Diversidade étnica
A sociedade
africana se apresenta etnicamente diversa
em razão do grande número de povos que
vivem no continente. Essa heterogeneidade
se reflete na pluralidade de culturas: idiomas,
religiões, rituais, musicalidades, festas etc. Uma das formas de regionalizar a África
é o critério étnico-cultural, que considera a
África Subsaariana. Outra forma é o critério
geográfico, que, por sua vez, oferece a seguinte
divisão: Norte da África, África Oriental, África
Austral, África Ocidental e África Central.
Veja alguns aspectos
da sociedade africana com base na regionalização étnico-cultural.
Norte da África
O Norte da África, que coincide com parte do Magreb, é composto de cinco Estados-nações e pelo território do Saara Ocidental. A região estende-se ao longo do litoral do mar
Mediterrâneo e abrange grande parte do deserto do Saara.
O Norte da África é composto de uma população de maioria árabe. A partir
do século VII, o povo árabe disseminou a língua, a cultura e a religião islâmica
nessa região. O árabe é falado por mais de 150 milhões de africanos, além de
ser a língua oficial de sete países do continente.
Etnicamente, a maioria da população é formada pelos grupos camitas
(sobretudo berberes) e semitas (árabes). Os berberes constituem a maior parte
da população do Marrocos e das áreas montanhosas da Argélia. Nesse grupo,
destacam-se os tuaregues e os etíopes.
Embora os indicadores socioeconômicos sejam mais satisfatórios que o
restante do continente, alguns dos principais problemas do Norte da África são
a baixa oferta de emprego para os jovens e a pressão do crescimento popula
cional sobre os recursos naturais. Além de ter atrativos turísticos, os países do
Norte dispõem de reservas de petróleo, embora as riquezas decorrentes dessa
atividade não beneficiem toda a população, mas apenas pequenas elites locais
e petroleiras transnacionais.
O Norte da África é caracterizado pela concentração populacional no litoral
do Mar Mediterrâneo, sendo o Egito o país mais povoado e populoso da região.
São exemplos de cidades populosas do Norte da África: Cairo, no Egito; Argel,
na Argélia; Casablanca, no Marrocos; e Trípoli, na Líbia. Nessa porção do continente estão os maiores índices de urbanização da África.
Nessa área, a proximidade com a Europa favorece o comércio externo. As condições
físico-naturais também facilitaram a ocupação e as atividades econômicas ao longo do tempo.
A agropecuária e a extração e exportação de petróleo são a base da economia regional.
No entanto, alguns países da região, como Egito e Marrocos, apresentam maior participação
das indústrias na economia, em especial no setor de bens de consumo não duráveis, como
roupas, bebidas e sapatos.
África
Subsaariana
A África Subsaariana localiza-se ao
sul do Deserto do Saara e ocupa a maior
parte do território africano, onde vivem
centenas de etnias, que se distribuem
por 46 países e apresentam grandes
diferenças culturais entre si.
Concentrando cerca de 83% da população do continente, a região apresenta grandes con
trastes socioeconômicos. Há países que se destacam na economia mundial, como África do Sul e
Nigéria, e outros extremamente pobres, com problemas estruturais socioeconômicos associados
a conflitos e instabilidade política, como Congo e Somália.
Em relação à urbanização, apesar da presença de grandes metrópoles, como Abidjan, na Costa do Marfim,
Johanesburgo, na África do Sul, Nairóbi,
no Quênia, e Lagos, na Nigéria, observam-se na região as menores taxas populacionais no espaço urbano, e as maiores,
no espaço rural.
A população da África Subsaariana vive de intensa atividade agrícola de
subsistência, cultivando milho, arroz, inhame, entre outros; da produção
de matérias-primas agrícolas de exportação, como cacau, chá, amendoim
e algodão, principalmente em Ruanda, Costa do Marfim e Moçambique; e
da exportação de minerais preciosos extraídos de países como Gana, Congo
e Tanzânia.
A economia da África Subsaariana, em geral, baseia-se na extração de recursos minerais,
principalmente ouro e diamante, e na produção agrícola para exportação de itens como algodão,
café, cana-de-açúcar e cacau. Em muitos países, a expansão da agricultura comercial, principal
mente para produção de matérias-primas destinadas à indústria, faz com que muitas famílias de
agricultores fiquem restritas a terras menos férteis, agravando os problemas sociais.
Aspectos socioeconômicos
Com relação ao desenvolvimento socioeconômico, os países africanos têm muitos contrastes entre si. O principal deles pode ser observado entre os países da África do Norte e os da África Subsaariana. A região Subsaariana abrange alguns dos países mais pobres do mundo e mais de 430 milhões de pessoas em situação de extrema pobreza, segundo dados da ONU.
Na África Subsaariana concentram-se os maiores problemas sociais e econômicos do mundo, dos quais os mais preocupantes são a pobreza extrema, a fome e a desnutrição. Vale ressaltar que a fome e a desnutrição atingem as populações de alguns países que têm produtos agrícolas e alimentícios no topo das suas principais exportações.
Esses problemas socioeconômicos se
devem a diversos fatores, como guerras, epidemias, secas, a intensa e predatória colonização e a dominação sofrida.
São vários os fatores que explicam o quadro de baixo desenvolvimento verifica do na África Subsaariana. Entre eles, elevadas dívidas externas contraídas pelos Estados africanos, que foram agravadas por políticas públicas ineficientes e pela sucessão de governos, muitas vezes, autoritários e associados à corrupção. Além disso, há o baixo nível de industrialização, a relação de dependência econômica e tecnológica com outros países (desenvolvidos e em desenvolvimento industrializados), as desigualdades sociais e a falta de investimentos em áreas públicas para melhorar a qualidade de vida da população.
A falta de investimentos destinados à ampliação da rede de saneamento básico, à construção de moradias e a melhorias no sistema de saúde e de educação agrava as precárias condições de vida de parte da população da África Subsaariana. A população da região teve aumento
acima da média mundial ao longo do último
século, caracterizando-se, consequentemente,
como uma população muito jovem, com baixa
expectativa de vida.
Na África Subsaariana também estão os mais graves proble
mas de saúde do mundo. Entre
as principais doenças que afetam
milhares de pessoas dessa região
estão a malária e a aids.
Em relação à mortalidade infantil, os dados são alarmantes em toda a África
Subsaariana, com aproximadamente 38% das mortes de recém-nascidos do
mundo. Segundo o fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em 2020,
Serra Leoa teve o pior resultado do mundo, com 80 mortes por mil nascimentos,
seguida pela República Centro-Africana e pela Somália.
Nos países em desenvolvimento, a média atual da mortalidade neonatal é de 27 mortes a cada mil
nascimentos, enquanto nos países desenvolvidos a taxa média é de apenas
três para cada mil. A mortalidade ligada à fome e à desnutrição é resultado das
péssimas condições de infraestrutura nos países da África Subsaariana, cujo
saneamento básico é bastante precário. Pouco mais da metade dos habitantes
tem acesso à água potável.
Quanto à alfabetização, a situação é bastante grave. Em muitos países, a
maioria da população com mais de 15 anos é analfabeta.
Diante desse quadro, o continente tem os mais baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDHs) do mundo.
Apesar do acelerado crescimento econômico dos países
da África na última década, esse
processo não beneficiou as populações mais pobres. Os níveis de desigualdade são alarmantes, mesmo com o
crescimento econômico de alguns países, como Sudão do Sul, Etiópia e Níger,
que, de acordo com o Banco Mundial, estiveram entre as dez economias que
mais cresceram no mundo em 2020, sobretudo em função dos volumosos
investimentos chineses no setor da construção civil e da agroindústria.
Muitos países da África Subsaariana estão entre os mais desiguais do
mundo, isto é, apresentam a maior distância entre os mais ricos e os mais
pobres. A África do Sul é um dos países com o maior índice de desigualdade do
mundo, apesar de ser a economia mais forte do continente. Tal condição aponta
para o fato de que produção de riqueza não gera, necessariamente, melhoria de
vida para toda a sociedade.
Outro fator relevante é o elevado ritmo de crescimento natural da população nos países dessa região. Entre 2020 e 2025, a taxa de crescimento anual médio nos países africanos foi de aproximadamente 2,5%, a mais alta entre todos os continentes do mundo. Esse cenário contribui, por exemplo, para as elevadas taxas de desemprego em muitos países, nos quais o mercado de trabalho não consegue absorver o grande contingente de jovens em busca de oportunidades.
Subdesenvolvimento e contrastes
As condições de subdesenvolvimento e pobreza que caracterizam boa parte
dos países africanos convivem com a diversidade cultural, étnica e econômica
que marca o continente.
Alguns países africanos têm alcançado expressivo crescimento econômico,
apoiado fundamentalmente na exploração dos recursos naturais do continente,
como os minérios e, sobretudo, o petróleo.
Angola, por exemplo, teve sua econo
mia completamente estagnada com a guerra civil que durou de 1975 a 1991. Graças aos recursos petrolíferos, no entanto, o crescimento do PIB foi superior a 20%
em meados da década de 2000. Ainda assim, o crescimento econômico, como é
característico dos países em desenvolvimento, acaba beneficiando uma camada
restrita da população e acentuando as desigualdades sociais.
Nos últimos anos, vários países intensificaram relações diplomáticas com o continente africano. Um deles é a China,
onde cerca de 30% do petróleo consumido provém da África. Esse país asiático é
o segundo maior comprador mundial do produto. Os Estados Unidos tambémim
portam de países africanos 15% do petróleo utilizado em todo o território estadu
nidense, o que equivale ao percentual registrado em relação ao produto fornecido
pelos países do Oriente Médio.
As relações comerciais entre a China e diversos países africanos vêm cres
cendo significativamente, assim como os investimentos chineses no continente africano.
Analistas internacionais criticam o fato de a China dar sustentação a
regimes ditatoriais e corruptos – não comprometidos com os direitos humanos – em troca de acordos comerciais favoráveis. Em Angola, a China vem exercendo
papel importante na reconstrução do país. No caso do petróleo, os chineses também estruturaram uma cadeia de produção que engloba a extração, o transporte
e o processamento da mercadoria.
O mercado de telecomunicações cresceu de modo expressivo no continente africano. O caso da Nigéria é ilustrativo. Em 2000, com uma população de 160
milhões de habitantes, o país contava apenas 400 mil linhas telefônicas fixas; em
2012, o número de assinantes de telefones celulares era de 60 milhões. Nesse setor das telecomunicações, a presença da China é dominante. Até mesmo a constru
ção da sede da União Africana em Adis Abeba, na Etiópia, foi financiada pela China.
Em muitas cidades e vilas africanas, comerciantes chineses se estabelece
ram vendendo mercadorias variadas, sobretudo importadas da China. Essas mer
cadorias “made in China” são vendidas em diversos tipos de estabelecimento – de
lojas em shopping centers a supermercados, passando pelo comércio ambulante.
A China financia obras de infraestrutura em diversos países do continente africano – rodovias, ferrovias, portos, redes de energia elétrica, planos de geração de
energia alternativa –, que fazem parte de um ambicioso projeto denominado Nova
Rota da Seda. Essa iniciativa envolve os continentes asiático, europeu
e africano e compreende a instalação de redes de cabos de fibra óptica, oleodutos
e gasodutos. Em seu conjunto, o projeto abrange o território de 68 países.
A sociedade e as condições
de vida da população
Em 2021, a população absoluta do continente africano era cerca de 1,3 bilhão
de habitantes, o que correspondia a aproximadamente 15% da população mundial. De modo geral, os países africanos apresentam populações jovens e taxas
de crescimento demográfico superiores a 2,2% (enquanto a média mundial é de
aproximadamente 1,2%).
A busca por melhores condições de vida e a fuga motivada por conflitos étnicos provocam migrações no interior do continente, principalmente em direção a
regiões que apresentam maior estabilidade política e econômica. A intensa e rápida urbanização acelera o crescimento de algumas cidades já bastante populosas,
como Lagos (Nigéria), Cairo (Egito) e Johannesburgo (África do Sul), intensifican
do os graves problemas sociais e urbanos existentes e causando, eventualmente,
novos conflitos e novas migrações.
Os indicadores sociais dos países africanos revelam as condições de vida
ruins de parte de suas populações, principalmente na África subsaariana. Em
2019, o valor do IDH médio da região era de 0,547 – o menor entre todas as
regiões do mundo, refletindo problemas como a baixa renda, a elevada mortalidade infantil e a falta de acesso à educação.
A escassez de recursos para investimentos em saúde e saneamento básico,
aliada à falta de políticas que priorizem a produção de alimentos para consumo
interno, tende a manter baixa a expectativa de vida em muitos países da África
subsaariana, contribuindo para a prevalência de doenças infecciosas como a aids
(provocada pelo HIV) e a malária, assim como para a situação de insegurança
alimentar à qual está sujeita uma parcela de sua população.
O atraso tecnológico, a economia de baixa produtividade — baseada nas atividades primárias —, as guerras civis, a corrupção dos governos e os regimes
antidemocráticos, o ritmo de crescimento populacional superior ao ritmo de cres
cimento econômico, as secas periódicas — que assolam sobretudo a região do
Sahel —, a intensa retirada de recursos naturais sem a aplicação de práticas sus
tentáveis são fatores limitadores da melhoria das condições de vida de parcela
considerável da população.
Os países africanos apresentam ainda um dos piores níveis de desigualdade
do mundo, com coeficiente de Gini médio de 0,43. Para comparação, os países
em desenvolvimento têm, em média, coeficiente de Gini de 0,39 (quanto mais
próximo de 1, maior a desigualdade entre as pessoas).
Outro grave problema na África é o desemprego, que afeta principalmente os
jovens. Muitos jovens não conseguem trabalho fixo mesmo com nível de escolaridade
alto.
A fome na África
Entre os mais graves problemas sociais que atingem a população africana, a falta de alimentos em quantidade e variedade suficientes para suprir as necessi dades nutricionais das pessoas se destaca entre os mais preocupantes.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma alimentação adequada significa consumir diariamente uma quantidade mínima de calorias ne cessárias, que corresponde a 2 500 quilocalorias por dia, além de nutrientes que compõem uma alimentação balanceada para manter uma vida saudável. Milhões de pessoas no mundo vivem em condição de carência alimentar, ou seja, não ingerem a quantidade mínima de calorias recomendada pela OMS, quadro que pode levar a problemas como a fome crônica e a desnutrição.
A maior parte das pessoas que sofre com a fome e a desnutrição vive na África e na Ásia. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Ali mentação (FAO), a carência alimentar afeta cerca de 282 milhões de pessoas no continente africano, principalmente nos países da África Subsaariana.
Em muitos casos, a principal causa da fome não é a falta de alimentos proporcionada pelo crescimento da população. A produção mundial de grãos, por exem plo, seria mais do que suficiente para alimentar toda a população mundial. Nesse sentido, as principais causas da carência alimentar são a falta de recursos financei ros para adquirir alimentos e a má distribuição da produção agrícola nos campos.
A agricultura comercial, destinada à produção de gêneros para exportação, ocupa a maior parte das terras férteis da África, enquanto a agricultura tradicional, responsável pela produção da maior parte dos alimentos consumidos pela população, é prejudicada pela falta de apoio dos governos, que não proporcio nam créditos nem acesso a insumos e tecnologia.
Outros agravantes da fome na África são os conflitos existentes em alguns países e as mudanças climáticas, que intensificam a erosão e a desertificação dos solos. A ONU e outras organizações internacionais realizam programas com o objetivo de proporcionar ajuda humanitária à África, inclusive por meio da distribuição de alimentos em regiões afetadas pela fome.
Embora essa ajuda seja importante para pessoas que estão em situação vulnerável, essas ações ainda são ineficientes, pois não atuam nas causas do problema da fome e prejudicam ainda mais os pequenos agricultores.