alguns pesquisadores, demonstra a importância que as mulheres tinham na sociedade marajoara.

Vaso marajoara de cerâmica. Os marajoaras usavam símbolos geométricos e grafismos para decorar suas peças. 

Vaso marajoara que pertence ao acervo do Museu de História Natural de Nova York (EUA).

Os povos santarenos e marajoaras produziram diversos objetos de cerâmica, como recipientes decorados, urnas funerárias e estatuetas com forma de seres humanos (antropomórficas) e de animais (zoomórficas). 

Cerâmica marajoara produzida entre 400 e 1400 d.C.

Pingentes em forma de batráquios produzidos com rochas diversas coletados no Complexo Tapajós, em Santarém (PA). 

Os povos santarenos e marajoaras produziram diversos objetos de cerâmica, como recipientes decorados, urnas funerárias e estatuetas com forma de seres humanos (antropomórficas) e de animais (zoomórficas).
Os santarenos criaram cerâmicas com pinturas, desenhos em relevo e esculturas que eram moldadas separadamente e aplicadas nas bordas dos vasos. Já os marajoaras produziram objetos de cerâmica enfeitados com pinturas em preto e vermelho sobre um fundo branco. Para alguns estudiosos, essas pinturas estão entre as mais belas do mundo. 

Recipiente santareno decorado com esculturas em forma de cabeça de urubu. Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém, Pará.

Os santarenos criaram cerâmicas com pinturas, desenhos em relevo e esculturas que eram moldadas separadamente e aplicadas nas bordas dos vasos. Já os marajoaras produziram objetos de cerâmica enfeitados com pinturas em preto e vermelho sobre um fundo branco. Para alguns estudiosos, essas pinturas são consideradas uma das mais belas do mundo. 

Povo de Lagoa Santa 


O primeiro cientista a estudar vestígios arqueológicos no Brasil, o dinamarquês Peter Lund, encontrou, em 1843, ossadas humanas e de animais extintos na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais. Nos anos de 1970, nessa mesma região, outros cientistas descobriram a maior coleção de esqueletos disponíveis para o estudo dos primeiros habitantes da América, incluindo Luzia.
Luzia e seu povo viveram na atual região de Lagoa Santa, no estado de Minas Gerais, a poucos quilômetros de onde atualmente fica Belo Horizonte.

Reconstituição artístico-científica, feita em 2000, do provável rosto de Luzia, com base no crânio encontrado em Lagoa Santa (MG), em meados dos anos 1970.

Os esqueletos encontrados permitem dizer que o povo de Lagoa Santa viveu entre 8 mil e 4 mil a.C.; que era baixo e magro e comia pequenos animais, frutos, peixes e caramujos grandes que viviam nos rios. Sua expectativa de vida era baixa: muitas crianças morriam cedo e pouquíssimos adultos atingiam 30 anos de idade. Veja a seguir algumas representações de objetos deixados pelo povo de Lagoa Santa.

  Machado de pedra.

  Anzol de osso.


 Concha de caramujo perfurada.


Andavam em grupos de aproximadamente 25 pessoas e eram nômades, ou seja, não se fixavam por longos períodos no mesmo lugar. Tinham um acampamento base, no qual passavam a maior parte do tempo, e alguns acampamentos mais distantes, utilizados em seus deslocamentos em busca de comida. Construíam palhoças como moradias ou dormiam em cavernas.
Como não dominavam a técnica da agricultura, sobreviviam da caça e da coleta de frutas, como o pequi, o jatobá, o araçá, e de vegetais. Enquanto a caça era praticada pelos homens, as colheitas eram realizadas por mulheres e crianças.
Os primeiros habitantes de Lagoa Santa chegaram a conviver com mamíferos gigantes, que desapareceram há cerca de 9 mil anos, como o tigre-dentes-de-sabre e a preguiça-gigante, que podia ter 6 metros de comprimento e pesar até 5 toneladas.

Povo da Serra da Capivara 


No sudeste do estado do Piauí, a 530 km da capital Teresina, está localizado o Parque Nacional da Serra da Capivara, área com a maior quantidade de sítios arqueológicos da América e com a maior quantidade de pinturas rupestres do mundo.
A região da Serra da Capivara, no interior do Piauí, é um sítio arqueológico que tem provocado muitas discussões entre especialistas. Apoiada em pesquisas de campo, a arqueóloga Niède Guidon (1933-) afirma que já havia seres humanos na região há cerca de 50 mil anos. Muitos estudiosos discordam dessa data. Caso esteja correta, os cientistas serão obrigados a rever suas teorias a respeito de quando e como teve início o povoamento da América.
O parque é tão importante que foi declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, em 1991. As cerâmicas lá encontradas têm cerca de 9 mil anos. Alguns estudiosos consideram essas cerâmicas as mais antigas do continente. Já as pinturas rupestres em azul, conhecidas como veadinhos azuis, foram as primeiras dessa cor descobertas no mundo.

Pintura rupestre no Parque Nacional Serra da Capivara, São Raimundo Nonato, Piauí. Detalhe. Alguns pesquisadores defendem que as pinturas desse local teriam quase 30 mil anos.

Seja como for, acredita-se que esses povos se organizavam em pequenos grupos em lugares próximos a fontes de água, viviam da caça e da coleta de alimentos, e produziam ferramentas de pedra. Uma de suas principais características era o hábito de fazer inscrições nos paredões rochosos da região.

Pinturas rupestres de cerca de 12 mil anos no Parque Nacional Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato (PI).


Muitas dessas pinturas mostram animais (veados, emas, lagartos) e aspectos da vida cotidiana do grupo (a caça e os ritos cerimoniais). Por volta de 3,5 mil anos atrás, esses povos já dominavam a agricultura e fabricavam objetos de cerâmica. Esses grupos humanos viviam na Serra da Capivara quando os europeus chegaram à América, entre os séculos XV e XVI.

O povo de Umbu 


Alguns vestígios humanos encontrados nos atuais estados de São Paulo e do Rio Grande do Sul apontam para a presença de outros grupos de caçadores-coletores que teriam vivido no território que hoje corresponde ao Brasil há cerca de 6 mil anos. 
Conhecidos como povo de Umbu, ou povo da flecha, esses grupos nômades produziam diversos instrumentos derivados de rochas, como o sílex, o quartzo e o arenito, além de agulhas e anzóis feitos de ossos de animais. 
Esses grupos habitavam cavernas e caçavam animais de pequeno porte utilizando flechas e boleadeiras. Para se alimentar, também coletavam frutos, raízes e vegetais.

A MEGAFAUNA DO QUATERNÁRIO 


Os grandes animais que viviam na América e em outros continentes até o fim da última glaciação eram mamíferos e são conhecidos hoje por “megafauna do Quaternário”: fauna refere-se a “reino animal” e mega significa “muito grande”. Nos últimos 50 mil anos, esses animais entraram em processo de extinção em todos os continentes. Na América do Sul, contudo, 83% da megafauna desapareceu, índice muito maior que o da África, de apenas 10%. 
Ainda hoje os cientistas que estudam o desaparecimento da megafauna não têm certeza absoluta do que causou a sua extinção. Mas eles suspeitam que as variações climáticas ocorridas ao final da última glaciação e a ação humana podem ter sido as responsáveis.
No caso das variações climáticas, acredita-se que a elevação da temperatura e da umidade ao longo dos anos, com a consequente redução das áreas de savanas, principal hábitat da maior parte desses animais, inviabilizou sua sobrevivência. No caso da ação humana, a hipótese é que os primeiros habitantes do continente americano podem ter caçado animais em excesso, ou destruído paisagens naturais de onde muitas espécies obtinham o alimento, causando a sua extinção. 

Os povoadores do território brasileiro

O território que hoje faz parte do Brasil era habitado por diferentes grupos humanos há milhares de anos. Esses grupos viveram em diferentes...