quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Historiografia: Sobre os Annales

A revista dos Annales foi fundada em 1929 tendo como principais mentores Marc Bloch e Lucian Febvre. Sua nova abordagem para o estudo da História trouxe consequências e influências até os dias de hoje.
A revista se consagrou conjuntamente com a obra de seus principais fundadores. O movimento dos Annales, normalmente chamado de Escola dos Annales, não possui exatamente, os elementos que constituem uma escola, rigidamente organizada fechada estritamente em torno de uma convicção ou paradigma.
Para o entendimento da formação e da configuração do que consideramos como os Annales, torna-se mais acertado entendê-lo como um movimento, que não se restringe somente às publicações contidas nos “Annales d’histoire économique et sociale”.
Entre as obras de maior destaque daqueles que compuseram o movimento dos Annales encontram-se os “Reis Taumaturgos” de Marc Bloch, publicado em 1924, ou seja, antes da fundação da revista, e o “O Mediterrâneo” de Fernand Braudel.
Encontramos neste movimento, uma certa unidade em sua composição, mas não uma homogeneidade. Jacques Revel o define como um conjunto de estratégias, uma nova sensibilidade, uma atividade que de fato mostra-se pouco preocupada com definições teóricas.
A revista dos Annales passou por diversas reformulações desde que foi fundada. Em sua primeira concepção, os trabalhos de seus principais pensadores Marc Bloch e Lucian Febvre, fizeram-na conhecida e reconhecida mundialmente. Com a proposta de renovar-se e manter-se sempre atual, notamos nos anos 60 uma grande repercussão da revista e forte influência de Fernand Braudel. Na terceira “fase” dos Annales , ou na chamada Nova História destacam-se historiadores como LeGoff, Duby.
A revista nasce como uma publicação reivindicadora e renovadora, assumindo posições altamente críticas em relação ao tipo de historia que costumava ser realizada principalmente na Academia. Apesar de também se dirigir ao público leigo, foi no ambiente acadêmico que os Annales travaram seus principais debates.

Georges Duby


As propostas encontravam-se em dois eixos centrais, a da reivindicação de uma história experimental científica e a da convicção de uma unidade em construção entre a história e as ciências sociais. Uma das características iniciais dos Annales está na reflexão dos historiadores tanto em relação a sua área de estudos, como sobre suas formas de trabalho. Preocupa-se em tirar a história de seu isolamento disciplinar, de forma que as formas de pensar em História, estejam abertas as problemáticas e a metodologias existentes em outras ciências sociais, no que costumamos denominar de interdisciplinaridade.

História e as Ciências Sociais no início do século XX


Em 1903, um sociólogo chamado François publicou na revista “Revue de synthèse historique” um importante artigo, que discutia a metodologia usada tradicionalmente em história. Simiand no início do século já trazia em seu texto, idéias que de vinte anos mais tarde, seriam reelaboradas e discutidas e modernizadas pelo Movimento dos Annales.
Simiand era um sociólogo durkheimiano, que criticava a metodologia histórica hoje conceituada como positivista em que se acreditava que o essencial na História seria estabelecer os fatos. A sociologia no início do século constituía-se como uma nova ciência social. Esta possuía um dinamismo e uma articulação com o social, que não se possuía em História.
No início do século XX, nota-se na França um constante debate entre historiadores e sociólogos, que trouxeram aproximações e ferrenhas distinções entre as duas disciplinas. O texto de Simiand encontra-se situado entre estas constantes discussões e debates. O autor acreditava que seria possível uma unidade metodológica para todas as ciências sociais, incluindo a História. No entanto, a interdisciplinaridade que defendia, era concebida a partir da existência de um modelo unificado que serviria para todas as áreas do conhecimento humano.
Com as ciências sociais no início do século XX, o homem deixou de ser considerado pelo pensamento como sujeito e tornou-se objeto. Na perspectiva de Simiand, a constituição de uma verdadeira ciência social passaria por exigências conceituais como da escolha de hipótese para a realização de uma pesquisa.
O que será retomado em 1930 pelos Annales, quando conceituam a perspectiva da história-problema. O sociólogo durkheiniano criticava a dimensão temporal cronológica da História. A temporariedade daria-se entre as variações e recorrências. Seguindo as explicações de Jacques Ravel, a classificação segundo Simiand, seria construída sobre fatos sociais, desembocando, portanto numa identificação de sistemas.
A Historia, na perspectiva sociológica, seria uma abordagem entre outras do fenômeno social, além de dar conta dos fenômenos do passado. Possuía uma posição importante entre as ciências sociais, mas não central.
Nos Annales, apesar da influência de Simiand e das ciências sociais, a interdisciplinaridade, e a integração da História entre as ciências sociais, não seguem exatamente o modelo Durkheimiano.
Diferente do que propunham os sociólogos, a partir dos anos 30 e por mais de uma geração, o que ocorre é que a História será o centro das atenções entre as ciências sociais, ou as ciências do Homem, como costuma-se denominar na França. A partir dos Annales, a História deixa de ser uma disciplina preocupada com os meandros políticos, para assumir a questão do social. Procurar entender a sociedade, as formas de sociabilidade, nos diversos tempos vividos pelo homem, que caracteriza-se por ser um ser social.
A História, como uma disciplina a ser ensinada nos colégios e na universidade, percebida como uma carreira intelectual, encontrava muito mais apoio e prestígio durante o período das duas Grandes Guerras Mundiais, do que as outras ciências sociais como a sociologia, e a antropologia. Pode-se dizer, que houve um certo imperialismo dos Historiadores na França, calcados principalmente nas figuras de Bloch, Febvre e posteriormente Braudel. O que inicialmente era uma revista marginal, tornou-se uma publicação de grande prestígio na França.

Os Annales e o Marxismo


Durante o século XIX, encontramos entre os intelectuais e cientistas sociais, duas principais tendências de análise; a cientificista, que no campo da história podemos denominar de positivista e a marxista. A história de tendência positivista pode ser considerada como possuidora de uma visão muito conservadora da sociedade, tendendo a reproduzi-la e mantê-la sem uma vontade modificadora. Já a história de tendência marxista, alinha-se principalmente com os movimentos políticos e culturais que se concentraram entre o final do século XIX até meados do século XX, tendo até os dias de hoje uma grande repercussão e prática.
Principalmente a partir dos anos 10, teremos uma influência muito grande de Marx e do marxismo nos diversos tipos de interpretações sociais da vida humana. Entre as obras de Marx, destaca-se “O Capital” e sua obra de maior cunho histórico “O 18 Brumário”. Atualmente, Eric J. Hobsbawn pode ser considerado como um dos historiadores marxista de maior prestígio historiográfico com livros importantes como “A Era do Capital”, “A Era das Revoluções” entre outros.
Com Marx discute-se o destino do sujeito, transformando-o em um objeto de um novo saber. Sua analise desloca-se para um conceito de que as condições materiais da vida são dadas. Tem-se o chamado materialismo histórico em que as análises sociais são permeadas principalmente pelas análises econômicas. As condições de vida material são a estrutura dentro da qual a consciência circula e pela qual é condicionada. Não compreende-se o irracional como ausência de ordem, mas como ordem sem consciência. Deseja-se reencontrar a consciência e restituir o homem a sua posição de sujeito.
Segundo José Carlos Reis, Marx vê uma sociedade estruturada e dentro desta estrutura o trabalho negativo. Essa negatividade pode ser tanto subjetiva quanto objetiva. É a práxis da classe revolucionária e é o desenvolvimento das forças produtivas, que se dá pela lógica mesma da estrutura e independente da luta de classes.
O século XIX, no qual Marx viveu e escreveu sua obra, é marcado pelo Iluminismo. As grandes bases para o entendimento do mundo estariam na razão, embebecida da idéia de progresso. No século XX temos o esfacelamento desses conceitos.
Entre os séculos XIX e XX encontramos a existência de diversos tipos de manifestação das idéias marxistas. Destaca-se por um lado, o marxismo iluminista, que crê na utopia comunista, beirando o idealismo hegeliano. Esse marxismo age no sentido da História – Razão, que crê na consciência do sujeito e na consciência revolucionária, que faz a revolução em nome da razão.
Encontramos também, um marxismo não utópico, tendo sido o pioneiro na elaboração de uma concepção estrutural da história e que entrará em certos atritos ou discordâncias com as tendências de análise histórica dos Annales.
A história realizada pelos marxistas é uma história estrutural e econômico- social essencialmente política. Para eles, o evento é ruptura, transformação profunda, desintegração e transição estrutural, mudança que renova a estrutura, que a fortalece, que explora as suas potencialidades e a torna mais duradoura.
Os Annales não possuem uma percepção progressista continuista da história, recusando as ideias de progresso e em grande parte de revolução. Muitas vezes, os marxistas criticam os historiadores ligados aos Annales por seu conservadorismo, uma vez que não existe entre eles uma teoria de mudança social e da luta de classes.
Por não pensarem em mudança, luta e revolução, os Annales são considerados pelos marxistas como reacionários, como correspondentes de uma história que interessaria ao capital e a dominação. Por fim, em função de uma diferença teórico metodológica, encontramos um conflito entre os Annales e os Marxistas mais ortodoxos, que acabam se transformando em disputas por “paixão ideológica”.
Para os Annales, diferente da interpretação marxista, a economia não desempenha um papel determinante no conjunto dos funcionamentos sociais. Sendo estas as principais críticas de Bloch e de Febvre à percepção marxista. Os Annales defendem que a tarefa das ciências humanas é explicar o social complexificando-o e não simplificando através de abstrações.

Marc Bloch, Os Reis Taumaturgos e os Annales


Marc Bloch, nasceu em 1886 na França, sendo considerado um dos fundadores da Revista dos Annales, morreu em 1944 fuzilado pelos nazistas, tendo participado ativamente da Primeira Guerra Mundial entre 1914 e 1918. Somente com a análise de sua trajetória individual e seu engajamento político, já somos capazes de nos contrapor às críticas marxista que acusavam que seguiam as linhas de analise propostas pelos Annales de empatia política e de conservadorismo da parte dos intelectuais.
Marc Bloch pode ser considerado como um dos primeiros historiadores do movimento dos Annales, não tendo ficado de forma alguma atrelado apenas a Revista dos Annales. Um de seus livros mais importantes “Os Reis Taumaturgos” foi escrito em 1924 e trará em grande parte as propostas que serão defendidas pelo movimento principalmente a partir dos anos trinta.
A proposta do livro, apesar de ter sido elogiado e bem recebido pela comunidade acadêmica trouxe estranheza para a maioria dos intelectuais que o leram. Considerado por muitos como o fundador da antropologia histórica, Bloch fez história com o que antes era entendido como anedota ou supertição, ou seja, o poder miraculoso de curo dos Reis da França e da Inglaterra.
Além da experiência que teve com a primeira guerra mundial, o ambiente da Universidade de Estransburg pode ser considerado como um dos maiores influenciadores para a constituição de suas problemáticas e de sua carreira intelectual. Como a cidade havia sido retomada pelos franceses, assistimos a uma tentativa de desligamento da Universidade com sua tradição Alemã, sendo assim, foram chamados para lá, alguns dos jovens intelectuais dos mais brilhantes da França.
Bloch vivia, portanto em um ambiente de grande efervescência, tendo sido muito influenciado pelas conversas com os colegas e amigos Blondel e Halbward, ambos antigos alunos de Durkheim. Seu contato com as ciências sociais era muito grande, dessa forma tornava-se possível começar a perceber o estudo da História de uma maneira diferente, incrementar novos conceitos e paradigmas nas pesquisas.
Uma nova crítica ao modo positivista de fazer história acabou por ser gerado, e os questionamentos teóricos sobre história puderam ganhar novos fôlegos metodológicos.
“Os reis Taumaturgos”, nas palavras de Jacques Lê Goff cresceram em um humo interdisciplinar, que podem ser inseridos no mais atualizado pensamento histórico e antropológico dos anos 20. Pode-se notar em Bloch, uma influência Durkheimiana, principalmente em função de como o autor tratava seu objeto.
Na conceituação de Durkheim, o sagrado é definido como uma representação da sociedade. Tanto um como o outro autor, foram amplamente influenciados por Fustel de Coulanges . Henri Sée amigo e colega de Bloch, considerava de que o método sociológico tal como definiu Durkheim era em grande parte um método histórico.
O autor do “Os reis Taumaturgos” tinha a seguinte opinião sobre Durhkeim: “Ele ensinou-nos a analisar com maior profundidade, a considerar os problemas mais de perto, a pensar, eu ousaria dizer, menos barato. Marc Bloch, aprendeu a não pensar barato, mas também não seguiu a metodologia sociológica durhkeimiana.
Assim como com a sociologia, seu contato com a historiografia Alemã foi muito importante, principalmente em relação à com a temática desenvolvida, como a questão da história da autoridade monárquica, das insígnias e do etnolegalismo.
O trabalho de Bloch é reconhecido principalmente pela sua uma extrema erudição, e entre as várias leituras do autor, podemos apontar o seu conhecimento do trabalho de dois antropólogos James Frazer e Lucien Levy- Bruhl. Ambos foram muito importantes para os estudos em antropologia e apesar de terem sido criticados e ultrapassados metodologicamente, são lidos até hoje.
O autor, a partir de seus estudos, abriu a possibilidade da pesquisa história se ampliar largamente em diálogos com outras áreas. Os Reis taumaturgos dialogam com ciências nascentes de sua época como a psicologia coletiva, biologia, além da etnografia comparada, a medicina popular comparada e o folclore.
“Os Reis taumaturgos”, em sua estrutura de pesquisa , já apontava para duas das grandes propostas de inovação dos Annales. A primeira seria explicar o milagre na sua duração e em sua evolução, e em segundo, a busca de uma explicação total, de uma história total.
A proposta de que o que criou a fé no milagre, foi à ideia de que ali devia haver um milagre, tornou-se uma das bases da história das mentalidades e da psicologia histórica.
Considerado como um mergulho da história profunda, o milagre régio podia ser considerado como uma gigantesca notícia falsa. Partindo-se da premissa de que era preciso “compreender o passado pelo presente”, a experiência de Bloch com os soldados de 1914 a 1918 e as propagações das notícias falsas, serviram como um estopim para sua análise das formas de pensar das pessoas durante a Idade Média em relação ao milagre régio.
Bloch, portanto influência e é influenciado. Suas obras e novas proposições não nascem de “geração espontânea” e o diálogo entre História e as Ciências Sociais, a partir dos estudos e das interpretações destes homens, é um fato a ser entendido no contexto de estudo e erudição a que se propunham. Seria impossível realizar-se uma obra original sem o estudo daquilo que se tinha realizado anteriormente.
A partir dos Reis Taumaturgos e da força que os Annales tomarão em suas interpretações, teremos novas questões a serem levantadas. O diálogo com as ciências sociais nos anos 30 estava só começando.
Atualmente a antropologia histórica tem se tornado uma área com vastos pesquisadores se debruçando em diversos temas e restabelecendo diálogos e inovando metodologicamente.


Conflitos, Diálogos e Influências: História e os Annales e Levi Strauss


Ao contrário do que pretendia Durkheim, o campo das ciências sociais foi dominada na França principalmente a partir dos anos 30, em torno do estudo da História e não de uma metodologia em comum para todas as áreas do conhecimento. Os Annales surgem desses diálogos interdisciplinares, mas tornam-se mais celebres e ganham mais destaque intelectual, do que as outras ciências humanas.
Uma das explicações para a “tomada de cena” pela História neste período, encontra-se no nacionalismo advindo da Segunda Guerra Mundial e da importância que passa a ser dada ao resgates da memória, muito associadas ao estudo da história. As ciências sociais, apesar de sua importância encontram-se um pouco apagadas do contexto intelectual universitário, fato que começará a ser mudado com a publicação de Tristes Trópicos de Claude Levi Strauss em 1955.Foi principalmente a partir da publicação de Antropologia Estrutural, em 1958 que Levi Strauss passou a ter um forte impacto na academia, ultrapassando os muros das universidades francesas. A partir dos anos 60 passam a serem lidos e valorizados os primeiros livros do autor como o Nambikware de 1948 e as Estruturas Elementares do parentesco publicado em 1949.
O estruturalismo, como será conhecido esse movimento em torno das obras de Levi Strauss, tomará nos anos 60, um cunho muito radical expresso em um forte antihistoricismo. Atribui-se essa posição muito em função da necessidade da Antropologia, principalmente a etnologia “levistroniana”, de se afirmar perante as outras ciências, principalmente a história.
Vivia-se nesse período uma decepção muito grande com a história contemporânea e os rumos que o mundo havia tomado após a Segunda Guerra. Temos movimentos estudantis, como o “Proibido proibir” conflitos de rua, a realidade da Guerra Fria, e nos países da América latina, os golpes de Estado e as ditaduras militares. Em muitas partes do mundo, o clima era de insatisfação e de contestação.
Os acontecimentos cotidianos estavam desencadeando uma certa abdicação, degradação dos antigos preceitos aliados à História.
Entre os Annales, o historiador que mais dialogou com esse movimento estruturalista liderado por Levi Strauss, foi Fernand Braudel. É bastante conhecida a influência e repercussão de um artigo de Braudel publicado em 1958 sobre a “longa duração”, que foi publicado no mesmo ano de Antropologia Estrutural de Levi Strauss.
Ambos os escritores tiveram passagem pelo Brasil, tendo dado aulas e palestras na Universidade de São Paulo. Tristes Trópicos foi escrito por Strauss a partir das experiências que este teve quando vivia no Brasil, contendo diversos trabalhos de campo que foram realizados com índios que se encontram em territórios brasileiros.A metodologia estruturalista permitia poucos espaços para o tipo de pensamento histórico ocidental e quando este tentava ser aplicado, não produzia sentido ou efeito para a análise desenvolvida. O que se nota atualmente principalmente com trabalhos como os de Marshal Sahlins[2], é que todos os povos possuem suas formas de representação sobre o seu passado, mas que não necessariamente estas representações são históricas no molde ocidental de conceber história. A maneira de conceituar história para a civilização Ocidental não é a mesma que para outros povos e formas de pensamento.
O que Braudel procurava assim como os Annales, era uma história sem fronteiras. Apesar da recusa estruturalista da história por parte de alguns antropólogos , foram montadas relações entre as ciências sociais e a história, que tornaram-se profundas e proveitosas para todas as áreas, ampliando assim, as possibilidades de interpretação nos estudos das humanidades.
Os estudos de História Social e de Antropologia Social têm-se tornado cada vez mais interdisciplinares e entre os historiadores que tem-se debruçado sobre a perspectiva de uma antropologia histórica destacam-se Robert Darton, com seus estudos sobre leitura, sobre mentalidade. Entre os livros publicados pelo autor, destaca-se uma coletânea de ensaios, cujo título “O Grande Massacre de Gatos e outros episódios da história cultural francesa”, já chama a atenção para um dos ensaios “Os trabalhadores se revoltam: O Grande massacre de gatos na Rua saint- Severin”, que pode ser considerado como uma das melhores experiêcias de debruçamento e interdiciplinaridade entre a história social e a antropologia social.
Na busca de entender a graça, por traz de um massacre de gatos, ocorrido na França às voltas da Revolução francesa, o autor trabalha o relato de um operário da época, com a maestria de interpretar o documento e compreender todo um código social, contido naquelas palavras. Um jogo que configura-se em ir ao documento, ir ao contexto e voltar ao documento para então compreender o outro, a piada que não se entende.
Merlau Ponty em seu texto intitulado “De mauss a Claude Lévi Strauss” discute muito bem os caminhos que levaram Strass ao estruturalismo, e como compreende-lo metodologicamente.
A preocupação de Strauss assim como o da sociologia era a de conseguir realizar o acesso ao outro, processo que também se realiza nas investigações históricas.
Nem Durkheim, nem Levy Bruhl, que chegaram a influenciar as interpretações de Bloch para escrever Os Reis taumaturgos, conseguiram atingir com suas análise o melhor acesso a interpretações para o “outro”, como será feito por Levi Strauss. No entanto, a contribuição de cada um desses autores foi muito importante, para as mudanças e ampliações nesta busca pelo entendimento e interpretação do Homem, a tomada do homem como objeto.

Claude Levi-Strauss


O social, como o próprio homem, pode ser entendido em dois pólos ou faces, como significante, em que pode-se compreender o homem por dentro e na intenção pessoal, que encontra-se mediatizada pelas coisas. Mauss,em seu “Ensaio sobre o Dom, forma arcaica da troca” teria , segundo Merlau Ponty, antecipado uma sociologia mais elástica, uma antropologia social.
Durkheim se propunha a tratar os fatos sociais como coisas e não mais como um sistema de idéias objetivas, mas só conseguiu representar social através do psíquico. Ampliava as representações para formas coletivas ou individuais e não sociais.
O autor, com a sua conceituação de morfologia social procurava uma gênese ideal das sociedades, mas assim o simples , a sociedade simples acabava sendo confundida com o essencial e com o antigo. Para Durkheim as sociedades primitivas são sistemas mais simples.
Levy- Bruhl, a respeito de uma mentalidade pré-lógica, não dava uma abertura para o que havia de imutável nas culturas ditas arcaicas, as congelava em uma diferença intransponível.
Faltava, portanto, entre esses dois autores, a penetração paciente no objeto e a comunicação com ele.
O início dessa comunicação será dado por Marcel Mauss, que não chegou a polemizar com a escola francesa, mas se diferiu dos outros autores na sua maneira de entrar em contato com o social. Mauss chama de resíduo que se encontra entre as variações e correlações, a partir disso, seria possível encontrar as razões profundas da crença.
Encontramos nestes autores preocupações que já estavam presentes em Marc Bloch em seu estudo sobre o poder de cura dos reis. A sua procura por um entendimento de um rito Ocidental, que existiu historicamente; traz necessariamente alguns diálogos, com o trabalho desses antropólogos que procuram conceituar e compreender os ritos em outras culturas.
Para Mauss era preciso penetrar no fenômeno, lê-lo. O fato social já não era uma regularidade compacta, mas um sistema eficaz de símbolos, uma rede de valores simbólicos em se insere no individual mais profundo. Assim, não havia mais o simples absoluto, nem a pura soma, mas em toda parte, totalidades ou conjuntos articulados mais ou menos ricos.
Mauss no entanto, ficou na troca indígena, não chegou a um modelo. Seguindo suas pistas Levi Strass foi mais longe. O autor denominará de estrutura a maneira como a troca está organizada em um setor da sociedade ou na sociedade inteira. Os fatos sociais não são mais coisas nem idéias, mas estruturas.
A estrutura organiza os elementos que nele entram de acordo com o princípio interior, a questão do sentido. Ela é praticada como óbvia, e é por isso que se pode dizer, que a estrutura tem a sociedade e as pessoas, mais do que a sociedade e as pessoas a tem, ou seja, tem a estrutura. Comparando com a maneira de se pensar a linguística, em que Strauss deve muito a Saussere, o sujeito que falante de uma língua, o português por exemplo, não precisa para falar, para se comunicar com as pessoas, que passar pela análise linguística da língua, que conhecer sua estrutura gramatical, sua composição estrutural.
A etnologia, portanto passa a ser uma especialidade definida não por um objeto particular, as sociedades primitivas, mas torna-se uma maneira de pensar, que se impõe quando o objeto é o “outro” e que exige a própria transformação daquele que a observa.
A tarefa do etnólogo torna-se a de alargar a sua razão (a razão ocidental) para torna-la capaz de compreender aquilo que nele e nos outros precede e excede a razão.
A grande crítica da ciências sociais e em particular do estruturalismo antropológico de Lévi Strass em relação à história, vai contra o tipo de história positivista, que encontra-se em busca da verdade e da neutralidade e não diretamente aos novos movimentos de análise historiográfica. No entanto, a história feita pelos Annales não é levada em conta pelos antropólogos.
A história criticada pelos estruturalistas, já não servia nem mesmo para o próprio historiador. Em geral, as sociedades estudadas pelos antropólogos não possuíam os documentos históricos normalmente considerados como tal, pelos historiadores positivistas. No entanto, com os Annales, discutia-se uma abertura maior para a análise de outros tipos de fontes, como as iconográficas.
Já não se esperava do historiador uma neutralidade em seus estudos e em seus trabalhos não se acreditava mais que os documentos falassem por si. Sabe-se que a História é filha de seu tempo, e o que se propõem é o método regressivo, em que o retorno, ao contrário do que se propunham os positivistas nunca é um retorno absoluto.
Temos a questão da História como problema, que volta-se para o passado para debruçar-se sobre uma pergunta, uma questão, formulada pelo pesquisador.
Dessa forma, em seu intercambio com a antropologia, a história propõem-se a uma “etnografia histórica” em que os documentos são vestígios na mão do historiador. A partir do instrumental da etnografia podemos perceber como podem existir muitas histórias e muitos tempos.
A História e a Antropologia dedicam-se a entender a sociedade, tendo o homem como o seu objeto, porém sobre perspectivas diferente e que valem a pena ser preservada. Não há metodologia mais correta e nem um determinismo de uma área do conhecimento sobre a outra, o que notamos são recortes e preocupações distintas.
Por isso que a interdisciplinaridade é muito importante. Essa pode ser considerada como uma das mais importantes contribuições dos Annales para o fazer história, uma abertura e uma proposta de abertura para o diálogo da história com todas as outras áreas do conhecimento.
Interdisciplinaridade, esta é uma proposta em relação ao conhecimento, que merecia uma longa duração... apesar da fragmentação que temos notado nas tendências das pesquisas atuais.


Bibliografia

Bloch, Marc Leopold Benjamin – “Os reis taumaturgos: O caráter sobrenatural do poder régio, França e Inglaterra “ São Paulo, Companhia das letras, 1993,

Burke, Peter- “A escrita da história: novas perpectivas”. São Paulo, UNESP, 1992

Lévi- Strauss Claude – “Mito e Significado”. Lisboa, Edições 70, 1989

Lévi- Strauss Claude – “História e Etnologia” in: Antropologia estrutural. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1975

Mauss, Marcel – “Ensaio sobre a dádiva”. In sociologia e Antropologia. São Paulo, EPU, 1974

Merlau- Ponty - “De Mauss a Claude Lévi Strass” Coleção “Os Pensadores” . São Paulo, Abril Cultural, 1980

Reis, José Carlos – “Escola dos Annales – A inovação em história”. São Paulo , Paz e Terra, 2000

Revel Jacques – “A invenção das sociedades”. Lisboa, Diefel, 1989

[1] Bloch, Marc Leopold Benjamin – “Os reis taumaturgos: O caráter sobrenatural do

poder régio, França e Inglaterra” São Paulo, Companhia das letras, 1993. pg 15

[2] Sahlins, Marshal “Ilhas de História” . Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1999


Teoria Marxista

Partindo da teoria do valor, exposta por David Ricardo, Karl Marx, seu principal propugnador, postulou que o valor de um bem é determinado pela quantidade de trabalho socialmente necessário para sua produção. Segundo Marx, o lucro não se realiza por meio da troca de mercadorias, que se trocam geralmente por seu valor, mas sim em sua produção. Os trabalhadores não recebem o valor correspondente a seu trabalho, mas só o necessário para sua sobrevivência. 

Nascia assim o conceito da mais-valia, diferença entre o valor incorporado a um bem e a remuneração do trabalho que foi necessário para sua produção. Não é essa, porém, para Marx, a característica essencial do sistema capitalista, mas precisamente a apropriação privada dessa mais-valia. A partir dessas considerações, Marx elaborou sua crítica do capitalismo numa obra que transcendeu os limites da pura economia e se converteu numa reflexão geral sobre o homem, a sociedade e a história

A Teoria do Valor de Marx

Marx alterou alguns fundamentos da Economia Clássica, estabelecendo uma distinção entre valor de uso e valor de troca:

Valor de Uso: Representa a utilidade que o bem proporciona à pessoa que o possui

Valor de Troca: Este exige um valor de uso, mas não depende dele.

Tal como Ricardo, Marx acredita que o Valor de Troca depende da quantidade de trabalho despendida, contudo, a quantidade de trabalho que entre no valor de toca é a quantidade socialmente necessária (Quantidade que o Trabalhador Gasta em média na Sociedade, e que obviamente, varia de Sociedade para Sociedade).

Como facilmente pressupões, Marx defendia a teoria da exploração do trabalhador.

Marx dizia que só o trabalho dava valor às mercadorias, a tal Mais Valia, que referi no trabalho sobre Karl Marx.

Equipamentos, não davam valor, apenas transmitiam uma parte do seu valor às mercadorias, não contribuindo portanto para a formação de valor.

Pelo contrário, o Homem através do seu trabalho fazia com que as matérias primas e os equipamentos transmitissem o seu valor ao bem final, e ainda por cima criava valor acrescentado (Por exemplo, no Capital Marx falava do exemplo das fiandeiras, que pegavam no algodão e o transformavam por exemplo em camisolas, criado um valor acrescentado que só mesmo o Trabalho Humano pode dar).

Para Marx existe uma apropriação do fruto do Trabalho, que contudo não pode ser considerado um roubo pelo Capitalista, porque ao fim ao cabo, o Trabalhador está a ser pago para fazer aquele trabalho.

O Valor é formado tendo em conta o seu custo em termos de trabalho, desse valor o Capitalista apropria-se da Mais Valia através da utilização do seu Capital.

Toda esta teoria da repartição do Rendimento, leva-nos para um conceito fundamental em Marx que é precisamente o da Mais Valia .

Mais Valia

Portanto Marx afirmava que a força de trabalho era transformada em mercadoria, o valor de força de trabalho corresponde ao Socialmente necessário.

Tudo estaria bem, contudo o valor deste Socialmente Necessário é um problema.

Na realidade o que o trabalhador recebe é o salário de Subsistência, que é o mínimo que assegura a manutenção e reprodução do trabalho.

Mas apesar de receber um salário, o trabalhador acaba por criar um valor acrescentado durante o processo de produção, ou seja, fornece mais do que aquilo que custo, é esta diferença que Marx chama de Mais Valia.

A Mais Valia não pode ser considerado um roubo pois é apenas fruto da propriedade privada dos meios de produção.

Mas, os Capitalistas e os proprietários, procuram aumentar os seus rendimentos diminuindo o rendimento dos trabalhadores, é pois esta situação de exploração da Força de Trabalho pelo Capital que Marx mais critica.

Marx critica a essência do Capitalismo, que reside precisamente na exploração da força de trabalho pelo Produtor Capitalista, e que segundo Marx, um dia haverá de levar à revolução social.

 

Karl Marx - Parte II
As Contradições do Sistema Capitalista

A subordinação da classe trabalhadora


Karl Marx defende que o trabalhador é origem do valor. Sendo ele a origem do valor, entretanto há uma tendência para o empobrecimento do Trabalhor.

A Oferta do Trabalho depende da evolução demográfica, da procura do Capital Investido e também do Progresso.

O Progresso técnico é inerente ao Capitalismo, logo com o progresso técnico a procura de trabalho tende a descer.

Marx diz também que a baixa na procura do trabalho não leva a diminuições sucessivas do trabalho, pois os Sindicatos não o permitem, contudo, os operários são reduzidos à miséria pois não podem trabalhar.

Há primeira vista a ideia de Marx é bem formulada. É inegável que, não obstante todas as vantagens produtivas que o progresso técnico traz, ele costuma acarretar uma descida na quantidade de trabalho procurada.

O que Marx não diz, é que o progresso técnico também criar novos postos de trabalhos. Ou seja, com o progresso técnico surgem novos postos de trabalho que antes não existiam. Isto cria um problema aos trabalhadores menos qualificados, que terão de se reciclar para poderem trabalhar nos novos empregos.

No Total, o progresso técnico acaba por não ter grande influência ao nível da Oferta de Trabalho. Os empregos perdido, são compensados pelos novos empregos. Agora o grande problema é para os trabalhadores menos qualificados, que vêm os seus antigos trabalhos a perderem valor, e que tem de se reciclar para fazer frente às novas exigências.


Tendência para a Diminuição da Taxa de Lucro


Para Marx, a Taxa de Lucro era o rácio da Mais Valia - MV - sobre a soma do Capital (capital constante - C - mais capital variável - v - ).

Se C/V for igualado a X. Temos que C=XV, logo a Taxa de Lucro = MV/v(1+x) = MV/v * 1/(1+x).

Ora a tendência do Capitalista é a acumulação de Capital. Isto implica um aumento de X (Derivado da inovação tecnológica utiliza-se cada vez mais máquinas, logo, sobe o peso do Capital Constante).

Ora aumentando X (Pois o valor de C aumentou), aplicando a fórmula acima, facilmente se vê que a taxa de lucro desce.

Para Marx este movimento pode ser contrariado pela exploração da Força de Trabalho (aumentado dessa forma o V, o que implicará um aumento da Mais Valia (MV), logo um aumento da taxa de Lucro).

Esta análise está fortemente condicionada pela análise do Valor que Marx faz. Para Marx apenas a Força do Trabalho cria Valor, pois o restante capital (meios de produção) apenas o transmite.

Segundo esta lógica, há de facto uma tendência para a baixa taxa de lucro.

que Marx não refere (e convém sempre salientar que toda a análise tem que se enquadrado no seu ambiente histórico) é que o Progresso Tecnológico reduz os custos dessa mesma Tecnologia (Ou seja o V não aumenta mas sim diminui).

Também não leva em consideração na sua análises os efeitos da crescente produtividade. Ora mantendo a mesma força de trabalho, a mesma quantidade de trabalho gera mais valor, por via do crescimento da sua produtividade do trabalho (ou seja, a Mais Valia de cada Trabalhador também aumenta).

Logo, não existe uma tendência para a baixa da taxa de lucro, mas sim uma tendência para a subida da taxa de lucro.

O Raciocínio de Marx, caso não tomássemos em consideração os efeitos do crescimento da produtividade, está completamente certo. Contudo, o aumento da produtividade do trabalho, aumenta a Mais Valia de cada trabalhador, e o progresso tecnológico diminui os custos dos Meios de Produção.

Temos pois que a tendência do Sistema Capitalista é a subida da taxa de Lucro, por via de: - Aumento da Mais Valia (por causa da subida da produtividade de cada trabalhador), e diminuição dos custos do Capital Constante (por causa do progresso tecnológico).


Etapa Monopolista


Visto que a tendência do Capitalista é a acumulação, há uma tendência para a baixa dos preços.

Se os preços descem, existem empresas que não podem produzir (pois não conseguem gerar lucros com esse nível de preços), como não conseguem produzir, desaparecem.

Com o desaparecimento das empresas não competitivas, a Indústria tende a concentrar-se nas poucas empresas que conseguem acompanhar o nível de preços, mantendo-se lucrativas.

Para Marx, a Contradição reside no fato de se perder a essência do Capitalismo. Pois deixa de haver concorrência há medida que a concentração aumenta.

Aqui Marx tem toda a razão. Os Progresso tecnológicos e ciêntificos, levam a que os custos de produção das empresas baixem consideravelmente. Baixando os custos de produção, as empresas podem aplicar preços de venda mais baixas.

Aquelas empresas que não conseguem acompanhar o ritmo, por não terem tecnologia suficiente, e principalmente capital para acompanhas as inovações Tecnológicas, são obrigadas a cessar a sua atividade (pois o novo nível de preços, não lhes permite acompanhar as empresas mais modernas).

A Tendência do Capitalismo é pois a concentração, pois nem todos conseguem acompanhar o progresso tecnológico, e a descida dos preços de produção, sendo forçadas a abdicar da actividade.


Conclusão


Marx encontrou pois as 4 grandes contradições do Sistema Capitalista.

Em toda análise que se faça a qualquer trabalho ou ideia, temos que enquadrar sempre na realidade atual.
Ora em relação a estas 4 grandes contradições, Marx falha ao não referir que o progresso tecnológico também cria novos empregos (para os mais qualificados), e também falha na sua análise da tendência para a Baixa da Taxa de Lucro (como vimos influenciada pela sua noção da teoria do valor, e por mais uma vez negligenciar os efeitos do progresso tecnológico). 

 

Produção do Valor de Uso e da Mais Valia


O uso da Força de Trabalho é o Trabalho. Este deve ser útil para realizar valores de uso. O processo de trabalho é composto por: atividade do homem, objeto de trabalho e meios de trabalho

Uma matéria prima é um objeto já trabalhado. O que distingue uma época economica de outra são os meios de trabalho, verificando-se que a quantidade de mão de obra diminui com a evolução dos meios.

O capital compra pois o valor de uso da força de trabalho, sendo esta sua pertença. Contudo, ela não quer apenas produzir uma coisa útil, quer acima de tudo uma mais valia, que o valor desta mercadoria ultrapasse o das mercadorias necessárias para o produzir».

O valor desta mercadoria é determinado pelo tempo socialmente necessário à sua produção (se for despendido mais tempo ou usados instrumentos mais caros, o capitalista só estará a perder dinheiro). Para Marx só o trabalho humano cria valor, as matérias e as matérias primas não criam apenas o transferem quando são trabalhadas pelo homem.


Como é que se forma exatamente a mais valia?


O capitalista comprou a força de trabalho por um valor (valor que permita a subsistência do trabalhador, a sua reprodução, instrução, manutenção e que varia de sociedade para sociedade).

Passa a ser detentor de uma mercadoria, adquirindo o seu valor de uso, criando esta mercadoria uma valor superior ao que ela vale.

é através do chamado Sobretrabalho (por exemplo, nas 5 primeiras horas ele reproduz o valor do seu salário, mas acaba por trabalhar mais tempo). é neste tempo extra (que o capitalista tenta prolongar ao máximo) que ele trabalha e não é pago que é criada a mais valia.

Ou seja, a mais valia surge do fato do trabalhador trabalhar mais do que o socialmente necessário, e é este excedente não pago que o capitalista se apropria e se chama MAIS VALIA. A produção da Mais valia não é mais do que a produção de valor, prolongada para além de certo ponto. Se o processo se trabalho só durar até ao ponto em que o valor da Força de Trabalho paga pelo capital é substituída por um novo equivalente, haverá simples produção de valor, quando ultrapassar este limite haverá produção de mais valia.


A taxa de Mais Valia


Acabada a produção obtemos uma mercadoria igual a c+v+c (sendo c o capital constante, v o capital variável, e p a mais valia).

A mais valia proporcional (relação de quanto ganhou em valor o capital variável) é nos dada pela relação da mais valia com o capital variável (p/v). Esta é a taxa de mais valia.

A parte do dia em que o trabalhador produz o valor da sua força de trabalho é menor ou maior consoante o valor da sua subsistência diária. Marx define «Tempo de trabalho necessário à parte do dia em que se realiza a reprodução da sua força de trabalho, e trabalho necessário ao trabalho dispendido neste tempo, necessário para o trabalhador e para o Capitalista».

O período extra não constituiu nenhum valor para o operário mas é essencial ao capitalista, chamando-lhe Marx de Sobretrabalho. Para Marx as diferentes formas económicas da sociedade, apenas se distinguem pela forma como este sobretrabalho é imposto. A Taxa de Mais valia pode também ser Sobretrabalho/Trabalho necessário.

A é pois «a expressão exacta do grau de exploração da força de trabalho pelo capital». A soma do trabalho necessário com o Sobretrabalho constituiu o Dia de Trabalho.


Capital Constante e Capital Variável


Para Marx importa distinguir entre dois tipos de capital:

Capital Constante: Capital Investido em Meios de Produção, Constante porque o seu valor não muda no processo produtivo.

Capital Variável: Capital Investido na Força de Trabalho, Variável porque produz um valor diferente consoante a intensidade da sua utilização.

Os meios de produção só transmitem valor na medida em que perdem valor, ou seja, não podem acrescentar ao produto mais do que possuem, daí Marx defini-los como Capital Constante que sendo condição de criação de mais valia, não produz per si Mais Valia.

Por outro lado, o Trabalho conserva e transmite o valor dos meios de produção ao Produto. Reproduz o seu próprio equivalente e além disso gera uma mais valia engendrada no trabalho extra que pode ser maior ou menor consoante a sua duração. A Mais Valia depende pois, do Grau de exploração da Força de Trabalho.

Sendo a taxa de Mais valia dada por (Sobretrabalho/Trabalho necessário) ela não nos daria de forma nenhuma reciprocamente a grandeza do dia de trabalho. Se a taxa de Mais valia fosse de 100% apenas nos indicaria que as 2 partes do dia eram iguais, não nos indicaria o tempo de cada uma dessas partes.

O dia de trabalho não é fixo e possuiu limite.

Teoricamente o limite mínimo é o tempo em que o trabalhador opera para a sua conservação , contudo no «modo de produção capitalista» o trabalho necessário nunca pode formar mais do que uma parte do dia de trabalho, e o dia de trabalho não pode ser reduzido a este mínimo (caso acontecesse não haveria trabalho extra e consequentemente nenhuma mais valia seria engendrada).

Contudo o dia possuiu um limite máximo, que é duplamente determinado, por um lado fisicamente (o homem tem necessidades a satisfazer e limitação, precisando de se manter apto para o trabalho), por outro moralmente (o homem precisa de tempo para satisfazer necessidades intelectuais, sociais, etc…).

Tais limites variam de sociedade para sociedade, e são muito elásticos (daí haverem dias de trabalho com os mais diversos comprimentos.

Mas « O capitalista tem a sua maneira de ver sobre este último limite necessário do dia de trabalho». Há pois interesses antagónicos quanto à duração do dia de trabalho, podendo cada lado invocar as suas razões. «Quem decide sobre direitos iguais? A força. Eis porque a regulamentação do dia de trabalho se apresente como uma luta secular entre capitalista de trabalhador»

Opto agora por não proceder a uma análise exaustiva de todas as página dedicadas por Marx a esta questão, fazendo uma pequena súmula dos aspectos referidos.

Contudo aconselho a sua leitura pois contem muitos exemplo bem ilustrativos que são um reflexo do que muito mau aconteceu e ainda continua a acontecer

A luta entre as duas facções é secular, sendo muitas as tentativas de regular o mercado de trabalho (por exemplo, «Code de la Corvée», da Rússia; «Règlement Organique» das provincias danubianas, os diversos «Factory Acts» da Inglaterra, etc…), que «refreiam a paixão desordenada do capital na absorção do trabalho, impondo limitação oficial ao dia de trabalho.

Nomeadamente depois dos «Factory Acts» na Inglaterra foram nomeados inspectores para verificar a aplicação dessas leis, podendo-se ler algumas das conclusões (nalguns casos terríveis) a que eles chegaram.

Mesmo com as limitações ao dia de trabalho, o capitalista sempre achou forma de as contornar, permitindo manter a tão desejada mais valia e até mesmo aumentá-la.

Uma dessas formas era e é a exploração das horas dedicadas às pausas (Retirando pequenas partes destinadas ao repouso do trabalhador, em que esta final continua a laborar). Tais situação como os próprio inspectores reconheceram são difíceis de detectar e combater «Os inspectores deparam-se com dificuldades quase invencíveis para comprovar os delitos e estabelecer as respectivas provas».

Outra das formas era e é a exploração da mão de obra infantil. O que obviamente era mau para a saúde dos jovens e tem consequências nefastas para as gerações futuras que serão cada vez mais fraca. Marx em «O Capital» é fertil a mostrar estas situações, com depoimentos, mostrando também a insipiência de muitas das respostas dadas pelos «capitalistas» então.

Outra das formas utilizadas pelo «capitalista incipiente» é o Sistema de Turnos.

Também nesta situação são muitos os exemplos que demonstram que o capitalista não ficava a perder.

Tomemos o exemplo de um dia de 8 horas.4 de Manhã e 4 à Tarde. Na realidade nesses descansos o trabalhador ficava a trabalhar e acabava por entrar mais cedo, ou então era obrigado a permanecer no local de trabalho(por exemplo se tivesse que dormir lá, ou demorar muito nas deslocações, etc…) e obviamente por necessidade e dependência, sempre que lhe pedissem para trabalhar mais ele aceitava. 

 

A Lei Geral da Acumulação Capitalista


A composição do capital analisada sob a proporção em capital constante e a proporção em capital variável, ou seja, todo o capital decompõe em meios de produção e força de trabalho.

Supondo que não se alterando a composição de capital, o acréscimo de capital implica em aumento de força de trabalho, ou seja, a procura por força de trabalho aumentará na mesma proporção do capital. No entanto o capital acrescido (capital original + capital produzido ou mais valia produzida em determinado período) faz crescer a necessidade de desenvolver ou empregar esse capital em novos empreendimentos ou novos mercados em uma escala em que a acumulação de capital ultrapassa o crescimento e capacidade da força de trabalho, ou seja, a procura por trabalho ser maior que a oferta, ocorrendo a elevação dos salários. Nesse sentido a força de trabalho tem de incorporar-se continuamente ao capital para expandi-lo. A massa de trabalhadores que se expande recebe sob forma de pagamento, a porção de seu próprio produto excedente que aumenta e se transforma em quantidade cada vez maior de capital adicional para a classe capitalista. Ainda, segundo a suposição que fizemos anteriormente, a expansão da acumulação esbarra continuamente na crescente necessidade de incremento de força de trabalho e como o objetivo do capitalista ao comprar força de trabalho é aumentar seu capital, produzindo mercadorias que contém mais trabalho do que ele paga ao trabalhador, ou seja, seu objetivo é produzir mais valia, portanto o salário que ele paga ao trabalhador aumenta devido as limitações da oferta do mercado de trabalho, isso significa uma redução de mais valia apropriada pelo capitalista, conseqüentemente a acumulação retarda-se em virtude da elevação do preço do trabalho.

Nesse caso a acumulação diminui, esse decréscimo faz desaparecer temporariamente a própria causa que originou a desproporção entre capital e força de trabalho explorável. Convém esclarecer que a relação entre capital, salários e acumulação é apenas a relação entre trabalho excedente (quantidade de trabalho apropriado pelo capitalista não pago ao trabalhador) que transforma em capital e o trabalho adicional necessário para por em movimento do capital suplementar.  

Decréscimo relativo da parte variável do capital com o processo da acumulação e da concentração que acompanha

A produtividade do trabalho social se torna a mais relevante alavanca da acumulação capitalista. O grau de produtividade do trabalho, numa dada sociedade, exprime pelo volume relativo dos meios de produção que o trabalhador transforma em produto, num dado tempo com o mesmo dispêndio de força de trabalho. O aumento da produtividade condiz com o aumento da massa de meios de produção e portanto no decréscimo da quantidade de trabalho para por em movimento essa massa de meios de produção. O que acontece, é a mudança da composição técnica do capital, o aumento dos meios de produção comparado com a quantidade de trabalho necessário para coloca-lo em movimento, ou seja, a aumento da parte constante do capital reflete no decréscimo da parte variável. Entretanto com a produtividade crescente do trabalho, cai o valor dos meios de produção em comparação com seu volume crescente que é consumido, ou seja, o capitalista despende cada vez menos capital para comprar um volume crescente de meios de produção.

A conversão continua de mais valia em capital que entra no processo de produção e se torna base da produção em escala ampliada, dos métodos que a acompanham para elevar a força produtiva do trabalho e acelerar a produção de mais valia e portanto, a acumulação. Como a acumulação do capital cresce em maior ou menor proporção, cresce também o número de capitalistas, entretanto a batalha da concorrência por meios de redução de preços das mercadorias dependente, intimamente da produtividade do trabalho e este da escala de produção, assim se dá a batalha do capitalista “versus” capitalista. Os capitais grandes esmagam os pequenos, a centralização amplia e acelera ao mesmo tempo as transformações na composição técnica do capital, as quais aumenta a parte constante sobre a parte variável, reduzindo assim a procura por trabalho.

Produção progressiva de uma superpopulação relativa ou de um exército industrial de reserva

O volume da parte variável do capital é que determina a procura de trabalho e esse volume cai progressivamente com o aumento do capital global, embora o aumento do capital global faça crescer a parte variável, mas esse crescimento é proporcionalmente menor. Ou seja, é necessário que a acumulação do capital global seja acelerada em progressão crescente para absorver um número adicional determinado de trabalhadores ou para manter os trabalhadores que encontram empregados.

Uma população de trabalhadores excedente é condição necessário para a acumulação e para o desenvolvimento da riqueza capitalista, pois com o desenvolvimento da produtividade do trabalho cresce a força de capital, e a massa de riqueza cresce e impulsiona novos ramos de produção, nesses casos grandes massas humanas tem de estar disponíveis para serem exploradas, sem prejudicar a escala de produção nos ramos já existentes e a industria moderno e os novos métodos de produção depende portanto, da transformação constante de uma parte da população trabalhadora em desempregados.             Suponhamos que permaneça o mesmo que número de trabalhadores empregados, o capital variável aumenta se o trabalhador individual fornece mais trabalho, ou seja, aumentando a produtividade do trabalhador, então o acréscimo do capital variável é índice de mais trabalho, mas não de mais trabalhadores empregados. “O capital variável pode permanecer constante mesmo se o número de trabalhadores decrescer sob condição do aumento da produtividade individual do trabalhador”

Os movimentos dos salários não são determinados pelas variações do número absoluto da população trabalhadora, mas pela proporção variável em que essa população se divide em trabalhadores empregados e trabalhadores desempregados. Com a introdução do progresso técnico, parte do capital variável se transforma em capital constante, ou seja parte dos trabalhadores ficam desempregados aumentando a reserva de trabalhadores, esse aumento de capital absoluto não eleva procura por trabalho, nem a oferta de trabalho cresce com o aumento da classe trabalhadora. 


Formas de existência de uma superpopulação relativa


As formas de superpopulação relativa assumem periodicamente as três formas seguintes: flutuante, latente e estagnada. Graças ao progresso da produtividade do trabalho social, o constante uso de maquinas e de novas técnicas de produção (aumento do capital constante) podem ser mobilizados com um dispêndio progressivamente menor de força de trabalho. Quanto maior a produtividade, maior a pressão dos trabalhadores sobre os meios de emprego e mais precária a condição da própria venda da força de trabalho.

Quanto maior a produtividade maior a acumulação, maior a acumulação de riqueza e ao mesmo tempo acumulação de miséria. Nas mesmas condições em que se produz riqueza, produz-se também a miséria, nas mesmas condições em que se processa o desenvolvimento da produtividade, desenvolve-se um cenário de condições que só geram riqueza para a burguesia.

 

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Antiga sociedade chinesa

A China é um extenso país do Extremo Oriente, cuja história remonta a tempos muito antigos, 3000 a.C. A geografia sempre marcou a evolução da civilização chinesa. As primeiras culturas se estabeleceram na grande planície central, banhada pelo rio Amarelo. A fertilidade dessas terras atraiu os camponeses. No resto do país, as montanhas criam pequenas zonas muito diferentes entre si, favorecendo o regionalismo. Contudo, entre essas áreas tão diferentes sempre existiu um fator comum: eram comunidades agrícolas organizadas em torno dos grandes rios.
As lendas chinesas mencionam uma série de soberanos e heróis que reinaram em épocas remotas. Ficção ou realidade, o importante é que esses relatos nos mostram uma civilização patriarcal baseada na agricultura, tal como se desenvolveu depois. 
Os costumes chineses sempre foram marcados por forte tradicionalismo. O esforço de isolar-se dentro de suas fronteiras permitiu que os chineses conservassem sua originalidade. 
A construção da Grande Muralha e a complicada escrita ideográfica chinesa contribuíram para manter esse isolamento. Foi apenas com o prolongamento da Rota da Seda que o país abriu suas fronteiras à Pérsia e à Índia, passando assim a sofrer influências externas, inclusive do budismo. Essa doutrina, assim com o confucionismo e o taoísmo, forma o sistema religioso do país.

Os primeiros Estados (1500-249 a.C.)


Os primeiros centros de civilização, formados às margens do rio Amarelo, eram governados pela dinastia Shang.
Possuíam cidades e templos, conheciam a escrita e trabalhavam o bronze. Por volta de 1050 a.C., instalou-se no poder a dinastia Zhou, que se expandiu até o rio Azul e criou uma organização estável no governo. O poder dessa dinastia acabou se enfraquecendo com o surgimento de uma série de Estados guerreiros, que, por sua vez, foram dominados quando a dinastia Qin tomou o poder.

As grandes dinastias (249 a.C.-618 d.C.)


Em 249 a.C., a dinastia Qin fundou o primeiro império unificado com um governo altamente centralizado e autoritário.
O rei Qin Shi Huang, da dinastia Qin, unificou os vários reinos feudais e adotou, pela primeira vez, o título de imperador. Qin estabeleceu uma nova divisão provincial governada por funcionários, iniciou a construção da Grande Muralha e ampliou as fronteiras. Esse grande império não sobreviveu à morte do imperador.
No fim do século III a.C., o império foi organizado de forma definitiva pela dinastia Han. A vida política desenvolveu-se em torno dos funcionários mandarins; abriu-se o comércio exterior e a cultura floresceu. Com o enfraquecimento do governo, o território dividiu-se e só voltou a ser unificado no ano 618 d.C., com a dinastia Tang.

As grandes tumbas


Todas as dinastias chinesas enterravam seus reis em grandes e majestosas tumbas. Eram câmaras de madeira decoradas com esmero, destinadas a durar para sempre.
Acompanhavam o rei seus animais e seus objetos pessoais, para garantir-lhe o bem-estar na outra vida.
Em algumas tumbas foram encontradas impressionantes figuras de terracota. Na tumba do imperador Cheng havia mais de 7 mil figuras, entre soldados, carros e animais, todas em tamanho natural. Cada rosto apresenta traços diferentes, caracterizados por um grande realismo.

A sociedade


A sociedade chinesa era muito tradicional e cerimoniosa. Acima de todos os elementos ficava o imperador, adorado como 'filho do céu'. Vinha em seguida um corpo de funcionários, os mandarins, considerados o orgulho do império. Esse grupo foi criado no século II a.C., desbancando a nobreza feudal, e desempenhou um importante papel na vida institucional e cultural do país. Abaixo deles vinha o resto da sociedade: camponeses, comerciantes e artesãos. Na sociedade chinesa não havia escravos.

O cultivo do arroz


Desde a Antiguidade, o arroz sempre foi o principal cultivo do Sudeste Asiático. A população, assentada à beira do rio Amarelo, teve de se adaptar às inundações periódicas que recobriam os campos. Os camponeses criaram um sistema de canalizações e terraços para cultivar o arroz. Trabalhavam com métodos primitivos, arando com a ajuda de bois e utensílios manuais. O transplante e a colheita eram feitos totalmente à mão.

A ciência e a técnica


Os chineses eram brilhantes inventores. Seu sentido prático os levou a projetar objetos e aparelhos mecânicos vários séculos antes do resto do mundo. No século II, já haviam inventado o papel; no século VI, a imprensa e a porcelana – que em inglês se chama 'china'.
Acredita-se também que, muito tempo atrás, conceberam o relógio hidráulico, a bússola magnética e um aparelho capaz de detectar os terremotos. Porém, sua invenção mais espetacular talvez tenha sido a pólvora.

 Muralha da China 


A Muralha da China aparece como uma linha fina que cruza quase todo o norte do país. São mais de 6.400 km construídos há mais de 2 mil anos para servir como meio de defesa e demonstração de poder de três dinastias que governaram o Império Chinês. 
Para se ter uma ideia, seria o equivalente a construir um muro que saísse de Porto Alegre, seguisse em linha reta até Manaus e voltasse para Porto Alegre. Até hoje, os pesquisadores têm dificuldades em dimensionar com exatidão toda a extensão da grande muralha: grande parte está em ruínas e só foi identificada há poucas décadas. Mais do que um monumento arquitetônico, a muralha da China é um exemplo do que a determinação humana é capaz de produzir. Foi eleita em julho de 2007 como uma das Sete Novas Maravilhas do Mundo.


Confúcio (551-479 a.C.)


Filósofo chinês, Confúcio dedicou a vida a ensinar, convertendo-se num mestre da moral respeitado por sua sabedoria. Difundiu por todo o país uma doutrina de convivência, baseada na amizade e na equidade, que formou a base da ética na China.
Confúcio estabeleceu os deveres do homem, acreditando que este devia servir à sociedade. Seus ensinamentos não falavam no culto a nenhum deus, mas sim em seguir o Tao, ou seja, o Caminho, num esforço constante de cultivar a própria personalidade e estabelecer a harmonia na sociedade. O confucionismo foi elevado à religião oficial do Estado no século II a.C.

A arte chinesa


Os chineses valorizavam muito a pintura, a caligrafia e a literatura. A pintura surgiu da caligrafia, sendo a criação mais original da arte chinesa. Pintavam sobre papel ou seda, sobretudo paisagens, utilizando tinta e aquarela. A arquitetura e a escultura eram consideradas apenas obras utilitárias. Construíram-se numerosos palácios e templos, como os pagodes, com seus vários tetos superpostos. A escultura, a cerâmica e os trabalhos em laca completavam o panorama artístico do mundo chinês.





As civilizações do Extremo Oriente: China e Japão

Estudaremos algumas das civilizações que surgiram no Extremo Oriente. Suas tradições, assim como muitas de suas criações, fazem parte de nosso dia-a-dia e regem a vida de muitas pessoas que habitam os lugares nos quais surgiram essas culturas milenares.
Os chineses utilizam até hoje a medicina desenvolvida na Antiguidade, a acupuntura e a cura com o uso de plantas medicinais. Muitas das suas criações - como a imprensa, o papel e a tinta, a pólvora, a bússola, a seda e a porcelana - fazem parte do nosso cotidiano.
A Índia nos legou os números que utilizamos e o jogo de xadrez. Foi o berço das ciências e da filosofia, preservando, até os dias de hoje, muitos costumes ligados a crenças espirituais e religiosas.
Além disso, as famosas especiarias indianas, tais como a pimenta, a canela e o cravo, foram responsáveis, até certo ponto, pela revolução geográfica impulsionada pela expansão marítima europeia no final do século XV.

A China

Há mais ou menos 600 anos, um menino italiano da cidade de Veneza partiu com o pai para uma longa viagem por terra em direção ao Oriente, para lugares nos quais, provavelmente, nenhum outro menino europeu estivera.
Essa viagem maravilhosa durou mais de 25 anos. Quando o menino voltou, já era um homem e tinha visto lugares e coisas que estavam muito além do mundo europeu. O menino chamava-se Marco Polo, e o país maravilhoso que ele descreveu no diário de sua viagem era a China.

Localização

A China se localiza no extremo sul do continente asiático, muito longe do mundo onde Marco Polo fora criado. O país é cortado por grandes rios: o rio Amarelo e o rio Azul, que, com outros rios, como o rio Branco e o Vermelho, formam vales longos que fertilizam os campos do coração da China.
Essa terra muito fértil fez com que muita gente se fixasse nas margens dos rios, que até hoje abrigam a maior concentração de pessoas do planeta. Para se ter uma idéia do tamanho dessa população, lembre-se de que no Brasil vivem cerca de 140 milhões de pessoas. Mas na China, cujo território é menor que o nosso, vivem oito ou nove vezes mais pessoas que aqui.
As grandes cidades chinesas cresceram nas desembocaduras dos rios: é o caso de Pequim (no rio Branco), Nanquim (rio Azul), Cantão (rio Vermelho).
O clima é muito variado. Nas terras do norte, faz muito frio no inverno e muito calor no verão. Esse clima é ideal para o cultivo de cereais - como o trigo e o centeio.
Já nas terras do sul, a temperatura se mantém agradável durante todo o ano. Essa região é mais fértil: tem muitos rios e vales nos quais são cultivados arroz e chá, produtos muito importantes para os chineses. Também foi nessa parte da China que surgiu a famosa indústria da seda.

O Império do Centro

Foi na desembocadura do rio Amarelo que a civilização chinesa começou a se estabelecer e a se organizar politicamente. Isso se deu mais claramente quando os chineses sentiram a necessidade de nomear um chefe para ajudar a organizar a sociedade à medida que ela crescia.
O chefe, no princípio das civilizações, era escolhido entre os mais fortes do grupo. Com o passar do tempo, começou-se a aceitar como chefe o filho ou algum parente próximo daquele que já havia sido chefe. Daí surgiram os reis, que eram vistos como “filhos do céu”, isto é, como pessoas sagradas.
A civilização chinesa ia se expandindo e muitos reinos foram sendo formados. Os reis eram, então, os chefes de territórios relativamente pequenos. Não existia um poder central, um governo ao qual os reis também estivessem ligados. Por volta do ano 2000 a.C., os chineses formaram seu primeiro império, ou seja, nomearam um imperador, autoridade máxima à qual até mesmo os reis deviam obediência. O primeiro imperador da China foi Yu, que criou a primeira família, ou dinastia, de imperadores.

Guerras civis

Tudo ia bem até que surgiram imperadores “folgados”, que só pensavam em se divertir e não em governar. Além disso, à medida que o império ia crescendo, o imperador não conseguia governar tudo sozinho. Por isso o poder dos imperadores foi diminuindo, ao mesmo tempo em que o poder dos governantes locais foi aumentando.
A China foi dividida em províncias - mais ou menos como os Estados brasileiros de hoje em dia - que eram administradas por um governador nomeado pelo imperador. Com o fortalecimento desses governadores, que se tornaram nobres, o império se dividiu em mais de 1.500 principados.
Esse momento da história da China é conhecido como a época das guerras civis. Uma guerra civil é uma guerra entre pessoas do mesmo país, ou do mesmo império. Os principados lutaram uns contra os outros durante muitos anos, até que, em 220 a.C., um príncipe conseguiu vencer e tornar-se imperador. Ele se chamava Chin-Huang-ti e inaugurou a dinastia Chin. É daí que vem o nome da China.
Depois de derrotar os príncipes, o imperador acabou com os principados e dividiu seu império em 55 províncias. Esse foi o início de uma era de grande desenvolvimento para o império, a chamada Idade do Ouro, que durou cerca de 400 anos. Nessa época foi construída a famosa muralha da China, ou Grande Muralha, uma poderosa barreira com mais de 2.500 quilômetros de extensão e quatro metros de largura. Ela servia paradificultar a invasão dos inimigos, especialmente dos temidos tártaros, habitantes do norte do país.

Decadência

Mas nem essa grande muralha foi capaz de deter o avanço dos hunos, povo que acabou conseguindo invadir o norte do império e estabeleceu sua capital na cidade de Nanquim. Ali começou a decadência do império chinês, que viveu séculos de guerras entre o norte e o sul.
O império só se unificou novamente por volta de 1200, quando os mongóis - outro povo que veio do centro da Ásia, liderado pelo príncipe Gêngis Khan - conseguiram dominar a China.

Sociedade e cultura

Mas, entre tantas lutas e conquistas, como viviam os chineses dessa época?
A família chinesa era organizada da seguinte forma: o pai mandava dentro de casa e a mulher e os filhos tinham de obedecê-lo - caso contrário, ele podia até vendê-los como escravos.
Assim como os pais de família, o imperador era considerado o “pai” de todos os chineses.
Você pode perceber que não era muito fácil ser mulher ou filho na China imperial!
O imperador governava com a ajuda de um grupo de ajudantes chamados mandarins. Eles podiam governar como se fossem o próprio imperador e eram considerados nobres, pois pertenciam a famílias muito antigas.
Havia também o grupo dos chamado letrados, pessoas que dominavam a leitura e a escrita - coisa que muito pouca gente sabia fazer naquela época.
A maioria das pessoas morava no campo e quem cultivava a terra eram os lavradores. Os artesãos faziam móveis, cerâmicas e muitas outras coisas. Moravam nas cidades e, juntamente com os comerciantes, que compravam e vendiam mercadorias, formavam a plebe.
Todas essas ocupações eram hereditárias, ou seja, passavam de pai para filho. Assim, se o pai fosse agricultor, o filho também seria agricultor. Esse era o chamado regime (ou sociedade) de castas. Nele, a condição de nascimento determinava o que o indivíduo seria pelo resto de sua vida. É por isso que podemos dizer que a sociedade chinesa era uma sociedade estática, que quase não sofria mudanças.

A religião

Os chineses eram muito religiosos, mas não tinham “uma” religião: eles acreditavam num conjunto de regras, ou seja, num código de comportamento, que todos respeitavam. Uma dessas regras, o respeito aos antepassados, foi formulada por Confúcio, que viveu entre 551 e 479 a.C. Ele acreditava que o homem podia ser perfeito se fosse correto com as demais pessoas.
Os chineses também acreditavam na filosofia de Lao-tsé, o taoísmo, que cultuava o respeito à natureza e a tranqüilidade do espírito.

As ciências e as artes

As ciências que os chineses criaram foram as mais avançadas da Antiguidade. Muitas práticas são empregadas até hoje: a acupuntura e a utilização de ervas medicinais, por exemplo. Eles inventaram a imprensa para publicar livros, o papel e a tinta; descobriram a pólvora (usada em fogos de artifício) e inventaram a bússola. Aliás, a astronomia chinesa era muito desenvolvida para a época: eles sabiam o que provocava os eclipses do Sol e da Lua; além disso, dividiram o ano em doze meses iguais, e o dia em doze horas.
Nas artes, os chineses ergueram grandes palácios para os imperadores. Sua engenharia e sua arquitetura construíram, além da Grande Muralha, o Canal Imperial, com mais de 1.500 quilômetros de comprimento, que liga os rios Azul, Amarelo e Branco, cortando desertos e montanhas.
Além disso, os chineses se especializaram na fabricação de tecidos de seda e da porcelana, produtos tão perfeitos que nenhum outro país os podia igualar.

O Japão

Ainda no Oriente, uma outra civilização se constituiu na Antiguidade e se tornou fundamental para o desenvolvimento do mundo: o Japão. Geograficamente, o que conhecemos como Japão é na verdade um arquipélago composto de 4 mil ilhas, das quais 600 são habitadas. Apenas cinco dessas ilhas são grandes. Isso condicionou os japoneses à vida da pesca e da marinhagem.
Os povos que formaram o Japão vieram da Coréia e da região sul da Ásia, chegando ao arquipélago japonês e expulsando os nativos. O fundador mítico do império japonês é Amaterasu, “neto da deusa do Sol”, que recebeu o título de Tennos (rei celeste). Por volta de 660 a.C., Jimmu Tenno foi sagrado primeiro imperador.

Culturalmente, a China dominava o arquipélago japonês.

Durante os séculos VII e XII, o Japão assimilou essas importações e criou as suas tradições, consolidadas nos séculos XII e XIII. Em 1543, comerciantes portugueses atingiram o Japão. Os jesuítas tentaram estabelecer lá a cultura religiosa ocidental, sendo expulsos apenas em 1640. Os japoneses só voltaram a manter contatos com o Ocidente na segunda metade do século XIX, na era Meiji.

A vida política

Por volta do século V, havia no Japão vários clãs de origem nobre. Yamato, o chefe de um deles, se sobrepôs aos outros chefes. Formou um império de inspiração divina, e nos dois séculos seguintes a essas tradições político-religiosas juntou-se outra: as idéias chinesas de Confúcio, que foram introduzidas no século VI. A hierarquização da sociedades se deu como na China, e fixou-se uma capital para os dirigentes, até então nômades, em Nara.
O poder era dividido entre o teno, ou “imperador que é a encarnação da divindade”, e o regente, uma espécie de primeiro-ministro, porta-voz de uma aristocracia do tipo da chinesa.
Uma série de guerras civis eclodiu do século XIII ao século XVI. O teno permanecia fora do jogo político, mas o regente tornou-se o chefe da guerra, o shogun. Os aristocratas criam uma estrutura feudal, sob a suserania do shogun, com os daimio - os samurais, ou guerreiros, vassalos a serviço do senhor.
No século XVII (1603), uma nova dinastia de shoguns, os Tokugawa, se instalou e governou o país até 1668, criando uma barreira militar fechada ao mundo externo. Durante esse período, o Japão não manteve contato com o restante do mundo.

A vida religiosa

Os japoneses eram animistas, isto é, acreditavam na presença dos espíritos em toda parte. Esse corpo de crenças recebe o nome de xintó, o “caminho dos espíritos”. Ao lado do xintoísmo, o budismo - originário da Índia, mas introduzido no Japão por influência da China - tornou-se também uma religião japonesa, pois se modificou e assumiu novas características no arquipélago.

A cultura japonesa

Como aconteceu com a religião, a cultura japonesa foi bastante influenciada pela chinesa. Mas essa cultura possui aspectos muito particulares. Na literatura e no teatro criou-se o Nô, um tipo de drama de inspiração religiosa. Outro tipo de espetáculo é o Kabuqui, menos formal e mais movimentado que o Nô.
Ressaltem-se também a extraordinária originalidade da arquitetura e o trabalho inovador com a madeira; as delicadas pinturas sobre seda, chamadas Kakemono; ou, ainda, os jardins admiráveis.


Índia Antiga


A chegada dos Árias


Uma das primeiras sociedades a se formar no vale do rio Indo, no atual Paquistão, surgiu por volta de 3000 a.C. Foi organizada por um povo conhecido como dravidiano, responsável pela construção de importantes cidades, como Mohenjo-Daro e Harapa. Por volta de 1500 a.C., o vale do Indo foi invadido por povos nômades indo-europeus vindos da região do atual Irã.
Os árias venceram os dravidianos, conquistaram seu território e assimilaram boa parte de sua cultura. Talvez por influência do povo conquistado, deixaram de ser nômades e passaram a viver de forma sedentária.
Esse momento da história da Índia é narrado num conjunto de textos em forma de hinos conhecidos como Veda. Um desses textos conhecidos como Rig-Veda, conta as lutas dos árias contra os dravidianos no vale do rio Indo, descrevendo as sociedades existentes nessa época.
Os árias assim como os dravidianos, acreditavam em muitos deuses e deusas. Ao conquistar o vale do Indo, suas crenças religiosas foram se misturando com as da sociedade dravidiana. Dessa mistura surgiu o Hinduísmo, religião politeísta (religião que adora vários deuses) segundo a qual a sociedade está dividida naturalmente em castas (ver box de informações). No século VI a.C., dois guias espirituais rejeitaram essa divisão da sociedade em castas e criaram novas correntes de pensamento.
Um deles foi Sidarta Gautama, conhecido como Buda. Sidarta criou o budismo, sistema religioso que prega a não violência, a meditação, a moderação e a prática de virtudes como a bondade, a moralidade e a paciência. Da Índia, o budismo se expandiu e hoje reúne muitos adeptos em todo mundo.
O outro foi Mahavira (540 a.C - 468 a.C). Também chamado de Jina Mahavira era contrário a violência, mas não reconhecia nenhuma divindade. Por isso, seu sistema filosófico, o jainismo, não pode ser considerado uma religião.

Os Vedas


Todos nós conhecemos ou já ouvimos falar da Biblia. A biblia é o livro sagrado dos cristãos. Uma parte dela chamada de Velho Testamento, foi escrita há mais de 3 mil anos.
Os árias também tinham o seu livro sagrado. Eram os Vedas, conjunto de hinos e preceitos religiosos (regras), escritos entre os séculos XV a. C e V a.C em sânscrito, lingua falada pelos árias.

O Sânscrito (Escrita)


Hoje se conhece a Índia Antiga, graças ao Sânscrito. São muitos os textos registrados nessa língua, as obras em sânscrito são editadas e traduzidas em muitos países, há também muitos manuscritos ainda desconhecidos do público em geral, pois são obras arquivadas em bibliotecas apenas catalogadas ou mantidos por famílias que os transmitem geração após geração.
Foram compostas obras muito importantes nessa língua, na Índia o sânscrito possibilita a compreensão dos princípios da origem. Trata-se de uma língua que serviu de ajuste para a divulgação de conhecimentos dos mais diversos tipos.
Considera-se o sânscrito como uma língua pertencente à família das línguas indo-europeus. A maioria dos idiomas europeus incluindo o português, o espanhol, o francês e o italiano pertencem a essas famílias que são de origem romana e estas originadas do latin vulgar.

Sidarta Gautama - Buda


Os contos de Jatakas relatam histórias sobre as centenas de vidas passadas de Sidart Gautama o Buda. Denominado um bodhisattva, passou muito tempo praticanto a perfeição que o levou a Iluminação. Reza a lenda que, depois de completa-las saiu do paraíso de Tushita e renasceu como um príncipe no norte da Índia por volta de 560 a.C.
Filho do rei do povo Sakhya, habitava na região da fronteira entre a Índia e o Nepal. A vida de Sidarta Gautama era cercada de conforto. Casou-se, teve seu filho e vivia protegido do contato externo. Uma tarde fugindo do palácio viu 3 coisas que iriam mudar sua vida totalmente; viu um ancião que não conseguia andar sem o apoio de seu bastão, um homem que agonizava com dores terríveis e um cadáver envolto em linho branco. Essas três visões o puseram em contato com "as três marcas da impermanência" (velhice, doença e morte) e o deixaram muito abalado.
Voltando ao palácio ele teve uma quarta visão, um Shadu eremita errante (religioso que vive na solidão) que o impressionou por suas feições que irradiavam profunda dignidade e paz.
Depois dessas visões Sidarta Gautama decidiu renunciar à sua vida de conforto e comodidade e se dedicar à sua busca pela verdade.
Durante sete anos estudou com os filósofos da região, mas continuava insatisfeito. Em uma de suas viagens chegou a Bodh Gaya e permaneceu alí por 49 dias sentado à sombra de uma figueira em profunda meditação, transcendendo todos os estágios até chegar ao Nirvana.
Desde então foi chamado de Buda (o Iluminado). Segundo a tradição quandfo estava meditando recebeu uma iluminação divina e descobriu que o caminho para chegar a verdade é o da meditação, da moderação e da não violência.
Seus ensinamentos, criados à partir dessa experiência são conhecidos como o "Caminho do Meio" ou "Dharma" (a lei).
Desde que atingiu o Nirvana aos 35 anos até sua morte aos 8o anos, Buda viajou por toda Índia ensinando e fundando comunidades monásticas (monges).
Buda ensinou o Dharma a todos. Costumava recomendar a seus discípulos que ensinassem em suas próprias línguas. Foi assim que sua doutrina ficou conhecida em vários países.

"A decadência é inerente a todas as coisas compostas. Vivei fazendo a vós mesmos a vossa ilha, convertendo-vos no vosso refúgio. Trabalhe com diligência para alcançar a vossa iluminação"

A sociedade de castas


Presente na cultura indiana há milhares de anos, o sistema de castas segue uma regra básica: todos são criados desiguais. A existência de castas na sociedade hindu originou-se de uma lenda na qual os quatro principais grupos, ou varnas, surgiram de um deus. De sua boca, vieram os brâmanes – sacerdotes e mestres. De seus braços, os xátrias – governantes e soldados. De suas coxas, os vaixás – mercadores e negociantes – e, de seus pés, os sudras – trabalhadores braçais. Cada varna, por sua vez, é formado por centenas de castas que passam de pai para filho.
Um quinto grupo consiste nas pessoas que são achuta, ou dalit, ou intocáveis. Não vieram desse deus. Eles são os excluídos. Pessoas consideradas impuras demais. Sofrem todo tipo de preconceito, principalmente nas áreas rurais, onde vive a maioria da população indiana. Os intocáveis são evitados, insultados, proibidos de frequentar templos e casas de castas superiores, obrigados a comer e beber em pratos e copos separados em lugares públicos e em casos extremos, são estuprados, queimados, linchados e baleados.
O estadista indiano Ghandi deu um nome a esse grupo de pessoas, Harijan “povo de deus”, esse grupo soma 160 milhões de pessoas. Apesar de a Constituição da Índia proibir a discriminação de castas e não reconhecer a condição de intocável, o hinduísmo, religião da maioria da população indiana governa a vida diária com seus rígidos códigos sociais. Um pai ou uma mãe intocável geram filhos intocáveis marcados como impuros desde o momento em que começam a respirar.
Antes da constituição de 1950 eles eram obrigados a usar sinos para alertar sobre sua aproximação e carregavam baldes para não contaminar o chão ao cuspir. Se a sombra deles tocasse alguém de uma casta superior eles eram espancados.
Os intocáveis executam o “trabalho sujo” da sociedade – atividade que exige contato físico com sangue e excrementos humanos. Os intocáveis cremam os mortos, limpam latrinas, cortam cordões umbilicais, removem animais mortos da rua, curtem couro, varrem sarjetas. Esses trabalhos e a condição de intocável são transmitidos aos descendentes. Mesmo os numerosos intocáveis que exercem serviços “limpos”, principalmente trabalhos agrícolas mal remunerados em terras de grandes proprietários, são considerados impuros.

Da invasão Persa ao império Gupta


Em 521 a.C, forças do imperador Dario, da Persia, situada na região do atual Irã, invadiram e conquistaram todo o território do rio Indo. Dois séculos depois, entre 333 a.C e 326 a.C., o imperador Alexandre, da Macedônia, venceu os persas e anexou a região do Indo a seu Império. A reação dos antigos habitantes do vale do Indo ocorreu em 321 a.C., quando um guerreiro de nome Chandragupta Mauria unificou seu povo, expulsou os macedônios e fundou o Império mauria, cujo território ocupava quase toda a Índia atual. O período Gupta se destacou pela arte e literatura das ciências, matemática, esse período também é conhecido popularmente como "idade do ouro". O império mauria entrou em declínio após a morte do imperador Asoka, neto de Chandragupta, em 232 a.C. A partir de então, seu território se fragmentou em diversos reinos. Somente em 320 d.C, a região dos rios Indo e Ganges seria reunificada, agora sob o Império gupta.

Os Três deuses mais poderosos do hinduísmo

São três os deuses mais importantes do Hinduísmo, Shiva, Brahma e Vishnu eles formam a trindade da religião. a chamada Trimurti. Brahma é o primeiro deus da trimurti, mas não recebe tanta importância quanto Shiva e Vishnu.

A arte da Índia Antiga


Nas obras de arte criadas na Antiguidade Indiana é comum a representação de deuses e mortais realizando diversas ações.
Duas tradições antigas são representadas pelas artes gandhara e mathura, porém esta fase da arte indiana chegou ao apogeu um pouco mais tarde, na era Gupta que atingiu sua melhor expressão no século V d.C.. A pintura (especialmente em Ajanta) e a escultura alcançaram novos patamares, estabelecendo-se também a grande era da construção de templos. Estes, aliás, continuaram a representar o principal foco do desenvolvimento artístico da Índia e no seu esplendor e beleza de decoração podem em muitos casos ser comparados às grandes catedrais românicas e góticas européias: os templos de Elephanta, Ellora e Khajuraho estão entre os mais notáveis.

Taj Mahal


O Taj Mahal é o monumento mais conhecido da Índia, construído na cidade de Agra faz parte do patrimônio histórico da humanidade, em 2007 foi anunciado como uma das Sete Novas Maravilhas do Mundo Moderno, construído todo em mármore branco pelo Imperador Shah Jahan em homenagem à sua esposa favorita que morreu após dar a luz ao seu décimo quarto filho. O monumento foi construído sobre seu túmulo junto ao rio Yamuna. Considerado um monumento ao amor contendo inscrições retiradas do Corão, encrustado com pedras semi preciosas e sua cúpula é costurada por fios de ouro, o Taj Mahal é considerado a mais bela construção na Índia.

CARDOSO, Oldimar. coleção Tudo é História. ensino fundamental.

A Organização Social da Índia

De acordo com o vedismo, cada pessoa nasce com funções e papéis pré-definidos na sociedade. Estes eram determinados por ordem divina e não podiam ser alterados.
Tal crença influenciava toda sociedade hindu, que se encontrava rigidamente dividida em grupos hierarquizados, denominados castas. Não existia qualquer possibilidade de uma pessoa mudar de uma casta para outra.
Desde o seu nascimento, a pessoa tinha determinado onde poderia morar, quem poderia desposar (casar), que atividades exerceria e até mesmo o modo de se vestir e o que comer.
A esperança dos hindus era a reencarnação, o contínuo renascer da alma para alcançar estágios mais puros. Isso significava que, em uma vida futura, qualquer indivíduo poderia nascer em uma casta mais elevada.
A organização social da Índia compreendia inúmeras castas. No topo da hierarquia, destacavam-se:

Brâmanes – Sacerdotes que tinham acesso aos textos sagrados e eram responsáveis por sua aplicação.

Guerreiros - Defendiam o território e ocupavam cargos políticos.

Mercadores – Eram aqueles que se dedicavam ao comércio


Brâmane Anjum

Havia ainda os párias ou intocáveis. Considerados impuros, pertenciam a uma casta social inferior. De modo geral, realizavam atividades em que lidavam com animais mortos ou dejetos humanos. Eram sapateiros, curtidores, coveiros, limpadores de fossa.

Nelson Piletti. Claudino Piletti. Thiago Tremonte. História e Vida Integrada. ensino fundamental

Religiões da Índia

Inúmeras religiões se desenvolveram na península da Índia, algumas delas praticadas até hoje por milhões de pessoas. O vedismo, o bramanismo e o budismo são algumas dessas religiões.
O vedismo e o bramanismo são orientados pelos Vedas, conjunto de escrituras sagradas composto de quatro livros que reúnem orações, hinos, poemas., preceitos litúrgicos e narrativas. O budismo possui origem distinta, isto é, não está relacionado ao vedismo nem ao bramanismo.
Vedismo – Antiga religião dos Hindus, contava com diversos deuses ligados aos elementos da natureza, como Agni (deus do fogo) e Indra (deus das tempestades).
Bramanismo – Os brâmanes (ou sacerdotes) ganharam destaque dentro do vedismo e modificaram as práticas religiosas. O bramanismo, como então ficou conhecido, passou a ter como preceitos fundamentais o respeito à ordem cósmica, a obediência ao destino e o dever de pureza, base do sistema de castas. O pensamento religioso do bramanismo, tem como princípio o Braman (que significa o absoluto, a totalidade, o supremo), do qual tudo deriva. Os diversos deuses são personificados de seus aspectos: os principais são Brahma (criador), Vishnu (conservador/preservador) e Shiva (destruidor), que formam a última trindade. O bramanismo prega ainda que a alma está sujeita a uma sucessão de vidas e renascimentos (reencarnação), que só se esgota ao atingir o grau supremo de pureza (libertação). A partir do século III de nossa era, o bramanismo passou a ser conhecido como hinduísmo.

Budismo – Religião fundada por Sidarta Gautama, o Buda, no século V a.C. Buda nasceu na região do Himalaia em 480 a.C. e morreu aos 80 anos. Segundo a tradição, seus ensinamentos foram transmitidos oralmente aos seguidores e apenas séculos depois ganharam uma versão escrita. De acordo com esses ensinamentos, nada seria permanente ou indestrutível, sobretudo a realidade, sempre mutável. Os budistas acreditavam que o universo não possuía uma ordem pré-definida, como pregavam os hinduístas. Por isso, negavam o sistema de castas. A doutrina fundamental do budismo compreende as chamadas quatro nobres verdades: a vida é dor; a causa da dor é o desejo; o fim do desejo é obtido pela prática das regras morais e da disciplina ascética. Enquanto o indivíduo não se liberta do desejo, está submetido ao ciclo do renascimento.

Nelson Piletti, Claudino Piletti, Thiago Tremonte. História e Vida Integrada.

Gandhi e a Marcha do Sal

Em 1930, o líder Mahatma Gandhi iniciou uma campanha de desobediência civil com um gesto que ganhou repercussão em todo mundo.
À frente de um grupo de oitenta pessoas, no dia 12 de março de 1930 Gandhi saiu de Ahmadabad, onde morava, e caminhou 400 quilômetros até Dandi, na costa oeste do país, onde chegou no dia 6 de abril. Dirigindo-se ao mar, recolheu o sal que secara na areia. Fazer isso era proibido, pois havia uma lei que dava à Inglaterra o monopólio sobre a extração e o comércio de sal.
O governo britânico tentou ignorar o ato, mas não conseguiu conter a onda de protestos que se seguiu ao gesto de Gandhi: piquetes, passeatas, assaltos às salinas. Cerca de 60 mil pessoas foram presas, entre elas o próprio Gandhi. Momentaneamente derrotado, o movimento de desobediência civil e não-violência logo ressurgia sob a liderança de Gandhi, levando a Índia à independência em 1947.

Gislane e Reinaldo. História. ensino médio. volume único


Sobre os Annales: Marc Bloch e Lucian Febvre.

A revista dos Annales foi fundada em 1929 tendo como principais mentores Marc Bloch e Lucian Febvre. A revista se consagrou conjuntamente c...