domingo, 27 de setembro de 2026

Historiografia


Ronilda Iyakemi Ribeiro

Cada qual enxerga o meio dia da porta de sua casa, diz o adágio africano. Fato sobejamente conhecido é esse: a experiência social ou cultural interfere na concepção de tempo. 
Goldsch midt observa que as definições de mundo são distintas, não apenas pelo fato de serem diferentes os costumes e as crenças dos povos: “É, antes, que os mundos de povos diferentes têm formas diferentes. Os próprios pressupostos metafísicos variam: o espaço não se conforma à geometria euclidiana, o tempo não constitui um fluxo contínuo de sentido único, as causas não se conformam à lógica aristotélica... como no nosso mundo”. Quanto ao tempo, se pretendemos conceituá-lo, temos que considerar seus aspectos de tempo histórico, cronológico, físico, psicológico, entre outros. 
O tempo histórico, passível de divisão em intervalos curtos ou longos, pode ser concebido como um processo de ritmo variável e não uniforme. As direções desse tempo variam segundo diferentes padrões culturais, que exprimem atitudes valorativas: o processo temporal representado como um percurso linear progressivo, característico da representação cristã de tempo, tem contraponto no percurso cíclico, que reúne fases ou períodos recorrentes, característico, por exemplo, das representações negro-africana e chinesa. 
O tempo cronológico, que regula nossa existência cotidiana, pode ser considerado tempo socializado ou público. Opondo o tempo físico, natural ou cósmico ao tempo psicológico ou tempo vivido, temos que o primeiro, pode ser entendido como a medida do movimento, como a expressão de relação entre ante rior e posterior e, ainda, como o próprio processo das mutações, que independe da consciência do sujeito. O tempo psicológico ou tempo vivido (duração interior), por sua vez, não coincide com as medidas temporais objetivas. Variando de indivíduo para indivíduo, sendo subjetivo e qualitativo, sujeita-se apenas ao registro de momentos imprecisos, que se aproximam ou tendem a fundir-se, numa organização deter minada por sentimentos e lembranças, que definem “intervalos heterogêneos incomparáveis”. 
Na clepsidra escoa a água e na ampulheta, a areia, marcando intervalos de tempo, durações menores, em cada dia solar. Uma vez constatado que os fatos ocorrem em dada ordem, configurando unidades orgânicas, com princípio, meio e fim, temos uma relação entre o começo e o fim de movimentos que se sucedem no vasto continuum temporal, como que preenchendo o tempo de conteúdos. Essa representação, segundo a qual os eventos preenchem um continente temporal do mesmo modo que objetos preenchem continentes espaciais, não é pouco frequente. 
Berthelot assinala que a ordenação do tem po costuma proceder da ordenação do espaço, em especial a da sema na. A ordem no tempo se originaria da consideração de sete direções espaciais – duas para a largura, duas para o comprimento e duas para a altura, mais o centro. Correspondendo o sábado ao centro e, expressando o centro a imobilidade, define-se esse dia como o de descanso e os demais como dias dinâmicos. E, pela relação que une entre si todos


A EXPERIÊNCIA PSICOLÓGICA DA DURAÇÃO* 

César Ades 

Ensa ezzamân uezzamân yensâk 
Esquece o tempo que ele te esquecerá 

Em O milagre secreto, Jorge Luis Borges  conta a história do escritor checo Jaromir Hladík que, trazido diante do pelotão que irá executá-lo, no último instante vê o tempo paralisar-se, por um ano ou assim lhe parece, o suficiente para que possa compor a peça de teatro que muito ambicionava escrever. Na verdade, a execução não demora mais do que alguns segundos. A ficção apresenta, em forma limite, um dos aspectos curiosos da vivência psicológica do tempo, que é de esticar-se ou comprimir-se de acordo com o contexto de afeto ou ação, em desrespeito aparente ao tempo do relógio. 
O paradoxo do senso do tempo é que, constituindo uma característica geral e permanente do comportamento, ele não decorra, diretamente, de dados sensoriais. Não existe um órgão dos sentidos especializado em perceber o tempo. Temos experiência de coisas que permanecem e coisas que mudam, de coisas que se sucedem, de coisas que ocorrem juntas, a dimensão temporal vem, por assim dizer, incorporada nos eventos que lhe constituem o conteúdo. “
O tempo”, dizia o filósofo Mach, “é uma abstração à qual chegamos através da mudança das coisas”. Não estranha, então, que a avaliação da duração, dependa de dicas externas ao tempo enquanto tal, de eventos marcadores, e que esta avaliação possa sofrer o que, injustamente, porque nos colocando apenas do ponto de vista do tempo físico, chamaríamos de distorções. 
Os psicólogos, de James em diante, têm se mostrado fascinados pela subjetividade da estimativa da duração, pelas discrepâncias que o desejo e o desempenho criam, em relação a um tempo codificado socialmente, e têm se esforça do em determinar a causalidade envolvida. 
Neste trabalho, proponho-me retomar a questão da vivência psicológica da duração, indicando alguns dos modos mais relevantes através dos quais inflaciona-se ou encolhe-se o tempo percebido. Como muitos autores, considerarei a duração como uma construção, uma inferência efetuada pelo indivíduo a partir da informação disponível. Contudo, o fato de ser uma construção não a torna arbitrária ou aleatória, não a isola do com plexo jogo de interações através das quais o indivíduo conhece seu ambiente e age sobre ele. Ao contrário, vejo, na capacidade de levar em conta o tempo, uma característica adaptativa essencial. 

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