O povoamento da América é um assunto fascinante, que desperta o interesse de muitos estudiosos.
No continente americano, foram encontrados diversos vestígios, como pontas de lanças, artefatos de pedra e fósseis
de mulheres e homens. Esses vestígios
são utilizados para formular hipóteses
sobre as datas da chegada dos primeiros
grupos humanos à América e sobre os caminhos que eles percorreram.
Da África para outros continentes
A maioria dos estudiosos concorda que o local de origem do ser humano é a África. A maioria dos estudiosos concorda que o local de origem do ser humano é a África. Eles se baseiam em descobertas como as dos cientistas estadunidenses Donald Johanson Eles se baseiam em descobertas como as dos cientistas estadunidenses Donald Johanson e Tom Gray.
Em 1974, esses estudiosos descobriram um dos mais antigos esqueletos já e Tom Gray. Em 1974, esses estudiosos descobriram um dos mais antigos esqueletos já conhecidos: o fóssil de um indivíduo do sexo feminino, com cerca de 3,2 milhões de anos, conhecidos: o fóssil de um indivíduo do sexo feminino, com cerca de 3,2 milhões de anos, que foi batizado de Lucy. que foi batizado de Lucy.
A partir da África, os primeiros humanos espalharam-se por Europa, Ásia e finalmente A partir da África, os primeiros humanos espalharam-se por Europa, Ásia e finalmente chegaram à América, em um processo de milhares de anos de duração. Mas saber chegaram à América, em um processo de milhares de anos de duração. Mas saber como ocorreu o povoamento da América continua sendo um dos maiores desafios da humanidade.
Hipóteses de povoamento da América
No livro História natural e moral das Índias, de 1590, o padre espanhol José de Acosta sugeriu que o continente americano tinha sido povoado por “selvagens caçadores vindos da Ásia”. A explicação de Acosta, porém, não foi logo aceita. Surgiram outras teorias sobre a chegada
do ser humano à América. Alguns disseram que os nativos descendiam
dos vikings. Outros disseram que tinham vindo das ilhas do oceano
Pacífico.
Foi somente no final do século XIX que a suposição de José de Acosta
foi confirmada, quando o etnólogo norte-americano D. G. Brington sugeriu que o povoamento do continente americano teria começado há 40 mil
anos por povos vindos da Ásia. O povoamento teria ocorrido pelo ponto
mais próximo entre os continentes asiático e americano, conhecido como
estreito de Bering. Os grupos humanos
que chegaram à América por esse caminho
fizeram o trajeto a pé, provavelmente perseguindo grandes animais.
Manadas de animais de grande porte e
seus predadores, incluindo grupos humanos, teriam atravessado a
passagem de Bering e entrado no continente americano.
Existe um consenso entre os estudiosos sobre como ocorreu o povoamento
do planeta pelos seres humanos. Eles concordam que a América foi ocupada
depois da África, da Europa, da Ásia e da Oceania. Porém, há uma grande polêmica em relação à época da chegada desses primeiros povoadores da América
e a respeito de quais teriam sido os caminhos por eles percorridos.
Apesar das discordâncias, um consenso une os cientistas:
eles admitem que os seres humanos americanos não são autóctones,
ou seja, eles vieram de outros lugares. Os pesquisadores chegaram a
essa conclusão porque até o momento nenhum vestígio de hominídeo anterior à espécie Homo sapiens foi encontrado no continente.
As principais hipóteses sobre o povoamento da América consideravam que o
ser humano chegou aqui há 15 mil anos. Essas hipóteses eram defendidas com
base em vestígios arqueológicos que datam desse período. Os registros da presença humana na América são numerosos e bem antigos. Em países como o
Brasil, o Chile e o Canadá, há sítios arqueológicos datados de mais de 20 mil anos.
– Hipótese da Rota de Bering: Afirma que, durante a última Era Glacial, uma
ponte de gelo teria se formado no estreito de
Bering, tornando possível a passagem de
grupos humanos da Ásia para a América. Deram
até um nome para ela: Beríngia. Ainda não há evidências suficientes que
comprovem que a Beríngia existiu de fato. Mas, se existiu, terá sido muito
importante para o povoamento da América.
Desse modo, chegaram à América por terra, depois de atravessar o Estreito de Bering, situado entre a Sibéria (Rússia) e o Alasca (Estados Unidos).
Essa travessia teria
ocorrido em uma das vezes em que o nível do mar baixou muito, levando à formação de
um caminho de gelo que ligava a América à Ásia, pelo norte.
Essas condições climáticas teriam permitido a formação de uma
passagem natural de terra e gelo entre a Ásia e a América, chamada
Ponte Terrestre de Bering.
Para suportar o frio intenso da região,
frequentemente abaixo de 235 °C, esses humanos confeccionaram roupas
térmicas com peles grossas de animais e sapatos para resistir à neve. Quando
a temperatura do planeta aumentou, o nível das águas dos oceanos subiu e
essa passagem se desfez.
– Hipótese malaio-polinésia: Defende que os primeiros habitantes da
América teriam saído da Ásia em pequenas
embarcações e navegado próximo à costa até
chegar ao continente americano.
Indica a possibilidade de que os primeiros povoadores tenham vindo da Polinésia, que é um conjunto de ilhas
situadas no oceano Pacífico. Alguns grupos de navegadores teriam saído dessas ilhas e chegado com suas embarcações até a costa ocidental da América.
- Hipótese da Rota Transpacífica: Defende que, partindo da Ásia e navegando de
ilha em ilha, alguns grupos humanos teriam
atravessado o Oceano Pacífico e chegado à
América do Sul.
- Hipótese da Migração Atlântica: Afirma que, após sair da Europa em
embarcações feitas de couro, alguns grupos
humanos teriam navegado pelo Oceano
Atlântico até chegar ao norte da América.
Outras hipóteses
No início do século XX, surgiram outras possibilidades, mas sem negar a rota pelo estreito de Bering. O etnólogo Paul Rivet, por exemplo,
fundador do Museu do Homem, em Paris (1937), sugeriu que o povoamento tinha se dado por diversas rotas, provenientes não apenas
da Ásia, mas também da Oceania. Acrescentou, ainda, que algumas
migrações tinham ocorrido há 40 mil anos e outras em tempos mais
recentes, entre 6000 a.C. e 3000 a.C.
Os primeiros
seres humanos teriam migrado para a América atravessando o estreito de
Bering e, também, navegando pelo mar.
Quando ocorreram essas migrações? Para alguns pesquisadores, as primeiras
migrações para a América aconteceram aproximadamente entre 12 mil e 20
mil anos atrás. Para outros estudiosos, essas travessias foram realizadas há mais
de 50 mil anos. No entanto, essas hipóteses ainda são um debate em aberto.
Outra dúvida é se os primeiros povoadores da América teriam características asiáticas ou apresentavam traços faciais semelhantes aos dos africanos e dos aborígenes australianos. Essa discussão surgiu porque crânios e ossadas encontrados na região de Lagoa Santa, em Minas Gerais, apresentam traços faciais semelhantes aos dos africanos e dos aborígenes australianos. Análises de ossadas, crânios e material genético dos primeiros povoadores do continente têm auxiliado os cientistas na tentativa de desvendar esse e outros mistérios.
Já a arqueóloga franco-brasileira Niède Guidon, que há décadas conduz as
pesquisas no sítio arqueológico da Pedra Furada, no Piauí, sustenta uma hipótese bastante questionada pela maioria dos estudiosos sobre o povoamento
da América. Para ela, grupos de pescadores da África e da Oceania teriam migrado para a América do Sul entre 60 mil e 100 mil anos atrás, arrastados por
ventos e correntes marítimas. Segundo Niède Guidon, as diferentes hipóteses
sobre o povoamento da América não se anulam, mas se complementam.
Estudos realizados pela arqueóloga brasileira Niède Guidon, entretanto, comprovaram que o ser humano chegou ao continente americano há mais tempo.
Ela realizou suas pesquisas no sítio arqueológico do Boqueirão da Pedra Furada,
no Parque Nacional Serra da Capivara, localizado no município de São Raimundo
Nonato, no Piauí.
Nesse lugar, ela encontrou vestígios da presença humana com
mais de 50 mil anos de idade. Assim, ela defende a hipótese de que vários
grupos humanos chegaram à América em diferentes épocas, percorrendo diversos caminhos.
A história do povoamento da América está em plena construção, e o território
brasileiro é considerado por muitos pesquisadores uma das regiões mais propícias a novas descobertas que possam ajudar a compreender como o ser humano ocupou o continente americano.
Teorias sobre a origem humana na América
Em 1999, o arqueólogo brasileiro Walter Neves revelou ao mundo o fóssil mais antigo de toda a América; tratava-se do crânio de uma mulher que viveu há cerca de 11 500 anos! Os arqueólogos a batizaram de anos! Os arqueólogos a batizaram de Luzia (em homenagem a Lucy).
Conforme nos conta Walter Neves, Luzia foi descoberta em 1975 por uma missão franco-brasileira coordenada pela arqueóloga Annette Laming-Emperaire, que morreu precocemente sem divulgar o achado. Walter Neves retomou a pesquisa de Annette e sua equipe e divulgou o extraordinário achado em 1999.
Cientistas ingleses reconstituíram a fisionomia de Luzia e, surpresos, descobriram que suas feições se assemelhavam às dos nativos da África e da Austrália: olhos arredondados, nariz largo e lábios volumosos.
Recentemente, com base em materiais inéditos de
Lagoa Santa (MG), Walter Neves descobriu também que as características cranianas do povo de Luzia eram semelhantes às dos africanos e australianos. Para ele, então, o povo de Luzia entrou na América antes dos grupos com feições asiáticas que
deram origem aos indígenas atuais.
O modelo é a reconstituição das feições de Luzia,
produzida a partir de imagens de computador. Segundo
alguns pesquisadores, Luzia pertenceu a um grupo
que viveu nas Américas 3 mil anos antes da população
indígena. Rio de Janeiro (RJ), 2018.
Os estudos de Niède Guidon
Segundo a arqueóloga Niède Guidon, há provas de que a presença humana em São Raimundo Nonato, no Piauí, é muito antiga. Ela e sua equipe descobriram, no sítio arqueológico de Pedra Furada, pedaços de carvão e de pedra lascada que teriam pelo menos 50 mil anos. Segundo ela, tais vestígios são prova suficiente da presença humana na América desde aquela data.
Outros cientistas, porém, não aceitaram as provas apresentadas por Niède Guidon, dizendo que o carvão encontrado por ela pode ter sido produzido por incêndios florestais e que as lascas de pedra podem ser resultado do esfacelamento das rochas; ou seja, esses materiais seriam resultado de fenômenos naturais, e não da ação humana.
Niède Guidon formou-se em História Natural pela
Universidade de São Paulo (USP) e especializou-se
em arqueologia pré-histórica pela Sorbonne, França.
A arqueologia e a Pré-história americana
Os pesquisadores que apoiam a ideia de que os primeiros grupos humanos acessaram o continente americano pelo Estreito de Bering chegaram a essa conclusão
depois de examinar artefatos de pedra e ossos de animais
encontrados no sítio arqueológico de Clóvis, situado no
estado do Novo México, no sudoeste dos Estados Unidos.
Nas planícies da América do Norte, no final da década de 1920, foram encontrados vestígios arqueológicos que datam de 9000 a.C. São
pontas de lanças feitas de sílex, uma rocha muito dura, dotadas de uma
base côncava e pequenos sulcos dos lados. Elas foram chamadas pelos arqueólogos de pontas Clóvis, e possivelmente eram utilizadas
para caçar bisões.
Pontas Clóvis datadas de cerca de 4000 a.C. encontradas no atual estado do
Missouri, nos Estados Unidos. As lanças com pontas Clóvis eram muito eficientes
para caçar.
Com base na datação desses objetos, cientistas estadunidenses elaboraram a teoria chamada Clóvis-Primeiro. Segundo essa teoria, uma leva migratória de
grupos humanos com traços asiáticos teria chegado à
América por volta de 11500 anos atrás. Assim, ao longo de centenas de anos, os povos descendentes desses
grupos teriam ocupado, na direção norte-sul, todo o
continente. Descobertas arqueológicas mais recentes,
no entanto, têm contestado essa teoria.
A teoria de Clóvis começou a ser questionada na década de 1970.
A análise de fósseis e outros artefatos arqueológicos encontrados na
América do Sul, datados de pelo menos 13500 anos, mostrou que o povoamento do continente teria começado muito antes do que essa
teoria afirmava, ou seja, os habitantes de Clóvis não teriam sido os
primeiros a chegar ao continente americano.
Em pesquisas realizadas nas últimas décadas, estudiosos encontraram indícios de
que a presença humana na América pode ser muito anterior à cultura Clóvis. Por exemplo, nos sítios arqueológicos de Piedra Museo e Los Toldos, na Argentina, e de Debra L.
Friedkin, nos Estados Unidos, há indícios da presença humana de 13 mil a 15 mil anos
atrás. No sul do Chile, em Monte Verde, os vestígios datam de cerca de 13 mil anos atrás
e, por sua localização, sugerem que o povoamento do sul do continente pode ter sido
anterior ao da parte norte.
Vestígios arqueológicos de
pegadas humanas de cerca de
23 mil anos encontrados no
Parque Nacional de White Sands.
Novo México, Estados Unidos.
Nos últimos anos, esse questionamento ganhou força com a descoberta de vestígios ainda mais antigos: uma equipe de arqueólogos
encontrou milhares de artefatos de pedra provavelmente fabricados
por mãos humanas, além de restos de fogueira e ossos de animais,
com datação que varia entre 30 mil e 13 mil anos. Outro grupo de
pesquisadores fez uma descoberta ainda mais fascinante na região
do Novo México. Eles encontraram pegadas humanas datadas entre
23 mil e 21 mil anos atrás.
Para alguns estudiosos, essas descobertas indicariam que,
além dos grupos que teriam chegado ao continente pelo Estreito de Bering, pode ter
havido outras ondas migratórias em direção à América por via marítima pelos oceanos
Pacífico e Atlântico.
As técnicas de produção de armas e ferramentas dos povos que
habitavam o continente americano, entretanto, eram muito diferentes
entre si. Entre os povos caçadores, alguns utilizavam instrumentos de
pedra, enquanto outros produziam armas feitas de bambu e madeira.
Um povo, contudo, não deve ser considerado inferior ou superior
a outro. Cada grupo produzia instrumentos adequados ao ambiente
em que vivia. Os povos da cultura Cochise, que habitavam a região
desértica dos atuais Estados Unidos, desenvolveram armas de pedra
adaptadas à caça naquela região. Já os povos amazônicos produziam
instrumentos pontiagudos de bambu ou madeira, excelentes para a
pesca fluvial.
Houve povos que, além de aperfeiçoar seus instrumentos de caça, desenvolveram o cultivo da terra, aumentando assim as chances de sobrevivência e levando ao crescimento numérico do grupo. Dessa forma, alguns grupos do continente americano deixaram, pouco a pouco, de ser nômades e tornaram-se sedentários. Esse processo aconteceu, inicialmente, no atual México e, logo depois, na região andina da América do Sul.
Houve povos que, além de aperfeiçoar seus instrumentos de caça, desenvolveram o cultivo da terra, aumentando assim as chances de sobrevivência e levando ao crescimento numérico do grupo. Dessa forma, alguns grupos do continente americano deixaram, pouco a pouco, de ser nômades e tornaram-se sedentários. Esse processo aconteceu, inicialmente, no atual México e, logo depois, na região andina da América do Sul.
Monte Verde, Chile
O sítio arqueológico de Monte Verde foi descoberto, por aca
so, em 1976. Os objetos encontrados nesse local estavam bem
preservados por causa da existência de turfas, materiais formados
de restos de vegetais em decomposição, que preservam tudo que
absorvem.
Nesse sítio, os pesquisadores encontraram vestígios da
presença humana datados de pelo menos 12500 anos. São pinturas rupestres, pontas de lança feitas de pedra, restos de fogueiras,
objetos de madeira, plantas medicinais, ossos de mastodonte e até
pegadas humanas.
Piedra Museo e Los Toldos, na Argentina
Piedra Museo é o sítio mais antigo da Argentina. Lá foram descobertas pinturas rupestres e instrumentos de caça de 13 mil anos atrás.
Com os artefatos, foram encontrados restos de animais extintos há mais de 10 mil anos.
Nas cavernas de Los Toldos, arqueólogos demarcaram camadas do
solo que revelam a passagem de diferentes grupos humanos. No interior dessas cavernas foram encontrados utensílios e restos de animais
com cerca de 12500 anos e pinturas rupestres com desenhos de mãos
feitos entre 9500 e 13 mil anos atrás.
Pinturas rupestres no sítio
arqueológico Cueva de las
Manos, datadas entre 9500
e 13 mil anos. Santa Cruz,
Argentina.
Diversidade cultural
Os primeiros grupos humanos que chegaram à América foram, aos poucos, se espalhando pela vastidão desse continente. Durante um ou dois milênios, ocuparam e se adaptaram aos diversos ambientes naturais, desde o norte até o sul do continente.
Para isso, desenvolveram
conhecimentos e costumes adequados a cada realidade. Das terras
geladas do Alasca às planícies argentinas, as sociedades americanas
encontraram formas originais de aproveitar os recursos naturais para
garantir sua sobrevivência.
Dessa maneira, formaram-se no continente muitos povos e culturas.
Alguns desses povos viviam da caça, da pesca e da coleta; outros passaram a combinar a caça e a coleta com o cultivo de vegetais. Outros,
ainda, transformaram a agricultura em sua principal atividade.
Os grupos de caçadores-coletores e alguns dos povos que se tornaram sedentários por causa da atividade agrícola eram sociedades
igualitárias. Isso significa que nelas as pessoas dividiam o trabalho e
os produtos gerados por ele de maneira relativamente igual.
Outros povos, por sua vez, construíram cidades, nas quais havia trabalhos específicos para cada camada social. Essas sociedades, portanto,
eram hierarquizadas. Nelas, grupos de poucas pessoas assumiram a
função de governar e passaram a concentrar a maior parte da riqueza
e a exercer o poder por meio do estabelecimento das leis, da aplicação
da justiça e do controle religioso.
A ideia de que o povoamento da América tenha se originado de regiões
distintas da Terra fundamentava-se em um argumento forte: as culturas e
as línguas dos povos americanos eram muito diferentes entre si. Como teriam se formado mais de 2 600 línguas se todos os grupos que chegaram
à América tivessem partido de um mesmo lugar?
Esses grupos foram povoando áreas que correspondem,
atualmente, às florestas do leste dos Estados Unidos, aos desertos do México,
à bacia do rio Amazonas, aos vales das montanhas andinas, ao litoral do Brasil.
Alcançaram, até mesmo, o extremo sul do continente, a ilha da Terra do Fogo.
O povoamento da América provocou impacto e destruição de boa parte da
diversificada fauna original. Nessa fauna havia, por exemplo, tigres-dentes-de-sabre, mamutes, mastodontes, leões americanos, cavalos nativos e preguiças-gigantes, que podiam pesar 8 toneladas e alcançar 6 metros de altura. No
entanto, a maioria dessas espécies foi desaparecendo, principalmente em função da caça promovida pelos grupos humanos.
Ao modificar a natureza e a paisagem, cada povo desenvolveu sua cultura. Essa
cultura se manifesta num conjunto de bens materiais e imateriais, como o jeito
próprio de construir instrumentos, cultuar seus deuses e organizar a vida social.
Descobertas arqueológicas no Brasil
As descobertas arqueológicas que ocorreram no Brasil foram importantes
para a construção da história dos primeiros povos que viveram nestas terras.
Além disso, até agora, os fósseis humanos encontrados no país estão entre os
mais antigos da América.
Lagoa Santa
Em 1834, o pesquisador dinamarquês Peter Lund (1801-1880) encontrou
fósseis de cerca de 30 pessoas na gruta de Sumidouro, que fica no município
de Lagoa Santa, no estado de Minas Gerais.
Depois, vieram muitas outras descobertas. Uma delas foi realizada na
mesma região de Lagoa Santa, em 1974 e 1975, pela equipe coordenada
pela arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire.
Mas foi apenas na
década de 1990 que um dos esqueletos descobertos em Lagoa Santa
pela equipe de Annette recebeu atenção especial dos pesquisadores.
Esse esqueleto era de uma mulher que viveu há cerca de 11 mil anos,
talvez o mais antigo de toda a América. Esse achado foi batizado de
Luzia pelo arqueólogo brasileiro Walter Neves.
Segundo Walter Neves, os estudos sobre Luzia indicam que seus
antepassados podem ter chegado à América há pelo menos 15 mil anos,
possivelmente através do estreito de Bering. Além disso, mais recentemente, a análise desse crânio indicou que ela possuía traços semelhantes aos
de africanos e de nativos australianos.
Os estudos também consideram que o chamado povo de Luzia se
abrigava nas grutas da região, onde também foram encontradas pinturas de peixes, veados, figuras humanas, aves, entre outras.
São Raimundo Nonato
Além das descobertas em Lagoa Santa, pesquisas realizadas pela arqueóloga
brasileira Niède Guidon, em São Raimundo Nonato, no estado do Piauí, sugerem que homens e mulheres habitavam o território brasileiro há, pelo menos,
50 mil anos. Essas pesquisas foram decisivas para a criação do Parque Nacional
da Serra da Capivara em 1979, cujo objetivo é proteger os monumentos arqueológicos e as belezas naturais da região. Em 1991, esse parque foi reconhecido como Patrimônio Mundial da Unesco.
O parque abriga mais de mil sítios arqueológicos, onde foram encontrados
diversos vestígios da ocupação humana. Entre eles, podemos destacar fósseis
humanos de 10 mil anos, objetos confeccionados com pedras lascadas e poli
das (machado, raspador, pilão, ponta de flecha). Além de uma grande concentração de pinturas rupestres que possuem de 6 mil a 12 mil anos.
Para a arqueóloga Niède Guidon, os grupos humanos de São Raimundo Nonato formavam comunidades de caçadores-coletores, abrigavam-se em grutas,
tinham o domínio do fogo e sabiam construir instrumentos de pedra.
No entanto, as informações a respeito desses primeiros povoa
dores do atual estado do Piauí têm gerado controvérsias entre os
estudiosos. A polêmica está relacionada a algumas pedras lascadas
e restos de fogueiras que podem ter mais de 50 mil anos. Segundo
Niède Guidon, esses vestígios indicariam que a ocupação na América
do Sul ocorreu bem antes do que se imaginava.
Primeiros povoadores
O atual território brasileiro é uma das regiões da América habitada desde,
pelo menos, 10 mil anos.
Os povos caçadores-coletores viviam da caça, da pesca e da coleta de alimentos. Não praticavam a agricultura, mas tinham o domínio do fogo e fabricavam
instrumentos variados, feitos de pedra e de ossos.
Embora existam muitas semelhanças entre os modos de vida dos primeiros
povos caçadores-coletores, também é possível identificar diferenças entre eles.
Aliando trabalho e criatividade, esses povos desenvolveram culturas próprias.
A maior parte das informações
que temos sobre eles vem dos vestígios de seus instrumentos, ali
mentos, habitações, etc. No atual
estado de São Paulo, por exemplo,
os pesquisadores acharam diversos
tipos de pontas de flecha. Em Minas
Gerais e no Piauí, descobriram uma
grande quantidade de pinturas rupestres que provavelmente pertenceram a esses povos.
Já no Rio Grande Sul, foram encontradas facas de pedra em forma
de bumerangue e boleadeiras. A
boleadeira é um instrumento com
posto de duas ou três bolas de pe
dra amarradas por um cordão, feito
geralmente de couro. As boleadeiras
eram lançadas nas patas do animal
para derrubá-lo. Até hoje as boleadeiras são usadas por alguns gaúchos
que vivem no campo e criam animais.
Por volta de 8 mil anos atrás, parte do litoral brasileiro era habitada por povos
seminômades. Alguns desses povos deixaram como vestígios de sua presença
os sambaquis.
Sambaqui (palavra de origem tupi que significa “monte de conchas”) é um
acúmulo de conchas de moluscos e restos de animais como peixes e aves que
essas comunidades depositaram em determinados locais, ao longo do tempo.
Existem sambaquis que atingem até 30 metros de altura e 400 metros de comprimento por 100 metros de largura.
Os sambaquis eram utilizados para enterrar os mortos e seus objetos pessoais (enfeites, utensílios e armas). Isso indica que, provavelmente, já existia
entre os sambaquieiros uma preocupação religiosa com a morte. Esses povos
também costumavam construir suas habitações sobre os montes de conchas.
Os estudos dos sambaquis sugerem que, até cerca de mil anos atrás, muitos
desses povos formavam aldeias com cerca de 150 habitantes. Viviam da coleta,
da caça e, principalmente, da pesca. Utilizavam instrumentos feitos de pedra
(enfeites, facas, flechas, machados) e de osso (arpões, agulhas, anzóis). Tinham
o domínio do fogo e assavam os alimentos.
A expansão territorial dos sambaquieiros durou cerca de 5 mil anos. Foi interrompida pela ocupação de grande parte do litoral e parte do interior por tribos
e aldeias da etnia tupi.
No final do século XV, com a chegada dos europeus ao continente americano,
muitos sambaquis foram destruídos. Alguns portugueses tiravam as conchas
dos sambaquis para fabricar cal (material usado na construção de habitações).
Atualmente, a preservação dos sambaquis continua sendo ameaçada.
Eles
são destruídos com o objetivo de, por exemplo, abrir caminho para novas construções ou extrair materiais para produção agrícola.
Apesar desse processo de destruição, ainda existem sambaquis no litoral brasileiro, muitos deles estudados por equipes de arqueólogos e historiadores.
Os sambaquis estão localizados desde o estado do Rio Grande do Sul até o
Espírito Santo. Possuem idades variadas, embora seja difícil dizer exatamente
quando foram formados.
Alguns, como o de Capelinha (São Paulo), têm cerca de
8 mil anos. Outros, como os de Paranaguá (Paraná), têm entre 6 mil e 7 mil anos.
A vida dos primeiros americanos
As sociedades ancestrais que existiram na América desenvolveram diferentes culturas. Alguns grupos sobreviviam exclusivamente da caça, da pesca e da
coleta, e para isso utilizavam arco e flecha, facas feitas de pedra e boleadeiras.
Numerosos vestígios dos primeiros americanos foram descobertos em escavações feitas em todo o continente. A análise dos
artefatos encontrados indica que os primeiros habitantes do continente se organizavam em pequenos grupos de caçadores-coletores.
Provavelmente, eles migravam para outras regiões quando os recursos
do local onde estavam se esgotavam; sabiam produzir fogo, com
o qual se aqueciam, iluminavam seus acampamentos, cozinhavam
e se protegiam de animais; habitavam cavernas e grutas ou construíam abrigos com galhos, folhas e peles de animais; fabricavam
instrumentos variados de pedra, ossos e possivelmente madeira, palha e couro.
Provavelmente entre 2 mil e 4 mil anos atrás, havia grupos que praticavam a
agricultura e a criação de animais. Diversos alimentos eram cultivados, dependendo da região: mandioca, feijão, abóbora, pimentão, tomate, milho, batata,
abacate, cacau. Foram domesticados na América animais como a lhama e o
peru. Além disso, também desenvolveram a tecelagem e o artesanato em cerâmica e realizavam rituais religiosos.
Em várias partes da América do Norte, como no sítio de Clóvis,
foram encontradas ferramentas de pedra bifaciais, ou seja, lascadas
dos dois lados, como pontas de flecha, pontas de lança e perfura
dores, utilizados na caça de grandes animais.
No Brasil, artefatos parecidos, porém menores, foram achados
em vários sítios arqueológicos localizados nas regiões Sul e Sudeste. Já os objetos encontrados nas regiões Nordeste e Centro-Oeste
são unifaciais, ou seja, lascados em apenas um dos lados da pedra.
Esses objetos são, em sua maioria, raspadores, furadores e cortadores.
Como o conhecimento utilizado para produzir as ferramentas
é transmitido ao longo de gerações, foi possível encontrar objetos
muito parecidos produzidos em várias épocas diferentes, mesmo
que com pequenas alterações.
As primeiras sociedades hierarquizadas da América
Na região Andina e na Mesoamérica desenvolveram-se sociedades hierarquizadas. A organização dessas comunidades baseava-se na
divisão entre grupos de pessoas que comandavam e tomavam decisões
e os grupos de pessoas que eram comandadas.
Localizado em região desértica do atual Peru, Caral é o mais antigo centro cerimonial descoberto na América. O local começou a
ser habitado há cerca de 5 mil anos, ou seja, na mesma época em
que outras sociedades hierárquicas estavam se formando na China,
na Mesopotâmia e no Egito.
A arquitetura de Caral é a principal evidência da organização da
sociedade que o construiu. Cerca de trinta grandes conjuntos cerimoniais com imensos complexos em forma de pirâmide impressionam
por seu tamanho e pelo sofisticado trabalho humano envolvido na
construção de templos, anfiteatros, túmulos e altares. Nas ruínas de
Caral foi encontrada, também, uma extensa rede de aquedutos.
A presença dessas construções monumentais em Caral revela a
existência de um nível de organização social complexo e de tecnologias
agrícolas eficientes que garantiam ampla produção de alimentos para a
subsistência de todos. Depois de Caral, outras sociedades hierárquicas
formaram-se na região dos Andes.
A datação dos achados arqueológicos
Existem diferentes técnicas para definir a idade de um fóssil ou de um
artefato arqueológico. Uma delas é a estratigrafia, por meio da qual se
analisam as camadas do solo onde os objetos ou os vestígios foram encontrados, considerando que as camadas mais profundas são as mais antigas.
Outro método é a datação por radiocarbono, também conhecido como
carbono-14, que consiste na análise da quantidade de carbono radioativo
encontrado no fóssil. Porém, esse método usando o carbono-14 não é
confiável para a análise de objetos com mais de 60 mil anos.