Da Fabulação Controlada
Do “eclipse” ao “renascimento” da narrativa
Com efeito,
entre os séculos XVI e XVIII, enquanto mantém-se operatória a distinção entre
res gestae (ações realizadas) e historia rerum gestarum (narração), quando a
história relaciona-se intrinsecamente à retórica, a questão da narrativa não se
coloca. A história é, como na expressão ciceroniana historia opus oratorium
maxime, obra oratória por excelência. Isso não significa que ela se exima da
exigência de verdade, equivalendo inclusive a um valor cívico de formação, de
instrução do homem privado, pela recolha de exemplos que a categorizam como
magistra vitae (mestra da vida).
Na segunda
metade do século XVIII, primeiro na Alemanha, abandonam-se progressivamente os
topoi da história retórica, enquanto se expressa um novo regime de
historicidade: a história autonomiza-se, então, do valor de magistra vitae e da
partilha entre ações realizadas e narração. O conceito de Geschichte (história)
postula, agora, uma única história, a história progresso. Num só movimento,
afirma Hartog, “a história fala e diz-se si própria”. Auto-referida e
encontrando em si o seu próprio telos, ela se torna disciplina, ciência
positiva, calcada nos fatos, limitando suas ambições a dizer “como as coisas
efetivamente aconteceram” (wie es eigentlich gewesen ist, na fórmula rankeana),
bastando ao historiador, para tanto, frequentar os arquivos. Hartog identifica
no como (wie) o lugar em que, precisamente, se eclipsa a narrativa. Nesse
regime de historicidade, não cabe a sua problematização: a história é, tão
simplesmente, conhecimento de si mesma.
Num terceiro
regime de historicidade, marcado pela produção dos Annales, a questão da
narrativa aparece como objeto de refutação, na forma da história
événementielle. A narrativa é, ainda, mantida em eclipse, como assegura Hartog,
já que o alvo das discussões não é nada além do acontecimento (4)
Tal como
Paul Ricoeur (5), François Hartog postula, assim, um eclipse da narrativa -
presente, porém nem sempre visível - em sucessivos regimes de historicidade.
Mas Hartog coloca-se no interior de uma perspectiva historiográfica,
historicizando esse ocultamento não deliberado, anterior aos próprios combates
dos Annales contra a história positiva, e datando o seu desvelamento recente
num esboço do que seria o seu próprio (e o nosso) regime de historicidade.
Se, como
lembra Hartog, desde o momento da fundação da Escola dos Annales, foi mantida a
“ambição de mais ciência” (de mais real e de mais verdade), investida na
produção de métodos e modelos científicos e não em contar “o que efetivamente
aconteceu”, o que não foi privilegiado foi o questionamento sobre a narrativa.
Hoje, a
pergunta sugerida por Hartog - inversamente à que se colocaria meio século
antes – é a seguinte: basta “evocar o retorno do acontecimento e do indivíduo
para concluir pelo retorno da narrativa?”. Nos últimos anos, toda uma série de
trabalhos críticos posicionaram a história lado a lado com outras narrativas,
de modo a evidenciar seus parentescos mais importantes ou até mesmo afirmar o
seu estatuto literário (6). Sua expressão mais radicalizada encontra-se em
Hayden White: a história como form of fiction making operation, relacionada
essencialmente ao seu estatuto ficcional (7).
As
consequências dessa produção foram e são ainda inúmeras. Mas, mesmo
considerando que aquilo que o historiador escreve é governado pelas mesmas
regras que estruturam outras formas de narrativa, não se pode negar em absoluto
a dependência do que ele produz em relação aos vestígios, aos traços do
passado, em relação aos critérios de cientificidade – historicamente variáveis
– e às técnicas próprias do ofício (8). Em suma, são justamente as condições de
produção do discurso histórico que exigem que consideremos que, mesmo sendo uma
narrativa, a história perderia a sua especificidade se abandonasse sua
pretensão de dizer o passado que efetivamente aconteceu. Essa relação
específica que mantém com a verdade, problematizada sobretudo a partir da
temível possibilidade de produção de discursos falsos, é portanto a sua marca
diferencial.
A história entre formas literárias e normas de verdade: o estatuto da prova
Segundo
Carlo Ginzburg, que comenta a discussão, a noção de “mentira” implica para
White num sério problema, já que remete aos conceitos de “realidade” e de
“prova”. Ginzburg acusa o ceticismo e o relativismo de White, como fundamento
moral e epistemológico de uma tolerância historica e logicamente insustentável.
E conclui, ao final de seu belo texto Just One Witness (11), que tanto a
memória quanto a sua destruição são elementos recorrentes em história.
De um modo
geral, como na importante discussão travada entre, Vidal-Naquet, Ginzburg e
White, a possibilidade de separação entre a verdade e a mentira ou o verdadeiro
e o falso, condição de possibilidade do conhecimento “científico” sobre o
passado, constitui o cerne da oposição às teses narrativistas. Marcadas por uma
forte influência da lingüística, desde os anos 60, nelas já estariam
prefigurados o relativismo dos tempos pós-estruturalistas vindouros.
Esse
ambiente intelectual dos últimos 20 anos, afirma Carlo Ginzburg no Prefácio à
edição francesa de Lorenzo Valla (12), foi propiciador da oposição entre prova
e retórica. A primeira foi constantemente identificada à historiografia
positivista. A segunda, reificada pelo linguistic turn – que, segundo Ginzburg,
é mais propriamente um rhetoric turn. Só que, para se opor à noção de prova, a
retórica (aristotélica) foi travestida, desde o final dos anos 70, de roupagens
nietzscheanas, atuando como “máquina de guerra cética”, no dizer do historiador
italiano. Trata-se, portanto, de uma retórica auto-referencial, sem provas, ou
melhor, refratária às provas, contrariamente à retórica aristotélica,
construída a partir da eloquência judiciária.
Historiografia, tensa operação
Prática
humana, em geral, a historiografia é, portanto, dependente das coerções do
lugar social (econômico, político, cultural, institucional) em que se articula
a pesquisa, dos procedimentos técnico-científicos e das regras que governam a
sua escrita.
Prática
científica, em particular, a história é épistémè, forma de conhecimento que
pressupõe distinções mais profundas: ficção X ciência ou fantasia X verdade. No
“horizonte da historiografia”, José Américo Pessanha (15) contempla tensões
como essas, sempre presentes, expressas em outras variantes do mesmo binômio
radical sono X vigília: mito X ciência; ser X não-ser ou mesmo X outro ou real
X simulacro; verdadeiro X falso ou razão pura X razão prática; Razão absoluta X
linguagem; descontinuidade X duração, etc. Sem que a história perca de vista
seu estatuto de cientificidade e o seu valor científico, essas tensões podem,
em diferentes momentos, se radicalizar, aumentando ou diminuindo a distância
que separa a prática historiográfica de um ou de outro polo do binômio.
Não mais
alicerçada no “paradigma galileano”, matemático e dedutivo, a escrita da
história teve reduzida, nos últimos anos, a distância que a separava da
atividade literária. “Importante ressaltar: essa forma de conceber a história
enquanto narrativa não faz dela ficção; a arbitragem – não o arbítrio – do
historiador não se confunde com o ato de vontade que institui ou cria ficções.
Se inevitavelmente “fabula”, ao valorar, selecionar e ligar eventos ou momentos
isolados, ao relacionar elementos dispersos no tempo e no espaço realiza uma
fabulação controlada pelo auditório de especialistas diante do qual a tese que
defende – como advogado perante um tribunal – é permanentemente julgada por
meio de argumentos e contra-argumentos” (16).
Pessanha
inscreve, assim, a produção histórica numa dimensão jurídica: processo (no
sentido jurídico do termo) encaminhado com a arbitragem dos historiadores. A
referência, mais uma vez, é Chaim Perelman, que aponta para a importância da
retórica argumentativa, persuasiva, para a prática historiográfica.
Esta é uma
iniciativa de alunos do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e este é um espaço público onde
todas as colaborações políticas, acadêmicas e artísticas são bem vindas.
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