domingo, 27 de setembro de 2026

Principais correntes historiográficas

Qualquer ciência necessita de uma metodologia para sua pesquisa, estudo e formulação. É a metodologia aplicada que possibilita a leitura de qualquer objeto científico. Variando a metodologia, será alterada por completo a percepção do que está em análise.
A história, como integrante das ciências humanas, teve no decorrer do tempo que desenvolver suas metodologias próprias a serem aplicadas no seu estudo. Assim como em outras ciências, a aplicabilidade da metodologia indicará qual será a leitura do objeto. No caso da história, o método apontará o ângulo pelo qual aquela será observada. Pela aplicação do método, a história pode ser entendida de diversas maneiras ou ângulos: cultura, política, economia e outros.
De modo mais explícito, as correntes historiográficas normalmente explicitam a sua metodologia de uma forma combativa, como o Providencialismo, de origem Cristã (convém recordar que, para além da tradição historiográfica grega Heródoto e Tucídides, a origem da nossa historiografia é a História sagrada) ou o Materialismo histórico de origem marxista (que triunfou nos ambientes intelectuais e universitários europeus e americanos em meados do século XX, permanecendo adormecido desde a queda do Muro de Berlim).
Foi nos séculos XIX e XX que o homem começou a ser encarado também como objeto e não apenas sujeito. Isso fortaleceu as ciências humanas que por demais se desenvolveram em seus métodos, inclusive a história. O homem começou a ser visto como produto da história e não apenas produtor desta. Essa pequena mudança foi possível graças a novas metodologias de estudo da história que possibilitaram o entendimento histórico a partir de vários prismas.
É sempre necessário interpretar a historiografia como parte da atmosfera intelectual da época em que se coloca. Qualquer produção cultural é dependente do modelo cultural existente, chamando-se a isso moda, estilo ou paradigma dominante na arte ou na filosofia, e é evidente que o registro da história é uma produção cultural. A desconstrução, o pensamento débil ou a pós-modernidade, conceitos do final do século XX, foram a incubadora da atual desconstrução da história, que para alguns é apenas uma narrativa
A questão do método é muito extensa. Por isso, serão apresentadas somente as principais correntes historiográficas que servem como método na produção histórica, a saber: Positivismo, Escola dos “Annales e Marxismo.

Positivismo


O Positivismo tem na pessoa de Augusto Comte seu maior propositor. Esse era francês e atuou principalmente na primeira metade do século XIX. Comte foi muito influenciado por Saint-Simom, de quem foi secretário.
Segundo o Positivismo como filosofia, todas as sociedades passam por estágios de pensamento. Nesse contexto, a história foi construída passando por esses estágios, sendo que o primeiro é Metafísico ou Teológico. Neste, a sociedade está presa a mitos, lendas, religiões supersticiosas e credos supranaturais. As Idades Antiga e Medieval são períodos citados nesse caso. Para Comte, a história caminha para um estágio chamado de Positivista, no qual as ciências se desenvolvem, fazendo com que as antigas explicações teológicas e mitológicas cedam lugar aos paradigmas científicos.
A Ciência alcança até as questões humanas. Isso seria um estágio de desenvolvimento até mesmo da ciência positiva. O Positivismo sistematiza as ciências em matemática, astronomia, física, química, biologia e psicologia. A sociologia e outras devem passar por depurações positivas, submetidas a métodos para se tornarem ciências.
Esse progresso da ciência é o progresso intelectual do próprio homem que somente dessa maneira chegará a um grau perfeito de altruísmo, que resultará numa sociedade orgânica, cujos ideais de Ordem e Progresso culminam. Dentro do contexto histórico, muitos momentos apresentaram esses ideais separadamente. O feudalismo é colocado como um momento que é enfático a Ordem. Já a Revolução Francesa desenvolveu um período de Progresso. A ciência é vista como aquela que unirá tais ideais num mesmo contexto histórico.
Comte e seus seguidores afirmavam que a realidade é o que se pode conhecer mediante a percepção dos sentidos, que são os meios utilizados pelo método científico. O misticismo e a intuição não são reconhecidos pelo Positivismo como meios válidos para obtenção de conhecimento, o que é válido também para a historiografia positivista.
A conhecida História Tradicional é identificada como historiografia positivista. Os historiadores tradicionais tiveram muita influência de Comte. No caso, o historiador positivista trabalha sobre a base de que a história é o fato propriamente dito, empirismo. Isso significa que só se constrói história a partir de documentos. Não os havendo, não há história, pois não há comprovação de fatos. Augusto Comte acreditava que as ciências deveriam se estribar em fontes empíricas, portanto, na história positivista o documento é o objeto principal de análise.
Há uma supervalorização do fato: História Fática. A história se resume naquilo que se pode perceber e observar, não sendo permitido abstrações. Como a filosofia positivista procura valorar o homem como indivíduo ímpar, não há uma preocupação historiográfica com o coletivo, as massas populares, e sim com os heróis e homens que produzem os fatos positivos. Por isso são notáveis os acentos nas histórias política, militar e diplomática. Os historiadores positivistas seguem as sequências cronológicas dos fatos, tendo o homem como sujeito de transformação e nunca objeto.
Para os historiadores tradicionais ou positivistas, os métodos utilizados pelas ciências naturais deveriam ser os mesmos aplicados às ciências humanas. Dessa maneira, creem que a história pode ter uma interpretação científica dos fatos, sendo “verdadeira” e isenta de abstrações.
A história, como epistemologia, ocupa um papel secundário no Positivismo, sendo sua responsabilidade apenas descrever os fatos. O desenvolvimento da sociedade jamais é visto correlacionado a fatos, isto é, a história.
O método positivista de historiografar é totalmente sistemático.

Marxismo


A historiografia marxista é um pouco anterior a Escola dos “Annales”.

Não se pode confundir historiografia marxista com comunismo, socialismo, luta de classe e outros conceitos que também fazem parte do Marxismo. Este é um quadro de ideias muito complexo, pois envolve filosofia, direito, política, sociologia, economia, história e outras ciências.
Karl Marx tinha formação religiosa judaica e luterana. Estudou história, filosofia e direito nas Universidades de Bonn e Berlim, tendo obtido o grau de doutor em Jena. Quando estava em Berlim foi influenciado pelo pensamento hegeliano (filosofia em voga na época, século XIX), se aproximando da ala esquerda de tal filosofia. Na mesma universidade estudou problemas sociais e políticos.
Uma faísca do pensamento de Hegel é sua dialética. Essa afirma que o homem e sociedade vivem em constante modificação; dentro de seu esquema: tese, antítese e síntese. Marx foi influenciado pela dialética de Hegel, porém a modificou para explicar suas teorias políticas e econômicas.
Também o filósofo Feuerbach contribuiu para pensamento marxista. Ele defendia um materialismo, no qual o mundo gira em torno da natureza – um ataque na época à religião, principalmente a que pregava a necessidade de experiências e uma volta à religiosidade, através do liberalismo teológico-protestante, na Alemanha. Contudo, o materialismo proposto por Marx e Engels diferencia-se do feuerbachiano, pois essa teoria também deveria se encaixar num pensamento voltado para a leitura da sociedade da época.
Juntando as duas teorias, dialética e materialismo, Marx formou o Materialismo Dialético ou Histórico, no qual as lutas de classes e os fatores econômicos (materiais) determinam o legado da história, ou seja, Marx pensava que as condições econômicas regulamentam e determinam o curso da história. É nesses princípios que a historiografia marxista se baseia.
Pelas obras de Karl Marx nota-se como ele dava importância à questão econômica na formação da sociedade dentro da história – em 1844 escreveu Economia Política e Filosofia; em 1850 As lutas das classes em França onde a questão econômica é enfática; em 1857 Os Princípios da Economia; em 1859 A crítica da economia política; em 1867 publica o primeiro volume do Capital. Além dessas obras, Marx escreveu para os jornais New York Tribune, Nenue Oder Peitung e outros.
Karl Marx entendia que as relações jurídicas protegem a propriedade e devem ser compreendidas dentro de condições de existência material. Isso significa que a economia dominante manipula o direito e a política, dirigindo a história para a dominação econômica, através de um mecanismo de alienação, no qual o operário é objeto de lucro para as classes dominantes. Para demonstrar a hegemonia da economia nas relações humanas e sociais, Marx usou a própria história. Na Idade Média, por exemplo, o domínio senhorial, o sistema de trabalho gratuito, o recebimento das taxas e das “banalidades”, os estatutos dos camponeses, a organização das comunidades aldeãs, as repartições de terras, o domínio do clero e outras questões são observadas levando em consideração a exploração do campesinato em função da riqueza material das classes dominantes, a saber: nobreza e clero. Na Idade Moderna, o surgimento da industrialização, a propriedade dos capitais, a divisão de pessoal, os investimentos, as oficinas, a situação dos operários, os sindicatos, a relação trabalhadores e oferta de emprego e outras questões também salientam a economia como motor propulsor da história.
Na teoria marxista, o materialismo histórico pretende explicar a história das sociedades humanas através dos fatos materiais, essencialmente econômicos. Para embasar ainda mais seu pensamento, Marx encaixou as forças produtivas e as relações de produção como infra-estrutura econômica de uma sociedade. Sobre ela se apóia uma superestrutura que atua no consciente social. Para explicar isso, Marx faz uma analogia, comparando a sociedade a um edifício, no qual as fundações, chamadas de infra-estrutura, seriam representadas pelas forças econômicas. Já o edifício em si, foi chamado de superestrutura, o que representa as idéias, costumes, instituições (políticas, religiosas, jurídicas, etc) e formas do Estado.
Para demonstrar isso Marx também usou a história. A organização das sociedades se estriba sobre o seguinte esquema: há as forças produtivas dentre as quais estão as atividades econômicas e as instituições políticas que dão formatos aos discursos ideológicos. O modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, política e intelectual em geral.
O pensamento de Marx influencia também a historiografia no que concerne ainda a sociologia das classes, em que se destaca as lutas de classes, e o conceito de ideologia, no qual até a religião é instrumento de alienação das massas para o domínio político-econômico.
Resumindo, uma historiografia marxista afirma que são as condições econômicas as responsáveis pela regulamentação e determinação do curso da história. Um historiador marxista enfatiza a economia na construção da história. Assim sendo, a história não são apenas fatos documentais, como afirmava Augusto Comte, mas ela é construída ideologicamente para o benefício econômico de classes específicas. Marx destaca a história das sociedades como a história de lutas de classes (Manifesto Comunista), que ocorre entre classes dominadas e dominantes dentro do âmbito econômico. Por isso a economia é destacada por Marx como a responsável pelas mudanças históricas, merecendo foco nas análises. Em seus escritos, ele procurou identificar dentro da história o papel transformador da economia dentro das sociedades.
O modo de exploração feudal ou corporativo da indústria existente até então não mais atendia às necessidades que aumentavam com o crescimento dos novos mercados. A manufatura tomou seu lugar. Os mestres-artesãos foram suplantados pela pequena burguesia industrial. [...] Os mercados, no entanto, continuavam a crescer e continuavam a aumentar as necessidades. A própria manufatura tornou-se insuficiente. Em conseqüência, o vapor e a maquinaria revolucionaram a produção industrial. (MARX, Karl. O Capital. 2.ed. São Paulo: Edições Cultura, 1946. V.3. p.46)
A historiografia marxista influenciou muito a história em todo mundo, desviando o foco da proposta positivista. No Brasil destacam-se Caio Prado júnior, Celso Furtado, Leôncio Basbaum, Jacob Gorender, Florestan Fernandes, Edgar Carone, Boris Fausto, Maria Yeda Linhares, Nelson Werneck Sodré e outros, que também deram ênfase ao quadro econômico, como fator de desenvolvimento da história.

Escola dos “Annales”


A Escola dos “Annales” surgiu em oposição principalmente a “escola positivista”, historiografia tradicional, na França no século XX, mais precisamente em 1920. A Escola dos “Annales” foi uma inovação da historiografia, pois não propõe que o estudo da história seja minimizado ao acontecimento propriamente dito, ao fato, como o Positivismo, e volta sua atenção para a história em sua longa duração, a vida política, economia, organização social, cotidiano, psicologia, além da aproximação com as outras ciências humanas. Essa proposta trouxe a história para mais perto da geografia, antropologia, sociologia, psicologia, filosofia e outras gnosiologias.
As orientações básicas da Escola dos “Annales” foram formuladas principalmente por Lucien febvre e Marc Block, mas houve contribuições significativas de Fernand Braudel, P. Coubert, Le Roy Ladurie, Furet e outros. Esses dois últimos designaram a nouvelle histoire (“nova história”) como a história elaborada a partir e sob a influência das ciências sociais. Os novos historiadores aceitaram críticas feitas por sociólogos durkheimianos e da Revue de Synthèse Historique que queriam uma renovação no estudo da história, aproximando-a das ciências sociais para que também pudesse se tornar uma ciência social.
Essa proposta por parte de sociólogos principalmente, trouxe conflito entre historiadores novos e tradicionais, que controlavam as instituições de ensino, edição e administração da história e pesquisa na França.
Em 1929 Lucien febvre e Marc Block fundaram a revista de história intitulada Annales d’Histoire Economique et Sociale na França. Era o nascimento da Escola dos “Annales”.
Nos anos de 1950 e 1960 os historiadores da Escola dos “Annales” produziram materiais voltados à geografia histórica, à história econômica e à demografia histórica. Já na década de 1970 os historiadores que defendiam essa historiografia difundiram a história das mentalidades. A nova historiografia queria mesmo era eliminar o sentimento de especialidade dos historiadores, promovendo a pluridisciplinaridade e a união das ciências humanas.
O espírito dos Annales influenciou historiadores por todo o mundo, principalmente Europa Ocidental, Estados Unidos e América Latina.

Yuri de Almeida Gonçalves

Historiografia

Historiografia é o estudo das obras históricas realizadas ao longo do tempo e em todas as culturas. Embora as tradições orais tenham subsistido em muitos casos, a historiografia concentra-se nas obras escritas com a intenção de apresentar uma informação sobre os fatos passados.
O texto histórico mais antigo que se conservou é a pedra de Palermo (cerca de 2500 a.C.), que registra as datas dos reinados dos faraós egípcios e seus feitos mais destacados. A historiografia hebraica, particularmente relevante, concentra-se nos livros do Antigo Testamento, redigidos em épocas diferentes, e mais tarde na obra de Flávio Josefo.

Antiguidade Clássica

Os primeiros escritores gregos compuseram poemas épicos; redigiram-se depois genealogias em verso e, com as conquistas e expedições colonizadoras, muitos viajantes começaram a expressar por escrito suas experiências no contato com outros lugares e culturas. Heródoto foi o primeiro historiador cuja obra sobreviveu. Embora os historiadores e geógrafos gregos não tivessem uma idéia clara do progresso de sua própria cultura no tempo, deram à história um sentido universalista, ao estender o âmbito de sua observação a diferentes culturas. Tentaram desse modo criar uma história abrangente e geral, distinta da tradição oriental, mais antiga porém mais limitada localmente. De outro lado, procuraram desligar a lenda do fato histórico, como fez Tucídides, que se esforçou em buscar as causas dos acontecimentos para tentar extrair deles lições práticas. A primeira história geral do mundo helênico foi escrita por Éforo. Em Anábasis (Volta), Xenofonte relatou em minúcias a célebre expedição grega dos 12.000 em território persa. Políbio, autor de uma história com perspectiva universal, foi considerado o último dos grandes historiadores gregos. Diodoro da Sicília redigiu biografias comparadas que prenunciavam as Vidas paralelas de Plutarco, de grande influência na Europa, que apresenta uma visão moralizante da história, semelhante às de Tito Lívio e Tácito.
Os primeiros registros históricos dos romanos limitaram-se à compilação de anais. Em períodos posteriores destacaram-se a obra de Júlio César, como modelo de história militar, e a de Salústio, por sua imparcialidade e documentação, embora com inexatidões. Tito Lívio, Tácito e Suetônio deram testemunho da qualidade moral e do gosto pelas biografias exemplares, de realces psicológicos, que tiveram grande influência no Renascimento.

Cristianismo e Idade Média

O cristianismo sentiu necessidade de apresentar argumentos em defesa da fé e de fixar por escrito os dogmas. Adotando o Antigo Testamento como relato histórico fundamental, os primeiros cristãos explicavam o passado e deduziam os desígnios divinos como origem e motor dos acontecimentos. Elaboraram também uma cronologia e, nos Atos dos Apóstolos, Lucas tentou fazer um relato histórico sobre os primeiros seguidores de Jesus Cristo. Na Crônica, Eusébio de Cesaréia escreveu uma história de caráter geral que serviu de modelo durante a Idade Média, como mostra, por exemplo, a Grande e general estoria de Afonso X o Sábio, rei de Castela e Leão. Em De civitate Dei (A cidade de Deus), santo Agostinho escreveu o que já se pode considerar uma filosofia cristã da história.
A historiografia medieval teve três correntes principais: a cristã ocidental, a bizantina e a muçulmana. Na primeira, além dos já mencionados, convém recordar a história profana das crônicas ligadas aos feitos de um monarca ou de uma dinastia. Os historiadores bizantinos aliaram a tradição grega à cristã. Entre eles, destacaram-se Prisco, Procópio, Nicetas e outros. De sua parte, o historiador muçulmano Ibn Khaldun procurou pesquisar as causas do nascimento das culturas, segundo uma concepção cientificista ausente nas crônicas cristãs.





Historiografia no Brasil

Depois da carta de Pero Vaz de Caminha, principal relato testemunhal do descobrimento do Brasil, as primeiras crônicas só foram escritas em fins do século XVI. As cartas-relatório dos jesuítas e os documentos informativos de outras ordens religiosas constituem valioso acervo documental, assim como as crônicas propriamente ditas, como as de Fernão Cardim e Gabriel Soares de Sousa. 
Nos três primeiros séculos que se seguiram ao descobrimento só foram escritas três histórias do Brasil: a de Pero de Magalhães Gândavo, Tratado da terra do Brasil, só publicado em 1826; a de frei Vicente do Salvador, das três a mais valiosa, concluída em 1627, porém inédita até 1887; e a de Sebastião da Rocha Pita, História da América Portuguesa (1730).
Coube ao inglês Robert Southey escrever uma History of Brazil (1810-1819), obra a que se deve o início de nova fase historiográfica para o Brasil. Com História geral do Brasil, antes de sua separação e independência de Portugal (1854-1857), Francisco Adolfo de Varnhagen renovou o conhecimento do passado do país, ao pesquisar arquivos brasileiros, portugueses, espanhóis e de outros países.
Coube a João Capistrano de Abreu orientar toda uma geração de historiadores para a pesquisa erudita, sobretudo para a crítica de relatos e crônicas do período colonial. Rodolfo Garcia deu prosseguimento a sua obra e iniciou a importante série dos "Documentos históricos", da Biblioteca Nacional.
O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, fundado em 1838, desempenhou um papel decisivo na historiografia nacional, com a publicação de revistas e documentos de grande significação histórica. Só recentemente a historiografia brasileira deixou de consagrar-se preponderantemente à história política, e passou a abarcar uma apreciável gama de trabalhos de história econômica e demografia histórica.

Historiografia Moderna


A recuperação do passado greco-romano pelo Renascimento possibilitou uma secularização dos historiadores, que se afastaram da teologia em seus estudos, embora tenham recebido o conteúdo moralizante dos autores latinos, tal como aparece em Maquiavel, Francesco Guicciardini ou Jean Bodin. O conceito da antiguidade clássica como idade de ouro predominou na idéia dos ciclos históricos e alimentou um extraordinário gosto pelas coisas antigas. Lorenzo Valla e Jerónimo de Zurita y Castro realizaram estudos históricos mais rigorosos, por verificarem as fontes, e, como conseqüência do descobrimento do Novo Mundo, alguns historiadores ampliaram o estudo das sociedades humanas (Bartolomé de Las Casas, Bernal Díaz Del Castillo, Pedro de Cieza de León etc.). As disputas entre católicos e protestantes também foram enriquecedoras, pois apresentaram novos argumentos baseados em fontes históricas utilizadas pela primeira vez, como os arquivos do Vaticano (os Annales ecclesiastici católicos em oposição às Centúrias de Magdeburgo protestantes).
A pesquisa histórica sobre os gregos prosseguiu nos séculos XVII e XVIII, revelando interesse também pela história escrita no Oriente. A crítica textual de documentos ofereceu novo material crítico.
Voltaire publicou as primeiras obras historiográficas modernas, entre elas Le Siècle de Louis XIV (1751; O século de Luís XIV), reagindo contra o uso da história como mero registro de acontecimentos políticos. A revolução francesa levou à criação do primeiro arquivo histórico nacional, permitiu acesso à documentação da nobreza e da igreja e propiciou o nascimento do nacionalismo histórico. A esse nacionalismo uniu-se o culto da Idade Média pelos historiadores do romantismo, como Jules Michelet ou François Guizot. O século XIX assistiu ao crescente desenvolvimento da historiografia alemã. Com Wilhelm von Humboldt, a Universidade de Berlim, criada em 1810, transformou-se na grande instituição para os estudos históricos, que se desenvolveram também nos outros países europeus e na América, até se conseguir uma grande pluralidade de opções e um aperfeiçoamento notável das técnicas de pesquisa histórica.
Ao longo do século XIX, chamado "o século da história", os países europeus fomentaram o estudo e o ensino da história, ao compreender a importância dessa disciplina para a formação do sentimento nacional. Os governos utilizaram documentos e pesquisas históricas para justificar reivindicações territoriais ou aspirações hegemônicas. 
A formação metodológica passou a ser a característica fundamental do professor e do pesquisador da história. A figura do historiador profissional estendeu-se da Alemanha aos demais países da Europa, aos Estados Unidos, à América Latina e a outras partes do mundo.
Do último terço do século XIX à segunda década do século XX desenvolveu-se a tendência positivista no campo da historiografia. Seguindo métodos racionalistas, os historiadores concentraram-se na realização de sínteses históricas que permitiam integrar em perspectivas de caráter geral a análise de extensas documentações. 
O estudo da história cindiu-se em várias ramificações (história geral, econômica, social, cultural etc.) e os fatores econômicos e quantitativos, frequentemente analisados a partir das premissas do marxismo, ganharam espaço cada vez maior nos trabalhos históricos, sobretudo na segunda metade do século XX. 
O intercâmbio bibliográfico, os congressos internacionais, a publicação de revistas e os trabalhos de colaboração entre diversos países contribuíram para aproximar as propostas metodológicas das escolas historiográficas nacionais.


Historicismo

Em sentido amplo, o qualificativo, originário do alemão Historismus, é dado a correntes do pensamento, segundo as quais é a história que faz o homem e não o homem que faz a história. Baseia-se no modelo romântico inaugurado por Herder e Schelling, para os quais o universo deixou de ser um sistema e passou a ser entendido como história, numa passagem do cosmológico para o antropocêntrico. De certa maneira, é o exato contrário do conservadorismo, gerando uma fuga para a frente, através do evolucionismo e do progressismo.
O Historicismo, de maneira geral, é a prática de uma História radical, enfatizando não somente sua importância enquanto saber e reflexão, mas impondo também sua posição central para uma compreensão do ser humano e da própria realidade. Pode-se dizer que tem suas raízes em escritos de Hegel, um dos mais influentes filósofos europeus do século XIX.

A utilização do termo

O termo começa por ser utilizado por Carl Menger, em 1883, para qualificar e criticar a intervenção de alguns membros da Escola Histórica nos domínios da economia, nomeadamente G. Schmoller. O historiador alemão F. Meinecke consagra a expressão em 1936, na obra Die Enttstehung des Historismus.

As perspectivas de Popper e Hayek

Segundo Popper, o historicismo foi fundado por Hegel e Marx e tem como precursores Platão e Santo Agostinho. Para Hayek, o historicismo é caracterizado por estabelecer leis gerais do devir à imagem e semelhança das leis físicas. Generaliza a partir do particular. Para tais correntes, a história obedece a uma necessidade, tendo leis que nos escapam. Os movimentos historicistas falam num sentido da história ou num processo histórico. Aceitam que pesquisando determinadas leis se poderia determinar o futuro da humanidade.

Filosofia da história

Diz-se também das orientações epistemológicas que consideram a história como a verdadeira ciência do homem e que a interpretação dos fenómenos sociais por assinalar-se o encadeamento dos fenómenos sociais no tempo bem como a respectiva singularidade. Neste sentido, consideram como tarefa da ciência a contemplação do processo histórico, tudo tendendo a reduzir à filosofia da história.. Conforme a definição do dicionário do pensamento político da Blackwell, a filosofia da história fornece a base racional de qualquer conhecimento pertinente das atividades e das obras humanas.
Em sentido estrito, também se dizem historicistas as perspectivas do entendimento de um qualquer período da história, não de acordo com as ideias e os conceitos de hoje, mas com os instrumentos intelectuais disponíveis nesse tempo. Em sentido intermédio, o historicismo pode também significar revivalismo, o amor ou nostalgia por uma forma cultural de um tempo passado.

Os historicismos

Sob o qualificativo de historicismo, reúnem-se, contudo, múltiplas e contraditórias perspectivas. Neo-hegelianos como Crice reclamam-se de um historicismo idealista, dito historicismo absoluto. Historicista é também o materialismo dialéctico e o vitalismo de Spengler e Ortega y Gasset, bem como o existencialismo de Heidegger, Jaspers e Sartre.

Historicismo absoluto (storicismo assoluto). Moviemnto de ideias neo-hegeliano, desencadeado por Benedetto Croce.

Historicismo de Hegel - Atinge-se, assim, aquilo que será vulgarizado como historicismo, onde o homem é o personagem de uma liberdade, ideal ou social que se desenvolve objetiva e universalmente, segundo leis racionais, imanentes na história, conforme observa Miguel Reale. Trata-se, aliás, de um panteísmo imanentista onde Deus se confunde com o mundo e onde o direito é a expressão do que está imanente ao mundo, conforme Carl Schmitt.
O posicionamento historicista proposto por Hegel sugere que não há um critério objetivo para determinar a melhor teoria de análise de um determinado objeto de estudo. De acordo com esse viés, a ciência, filosofia ou quaisquer outras disciplinas, estão fadadas à sua historicidade.

Historicismo para Leo Strauss - O abandono do padrão de dever-ser, de uma ideia que transcende a própria história, passando a haver uma coincidência do racional e do real, do dever-ser e do ser. A partir de então, a teoria passa a estar ao serviço da prática, torna‑se inteligência do que a prática engendrou, a inteligência do atual, e deixou de ser a procura do que devia ser: … deixou de ser teoricamente prática.

Historicidade -  O contrário do infinito. Com efeito, não é a história que faz o homem, mas o homem que faz a história, mesmo sem saber a história que vai fazendo. Castanheira Neves, a este propósito, observa que a história é o tempo como sujeito. A história não é objeto, é opção; não é estática, é movimento, movimento que visa transcender o que está, é interação dialética das três dimensões do tempo – do passado, do presente e do futuro. Falamos em historicidade, conforme a perspectiva de Heidegger, naquela historicidade intrínseca que, como salienta Cabral de Moncada, é a vida humana em função da sua liberdade e não na historicidade extrínseca ou historicismo que prescinde da existência para se ater apenas aos factos objetivados, como fósseis, no passado. A história existe dentro do homem e o homem dentro da história, há um laço interno que dá fins à acção humana, um dinamismo, uma liberdade, entre a conservação e a criação, num processo que gera a união do temporal e do eterno, do histórico e do metafísico.

Histórica, Escola - Com Savigny estruturou-se um modelo de historicismo que deve ter um duplo sentido: o sentido histórico, para apreender com rigor o que é próprio a cada época e de cada forma jurídica, e o sentido sistemático, para considerar cada proposição na sua ligação e reciprocidade viva com o todo, isto é, numa relação que constitui o verdadeiros e o natural. Porque o direito, enquanto ciência da legislação, é, primeiro, uma ciência histórica e, depois, uma ciência filosófica. Segundo José Lamego, este historicismo corresponde à crença na imanência de um sentido criador nas manifestações históricas, correspondendo ao historicismo romântico de cariz conservador, sendo diverso do historicismo hegeliano-marxista, dialético-crítico.

Historicismo absoluto - Qualificativo que Benedetto Croce dá à sua posição espiritual. A partir de então assume-se como espiritualista e defensor do historicismo absoluto, também dito idealismo realista, considerando que a realidade é o Espírito concebido dialeticamente. Entende, deste modo, que há não só uma dialética de opostos como também uma dialética de distintos. 
Na primeira, o positivo só tem vida triunfando sobre o negativo (caso do bem e do mal ou do verdadeiro e do falso); na segunda, cada termo não anula o outro, podendo os dois harmonizar‑se (caso do belo e verdadeiro ou do útil e bom). Daqui deriva uma concepção de graus do espírito. Dois graus teóricos (a intuição e o conceito) e dois graus práticos (a volição do individual e a volição do universal) que correspondem a quatro formas fundamentais de espírito: a artística, a filosófica, a económica (a economia como volição do individual é atividade espiritual) e a ética (como volição do universal). O espírito tem, assim, circularidade dado que todas as formas estão numa situação de unidade‑distinção, todas se implicam umas às outras.
Desde a década de 1990, alguns pensadores pós-modernos têm utilizado o termo historicismo para descrever a visão de uma verdade absoluta, principalmente sobre questões filosóficas que persistiram ao longo dos séculos.

José Adelino Maltez. 


HISTÓRIA E POSITIVISMO

O Positivismo em História se restringe, hoje, à chamada “História Oficial”, à “História de Segundo Grau”, à alguns historiadores regionais, a certa mentalidade, mas não gerou uma tendência coerente e forte, não gerou uma História, mas tão somente desvios. Sua aplicabilidade seria estranha a todas as concepções de História.
O “Positivismo clássico” esconde por traz dos “dados objetivos” a sua matriz ideológica, o seu fazer. Sua concepção geral é a de que a sociedade é regulada por leis naturais que são imutáveis e não dependem do arbítrio; a conseqüência lógico-epistemológica é a de que os métodos e técnicas aplicados no estudo da sociedade devem ser os mesmos das ciências naturais, o conhecimento objetivo que estabelece o que é Ciência, científico, metodológico, possível e impossível, real e irreal; a metodologia da História não apenas seria a mesma das Ciências Naturais como também deveria estudar seu “objeto” da mesma maneira, sem “juízos de valor”, com a esperada neutralidade (o passado já passou, nada temos que nos inserir nele), dissecando os “fatos” como se fossem objetos; a separação entre Juízos de Valor e Fatos é imprescindível; sem implicações políticas, a finalidade da Ciência (da História) é constatar, descrever e prever. 
A descritividade descompromissada, reproduzindo a realidade, torna-se o estilo preferido e necessário. Com isso o sujeito encontra o objeto, desencava, escava e o traz a luz. A separação entre o cientista e seu “objeto de estudo” é condição inescapável.
O positivismo não se encontra em estado puro em nenhuma concepção de História, nem mesmo no século XIX. Esse segmento lógico arruinaria completamente qualquer pretensão historiográfica e até mesmo um projeto científico que tivesse a “sociedade” e suas virtualidades contraditórias e dispersivas como objeto. Mas fragmentos dela estão como não-dito em muitas “Escolas de História”, escondidos como generalidades, universalidades, naturalizações, esquecimentos, adesões, procedimentos.
Como algumas clivagens positivistas dentro da História remos de que a função básica do historiador é reconstruir os fatos. Esses fatos não se relacionam com o historiador. Sua posição é neutra, ou científica, separando ele mesmo e o sistema imaginário do seu tempo daquilo que passou. Sujeito e objeto mantém uma relação “naturalizante”, de compreensão causa-efeito, como duas entidades, como se os “objetos” não fossem criação viva de uma “comunidade”, de indivíduos, não fossem expressões do próprio sujeito, como duas entidades separadas, não fossem ficcionais.
Outra é que a história é o real, sociedade, existência, sistema de fenômenos existentes em sua globalidade, os homens em movimento a humanidade e seu trajeto. Essa existência deixa documentos do seu movimento, que serão recompostos (a história está nos documentos: os fatos estão nos documentos) pela História. O historiador é o cientista que extrairá a história condensada, escondida, espalhada nos documentos.
Outra é que a Filosofia e toda reflexão deve ser afastada da operação, pois afetaria a “matéria refinada” que é “o que aconteceu”, onde não estavam nem o presente nem o historiador.
A transformação de tudo em "objeto da ciência" da mentalidade positiva esconde a transformação de tudo em objeto. Sem o histórico processo de objetificação, sem objetificar, o pensamento científico fica inoperante, principalmente porque suas razões são funcionais. Sua lógica é "industrial". As operações que lhe cabem são somente aquelas que permitem a construção, a utilização social do conhecimento visivelmente como poder. Sua eficácia (verdade, objetividade, aplicabilidade) provém exatamente dessa objetificação.
A História, que poderia ser a antítese dessa concepção científica do mundo, luta desesperadamente pela glória inútil de ser considerada Ciência. Uma História científica seria ridícula e seu exercício, além de matá-la, anularia qualquer possibilidade de compreensão desse fenômeno perverso e contraditório que é o ser social. O método da História, coerente com seu pretenso "objeto de estudo", não poderá jamais ser científica em qualquer dos seus momentos, o que não exclui nem o rigor nem a capacidade de compreensão e consciência das dimensões fundamentais do existir.
Essa “História Positivista” não será aquela que será desmoralizada e dissolvida pelos Annales, uma História mais séria, científica mas sem os limites desse tipo de História que se tornou “saber oficial” e ainda hoje é a forma concentrada das “Histórias do segundo grau”.

Alberto Lins Caldas


BIBLIOGRAFIA

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Heródoto (484 - 425 a. C.)

Geógrafo e historiador grego nascido em Halicarnassos, hoje Bodrum, cidade turca da Anatólia, Ásia Menor, considerado por alguns historiadores como o primeiro geógrafo verdadeiro. De origem aristocrática fugiu da terra natal quando esta foi anexada ao império persa e governada pelo tirano Lígdamo II. Refugiado em Samos, viajou pelas ilhas do mar Egeu e regiões vizinhas até voltar a Halicarnasso (454 a. C.) para participar da guerra de libertação e consequente incorporação à federação ateniense. 
Assim, Heródoto foi para o Egito, onde estudou a sua origem. Em seguida viajou pela Líbia, Fenícia e Babilônia, passando pela Pérsia, Macedônia, Trácia, Cítia.
Esta peregrinação lhe permitiu descrever o Egito para a posteridade com detalhes sobre o seu território, seus monumentos, seu povo, ídolos e religiões. Coube-lhe, ainda narrar com fidelidade as guerras médicas, concluindo com o choque fatal entre a Grécia e a Pérsia, em dialeto Jônico.
Contrário a alguns ensinamentos da Escola Jônica, viajou por todo o mundo grego (Europa e África), mas passou a maior parte da vida em Atenas, onde se tornou adepto da política de Péricles e foi amigo de Sófocles e participou da fundação da colônia grega de Túrio (443 a. C.), no sul da Itália, cidade onde inclusive viveria até sua morte. Relatou seus conhecimentos sobre as regiões visitadas em seu livro Histórias, dividida em nove volumes, abrangendo os dois séculos que precederam as guerras greco-pérsicas e relatando os principais episódios do conflito. 
A narrativa começa com Creso, rei da Lídia, termina às vésperas da guerra do Peloponeso, e inclui episódios que se tornaram clássicos, como Leônidas e a batalha das Termópilas, Salamina, Maratona etc. Escrevendo em jônio e no estilo de reportagem, foi o primeiro escritor em prosa e historiador do mundo ocidental. Fez uma pioneira e grande descrição do mundo antigo descrevendo o império persa, sua organização, seu exército e as diversas etapas de agressão às cidades gregas. 
Cada região do império é mostrada em detalhe, descrevendo com precisão assuntos como a religião, a história e as características étnicas de cada povo, tudo comprovado atualmente pela antropologia. 
Contribuiu, assim, com sua extensa obra, para o conhecimento de uma das mais importantes civilizações de todos os tempos, a grega clássica e, por isso, é chamado de o pai da história, denominação dada por Cícero. Aparentemente morreu em Turios. 
O modo de narrar deste pai da história alia a grandeza e a simplicidade. Os seus relatos, de linguagem musical e frase bem estruturada, são ricos de anedotas e estão cheios de vida. A sua obra denota uma filosofia da história em que as vicissitudes dos homens estão sujeitas à força incontestável do destino. Neste sentido, o universo de Heródoto está próximo do da tragédia. Em outros aspectos, Heródoto acompanhava as crenças de sua época, como por exemplo quando atribuía importância aos oráculos, prodígios e outras evidências da intervenção direta dos deuses na vida humana.


Concepção e Estudo de História

Quanto mais o homem encontra meios diferentes para interagir com o meio em que sobrevive, mais desenvolve seu intelecto e transforma seu modo de pensar. Ao fazer História e ao passá-la a seus sucessores recorre a meios que, com o passar do tempo, foram modificados.
Na Europa, uma forte corrente de historiadores, adotou uma maneira de estudar e lecionar a História, o positivismo. Tinha por preocupação tornar a história algo mais comprovado e científico, pela busca incessante de fatos e pelo estabelecimento de relações preciosas entre o documento e a narração – ciência aplicada. 
O positivismo, com a influência do Idealismo originou a História Tradicional apresentando o processo do conhecimento, no qual o aluno se mostra em sua passividade. Visava a obtenção de resultados claros, objetivos e completamente corretos. Seguidores desse movimento acreditavam num ideal de neutralidade, isto é, na separação entre pesquisador / autor e sua obra: esta, em vez de mostrar as opiniões e julgamentos de seu criador, retrataria de forma neutra e clara uma dada realidade a partir de seus fatos, mas em os analisar. Pode-se dizer que reduz o papel do homem enquanto ser pensante, crítico, para um mero coletor de informações e fatos presentes nos documentos. 
Segundo Fustel de Coulanges, historiador francês, "Os fatos falam por si mesmos"; acreditavam ainda que os fatos possuem uma verdade implícita que aparece quando postos à tona. A História assume o caráter de ciência pura e exata, formada pelos fatos cronológicos e o que realmente significam em si. A objetividade, a minuciosidade, o detalhe e a dedicação impessoal, são grandes lições da escola positivista para o estudo de História.
Em contrapartida, surgiram duas novas correntes, que se opunham e criticavam o positivismo e, ora se conferenciavam em alguns pontos, ora divergiam, em outros, o marxismo e o grupo Annales. As duas correntes têm como ponto comum a crítica e rejeição de uma história ditam positivista e propõem uma renovação dos métodos históricos. 
O marxismo fundamenta-se em dois elementos principais, o materialismo dialético e para o qual a natureza, a vida e a consciência se constituem de matéria em movimento e evolução permanente, e o materialismo histórico, para o qual o modo de produção é a base determinante dos fenômenos históricos e sociais, inclusive as instituições jurídicas e políticas, a moralidade, a religião e as artes. Segundo Karl Marx, a história é um processo de criação, satisfação, e recriação contínuas das necessidades são fixas e imutáveis. Quando pretendemos estudar a evolução da sociedade humana, temos que partir de exame empírico dos processos concretos da vida passa a ser descrito, a história deixa de ser uma coleção de fatos mortos ou uma atividade inventada de sujeitos inventados.
Fundamental, portanto para o marxismo, é a análise das condições materiais da existência numa dada sociedade. A corrente inovadora, os Annales, tinha como objetivo eliminar o espírito de especialidade, promover a pluridisciplinaridade, favorecer a união das ciências humanas, passar da fase dos debates teóricos para a fase das realizações concretas, nomeadamente os inquéritos coletivos no terreno da História Contemporânea. Condenam a falta de ambição dos historiadores "positivistas". Propunham uma história não automática, mas sim problemática; ressaltam a importância e a necessidade de uma história engajada, uma ciência humana constituída por fatos e textos, capazes de questionar e problematizar a existência humana. O historiador deve desenvolver seu trabalho, observando pelo menos três fronteiras de tempo: de curta, média e longa duração, pela impossibilidade de captar a multiplicidade do tempo social.
São etapas por que o estudo de História se desenvolveu, e passa por modificações continuamente, conforme a evolução do pensamento e as necessidades humanas; o homem é o ser mais imprevisível e mutável psicologicamente, podendo revolucionar a História toda, em um futuro bem próximo.

Alex Carvalho Bonardi

 As concepções formais da História

Em sua evolução, a História se apresentou pelo menos de três formas. Do simples registro à analise científica houve um longo processo.

  • História Narrativa ou Episódica - O narrador contenta-se em apresentar os acontecimentos sem preocupações com as causas, os resultados ou a própria veracidade. Também não emprega qualquer processo metodológico.
  • História Pragmática - Expõe os acontecimentos com visível preocupação didática. O historiador quer mudar os costumes políticos, corrigir os contemporâneos e o caminho que utiliza é o de mostrar os erros do passado. Os gregos Heródoto e Tucídides e o romano Cícero ("A Historia é a mestra da vida") representam esta concepção.
  • História Científica - Agora há uma preocupação com a verdade, com o método, com a análise crítica de causas e consequências, tempo e espaço. Esta concepção se define a partir da mentalidade oriunda das ideias filosóficas que nortearam a Revolução Francesa de 1789. Toma corpo com a discussão dialética (de Hegel e Karl Marx) do século XIX e se consolida com as teses de Leopold Von Ranke, criador do Rankeanismo, o qual contesta o chamado "Positivismo Histórico" (que não é relacionado ao positivismo político de Augusto Comte) e posteriormente com o surgimento da Escola dos Annales, no começo do século XX.
  • História dos Annales - Pensadores franceses fundaram em 1929 uma revista de estudos, a "Revue des Annales", onde rompiam decididamente com o culto aos heróis e a atribuição da ação histórica aos chamados homens ilustres, representantes das elites. Para estes estudiosos, o cotidiano, a arte, os afazeres do povo e a psicologia social são elementos fundamentais para a compreensão das transformações empreendidas pela humanidade.

 As concepções filosóficas da História

Ainda no século XIX surgiu a discussão em torno da natureza dos fenômenos históricos. A que espécie de preponderância estariam ligados? Aos agentes de ordem espiritual ou aos de ordem material? Antes disso, a fundamental teológica fez uma festa na mente cordata do povo.

  • Concepção Providencialista - Segundo essa corrente, os acontecimentos estão ligados à determinação de Deus. Tudo, a partir da origem da terra, deve ser explicado pela Providência Divina. No passado mais remoto, a religião justificava a guerra e o poder dos governantes. Na Idade Média Ocidental, a Igreja Cristã era a única detentora da informação e, naturalmente, fortificou a concepção teológica da História. Santo Agostinho, no livro "A Cidade de Deus", formula essa interpretação. No século XVII, Jacques Bossuet, na obra "Discurso Sobre a História Universal", afirma que toda a História foi escrita pela mão de Deus, E no século passado, o historiador italiano Césare Cantu produziu uma "História Universal" de profundo engajamento providencialista.
  • Concepção Idealista - Teve em Georg Wilhelm Friedrich Hegel, autor de "Fenomenologia do Espírito", seu corporificador. Defende que os factos históricos são produto do instinto de evolução inato do homem, disciplinado pela razão. Desse modo, os acontecimentos são primordialmente regidos por idéias. Em qualquer ocorrência de ordem econômica, política, intelectual ou religiosa, deve-se observar em primeiro plano o papel desempenhado pela idéia como geradora da realidade. Para os defensores dessa corrente, toda a evolução construtiva da humanidade tem razão idealista.
  • Concepção Materialista - Surgiu em oposição à concepção idealista, embora adotando o mesmo método dialético. A partir da publicação do Manifesto Comunista de 1848, Karl Marx e Friedrich Engels lançam as bases do Materialismo Histórico, onde argumentavam que as transformações que a História viveu e viverá foram e serão determinadas pelo fator econômico e pelas condições de vida material dominantes na sociedade a que estejam ligadas. A preocupação primeira do homem não são os problemas de ordem espiritual, mas os meios essenciais de vida: alimentação, habitação, vestimenta e instrumentos de produção. No prefácio de "Crítica da Economia Política", Karl Marx escreveu: "As causas de todas as mudanças sociais e de todas as revoluções políticas, não as devemos procurar na cabeça dos homens, em seu entendimento progressivo da verdade e da justiça eternas, mas na vida material da sociedade, no encaminhamento da produção e das trocas".
  • Concepção Psicológico-social - Apoia-se na teoria de que os acontecimentos históricos são resultantes, especialmente, de manifestações espirituais produzidas pela vida em comunidade. Segundo seus defensores, que geralmente se baseiam em Wilhelm Wundt ("Elementos de Psicologia das Multidões"), os factos históricos são sempre o reflexo do estado psicológico reinante em determinado agrupamento social.

 

REFÊRENCIAS

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BURKE, Perter (org.). A Escrita da História – Novas Perspectivas. São Paulo:
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FEBVRE, Lucien. Combates pela História. 3ª edição, Lisboa: Editorial Presença.

REIS, José Carlos. Tempo, História e Evasão. Campinas: Papirus Editora, 1994.


Ciências auxiliares da História

Noções gerais

O objeto das ciências auxiliares da História é todo e qualquer indício dos atos e condições de vida dos homens no passado. Em comparação com a ciência histórica em geral, as ciências auxiliares da História ocupam, de acordo com o seu objeto, posição secundária. Há quem tenha tentado substituir este conceito de ciências auxiliares pelo de ciências básicas, pois que o conhecimento histórico só é possível a partir dos vestígios que nos ficam dos tempos antigos ou seja a partir das fontes. este conceito de ciências básicas da História acentua a sua importância como parte essencial da História e não como "auxiliares" que a História poderia eventualmente dispensar. Às ciências básicas da História cabe, não o ocuparem-se do material histórico por ele próprio, mas sim ordenar esse material - em si mesmo sem vida -, descobrir novas fontes com base nas quais se possam deduzir novas certezas históricas.

ESTRUTURA.

Como ciências das fontes do conhecimento histórico, todas as ciências auxiliares, e portanto também as fontes, podem distribuir-se por três grupos, conforme dizem respeito a textos, a objetos ou a fatos. 

TEXTOS (Fontes escritas).

A decifração e ordenação dos escritos antigos compete em geral à paleografia. De acordo com a distribuição dos textos segundo a sua forma externa surgem a papirologia, a epigrafia, a codicologia. Igualmente se podem distribuir as várias fontes de acordo com a sua forma interna. Assim, a diplomática ocupa-se há já longo tempo dos documentos; de constituição recentíssima é a chamada "publicística histórica", que não se apresenta ainda sistematicamente organizada.

OBJETOS.

A moedas, os selos e os brasões são há séculos objeto da numismática, da esfragísitica e da heráldica. Por outro lado, os monumentos jurídicos, entre eles muito particularmente os símbolos de soberania, só recentemente foram considerados fontes históricas; correspondem-lhe respectivamente a arqueologia do direito e a insignologia.

Poderão igualmente ser consideradas ciências auxiliares o estudo do vestuário, da alimentação, da casa, dos divertimentos, etc., que constituem capítulos da chamada "vida quotidiana.

Por seu lado, a iconografia começa a debruçar-se sobre as obras de arte, encarando-as como fontes históricas. O ambiente físico e humano, na sua interação, constitui, por seu vez, objeto de estudo da geografia histórica.

FATOS OU CIRCUNSTÂNCIAS (-> Fontes, generalidades). 

Em primeiro lugar, não são objeto das ciências históricas, mas sim das ciências sistemáticas: a jurisprudência e a teologia ocupam-se das instituições, a sociologia e a etnologia dos costumes e do comportamento dos povos, a economia política dos vários aspectos económicos, a filologia dos idiomas, e assim por diante. É evidente que o conhecimento abrangido por todos estes campos do saber não só é útil como muitas vezes indispensável à boa compreensão dos fenómenos do passado. Deste modo as ciências sistemáticas, principalmente as suas disciplinas históricas (História do Direito, História da Igreja, História das Línguas, História Social, História Económica, etc.), são também ciências auxiliares da História. Os que a elas se dedicam debruçam-se sobre as mesmas fontes que os historiadores, encarando-as embora de perspectiva diferente – perspectiva que deriva da sistemática da sua ciência própria.

De maior amplitude dentro das ciências auxiliares da História são a cronologia e a metrologia. Correspondendo embora a determinados grupos de fontes (aos calendários e padrões antigos), o certo é que a sua verdadeira tarefa não consiste apenas na exploração desses elementos, mas sim em reconstituir a estrutura métrica por meio da qual no passado os homens dividiam o tempo e o espaço. Indiretamente a cronologia e a metrologia esclarecem muitos problemas de outras fontes.

Cabe mencionar também a genealogia, cujo objeto não é determinado grupo de fontes (as velhas árvores genealógicas), mas o próprio homem. Não se esgota na comprovação de descendências, sendo atualmente praticada, ao mesmo tempo, como estudo de pessoas e de populações, e em certos casos até como antropologia. Por isso se torna tão evidente na genealogia a ligação entre as ciências auxiliares da História e a própria História no seu sentido geral.


Heráldica e Genealogia

HERÁLDICA.

Os brasões são símbolos permanentes de propriedade e reconhecimento de pessoas, entidades, cidades, países, etc. A regulamentação dos brasões esteve na Baixa Idade Média a cargo dos arautos ou heraldos; daí lhe veio o nome de heráldica.
As armas ou brasões clássicos, correspondendo às armaduras da Idade Média, compõem-se de escudo e elmo. Adornam o escudo figuras heráldicas coloridas (formas heráldicas puramente geométricas ou - nas armas falantes - figuras concretas). Adornando o elmo encontram-se o paquife e o timbre, onde se podem repetir as figuras do escudo, e as fitas esvoaçam nas cores principais das armas em questão. O elmo pode eventualmente ser substituído pela coroa, pela mitra, ou pelo chapéu de prelado. As armas podem existir sem escudo nem elmo.
O valor da heráldica para a História reside no facto de - com certa reserva - as armas representarem determinada qualidade, grau de parentesco ou participação de quem as usa em determinada ordem ou confraria, e permitirem a identificação de retratos, monumentos, fundações, campas, etc. Além deste valor histórico individual, os brasões têm igualmente importância para o estudo da simbólica e da história da arte.
As armas e os símbolos que lhes correspondem não se confinam ao mundo anterior à revolução industrial; é ver, por exemplo, o pentagrama pintado em todas as viaturas militares, quer americanas quer soviéticas. De certo modo, as modernas marcas registadas traduzem, no mundo comerciai uma nova heráldica; há para elas registo idêntico ao que houve para os antigos brasões e também gozam de proteção legal. A importância da heráldica moderna revela-se sobretudo no estudo das bandeiras e dos brasões dos novos estados. A combinação dos símbolos e das cores assenta por vezes em tradições antiquíssimas, frequentemente em mera arbitrariedade moderna.

GENEALOGIA.

É «a ciência das relações de parentesco entre os homens» (Forst de Battaglia). Tendo como finalidade a prova de heranças e de direitos de hereditariedade, remonta a tempos muito antigos; como ciência metodicamente organizada, foi criada por J. G. Gatterer (1727-99) e O. Lorenz (1832-1904) cuja «teoria das gerações» como «sistema natural de períodos históricos» não encontrou aliás eco no seu tempo. As relações de parentesco podem ser expostas por formas diversas: quadro de antepassados, que, partindo de determinado individuo, começam por lhe referir os pais, em seguida os pais dos pais, etc.; quadro de descendência, que, partindo de um individuo, lhe apresentam os filhos, depois os filhos dos filhos, etc.; quadro genealógico, isto é, a descendência limitada aos portadores do mesmo nome, ou seja excluindo a descendência por parte das filhas do quadro de descendência; quadro de parentesco, que, de determinado aspecto, faz escolha a partir dos quadros acima referidos.
Na prática é raro a genealogia limitar-se à pesquisa de simples relações de parentesco (Inicio do Novo Testamento: «Abraão gerou Isaac – Isaac gerou Jacob...»), abrangendo também informações pessoais (prosopografia, biografia), referindo datas, itinerários e anedotas. Quando, em vez de se limitar ao parentesco de família, se debruça sobre círculos mais amplos (aldeias, cidades, países, grupos de emigração) a genealogia alarga-se em demografia, dificilmente se separando da História em geral, tornando-se então evidente até que ponto a genealogia e os acontecimentos de carácter pessoal constituem a par do registo de direitos - uma das bases da historiografia.


Diplomática, cronologia e esfragística.

DIPLOMÁTICA.

É a ciência crítica dos diplomas – em sentido rigorosamente jurídico – e das suas formas. Por diploma entende-se todo o «escrito autêntico exarado de acordo com determinadas regras e versando assuntos de carácter jurídico. Entre os diplomas podem distinguir-se:

1. Segundo a relação com o respectivo acto jurídico:

os testemunhos (notícia, breve memorativum), que atestam um acto jurídico encerrado e probatório, e as cartas (epístola, carta), que originam um acto jurídico.

2. De acordo com o autor do diploma: documentos régios, papais ou particulares. (Esta última designação é de certo modo confusa, pois também pode abranger diplomas feitos por príncipes, bispos, particulares, etc.)

3. De acordo com a duração do seu conteúdo jurídico:

diplomas, preceitos, privilégios, isto é, decretos especialmente importantes de forma solene e os mandatos (cartas), muito menos complicados, de carácter administrativo e efeito temporário (rescritos, litterae), de importância transitória.

4. De acordo com a forma como foram transmitidos:

minutas, originais, cópias autênticas e cópias simples, dos quais só os originais são diplomas em sentido jurídico ao passo que as cópias pertencem já à categoria dos documentos diversos. Estas classificações são bem mais numerosas e complexas do que aqui se deixa entrever: não se menciona a classificação quanto ao modo de apresentação (cartas patentes, cartas fechadas), a classificação em actos probatórios e actos dispositivos, em diplomas de chancelaria e não de chancelaria; nem se faz referência ao problema das diferenças de terminologia de país para país.

Os documentos medievais apresentam em regra a seguinte forma:

1. Protocolo inicial: invocatio (invocação de carácter religioso), intitulatio e fórmula de submissão (subscrição - indicação do autor e seus títulos), inscriptio (endereço - indicação do destinatário), salutatio (saudação).

2. Texto: prologus ou arenga (preâmbulo - motivação geral), notificatio, promulgatio ou publicatio (notificação), narratio (narração - relato das circunstâncias), dispositio (dispositivo - declaração de vontade própria, conteúdo material do acto jurídico), sanctio (fórmula penal, ameaça de castigo por transgressão), corroboratio (indicação de certificados comprovativos da autenticidade do documento).

3. Escatocolo ou protocolo final: subscriptiones (sinais ou assinaturas do autor e das testemunhas), data (indicação do dia e do lugar), apprecatio (bênção).

Tarefa importante da diplomática, e razão da sua origem, é a identificação das falsificações. Convém distinguir entre falsificações parciais por acrescento ou supressão (interpolações positivas ou negativas) e falsificações integrais (entre as mais famosas mencione-se a doação de Constantino, que data do século VIlI e pretende ser de 370).

NUMISMÁTICA.

Existente desde a época do Humanismo, ao mesmo tempo que os gabinetes de moedas de grandes coleccionadores (por exemplo, Cósimo de Médicis, 1398 - 1464), que a ela se dedicaram mais como passatempo do que como ciência, só no século XVIII (J. H. Eckhell, 1737-98) se organizou cientificamente. O seu objecto consiste, por um lado, nas moedas cunhadas, divididas em moeda-ouro ou moeda corrente (valor real igual ao valor nominal) e moeda de crédito (valor real inferior ao valor nominal); por outro, nas unidades não cunhadas, ou moeda de conta, como, por exemplo, o soldo, o marco, a lira antes do século XIV. (Na moderna economia política estes conceitos mudaram ligeiramente de sentido.).
A numismática tem enriquecido muito o nosso conhecimento de certas épocas, tanto da Antiguidade como da Alta Idade Média, que poucos documentos nos deixaram. Pelas moedas, local onde foram encontradas e objetos que as acompanhavam podem tirar-se importantes conclusões para a história económica (alargamento e aspectos do direito de cunhar moeda e da economia monetária, ligações comerciais, salários, preços, etc.). Muitas vezes as moedas ajudam a datar outras fontes históricas. Finalmente, o estudo comparado dos tipos desempenha papel importante para a história da religião e dos símbolos e para a história da arte.



CRONOLOGIA.

Como parte da astronomia, remonta a tempos muito antigos. A cronologia histórica, como ciência dos diversos sistemas de divisão e medição do tempo, apenas no século XIX se começou a desenvolver.
A maior parte dos sistemas de contagem do tempo baseia-se na posição do Sol e da Lua em relação à Terra. O ano, explícito na variação da duração dos dias, e. por conseguinte no Verão e no Inverno, tem a sua explicação no movimento da Terra em torno do Sol, podendo ser medido pela repetição dos equinócios. O mês, explícito na mudança das fases da Luz, é astronomicamente explicado pelo movimento da Lua em torno da Terra e pela posição de ambas em relação ao Sol. Mede-se pela repetição das luas cheias. Nem o ciclo do Sol nem o da Lua se podem determinar por número exato de dias (365 dias, 5 h 48' 46" e 29 dias 12 h 44'). Um ano lunar de doze meses inteiros é cerca de dez dias mais curto do que um ano solar. A introdução de meses intercalares, por exemplo, sete em cada dezanove anos, a chamada regra metónica, combina ambos os sistemas num ciclo anual lunissolar. Os três ciclos que acabamos de referir serviram na História, e servem ainda hoje nalgumas regiões, como base da medição do ano; o puro ano lunar usou-se na velha Roma e usa-se ainda hoje no mundo islâmico. Os Babilónios e os Gregos regiam-se pelo ano lunissolar, que preside ainda atualmente à vida dos Judeus ortodoxos e à elaboração do calendário litúrgico cristão. Os Egípcios, a comunidade de Qumram e os Romanos a partir de 46 a. C. adoptaram o ano solar puro. O calendário introduzido por Júlio César, e por isso chamado calendário juliano (ano solar de 365 dias; doze meses, sem correspondência com as fases da Lua; de quatro em quatro anos um dia intercalar) foi o calendário do Império Romano e dos Cristãos da Idade Média. A sua forma melhorada, o calendário gregoriano (dias intercalares suprimidos nos anos de fim de século não divisíveis por 400) substituiu, em 1582, nos países católicos o calendário juliano; na mudança foram saltados dez dias para correção (de 4 a 15 de Outubro). A maior parte dos países protestantes adaptaram-no depois de 1700; a Inglaterra em 1752, a Suécia em 1753, a Rússia em 1917, a Grécia em 1923. (Ao referir estas datas o historiador terá sempre de entrar em conta com as acima mencionadas, pois que, de 1582 a 1923, o calendário juliano apresentou em relação ao calendário reformado uma diferença de 10-13 dias). Desde que, em 1949, a China adoptou também o novo calendário, ele passou a dominar a maior parte do mundo.
A contagem dos anos foi quase sempre feita com base num império, num consulado ou num pontificado. A contagem seguida (eras) encontramo-la apenas, de começo, em algumas obras científicas – desde o século III a. C. nos Gregos a partir das Olimpíadas (começo em 1-7-776); desde o século I a. C. nos Romanos, a contar da fundação de Roma (21-4-753). De significado prático foram: a partir de 280 a. C., a Era dos Selêucidas para a Ásia Menor, para os Árabes e para os Judeus (a partir da vitória de Seleuco, 1-10-312/1-4-311 a. C.); a Era dos Mártires, com início no século IV, no Egito, e que se prolonga até hoje entre os Cristãos, Coptas e Etíopes (subida ao poder de Diocleciano, 29-8-284 d. C.); a Era Hispânica, ou de César, a partir do século V e até ao fim da Idade Média (contada a partir de acontecimento desconhecido [mas geralmente considerado como consagrando a conquista de toda a Espanha por Augusto no ano precedente (39 a.C.) e que foi substituída pela Era Cristã, em Portugal, no reinado de D. João I, pela lei de 22 de Agosto de 1422]), em 1-1-38 a.C.; a Era Dionisíaca, ou Cristã (em Roma desde o século VI, em Inglaterra desde o fim do século VII, desde cerca do ano 1000 no conjunto do Oriente, desde 1700 na Rússia; desde 1949 na China); a Era Bizantina desde o século VII na Igreja Oriental, até 1700 na Rússia (segundo a criação do mundo em 1-9-5508 a. C.); a Era Muçulmana, do século VII até à atualidade (Hégira em 15-7-622); a Era Judaica, desde o século X até à atualidade (segundo a criação do mundo em 6-10-3761 a. C.). As tentativas recentes de dar início a uma nova era – com base na proclamação da República Francesa, em 22-9-1792, ou na marcha fascista sobre Roma em 28-10-1922 – fracassaram. A contagem dos anos anteriores ao nascimento de Cristo só em fins do século XVIII começou a divulgar-se.
Os vários começos do ano dentro da contagem cristã do tempo levantam também dificuldades: antes do nosso começo do ano tínhamos, a 25 de Março, o início do ano pelo sistema pisano da Anunciação, a 1 de Setembro pelo sistema bizantino e a 25 de Dezembro pelo do Natal. O sistema da Circuncisão (começo do ano a 1 de Janeiro) só a partir do século XVI se generalizou no Ocidente. Depois do nosso começo do ano havia: a 1 de Março o calendário da Velha Roma (na França merovíngia, na Rússia cristã até ao fim do século XIII, em Veneza até 1797); a 25 de Março o sistema florentino da Anunciação (usado pelos Cistercienses, nas dioceses de Metz e Trier, e em Inglaterra até 1752); finalmente na Páscoa o «mos gallicus» (em França até ao século XVI e esporadicamente na arquidiocese de Colónia).
A contagem dos dias era feita pelos Romanos de acordo com os dias antes e depois das calendas, das nonas e dos idos (o primeiro, quinto ou o sétimo, e o décimo terceiro ou o décimo quinto de cada mês); na Idade Média a contagem fazia-se, regra geral, com base em dias santificados ou de festa. Só a partir do século XVI se adoptou em geral a numeração seguida dos dias do mês.


ESFRAGÍSTICA (SIGILOGRAFIA).

Os selos resultam da impressão de uma forma cunhada ou cortada (cunho, sinete, carimbo) em massa amolecida (cera, metais, lacre), que em seguida se endurece de novo; mais recentemente entende-se também por selo a impressão dessa mesma forma através de sinete ou carimbo.
O selo serve para reconhecimento (prova), para fecho ou ainda como atestado de autenticidade de um documento.
Pela forma como o selo está ligado ao documento (aposto sobre ou pendente do pergaminho por fitas ou cordões), pelo tipo de selo (selo de Majestade, selos pequenos e privados, etc.,), bem como pelo estudo de outros pormenores, a esfragística pode pronunciar-se acerca da autenticidade ou não autenticidade dos documentos, e datá-los eventualmente, integrando-se assim na diplomática. Além disso o estudo dos selos permite tirar conclusões sobre a posição e os direitos da entidade a que o selo está ligado (que se saiba a Hansa nunca teve selo, logo, em sentido moderno, não constituiu de direito uma liga). A esfragística cabe ainda o estudo das figuras representadas nos selos.


Enciclopédia Meridiano // Fischer, vol. 3
págs. 60, 61 e 67.

A Historiografia Antiga: Algumas Observações


Definir o estatuto que os historiadores antigos, gregos e romanos, têm entre os historiadores da antiguidade coloca uma série de problemas. Isso pode ser observado através de uma simples comparação: um especialista da História francesa até pode tomar a obra de Michelet como fonte para o estudo do pensamento político no século XIX (por exemplo), mas dificilmente o definiria desta forma se estivesse pretendendo estudar um evento como a Revolução de 1789. Para quem deseja estudar as relações entre o Senado e os imperadores romanos no século I d.C., no entanto, a obra de Tácito forçosamente servirá de fonte. No caso, não apenas para estudar a ideologia senatorial (grupo do qual o historiador romano fazia parte), mas também para obter informações factuais, em si: se um determinado imperador visitou determinada província, se algum senador fez algum discurso, entre muitos outros usos.
Os historiadores da antiguidade, portanto, dependem de seus “colegas” antigos em um nível extremo. Assim, não é de se estranhar que controvérsias a respeito do caráter “científico” da História, ou dos limites da objetividade do historiador, sejam encaradas com extremo desconforto nesta área. Uma vez que assumimos que o relato do historiador não pode ser “verdadeiro”, no sentido de narrar o acontecido como ele realmente aconteceu, tomar as Histórias de Tácito como fonte para estudar o objeto de sua narrativa passa a ser bastante problemático. Não é por acaso, portanto, que nos últimos anos obras e artigos com títulos sobre “a retórica na historiografia clássica” ou “a história como texto” tenham proliferado entre os classicistas.
A premissa básica que existe entre estes estudos é a de que, sendo a História um gênero literário, sua escrita é presidida por cânones retóricos, mais do que pelas informações que o historiador pode coletar. Para um autor como Alan Woodman, portanto, Tácito é uma boa fonte para o estudo da ideologia senatorial, mas não para o período ou os eventos que ele pretende descrever. Para esse autor, o fato de o historiador romano fazer, em sua obra, descrições de batalhas segundo fórmulas repetitivas, por exemplo, seria uma amostra de sua estratégia retórica. Além disso, o valor dado por Tácito às digressões e descrições (onde mais uma vez fórmulas clássicas são repetidas) deixa claro que, para ele, escrever História seria uma atividade primariamente literária.
É claro que esta perspectiva representa um grande avanço para nosso conhecimento sobre a historiografia antiga. Afinal de contas, por mais generosos que tenham sido os historiadores gregos e romanos na elaboração de “discursos sobre o método” (mesmo um não historiador, como Cícero, registrou suas opiniões sobre o que seria a História bem feita), é sempre interessante ver como se dava a prática historiográfica. No entanto, tal observação, aliada ao fato de que a quase totalidade dos historiadores antigos eram membros das classes dominantes - e por isso diretamente interessados no objeto de seu relato -, leva-nos a um inevitável beco sem saída: como estudar o passado se as fontes de que dispomos não são adequadas?
Para colocar essa questão de uma forma mais concreta, podemos tomar como exemplo a análise da História Augusta (HA). Essa obra, uma coletânea de biografias de imperadores, co-regentes e usurpadores dos séculos II e III d.C., coloca uma série de problemas pertinentes aos nossos objetivos. Em primeiro lugar, pela forma como os manuscritos se apresentam: as biografias são atribuídas a autores diferentes, sendo seis no total (seria, assim, a primeira obra coletiva da historiografia clássica). Mais do que isso: dedicatórias e passagens dos textos indicam que as biografias teriam sido escritas entre os reinados de Diocleciano (fim do século III) e de Constantino (início do IV d.C.). A obra também é pródiga na citação de documentos inéditos e de escritores obscuros, indicando o interesse de seus autores em comprovar a veracidade daquilo que afirmam.
Desde o final do século XIX, no entanto, esse quadro tem sido completamente revisto. Em 1889, com a publicação de uma série de artigos sobre a autoria e a datação da HA, Herman Dessau chamou a atenção para os diversos anacronismos contidos nas biografias. Continham, observou, nomes e alusões que indicavam uma origem posterior à pretendida. Mais do que isso, Dessau mostrou que a obra possuía contatos e relações de dependência com textos posteriores, de meados do século IV. Sua conclusão foi que a obra deveria ter sido composta por volta de 390 d.C. por um único autor, e não pelos seis que eram nomeados. A partir daí, teve início uma violenta controvérsia seu respeito desta obra, sendo propostas diversas soluções para o problema da autoria e datação.
As posições deste autor são tidas atualmente como consensuais, o que no entanto significa reconhecer que a obra é uma grande fraude. Essa é, aliás, a posição do maior especialista no assunto neste século, Ronald Syme, para quem as biografias seriam um mero pastiche, um puzzle literário. Os historiadores da antiguidade, que antes tinham na HA uma fonte de imensa importância para o estudo dos séculos II e III , passaram a ter de lidar com alternativas pouco agradáveis: ou reconhecem que não existem fontes propícias para o estudo deste período e deixam de estudá-lo ou usam estas biografias como fonte a despeito dos problemas que ela impõe.
Acreditamos que a solução pode estar em um meio termo: analisando como algumas biografias foram compostas podemos encontrar elementos para responder a algumas das questões com que estamos lidando aqui. Para isso, escolhemos as biografias de Marco Aurélio e Cômodo, pai e filho, imperadores que reinaram na segunda metade do século II, por se tratar de um período para o qual dispomos de outras fontes literárias. Especialmente as obras de Dião Cássio e Herodiano são úteis, por serem autores reconhecidamente utilizados como fonte pela HA. O que se observa, aí, é que os relatos destes autores são seguidos de perto, chegando por vezes a ser copiados. Isso não impede o autor da HA de manipular as informações de que dispõe: omitindo fatos, enfatizando alguns aspectos e inventando documentos, exagera uma oposição entre as duas biografias que, apesar de também existir nos outros textos, não é tão importante.
A confecção das biografias imperiais, o uso das informações disponíveis parece se conformar à ideia de que existem bons e maus imperadores, e de que estes devem ter seu caráter mostrado da maneira mais clara e evidente. É possível observar, inclusive, que a própria seleção das informações utilizadas é presidida pela definição destes “tipos” de imperador. Isso, aliado a uma grande valorização do Senado como instituição política permite advogar um forte conteúdo ideológico para essa obra. Seu autor, portanto, prefere usar os relatos dos historiadores que viveram no período que ele descreve como ponto de partida para suas invenções, mais do que para citar detalhes reveladores. Por outro lado, a fonte que temos em mão não é produto da livre imaginação de um escritor; na verdade, existe uma matéria prima a partir da qual ele deve trabalhar.
Podemos ver como isso funcionava a partir de uma observação feita por Umberto Eco: escrever um romance é um “fato cosmológico” , ou seja, o escritor é obrigado a criar, dentro de certos limites da plausibilidade, todo um mundo, com pessoas, lugares, relações e ideias. De certa forma, o autor da HA também realiza um “fato cosmológico”, mas a partir de determinadas regras próprias ao gênero no qual sua obra se insere. O que conta para o historiador antigo não é apenas (e nem principalmente) a plausibilidade do mundo que ele recria (e não cria, como o romancista), mas a veracidade dos fatos sobre os quais ele o faz, seguindo a partir daí os limites do que é verossímil. O leitor da obra, como o leitor de um romance, é obrigado a completar determinadas informações com o que já sabe, mas ao contrário deste último o leitor da História usa seu conhecimento também para julgar o que está lendo.
Na Roma antiga, não faltavam meios de preservação e transmissão de informações sobre o passado: monumentos com inscrições e relevos, cultos, tradições orais e até outros historiadores. Os historiadores não tinham o monopólio da informação sobre o passado, e podiam por isso ser contestados e questionados. Nesse sentido, podemos considerar a HA um caso limite da inventividade e do compromisso dos historiadores antigos com sua própria imaginação. Nela, apesar de até a autoria e a datação serem forjados, o autor é obrigado a se curvar perante a existência de outras evidências históricas, quando elas existiam. É nessa perspectiva que os historiadores da antiguidade devem adotar os historiadores antigos como fonte. 
A História, na antiguidade, não era um subproduto da retórica, por mais que os historiadores a valorizassem: seu compromisso com a verdade era um produto não só de uma tradição intelectual, como também da expectativa de seus leitores. Eram esses leitores que a criticavam e recusavam, ou a elogiavam e preservavam, distribuindo cópias aos seus amigos.
Uma obra como a HA, ou como os Anais de Tácito, assim, pode ser de imensa importância para nós, historiadores. Desde que tomadas as devidas precauções, pode ser usada para estudar tanto o grupo em meio ao qual foi produzida quanto o período que descreve. O historiador pode respirar aliviado: as guerras pérsicas, a guerra do Peloponeso, a instituição do Principado e a crise do século III ainda podem ser estudados através de Heródoto, Tucídides, Tácito e da HA. O que se requer, como aliás é o caso com qualquer documento, é cautela.

Carlos Augusto Ribeiro Machado


GUERRA DE TRÓIA

Conflito em que a Grécia antiga teria derrotado a cidade de Tróia, localizada na Ásia Menor, no séc. XIII a.C., valendo-se de um estratagema...