domingo, 6 de setembro de 2026

Primeiros povos da América

O povoamento da América é um assunto fascinante, que desperta o interesse de muitos estudiosos. No continente americano, foram encontrados diversos vestígios, como pontas de lanças, artefatos de pedra e fósseis de mulheres e homens. Esses vestígios são utilizados para formular hipóteses sobre as datas da chegada dos primeiros grupos humanos à América e sobre os caminhos que eles percorreram. 

Pintura rupestre encontrada na Gruta das Mãos, em Santa Cruz, Argentina. Pesquisadores calculam que essa pintura foi feita entre 13 mil e 10 mil anos atrás.

Da África para outros continentes


A maioria dos estudiosos concorda que o local de origem do ser humano é a África. A maioria dos estudiosos concorda que o local de origem do ser humano é a África. Eles se baseiam em descobertas como as dos cientistas estadunidenses Donald Johanson Eles se baseiam em descobertas como as dos cientistas estadunidenses Donald Johanson e Tom Gray.
Em 1974, esses estudiosos descobriram um dos mais antigos esqueletos já e Tom Gray. Em 1974, esses estudiosos descobriram um dos mais antigos esqueletos já conhecidos: o fóssil de um indivíduo do sexo feminino, com cerca de 3,2 milhões de anos, conhecidos: o fóssil de um indivíduo do sexo feminino, com cerca de 3,2 milhões de anos, que foi batizado de Lucy. que foi batizado de Lucy.
A partir da África, os primeiros humanos espalharam-se por Europa, Ásia e finalmente A partir da África, os primeiros humanos espalharam-se por Europa, Ásia e finalmente chegaram à América, em um processo de milhares de anos de duração. Mas saber chegaram à América, em um processo de milhares de anos de duração. Mas saber como ocorreu o povoamento da América continua sendo um dos maiores desafios da humanidade.

Hipóteses de povoamento da América 


No livro História natural e moral das Índias, de 1590, o padre espanhol José de Acosta sugeriu que o continente americano tinha sido povoado por “selvagens caçadores vindos da Ásia”. A explicação de Acosta, porém, não foi logo aceita. Surgiram outras teorias sobre a chegada do ser humano à América. Alguns disseram que os nativos descendiam dos vikings. Outros disseram que tinham vindo das ilhas do oceano Pacífico.
Foi somente no final do século XIX que a suposição de José de Acosta foi confirmada, quando o etnólogo norte-americano D. G. Brington sugeriu que o povoamento do continente americano teria começado há 40 mil anos por povos vindos da Ásia. O povoamento teria ocorrido pelo ponto mais próximo entre os continentes asiático e americano, conhecido como estreito de Bering. Os grupos humanos que chegaram à América por esse caminho fizeram o trajeto a pé, provavelmente perseguindo grandes animais.
Manadas de animais de grande porte e seus predadores, incluindo grupos humanos, teriam atravessado a passagem de Bering e entrado no continente americano.
Existe um consenso entre os estudiosos sobre como ocorreu o povoamento do planeta pelos seres humanos. Eles concordam que a América foi ocupada depois da África, da Europa, da Ásia e da Oceania. Porém, há uma grande polêmica em relação à época da chegada desses primeiros povoadores da América e a respeito de quais teriam sido os caminhos por eles percorridos. 
Apesar das discordâncias, um consenso une os cientistas: eles admitem que os seres humanos americanos não são autóctones, ou seja, eles vieram de outros lugares. Os pesquisadores chegaram a essa conclusão porque até o momento nenhum vestígio de hominídeo anterior à espécie Homo sapiens foi encontrado no continente.
As principais hipóteses sobre o povoamento da América consideravam que o ser humano chegou aqui há 15 mil anos. Essas hipóteses eram defendidas com base em vestígios arqueológicos que datam desse período. Os registros da presença humana na América são numerosos e bem antigos. Em países como o Brasil, o Chile e o Canadá, há sítios arqueológicos datados de mais de 20 mil anos.

– Hipótese da Rota de Bering: Afirma que, durante a última Era Glacial, uma ponte de gelo teria se formado no estreito de Bering, tornando possível a passagem de grupos humanos da Ásia para a América. Deram até um nome para ela: Beríngia. Ainda não há evidências suficientes que comprovem que a Beríngia existiu de fato. Mas, se existiu, terá sido muito importante para o povoamento da América.
Desse modo, chegaram à América por terra, depois de atravessar o Estreito de Bering, situado entre a Sibéria (Rússia) e o Alasca (Estados Unidos). 
Essa travessia teria ocorrido em uma das vezes em que o nível do mar baixou muito, levando à formação de um caminho de gelo que ligava a América à Ásia, pelo norte.
Essas condições climáticas teriam permitido a formação de uma passagem natural de terra e gelo entre a Ásia e a América, chamada Ponte Terrestre de Bering.
Para suportar o frio intenso da região, frequentemente abaixo de 235 °C, esses humanos confeccionaram roupas térmicas com peles grossas de animais e sapatos para resistir à neve. Quando a temperatura do planeta aumentou, o nível das águas dos oceanos subiu e essa passagem se desfez. 

– Hipótese malaio-polinésia:  Defende que os primeiros habitantes da América teriam saído da Ásia em pequenas embarcações e navegado próximo à costa até chegar ao continente americano. 
Indica a possibilidade de que os primeiros povoadores tenham vindo da Polinésia, que é um conjunto de ilhas situadas no oceano Pacífico. Alguns grupos de navegadores teriam saído dessas ilhas e chegado com suas embarcações até a costa ocidental da América.

- Hipótese da Rota Transpacífica: Defende que, partindo da Ásia e navegando de ilha em ilha, alguns grupos humanos teriam atravessado o Oceano Pacífico e chegado à América do Sul.

- Hipótese da Migração Atlântica:  Afirma que, após sair da Europa em embarcações feitas de couro, alguns grupos humanos teriam navegado pelo Oceano Atlântico até chegar ao norte da América.

Outras hipóteses 


No início do século XX, surgiram outras possibilidades, mas sem negar a rota pelo estreito de Bering. O etnólogo Paul Rivet, por exemplo, fundador do Museu do Homem, em Paris (1937), sugeriu que o povoamento tinha se dado por diversas rotas, provenientes não apenas da Ásia, mas também da Oceania. Acrescentou, ainda, que algumas migrações tinham ocorrido há 40 mil anos e outras em tempos mais recentes, entre 6000 a.C. e 3000 a.C.
Os primeiros seres humanos teriam migrado para a América atravessando o estreito de Bering e, também, navegando pelo mar.
Quando ocorreram essas migrações? Para alguns pesquisadores, as primeiras migrações para a América aconteceram aproximadamente entre 12 mil e 20 mil anos atrás. Para outros estudiosos, essas travessias foram realizadas há mais de 50 mil anos. No entanto, essas hipóteses ainda são um debate em aberto.
Outra dúvida é se os primeiros povoadores da América teriam características asiáticas ou apresentavam traços faciais semelhantes aos dos africanos e dos aborígenes australianos. Essa discussão surgiu porque crânios e ossadas encontrados na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais, apresentam traços faciais semelhantes aos dos africanos e dos aborígenes australianos. Análises de ossadas, crânios e material genético dos primeiros povoadores do continente têm auxiliado os cientistas na tentativa de desvendar esse e outros mistérios.
Já a arqueóloga franco-brasileira Niède Guidon, que há décadas conduz as pesquisas no sítio arqueológico da Pedra Furada, no Piauí, sustenta uma hipótese bastante questionada pela maioria dos estudiosos sobre o povoamento da América. Para ela, grupos de pescadores da África e da Oceania teriam migrado para a América do Sul entre 60 mil e 100 mil anos atrás, arrastados por ventos e correntes marítimas. Segundo Niède Guidon, as diferentes hipóteses sobre o povoamento da América não se anulam, mas se complementam.
Estudos realizados pela arqueóloga brasileira Niède Guidon, entretanto, comprovaram que o ser humano chegou ao continente americano há mais tempo. Ela realizou suas pesquisas no sítio arqueológico do Boqueirão da Pedra Furada, no Parque Nacional Serra da Capivara, localizado no município de São Raimundo Nonato, no Piauí. 
Nesse lugar, ela encontrou vestígios da presença humana com mais de 50 mil anos de idade. Assim, ela defende a hipótese de que vários grupos humanos chegaram à América em diferentes épocas, percorrendo diversos caminhos.

Pintura rupestre no Parque Nacional Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato (PI).

A história do povoamento da América está em plena construção, e o território brasileiro é considerado por muitos pesquisadores uma das regiões mais propícias a novas descobertas que possam ajudar a compreender como o ser humano ocupou o continente americano.

Teorias sobre a origem humana na América


Em 1999, o arqueólogo brasileiro Walter Neves revelou ao mundo o fóssil mais antigo de toda a América; tratava-se do crânio de uma mulher que viveu há cerca de 11 500  anos! Os arqueólogos a batizaram de anos! Os arqueólogos a batizaram de Luzia (em homenagem a Lucy). 
Conforme nos conta Walter Neves, Luzia foi descoberta em 1975 por uma missão franco-brasileira coordenada pela arqueóloga Annette Laming-Emperaire, que morreu precocemente sem divulgar o achado. Walter Neves retomou a pesquisa de Annette e sua equipe e divulgou o extraordinário achado em 1999.
Cientistas ingleses reconstituíram a fisionomia de Luzia e, surpresos, descobriram que suas feições se assemelhavam às dos nativos da África e da Austrália: olhos arredondados, nariz largo e lábios volumosos.
Recentemente, com base em materiais inéditos de Lagoa Santa (MG), Walter Neves descobriu também que as características cranianas do povo de Luzia eram semelhantes às dos africanos e australianos. Para ele, então, o povo de Luzia entrou na América antes dos grupos com feições asiáticas que deram origem aos indígenas atuais.

O modelo é a reconstituição das feições de Luzia, produzida a partir de imagens de computador. Segundo alguns pesquisadores, Luzia pertenceu a um grupo que viveu nas Américas 3 mil anos antes da população indígena. Rio de Janeiro (RJ), 2018.

Os estudos de Niède Guidon

Segundo a arqueóloga Niède Guidon, há provas de que a presença humana em São Raimundo Nonato, no Piauí, é muito antiga. Ela e sua equipe descobriram, no sítio arqueológico de Pedra Furada, pedaços de carvão e de pedra lascada que teriam pelo menos 50 mil anos. Segundo ela, tais vestígios são prova suficiente da presença humana na América desde aquela data.
Outros cientistas, porém, não aceitaram as provas apresentadas por Niède Guidon, dizendo que o carvão encontrado por ela pode ter sido produzido por incêndios florestais e que as lascas de pedra podem ser resultado do esfacelamento das rochas; ou seja, esses materiais seriam resultado de fenômenos naturais, e não da ação humana.

Niède Guidon formou-se em História Natural pela Universidade de São Paulo (USP) e especializou-se em arqueologia pré-histórica pela Sorbonne, França. 

A arqueologia e a Pré-história americana


Os pesquisadores que apoiam a ideia de que os primeiros grupos humanos acessaram o continente americano pelo Estreito de Bering chegaram a essa conclusão depois de examinar artefatos de pedra e ossos de animais encontrados no sítio arqueológico de Clóvis, situado no estado do Novo México, no sudoeste dos Estados Unidos. 
Nas planícies da América do Norte, no final da década de 1920, foram encontrados vestígios arqueológicos que datam de 9000 a.C. São pontas de lanças feitas de sílex, uma rocha muito dura, dotadas de uma base côncava e pequenos sulcos dos lados. Elas foram chamadas pelos arqueólogos de pontas Clóvis, e possivelmente eram utilizadas para caçar bisões.

Pontas Clóvis datadas de cerca de 4000 a.C. encontradas no atual estado do Missouri, nos Estados Unidos. As lanças com pontas Clóvis eram muito eficientes para caçar.

Com base na datação desses objetos, cientistas estadunidenses elaboraram a teoria chamada Clóvis-Primeiro. Segundo essa teoria, uma leva migratória de grupos humanos com traços asiáticos teria chegado à América por volta de 11500 anos atrás. Assim, ao longo de centenas de anos, os povos descendentes desses grupos teriam ocupado, na direção norte-sul, todo o continente. Descobertas arqueológicas mais recentes, no entanto, têm contestado essa teoria.
A teoria de Clóvis começou a ser questionada na década de 1970. A análise de fósseis e outros artefatos arqueológicos encontrados na América do Sul, datados de pelo menos 13500 anos, mostrou que o  povoamento do continente teria começado muito antes do que essa teoria afirmava, ou seja, os habitantes de Clóvis não teriam sido os primeiros a chegar ao continente americano.
Em pesquisas realizadas nas últimas décadas, estudiosos encontraram indícios de que a presença humana na América pode ser muito anterior à cultura Clóvis. Por exemplo, nos sítios arqueológicos de Piedra Museo e Los Toldos, na Argentina, e de Debra L. Friedkin, nos Estados Unidos, há indícios da presença humana de 13 mil a 15 mil anos atrás. No sul do Chile, em Monte Verde, os vestígios datam de cerca de 13 mil anos atrás e, por sua localização, sugerem que o povoamento do sul do continente pode ter sido anterior ao da parte norte.

Vestígios arqueológicos de pegadas humanas de cerca de 23 mil anos encontrados no Parque Nacional de White Sands. Novo México, Estados Unidos.

Nos últimos anos, esse questionamento ganhou força com a descoberta de vestígios ainda mais antigos: uma equipe de arqueólogos encontrou milhares de artefatos de pedra provavelmente fabricados por mãos humanas, além de restos de fogueira e ossos de animais, com datação que varia entre 30 mil e 13 mil anos. Outro grupo de pesquisadores fez uma descoberta ainda mais fascinante na região do Novo México. Eles encontraram pegadas humanas datadas entre 23 mil e 21 mil anos atrás.
Para alguns estudiosos, essas descobertas indicariam que, além dos grupos que teriam chegado ao continente pelo Estreito de Bering, pode ter havido outras ondas migratórias em direção à América por via marítima pelos oceanos Pacífico e Atlântico.
As técnicas de produção de armas e ferramentas dos povos que habitavam o continente americano, entretanto, eram muito diferentes entre si. Entre os povos caçadores, alguns utilizavam instrumentos de pedra, enquanto outros produziam armas feitas de bambu e madeira. 
Um povo, contudo, não deve ser considerado inferior ou superior a outro. Cada grupo produzia instrumentos adequados ao ambiente em que vivia. Os povos da cultura Cochise, que habitavam a região desértica dos atuais Estados Unidos, desenvolveram armas de pedra adaptadas à caça naquela região. Já os povos amazônicos produziam instrumentos pontiagudos de bambu ou madeira, excelentes para a pesca fluvial.
Houve povos que, além de aperfeiçoar seus instrumentos de caça, desenvolveram o cultivo da terra, aumentando assim as chances de sobrevivência e levando ao crescimento numérico do grupo. Dessa forma, alguns grupos do continente americano deixaram, pouco a pouco, de ser nômades e tornaram-se sedentários. Esse processo aconteceu, inicialmente, no atual México e, logo depois, na região andina da América do Sul.

Monte Verde, Chile


O sítio arqueológico de Monte Verde foi descoberto, por aca so, em 1976. Os objetos encontrados nesse local estavam bem preservados por causa da existência de turfas, materiais formados de restos de vegetais em decomposição, que preservam tudo que absorvem. 
Nesse sítio, os pesquisadores encontraram vestígios da presença humana datados de pelo menos 12500 anos. São pinturas rupestres, pontas de lança feitas de pedra, restos de fogueiras, objetos de madeira, plantas medicinais, ossos de mastodonte e até pegadas humanas.

Piedra Museo e Los Toldos, na Argentina


Piedra Museo é o sítio mais antigo da Argentina. Lá foram descobertas pinturas rupestres e instrumentos de caça de 13 mil anos atrás. Com os artefatos, foram encontrados restos de animais extintos há mais de 10 mil anos. 
Nas cavernas de Los Toldos, arqueólogos demarcaram camadas do solo que revelam a passagem de diferentes grupos humanos. No interior dessas cavernas foram encontrados utensílios e restos de animais com cerca de 12500 anos e pinturas rupestres com desenhos de mãos feitos entre 9500 e 13 mil anos atrás.

Pinturas rupestres no sítio arqueológico Cueva de las Manos, datadas entre 9500 e 13 mil anos. Santa Cruz, Argentina.


Diversidade cultural 


Os primeiros grupos humanos que chegaram à América foram, aos poucos, se espalhando pela vastidão desse continente. Durante um ou dois milênios, ocuparam e se adaptaram aos diversos ambientes naturais, desde o norte até o sul do continente. 
Para isso, desenvolveram conhecimentos e costumes adequados a cada realidade. Das terras geladas do Alasca às planícies argentinas, as sociedades americanas encontraram formas originais de aproveitar os recursos naturais para garantir sua sobrevivência.
Dessa maneira, formaram-se no continente muitos povos e culturas. Alguns desses povos viviam da caça, da pesca e da coleta; outros passaram a combinar a caça e a coleta com o cultivo de vegetais. Outros, ainda, transformaram a agricultura em sua principal atividade.
Os grupos de caçadores-coletores e alguns dos povos que se tornaram sedentários por causa da atividade agrícola eram sociedades igualitárias. Isso significa que nelas as pessoas dividiam o trabalho e os produtos gerados por ele de maneira relativamente igual.
Outros povos, por sua vez, construíram cidades, nas quais havia trabalhos específicos para cada camada social. Essas sociedades, portanto, eram hierarquizadas. Nelas, grupos de poucas pessoas assumiram a função de governar e passaram a concentrar a maior parte da riqueza e a exercer o poder por meio do estabelecimento das leis, da aplicação da justiça e do controle religioso.
A ideia de que o povoamento da América tenha se originado de regiões distintas da Terra fundamentava-se em um argumento forte: as culturas e as línguas dos povos americanos eram muito diferentes entre si. Como teriam se formado mais de 2 600 línguas se todos os grupos que chegaram à América tivessem partido de um mesmo lugar?
Esses grupos foram povoando áreas que correspondem, atualmente, às florestas do leste dos Estados Unidos, aos desertos do México, à bacia do rio Amazonas, aos vales das montanhas andinas, ao litoral do Brasil. Alcançaram, até mesmo, o extremo sul do continente, a ilha da Terra do Fogo.
O povoamento da América provocou impacto e destruição de boa parte da diversificada fauna original. Nessa fauna havia, por exemplo, tigres-dentes-de-sabre, mamutes, mastodontes, leões americanos, cavalos nativos e preguiças-gigantes, que podiam pesar 8 toneladas e alcançar 6 metros de altura. No entanto, a maioria dessas espécies foi desaparecendo, principalmente em função da caça promovida pelos grupos humanos.
Ao modificar a natureza e a paisagem, cada povo desenvolveu sua cultura. Essa cultura se manifesta num conjunto de bens materiais e imateriais, como o jeito próprio de construir instrumentos, cultuar seus deuses e organizar a vida social.

Descobertas arqueológicas no Brasil 


As descobertas arqueológicas que ocorreram no Brasil foram importantes para a construção da história dos primeiros povos que viveram nestas terras. Além disso, até agora, os fósseis humanos encontrados no país estão entre os mais antigos da América.

Lagoa Santa 


Em 1834, o pesquisador dinamarquês Peter Lund (1801-1880) encontrou fósseis de cerca de 30 pessoas na gruta de Sumidouro, que fica no município de Lagoa Santa, no estado de Minas Gerais. 
Depois, vieram muitas outras descobertas. Uma delas foi realizada na mesma região de Lagoa Santa, em 1974 e 1975, pela equipe coordenada pela arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire. 
Mas foi apenas na década de 1990 que um dos esqueletos descobertos em Lagoa Santa pela equipe de Annette recebeu atenção especial dos pesquisadores. Esse esqueleto era de uma mulher que viveu há cerca de 11 mil anos, talvez o mais antigo de toda a América. Esse achado foi batizado de Luzia pelo arqueólogo brasileiro Walter Neves.
Segundo Walter Neves, os estudos sobre Luzia indicam que seus antepassados podem ter chegado à América há pelo menos 15 mil anos, possivelmente através do estreito de Bering. Além disso, mais recentemente, a análise desse crânio indicou que ela possuía traços semelhantes aos de africanos e de nativos australianos.

Walter Neves é biólogo, arqueólogo e antropólogo.

Os estudos também consideram que o chamado povo de Luzia se abrigava nas grutas da região, onde também foram encontradas pinturas de peixes, veados, figuras humanas, aves, entre outras.

São Raimundo Nonato 


Além das descobertas em Lagoa Santa, pesquisas realizadas pela arqueóloga brasileira Niède Guidon, em São Raimundo Nonato, no estado do Piauí, sugerem que homens e mulheres habitavam o território brasileiro há, pelo menos, 50 mil anos. Essas pesquisas foram decisivas para a criação do Parque Nacional da Serra da Capivara em 1979, cujo objetivo é proteger os monumentos arqueológicos e as belezas naturais da região. Em 1991, esse parque foi reconhecido como Patrimônio Mundial da Unesco.
O parque abriga mais de mil sítios arqueológicos, onde foram encontrados diversos vestígios da ocupação humana. Entre eles, podemos destacar fósseis humanos de 10 mil anos, objetos confeccionados com pedras lascadas e poli das (machado, raspador, pilão, ponta de flecha). Além de uma grande concentração de pinturas rupestres que possuem de 6 mil a 12 mil anos.
Para a arqueóloga Niède Guidon, os grupos humanos de São Raimundo Nonato formavam comunidades de caçadores-coletores, abrigavam-se em grutas, tinham o domínio do fogo e sabiam construir instrumentos de pedra. 
No entanto, as informações a respeito desses primeiros povoa dores do atual estado do Piauí têm gerado controvérsias entre os estudiosos. A polêmica está relacionada a algumas pedras lascadas e restos de fogueiras que podem ter mais de 50 mil anos. Segundo Niède Guidon, esses vestígios indicariam que a ocupação na América do Sul ocorreu bem antes do que se imaginava.

Baixão da Pedra Furada no Parque Nacional da Serra da Capivara, Piauí.

Primeiros povoadores 


O atual território brasileiro é uma das regiões da América habitada desde, pelo menos, 10 mil anos.
Os povos caçadores-coletores viviam da caça, da pesca e da coleta de alimentos. Não praticavam a agricultura, mas tinham o domínio do fogo e fabricavam instrumentos variados, feitos de pedra e de ossos. 
Embora existam muitas semelhanças entre os modos de vida dos primeiros povos caçadores-coletores, também é possível identificar diferenças entre eles. Aliando trabalho e criatividade, esses povos desenvolveram culturas próprias.
A maior parte das informações que temos sobre eles vem dos vestígios de seus instrumentos, ali mentos, habitações, etc. No atual estado de São Paulo, por exemplo, os pesquisadores acharam diversos tipos de pontas de flecha. Em Minas Gerais e no Piauí, descobriram uma grande quantidade de pinturas rupestres que provavelmente pertenceram a esses povos.
Já no Rio Grande Sul, foram encontradas facas de pedra em forma de bumerangue e boleadeiras. A boleadeira é um instrumento com posto de duas ou três bolas de pe dra amarradas por um cordão, feito geralmente de couro. As boleadeiras eram lançadas nas patas do animal para derrubá-lo. Até hoje as boleadeiras são usadas por alguns gaúchos que vivem no campo e criam animais.
Por volta de 8 mil anos atrás, parte do litoral brasileiro era habitada por povos seminômades. Alguns desses povos deixaram como vestígios de sua presença os sambaquis.
Sambaqui (palavra de origem tupi que significa “monte de conchas”) é um acúmulo de conchas de moluscos e restos de animais como peixes e aves que essas comunidades depositaram em determinados locais, ao longo do tempo. Existem sambaquis que atingem até 30 metros de altura e 400 metros de comprimento por 100 metros de largura.
Os sambaquis eram utilizados para enterrar os mortos e seus objetos pessoais (enfeites, utensílios e armas). Isso indica que, provavelmente, já existia entre os sambaquieiros uma preocupação religiosa com a morte. Esses povos também costumavam construir suas habitações sobre os montes de conchas.
Os estudos dos sambaquis sugerem que, até cerca de mil anos atrás, muitos desses povos formavam aldeias com cerca de 150 habitantes. Viviam da coleta, da caça e, principalmente, da pesca. Utilizavam instrumentos feitos de pedra (enfeites, facas, flechas, machados) e de osso (arpões, agulhas, anzóis). Tinham o domínio do fogo e assavam os alimentos. 
A expansão territorial dos sambaquieiros durou cerca de 5 mil anos. Foi interrompida pela ocupação de grande parte do litoral e parte do interior por tribos e aldeias da etnia tupi.
No final do século XV, com a chegada dos europeus ao continente americano, muitos sambaquis foram destruídos. Alguns portugueses tiravam as conchas dos sambaquis para fabricar cal (material usado na construção de habitações). Atualmente, a preservação dos sambaquis continua sendo ameaçada. 
Eles são destruídos com o objetivo de, por exemplo, abrir caminho para novas construções ou extrair materiais para produção agrícola. 
Apesar desse processo de destruição, ainda existem sambaquis no litoral brasileiro, muitos deles estudados por equipes de arqueólogos e historiadores. Os sambaquis estão localizados desde o estado do Rio Grande do Sul até o Espírito Santo. Possuem idades variadas, embora seja difícil dizer exatamente quando foram formados. 
Alguns, como o de Capelinha (São Paulo), têm cerca de 8 mil anos. Outros, como os de Paranaguá (Paraná), têm entre 6 mil e 7 mil anos.

A vida dos primeiros americanos 


As sociedades ancestrais que existiram na América desenvolveram diferentes culturas. Alguns grupos sobreviviam exclusivamente da caça, da pesca e da coleta, e para isso utilizavam arco e flecha, facas feitas de pedra e boleadeiras.
Numerosos vestígios dos primeiros americanos foram descobertos em escavações feitas em todo o continente. A análise dos artefatos encontrados indica que os primeiros habitantes do continente se organizavam em pequenos grupos de caçadores-coletores. 
Provavelmente, eles migravam para outras regiões quando os recursos do local onde estavam se esgotavam; sabiam produzir fogo, com o qual se aqueciam, iluminavam seus acampamentos, cozinhavam e se protegiam de animais; habitavam cavernas e grutas ou construíam abrigos com galhos, folhas e peles de animais; fabricavam instrumentos variados de pedra, ossos e possivelmente madeira, palha e couro.
Provavelmente entre 2 mil e 4 mil anos atrás, havia grupos que praticavam a agricultura e a criação de animais. Diversos alimentos eram cultivados, dependendo da região: mandioca, feijão, abóbora, pimentão, tomate, milho, batata, abacate, cacau. Foram domesticados na América animais como a lhama e o peru. Além disso, também desenvolveram a tecelagem e o artesanato em cerâmica e realizavam rituais religiosos. 
Em várias partes da América do Norte, como no sítio de Clóvis, foram encontradas ferramentas de pedra bifaciais, ou seja, lascadas dos dois lados, como pontas de flecha, pontas de lança e perfura dores, utilizados na caça de grandes animais.
No Brasil, artefatos parecidos, porém menores, foram achados em vários sítios arqueológicos localizados nas regiões Sul e Sudeste. Já os objetos encontrados nas regiões Nordeste e Centro-Oeste são unifaciais, ou seja, lascados em apenas um dos lados da pedra. Esses objetos são, em sua maioria, raspadores, furadores e cortadores. 
Como o conhecimento utilizado para produzir as ferramentas é transmitido ao longo de gerações, foi possível encontrar objetos muito parecidos produzidos em várias épocas diferentes, mesmo que com pequenas alterações.

As primeiras sociedades hierarquizadas da América


Na região Andina e na Mesoamérica desenvolveram-se sociedades hierarquizadas. A organização dessas comunidades baseava-se na divisão entre grupos de pessoas que comandavam e tomavam decisões e os grupos de pessoas que eram comandadas. 
Localizado em região desértica do atual Peru, Caral é o mais antigo centro cerimonial descoberto na América. O local começou a ser habitado há cerca de 5 mil anos, ou seja, na mesma época em que outras sociedades hierárquicas estavam se formando na China, na Mesopotâmia e no Egito.
A arquitetura de Caral é a principal evidência da organização da sociedade que o construiu. Cerca de trinta grandes conjuntos cerimoniais com imensos complexos em forma de pirâmide impressionam por seu tamanho e pelo sofisticado trabalho humano envolvido na construção de templos, anfiteatros, túmulos e altares. Nas ruínas de Caral foi encontrada, também, uma extensa rede de aquedutos. 
A presença dessas construções monumentais em Caral revela a existência de um nível de organização social complexo e de tecnologias agrícolas eficientes que garantiam ampla produção de alimentos para a subsistência de todos. Depois de Caral, outras sociedades hierárquicas formaram-se na região dos Andes.

A datação dos achados arqueológicos 


Existem diferentes técnicas para definir a idade de um fóssil ou de um artefato arqueológico. Uma delas é a estratigrafia, por meio da qual se analisam as camadas do solo onde os objetos ou os vestígios foram encontrados, considerando que as camadas mais profundas são as mais antigas. Outro método é a datação por radiocarbono, também conhecido como carbono-14, que consiste na análise da quantidade de carbono radioativo encontrado no fóssil. Porém, esse método usando o carbono-14 não é confiável para a análise de objetos com mais de 60 mil anos.




PERIODIZAÇÃO DA HISTÓRIA ANTES DA ESCRITA

Até o início do século XX, vigorava entre os historiadores a ideia de que o conhecimento histórico só poderia ser construído pela análise de documentos escritos. Para esses profissionais, não poderia haver história sem fontes escritas. Por isso, o período anterior à escrita foi chamado de Pré-História.
Esse critério, porém, é muito simplificador, pois desconsidera todos os outros vestígios deixados pelos seres humanos antes de desenvolver a escrita, como os artefatos criados e os registros rupestres. 
Com a ampliação dos registros considerados fontes históricas, passou-se a questionar o uso desse termo, visto que os registros deixados pelos primeiros seres humanos (como objetos de cerâmica e pinturas rupestres) também começaram a ser considerados históricos. 
Por isso, atualmente, prefere-se chamar o período anterior ao uso da escrita de história Pré-escrita, em vez de Pré-história. Feita essa observação, você vai conhecer a divisão mais tradicional da história antes da escrita.
Esses questionamentos se refletiram nas propostas de periodização. Até então, a época anterior ao surgimento da escrita era dividida em dois grandes períodos, que se subdividiam: a Idade da Pedra e a Idade dos Metais. A Idade da Pedra compreendia o Paleolítico e o Neolítico. A Idade dos Metais, por sua vez, era subdividida em Idade do Bronze e Idade do Ferro.
Essas periodizações e as datas às quais elas se referiam diziam respeito à história de alguns povos do continente europeu, do norte da África e de parte do Oriente Médio. Essa cronologia desprezava o desenvolvimento tecnológico ocorrido no restante do mundo, em outras temporalidades. Além disso, esse modo de classificar os períodos da história sugeria que havia uma evolução entre os povos, como ocorre na biologia.
Existem sociedades atuais, por exemplo, que não têm sistema de escrita nem vivem em cidades. No entanto, sabemos que isso não significa que elas sejam atrasadas em relação às outras culturas ou mesmo que não tenham história. 
Cada grupo apresenta movimentos próprios de desenvolvimento e isso não o torna superior ou inferior. Dessa forma, as periodizações foram sendo adaptadas de acordo com a região abordada, já que, em cada parte do mundo, o desenvolvimento de tecnologias ocorreu em ocasiões diferentes. Assim, evita-se criar um julgamento que conceba a história como um processo evolutivo “rumo ao progresso”. 

A vida dos primeiros seres humanos 


Como era a vida dos primeiros seres humanos? De 120 mil a aproximada mente 12 mil anos atrás, os grupos humanos que foram estudados por arqueólogos e historiadores possuíam algumas características em comum. Vamos conhecê-las?

Caçadores e coletores: Os primeiros grupos humanos se dedicavam às atividades de subsistência. Para isso, se concentravam na caça, na pesca e na coleta de frutos, verduras e outros alimentos. Eles também coletavam diferentes matérias-primas, como a madeira e diferentes rochas, usadas para a fabricação de ferramentas.
Nômades: grupos que viviam em pequenos bandos, abrigavam-se em cavernas e deslocavam-se com frequência de um lugar para o outro por causa da escassez de caça e pesca.
Ferramentas: Os primeiros grupos humanos, em seu dia a dia, quebravam pedras e as transformavam em instrumentos cortantes, usados, por exemplo, para caçar, guerrear ou cortar a carne de suas presas. A época em que os seres humanos desenvolveram essa tecnologia foi chamada pelos pesquisadores de Idade da Pedra Lascada ou Paleolítico, em referência aos instrumentos feitos de pedra.
Controle do fogo: Esses povos começaram a controlar o fogo, que era fonte de luz e calor e recurso para cozinhar alimentos. Com isso, alguns grupos humanos começaram a se estabelecer por mais tempo em determinados locais, ou seja, estabeleciam-se por longos períodos em certos locais, deslocando-se apenas quando se esgotavam os recursos à sua volta. 
Arte rupestre: Os humanos também se expressavam artisticamente por meio das inscrições (ou pinturas) rupestres, em rochas e nas paredes e tetos das cavernas e de outros abrigos. Essas pinturas tinham como tema cenas do cotidiano, como é o caso da caça, apresentando figuras humanas, animais e outros objetos. As tintas e pigmentos eram produzidos com sangue, minerais, argila, gordura animal e resinas vegetais, entre outros.

As primeiras sociedades 


Ao pesquisar a história das diferentes sociedades humanas que tiveram origem na África, arqueólogos e outros estudiosos encontram os mais variados vestígios que demonstram os hábitos e as habilidades desses povos. 
Entre esses hábitos e habilidades estão, por exemplo, a invenção das primeiras tecnologias, o controle do fogo, o desenvolvimento dos idiomas, das expressões artísticas e dos ritos religiosos. 
Todas essas transformações culturais, pioneiramente realizadas por diferentes povos africanos, foram promovendo mudanças na natureza e na paisagem e nas formas de relacionamento social.

Paleolítico: povos caçadores-coletores



O primeiro marco da divisão da história Pré-escrita é o Paleolítico, que corresponde ao período em que os seres humanos usavam instrumentos feitos de pedra lascada, que já eram empregados havia cerca de 2,5 milhões de anos por outros hominídeos.
O Paleolítico foi um período muito longo da história da humanidade, no qual os seres humanos sobreviveram da caça, da pesca e da coleta de frutas, sementes, raízes e folhas. Por isso, ficaram conhecidos como caçadores e coletores.
Os historiadores dão o nome de Paleolítico ou Idade da Pedra Lascada ao período mais remoto da história dos seres humanos, quando eles se abrigavam em cavernas, vestiam-se com peles de animais e faziam instrumentos rudimentares de lascas de pedra, ossos e madeira. 
As pesquisas indicam que os primeiros grupos humanos caçavam, pescavam e coletavam grãos, frutos e raízes para se alimentar, mas não cultivavam plantas nem criavam animais.
Nessa época, os seres humanos eram nômades, ou seja, deslocavam-se de um lugar para outro em busca de melhores condições de sobrevivência, e formavam grupos pouco numerosos em que o trabalho era coletivo: a caça, a pesca e o corte de lenha eram tarefas dos homens; já as mulheres coletavam frutos, preparavam os alimentos e cuidavam das crianças. 
Consumiam alimentos que encontravam na natureza e, quando esses alimentos se tornavam escassos, mudavam-se para outros lugares. Por isso, foram chamados de caçadores-coletores nômades.
Evidências sugerem que alguns grupos humanos aprenderam a fazer o fogo há cerca de 1 milhão de anos. Aqueles que dominavam essa técnica apresentavam vantagem em relação aos demais: as fogueiras serviam para se aquecer, afugentar animais, iluminar o interior de cavernas, acender tochas e cozinhar alimentos.
Durante os milhões de anos do Paleolítico, nosso planeta passou por intensas mudanças climáticas. Assim, os povos das diferentes regiões do mundo tiveram que se adaptar a essas mudanças, criando ou aperfeiçoando maneiras de viver e sobreviver. Nesse período, uma das conquistas mais importantes dos grupos humanos foi o controle do fogo. Mas como esses grupos aprenderam a controlar o fogo?
Supõe-se que, no princípio, eles procuraram manter aceso o fogo provocado ocasionalmente pela natureza (por exemplo, as chamas nos galhos de uma árvore atingida por um raio). Depois, descobriram como produzir fogo pelo atrito entre pedaços de madeira ou lascas de pedra.
O fogo foi utilizado de várias maneiras, por exemplo: para combater o frio intenso; ilu minar ambientes escuros; afastar animais predadores; cozinhar alimentos em fogueiras. Esses usos do fogo continuam importantes até hoje. Na iluminação, o fogo foi utilizado até a invenção da lâmpada elétrica em 1879.
Além do controle do fogo, os seres humanos começaram a construir abrigos utilizando madeira, peles e ossos. Também passaram a fazer roupas com peles de animais.
Aos poucos, esses grupos humanos desenvolveram os primeiros instrumentos para caçar, pescar, colher plantas comestíveis, cortar frutos ou mesmo para fazer outros instrumentos, como lanças, arcos, flechas, arpões, lâminas e anzóis. 
Na fabricação desses instrumentos eram utilizados materiais como madeira, ossos, chifres e pedras lascadas, motivo que levou esse período a ser chamado de Paleolítico (palaiós = antigo, primitivo; líthos = pedra), que significa “velha idade da pedra”.

Neolítico: sociedades agrícolas e pastoris


Pesquisas indicam que, por volta de 12 mil anos atrás, alguns grupos humanos aprenderam a domesticar animais e a praticar agricultura. Esse fato diminuiu a necessidade de deslocamento em busca de comida, tornando-os seminômades. 
A partir de 8000 a.C., aproximadamente, em algumas regiões do mundo, parte dos grupos humanos começou a polir as pedras para confeccionar instrumentos, como facas, foices e machados. 
Esses instrumentos cortavam melhor que os instrumentos de pedra lascada, utilizada no Paleolítico. Esse novo período foi classificado como Neolítico (do grego, neo = novo; líthos = pedra; que significa “nova idade da pedra”).
Além dos instrumentos de pedra polida, considera-se que uma das principais inovações do Neolítico foi o cultivo de plantas (agricultura) e a criação de animais (pastoreio). Essas atividades se tornariam importantes fontes de obtenção de alimento, juntamente à caça, à pesca e à coleta de grãos e frutos silvestres.
Nesse mesmo processo, houve grupos humanos que se tornaram sedentários, ou seja, fixaram-se em um território, formando aldeias. Nesses locais, as terras e os instrumentos de trabalho eram de uso coletivo. 
Os homens fabricavam armas e instrumentos de trabalho com a técnica de polimento de pedras, ossos e madeira, construíam abrigos e caçavam; já as mulheres cuidavam das crianças, plantavam, cozinhavam e produziam utensílios de palha e cerâmica.
O desenvolvimento da agricultura e da criação de animais ocorreu em várias regiões do mundo, mas em diferentes momentos. Por isso, não é possível utilizar uma data exata de término de um período e início do outro. 
Na África (região do atual Egito) e no Oriente Médio (região do atual Iraque), esse processo teve início por volta de 8000 a.C. (cultivo do trigo e da cevada e criação de ovelhas, porcos e bois). Na América, alguns pesquisadores acreditam que o processo teve início por volta de 6000 a.C. (cultivo de milho, abacate, pimenta, tomate, abóbora, feijão e criação de patos e perus).

Sedentarização e produção de alimentos


Durante o período Neolítico, a agricultura e a criação de animais forneceram alimentos para as comunidades humanas. No entanto, outra parte dos alimentos continuou vindo da coleta de frutos, da caça e da pesca.
As novas atividades de produção levaram certos grupos a morar por mais tempo nas terras que cultivavam. Criou-se, assim, um novo modo de vida, chamado sedentarismo, ou seja, certos povos passaram a habitar um mesmo local de forma prolongada em função, por exemplo, da agricultura.
Os cultivos agrícolas desse período variaram de região para região, destacando-se os de trigo, centeio, cevada, milho, batata, mandioca e arroz. As criações mais comuns eram de carneiros, cabras, bois e porcos.
Aos poucos, com o domínio de técnicas agrícolas e pastoris, muitos grupos foram armazenando alimentos e se organizando em aldeias.
Apesar do enorme avanço tecnológico atual, é possível dizer que a maioria dos alimentos consumidos pela humanidade no século XXI derivam de plantas que foram domesticadas entre 8000 a.C. e 3500 a.C., como trigo, milho, batata, feijão, arroz, centeio, cevada, entre outras. Isso demonstra nossos vínculos com os conhecimentos agrícolas e pastoris dos tempos neolíticos.

Inovações técnicas do Neolítico 


Além da agricultura, da criação de animais e da sedentarização, outras transformações importantes aconteceram no período Neolítico. Muitas delas estavam ligadas a inovações técnicas na:

• cerâmica – diversos grupos humanos começaram a produzir utensílios de cerâmica, modelando a argila e aquecendo-a no fogo. Supõe-se que foi a necessidade de cozinhar e de armazenar os alimentos que levou à confecção desses utensílios;
• tecelagem – vários povos começaram a fiar e a tecer, utilizando as pelagens de animais e as fibras vegetais. Surgiram, então, as primeiras roupas de lã, linho e algodão. Antes disso, as vestimentas eram feitas principalmente do couro e de peles de animais;
• moradia – os grupos humanos também começaram a construir casas mais duradouras, feitas de madeira, barro, pedra e folhagem seca. A edificação desses tipos de moradia está relacionada ao processo de sedentarização. 

Aldeias e primeiras cidades


As primeiras aldeias sedentárias foram surgindo à medida que as comunidades neolíticas se fixavam em um território. Essas comunidades dedicavam-se principalmente à criação de animais e ao cultivo agrícola. 
De modo geral, estudiosos supõem que em muitas comunidades os homens mais jovens praticavam a caça e a pesca. Já as mulheres cuidavam da agricultura, cozinhavam os alimentos, produziam utensílios de cerâmica, teciam roupas e cuidavam das crianças. 
Aos poucos, a divisão das tarefas se tornou mais especializada e as aldeias foram se organizando de maneira mais complexa. Isso teria contribuído para o surgimento das primeiras vilas e cidades. Estas incorporaram à sua organização social novos elementos: por exemplo, uma muralha protetora, um templo para cultuar um deus, grupos de sacerdotes: armazéns para guardar os alimentos, guerreiros para cuidar da defesa etc.
No Oriente Médio, surgiram algumas das primeiras sociedades urbanas. Entre as cidades mais antigas do mundo, podemos citar: Jericó, na região da atual Palestina; Beidha, na atual Jordânia; e Çatal Hüyük, na atual Turquia. Elas se desenvolveram das vilas agrícolas entre 8000 a.C. e 7000 a.C.

Metalurgia e desenvolvimento técnico 


Ao final do período Neolítico, em cerca de 4000 a.C., em algumas das primeiras cidades do mundo, surgiu a metalurgia, técnica que permite a transformação de metais em objetos variados. Essa inovação costuma ser considerada um importante marco do desenvolvimento tecnológico humano. 
Em geral, os metais são tão resistentes quanto as pedras, mas oferecem mais possibilidades de modelagem. Quando derretidos pela ação do calor (fusão), os metais assumem as formas mais variadas. No desenvolvimento inicial da metalurgia, foram utilizados três tipos de metal.
O primeiro metal a ser empregado em grande quantidade foi o cobre. Da mistura do cobre com o estanho, foi obtido o bronze. Por ser mais resistente que o cobre, o bronze tornou-se matéria-prima para a fabricação de espadas, escudos, lanças e martelos. 
Por volta de 1500 a.C., povos que viviam na Ásia Menor ( região que atualmente pertence à Turquia) começaram a utilizar o ferro. Os instrumentos feitos de ferro, por sua maior resistência, favoreceram o aumento da produção agrícola e artesanal.
Os artesãos metalúrgicos foram capazes de produzir diversos tipos de objetos e instrumentos, como panelas, vasos, enxadas, machados, pregos, facas e lanças de metal. Instrumentos de pedra, como pontas de flechas e raspadeiras, continuaram sendo utilizados.

Arte, crenças e invenções das primeiras sociedades humanas


No longo período da Pré-História, os seres humanos criaram diferentes for mas de expressar seu cotidiano e suas crenças, e desenvolveram conhecimentos que os ajudaram a sobreviver.
Os humanos pré-históricos fizeram inúmeras pinturas dentro de cavernas, utilizando restos de carvão e tinta produzida com folhas, sangue, urina e terra. Esses desenhos, chamados de arte rupestre, revelam o modo de vida de nossos ancestrais, com cenas de caça, guerra e coleta.
Outra manifestação cultural da Pré-História são as estatuetas femininas, esculpidas em pedra ou osso, encontradas em diversas partes do mundo. A função das pinturas rupestres e estatuetas não era decorativa. Elas são consideradas manifestações artísticas do período e geralmente representam aspectos do cotidiano. Foram encontrados indícios de que os primeiros grupos humanos também costumavam enterrar os mortos em cavernas ou túmulos coletivos, que eram demarcados por grandes blocos de pedra.
No Período Neolítico, a invenção da roda e de embarcações tornou mais rápida a locomoção para lugares distantes. A agricultura gerou a necessidade de novos objetos, como potes de cerâmica, usados para armazenar os grãos e cozinhar os alimentos. O arado com tração animal, as pás, as enxadas e as foices facilitaram o trabalho de plantio e de colheita. 
Entre 5 000 a.C. e 4 000 a.C., algumas sociedades neolíticas desenvolveram técnicas de fundição de metais. Inicialmente, fundiam o cobre e o empregavam na manufatura de vários objetos; depois, passaram a usar o bronze e o ferro, materiais mais resistentes, com os quais faziam instrumentos de trabalho, utensílios e armas.
Existem muitas técnicas e métodos para estudar a cultura material dos povos da Pré-história. Por exemplo, os estudiosos fazem comparações entre esses povos e as sociedades ágrafas do presente. Porém, nem todos os pesquisadores consideram válidas essas comparações, pois afirmam que aspectos formais parecidos entre duas culturas podem ter significados bastante diferentes. Por essa razão, advertem que é preciso cautela para não transferir conhecimentos de um tempo para outro e de uma cultura para outra, como se as culturas ágrafas fossem todas iguais ou tivessem ficado “congeladas” no tempo.
Apesar das críticas ao método comparativo, algumas características parecem ser recorrentes nas sociedades sem escrita. Uma delas é o modo de tratar os idosos. Diferentemente do que acontece nas sociedades industriais de hoje, em que os idosos muitas vezes são considerados “improdutivos” e chegam até mesmo a ser abandonados pela família, nas sociedades ágrafas, eles assumem funções importantes, como a de conselheiros e guardiões da sabedoria dos antepassados.
 

África: o “berço da Humanidade”

Por que em várias situações lemos reportagens, vemos filmes ou ouvimos pessoas dizendo que a África é o “berço da humanidade”? Porque foi neste continente que os cientistas encontraram os vestígios mais antigos da presença da espécie humana. Nesse sentido, para a ciência, o ser humano surgiu na África.
Há aproximadamente 6 milhões de anos, um grupo de primatas teria dado origem aos primeiros hominídeos, seres com algumas características semelhantes às dos humanos modernos. No decorrer dos milhões de anos seguintes, os hominídeos evoluíram e deram origem a outras espécies, como os gêneros Australopithecus e Homo.
Na década de 1970, pesquisadores encontraram na Etiópia um dos esqueletos mais antigos de que temos notícia. Tratava-se de um hominídeo do gênero Australopithecus, que recebeu o nome de Lucy e que viveu há aproximada mente 3,2 milhões de anos. Essa espécie de hominídeo, mais antigo que o Homo sapiens, vivia no sul da África, já andava ereto sobre os dois pés e tinha habilidade nas mãos, apesar de não fabricar instrumentos como o Homo sapiens.

Da África para o mundo 


Todas as evidências indicam que os seres humanos surgiram na África e, a partir dela, se espalharam para os outros continentes. 
Durante muito tempo, acreditou-se que essa dispersão havia se dado em uma única migração, ocorrida há 50 mil anos, com os grupos humanos seguindo até o norte da África e atravessando a península Arábica também pelo norte, em direção à Ásia central. 
Estudos recentes, contudo, concluíram que muito antes dessa migração houve outra, há cerca de 130 mil anos, quando grupos humanos deixaram a região nordeste da África em direção ao sul da península Arábica. 

Continente africano: regiões e povos


As principais fontes para conhecer a história dos diversos povos que viveram no continente africano são as arqueológicas, mas nem todos os terrenos eram propícios à formação de fósseis que permitam um estudo. Dessa forma, somente hipóteses podem ser apresentadas. 
Acredita-se que os grupos de Homo sapiens se desenvolveram na África há cerca de 70 mil anos e espalharam-se pelo mundo. Depois, muitos deles domesticaram plantas e animais, tornando-se sedentários.
O fogo foi utilizado pelas populações da África há pelo menos 60 mil anos. A agricultura, por sua vez, desenvolveu-se em certas áreas, principalmente nas savanas, entre 4000 a.C. e 3000 a.C. Animais como jumento, gato, galinha-d’angola, carneiro e boi foram domesticados, apesar de a caça continuar sendo a principal fonte de alimentação. 
A grande quantidade e variedade de animais do continente permitiu que os grupos humanos se dedicassem à caça durante milênios, aprimorando técnicas de captura e de abate dos animais. Além disso, o caçador habilidoso tinha destaque social e político em várias sociedades.
A África tem três grandes zonas climáticas: o deserto, a savana e a floresta equatorial. As diferenças entre os povos do norte e os do centro e do sul da África estão diretamente relacionadas ao modo como cada um deles lidou com as condições naturais da região que habitava.

O Saara 


O atual Saara é um deserto que abrange a maior parte do norte da África, estendendo-se do mar Vermelho ao oceano Atlântico. Essa região, entretanto, já foi coberta de vegetação e até de algumas florestas e povo ada por variados grupos humanos e por muitos animais. 
Os povos que primeiro domesticaram os animais apareceram ali por volta de 5000 a.C. conduzindo rebanhos de gado, cabras e carneiros. A partir de 3000 a.C., essa enorme área entrou em acelerado processo de desertificação, o que levou muitos grupos humanos e animais a migrar para outras regiões em busca de água e alimento. 
Desse processo resultou o deserto que conhecemos hoje, com água escassa, ação dos ventos alterando constantemente o formato das dunas de areia, calor intenso durante o dia e noites muito frias.

Savanas e florestas 


Os povos das savanas foram os primeiros grupos africanos a desenvolver a agricultura e a se sedentarizar, talvez porque a caça e a coleta eram difíceis na região. Nas savanas, a vegetação é rala, a estação seca é bastante longa, predominam as gramíneas (capim, grama, etc.) e há poucas árvores. Além disso, há animais de grande porte difíceis de se rem caçados.
A floresta equatorial – chamada assim porque é cortada pela linha do equador – tem clima tropical, com densa vegetação e muitas chuvas. Nela há uma enorme quantidade de espécies de plantas, aves, peixes, mamíferos, insetos, etc. A caça e a coleta de plantas comestíveis fornecem alimentação aos habitantes. Sabe-se que a organização social dos povos da floresta, como a dos pigmeus, mesmo que pouco conhecida pelos estudiosos, é baseada em técnicas apuradas de caça aos grandes e aos pequenos animais.

A diversidade humana 


Em 1994, um grupo de cientistas encontrou quatro pequenos ossos de um pé esquerdo, pertencente a um hominídeo, nas cavernas de Sterkfontein, na província de Gauteng, na África do Sul. Três anos depois, encontraram mais três ossos. Desconfiaram que pertenciam ao mesmo indivíduo e que os demais ossos do esqueleto deveriam estar próximos. Acertaram. 
Encontraram os outros ossos daquele hominídeo e o batizaram com o nome de Pé Pequeno (tradução do inglês Little Foot). De moraram treze anos para desenterrá-lo totalmente, e é o esqueleto mais completo de um ancestral do ser humano até hoje descoberto.
Ele media cerca de 1,20 metro e podia andar sem o apoio das mãos. Estima-se que viveu entre 2,2 milhões e 3 milhões de anos atrás, mesmo período do Australopithecus africanus, também encontrado na África do Sul, em 1924, e de Lucy, um hominídeo descoberto na Etiópia, em 1974, ambos com esqueletos bem menos completos que o de Pé Pequeno. Descobertas de fósseis como os de Pé Pequeno, de Lucy e do Australopithecus africanus são evidências de que o ser humano atual surgiu na África e que, de lá, grupos migraram para outros continentes. Mas as sociedades surgidas nesse processo variaram muito em organização e modos de vida. Isso significa que o desenvolvimento da espécie humana não ocorreu no mesmo ritmo nem na mesma direção. 
A única certeza que se tem, entre os cientistas, é a de que todos os seres humanos, hoje, fazem parte da mesma espécie – o Homo sapiens – e uma sociedade não é melhor nem pior, nem mais ou menos desenvolvida do que outra. São, somente, diferentes.



África: vestígios dos primeiros seres humanos

Os vestígios mais antigos produzidos pelos seres humanos foram encontrados na África. É por isso que se afirma que o continente é o “berço da humanidade”.
Por algum motivo que ainda se desconhece, no Paleolítico os humanos migraram para outras regiões, ultrapassando os limites do continente africano. Antes disso, outras espécies de hominídeos, como os neandertais, também tinham deixado a África, e seus fósseis foram encontrados na Ásia e na Europa.
De forma geral, a migração humana começou na África Oriental entre 190 e 160 mil anos. No início, eles se deslocaram para outros lugares do continente africano. Depois, entre 100 e 60 mil anos, ocuparam regiões mediterrâneas, na Europa e no Oriente Médio. 
Na China, os fósseis de humanos mais antigos têm cerca de 80 mil anos. De lá, eles ocuparam a Oceania e, posterior mente, a América.

O surgimento das primeiras cidades

As comunidades sedentárias passaram a praticar agricultura, criar animais, fazer utensílios variados, bem como produzir vestimentas e alimentos no Período Neolítico. 

As primeiras aldeias e as trocas comerciais


As primeiras aldeias sedentárias foram surgindo à medida que as comunidades neolíticas se fixavam em um território. Essas comunidades dedicavam-se principalmente à criação de animais e ao cultivo agrícola. 
Com o desenvolvimento da agricultura e a domesticação de animais, há cerca de 10 mil anos, parte dos grupos humanos passou a viver mais tempo no mesmo local. Para isso, eles precisaram construir moradias permanentes com materiais que estavam disponíveis na região onde viviam, como pedra, madeira e argila.
As casas podiam ser espaçosas e ter vários cômodos. Em geral, eram erguidas umas próximas às outras para resistirem melhor às chuvas, geadas etc. Eram preferencialmente construídas perto dos rios para facilitar o acesso à água. Juntas, formavam uma aldeia.
No entanto, havia situações nas quais não se consumia tudo o que a comunidade produzia, gerando sobra. Essa sobra, chamada de excedente, começou a ser armazenada para ser utilizada quando fosse necessário, como em períodos de seca ou de inverno, e passou a ser trocada por produtos que a comunidade necessitava, o que representou o início da atividade comercial, apenas trocando um produto pelo outro – prática conhecida como escambo.
A oferta regular de alimentos também favoreceu o aumento da população. A utilização de novas técnicas garantiu a produção de excedentes, ou seja, cada agricultor conseguia produzir mais do que precisava para seu consumo. Os produtos agrícolas que sobravam passaram a ser armazenados para períodos de escassez.
A possibilidade de fazer estoques de alimentos permitiu que parte dos aldeões se dedicasse a outras atividades, como a tecelagem e a carpintaria. O produto do trabalho desses especialistas era trocado pelos excedentes agrícolas produzidos pelos camponeses. As trocas também passaram a acontecer entre aldeias, dando início ao comércio.
Com isso, o modo de vida dessas comunidades se tornou mais complexo e as pessoas passaram a aprender e a se dedicar a apenas um ofício. Essas transformações deram origem às primeiras cidades, nas quais as sociedades desenvolviam novas formas de viver, organizar e dividir o trabalho. 
Com o tempo, a população aumentou, assim como a necessidade de segurança, de regras e de pessoas que exercessem a justiça. Para dar conta desses novos desafios, surgiram os primeiros governos, exercidos por reis. Em algumas cidades houve a necessidade de registrar informações e acontecimentos. Para isso, foram criados os primeiros sistemas de escrita e de numeração. Além disso, essas sociedades eram politeístas.
Entretanto, nem todas as comunidades que viveram no fim do Período Neolítico passaram pelas mesmas transformações. Naquela época existiam comunidades nômades, seminômades, sedentárias e aquelas que viviam em cidades. 

As primeiras cidades


Ao longo do tempo, as aldeias neolíticas cresceram e se desenvolveram, dando origem às primeiras cidades. Uma das mais antigas de que se tem notícia é Çatal Huyuk, localizada na atual Turquia.
Com a produção de excedentes, o comércio e a especialização do trabalho, as aldeias neolíticas modificaram-se, tornando-se maiores e mais complexas.
Diversos fatores, porém, ameaçavam a estabilidade e a segurança dos habitantes das aldeias, como catástrofes naturais e roubo dos es toques de alimentos. Tornou-se necessário, então, organizar a defesa da comunidade, coordenar a produção, o armazenamento e distribuição do alimento e administrar as obras contra enchentes ou secas prolongadas. 
Os responsáveis por essas atividades projetaram-se como líderes poderosos e destacaram-se das demais pessoas da comunidade. Essas mudanças espaciais, administrativas, econômicas e sociais possibilitaram a formação das cidades.
Ao redor da cidade eram cultivados diversos produtos, entre eles cereais, como trigo e cevada. Alguns habitantes dessa cidade eram artesãos, fabricavam tecidos, cestos, cerâmicas e outros utensílios domésticos.
Os habitantes da cidade criavam bois e ovelhas, que forneciam matérias-primas como carne, para alimentação, e couro, para produção de peças de vestuário.
As moradias eram construídas uma ao lado da outra, bem próximas, por isso não havia espaço para ruas. A entrada de cada moradia era uma abertura no telhado.
No Oriente Médio, surgiram algumas das primeiras sociedades urbanas. Entre as cidades mais antigas do mundo, podemos citar: Jericó, na região da atual Palestina; Beidha, na atual Jordânia; e Çatal Hüyük, na atual Turquia. Elas se desenvolveram das vilas agrícolas entre 8000 a.C. e 7000 a.C.
O sítio arqueológico de Çatal Hüyük, localizado na atual Turquia, e o de Jericó, na Palestina, contêm os vestígios mais antigos de vida urbana conhecidos. Eles datam, respectivamente, de 10 mil e 9 mil anos atrás. 
Contudo, não apresentam a mesma complexidade dos aglomerados urbanos formados mais tarde nas proximidades do Golfo Pérsico, como Ur e Uruk. Por isso, nem todos os especialistas concordam em classificá-los como cidades.


Os povoadores do território brasileiro

O território que hoje faz parte do Brasil era habitado por diferentes grupos humanos há milhares de anos. Esses grupos viveram em diferentes...