segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Os Paradigmas da História - Positivismo, Marxismo e Nova História

O ensino como um todo está passando por um período de transição, com muitos problemas e debates, sobre a importância do ensino, e o que realmente deve ser ensinado nas escolas para que realmente a educação cumpra o seu papel de formadora de cidadãos conscientes de sua importância na sociedade e mundo em que estão inseridos. Dessa forma o ensino de História não foge à essas discussões acerca das problemáticas da educação, principalmente no que tange ao ensino em sala de aula.
As maiores problemáticas em relação ao ensino de História se referem as questões teórico-metodológicas e político-pedagógicas. Cabe então analisarmos mais profundamente as três correntes da historiografia atual que servem como embasamento teórico para os professores de História: o Positivismo, o Marxismo e a Nova História.

Positivismo


Corrente teórica tradicional que surgiu no séc. XIX, como reação ao Idealismo de Kant e Hegel, fundado por Augusto Comte. O momento histórico em que essa concepção historiográfica foi criada insere-se em uma fase onde a burguesia tornava-se a classe econômica hegemônica, e o positivismo representou a justificação e legitimação da visão burguesa, servindo mais tarde como uma ideologia dessa classe, garantindo a manutenção dessa nova ordem.
O positivismo segundo Comte apresenta a lei dos três estágios que consiste em estabelecer três estágios de evolução do espírito humano: o estado teológico, o estado metafísico e o estado positivo. Essa concepção tem uma característica utilitarista, que propõe conhecer o passado, entender o presente e projetar o futuro, que dessa forma busca a previsão e o conhecimento prévio dos fatos, onde o futuro pode ser manipulado.
O estudo da História segundo a concepção positivista, se restringe ao estudo dos fatos, que podem ser observados, verificáveis e experimentáveis, tirando da história toda a sua subjetividade. O historiador é uma pessoa neutra e objetiva, que não interfere de forma alguma nos acontecimentos e na História. A fonte de estudo privilegiada nessa concepção são as escritas, principalmente os documentos oficiais.
A pesquisa nos documentos oficiais é realizada apenas no âmbito da descrição já que eles não podem ser discutidos e analisados. Com isso a história é contada a partir de uma estrutura política, privilegiando os governos e os governantes. A sociedade assim como a natureza é regida por leis naturais e invariáveis, independentes da vontade e da ação humana, e que caminha para um estágio final de progresso, sem que haja retrocessos e atrasos durante a evolução dessa sociedade.
Com a utilização dessa concepção por parte dos professores de História em sala de aula, os alunos não são estimulados a pensar, e buscar o conhecimento através de uma construção do mesmo.

Marxismo


Para analisarmos a corrente marxista, devemos remontar as origens históricas dessa tendência. No final do séc. XVIII, a burguesia libertou as forças produtivas do domínio do feudalismo. A burguesia se apropriou dos meios de produção e dos capitais gerados a partir da exploração de uma nova classe social - o proletariado. A luta de classes levou o proletariado a buscar a explicação, e consequentemente a tomada de consciência, do processo de exploração a que está submetido. Nesse sentido, contrariamente ao positivismo, o marxismo procura explicar a História do ponto de vista dos trabalhadores.
Nessa concepção os fatos não podem ser medidos e experimentados, a abstração só pode se dar na imaginação. Os fatos, os indivíduos são reais, e sua ação, suas condições materiais de vida alteram a História. O historiador trabalha na investigação do processo histórico concreto, e intervém de modo prático sobre eles. A partir disso os acontecimentos não são acabados e a História não é dada, mas sim construída socialmente pelos indivíduos que nela se inserem.
A estrutura econômica é privilegiada nessa tendência, com a produção material determinando as demais esferas da vida social. Há um aspecto comum com o positivismo, já que da mesma forma a História caminha para um fim inevitável, só que nesse caso não a um estágio positivo, mas a uma sociedade socialista/comunista, com a evolução dos modos de produção.

Nova História


Na primeira metade do século XX, os historiadores franceses ligados à famosa Escola dos Anais promoveram mudanças significativas na maneira de pensar e escrever a História, as quais continuam ainda hoje em evidência, causando polêmicas. Marc Bloch, Lucien Febvre e Fernando Braudel são considerados os maiores responsáveis por essas mudanças, embora muitos outros tenham contribuído para que a História firmasse novas formas de interpretação, preocupadas com as estruturas, as manifestações culturais e a relação com os outros ramos do saber, tais como a sociologia, a economia, a antropologia a demografia.
A nova história deve ser entendida como uma tendência historiográfica emergente, que tem ligado o seu surgimento a criação da Revista dos Annales em 1929, na França. Mas o termo Nova História, foi instituído a partir da década de 70.
A Nova História, tributária da Escola dos Anais, ocupou, por sua vez, um espaço importante nas universidades e conseguiu também penetração expressiva no mercado editorial, sobretudo na França. Historiadores como Jacques Le Goff, Georges Duby, Marc Ferro e tantos outros tornaram-se conhecidos da mídia. A Nova História, com sua linguagem próxima da literatura, sem o peso formal da linguagem acadêmica conquistou um público amplo, constituído não apenas por historiadores.
A história-problema em substituição a história narrativa; a história de todas as atividades humanas e não apenas a história econômica e política; aproximação com outras ciências humanas.
A Nova História costumou a ser dividida em 3 fases ou geração de estudiosos: a primeira geração privilegiou a história econômica e social, a totalidade era obtida na história econômica. A segunda geração privilegiou a história econômica e preteriu a história social, já que esse período de pós-guerra (1945) promoveu uma intensa industrialização, o que provocou uma atenção maior dos estudiosos. Os anos 70 foram marcados para uns com a continuidade do movimento a partir da terceira geração, e para outros como o rompimento definitivo dos postulados da primeira e segunda gerações, e a opção pelo irracionalismo.
A partir dos anos 70 novos objetos de estudo foram anexados à essa nova historiografia, temas que não eram contemplados pela historiografia tradicional: cotidiano das pessoas comuns, e não das grandes figuras, mas não se trata aí de acrescentar aspectos anedóticos e pitorescos a uma história econômica-política-social; história das mentalidades, a partir de temas como: família, educação, sexo, festa, morte, alimentação, mulheres, homossexuais.
Nessa concepção admite-se as múltiplas dimensões temporais: curta, média e longa duração, e não apenas um tempo curto e linear. Dessa forma pode-se analisar os acontecimentos e as relações entre eles através de um tempo estrutural.
A Nova História, sendo uma corrente de certa forma revolucionária em termos de historiografia sofreu e ainda sofre inúmeras críticas. 
Essas críticas se referem ao irracionalismo, a excessiva compartimentalização da História, desprivilegiando uma visão global e totalizante. A perspectiva micro também é contestada, já que os grandes movimentos e acontecimentos históricos consagrados são relegados a segundo plano.
Em substituição a História narrativa, entra em cena a História-problema, que procura explicar os problemas e as grandes interrogações da nossa época. O campo das pesquisas foi ampliado, livrando-se de preconceitos, quebrando fronteiras. Atualmente costuma-se dizer que tudo é História, e não apenas os feitos dos heróis, as grandes batalhas, as tramas das elites. Defende-se hoje que a história é uma tarefa coletiva, construída no cotidiano, e que, portanto, o ofício do historiador é dar conta da diversidade que resulta do pensar, sentir e agir de todos os homens.


O conceito de história

(Machado de Oliveira, Cristina.)

Podemos definir o conceito de história como sendo o desencadeamento geral das ações humanas, ou seja, são os fatos que se sucedem ininterruptamente, de modo a constituírem uma corrente contínua. Enfim, a palavra história refere-se especialmente ao conhecimento sistematizado dos eventos principais relativos à humanidade ou a uma parte dela. Porém, este sentido é totalmente genérico, podemos submeter a história a dois tipos de interpretações: uma visão objetiva e outra filosófica.
A história objetiva é a que trata de reconstruir, de modo mais "objetivo" possível, o desenrolar da história real, o devir das civilizações. Esse tipo de acepção indica a arte de retratar o passado, pressupondo uma prévia investigação, constituindo o objeto da Historiografia. O que se pode compreender dessa visão de história é que a realidade não pode ser atingida, enquanto se permanecer à superfície dos acontecimentos. Os fatos são apenas manifestações exteriores, implicando comisso um esforço para apreender as relações que os unem. A tematização de reflexão sobre o objeto nos introduz na filosofia da história, pois assim poderemos obter o sentido mais íntimo que se oculta por trás dos acontecimentos.
A interpretação da história com um sentido filosófico terá como objetivo a apreensão da totalidade, esforçando-se em compreender a história como tal, em sua unidade e em sua significação global.
Mesmo nos primórdios da filosofia já se refletia sobre o conceito de história. Já os pré-socráticos acreditavam que o mundo se renova periodicamente em ciclos e o próprio Platão fala nas terríveis catástrofes que de tempos em tempos ocorrem, ocasionando uma renovação da humanidade. Muitos outros filósofos tomaram como tema essa problemática, desenvolvendo o conceito, ampliando e apreendendo, cada um a seu modo, o sentido de história. Entretanto, pretendo desenvolver a filosofia da história numa concepção Marxista.
"A interpretação da história em Marx está profundamente ligada à interpretação de Hegel, mas, em relação a esta introduz uma modificação essencial: não é mais na reflexão que se cumpre o movimento constituinte, mas na práxis, na ação histórica enquanto penetrada pela ideia e reveladora da ideia."(Vida social e Destinação, p.52). 
Marx se mostra sensível à relação recíproca entre o desenvolvimento da sociedade e o desenvolvimento das ciências naturais no mundo moderno e salienta que elas contribuíram tanto para a emancipação do homem, quanto para a sua desumanização. Para ele a sociedade produz o homem enquanto homem, mas também ela é produzida por ele. A própria natureza, com a qual todo o homem, como ser vivo, está em relação, só se humaniza na sociabilidade tornando-se um elo entre cada homem e o fundamento da existência comum. "A sociedade, afirma Marx, é a total consubstanciação do homem com a natureza, a verdadeira ressurreição do naturalismo do homem, e a realização do humanismo da natureza"(Manuscritos econômico-políticos de 1844, p.260).
Assim, a tese fundamental de sua doutrina da história é que o único sujeito da história é a sociedade na sua estrutura econômica. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser mas é pelo contrário, o seu ser social que determina a sua consciência.
Segundo este ponto de vista, o único elemento determinante da história, e por isso também o único elemento que se autodetermina, é a estrutura econômica da sociedade. Desse modo, só a estrutura econômica da sociedade tem, propriamente, história. Portanto, quem impulsiona a história é a relação entre as forças produtivas e as relações de produção (as relações de propriedade). A história segundo Marx desencava todas as relações que encadeiam o homem e a sociedade à natureza, todas as relações que ligam a formação e a transformação dos modos de produção à constituição e transformação das formações sociais, da consciência social, do Estado e das formas ideológicas correspondentes. Ele põe no centro das investigações a sociedade civil, o comércio e a indústria e encara a sociedade civil como a "verdadeira fonte e teatro de toda a história”. A história da vida cotidiana e do presente em processo, encarada da perspectiva do materialismo histórico, propõem-se lidar, simultaneamente, com os fatos históricos que permitem descrever tanto o superficial, quanto o profundo na cena histórica. No plano descritivo, ela busca a reconstrução da situação histórica total; no plano interpretativo, ela se obriga a descobrir a rede da causação histórica, associando reciprocamente as transformações das relações de produção às transformações da sociedade e das superestruturas políticas, jurídicas, artísticas, científicas, religiosas, etc.
O primeiro pressuposto de toda existência humana, e, portanto, de toda a história, é de que os homens precisam estar em condições de viver para poderem "fazer história". O primeiro ato histórico é, portanto, engendrar os meios para a satisfação das necessidades, produzir a vida material mesma, e isto é um ato histórico, uma condição básica de toda a história que ainda hoje, como há milênios, precisa ser preenchida a cada dia e a cada hora tão-somente para manter os homens vivos.
Em segundo lugar, a primeira necessidade satisfeita, a ação da satisfação e o instrumento da satisfação já adquirido levam a novas necessidades.
A terceira circunstância que entra no desenvolvimento histórico, é a de que os seres humanos que renovam a sua própria vida diariamente começam a fazer outros seres humanos, isto é, a se reproduzirem – a relação entre homem e mulher, pais e filhos, a família. Essa família, que no começo é a única relação social, torna-se mais tarde, onde o crescimento das necessidades engendra novas relações sociais e o crescimento populacional novas necessidades, uma relação subordinada e tem então que ser tratada e desenvolvida segundo os dados empíricos existentes e não segundo o “conceito de família".
Um dos poderes principais da história é a divisão do trabalho. Toda a história anterior era, com exceção dos estágios primitivos, a história das lutas de classe. Estas são, em luta entre si, fruto das relações de produção e de troca, em suma, das relações econômicas de sua época. "Na época moderna, estas relações se caracterizam pela apropriação privada dos meios de produção, num sistema de produção essencialmente do tipo industrial. Assim, a oposição de classes se apresenta como o antagonismo entre a classe dos proprietários do capital e a classe dos proletários, isto é, dos homens que mais não possuem a não ser a força do seu trabalho.”(Vida Social e Destinação, p. 53).
As forças produtivas são, portanto, o resultado da energia aplicada dos homens, mas essa mesma energia é limitada pelas circunstâncias em que os homens se encontram, pelas forças produtivas já obtidas, pela forma social preexistente, que eles não criam e que é produto da geração precedente. Devido ao simples fato de que toda nova geração encontra as forças de produção já obtidas pela geração anterior e que lhe servem de matéria-prima para uma nova produção, surge um encadeamento na história dos homens, surge a história da humanidade, que é tanto mais história da humanidade quanto mais crescem as forças produtivas dos homens e, por conseguinte, as suas relações sociais. A consequência necessária: a história social dos homens nada mais é do que a história do seu desenvolvimento individual, tenham ou não consciência disso. Suas relações materiais são a base de todas as suas relações. Essas relações materiais não são mais do que as formas necessárias em que se realiza a sua atividade material e individual.
As formas econômicas, sob as quais os homens produzem, consomem e trocam, são, portanto, transitórias e históricas. Marx fez duas grandes descobertas: a concepção materialista da história e a revelação do segredo da produção capitalista através da mais-valia. Portanto ele demostrou que a existência das classes está ligada apenas a determinadas fases históricas do desenvolvimento da produção; que a luta de classes conduz necessariamente à ditadura do proletariado; que esta mesma ditadura constitui apenas a transição para a superação de todas as classes e para uma sociedade sem classes.
Como foi dito anteriormente, só a estrutura econômica da sociedade tem, propriamente, história. Esta é constituída pela relação entre as forças produtivas e as relações de produção. Quando as forças produtivas alcançam um certo grau de desenvolvimento entram em contradição com as relações de produção existentes, que deixam por isso de ser condições de desenvolvimento para se transformarem em condições de estagnação. Entra-se então numa época de revolução social. No entanto, uma formação social só se extingue quando se estiverem desenvolvidas todas as forças produtivas a que pode dar lugar; as novas relações de produção entram em ação quando se encontram amadurecidas, no seio da velha sociedade, as condições materiais da sua existência. Marx admite a esse propósito o progresso incessante da história, entretanto este se encontra dirigido para uma forma final e conclusiva.
Desse modo, podemos concluir que a história em processo é a história dos homens, o modo como eles produzem socialmente a sua vida, ligando-se ou opondo-se uns aos outros, de acordo com a sua posição nas relações de produção, na sociedade e no Estado, e gerando, assim, os eventos e processos históricos que evidenciam como a produção, a sociedade e o Estado se preservam ou se alteram ao longo do tempo.

Métodos da História


Ao concentrar seu estudo em um tempo e lugar concretos, assumindo uma perspectiva ou temática específica, o historiador não deve renunciar a uma visão ou conhecimento geral que lhe possa proporcionar um contexto suficientemente amplo, para que sua análise seja coerente e os fatos estudados se relacionem com seus antecedentes e posteriores, até mesmo os mais remotos. Contudo, a especialização é necessária para aprofundar o estudo histórico, que pode orientar-se segundo diversos métodos adaptados à pluralidade de aspectos e períodos.

História Política e Militar


Durante muito tempo, os fatos políticos e militares constituíram o principal objeto de interesse da história. Essa orientação centra-se na atuação e no crescimento dos estados e impérios e suas relações durante a paz e a guerra. Estuda também as lutas internas pelo domínio dentro de cada estado. Durante séculos, esse tipo de história baseou-se em ações bélicas e façanhas militares. Era uma narração de acontecimentos, estratégias e personagens destacados que absorviam o interesse do historiador. A história política moderna desmembrou-se em estudos setorizados: constitucional, das instituições e da administração estatal.

Método Marxista


Durante o século XIX os teóricos socialistas desenvolveram um tipo de história mais interessado pela população do que pelos indivíduos em si, e pelos modos de vida mais do que pelos feitos militares. Quem abriu um novo caminho para a pesquisa histórica, bem como para muitas outras disciplinas, foi o alemão Karl Marx. Inspirado pela dialética de Hegel, Marx elaborou uma concepção materialista da história baseada na contradição dos elementos da realidade social (tese e antítese) como meio para alcançar formas de síntese cada vez mais avançadas.
Na introdução a Zur Kritik der politischen Ökonomie (1859; sobre a crítica da economia política), Marx formulou suas ideias, contrastadas com as do amigo e colaborador Friedrich Engels, sobre o estudo da economia em suas ligações com a sociedade. Afirmava que o indivíduo se vê imerso em uma série de relações de produção, que variam segundo o grau de desenvolvimento da sociedade. A estrutura econômica depende das características dessas relações de produção, que constituem a infraestrutura de uma sociedade, sobre a qual se ergue a superestrutura (ideológica, política, jurídica etc.), que gera determinadas posições e consciências sociais. A cada modo de produção material corresponde, assim, um tipo de formação social (escravista, feudal, capitalista etc.). 
O conceito de "luta de classes" é basilar para a compreensão da teoria marxista, já que o desenvolvimento dos meios de produção e as relações entre os proprietários e os trabalhadores possibilitam estabelecer o processo de confronto dialético pelo qual a humanidade evolui para formas sociais e períodos históricos mais avançados. Segundo as leis da dialética, na sociedade capitalista a revolução proletária conduziria ao comunismo, síntese histórica em que se suprimiriam as distinções de classe e o estado, este entendido como organização coercitiva da classe dominante.
As ideias de Marx sobre o materialismo histórico não foram totalmente formuladas em Das Kapital (1867; O capital), obra de economia política que procurava fugir a esquematizações simplistas, perigo apontado e combatido por Engels em seus últimos anos de vida. Ao longo do século XX, a ortodoxia stalinista reduziu o materialismo histórico a uma fórmula de cinco etapas de desenvolvimento: o comunismo primitivo, o escravagismo antigo, o feudalismo, o capitalismo e o socialismo, fases necessárias na evolução de qualquer sociedade. Um novo período da historiografia marxista abriu-se após a segunda guerra mundial, quando se começou a superar a doutrina stalinista e passou-se a considerar outros aspectos até então deixados de lado.

Positivismo


Do último terço do século XIX às primeiras décadas do século XX predominou um tipo de estudo histórico baseado na filosofia política de Auguste Comte. Esse método foi elaborado a partir de uma comparação empírica de dados e de uma interpretação racional dos fatos, em que se abandonava toda questão teórica ou psicológica, mais difícil de objetivar, e se empregavam unicamente as fontes mais concretas dos documentos. Segundo os positivistas, a aplicação das ciências exatas possibilitaria o conhecimento das leis da história a partir da análise dos dados. Os historiadores positivistas trataram especialmente da história dos fatos políticos e ideológicos. Ocorreu um extraordinário florescimento da erudição e dos repertórios documentais, como os Monumenta germaniae histórica (Monumentos históricos germânicos) ou a Colección de documentos inéditos para la história de España. Nesse período realizou-se um importante trabalho filológico, com a decifração de hieróglifos, e desenvolveram-se os estudos sobre as ciências auxiliares e a interpretação de fontes.
A história positivista era, segundo Leopold von Ranke, uma exposição dos fatos tal como se produziram. Com o acúmulo de enormes quantidades de fatos que muitas vezes não eram interpretados, a história positivista ficou de certo modo limitada por seu próprio método e foi caindo progressivamente em desprestígio à medida que o século XX avançava. Métodos alternativos complementaram o chamado historicismo positivista com a introdução da interpretação e a adoção do princípio de que todos os aspectos da sociedade humana estavam sujeitos a mudanças e transformações.

Escola dos Annales 


Trata-se de uma linha historiográfica surgida na França através da revista Annales d'histoire économique et sociale, criada por Marc Bloch e Lucien Febvre. Os dois autores fundadores de tal publicação achavam insuficientes as formas com que a História era tratada até então. Apesar disso, não foram os primeiros a proporem novas abordagens, nem receberam a fama de forma indevida. Bebendo das fontes de diversos autores, compilam uma forma própria de análise do passado.

Bibliografia:

ABBAGNANO, Nicola."História daFilosofia"– Vol.X. Ed. Presença. Lisboa, 1970.

FERNANDES, Florentan (Org.)."Marx/Engels". Ed. Ática. São Paulo,1989.

LADRIÈRE, Jean."Vida Social eDestinação". Ed. Convívio. - ____

"Enciclopédia Brasileira Globo". Ed. Globo. Porto Alegre,1975.



A História como Ciência


Para os gregos, a história não se referia necessariamente ao passado, sendo antes uma lista ou descrição sistemática de fatos. Para Aristóteles, a história era o estudo de fenômenos particulares, enquanto a poesia relacionava-se ao geral, cujo conteúdo era mais filosófico e exemplar do que o daquela. Durante a Idade Média, a história permaneceu ligada às crônicas e a uma concepção teológica muitas vezes deformada em seus relatos pela distorção e pela lenda. 
O conceito científico começou a avançar durante o Renascimento, quando os humanistas adotaram uma visão mais ampla e desvinculada da teologia ao interpretar os textos clássicos. 
Se a História é uma ciência (cujo objeto é o passado da humanidade), tem que submeter-se, como toda a ciência, ao método científico. Ainda que este não possa ser integralmente aplicado a todos os campos das ciências experimentais, pode-se fazê-lo a um nível equiparável ao das chamadas Ciências Sociais.
Mas de maneira simplificada, pode-se admitir: a história é o estudo dos feitos do passado; a historiografia é a ciência da história e a historiologia a sua epistemologia. Um conceito confluente no momento de definir-se a História como fonte de conhecimento é a chamada Teoria da História, também denominada como "historiologia" (termo cunhado por José Ortega y Gasset), cujo papel é o de estudar a estrutura, leis e condições da realidade histórica histórica ; enquanto que o da "historiografia" é o de relato em si mesmo da história, da arte de escrevê-la.
Uma vez despojada da questão meramente nominal, resta para a historiografia, portanto, a análise da história escrita, das descrições do passado; especificamente dos enfoques na narração, interpretações, visões de mundo, uso das evidências ou documentos e os métodos de sua apresentação pelos historiadores; e também o estudo destes, por sua vez sujeitos e objetos da ciência.
No século XVII empregaram-se algumas ciências auxiliares que possibilitaram os primeiros esboços de uma "ciência" histórica em sentido moderno. Em 1681 com De re diplomatica (Sobre a diplomacia), Jean Mabillon proporcionou um instrumental crítico para depurar e interpretar as fontes.
Alguns pensadores desse século, no entanto, não consideravam a história uma ciência. Essa era a opinião de dois dos mais relevantes, Francis Bacon e René Descartes, embora em outro sentido tenham dado uma excelente contribuição, pois assentaram as bases filosóficas da idéia do progresso contínuo da humanidade, que teve tanta influência no pensamento do século XIX. Bacon dava pouca importância à precisão histórica, mas realizou uma divisão útil da história em civil e natural, e a relacionou com a memória. Descartes chegou a duvidar de que a história fosse um ramo do conhecimento.
Até o século XVIII não se pode falar de uma concepção científica da história. Jean Le Rond d'Alembert adotou na Encyclopédie a classificação de Bacon, que relacionou os conhecimentos humanos com as faculdades da memória (história), da razão (filosofia) e da imaginação (poesia), e dividiu a história em sagrada, civil e natural. A idéia do progresso humano foi a raiz do conceito de história como ciência social. Em Scienza nuova (1725), o filósofo Giambattista Vico desenvolveu mais extensamente a idéia do nascimento, crescimento e decadência dos povos, procurando indagar as causas do processo. Para isso foi mais influente a contribuição do barão de Montesquieu em Considérations sur les causes de la grandeur des romains et de leur décadence (1734; Considerações sobre as causas da grandeza dos romanos e da sua decadência). 
As causas do desenvolvimento deviam ser buscadas na moral e em aspectos mais objetivos, como as instituições, a política etc., sendo o acaso um elemento acelerador de processos evolutivos iniciados anteriormente por causas gerais e profundas.
Em History of the Decline and Fall of the Roman Empire (1776-1788; História da decadência e queda do Império Romano), o britânico Edward Gibbon expôs a teoria do progresso contínuo da civilização e foi um pioneiro ao utilizar em seu estudo de modo racional a enorme quantidade de dados acumulada pelos estudiosos anteriores. Durante o século XVIII, a história não esteve muito vinculada à área universitária, exceto em alguns locais, como a cidade alemã de Gotinger. Só no século seguinte a história transformou-se em disciplina acadêmica, a princípio na Prússia e posteriormente em outras partes da Alemanha. Ao longo do século passou a ser universalmente aceita como ciência e começou a ser escrita por historiadores profissionais.
Além disso, a revolução industrial oferecera aos historiadores a possibilidade de observar um fenômeno de mudança social e econômica sem precedentes que possibilitou a confirmação de muitos postulados da teoria do progresso humano. Em 1837 Adolphe Blanqui descreveu o processo da revolução industrial e destacou as relações entre a sociedade e a economia, antecipando as conclusões de Marx.

Fonte : www.estudantedefilosofia.com.br

O HISTORICISMO E A ESCOLA DOS ANNALES

O HISTORICISMO

Basicamente o Historicismo é uma História que se proclama radical, ressaltando enfaticamente não somente sua importância enquanto saber e reflexão mas impondo sua posição central para uma compreensão do Homem e do próprio Real. Surge somente quando a História já conseguiu estabelecer não somente sua linguagem, seu objeto, seu sujeito, mas tendo como suporte um imaginário que havia transformado o antigo mundo num mundo exclusivamente histórico: a virtualidade agora é exclusivamente histórica, pode ser e só pode ser pensada historicamente: ela agora é o eixo de onde partem os julgamentos, os conceitos, as alteridades. O historicismo é a vitória da história, a vitória do homem (cristianismos, ocidentalidade, capitalismos, burguesias) sobre antigas representações e crenças, criando agora novas representações e outras crenças apresentadas seja como Filosofia, seja como Ciência, seja como Realidade, seja como Corpo.
Há vários historicismos. Um historicismo antropológico, vendo na historicidade a via da interpretação, mantendo na História a “realidade humana”, sendo o homem o eixo do conhecimento e, por isso, é também uma espécie de historicismo epistemológico, considerando a História a base de reflexão teórica e metodológica das Ciências Humanas; um historicismo cosmológico, proclamando que o próprio real é histórico, disseminando a história na essência do próprio real, indo até o evolucionismo científico e, assim, é uma espécie de historicismo ontológico, fundando sua reflexão sobre História a partir do ser, dos fenômenos, da existência, mas esses conceitos não passam por critérios rigorosos para, em primeiro lugar, verificar seu estatuto de existência nem, em segundo, o restrito da sua perspectiva agora universal.
Segundo Michael Löwy (1985: 69, 70) o Historicismo comporta três “hipóteses fundamentais”: a primeira é a de que qualquer “fenômeno humano” só pode ser compreendido “dentro da história, através da história, em relação ao processo histórico”; a segunda é que há uma “diferença fundamental entre os fatos históricos (...) e os fatos naturais”, sendo, consequentemente, qualitativamente diferentes os conhecimentos postos por estas duas realidades; terceira é a de que não somente “o objeto da pesquisa é histórico” mas também o “sujeito da pesquisa, o investigador, o pesquisador, está, ele próprio, imerso no curso da história”.
O Historicismo consolida a matéria imaginária fundamental da ocidentalidade em termos de conhecimento, recolhendo tudo para dentro de um antropocosmo: nada está realmente fora da história, nada pode ser pensado de fora da história. Essa razão se disseminará por todas as reflexões sobre o real. Suas premissas não ficam somente nos limites da “escola historicista”, mesmo porque sua trajetória se confunde com a construção da História, podendo ser reconhecidas em Kant ou Condorcet, em Hegel ou em Marx, em Dilthey ou em Marheineke, em Heidegger ou em Lukács, em Spengler ou em Toynbee, em Sartre e em Aron, em Bloch ou em Braudel, em Duby e Ariès ou em Le Goff, invadindo bem mais que o “conhecimento”, se tornando o regulador dos corpos, das produções, da linguagem, das mídias, do sonho e do desejo.
O Historicismo acompanha o estabelecimento tanto dos instrumentos conceituais, os procedimentos de pesquisa, as esperanças, os métodos e as crenças quanto as próprias “filosofias da história” que vão consolidando a Ciência Histórica (mesmo quando não se aceita enquanto uma Filosofia, mas como um conhecimento objetivo) desde o século XVIII.
A operação diltheiana de transformar a Hermenêutica de uma “técnica de interpretação” num instrumento metodológico capacitará a História com um arsenal vindo de uma longa tradição filosófica, o que permitirá uma flexibilidade normalmente ainda pouco aproveitada pelos historiadores hipnotizados seja pela objetividade, seja por uma espécie de passado em si, seja por uma “necessária” generalização. O que exige ainda uma reflexão mais rigorosa sobre a questão do relativismo, dos limites da história e da própria História. Sem uma compreensão epistemológica desses limites, “paradigmas” historicistas (naturalizantes e universais) engolem todas as diferenças radicais, alimentando as mentalidades imperialistas (hoje chamadas globalizantes).
O relativismo sempre entra em conflito com o conjunto dos modelos ocidentais estabelecidos longamente nestes últimos séculos ao mesmo tempo em que nasce tanto deles quanto das múltiplas experiências com as alteridades e com suas próprias estruturas e processos na “formação social”. Precisa utilizar os mesmos instrumentos que pretende criticar e dissolver, e nessa “utilização” demonstra sua legitimidade e eficiência. Por isso não consegue definir uma linha de raciocínio rigorosa. Pondo em questão tudo aquilo que poderia iniciar seu trabalho, perdendo horizonte e eixo, entrando em labirintos de labirintos, desperdiça sua missão com pavor, indiferença ou esquecimento.
Em primeiro lugar o relativismo é basicamente um conceito que põe limite; em segundo, estabelece posição; em terceiro, atravessa conceitos, métodos, procedimentos, saberes, disciplinas, crenças com uma desenvoltura metafísica (e isso precisa também ser objeto de reflexão); em quarto, põe a ocidentalidade dentro do seu imaginário específico: a transforma em mais uma megatribo, criando a partir de si mesma os universos compatíveis consigo mesma. A universalidade e a naturalizações retomam seu sentido de ideologia, de imaginário, de mantenedoras das ilusões fundamentais ao funcionamento das virtualidades sociais da ocidentalidade.


A ESCOLA DOS ANNALES



Fez-se contra o vazio dos “fatos”, contra a pobreza de visão que reduzia o mundo ao jogo entre “grandes homens”, exércitos e povos. A Escola dos Annales é a busca por uma História totalizante, compreendendo o Homem na plenitude do seu viver. Para isso a História tradicional era incompleta e incompetente. Era preciso saquear as “Disciplinas do Homem” para transformar a História numa reflexão e numa prática afiadas. Ao mesmo tempo retoma momentos historiográficos abafados por uma avalanche positivista.
A “narrativa histórica” (a História romance) é substituída por uma “História Problema”; as Histórias parciais (militar, política), por uma História total (ambição hegeliana e do marxista bem antes dos Annales); a instituição de uma “colaboração interdisciplinar”, que traz para dentro da História horizontes, conceitos, inflexões de “outras disciplinas” (mas essa colaboração jamais foi uma ação ácida respeitando limites, respeitando seu próprio estatuto).
Seu aparecimento corresponde ao “súbito” envelhecimento tanto dos tradicionais conjuntos teóricos quanto das práticas historiográficas mantidas num eixo que não mais correspondia às “disfunções” produzidas pela 1ª Guerra Mundial, pela Revolução Russa, pela Relatividade, pelo Marxismo e por toda uma Arte e uma literatura aparentemente “fora do eixo”, fora da fala centrada, monofônica; se distanciando de uma narrativa ingênua, aquela que acredita que “representa o real”, uma reprodução fiel.
Essa História, no século XX, passou por configurações. A primeira, “revolucionária” (talvez a mais inteligente e sensível), no entre guerras, foi o momento onde se rompeu com as tradições da História Política e a dos simples eventos; a segunda, depois da 2ª Guerra, quando esses historiadores já haviam “chegado ao poder”, foi dominado por uma História que, em parte, desvenda seu primeiro momento: torna-se uma História das “longas durações”, uma história gelatinosa é o seu produto; o terceiro, fragmentar e micro-histórico, completa o processo não apenas que distende a razão dos Annales, mas que a faz compreensível, principalmente com a volta de muitos “novos historiadores” a renovadas “histórias políticas” e socioculturais.
Mas os Annales não foram, inicialmente, contra a História, mas contra certa História que se tornara, apesar de secundária, aquilo que se chamava e se compreendia como a História. Não era sequer a História de Ranke, de Michelet ou de Burckhardt; não era Marxista ou a História de Fustel de Coulanges. Era aquilo que se transformou na História Oficial. Havia perdido o brilho até mesmo daquela História escrita no século XVIII.
Seu projeto se fez de de dentro da Sociologia de Durkheim, da Geografia de Vidal de La Blanche e Ratzel e de toda uma História que nas suas inflexões, fragmentos ou propostas apontava para uma atuação mais ampla, mais rigorosa, mais interdisciplinar.
Sua escritura dissolveu, ou baniu para instâncias secundárias, a “narrativa histórica”, mas essa escritura não foi jamais uma clivagem radical. Ela escolheu aquilo que já funcionava brilhantemente, apesar de marginal e esporádico, e abandonou o que já estava envelhecido e não mais funcionava para novas realidades que se impunham. Mas essa “outra História” não enfrentou a principal matéria da História que é o presente. Sua interdisciplinaridade característica, sua plasticidade e democracia dentro dos arsenais das “outras disciplinas” não dissolveram os limites.

Alberto Lins Caldas

BIBLIOGRAFIA

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· TÉTART, Philippe. PEQUENA HISTÓRIA DOS HISTORIADORES. EDUSC, Bauru, 2000.

Filosofia da História

Com relação ao historicismo positivista surgiu uma tendência crítica desenvolvida principalmente por filósofos. Essa tendência adotou duas orientações, a primeira derivada das posições de Arthur Schopenhauer e, sobretudo, de Friedrich Nietzsche; a segunda, de tradição kantiana, foi desenvolvida por Wilhelm Dilthey, Heinrich Rickert e Max Weber.
A primeira opunha-se à tradição positivista criticando a esterilidade do puro acúmulo de dados eruditos, que considerava fase preparatória para um estudo interpretativo e de significados: o que para Nietzsche era uma "história monumental" crítica e arqueológica. Segundo ele, a história proporciona exemplos: julga o passado e situa o presente no decorrer histórico. 
A história é, portanto, um diálogo entre o passado e o presente. Ficava implícita uma distinção evidente em categorias: a história menos interessante era a dos meros colecionadores de dados, e a superior era a dos que os interpretam e lhes fornecem conteúdo. Para Nietzsche, a reconstrução do passado não era um fim em si mesmo, mas possuía um propósito: enriquecer o espírito mediante a lição da história.
A tendência kantiana, por sua parte, buscou superar a dualidade que a posição anterior promovia, ao considerar a história uma integração daqueles dois processos: o da informação pura e o dos conteúdos. Para seus seguidores, é a razão que elabora o conhecimento histórico dos fatos nas sociedades humanas. Nessa tendência era fundamental o conceito de "valor"; chegou-se a afirmar que os acontecimentos que sobreviveram na consciência histórica são os que têm relação com os valores em que acreditaram seus protagonistas e em que acreditam os observadores posteriores. Rickert aludia aos valores estabelecidos: o estado, o direito, a religião etc., como esquemas básicos do processo histórico. 
Max Weber destacou o relativismo da história, afirmando que os homens resgatam do passado aquilo que de algum modo lhes interessa em seu presente. Ou seja, cada sociedade tem sua história, e esta se reescreve continuamente segundo as transformações e os questionamentos dessa sociedade. Desse modo, o interesse pelo passado reorienta-se sempre segundo as mudanças experimentadas no presente. O passado não fica, assim, fixado definitivamente.
Outras tendências de caráter filosófico tiveram seu correlato nos estudos históricos, como a fenomenologia, o estruturalismo de Claude Lévi-Strauss, a concepção ético-política da história de Benedetto Croce, a história cultural de Ernst Cassirer ou, na Espanha, a posição de José Ortega y Gasset em seu livro Historia como sistema (1941), em que concebe a história como uma cadeia de fatos consecutivos que respondem a uma "razão histórica".

Fonte : www.estudantedefilosofia.com.br






Historiografia - A propósito de uma experiência original

Certa vez, alguém nos ensinou: "Sem documentos não há História"

É uma antiga lição, sempre repetida, que logo se desdobra em outra não menos enfatizada: "a História é escrita com base em documentos escritos".
Colocadas lado a lado, ambas as lições induzem a duas conclusões gêmeas. A primeira é por demais conhecida: "a História começa com a escrita"; a última nem tanto, embora daquela seja apenas a outra face: "só possuem História os povos que conhecem a escrita"
Velhas lições há muito submetidas a uma crítica radical. Não obstante, elas insistem em permanecer, como que se oferecendo para serem postas em questão novamente por aqueles que agora são introduzidos na oficina do historiador; e assim não só sublinhassem a distância que ainda separa o aprendizado de uma disciplina nos níveis secundário e universitário, como também afirmassem que toda introdução carrega em si uma inquietação, que se traduz tanto na formulação de questões quanto na arguição do sentido do ato de questionar.
Por certo, aqueles que ora estão sendo iniciados na prática de historiar já aprenderam a refutar a distinção entre "povos civilizados" e "povos bárbaros ou selvagens" que aquelas lições difundem, tomando como base desigualdades e hierarquizações de fundo etnocêntrico e evolucionista. Mas muito provavelmente não estão atentos ainda para o fato de que elas tanto confundem as diferentes acepções de um mesmo significante - a experiência vivida; seu fiel relato; sua ficção mentirosa; e sua explicação erudita - quanto dificultam se não impedem, a compreensão de que mesmo aquelas sociedades sem historiografia possuem uma memória cultural que lhes permite fundar a hereditariedade dos saberes que constituíram, e assim também se dão a conhecer ao historiador.
Por que não aproveitar, então, esta inquietação como uma força favorável na aquisição de uma nova prática no transcurso de uma longa caminhada inevitavelmente sinalizada pelos conceitos e noções de Memória e História, Cultura e Sociedade, Tempo e Espaço, Narrativa e Autoria, Ficção e Verdade, e - entre todos - Documento e Historiografia?
Uma caminhada que se confunde, em larga medida, com a reconstituição das formas de elaboração do saber historiográfico, referindo-as necessariamente a duas práticas indissociáveis e permanentes. - a leitura e a escrita. Porque a prática do historiador consiste na leitura dos registros legados pelos homens em diferentes momentos, quer sob a forma dos mais variados documentos quer sob a forma de obras historiográficas, como condição para a elaboração escrita de um novo registro - de tal modo que, neste ponto, poderíamos já retornar ao primeiro parágrafo deste texto para afirmar que, sendo os homens os responsáveis pelas diferentes formas de registro, "sem homens não há História", em qualquer das acepções atribuídas ao significante.
Uma caminhada cujo ponto de chegada reside na intercessão da conclusão do curso de graduação em História e do ingresso no Programa de Pós-graduação, enfatizando assim o nexo que necessariamente deve existir entre os dois níveis de formação profissional, sem a descaracterização ou desqualificação de qualquer deles.
E ainda uma caminhada que tem corno momento fundamental o seu durante - o exercício sistemático de ler e escrever constituindo-se em condição para poder contar.
Contar por meio de um texto escrito a partir das leituras do que outros registraram; contar para que outros leiam. O texto historiográfico tornando-se o ponto de encontro de diferentes leitores, porque se o ato de ler é a possibilidade de saber o que se passa na cabeça do outro, lendo também melhor compreendemos o que se passa em nossa própria cabeça; o texto historiográfico tornando-se o ponto de encontro de diferentes escritores, porque o ato de escrever possibilita confrontar minha forma de contar com outras, e assim melhor compreender o ofício que pratico e o mundo no qual ele se situa e sobre ele inevitavelmente reage.
Desta forma, outra não deve ser a tarefa daqueles que são introduzidos na oficina do historiador: ler e escrever para poder contar. Outro não é o objetivo do projeto LER E ESCREVER PARA CONTAR. 
Se, efetivamente, nada do que aconteceu um dia pode ser considerado perdido para a história, o mesmo deve ser dito a propósito dos diferentes e variados registros legados pelos homens A oficina de Documentos encontrou aí o seu ponto de partida para refletir tanto a respeito dos diferentes e variados tipos de documentos de que o historiador pode lançar mão - textos escritos (documentos oficiais; poemas, romances e cordéis; biografias, diários e livros de memórias; letras de músicas); outros tipos de textos (como filmes, pinturas, relatos orais, lendas e mitos), outros ainda em principio julgados não tão relevantes (como o traçado das cidades, os tipos de habitação, os monumentos arquitetônicos, os fosseis, os vestígios arqueológicos e as paisagens), e também o nosso próprio mundo cotidiano, que "parece estar escrito num mosaico de línguas, como uma parede coberta de grafites, cheia de rabiscos sobrepostos, como um palimpsesto cujo pergaminho foi raspado e reescrito várias vezes, como uma colagem de Schwitter, uma combinação de alfabetos, citações heterogêneas, gírias e impressos de computador", conforme recorda ítalo Calvino - quanto a propósito dos diferentes procedimentos teóricos necessários à leitura de cada um dos tipos de documentos, permitindo a caracterização das relações entre História e as demais disciplinas. Ela tem procurado caracterizar também as vicissitudes da noção de documento, considerando o triunfo do documento escrito sobre o monumento desde o século XIX; a passagem da noção de documento para a de fontes e a ampliação de seu escopo propiciada pelos fundadores da Escola dos Annales; a revolução documental a partir dos anos 60, privilegiando o dado que leva à série e a uma história descontínua; e a transformação do documento em monumento, por meio da sua utilização pelo poder, num jogo permanente entre memória e amnésia por meio do qual as sociedades buscam impor ao futuro determinada imagem de si próprias. E, neste mesmo movimento, tanto discutir as diferentes noções de verdade, contrapondo não só urna verdade de fundo ético a outra de fundo jurídico, o registro voluntário ao involuntário, como ainda caracterizar os procedimentos de critica que, de um modo ou de outro, sempre aparecem associados ao ofício do historiador. Em resumo, um conjunto de reflexões e práticas que procuram não perder jamais a referência fundamental de que o trato com os documentos constitui sempre um diálogo entre dois sujeitos, a partir das questões formuladas por alguém localizado no presente -"colocar um problema é precisamente o começo e o fim de toda a História. Se não há problemas, não há História. Apenas narrações, compilações", sempre ensinava Lucien Febvre - e respondidas por homens situados num tempo diferente, respostas que, ao cabo, iluminam o contexto no qual os registros foram elaborados, a cultura à qual pertencia aquele que operou o registro.
A oficina de Historiografia, por sua vez, tem tido sempre menos a preocupação de identificar as diferentes "escolas históricas", detendo-se mais no exercício de identificação quer dos diferentes elementos que estruturam urna obra historiográfica quer dos diferentes diálogos e questões que a sustentam, nela sempre presentes embora não se ofereçam à primeira vista. No que se refere à primeira possibilidade, a identificação dos objetivos e questões formulados, de sua tradução sob a forma de hipóteses, das referências teóricos e dos procedimentos metodológicos, das fontes documentais e das referências bibliográficas, das formas de demonstração utilizadas - numa espécie de reconstituição, em sentido inverso, da trajetória de elaboração formal de um trabalho historiográfico. 
Quanto à última, a partir dos prefácios, dedicatórias, introduções, tábuas de conteúdos e, evidentemente, do próprio texto, a possibilidade de recuperar os diálogos travados pelo autor, de modo explícito ou não, com determinados elementos teóricos e metodológicos que balizam sua trajetória e produção, como as relações, em termos de semelhanças e diferenças, entre História e Mito; História e Memória; História e Ficção; História como modelo e História como experiência vivida; História e Discurso: narrativa, descrição e interpretação, lógica explicativa e lógica compreensiva, argumentação e demonstração; Texto e Escritura: narrador e autor.
Os textos que compõem esta publicação registram os resultados mais significativos de algumas das inúmeras oficinas até agora realizadas, nessa experiência emocionante e original. Animadas por um mesmo propósito e buscando realizar os objetivos centrais do projeto, as diversas oficinas expressam as diferentes compreensões e práticas que aqueles que as conduziram possuem a respeito do fazer historiográfico hoje.


Ilmar Rohloff de Mattos

Historicismo, construtivismo e epistemologia liberal

1. Historicismo e Construtivismo

Em Maio de 1822, num pequeno livro chamado «Plano dos Trabalhos Científicos Necessários para a Reorganização da Sociedade», Auguste Comte escrevia:
«Toda a ciência tem por fim a previdência. Porque a aplicação geral das leis estabelecidas segundo a observação dos fenómenos tem por fim prever a respectiva sucessão. Na realidade, todos os homens, por pouco instruídos que os julguemos, fazem verdadeiras previsões, fundadas sempre sobre o mesmo princípio, o conhecimento do futuro pelo passado.
(...) Está, portanto, evidentemente muito conforme com a natureza do espírito humano que a observação do passado possa facultar a predição do futuro, e que o possa fazer tanto em política como em astronomia, em física, em química e em fisiologia» (August Comte, Reorganizar a Sociedade, Guimarães Editores, 4ª Ed., Lisboa, 2002, p. 146).
Esta forma de abordar os fenómenos sociais, fazendo deles uma autêntica «física social» cujo grau de previsão de resultados e de precisão dogmática seria supostamente total, entronca numa visão positivista da ciência, característica do século XIX, e que deixou resquícios na centúria seguinte. Verdadeiramente, não se trata nem de uma abordagem, nem de um método científicos, porque, mais não é do que uma convicção nas supostamente ilimitadas capacidades do espírito e da razão humanas na descoberta da verdade, que teve repercussões ideológicas inevitáveis.
Como Karl Popper assinalou na «Sociedade Aberta e os seus Inimigos», esta tradição intelectual é muito antiga: podemos, talvez, situar as suas origens no platonismo da «República dos Sábios», aqueles que, para Platão, seriam os mais habilitados numa sociedade a exercer o poder, porque melhor o podiam compreender e intuir; desenvolveu-se, mais tarde, no pensamento utópico ocidental, onde tem firmes tradições com autores como Campanella ou Thomas More.
Com o advento do racionalismo no século XVII, sob a influência preponderante de René Descartes e de Francis Bacon, esta corrente ganhou foros pretensamente científicos, e promoveu a razão a oráculo da política e da vida social. A doutrina da «vericitas naturae», ou «doutrina da verdade evidente», como Popper a designou, é um produto genuinamente cartesiano. O autor da Sociedade Aberta definiu-a como a «visão optimista de que a verdade é sempre reconhecível quando colocada diante de nós: se ela não se revelar por si só, precisará apenas de ser desvelada ou descoberta» (Karl R. Popper, Conjecturas e Refutações, Editora Universidade de Brasília, 1982, p. 35).
No Discurso do Método, escreveu Descartes: «Sempre me mantive firme na resolução que havia tomado de não supor um outro princípio além do que me tenho vindo a servir para demonstrar a existência de Deus e da alma, e de não tomar uma coisa por verdadeira, sem que me parecesse mais nítida e mais segura do que me tinha parecido, até essa altura, as demonstrações dos geómetras e, contudo, ouso afirmar que não somente encontrei os meios de me dar satisfação em pouco tempo, no que respeita a todos os principais problemas de que se ocupa a filosofia, mas também pude descobrir certas leis que Deus de tal modo estabeleceu na natureza, e das quais imprimiu noções nas almas que, tendo refletido convenientemente sobre elas, não poderíamos duvidar que elas não sejam exatamente observadas em tudo o que existe ou que se realiza no mundo» (René Descartes, Discurso do Método, Guimarães Editores, 3ª edição, Lisboa, 1997, p. 43).
Da premissa da «vericitas naturae», que a passagem acima transcrita ilustra com clareza, se chegou com relativa facilidade ao historicismo como modelo a seguir nas ciências sociais. Ele consiste «no ponto de vista de que a evolução da humanidade segue um enredo e que se conseguirmos descobrir esse enredo teremos uma chave para o nosso futuro» (K. Popper, op. cit., p. 369). Parte importante da tradição política ocidental filia-se nesta visão das coisas, na ideia de que o futuro é previsível, assim como o será também o comportamento humano individual e agregado socialmente. Seja pela utilização dos mecanismos da razão por parte dos déspotas iluminados, seja pelo domínio das grandes correntes da História, como propôs Karl Marx, que «anteviu» o fim do capitalismo e o triunfo do socialismo. No século XIX, o positivismo de Comte e o socialismo científico de Marx foram teorias interpretativas da História que aplicaram os pretensos fundamentos científicos cartesianos nas suas análises e prospectivas.
No campo da política, o historicismo, pressupondo a superior capacidade da mente humana para perscrutar o futuro, concebe a possibilidade de o moldar à simples imposição da vontade humana. Levaria, por consequência, a algumas experiências de índole construtivista (o construtivismo político consiste na «innocent sounding formula that, since man has himself created the institutions of society and civilisation, he must also be able to alter them at will so as to satisfy his desires and wishes», F. A. Hayek, The Errors of Construtivism, in New Studies in Philosophy, Politics, Economics and the History of Ideas, Routledge, Londres, 1990, p. 3) e de cariz orientador, planificador e dirigista, tendo sempre sub iudice o objectivo de edificar sociedades ideais ou próximas de um máximo expoente de felicidade. Apesar das suas muitas variantes, o construtivismo assenta sempre no voluntarismo político e social, o mesmo é dizer que concebe a evolução da sociedade como um resultado do exercício da vontade humana.
Neste sentido, já Jean-Jacques Rousseau escrevia no século XVIII que «Aquele que ousa lançar-se na empresa de instituir um povo deve sentir-se em condições de poder mudar, por assim dizer, a natureza humana; de transformar cada indivíduo, que, por si mesmo, é um todo perfeito e solitário, em parte de um todo maior, do qual esse indivíduo receba de certo modo a sua vida e o seu ser; de alterar a constituição do homem para a reforçar; de substituir por uma existência parcial e moral a existência física e independente que todos recebemos da natureza» (J.-J. Rousseau, O Contrato Social, Livros de Bolso Europa-América, Lisboa, 1972, p. 44).
Na economia política, também o keynesianismo, foi uma forma de construtivismo historicista, ao propor o controlo e a planificação programática do funcionamento do mercado, bem como o planeamento económico a partir da determinação comportamental dos agentes económicos, tendo em vista o pleno emprego, a redistribuição equilibrada dos rendimentos e o crescimento económico e social. É, por isso, também, uma forma de construtivismo e de intervencionismo, na medida em que se baseia na convicção de que certos fenómenos sociais são previsíveis e, por consequência, humanamente controláveis.
O construtivismo político, filho dilecto do historicismo, advoga o intervencionismo social como forma de moldar o curso da história e a natureza da sociedade. Ele acredita seriamente que as sociedades humanas funcionam com base em leis inteligíveis pela razão, que se podem utilizar para adaptar o futuro às suas melhores conveniências. As doutrinas construtivistas querem transformar o homem e a sociedade por atos de vontade. Agregam, por isso, ideologias políticas tão diversas quanto a social-democracia e o socialismo democrático, o comunismo e o fascismo. Em todas elas se encontra o mesmo traço comum essencial: a intervenção do Estado, de uma entidade superior aos indivíduos e à própria sociedade, feita em nome dos valores sociais estruturantes, como a justiça social, a solidariedade, a igualdade de oportunidades. O primado do público sobre o privado, em suma; do coletivo sobre o individual. Elas supõem que quem governa dispõe de mecanismos de racionalidade e clarividência superiores aos dos indivíduos concretos, capazes de precaver e conceber os cenários possíveis do futuro, autorizando-se assim a impor a sua vontade à comunidade.


2. A Refutação do Historicismo e do Construtivismo pela Epistemologia Liberal



O «princípio da impotência», enunciado pelo físico e matemático inglês Sir Edmound Whittaker e invocado por Hayek e Popper nas suas apreciações epistemológicas, é o cerne da crítica liberal ao positivismo e cienticismo construtivista e historicista.
Segundo este prisma, o problema do intervencionismo é essencialmente de índole gnoseológica, na medida em que ele pressupõe a ausência de limites ao conhecimento humano, acompanhado pela evolução da ciência positiva que lhe facultaria os meios de ascese à verdade. A ingerência na sociedade por parte dos poderes públicos estaria assim fundamentada num conhecimento científico das «leis sociais»: as «leis da história» no marxismo, as «leis económicas» no intervencionismo e no keynesianismo, as «leis raciais» no nazismo, a «lei divina» nos regimes teocráticos.
Para Hayek, «nous n’agissons jamais, nous ne pourrions jamais agir, en pleine considération de tous les faits d’une situation donné» ( Friedrich A. von Hayek, Droit, Legislation et Liberté, vol. 1 – Règles et Ordre, 2ª Ed., Presses Universitaires de France, Paris, 1985, p. 35), pelo que o conhecimento humano, ao contrário do que pretendem os cartesianos, será naturalmente limitado, em parte devido à enorme complexidade dos objectos e dos fenómenos sociais sobre os quais ele incide, e, por outro lado, pela própria insuficiência do espírito humano, incapaz de abarcar e relacionar coerentemente toda a informação e demais dados inerentes à fenomenologia social. É, apesar de tudo, essa consciência dos limites do nosso conhecimento, que possibilita o progresso científico e social: «ce fut toujours la reconnaissance des limites du possible, qui a rendu l’ homme capable de faire pleinement usage de ses capacités», afirma Hayek (idem, p. 9); «o homem pode conhecer: logo pode ser livre» (Popper, Conjecturas… , p. 33), reforça Popper.
Segundo esta abordagem epistemológica, o caminho do conhecimento é feito de permanentes avanços e retrocessos, e encontra-se fundado na aprendizagem pelo erro (método hipotético-dedutivo), o que leva a que o seu progresso resulte «fundamentalmente, na modificação do conhecimento precedente» (Popper, idem, p. 56). Por isso, as teorias e as «leis» científicas deixaram, pelo menos desde Einstein, de ter um valor absoluto e inquestionável. A evolução científica resulta sempre da colocação de novas hipóteses em torno de problemas antigos. E as «leis» científicas não são axiomas descritivos de factos inquestionáveis, mas a constatação de certas impossibilidades e limites, ou seja, de que determinados factos não se podem, pelo menos naquele momento, produzir. Nessa medida, mais do que «leis», as conclusões da ciência são probabilidades (Acerca do conceito popperiano de propensão científica e a sua demarcação do de possibilidade, cfr. Karl R. Popper, Um Mundo de Propensões, Editorial Fragmentos, 1991): indicam hipóteses de trabalho com elevado grau de coerência explicativa dos fenómenos observados, mediante os dados disponíveis no momento em que são enunciadas, que devem permanentemente ser postas à prova por outros factos e teorias: «o critério que define o status científico de uma teoria é a sua capacidade de ser refutada ou testada», afirma Popper (idem, p. 66). E é nesta asserção que se encerra o essencial do seu pensamento sobre o conhecimento científico. De acordo com esta perspectiva, «o objetivo da ciência é encontrar explicações satisfatórias do que quer que se nos apresente e nos impressione como estando a precisar de explicação. Por explicação (ou por explicação causal) entenda-se um conjunto de proposições das quais uma descreve o estado de coisas a explicar, enquanto as outras, as proposições explicativas, constituem a “explicação” stricto senso (o explicans do explicandum)» (Karl R. Popper, O Realismo e o Objectivo da Ciência, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1987, p. 152).
Neste novo paradigma científico, Popper lança um desafio e sugere uma conclusão: «Acredito que valeria a pena tentar aprender algo sobre o mundo, mesmo que, ao fazê-lo, descobríssemos apenas que não sabemos muita coisa. (...) Vale a pena lembrar que, embora haja uma vasta diferença entre nós no que respeita aos fragmentos que conhecemos, somos todos iguais no infinito da nossa ignorância» (Conjecturas…, p. 56).
A aquisição do conhecimento será, portanto, obtida por sucessão e verificação: baseia-se, em parte na tradição («A fonte mais importante do nosso conhecimento – além do conhecimento inato – é a tradição. A maior parte do que sabemos e aprendemos pelo exemplo, por ouvir contar, lendo livros, aprendendo a criticar, a receber e a aceitar a crítica, a respeitar a verdade», Popper, Conjecturas…, p. 56), na experiência e na verificação permanente das asserções que temos como mais prováveis para a melhor explicação dos fenómenos observados. Aprender com o erro permite evitar a sua repetição e confere maior segurança às nossas escolhas. Este conhecimento, adquirido pela experiência e pela verificação prática das variáveis hipotéticas, origina, uma vez apuradas, regras de conduta social, às quais Hayek designou por «regras de justa conduta». Essas regras produzem padrões comportamentais ajustáveis, inatos à vida em sociedade, que nos dão as respostas mais adequadas às nossas necessidades individuais e coletivas.
Em suma, a epistemologia liberal de Popper e de Hayek assenta numa perspectiva evolucionista do conhecimento, que se baseia na tradição e na aprendizagem através do erro, e que exclui dogmas científicos e determinismos sociológicos. Para ela, a ciência é um campo aberto a novas e a todas as hipóteses, só assim podendo avançar e progredir.
O construtivismo está, portanto, nos antípodas da epistemologia liberal. Por isso e ao contrário desta última, aquela doutrina pretende obter resultados no campo das Ciências Sociais e Humanas, que considera conclusivos, certos e precisos, e a partir dos quais analisa social e comportamentalmente os indivíduos. Segundo o liberalismo de Hayek e Popper, o pensamento construtivista é a-científico, porque se coloca à margem da premissa mais importante da ciência: a sua confrontação e verificação permanente com outras hipóteses que a possam refutar e invalidar. Os dogmas políticos do construtivismo assentam, segundo esta perspectiva, em falsidades científicas. Não podem, por isso, obter bons resultados quando aplicados à prática.


Por Rui Albuquerque



Materialismo Histórico Dialético

O materialismo designa um conjunto de doutrinas filosóficas que, ao rejeitar a existência de um princípio espiritual liga toda a realidade à matéria e a suas modificações.
O materialismo histórico é uma tese do marxismo, segundo a qual o modo de produção da vida material condiciona o conjunto da vida social, política e espiritual. É um método de compreensão e análise da história, das lutas e das evoluções econômicas e políticas.
O materialismo histórico é uma abordagem metodológica ao estudo da sociedade, da economia e da história.
A análise materialista histórica parte da questão de que a produção, e a troca dos produtos, é pilar de toda a ordem social; existente em todas as sociedades que desfilam pela história. Sendo assim, a repartição destes produtos, aliada com ela à divisão dos homens em classes ou camadas, é determinada pelo o que e como a sociedade produz e pelo modo de trocar as suas mercadorias.
Sobre a dialética temos que os elementos do esquema básico do método dialético são a tese, a antítese e a síntese.
A tese é uma afirmação ou situação inicialmente dada. A antítese é uma oposição à tese. Do conflito entre tese e antítese surge a síntese, que é uma situação nova que carrega dentro de si elementos resultantes desse embate. A síntese, então, torna-se uma nova tese, que contrasta com uma nova antítese gerando uma nova síntese, em um processo em cadeia infinito.
“As relações sociais são inteiramente interligadas às forças produtivas. Adquirindo novas forças produtivas, os homens modificam o seu modo de produção, a maneira de ganhar a vida, modificam todas as relações sociais. O moinho a braço vos dará a sociedade com o suserano; o moinho a vapor, a sociedade com o capitalismo industrial”.
O Materialismo Histórico Dialético surgiu a partir da publicação do Manifesto Comunista de 1848 , por Karl Marx e Friedrich Engels (porém, Marx já apresentara seus traços em 1847, em sua obra “A Miséria da Filosofia”).
Essa tese foi formulada e utilizada também em outros livros de Marx (O 18 do brumário de Luís Bonaparte e O capital) e de Friedrich Engels (Socialismo utópico e socialismo científico), e por Rosa Luxemburgo e Lênin.

MATERIALISMO HISTÓRICO


Na teoria marxista, o materialismo histórico pretende a explicação da história das sociedades humanas, em todas as épocas, através dos fatos materiais, essencialmente econômicos e técnicos. A sociedade é comparada a um edifício no qual as fundações, a infraestrutura, seriam representadas pelas forças econômicas, enquanto o edifício em si, a superestrutura, representaria as ideias, costumes, instituições (políticas, religiosas, jurídicas, etc.). A propósito, Marx escreveu, na obra A Miséria da filosofia (1847) na qual estabelece polêmica com Proudhon:
As relações sociais são inteiramente interligadas às forças produtivas. Adquirindo novas forças produtivas, os homens modificam o seu modo de produção, a maneira de ganhar a vida, modificam todas as relações sociais. O moinho a braço vos dará a sociedade com o suserano; o moinho a vapor, a sociedade com o capitalismo industrial.
Tal afirmação, defendendo rigoroso determinismo econômico em todas as sociedades humanas, foi estabelecida por Marx e Engels dentro do permanente clima de polêmica que mantiveram com seus opositores, e atenuada com a afirmativa de que existe constante interação e interdependência entre os dois níveis que compõe a estrutura social: da mesma maneira pela qual a infraestrutura atua sobre a superestrutura, sobre os reflexos desta, embora, em última instância, sejam os fatores econômicos as condições finalmente determinantes.
Karl Marx desenvolveu a teoria socialista partindo da análise crítica e científica do capitalismo. Ele não se preocupava em pensar como seria uma sociedade ideal, mas sim, preocupava-se em compreender a dinâmica do capitalismo, e para tal, estudou a fundo suas origens, a acumulação de capital, a consolidação da produção, e suas contradições (que inevitavelmente, esse sistema seria destruído por si só - em sua dinâmica evolutiva geraria elementos que acabaria por destruí-lo).
Os princípios básicos que fundamentaram o socialismo marxista podem ser sintetizados em três teorias centrais: a teoria da mais-valia, onde se demonstrava a maneira pelo qual o trabalhador é explorado na produção capitalista; a teoria da luta das classes, onde se afirma que a história da sociedade humana é a história da luta das classes ou do conflito permanente entre exploradores e explorados; e, finalmente, a teoria do materialismo histórico.
Marx dedicou-se a um estudo intensivo da história, e criou uma teoria que veio a ser conhecida como a concepção materialista da história, que foi exposta num trabalho em que esboça a história dos vários modos de produção, prevendo o colapso do modo de produção vigente - o capitalismo. O materialismo histórico é uma teoria sobre toda e qualquer forma produtiva criada pelo homem de acordo com seu ambiente ao longo do tempo, onde se evidencia que os acontecimentos históricos são determinados pelas condições materiais (econômicas) da sociedade. Dentre as ideias do materialismo histórico, relevam-se as questões das forças produtivas e relações de produção.
Marx afirmou que a estrutura de uma sociedade depende da forma como os homens organizam a produção social de bens. A produção social, segundo ele, engloba dois fatores básicos: as forças produtivas e as relações de produção. As forças produtivas constituem as condições materiais de toda a produção. Representam as matérias primas, os instrumentos, as técnicas de trabalho e até os próprios homens. Reconhece-se o grau de desenvolvimento das forças produtivas de uma nação a partir do aperfeiçoamento da divisão do trabalho. As relações de produção são a forma pelas quais os homens se organizam para executar a atividade produtiva. Elas se referem às diversas maneiras pelas quais são apropriados e distribuídos os elementos envolvidos no processo de trabalho. Assim, as relações de produção podem ser cooperativistas (como um mutirão), escravistas (como na antiguidade), servis (como na Europa feudal) e capitalistas (como na indústria moderna).
Forças produtivas e relações de produção são condições naturais e históricas de toda a atividade produtiva que ocorre em sociedade. A forma pela qual ambas existem e são reproduzidas numa determinada sociedade constitui o que Marx determinou de modo de produção. Para ele, o estudo deste é muito importante para a compreensão de como se organiza a sociedade.


Os Paradigmas da História - Positivismo, Marxismo e Nova História

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