(Machado de Oliveira, Cristina.)
Podemos definir o conceito de história como sendo o desencadeamento geral das ações humanas, ou seja, são os fatos que se sucedem ininterruptamente, de modo a constituírem uma corrente contínua. Enfim, a palavra história refere-se especialmente ao conhecimento sistematizado dos eventos principais relativos à humanidade ou a uma parte dela. Porém, este sentido é totalmente genérico, podemos submeter a história a dois tipos de interpretações: uma visão objetiva e outra filosófica.
A história objetiva é a que trata de reconstruir, de modo mais "objetivo" possível, o desenrolar da história real, o devir das civilizações. Esse tipo de acepção indica a arte de retratar o passado, pressupondo uma prévia investigação, constituindo o objeto da Historiografia. O que se pode compreender dessa visão de história é que a realidade não pode ser atingida, enquanto se permanecer à superfície dos acontecimentos. Os fatos são apenas manifestações exteriores, implicando comisso um esforço para apreender as relações que os unem. A tematização de reflexão sobre o objeto nos introduz na filosofia da história, pois assim poderemos obter o sentido mais íntimo que se oculta por trás dos acontecimentos.
A interpretação da história com um sentido filosófico terá como objetivo a apreensão da totalidade, esforçando-se em compreender a história como tal, em sua unidade e em sua significação global.
Mesmo nos primórdios da filosofia já se refletia sobre o conceito de história. Já os pré-socráticos acreditavam que o mundo se renova periodicamente em ciclos e o próprio Platão fala nas terríveis catástrofes que de tempos em tempos ocorrem, ocasionando uma renovação da humanidade. Muitos outros filósofos tomaram como tema essa problemática, desenvolvendo o conceito, ampliando e apreendendo, cada um a seu modo, o sentido de história. Entretanto, pretendo desenvolver a filosofia da história numa concepção Marxista.
"A interpretação da história em Marx está profundamente ligada à interpretação de Hegel, mas, em relação a esta introduz uma modificação essencial: não é mais na reflexão que se cumpre o movimento constituinte, mas na práxis, na ação histórica enquanto penetrada pela ideia e reveladora da ideia."(Vida social e Destinação, p.52).
Marx se mostra sensível à relação recíproca entre o desenvolvimento da sociedade e o desenvolvimento das ciências naturais no mundo moderno e salienta que elas contribuíram tanto para a emancipação do homem, quanto para a sua desumanização. Para ele a sociedade produz o homem enquanto homem, mas também ela é produzida por ele. A própria natureza, com a qual todo o homem, como ser vivo, está em relação, só se humaniza na sociabilidade tornando-se um elo entre cada homem e o fundamento da existência comum. "A sociedade, afirma Marx, é a total consubstanciação do homem com a natureza, a verdadeira ressurreição do naturalismo do homem, e a realização do humanismo da natureza"(Manuscritos econômico-políticos de 1844, p.260).
Assim, a tese fundamental de sua doutrina da história é que o único sujeito da história é a sociedade na sua estrutura econômica. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser mas é pelo contrário, o seu ser social que determina a sua consciência.
Segundo este ponto de vista, o único elemento determinante da história, e por isso também o único elemento que se autodetermina, é a estrutura econômica da sociedade. Desse modo, só a estrutura econômica da sociedade tem, propriamente, história. Portanto, quem impulsiona a história é a relação entre as forças produtivas e as relações de produção (as relações de propriedade). A história segundo Marx desencava todas as relações que encadeiam o homem e a sociedade à natureza, todas as relações que ligam a formação e a transformação dos modos de produção à constituição e transformação das formações sociais, da consciência social, do Estado e das formas ideológicas correspondentes. Ele põe no centro das investigações a sociedade civil, o comércio e a indústria e encara a sociedade civil como a "verdadeira fonte e teatro de toda a história”. A história da vida cotidiana e do presente em processo, encarada da perspectiva do materialismo histórico, propõem-se lidar, simultaneamente, com os fatos históricos que permitem descrever tanto o superficial, quanto o profundo na cena histórica. No plano descritivo, ela busca a reconstrução da situação histórica total; no plano interpretativo, ela se obriga a descobrir a rede da causação histórica, associando reciprocamente as transformações das relações de produção às transformações da sociedade e das superestruturas políticas, jurídicas, artísticas, científicas, religiosas, etc.
O primeiro pressuposto de toda existência humana, e, portanto, de toda a história, é de que os homens precisam estar em condições de viver para poderem "fazer história". O primeiro ato histórico é, portanto, engendrar os meios para a satisfação das necessidades, produzir a vida material mesma, e isto é um ato histórico, uma condição básica de toda a história que ainda hoje, como há milênios, precisa ser preenchida a cada dia e a cada hora tão-somente para manter os homens vivos.
Em segundo lugar, a primeira necessidade satisfeita, a ação da satisfação e o instrumento da satisfação já adquirido levam a novas necessidades.
A terceira circunstância que entra no desenvolvimento histórico, é a de que os seres humanos que renovam a sua própria vida diariamente começam a fazer outros seres humanos, isto é, a se reproduzirem – a relação entre homem e mulher, pais e filhos, a família. Essa família, que no começo é a única relação social, torna-se mais tarde, onde o crescimento das necessidades engendra novas relações sociais e o crescimento populacional novas necessidades, uma relação subordinada e tem então que ser tratada e desenvolvida segundo os dados empíricos existentes e não segundo o “conceito de família".
Um dos poderes principais da história é a divisão do trabalho. Toda a história anterior era, com exceção dos estágios primitivos, a história das lutas de classe. Estas são, em luta entre si, fruto das relações de produção e de troca, em suma, das relações econômicas de sua época. "Na época moderna, estas relações se caracterizam pela apropriação privada dos meios de produção, num sistema de produção essencialmente do tipo industrial. Assim, a oposição de classes se apresenta como o antagonismo entre a classe dos proprietários do capital e a classe dos proletários, isto é, dos homens que mais não possuem a não ser a força do seu trabalho.”(Vida Social e Destinação, p. 53).
As forças produtivas são, portanto, o resultado da energia aplicada dos homens, mas essa mesma energia é limitada pelas circunstâncias em que os homens se encontram, pelas forças produtivas já obtidas, pela forma social preexistente, que eles não criam e que é produto da geração precedente. Devido ao simples fato de que toda nova geração encontra as forças de produção já obtidas pela geração anterior e que lhe servem de matéria-prima para uma nova produção, surge um encadeamento na história dos homens, surge a história da humanidade, que é tanto mais história da humanidade quanto mais crescem as forças produtivas dos homens e, por conseguinte, as suas relações sociais. A consequência necessária: a história social dos homens nada mais é do que a história do seu desenvolvimento individual, tenham ou não consciência disso. Suas relações materiais são a base de todas as suas relações. Essas relações materiais não são mais do que as formas necessárias em que se realiza a sua atividade material e individual.
As formas econômicas, sob as quais os homens produzem, consomem e trocam, são, portanto, transitórias e históricas. Marx fez duas grandes descobertas: a concepção materialista da história e a revelação do segredo da produção capitalista através da mais-valia. Portanto ele demostrou que a existência das classes está ligada apenas a determinadas fases históricas do desenvolvimento da produção; que a luta de classes conduz necessariamente à ditadura do proletariado; que esta mesma ditadura constitui apenas a transição para a superação de todas as classes e para uma sociedade sem classes.
Como foi dito anteriormente, só a estrutura econômica da sociedade tem, propriamente, história. Esta é constituída pela relação entre as forças produtivas e as relações de produção. Quando as forças produtivas alcançam um certo grau de desenvolvimento entram em contradição com as relações de produção existentes, que deixam por isso de ser condições de desenvolvimento para se transformarem em condições de estagnação. Entra-se então numa época de revolução social. No entanto, uma formação social só se extingue quando se estiverem desenvolvidas todas as forças produtivas a que pode dar lugar; as novas relações de produção entram em ação quando se encontram amadurecidas, no seio da velha sociedade, as condições materiais da sua existência. Marx admite a esse propósito o progresso incessante da história, entretanto este se encontra dirigido para uma forma final e conclusiva.
Desse modo, podemos concluir que a história em processo é a história dos homens, o modo como eles produzem socialmente a sua vida, ligando-se ou opondo-se uns aos outros, de acordo com a sua posição nas relações de produção, na sociedade e no Estado, e gerando, assim, os eventos e processos históricos que evidenciam como a produção, a sociedade e o Estado se preservam ou se alteram ao longo do tempo.
Métodos da História
Ao concentrar seu estudo em um tempo e lugar concretos, assumindo uma perspectiva ou temática específica, o historiador não deve renunciar a uma visão ou conhecimento geral que lhe possa proporcionar um contexto suficientemente amplo, para que sua análise seja coerente e os fatos estudados se relacionem com seus antecedentes e posteriores, até mesmo os mais remotos. Contudo, a especialização é necessária para aprofundar o estudo histórico, que pode orientar-se segundo diversos métodos adaptados à pluralidade de aspectos e períodos.
História Política e Militar
Durante muito tempo, os fatos políticos e militares constituíram o principal objeto de interesse da história. Essa orientação centra-se na atuação e no crescimento dos estados e impérios e suas relações durante a paz e a guerra. Estuda também as lutas internas pelo domínio dentro de cada estado. Durante séculos, esse tipo de história baseou-se em ações bélicas e façanhas militares. Era uma narração de acontecimentos, estratégias e personagens destacados que absorviam o interesse do historiador. A história política moderna desmembrou-se em estudos setorizados: constitucional, das instituições e da administração estatal.
Método Marxista
Durante o século XIX os teóricos socialistas desenvolveram um tipo de história mais interessado pela população do que pelos indivíduos em si, e pelos modos de vida mais do que pelos feitos militares. Quem abriu um novo caminho para a pesquisa histórica, bem como para muitas outras disciplinas, foi o alemão Karl Marx. Inspirado pela dialética de Hegel, Marx elaborou uma concepção materialista da história baseada na contradição dos elementos da realidade social (tese e antítese) como meio para alcançar formas de síntese cada vez mais avançadas.
Na introdução a Zur Kritik der politischen Ökonomie (1859; sobre a crítica da economia política), Marx formulou suas ideias, contrastadas com as do amigo e colaborador Friedrich Engels, sobre o estudo da economia em suas ligações com a sociedade. Afirmava que o indivíduo se vê imerso em uma série de relações de produção, que variam segundo o grau de desenvolvimento da sociedade. A estrutura econômica depende das características dessas relações de produção, que constituem a infraestrutura de uma sociedade, sobre a qual se ergue a superestrutura (ideológica, política, jurídica etc.), que gera determinadas posições e consciências sociais. A cada modo de produção material corresponde, assim, um tipo de formação social (escravista, feudal, capitalista etc.).
O conceito de "luta de classes" é basilar para a compreensão da teoria marxista, já que o desenvolvimento dos meios de produção e as relações entre os proprietários e os trabalhadores possibilitam estabelecer o processo de confronto dialético pelo qual a humanidade evolui para formas sociais e períodos históricos mais avançados. Segundo as leis da dialética, na sociedade capitalista a revolução proletária conduziria ao comunismo, síntese histórica em que se suprimiriam as distinções de classe e o estado, este entendido como organização coercitiva da classe dominante.
As ideias de Marx sobre o materialismo histórico não foram totalmente formuladas em Das Kapital (1867; O capital), obra de economia política que procurava fugir a esquematizações simplistas, perigo apontado e combatido por Engels em seus últimos anos de vida. Ao longo do século XX, a ortodoxia stalinista reduziu o materialismo histórico a uma fórmula de cinco etapas de desenvolvimento: o comunismo primitivo, o escravagismo antigo, o feudalismo, o capitalismo e o socialismo, fases necessárias na evolução de qualquer sociedade. Um novo período da historiografia marxista abriu-se após a segunda guerra mundial, quando se começou a superar a doutrina stalinista e passou-se a considerar outros aspectos até então deixados de lado.
Positivismo
Do último terço do século XIX às primeiras décadas do século XX predominou um tipo de estudo histórico baseado na filosofia política de Auguste Comte. Esse método foi elaborado a partir de uma comparação empírica de dados e de uma interpretação racional dos fatos, em que se abandonava toda questão teórica ou psicológica, mais difícil de objetivar, e se empregavam unicamente as fontes mais concretas dos documentos. Segundo os positivistas, a aplicação das ciências exatas possibilitaria o conhecimento das leis da história a partir da análise dos dados. Os historiadores positivistas trataram especialmente da história dos fatos políticos e ideológicos. Ocorreu um extraordinário florescimento da erudição e dos repertórios documentais, como os Monumenta germaniae histórica (Monumentos históricos germânicos) ou a Colección de documentos inéditos para la história de España. Nesse período realizou-se um importante trabalho filológico, com a decifração de hieróglifos, e desenvolveram-se os estudos sobre as ciências auxiliares e a interpretação de fontes.
A história positivista era, segundo Leopold von Ranke, uma exposição dos fatos tal como se produziram. Com o acúmulo de enormes quantidades de fatos que muitas vezes não eram interpretados, a história positivista ficou de certo modo limitada por seu próprio método e foi caindo progressivamente em desprestígio à medida que o século XX avançava. Métodos alternativos complementaram o chamado historicismo positivista com a introdução da interpretação e a adoção do princípio de que todos os aspectos da sociedade humana estavam sujeitos a mudanças e transformações.
Escola dos Annales
Trata-se de uma linha
historiográfica surgida na França através da revista Annales d'histoire économique
et sociale, criada por Marc Bloch e Lucien
Febvre. Os dois autores fundadores de tal publicação achavam insuficientes
as formas com que a História era tratada até então. Apesar disso, não foram os
primeiros a proporem novas abordagens, nem receberam a fama de forma indevida.
Bebendo das fontes de diversos autores, compilam uma forma própria de análise do
passado.
Bibliografia:
ABBAGNANO, Nicola."História daFilosofia"– Vol.X. Ed. Presença. Lisboa, 1970.
FERNANDES, Florentan (Org.)."Marx/Engels". Ed. Ática. São Paulo,1989.
LADRIÈRE, Jean."Vida Social eDestinação". Ed. Convívio. - ____
"Enciclopédia Brasileira Globo". Ed. Globo. Porto Alegre,1975.
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