quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Historiografia: Da Fabulação Controlada

 Da Fabulação Controlada


Andréa Daher
Professora Adjunta de Teoria e Metodologia da História da UFRJ

“Como todo discurso se faz, se resolve e se considera na afirmativa e na negativa daquilo que compreende, separaremos o ponto da Verdade da História em dois, no Verdadeiro e no Falso. Depois dividiremos cada um em dois, para melhor mostrar que não é suficiente exprimir francamente tudo que se sabe de bem e de mal, de verdadeiro ou falso [...] A Verdade é tão natural à História que todos lhe conferem como primeira lei Que ela não tema dizer o verdadeiro. E como Segunda Que ela não tema descobrir o falso.”

Com essas palavras, Henri Lancelot de La Popelinière abre o capitulo Da Verdade da História do segundo tomo de A História das Histórias, editado em 1599, em Paris (1). Contra as linhas mestras de um regime de historicidade em que história e retórica eram aliadas inseparáveis, uma geração pouco conhecida de historiadores, à qual pertencia La Popelinière, buscou deliberadamente romper esse elo para vincular a pesquisa histórica à erudição. O leitor contemporâneo, pouco familiarizado, no entanto, com as posições assumidas pelos historiadores da também chamada Histoire Nouvelle do século XVI, não se surpreenderá ao perceber que a história é, para eles, pesquisa, e não gênero literário. Trata-se, para esses historiadores, de distinguirem-se daqueles “que buscam mais o fervor de uma eloquência tomada de empréstimo [...] do que a verdade, recomendada acima de todos os sacrifícios mundanos” (2).

Mesmo com caráter de excepcionalidade, os “novos historiadores”, na contra-corrente da história-retórica, buscam, assim, qualificar a história como atividade de erudição, não mais submetendo-a à classificação de literatura tradicional. Este seria, segundo G. Huppert, um primeiro ato da historiografia moderna. Nele já estão ensaiados, tanto o problema do estatuto literário do texto histórico quanto o da separação entre o verdadeiro e o falso. Questão também de retórica; mas de que retórica?

Do “eclipse” ao “renascimento” da narrativa


Num artigo recentemente publicado no Brasil, o historiador francês François Hartog, propõe pensar a relação entre história e narrativa, a partir de alguns regimes de historicidade precisos (3).

Com efeito, entre os séculos XVI e XVIII, enquanto mantém-se operatória a distinção entre res gestae (ações realizadas) e historia rerum gestarum (narração), quando a história relaciona-se intrinsecamente à retórica, a questão da narrativa não se coloca. A história é, como na expressão ciceroniana historia opus oratorium maxime, obra oratória por excelência. Isso não significa que ela se exima da exigência de verdade, equivalendo inclusive a um valor cívico de formação, de instrução do homem privado, pela recolha de exemplos que a categorizam como magistra vitae (mestra da vida).

Na segunda metade do século XVIII, primeiro na Alemanha, abandonam-se progressivamente os topoi da história retórica, enquanto se expressa um novo regime de historicidade: a história autonomiza-se, então, do valor de magistra vitae e da partilha entre ações realizadas e narração. O conceito de Geschichte (história) postula, agora, uma única história, a história progresso. Num só movimento, afirma Hartog, “a história fala e diz-se si própria”. Auto-referida e encontrando em si o seu próprio telos, ela se torna disciplina, ciência positiva, calcada nos fatos, limitando suas ambições a dizer “como as coisas efetivamente aconteceram” (wie es eigentlich gewesen ist, na fórmula rankeana), bastando ao historiador, para tanto, frequentar os arquivos. Hartog identifica no como (wie) o lugar em que, precisamente, se eclipsa a narrativa. Nesse regime de historicidade, não cabe a sua problematização: a história é, tão simplesmente, conhecimento de si mesma.

Num terceiro regime de historicidade, marcado pela produção dos Annales, a questão da narrativa aparece como objeto de refutação, na forma da história événementielle. A narrativa é, ainda, mantida em eclipse, como assegura Hartog, já que o alvo das discussões não é nada além do acontecimento (4)

Tal como Paul Ricoeur (5), François Hartog postula, assim, um eclipse da narrativa - presente, porém nem sempre visível - em sucessivos regimes de historicidade. Mas Hartog coloca-se no interior de uma perspectiva historiográfica, historicizando esse ocultamento não deliberado, anterior aos próprios combates dos Annales contra a história positiva, e datando o seu desvelamento recente num esboço do que seria o seu próprio (e o nosso) regime de historicidade.

Se, como lembra Hartog, desde o momento da fundação da Escola dos Annales, foi mantida a “ambição de mais ciência” (de mais real e de mais verdade), investida na produção de métodos e modelos científicos e não em contar “o que efetivamente aconteceu”, o que não foi privilegiado foi o questionamento sobre a narrativa.

Hoje, a pergunta sugerida por Hartog - inversamente à que se colocaria meio século antes – é a seguinte: basta “evocar o retorno do acontecimento e do indivíduo para concluir pelo retorno da narrativa?”. Nos últimos anos, toda uma série de trabalhos críticos posicionaram a história lado a lado com outras narrativas, de modo a evidenciar seus parentescos mais importantes ou até mesmo afirmar o seu estatuto literário (6). Sua expressão mais radicalizada encontra-se em Hayden White: a história como form of fiction making operation, relacionada essencialmente ao seu estatuto ficcional (7).

As consequências dessa produção foram e são ainda inúmeras. Mas, mesmo considerando que aquilo que o historiador escreve é governado pelas mesmas regras que estruturam outras formas de narrativa, não se pode negar em absoluto a dependência do que ele produz em relação aos vestígios, aos traços do passado, em relação aos critérios de cientificidade – historicamente variáveis – e às técnicas próprias do ofício (8). Em suma, são justamente as condições de produção do discurso histórico que exigem que consideremos que, mesmo sendo uma narrativa, a história perderia a sua especificidade se abandonasse sua pretensão de dizer o passado que efetivamente aconteceu. Essa relação específica que mantém com a verdade, problematizada sobretudo a partir da temível possibilidade de produção de discursos falsos, é portanto a sua marca diferencial.

É possível, a partir daí, seguirmos mais de perto as proposições de P.Vidal-Naquet contra os diversos revisionismos do genocídio hitleriano, em particular contra as teses negacionistas de R. Faurisson. De um modo geral, nesses discursos, afirma Vidal-Naquet, “trata-se simplesmente de substituir a insuportável verdade pela mentira asseguradora” (9). Nesse caso, diz ainda, estamos no terreno em que o falso se opõe frontalmente ao verdadeiro”, independente de toda interpretação possível, “terreno da história positiva, de como as coisas efetivamente aconteceram”.

A história entre formas literárias e normas de verdade: o estatuto da prova


Hayden White, embora afirmando sua total rejeição por toda ideologia fascista, refuta as asserções de Vidal Naquet, situadas “no terreno da história positiva”, sobre as “mentiras” veiculadas por R. Faurisson sobre o extermínio dos judeus (10). “A distinção - afirma White - entre uma mentira e um erro ou uma falha de interpretação pode ser mais difícil de estabelecer no que diz respeito a eventos históricos menos amplamente documentados do que o Holocausto”.

Segundo Carlo Ginzburg, que comenta a discussão, a noção de “mentira” implica para White num sério problema, já que remete aos conceitos de “realidade” e de “prova”. Ginzburg acusa o ceticismo e o relativismo de White, como fundamento moral e epistemológico de uma tolerância historica e logicamente insustentável. E conclui, ao final de seu belo texto Just One Witness (11), que tanto a memória quanto a sua destruição são elementos recorrentes em história.

De um modo geral, como na importante discussão travada entre, Vidal-Naquet, Ginzburg e White, a possibilidade de separação entre a verdade e a mentira ou o verdadeiro e o falso, condição de possibilidade do conhecimento “científico” sobre o passado, constitui o cerne da oposição às teses narrativistas. Marcadas por uma forte influência da lingüística, desde os anos 60, nelas já estariam prefigurados o relativismo dos tempos pós-estruturalistas vindouros.

Esse ambiente intelectual dos últimos 20 anos, afirma Carlo Ginzburg no Prefácio à edição francesa de Lorenzo Valla (12), foi propiciador da oposição entre prova e retórica. A primeira foi constantemente identificada à historiografia positivista. A segunda, reificada pelo linguistic turn – que, segundo Ginzburg, é mais propriamente um rhetoric turn. Só que, para se opor à noção de prova, a retórica (aristotélica) foi travestida, desde o final dos anos 70, de roupagens nietzscheanas, atuando como “máquina de guerra cética”, no dizer do historiador italiano. Trata-se, portanto, de uma retórica auto-referencial, sem provas, ou melhor, refratária às provas, contrariamente à retórica aristotélica, construída a partir da eloquência judiciária.

Uma exceção nesse cenário contemporâneo, lembra Ginzburg: a de Chaim Perelman (13), que propôs-se a pensar a história a partir do estatuto científico da prova, como prática (discursiva) argumentativa, persuasiva e retórica. Perelman restitui, assim, no discurso histórico, a dimensão da retórica aristotélica, concebendo a aliança entre prova e técnicas argumentativas, e com ela a possibilidade de dizer a realidade passada e de separar o verdadeiro do falso.

Historiografia, tensa operação


Recusar a redução da história à atividade literária, sem com isso fazer com que assuma “um estatuto científico forte”, posiciona-nos mais uma vez frente à questão fundamental colocada por Michel de Certeau, em meados dos anos 70: “o que fabrica o historiador ao 'fazer história'?”. E à resposta: “Considerar a história como uma operação será tentar, de um modo necessariamente limitado, compreendê-la como a relação entre um lugar (um recrutamento, um meio, um ofício, etc.), procedimentos de análise (uma disciplina) e a construção de um texto (uma literatura). É admitir que ela faz parte da 'realidade' de que trata, e essa realidade pode ser compreendida 'como atividade humana', 'como prática'. Nessa perspectiva, gostaria de mostrar que a operação histórica se refere à combinação de um lugar social, de práticas 'científicas' e de uma escrita” (14).

Prática humana, em geral, a historiografia é, portanto, dependente das coerções do lugar social (econômico, político, cultural, institucional) em que se articula a pesquisa, dos procedimentos técnico-científicos e das regras que governam a sua escrita.

Prática científica, em particular, a história é épistémè, forma de conhecimento que pressupõe distinções mais profundas: ficção X ciência ou fantasia X verdade. No “horizonte da historiografia”, José Américo Pessanha (15) contempla tensões como essas, sempre presentes, expressas em outras variantes do mesmo binômio radical sono X vigília: mito X ciência; ser X não-ser ou mesmo X outro ou real X simulacro; verdadeiro X falso ou razão pura X razão prática; Razão absoluta X linguagem; descontinuidade X duração, etc. Sem que a história perca de vista seu estatuto de cientificidade e o seu valor científico, essas tensões podem, em diferentes momentos, se radicalizar, aumentando ou diminuindo a distância que separa a prática historiográfica de um ou de outro polo do binômio.

Não mais alicerçada no “paradigma galileano”, matemático e dedutivo, a escrita da história teve reduzida, nos últimos anos, a distância que a separava da atividade literária. “Importante ressaltar: essa forma de conceber a história enquanto narrativa não faz dela ficção; a arbitragem – não o arbítrio – do historiador não se confunde com o ato de vontade que institui ou cria ficções. Se inevitavelmente “fabula”, ao valorar, selecionar e ligar eventos ou momentos isolados, ao relacionar elementos dispersos no tempo e no espaço realiza uma fabulação controlada pelo auditório de especialistas diante do qual a tese que defende – como advogado perante um tribunal – é permanentemente julgada por meio de argumentos e contra-argumentos” (16).

Pessanha inscreve, assim, a produção histórica numa dimensão jurídica: processo (no sentido jurídico do termo) encaminhado com a arbitragem dos historiadores. A referência, mais uma vez, é Chaim Perelman, que aponta para a importância da retórica argumentativa, persuasiva, para a prática historiográfica.

O texto histórico não mais se encontrará obrigatoriamente atrelado à reivindicação do seu estatuto literário, acima de qualquer outro, a partir do momento em que o historiador assumir que narra, fabula (do verbo fari, falar), articulando coerentemente representações históricas, figuras retóricas e enunciados científicos. É essa articulação que faz da historiografia muito mais do que uma soma de textos específicos, mas uma intensa operação.

1() H. L. de LA POPELINIÈRE. L'Histoire des Histoires. Avec l´idée de l´Histoire accomplie. Paris, Chez Marc Orry, 1599 (edição recente: Paris, Fayard, 1989, vol. II, p. 38). 2() LA POPELINIÈRE, citado por G. HUPPERT. L´idée d´Histoire parfaite. Paris, Flammarion, 1973, p. 186. 3() F. HARTOG. “ A arte da narrativa histórica”. In: Passados recompostos. Campos e canteiros da História. Rio de Janeiro, Editora UFRJ/Editora FGV, 1998, pp. 193-202. 4() Um erro de tradução, na página 195 da edição citada na nota anterior, deve ser aqui retificado: a frase de Lucien Febvre é “Os fatos são feitos” (e não “Os fatos são fatos”). Hartog, ao citá-la, quer mostrar que o cerne dos combates da história, nesse regime de historicidade, é o acontecimento, e não a narrativa. Assim, Febvre aproxima o historiador do cientista (histologista), que “faz”, “prepara” o seu objeto, e não do romancista que constrói a ficção. 5() Paul RICOEUR. Temps et récit. Paris, Seuil, 1983 (3 tomos). 6() Citemos, além da obra de Paul Ricoeur, os trabalhos de Lawrence Stone, Paul Veyne, e Michel de Certeau. 7() De H. WHITE, editados no Brasil, temos: Metahistória. São Paulo, EDUSP, 1995 e Trópicos do discurso. São Paulo, EDUSP, 1994. 8() R. CHARTIER. Au bord de la falaise. Paris, Albin Michel, 1998, p. 103. 9() P. VIDAL-NAQUET. Les juifs, la mémoire et le présent. Paris, PCM/Maspero, 1981, p. 217. 10() H. WHITE. The Content of the Form, Baltimore, 1987, p. 77. 11() C. GINZBURG. “Just One Witness” . In: Saul FRIEDLANDER (org.) Probing the Limits of Representation. Nazism and the 'Final Solution'. Cambridge/Londres, Harvard University Press, 1992, pp. 82-96. 12() C. GINZBURG. Prefácio a LORENZO VALLA. La Donation de Constantin. Paris, Belles Lettres, 1993, pp. ix-xxi. 13() De Chaim PERELMAN (e L. OLBRECHT-TYTECA), dentre outras obras editadas no Brasil, temos o importante Tratado da argumentação. São Paulo, Martins Fontes, 1996. 14() M. de CERTEAU. “A operação historiográfica”. In: A escrita da história. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 1982, pp. 65-119. 15() J. A. PESSANHA “O sono e a vigília”. In: NOVAES, A. Tempo e história. São Paulo, Cia. das Letras/SMC, 1992, pp. 9-18. 16() Idem, p. 50. 

Esta é uma iniciativa de alunos do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e este é um espaço público onde todas as colaborações políticas, acadêmicas e artísticas são bem vindas.

Nenhum comentário:

Sobre os Annales: Marc Bloch e Lucian Febvre.

A revista dos Annales foi fundada em 1929 tendo como principais mentores Marc Bloch e Lucian Febvre. A revista se consagrou conjuntamente c...