segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Historiografia - A propósito de uma experiência original

Certa vez, alguém nos ensinou: "Sem documentos não há História"

É uma antiga lição, sempre repetida, que logo se desdobra em outra não menos enfatizada: "a História é escrita com base em documentos escritos".
Colocadas lado a lado, ambas as lições induzem a duas conclusões gêmeas. A primeira é por demais conhecida: "a História começa com a escrita"; a última nem tanto, embora daquela seja apenas a outra face: "só possuem História os povos que conhecem a escrita"
Velhas lições há muito submetidas a uma crítica radical. Não obstante, elas insistem em permanecer, como que se oferecendo para serem postas em questão novamente por aqueles que agora são introduzidos na oficina do historiador; e assim não só sublinhassem a distância que ainda separa o aprendizado de uma disciplina nos níveis secundário e universitário, como também afirmassem que toda introdução carrega em si uma inquietação, que se traduz tanto na formulação de questões quanto na arguição do sentido do ato de questionar.
Por certo, aqueles que ora estão sendo iniciados na prática de historiar já aprenderam a refutar a distinção entre "povos civilizados" e "povos bárbaros ou selvagens" que aquelas lições difundem, tomando como base desigualdades e hierarquizações de fundo etnocêntrico e evolucionista. Mas muito provavelmente não estão atentos ainda para o fato de que elas tanto confundem as diferentes acepções de um mesmo significante - a experiência vivida; seu fiel relato; sua ficção mentirosa; e sua explicação erudita - quanto dificultam se não impedem, a compreensão de que mesmo aquelas sociedades sem historiografia possuem uma memória cultural que lhes permite fundar a hereditariedade dos saberes que constituíram, e assim também se dão a conhecer ao historiador.
Por que não aproveitar, então, esta inquietação como uma força favorável na aquisição de uma nova prática no transcurso de uma longa caminhada inevitavelmente sinalizada pelos conceitos e noções de Memória e História, Cultura e Sociedade, Tempo e Espaço, Narrativa e Autoria, Ficção e Verdade, e - entre todos - Documento e Historiografia?
Uma caminhada que se confunde, em larga medida, com a reconstituição das formas de elaboração do saber historiográfico, referindo-as necessariamente a duas práticas indissociáveis e permanentes. - a leitura e a escrita. Porque a prática do historiador consiste na leitura dos registros legados pelos homens em diferentes momentos, quer sob a forma dos mais variados documentos quer sob a forma de obras historiográficas, como condição para a elaboração escrita de um novo registro - de tal modo que, neste ponto, poderíamos já retornar ao primeiro parágrafo deste texto para afirmar que, sendo os homens os responsáveis pelas diferentes formas de registro, "sem homens não há História", em qualquer das acepções atribuídas ao significante.
Uma caminhada cujo ponto de chegada reside na intercessão da conclusão do curso de graduação em História e do ingresso no Programa de Pós-graduação, enfatizando assim o nexo que necessariamente deve existir entre os dois níveis de formação profissional, sem a descaracterização ou desqualificação de qualquer deles.
E ainda uma caminhada que tem corno momento fundamental o seu durante - o exercício sistemático de ler e escrever constituindo-se em condição para poder contar.
Contar por meio de um texto escrito a partir das leituras do que outros registraram; contar para que outros leiam. O texto historiográfico tornando-se o ponto de encontro de diferentes leitores, porque se o ato de ler é a possibilidade de saber o que se passa na cabeça do outro, lendo também melhor compreendemos o que se passa em nossa própria cabeça; o texto historiográfico tornando-se o ponto de encontro de diferentes escritores, porque o ato de escrever possibilita confrontar minha forma de contar com outras, e assim melhor compreender o ofício que pratico e o mundo no qual ele se situa e sobre ele inevitavelmente reage.
Desta forma, outra não deve ser a tarefa daqueles que são introduzidos na oficina do historiador: ler e escrever para poder contar. Outro não é o objetivo do projeto LER E ESCREVER PARA CONTAR. 
Se, efetivamente, nada do que aconteceu um dia pode ser considerado perdido para a história, o mesmo deve ser dito a propósito dos diferentes e variados registros legados pelos homens A oficina de Documentos encontrou aí o seu ponto de partida para refletir tanto a respeito dos diferentes e variados tipos de documentos de que o historiador pode lançar mão - textos escritos (documentos oficiais; poemas, romances e cordéis; biografias, diários e livros de memórias; letras de músicas); outros tipos de textos (como filmes, pinturas, relatos orais, lendas e mitos), outros ainda em principio julgados não tão relevantes (como o traçado das cidades, os tipos de habitação, os monumentos arquitetônicos, os fosseis, os vestígios arqueológicos e as paisagens), e também o nosso próprio mundo cotidiano, que "parece estar escrito num mosaico de línguas, como uma parede coberta de grafites, cheia de rabiscos sobrepostos, como um palimpsesto cujo pergaminho foi raspado e reescrito várias vezes, como uma colagem de Schwitter, uma combinação de alfabetos, citações heterogêneas, gírias e impressos de computador", conforme recorda ítalo Calvino - quanto a propósito dos diferentes procedimentos teóricos necessários à leitura de cada um dos tipos de documentos, permitindo a caracterização das relações entre História e as demais disciplinas. Ela tem procurado caracterizar também as vicissitudes da noção de documento, considerando o triunfo do documento escrito sobre o monumento desde o século XIX; a passagem da noção de documento para a de fontes e a ampliação de seu escopo propiciada pelos fundadores da Escola dos Annales; a revolução documental a partir dos anos 60, privilegiando o dado que leva à série e a uma história descontínua; e a transformação do documento em monumento, por meio da sua utilização pelo poder, num jogo permanente entre memória e amnésia por meio do qual as sociedades buscam impor ao futuro determinada imagem de si próprias. E, neste mesmo movimento, tanto discutir as diferentes noções de verdade, contrapondo não só urna verdade de fundo ético a outra de fundo jurídico, o registro voluntário ao involuntário, como ainda caracterizar os procedimentos de critica que, de um modo ou de outro, sempre aparecem associados ao ofício do historiador. Em resumo, um conjunto de reflexões e práticas que procuram não perder jamais a referência fundamental de que o trato com os documentos constitui sempre um diálogo entre dois sujeitos, a partir das questões formuladas por alguém localizado no presente -"colocar um problema é precisamente o começo e o fim de toda a História. Se não há problemas, não há História. Apenas narrações, compilações", sempre ensinava Lucien Febvre - e respondidas por homens situados num tempo diferente, respostas que, ao cabo, iluminam o contexto no qual os registros foram elaborados, a cultura à qual pertencia aquele que operou o registro.
A oficina de Historiografia, por sua vez, tem tido sempre menos a preocupação de identificar as diferentes "escolas históricas", detendo-se mais no exercício de identificação quer dos diferentes elementos que estruturam urna obra historiográfica quer dos diferentes diálogos e questões que a sustentam, nela sempre presentes embora não se ofereçam à primeira vista. No que se refere à primeira possibilidade, a identificação dos objetivos e questões formulados, de sua tradução sob a forma de hipóteses, das referências teóricos e dos procedimentos metodológicos, das fontes documentais e das referências bibliográficas, das formas de demonstração utilizadas - numa espécie de reconstituição, em sentido inverso, da trajetória de elaboração formal de um trabalho historiográfico. 
Quanto à última, a partir dos prefácios, dedicatórias, introduções, tábuas de conteúdos e, evidentemente, do próprio texto, a possibilidade de recuperar os diálogos travados pelo autor, de modo explícito ou não, com determinados elementos teóricos e metodológicos que balizam sua trajetória e produção, como as relações, em termos de semelhanças e diferenças, entre História e Mito; História e Memória; História e Ficção; História como modelo e História como experiência vivida; História e Discurso: narrativa, descrição e interpretação, lógica explicativa e lógica compreensiva, argumentação e demonstração; Texto e Escritura: narrador e autor.
Os textos que compõem esta publicação registram os resultados mais significativos de algumas das inúmeras oficinas até agora realizadas, nessa experiência emocionante e original. Animadas por um mesmo propósito e buscando realizar os objetivos centrais do projeto, as diversas oficinas expressam as diferentes compreensões e práticas que aqueles que as conduziram possuem a respeito do fazer historiográfico hoje.


Ilmar Rohloff de Mattos

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