O campo da história é vasto. E cada vez mais, em sintonia com os novos enfoques e metodologias que a cada dia se desenvolvem em nosso metier, tudo mais se amplia. Nesse quadro, o campo da História da Ciência e das Políticas Públicas, objeto de nossa preocupação, é um campo, em termos históricos, bastante recente.
Trata-se de um conjunto de esforços críticos acerca da produção científica, rumo a uma compreensão dos seus pressupostos epistemológicos e suas bases socioculturais, políticas e econômicas. Nosso objeto, em certo sentido, é a racionalidade, sem largar mão, contudo, da relação com os fenômenos religiosos, como muito bem o demonstra a obra de Max Weber.
Por um bom tempo, o fazer científico, e a produção dele decorrente, foi visto como uma espécie de espelho (epifenômeno) de outras esferas da vida em sociedade (política, economia etc.). Hoje é reconhecida uma certa autonomia ao campo científico. Autonomia que deve ser compreendida em função justamente da teia de relação com outras áreas de nossa vida social, pois a produção em ciência, bem como a elaboração das políticas públicas e sociais, não nascem no vazio, não são entidades meta-históricas, pelo simples fato de serem elaboradas por seres humanos, que são inteligíveis – como diria o velho Marc Bloch, no tempo.
Por isso a necessidade de estudos históricos que lancem luzes a acerca dos processos de constituição dos problemas e soluções em ciência, seja aquela considerada hard, como a física, como aquelas denominadas sociais, onde se situa a sociologia e a antropologia.
As políticas públicas, sejam nas áreas de saúde ou educação, também não foram e não são elaboradas em um vácuo histórico. A compreensão do processo histórico que implica na elaboração de projetos sociais exige um investimento no campo da história, bem como no da sociologia, já que é fundamental entender não só a dinâmica que possibilitou o desenvolvimento de uma política, mas o impacto que ela produziu em seu tempo, foco que os sociólogos possuem mais ferramentas, se comparado aos historiadores.
Trata-se, em suma, de um esforço interdisciplinar em que as inúmeras "ferramentas" metodológicas não podem ser dispensadas em função de um protecionismo disciplinar qualquer. Nosso objeto é um problema, definido ética e metodologicamente. Não fazemos restrições de tempo ou de espaço. Por exemplo, nossas questões de pesquisa não são restritas regional ou nacionalmente, nem mesmo por um enfoque temporal, como história moderna, contemporânea ou medieval.
Por isso o campo da História da Ciência e das Políticas Públicas é uma área difusa, que se espalha por outras tantas áreas do saber e cortes temporais variados. De fato requer um investimento maior, em matéria de erudição e técnicas de investigação, se comparado a outras arenas do saber. Contudo, cremos que o retorno poderá ser não só a compreensão de problemas fundamentais em nossas sociedades, como o combate às epidemias e endemias reinantes, o flagelo do racismo, o analfabetismo e outros velhos dilemas que ainda nos atingem, mas também sugestões validadas em pesquisas e dados empíricos que possam contribuir com possíveis soluções num quadro considerado deprimente por muitos.
Nossas pesquisas muito frequentemente tem um tom muito próximo, como diria o sociólogo Guerreiro Ramos, de "mangas de camisa", isto é, não só nos importa a qualidade da produção acadêmica, definida dentro de padrões nacionais e internacionais, mas também tem importância as implicações de seus resultados. Somos, por assim dizer, pesquisadores pragmáticos, pois muito nos interessa a possibilidade de contribuir para a constituição de uma sociedade mais justa e fraterna, seja pela elaboração de políticas sociais mais eficientes, seja pela constante observação dos pressupostos científicos criados em nossos dias, cujas implicações são sempre variadas em nossa sociedade.
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