domingo, 27 de setembro de 2026

Teoria Marxista


Parte I

Partindo da teoria do valor, exposta por David Ricardo, Karl Marx, seu principal propugnador, postulou que o valor de um bem é determinado pela quantidade de trabalho socialmente necessário para sua produção. Segundo Marx, o lucro não se realiza por meio da troca de mercadorias, que se trocam geralmente por seu valor, mas sim em sua produção. Os trabalhadores não recebem o valor correspondente a seu trabalho, mas só o necessário para sua sobrevivência. Nascia assim o conceito da mais-valia, diferença entre o valor incorporado a um bem e a remuneração do trabalho que foi necessário para sua produção. Não é essa, porém, para Marx, a característica essencial do sistema capitalista, mas precisamente a apropriação privada dessa mais-valia. A partir dessas considerações, Marx elaborou sua crítica do capitalismo numa obra que transcendeu os limites da pura economia e se converteu numa reflexão geral sobre o homem, a sociedade e a história

A Teoria do Valor de Marx

Marx alterou alguns fundamentos da Economia Clássica, estabelecendo uma distinção entre valor de uso e valor de troca:

Valor de Uso: Representa a utilidade que o bem proporciona à pessoa que o possui

Valor de Troca: Este exige um valor de uso, mas não depende dele.

Tal como Ricardo, Marx acredita que o Valor de Troca depende da quantidade de trabalho despendida, contudo, a quantidade de trabalho que entre no valor de toca é a quantidade socialmente necessária (Quantidade que o Trabalhador Gasta em média na Sociedade, e que obviamente, varia de Sociedade para Sociedade).

Como facilmente pressupões, Marx defendia a teoria da exploração do trabalhador.

Marx dizia que só o trabalho dava valor às mercadorias, a tal Mais Valia, que referi no trabalho sobre Karl Marx.

Equipamentos, não davam valor, apenas transmitiam uma parte do seu valor às mercadorias, não contribuindo portanto para a formação de valor.

Pelo contrário, o Homem através do seu trabalho fazia com que as matérias primas e os equipamentos transmitissem o seu valor ao bem final, e ainda por cima criava valor acrescentado (Por exemplo, no Capital Marx falava do exemplo das fiandeiras, que pegavam no algodão e o transformavam por exemplo em camisolas, criado um valor acrescentado que só mesmo o Trabalho Humano pode dar).

Para Marx existe uma apropriação do fruto do Trabalho, que contudo não pode ser considerado um roubo pelo Capitalista, porque ao fim ao cabo, o Trabalhador está a ser pago para fazer aquele trabalho.

O Valor é formado tendo em conta o seu custo em termos de trabalho, desse valor o Capitalista apropria-se da Mais Valia através da utilização do seu Capital.

Toda esta teoria da repartição do Rendimento, leva-nos para um conceito fundamental em Marx que é precisamente o da Mais Valia .

Mais Valia

Portanto Marx afirmava que a força de trabalho era transformada em mercadoria, o valor de força de trabalho corresponde ao Socialmente necessário.

Tudo estaria bem, contudo o valor deste Socialmente Necessário é um problema.

Na realidade o que o trabalhador recebe é o salário de Subsistência, que é o mínimo que assegura a manutenção e reprodução do trabalho.

Mas apesar de receber um salário, o trabalhador acaba por criar um valor acrescentado durante o processo de produção, ou seja, fornece mais do que aquilo que custo, é esta diferença que Marx chama de Mais Valia.

A Mais Valia não pode ser considerado um roubo pois é apenas fruto da propriedade privada dos meios de produção.

Mas, os Capitalistas e os proprietários, procuram aumentar os seus rendimentos diminuindo o rendimento dos trabalhadores, é pois esta situação de exploração da Força de Trabalho pelo Capital que Marx mais critica.

Marx critica a essência do Capitalismo, que reside precisamente na exploração da força de trabalho pelo Produtor Capitalista, e que segundo Marx, um dia haverá de levar à revolução social.


Karl Marx - Parte II

As Contradições do Sistema Capitalista

A subordinação da classe trabalhadora

Karl Marx defende que o trabalhador é origem do valor. Sendo ele a origem do valor, entretanto há uma tendência para o empobrecimento do Trabalhor.

A Oferta do Trabalho depende da evolução demográfica, da procura do Capital Investido e também do Progresso.

O Progresso técnico é inerente ao Capitalismo, logo com o progresso técnico a procura de trabalho tende a descer.

Marx diz também que a baixa na procura do trabalho não leva a diminuições sucessivas do trabalho, pois os Sindicatos não o permitem, contudo, os operários são reduzidos à miséria pois não podem trabalhar.

Há primeira vista a ideia de Marx é bem formulada. É inegável que, não obstante todas as vantagens produtivas que o progresso técnico traz, ele costuma acarretar uma descida na quantidade de trabalho procurada.

O que Marx não diz, é que o progresso técnico também criar novos postos de trabalhos. Ou seja, com o progresso técnico surgem novos postos de trabalho que antes não existiam. Isto cria um problema aos trabalhadores menos qualificados, que terão de se reciclar para poderem trabalhar nos novos empregos.

No Total, o progresso técnico acaba por não ter grande influência ao nível da Oferta de Trabalho. Os empregos perdido, são compensados pelos novos empregos. Agora o grande problema é para os trabalhadores menos qualificados, que vêm os seus antigos trabalhos a perderem valor, e que tem de se reciclar para fazer frente às novas exigências.

Tendência para a Diminuição da Taxa de Lucro

Para Marx, a Taxa de Lucro era o rácio da Mais Valia - MV - sobre a soma do Capital (capital constante - C - mais capital variável - v - ).

Se C/V for igualado a X. Temos que C=XV, logo a Taxa de Lucro = MV/v(1+x) = MV/v * 1/(1+x).

Ora a tendência do Capitalista é a acumulação de Capital. Isto implica um aumento de X (Derivado da inovação tecnológica utiliza-se cada vez mais máquinas, logo, sobe o peso do Capital Constante).

Ora aumentando X (Pois o valor de C aumentou), aplicando a fórmula acima, facilmente se vê que a taxa de lucro desce.

Para Marx este movimento pode ser contrariado pela exploração da Força de Trabalho (aumentado dessa forma o V, o que implicará um aumento da Mais Valia (MV), logo um aumento da taxa de Lucro).

Esta análise está fortemente condicionada pela análise do Valor que Marx faz. Para Marx apenas a Força do Trabalho cria Valor, pois o restante capital (meios de produção) apenas o transmite.

Segundo esta lógica, há de facto uma tendência para a baixa taxa de lucro.

que Marx não refere (e convém sempre salientar que toda a análise tem que se enquadrado no seu ambiente histórico) é que o Progresso Tecnológico reduz os custos dessa mesma Tecnologia (Ou seja o V não aumenta mas sim diminui).

Também não leva em consideração na sua análises os efeitos da crescente produtividade. Ora mantendo a mesma força de trabalho, a mesma quantidade de trabalho gera mais valor, por via do crescimento da sua produtividade do trabalho (ou seja, a Mais Valia de cada Trabalhador também aumenta).

Logo, não existe uma tendência para a baixa da taxa de lucro, mas sim uma tendência para a subida da taxa de lucro.

O Raciocínio de Marx, caso não tomássemos em consideração os efeitos do crescimento da produtividade, está completamente certo. Contudo, o aumento da produtividade do trabalho, aumenta a Mais Valia de cada trabalhador, e o progresso tecnológico diminui os custos dos Meios de Produção.

Temos pois que a tendência do Sistema Capitalista é a subida da taxa de Lucro, por via de: - Aumento da Mais Valia (por causa da subida da produtividade de cada trabalhador), e diminuição dos custos do Capital Constante (por causa do progresso tecnológico).

Etapa Monopolista

Visto que a tendência do Capitalista é a acumulação, há uma tendência para a baixa dos preços.

Se os preços descem, existem empresas que não podem produzir (pois não conseguem gerar lucros com esse nível de preços), como não conseguem produzir, desaparecem.

Com o desaparecimento das empresas não competitivas, a Indústria tende a concentrar-se nas poucas empresas que conseguem acompanhar o nível de preços, mantendo-se lucrativas.

Para Marx, a Contradição reside no fato de se perder a essência do Capitalismo. Pois deixa de haver concorrência há medida que a concentração aumenta.

Aqui Marx tem toda a razão. Os Progresso tecnológicos e ciêntificos, levam a que os custos de produção das empresas baixem consideravelmente. Baixando os custos de produção, as empresas podem aplicar preços de venda mais baixas.

Aquelas empresas que não conseguem acompanhar o ritmo, por não terem tecnologia suficiente, e principalmente capital para acompanhas as inovações Tecnológicas, são obrigadas a cessar a sua atividade (pois o novo nível de preços, não lhes permite acompanhar as empresas mais modernas).

A Tendência do Capitalismo é pois a concentração, pois nem todos conseguem acompanhar o progresso tecnológico, e a descida dos preços de produção, sendo forçadas a abdicar da actividade.

Conclusão

Marx encontrou pois as 4 grandes contradições do Sistema Capitalista.

Em toda análise que se faça a qualquer trabalho ou ideia, temos que enquadrar sempre na realidade atual.
Ora em relação a estas 4 grandes contradições, Marx falha ao não referir que o progresso tecnológico também cria novos empregos (para os mais qualificados), e também falha na sua análise da tendência para a Baixa da Taxa de Lucro (como vimos influenciada pela sua noção da teoria do valor, e por mais uma vez negligenciar os efeitos do progresso tecnológico).

Produção do Valor de Uso e da Mais Valia

O uso da Força de Trabalho é o Trabalho. Este deve ser útil para realizar valores de uso. O processo de trabalho é composto por: atividade do homem, objeto de trabalho e meios de trabalho

Uma matéria prima é um objeto já trabalhado. O que distingue uma época economica de outra são os meios de trabalho, verificando-se que a quantidade de mão de obra diminui com a evolução dos meios.

O capital compra pois o valor de uso da força de trabalho, sendo esta sua pertença. Contudo, ela não quer apenas produzir uma coisa útil, quer acima de tudo uma mais valia, que o valor desta mercadoria ultrapasse o das mercadorias necessárias para o produzir».

O valor desta mercadoria é determinado pelo tempo socialmente necessário à sua produção (se for despendido mais tempo ou usados instrumentos mais caros, o capitalista só estará a perder dinheiro). Para Marx só o trabalho humano cria valor, as matérias e as matérias primas não criam apenas o transferem quando são trabalhadas pelo homem.

Como é que se forma exatamente a mais valia?

O capitalista comprou a força de trabalho por um valor (valor que permita a subsistência do trabalhador, a sua reprodução, instrução, manutenção e que varia de sociedade para sociedade).

Passa a ser detentor de uma mercadoria, adquirindo o seu valor de uso, criando esta mercadoria uma valor superior ao que ela vale.

é através do chamado Sobretrabalho (por exemplo, nas 5 primeiras horas ele reproduz o valor do seu salário, mas acaba por trabalhar mais tempo). é neste tempo extra (que o capitalista tenta prolongar ao máximo) que ele trabalha e não é pago que é criada a mais valia.

Ou seja, a mais valia surge do fato do trabalhador trabalhar mais do que o socialmente necessário, e é este excedente não pago que o capitalista se apropria e se chama MAIS VALIA. A produção da Mais valia não é mais do que a produção de valor, prolongada para além de certo ponto. Se o processo se trabalho só durar até ao ponto em que o valor da Força de Trabalho paga pelo capital é substituída por um novo equivalente, haverá simples produção de valor, quando ultrapassar este limite haverá produção de mais valia

A taxa de Mais Valia

Acabada a produção obtemos uma mercadoria igual a c+v+c (sendo c o capital constante, v o capital variável, e p a mais valia).

A mais valia proporcional (relação de quanto ganhou em valor o capital variável) é nos dada pela relação da mais valia com o capital variável (p/v). Esta é a taxa de mais valia.

A parte do dia em que o trabalhador produz o valor da sua força de trabalho é menor ou maior consoante o valor da sua subsistência diária. Marx define «Tempo de trabalho necessário à parte do dia em que se realiza a reprodução da sua força de trabalho, e trabalho necessário ao trabalho dispendido neste tempo, necessário para o trabalhador e para o Capitalista».

O período extra não constituiu nenhum valor para o operário mas é essencial ao capitalista, chamando-lhe Marx de Sobretrabalho. Para Marx as diferentes formas económicas da sociedade, apenas se distinguem pela forma como este sobretrabalho é imposto. A Taxa de Mais valia pode também ser Sobretrabalho/Trabalho necessário.

A é pois «a expressão exacta do grau de exploração da força de trabalho pelo capital». A soma do trabalho necessário com o Sobretrabalho constituiu o Dia de Trabalho.

Capital Constante e Capital Variável

Para Marx importa distinguir entre dois tipos de capital:

Capital Constante: Capital Investido em Meios de Produção, Constante porque o seu valor não muda no processo produtivo.

Capital Variável: Capital Investido na Força de Trabalho, Variável porque produz um valor diferente consoante a intensidade da sua utilização.

Os meios de produção só transmitem valor na medida em que perdem valor, ou seja, não podem acrescentar ao produto mais do que possuem, daí Marx defini-los como Capital Constante que sendo condição de criação de mais valia, não produz per si Mais Valia.

Por outro lado, o Trabalho conserva e transmite o valor dos meios de produção ao Produto. Reproduz o seu próprio equivalente e além disso gera uma mais valia engendrada no trabalho extra que pode ser maior ou menor consoante a sua duração. A Mais Valia depende pois, do Grau de exploração da Força de Trabalho.

Sendo a taxa de Mais valia dada por (Sobretrabalho/Trabalho necessário) ela não nos daria de forma nenhuma reciprocamente a grandeza do dia de trabalho. Se a taxa de Mais valia fosse de 100% apenas nos indicaria que as 2 partes do dia eram iguais, não nos indicaria o tempo de cada uma dessas partes.

O dia de trabalho não é fixo e possuiu limite.

Teoricamente o limite mínimo é o tempo em que o trabalhador opera para a sua conservação , contudo no «modo de produção capitalista» o trabalho necessário nunca pode formar mais do que uma parte do dia de trabalho, e o dia de trabalho não pode ser reduzido a este mínimo (caso acontecesse não haveria trabalho extra e consequentemente nenhuma mais valia seria engendrada).

Contudo o dia possuiu um limite máximo, que é duplamente determinado, por um lado fisicamente (o homem tem necessidades a satisfazer e limitação, precisando de se manter apto para o trabalho), por outro moralmente (o homem precisa de tempo para satisfazer necessidades intelectuais, sociais, etc…).

Tais limites variam de sociedade para sociedade, e são muito elásticos (daí haverem dias de trabalho com os mais diversos comprimentos.

Mas « O capitalista tem a sua maneira de ver sobre este último limite necessário do dia de trabalho». Há pois interesses antagónicos quanto à duração do dia de trabalho, podendo cada lado invocar as suas razões. «Quem decide sobre direitos iguais? A força. Eis porque a regulamentação do dia de trabalho se apresente como uma luta secular entre capitalista de trabalhador»

Opto agora por não proceder a uma análise exaustiva de todas as página dedicadas por Marx a esta questão, fazendo uma pequena súmula dos aspectos referidos.

Contudo aconselho a sua leitura pois contem muitos exemplo bem ilustrativos que são um reflexo do que muito mau aconteceu e ainda continua a acontecer

A luta entre as duas facções é secular, sendo muitas as tentativas de regular o mercado de trabalho (por exemplo, «Code de la Corvée», da Rússia; «Règlement Organique» das provincias danubianas, os diversos «Factory Acts» da Inglaterra, etc…), que «refreiam a paixão desordenada do capital na absorção do trabalho, impondo limitação oficial ao dia de trabalho.

Nomeadamente depois dos «Factory Acts» na Inglaterra foram nomeados inspectores para verificar a aplicação dessas leis, podendo-se ler algumas das conclusões (nalguns casos terríveis) a que eles chegaram.

Mesmo com as limitações ao dia de trabalho, o capitalista sempre achou forma de as contornar, permitindo manter a tão desejada mais valia e até mesmo aumentá-la.

Uma dessas formas era e é a exploração das horas dedicadas às pausas (Retirando pequenas partes destinadas ao repouso do trabalhador, em que esta final continua a laborar). Tais situação como os próprio inspectores reconheceram são difíceis de detectar e combater «Os inspectores deparam-se com dificuldades quase invencíveis para comprovar os delitos e estabelecer as respectivas provas».

Outra das formas era e é a exploração da mão de obra infantil. O que obviamente era mau para a saúde dos jovens e tem consequências nefastas para as gerações futuras que serão cada vez mais fraca. Marx em «O Capital» é fertil a mostrar estas situações, com depoimentos, mostrando também a insipiência de muitas das respostas dadas pelos «capitalistas» então.

Outra das formas utilizadas pelo «capitalista incipiente» é o Sistema de Turnos.

Também nesta situação são muitos os exemplos que demonstram que o capitalista não ficava a perder.

Tomemos o exemplo de um dia de 8 horas.4 de Manhã e 4 à Tarde. Na realidade nesses descansos o trabalhador ficava a trabalhar e acabava por entrar mais cedo, ou então era obrigado a permanecer no local de trabalho(por exemplo se tivesse que dormir lá, ou demorar muito nas deslocações, etc…) e obviamente por necessidade e dependência, sempre que lhe pedissem para trabalhar mais ele aceitava.





A Lei Geral da Acumulação Capitalista

A composição do capital analisada sob a proporção em capital constante e a proporção em capital variável, ou seja, todo o capital decompõe em meios de produção e força de trabalho.

Supondo que não se alterando a composição de capital, o acréscimo de capital implica em aumento de força de trabalho, ou seja, a procura por força de trabalho aumentará na mesma proporção do capital. No entanto o capital acrescido (capital original + capital produzido ou mais valia produzida em determinado período) faz crescer a necessidade de desenvolver ou empregar esse capital em novos empreendimentos ou novos mercados em uma escala em que a acumulação de capital ultrapassa o crescimento e capacidade da força de trabalho, ou seja, a procura por trabalho ser maior que a oferta, ocorrendo a elevação dos salários. Nesse sentido a força de trabalho tem de incorporar-se continuamente ao capital para expandi-lo. A massa de trabalhadores que se expande recebe sob forma de pagamento, a porção de seu próprio produto excedente que aumenta e se transforma em quantidade cada vez maior de capital adicional para a classe capitalista. Ainda, segundo a suposição que fizemos anteriormente, a expansão da acumulação esbarra continuamente na crescente necessidade de incremento de força de trabalho e como o objetivo do capitalista ao comprar força de trabalho é aumentar seu capital, produzindo mercadorias que contém mais trabalho do que ele paga ao trabalhador, ou seja, seu objetivo é produzir mais valia, portanto o salário que ele paga ao trabalhador aumenta devido as limitações da oferta do mercado de trabalho, isso significa uma redução de mais valia apropriada pelo capitalista, conseqüentemente a acumulação retarda-se em virtude da elevação do preço do trabalho.

Nesse caso a acumulação diminui, esse decréscimo faz desaparecer temporariamente a própria causa que originou a desproporção entre capital e força de trabalho explorável. Convém esclarecer que a relação entre capital, salários e acumulação é apenas a relação entre trabalho excedente (quantidade de trabalho apropriado pelo capitalista não pago ao trabalhador) que transforma em capital e o trabalho adicional necessário para por em movimento do capital suplementar.

Decréscimo relativo da parte variável do capital com o processo da acumulação e da concentração que acompanha

A produtividade do trabalho social se torna a mais relevante alavanca da acumulação capitalista. O grau de produtividade do trabalho, numa dada sociedade, exprime pelo volume relativo dos meios de produção que o trabalhador transforma em produto, num dado tempo com o mesmo dispêndio de força de trabalho. O aumento da produtividade condiz com o aumento da massa de meios de produção e portanto no decréscimo da quantidade de trabalho para por em movimento essa massa de meios de produção. O que acontece, é a mudança da composição técnica do capital, o aumento dos meios de produção comparado com a quantidade de trabalho necessário para coloca-lo em movimento, ou seja, a aumento da parte constante do capital reflete no decréscimo da parte variável. Entretanto com a produtividade crescente do trabalho, cai o valor dos meios de produção em comparação com seu volume crescente que é consumido, ou seja, o capitalista despende cada vez menos capital para comprar um volume crescente de meios de produção.

A conversão continua de mais valia em capital que entra no processo de produção e se torna base da produção em escala ampliada, dos métodos que a acompanham para elevar a força produtiva do trabalho e acelerar a produção de mais valia e portanto, a acumulação. Como a acumulação do capital cresce em maior ou menor proporção, cresce também o número de capitalistas, entretanto a batalha da concorrência por meios de redução de preços das mercadorias dependente, intimamente da produtividade do trabalho e este da escala de produção, assim se dá a batalha do capitalista “versus” capitalista. Os capitais grandes esmagam os pequenos, a centralização amplia e acelera ao mesmo tempo as transformações na composição técnica do capital, as quais aumenta a parte constante sobre a parte variável, reduzindo assim a procura por trabalho.

Produção progressiva de uma superpopulação relativa ou de um exército industrial de reserva

O volume da parte variável do capital é que determina a procura de trabalho e esse volume cai progressivamente com o aumento do capital global, embora o aumento do capital global faça crescer a parte variável, mas esse crescimento é proporcionalmente menor. Ou seja, é necessário que a acumulação do capital global seja acelerada em progressão crescente para absorver um número adicional determinado de trabalhadores ou para manter os trabalhadores que encontram empregados.

Uma população de trabalhadores excedente é condição necessário para a acumulação e para o desenvolvimento da riqueza capitalista, pois com o desenvolvimento da produtividade do trabalho cresce a força de capital, e a massa de riqueza cresce e impulsiona novos ramos de produção, nesses casos grandes massas humanas tem de estar disponíveis para serem exploradas, sem prejudicar a escala de produção nos ramos já existentes e a industria moderno e os novos métodos de produção depende portanto, da transformação constante de uma parte da população trabalhadora em desempregados. Suponhamos que permaneça o mesmo que número de trabalhadores empregados, o capital variável aumenta se o trabalhador individual fornece mais trabalho, ou seja, aumentando a produtividade do trabalhador, então o acréscimo do capital variável é índice de mais trabalho, mas não de mais trabalhadores empregados. “O capital variável pode permanecer constante mesmo se o número de trabalhadores decrescer sob condição do aumento da produtividade individual do trabalhador”

Os movimentos dos salários não são determinados pelas variações do número absoluto da população trabalhadora, mas pela proporção variável em que essa população se divide em trabalhadores empregados e trabalhadores desempregados. Com a introdução do progresso técnico, parte do capital variável se transforma em capital constante, ou seja parte dos trabalhadores ficam desempregados aumentando a reserva de trabalhadores, esse aumento de capital absoluto não eleva procura por trabalho, nem a oferta de trabalho cresce com o aumento da classe trabalhadora.
Formas de existência de uma superpopulação relativa

As formas de superpopulação relativa assumem periodicamente as três formas seguintes: flutuante, latente e estagnada. Graças ao progresso da produtividade do trabalho social, o constante uso de maquinas e de novas técnicas de produção (aumento do capital constante) podem ser mobilizados com um dispêndio progressivamente menor de força de trabalho. Quanto maior a produtividade, maior a pressão dos trabalhadores sobre os meios de emprego e mais precária a condição da própria venda da força de trabalho.

Quanto maior a produtividade maior a acumulação, maior a acumulação de riqueza e ao mesmo tempo acumulação de miséria. Nas mesmas condições em que se produz riqueza, produz-se também a miséria, nas mesmas condições em que se processa o desenvolvimento da produtividade, desenvolve-se um cenário de condições que só geram riqueza para a burguesia.

Walter Benjamin, a História dos Vencidos e a Guerra Civil Espanhola


Walter Benjamin (1892-1940) constitui, certamente, um dos expoentes máximos do pensamento germânico do século XX. Personagem central no seio da Escola de Frankfurt, Benjamin foi, seguramente, uma das figuras mais obscuras e enigmáticas da história da filosofia continental. Filósofo singular, ensaísta exímio, critico literário inovador, tradutor de Proust e Baudelaire, escritor e sonetista sombrio, colecionador e bibliófilo apaixonado, historiador idiossincrático, pensador fragmentário e críptico, crítico de arte e cultura seminal, alegorista melancólico, narrador notável das guerras e revoluções do século XX, 
Benjamin acabaria por suicidar-se em 1940, na fronteira franco-espanhola, perseguido pela polícia hitleriana, com 48 anos e virtualmente desconhecido. Apenas anos mais tarde viria a transformar-se em ‘figura de culto intelectual’ – venerado por linguistas, críticos culturais, historiadores de arte, poetas e escritores, pensadores pós-modernistas e sociólogos. Esse reconhecimento é devido, sobretudo, aos esforços dos seus amigos Theodor W. Adorno, Hannah Arendt, e Gershom Scholem. Entre as suas inestimáveis contribuições para o pensamento contemporâneo encontra-se uma noção seminal que viria a assumir uma importância ímpar na historiografia moderna: a história dos vencidos.
De acordo com o filósofo germânico, na sua célebre obra ‘Teses sobre a Filosofia da História’ (‘Über den Begriff der Geschichte’) (Benjamin, 1940), tanto o historicismo como a vulgata ortodoxa do marxismo partilham uma concepção linear de história. Assim, diz-nos Benjamin, as historiografias oficiais tendem a evocar o passado, fazendo despertar recordações dominadas por uma temporalidade ordenada e linear e alinhando, desse modo, os acontecimentos de um forma particular. Uma forma que apenas permite que as pessoas se lembrem de uma sucessão distorcida e pré-determinada de eventos passados. 
A história oficial, segundo Benjamin, não é mais que ficção: uma montagem seletiva de acontecimentos passados num encadeamento linear significante.
Esse argumento do autor teutónico – de que a história oficial constitui uma versão deformada do passado construída no presente – vem de encontro ao trabalho um número crescente e multifacetado de estudiosos que se foram debruçando sobre a problemática da memória (individual e coletiva) e da percepção do tempo. Dessas reflexões resultou a constatação da influência decisiva do presente sobre a percepção do passado, desfigurando-o e distorcendo-o. 
O sociólogo francês Maurice Halbwachs, na sua célebre obra póstuma ‘La Mémoire Collective’, diria a esse respeito que “a lembrança é em larga medida uma reconstrução do passado com a ajuda de dados emprestados do presente, e além disso, preparada por outras reconstruções feitas em épocas anteriores e de onde a imagem de outrora manifestou-se já bem alterada” (1950: 70). Reflexões mais recentes ampliam essas conclusões sugerindo que não só as condições presentes influem a percepção do passado, mas a própria vivência do presente é influenciada pelos acontecimentos passados e pela percepção desses eventos passados (Connerton, 1993).
Essas propostas vêm, aliás, corroborar a argumentação de Benjamin, no sentido em que tornam evidente a ligação entre a transmissão e conservação da memória social e o poder. Como sustenta Paul Connerton, “não há dúvida de que o controlo da memória de uma sociedade condiciona largamente a hierarquia do poder” (1993: 2), pois, como acrescenta pouco adiante, “as nossas experiências do presente dependem em grande medida do conhecimento que temos do passado e (...) as nossas imagens desse passado servem normalmente para legitimar a ordem social presente.” (1993: 4). 
Os silêncios da história são, neste sentido, reveladores dos mecanismos e dispositivos de construção social do passado e, portanto, de manipulação da memória coletiva; o esquecimento constitui uma vala comum onde repousam actores e personagens anónimos e episódios e ações marginais, suprimidos e eliminados pelas narrativas históricas ortodoxas e convencionais. E se a memória histórica do passado influencia o presente, o controlo sobre essa memória histórica torna-se um sólido instrumento de dominação. 
Daí se explicam as violentas lutas, ao longo da história, pelo controlo sobre a memória coletiva e pelo monopólio da «verdade histórica». George Orwell, (1903-1950), conspícuo jornalista e novelista de origem britânica, sintetizou na novela ‘1984’, de forma exemplar, essa complexa relação entre o presente, a percepção do passado e o poder reduzindo-a a um notável axioma: “Who controls the past controls the future: who controls the present controls the past”.
Deste modo, a História, de acordo com Walter Benjamin, reduz-se a uma história enviesada ou, mais concretamente, a uma escritura histórica triunfalista: a uma história dos vencedores, ou melhor, a uma estória dos grupos dominantes. E isto porque a historiografia tendeu, ao longo do tempo, a entrar em intropatia com os vencedores. Neste contexto, o papel do historiógrafo é, de acordo com Benjamin, o de desafiar as representações da história vulgarmente aceites e estabelecidas. 
A historiografia, nesta perspectiva, deve ser necessariamente crítica e contra-hegemónica: a história, mais do que um facto, deve ser entendida como um problema. Daí que Benjamin apele a que se erga uma outra história, incitando a “escovar a História a contrapelo” (1940: 161), e reiterando a inexorável necessidade de não confundir a História com a narrativa histórica dos grupos dominantes. O perigo, como sublinha o filósofo germânico, é o esquecimento, a deslembrança, o silenciamento da memória, pois “toda a imagem do passado (...) corre o risco de desaparecer com cada instante presente que nela não se reconheceu” (1940: 159).
A salvadora redenção está então, de acordo com Benjamim, em escavar pacientemente o amontoado de ruínas e escombros do passado, recolhendo indícios historiográficos, não para reencontrar o passado como ele foi, mas sim para buscarmos o que nele foi esquecido e abafado: os vestígios que o tempo sufocou, isto é, as personagens e os episódios que foram asfixiados e colocados nas notas de rodapé da história oficial. 
Os relatos e as memórias recorrentemente negligenciados, omitidos e esquecidos; os pormenores secundários; os detalhes acessórios; as minudências anódinas. É indispensável, diz-nos o autor alemão, reconstruir o passado dos silenciados, dos esquecidos, enfim, dos espoliados da história. É fundamental preservar a memória daqueles que não têm lugar nos manuais de história; salvaguardar os seus testemunhos e depoimentos. É essencial conservar as experiências que narram, os episódios que descrevem, as estorietas que relatam. Benjamin aproxima-se assim de toda uma geração de historiadores, maioritariamente marxistas, que julgaram encontrar na prática da história oral a possibilidade de salvaguardar do esquecimento, a história e a cultura dos grupos dominados. 
Daí a relevância que atribuía à história oral e à narrativa. Daí a importância que concedia à memória, às lembranças, à recordação, à rememoração, à anamnese. Por conseguinte, os propósitos da filosofia benjaminiana são claros; ela ambiciona ‘fazer a história dos sem história’, ‘dar voz aos sem voz’; ela deseja reescrever a narrativa histórica, erguendo uma contra-história: a ‘história dos vencidos’.
A evocação de Walter Benjamin poderá parecer, à primeira vista, desprovida de pertinência, algo deslocada e, porventura, um tanto ou quanto questionável. Todavia, apesar das fragilidades e limitações da argumentação do autor alemão, é possível extrair de Benjamin um princípio de valor inestimável: juntamente com a história, narrativas e memórias oficiais, coabitam outras histórias, contra-narrativas e contra-memórias que não devem ser elididas sob o risco de desperdiçar a compreensão histórica de determinadas figuras, grupos, sociedades, eventos ou períodos. 
A melhor ilustração desse valioso princípio encontra-se, quiçá, nas palavras de um velho combatente anónimo da guerra civil espanhola, desconhecido para a historiografia, durante a realização da sua história de vida:

“...no sé yo cuanto le puede importar a usted ésto que le estoy diciendo, no sé si ésto le puede importar a alguien, porque éstas cosas no las cuentan los libros, esto no sale nunca en la historia, pero sabe lo que le digo, ésta es mi verdad.” (Anónimo citado em Santamaria e Marinas, 1999: 257).


Benjamin, Walter (1940 [1992]), «Teses sobre a Filosofia da História», Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, Lisboa: Relógio D.Água, pp. 157-170.
Connerton, Paul (1993), Como as Sociedades Recordam, Oeiras: Celta Editora.
Halbwachs, Maurice (1950 [1990]), A Memória Coletiva, São Paulo: Vértice.
Santamarina, Cristina e José Miguel Marinas (1999), «Historias de Vida e Historia Oral», in Juan Manuel Delgado e Juan Gutiérrez (coord.) (1999), Métodos y Técnicas Cualitativas de Investigación en Ciencias Sociales, Madrid: Sintesis, pp. 257-285.


O CAPITAL de Marx


Friedrich Engels


Desde que no mundo há capitalistas e operários que não tinha aparecido um livro de tão grande importância para os operários como este. As relações entre o Capital e o Trabalho, eixo em torno do qual gira todo o nosso sistema social actual, são pela primeira vez tratados cientificamente com uma profundidade e uma clareza só possíveis num alemão. Por mais preciosos que sejam e serão os escritos de um Owen, de um Saint-Simon ou de um Fourier, estava reservado a um alemão elevar-se à altura necessária para ver claramente e panoramicamente o domínio inteiro das relações sociais modernas, da mesma maneira que, ao espectador situado no mais alto pico, aparecem as formações montanhosas menos elevadas.

A economia política ensina-nos até agora que o trabalho que o trabalho é a fonte de toda a riqueza e a medida de todos os valores, de tal modo, que dois objectos cuja produção custou o mesmo tempo de trabalho têm o mesmo valor e devem ser trocados um pelo outro visto que, em geral, só valores iguais podem ser trocados entre si. Mas também ensina que existe uma espécie de trabalho armazenado a que chama capital; que esse capital, graças às possibilidades que contém, multiplica por cem e por mil a produtividade do trabalho vivo, reclamando para tal uma certa compensação a que se chama lucro ou benefício. Como todos sabemos, as coisas apresentam-se na realidade assim: os lucros do trabalho morto, acumulado, constituem uma massa cada vez maior, os capitais dos capitalistas tomam proporções cada vez mais colossais, enquanto o salário do trabalho vivo é cada vez menor, e a massa dos operários que vive unicamente do salário é cada vez maior e mais pobre. Como resolver esta contradição? Como pode haver um lucro para o capitalista se o operário receber o valor total do trabalho que acrescenta ao produto? E, no entanto, visto que só valores iguais são trocáveis, devia ser assim. Por outro lado, como podem valores iguais ser trocados, como pode o operário receber o valor inteiro do seu produto, se como concebem muitos economistas, esse produto é dividido entre o operário e os capitalistas? A economia encontra-se até hoje perplexa face a esta contradição, escreve ou balbucia fórmulas confusas e vazias. Mesmo os críticos socialistas da economia não foram até aqui capazes de fazer mais do que sublinhar esta contradição; nenhum a resolveu até ao momento em que, finalmente, Marx, perseguindo o processo da formação do lucro até ao local onde este nasce, esclareceu completamente o assunto.

Ao descrever o desenvolvimento do capital, Marx parte do facto simples e notório de que os capitalistas valorizam o capital através da troca; compram mercadoria por uma certa soma e revendem-na a seguir por uma soma mais elevada. Um capitalista compra por exemplo 1000 thaler de algodão e revende-o a seguir por 1100 thaler, ganhando assim 100 thaler. É a este excedente sobre o capital inicial que Marx chama mais valia. Donde provém essa mais valia? Segundo a hipótese dos economistas só valores iguais são trocáveis, e, no domínio da teoria abstracta a verdade também é essa. A compra do algodão e a sua revenda não pode portanto fornecer mais valia do que a troca de um thaler de prata por 30 gros(2) de prata, seguida da troca destes por um outro thaler de prata, operação em que não se enriquece nem empobrece. Mas a mais-valia também não pode provir do facto de os vendedores venderem as mercadorias acima do seu valor, ou de os compradores as comprarem acima do seu valor, porque sendo cada um deles tanto vendedor como comprador, há por consequência compensação. Também não pode provir do facto de compradores e vendedores encarecerem entre eles o produto, visto que isso não produziria um novo valor ou mais-valia, e, ao contrário, não faria mais do que repartir de outra maneira o capital existente entre os capitalistas. Ora apesar de o capitalista comprar e revender as mercadorias pelo seu valor, obtém mais valor do que aquele que investiu. Como se produz este facto?

Nas condições sociais actuais, o capitalista encontra no mercado uma mercadoria que tem a seguinte propriedade particular: o seu consumo é fonte de um novo valor, cria um novo valor, e, essa mercadoria é a força de trabalho.

Qual é o valor da força de trabalho? O valor de cada mercadoria é medido pelo trabalho que a sua produção exige. A força de trabalho existe na forma de um operário vivo que necessita para viver e sustentar a família que assegura a persistência da força de trabalho depois da morte, de uma determinada soma de meios de subsistência. É portanto o tempo de trabalho necessário à produção desses meios de subsistência que representa o valor da força de trabalho. O capitalista paga ao operário à semana comprando assim o emprego do seu trabalho por uma semana. Até aqui os senhores economistas estarão suficientemente de acordo connosco sobre o valor da força de trabalho.

Nessa altura o capitalista põe o seu operário a trabalhar. Durante um determinado tempo o operário terá fornecido tanto trabalho quanto o representado pelo salário semanal. Admitindo que o salário semanal de um operário representa três dias de trabalho, o operário que começa na Segunda-feira, na Quarta-feira à tarde devolveu ao capitalista o valor total do salário pago. E deixa de trabalhar? Bem ao contrário. O capitalista comprou o trabalho por uma semana, e é necessário que o operário ainda continue a trabalhar durante os últimos dias da semana. Este sobretrabalho do operário para além do tempo necessário para devolver o valor do salário, é a fonte da mais-valia, do lucro e do aumento sempre crescente do capital.

Que não se diga que é uma suposição gratuita afirmar que o operário produz em três dias o salário que lhe foi pago, e nos outro três trabalha para o capitalista. Se necessita exactamente de três dias para devolver o salário, ou de dois, ou de quatro é coisa que para aqui é totalmente indiferente e que aliás muda segundo as circunstâncias; o principal é que o capitalista além do trabalho que paga, obtém trabalho que não paga, e não se trata de uma suposição arbitrária, visto que no dia em que o capitalista não recebesse de forma contínua senão o trabalho que paga em salário, fecharia a sua fábrica porque todo o lucro se esfumaria.

Eis que resolvemos todas estas contradições. A formação da mais-valia (de que o lucro do capitalista constitui uma boa parte) é agora perfeitamente clara e natural. O valor da força de trabalho é pago, mas esse valor é muito menor do que aquele que o capitalista sabe arrecadar da força de trabalho, e a diferença, o trabalho não pago, constitui precisamente a parte do capitalista, ou mais exatamente, da classe capitalista. E isto porque mesmo o lucro que, no exemplo citado mais acima, o comerciante de algodão obteve, deve necessariamente consistir em trabalho não pago se os preços de algodão não aumentaram. Foi necessário que o comerciante vendesse a um fabricante de tecidos de algodão que, além dos cem thaler já ganhos pelo comerciante, possa obter por sua vez um benefício pela sua fabricação, repartindo-se assim pelos dois o trabalho não pago que o fabricante obteve. É este trabalho não pago que em geral sustenta todos os membros da sociedade que não trabalham. É também com esse trabalho não pago que se pagam os impostos do Estado e das municipalidades, na medida em que esses impostos atingem a classe capitalista e as rendas da terra dos grandes proprietários, etc.. É sobre esse trabalho não pago que repousa todo o estado social existente.

Aliás, seria ridículo pensar que o trabalho não pago só se formou nas condições atuais, em que a produção é realizada por capitalistas assalariados. Longe disso. Desde sempre a classe oprimida foi obrigada a fazer trabalho não pago. Durante todo o logo tempo em que a escravatura foi a forma reinante da organização do trabalho, os escravos foram obrigados a trabalhar muito mais do que lhe era dado sob a forma de maios de subsistência. Sob a dominação da servidão e até à abolição das corveias, passava-se a mesma coisa; e aqui aparecia de maneira tangível a diferença entre o tempo em que o camponês trabalhava para a sua própria subsistência e aquele em que realizava sobretrabalho para o senho, visto que estas duas formas de trabalho se faziam separadamente. A forma é hoje diferente mas o essencial não mudou, e enquanto "uma parte da sociedade possuir o monopólio dos meios de produção, o trabalhador, livre ou não, é forçado a acrescentar ao tempo de trabalho necessário à sua própria subsistência, um excedente destinado à manutenção do possuidor dos meios de produção". (Marx(4).

II

Vimos no artigo precedente que cada operário ao serviço do capitalismo faz um trabalho duplo: durante uma parte do tempo de trabalho, restitui o salário que o capitalista lhe havia avançado, parte a que Marx chamou trabalho necessário. A seguir, deve continuar a trabalhar para produzir mais-valia para o capitalista, sendo o lucro deste uma parte importante daquela. A este trabalho chama-se sobretrabalho.

Suponhamos que o operário trabalha três dias da semana para restituir o salário e três dias para produzir a mais-valia para o capitalista. Noutros termos isto quer dizer que, numa jornada de 12 horas, trabalha seis horas para o seu salário e seis horas para criar mais-valia. Mas, da semana não se podem fazer mais de seis dias ou, contando com o Domingo, sete, ao passo que cada dia podem ser seis, oito, dez, doze, quinze ou mais horas de trabalho. O operário vendeu pelo seu salário, uma jornada de trabalho ao capitalista. Mas, o que é um dia de trabalho? Oito horas ou dezoito?

O capitalistas tem interesse em prolongar a jornada de trabalho tanto quanto possível. Quanto mais longa for, maior será a mais-valia criada. O operário tem a justa sensação de que cada hora feita para lá da restituição do salário, lhe é ilegitimamente roubada; é no próprio corpo que sente o que é trabalhar muito tempo seguido. O capitalista bate-se pelo seu lucro, o operário bate-se pela saúde, por algumas horas de repouso quotidiano, para poder, fora das horas de trabalho, do sono e da comida, fornecer ainda uma outra atividade humana. Notemos de passagem que não depende da boa vontade do capitalista tomado isoladamente, o querer ou não participar nesta luta pelo lucro; a concorrência obriga o mais filantropo a aliar-se aos colegas e a fazer cumprir uma jornada de trabalho tão longa como a daqueles.

A luta pela limitação da jornada de trabalho data da primeira aparição dos operários livres na história e dura até aos nossos dias. Nas várias indústrias existem regras diferentes no que concerne à jornada de trabalho, mas na realidade, raramente são observadas. Só nos casos em que a lei fixa a jornada de trabalho e controla a sua observação, é que pode falar-se de uma jornada de trabalho normal. E até aqui, com poucas excepções, só nos distritos industriais de Inglaterra encontramos uma jornada de trabalho normal. A jornada de trabalho de 10 horas (10 horas e meia durante cinco dias e sete horas e meia ao Sábado) foi fixada para todas as mulheres e para os jovens entre os 13 e os 18 anos, e como os homens não podem trabalhar sem estes últimos, ficam também submetidos à lei da jornada de 10 horas. Esta lei foi conquistada pelos operários ingleses através de longos anos de perseverança, de uma luta tenaz e obstinada contra os fabricantes, pela liberdade de imprensa, pelo direito de associação e de reunião, utilizando habitualmente as divisões no seio da própria classe dominante. Essa lei transformou-se na salvaguarda dos operários ingleses, foi pouco a pouco alargada a todos os grandes ramos da indústria e, no ano passado, a quase todos os ofícios, ou pelo menos a todos os que empregam mulheres e crianças. A presente obra contém uma documentação extremamente detalhada sobre a história da regulamentação legal da jornada de trabalho na Inglaterra. O próximo Reichstag da Alemanha do Norte irá igualmente discutir uma lei sobre a indústria e, consequentemente, regular o trabalho nas fábricas. Esperamos que nenhum dos deputados que deve a sua eleição aos operários alemães, irá para a discussão dessa lei sem se ter antes familiarizado completamente com o livro de Marx. Pode obter-se muito. As divisões nas classes dominantes são muito mais favoráveis aos operários do que eram em Inglaterra, porque o sufrágio universal obriga as classes dominantes a procurar o apoio dos operários. Nestas circunstâncias, quatro ou cinco representantes do proletariado são uma potência se souberem utilizar a situação, se sobretudo souberem do que se trata, coisa que os burgueses não sabem. E, para isso, o livro de Marx fornece-lhes uma documentação já elaborada.

Deixaremos de lado uma série de investigações muito belas, de caracter teórico, e contentar-nos-emos abordando o capitulo final que trata da acumulação do capital. Prova-se nesse capitulo que o método da produção capitalista, isto é, realizado por um lado pelos capitalistas e por outro pelos assalariados, não só reproduz sempre o capital dos capitalistas, mas também produz sempre e ao mesmo tempo a miséria dos operários; e fá-lo de maneira a renovar a existência, por um lado, dos capitalistas que são os possuidores de todos os meios de subsistência, de todas as matérias-primas e de todos os instrumentos de trabalho, e, por outro lado, da grande massa dos operários que são obrigados a vender a sua força de trabalho aos capitalistas em troca de uma certa quantidade de meios de subsistência apenas suficientes, no melhor dos casos, para manter em estado de trabalhar e para fazer crescer uma nova geração de proletários aptos para o trabalho.

Mas o capital não se limita a ser reproduzido: está continuamente a ser multiplicado e a aumentar, e, ao mesmo tempo, aumenta o seu poder sobre a classe dos operários privados de propriedade. O modo de produção capitalista, enquanto se reproduz em proporções cada vez maiores, reproduz também em proporções cada vez maiores e em número crescente, a classe dos operários privados de propriedade. "...A acumulação (do capital)(5) não faz mais do que reproduzir esta relação (relação do capital) numa escala igualmente progressiva: com mais capitalistas (ou com maiores capitalistas) por um lado, e com mais assalariados por outro... Acumulação do capital é ao mesmo tempo aumento do proletariado." (6)

Mas como para fazer a mesma quantidade de produtos, são precisos cada vez menos operários, graças aos progressos trazidos pela mecanização, à modernização da agricultura, etc., como o aperfeiçoamento quer dizer, o excedente de operários, aumenta mais rapidamente do que o capital crescente, o que é que se faz deste número cada vez maior de operários? Constituem um exército de reserva para a indústria que, durante os momentos maus ou medíocres, é pago abaixo do valor do seu trabalho, encontra irregularmente emprego ou vive da assistência pública, mas é indispensável à classe capitalista nos momentos de actividade particularmente grande como se viu em Inglaterra - mas que, de qualquer modo, serve para quebrar as forças de resistência dos operários com trabalho regular e para manter os salários a baixo nível. "O exército industrial de reserva é tanto mais numeroso quanto a riqueza social...(é) mais considerável... Mas quanto mais aumentar este exército de reserva comparativamente ao exército activo do trabalho, mais a sobrepopulação aumenta, excedente este cuja miséria é inversamente proporcional aos tormentos do trabalho. Quanto mais crescer esta camada de Lázaros da classe assalariada, mais cresce a pauperização oficial. É esta a lei absoluta e geral da acumulação capitalista."(7)

Tais são, provadas de uma maneira rigorosamente científica - e os economistas oficiais bem evitam quanto mais não seja refutá-las - algumas das principais leis do sistema social do capitalismo moderno. E teríamos dito tudo? Nada disso. Com a mesma clareza com que sublinha os lados maus da produção capitalista, Marx prova o carácter necessário desta formação social para o desenvolvimento das forças produtivas até ao grau tal que permitisse um desenvolvimento verdadeiramente humano e igual para todos os membros da sociedade. As formações sociais anteriores foram demasiadamente pobres para isso. Só a produção capitalista cria as riquezas e as forças produtivas necessárias para tal, criando ao mesmo tempo, com a massa dos operários oprimidos, a classe social que cada vez mais é obrigada a reivindicar a utilização dessas riquezas e dessas forças produtivas em favor de toda a sociedade e não, como acontece hoje, em favor de uma classe monopolista.

Notas:

Publicado em Leipzig nos números 12 e 13 de 21 e 28 de Março de 1868 do Democratisches Wochenblatt.
Gros é a tradução francesa de Groschen, subunidade do thaler (30 Groschen = 1 thaler).
A corveira, do termo francês corvée (du paysan), é a tradução do alemão Frondienst, e representa o pagamento em trabalho obrigatório e gratuito devido pelo servo da gleba ao seu senhor.
Karl Marx, Le Capital, livro I, p. 231, Editions Sociales, Paris, 1959.
As palavras que aparecem entre parênteses foram introduzidas por Engels.
Karl Marx, Le Capital, livro I tomo III, p. 55, Editions Sociales, Paris, 1962.
Karl Marx, Le Capital, livro I, tomo III, p. 87


História - NOSSO OBJETO DE ESTUDO

O campo da história é vasto. E cada vez mais, em sintonia com os novos enfoques e metodologias que a cada dia se desenvolvem em nosso metier, tudo mais se amplia. Nesse quadro, o campo da História da Ciência e das Políticas Públicas, objeto de nossa preocupação, é um campo, em termos históricos, bastante recente.
Trata-se de um conjunto de esforços críticos acerca da produção científica, rumo a uma compreensão dos seus pressupostos epistemológicos e suas bases socioculturais, políticas e econômicas. Nosso objeto, em certo sentido, é a racionalidade, sem largar mão, contudo, da relação com os fenômenos religiosos, como muito bem o demonstra a obra de Max Weber.
Por um bom tempo, o fazer científico, e a produção dele decorrente, foi visto como uma espécie de espelho (epifenômeno) de outras esferas da vida em sociedade (política, economia etc.). Hoje é reconhecida uma certa autonomia ao campo científico. Autonomia que deve ser compreendida em função justamente da teia de relação com outras áreas de nossa vida social, pois a produção em ciência, bem como a elaboração das políticas públicas e sociais, não nascem no vazio, não são entidades meta-históricas, pelo simples fato de serem elaboradas por seres humanos, que são inteligíveis – como diria o velho Marc Bloch, no tempo.
Por isso a necessidade de estudos históricos que lancem luzes a acerca dos processos de constituição dos problemas e soluções em ciência, seja aquela considerada hard, como a física, como aquelas denominadas sociais, onde se situa a sociologia e a antropologia.
As políticas públicas, sejam nas áreas de saúde ou educação, também não foram e não são elaboradas em um vácuo histórico. A compreensão do processo histórico que implica na elaboração de projetos sociais exige um investimento no campo da história, bem como no da sociologia, já que é fundamental entender não só a dinâmica que possibilitou o desenvolvimento de uma política, mas o impacto que ela produziu em seu tempo, foco que os sociólogos possuem mais ferramentas, se comparado aos historiadores.
Trata-se, em suma, de um esforço interdisciplinar em que as inúmeras "ferramentas" metodológicas não podem ser dispensadas em função de um protecionismo disciplinar qualquer. Nosso objeto é um problema, definido ética e metodologicamente. Não fazemos restrições de tempo ou de espaço. Por exemplo, nossas questões de pesquisa não são restritas regional ou nacionalmente, nem mesmo por um enfoque temporal, como história moderna, contemporânea ou medieval.
Por isso o campo da História da Ciência e das Políticas Públicas é uma área difusa, que se espalha por outras tantas áreas do saber e cortes temporais variados. De fato requer um investimento maior, em matéria de erudição e técnicas de investigação, se comparado a outras arenas do saber. Contudo, cremos que o retorno poderá ser não só a compreensão de problemas fundamentais em nossas sociedades, como o combate às epidemias e endemias reinantes, o flagelo do racismo, o analfabetismo e outros velhos dilemas que ainda nos atingem, mas também sugestões validadas em pesquisas e dados empíricos que possam contribuir com possíveis soluções num quadro considerado deprimente por muitos.
Nossas pesquisas muito frequentemente tem um tom muito próximo, como diria o sociólogo Guerreiro Ramos, de "mangas de camisa", isto é, não só nos importa a qualidade da produção acadêmica, definida dentro de padrões nacionais e internacionais, mas também tem importância as implicações de seus resultados. Somos, por assim dizer, pesquisadores pragmáticos, pois muito nos interessa a possibilidade de contribuir para a constituição de uma sociedade mais justa e fraterna, seja pela elaboração de políticas sociais mais eficientes, seja pela constante observação dos pressupostos científicos criados em nossos dias, cujas implicações são sempre variadas em nossa sociedade.



Historiografia


Ronilda Iyakemi Ribeiro

Cada qual enxerga o meio dia da porta de sua casa, diz o adágio africano. Fato sobejamente conhecido é esse: a experiência social ou cultural interfere na concepção de tempo. 
Goldsch midt observa que as definições de mundo são distintas, não apenas pelo fato de serem diferentes os costumes e as crenças dos povos: “É, antes, que os mundos de povos diferentes têm formas diferentes. Os próprios pressupostos metafísicos variam: o espaço não se conforma à geometria euclidiana, o tempo não constitui um fluxo contínuo de sentido único, as causas não se conformam à lógica aristotélica... como no nosso mundo”. Quanto ao tempo, se pretendemos conceituá-lo, temos que considerar seus aspectos de tempo histórico, cronológico, físico, psicológico, entre outros. 
O tempo histórico, passível de divisão em intervalos curtos ou longos, pode ser concebido como um processo de ritmo variável e não uniforme. As direções desse tempo variam segundo diferentes padrões culturais, que exprimem atitudes valorativas: o processo temporal representado como um percurso linear progressivo, característico da representação cristã de tempo, tem contraponto no percurso cíclico, que reúne fases ou períodos recorrentes, característico, por exemplo, das representações negro-africana e chinesa. 
O tempo cronológico, que regula nossa existência cotidiana, pode ser considerado tempo socializado ou público. Opondo o tempo físico, natural ou cósmico ao tempo psicológico ou tempo vivido, temos que o primeiro, pode ser entendido como a medida do movimento, como a expressão de relação entre ante rior e posterior e, ainda, como o próprio processo das mutações, que independe da consciência do sujeito. O tempo psicológico ou tempo vivido (duração interior), por sua vez, não coincide com as medidas temporais objetivas. Variando de indivíduo para indivíduo, sendo subjetivo e qualitativo, sujeita-se apenas ao registro de momentos imprecisos, que se aproximam ou tendem a fundir-se, numa organização deter minada por sentimentos e lembranças, que definem “intervalos heterogêneos incomparáveis”. 
Na clepsidra escoa a água e na ampulheta, a areia, marcando intervalos de tempo, durações menores, em cada dia solar. Uma vez constatado que os fatos ocorrem em dada ordem, configurando unidades orgânicas, com princípio, meio e fim, temos uma relação entre o começo e o fim de movimentos que se sucedem no vasto continuum temporal, como que preenchendo o tempo de conteúdos. Essa representação, segundo a qual os eventos preenchem um continente temporal do mesmo modo que objetos preenchem continentes espaciais, não é pouco frequente. 
Berthelot assinala que a ordenação do tem po costuma proceder da ordenação do espaço, em especial a da sema na. A ordem no tempo se originaria da consideração de sete direções espaciais – duas para a largura, duas para o comprimento e duas para a altura, mais o centro. Correspondendo o sábado ao centro e, expressando o centro a imobilidade, define-se esse dia como o de descanso e os demais como dias dinâmicos. E, pela relação que une entre si todos


A EXPERIÊNCIA PSICOLÓGICA DA DURAÇÃO* 

César Ades 

Ensa ezzamân uezzamân yensâk 
Esquece o tempo que ele te esquecerá 

Em O milagre secreto, Jorge Luis Borges  conta a história do escritor checo Jaromir Hladík que, trazido diante do pelotão que irá executá-lo, no último instante vê o tempo paralisar-se, por um ano ou assim lhe parece, o suficiente para que possa compor a peça de teatro que muito ambicionava escrever. Na verdade, a execução não demora mais do que alguns segundos. A ficção apresenta, em forma limite, um dos aspectos curiosos da vivência psicológica do tempo, que é de esticar-se ou comprimir-se de acordo com o contexto de afeto ou ação, em desrespeito aparente ao tempo do relógio. 
O paradoxo do senso do tempo é que, constituindo uma característica geral e permanente do comportamento, ele não decorra, diretamente, de dados sensoriais. Não existe um órgão dos sentidos especializado em perceber o tempo. Temos experiência de coisas que permanecem e coisas que mudam, de coisas que se sucedem, de coisas que ocorrem juntas, a dimensão temporal vem, por assim dizer, incorporada nos eventos que lhe constituem o conteúdo. “
O tempo”, dizia o filósofo Mach, “é uma abstração à qual chegamos através da mudança das coisas”. Não estranha, então, que a avaliação da duração, dependa de dicas externas ao tempo enquanto tal, de eventos marcadores, e que esta avaliação possa sofrer o que, injustamente, porque nos colocando apenas do ponto de vista do tempo físico, chamaríamos de distorções. 
Os psicólogos, de James em diante, têm se mostrado fascinados pela subjetividade da estimativa da duração, pelas discrepâncias que o desejo e o desempenho criam, em relação a um tempo codificado socialmente, e têm se esforça do em determinar a causalidade envolvida. 
Neste trabalho, proponho-me retomar a questão da vivência psicológica da duração, indicando alguns dos modos mais relevantes através dos quais inflaciona-se ou encolhe-se o tempo percebido. Como muitos autores, considerarei a duração como uma construção, uma inferência efetuada pelo indivíduo a partir da informação disponível. Contudo, o fato de ser uma construção não a torna arbitrária ou aleatória, não a isola do com plexo jogo de interações através das quais o indivíduo conhece seu ambiente e age sobre ele. Ao contrário, vejo, na capacidade de levar em conta o tempo, uma característica adaptativa essencial. 

CARACTERIZAÇÃO DA HISTÓRIA : UMA ABORDAGEM HISTORIOGRÁFICA


Sarah Iurkiv Gomes Tibes Ribeiro

A crise do mundo dos historiadores nasce dos limites e das incertezas da nova história, do desencanto dos homens face às durezas da história vivida.
Jacques Le Goff


Este ensaio tenciona refletir sobre algumas "modificações" que a historiografia vinculada à matriz annaliste vem sofrendo, particularmente a partir do final da década de 1980. Tais alterações seriam, segundo alguns autores, resultantes ou necessárias em virtude da crise paradigmática que assola as ciências sociais, levando em conta a relevância deste campo do saber no forjar do arcabouço teórico-metodológico da chamada Nova História, desde suas primeiras gerações. Desta forma, historiadores do presente pretensamente fiéis aos Annales, teriam ficado numa situação de carência de referenciais, obrigando-se a uma reavaliação crítica de suas posições com relação aos pressupostos tradicionais de seus pais fundadores. Visa-se portanto, a proceder a uma modesta reflexão sobre os elementos que supostamente seriam responsáveis por essa "revisão teórico-metodológica" que perpassa a Escola dos Annales na última década, e a subsequente modificação de temas, métodos e escalas de abordagem por parte dos historiadores vinculados à mesma.

Para dar conta de tal escopo partiu-se de um apanhado breve sobre alguns elementos teóricos centrais nos primórdios da revista, com o intuito de informar e situar eventuais alterações ou permanências relativas a estes, passíveis de percepção na produção de profissionais que de uma forma ou outra se posicionam como herdeiros de Bloch, Febvre e Braudel.

Em 1929, Marc Bloch e Lucien Febvre fundam a Revue Annales d’histoire économique et sociale, inaugurando uma fase nova e absolutamente sem precedentes no campo da história e historiografia. Seu principal alvo de combate será a história política que se fazia na época, de influência positivista, caráter "diplomático", narrativa e factual. Marc Bloch na sua Apologie pour l’Histoire, obra na qual explicita o que compreende como história e a forma pela qual o historiador deve fazer o seu trabalho, ou seja, o método, dentre outras questões, clama por uma história-problema, profunda e total. Esta história seria alcançada pela formulação de perguntas pertinentes por parte do pesquisador, a partir das quais ele questionaria o passado, através da aliança com as ciências sociais.

A história total ou global é para Bloch a única que pode reivindicar o estatuto de verdadeira, e, como mencionado, poderá se construir através da colaboração recíproca com as ciências sociais. Considere-se que a intenção de abordar aspectos relativos à vida dos homens em sociedade, que transcendessem a esfera política stricto sensu, exigiria métodos e técnicas de investigação e análise dos quais a história absolutamente não dispunha, tornando portanto fundamental essa "aliança a serviço da história", com o intuito de incorporar metodologias compatíveis para investigar novos temas e objetos.

Além disso, altera-se substancialmente a noção de temporalidade. A ênfase será dada à longa duração, ou ao tempo longo, do movimento que é sucessão sem mudança. José Carlos Reis considera que Marc Bloch será o primeiro dos "novos historiadores" por ter inserido a dimensão da permanência na história. Rompe com a noção de tempo histórico tradicional, na qual o acontecimento imediato ocupa lugar central. Embora não apague o evento de sua obra, sob influência de Durkheim, tratá-lo-á enquanto elemento de uma série, e desta forma como um dos sinais reveladores da estrutura, ocupando assim posição secundária. O tempo vivido é pensado estruturalmente, e aquele do inconsciente coletivo impõe-se ao tempo da consciência individual, o que implicará mudanças de objetos, fontes, problemáticas e interlocutores. Esta tendência, conquanto seja formulada por Bloch, terá como sistematizador principal Fernand Braudel, que propõe três níveis de temporalidade distintos, dentre os quais, o tempo "quase imóvel" das estruturas, que ocupa posição de destaque. Muito embora não exclua o evento de sua formulação, situa-o num nível distinto e de menor importância com relação ao anterior.

Bloch e Febvre são responsáveis por um legado que acabará por se tornar hegemônico em termos de produção de conhecimento histórico, e, nos postos acadêmicos em França, marcadamente a partir da chamada segunda geração dos Annales, cujo máximo expoente foi Fernand Braudel. Este, a partir de 1968, deixa de ser o único responsável pela direção da Revista, cercando-se então de jovens historiadores, como Jacques Le Goff, Le Roy Ladurie, Robert Mandrou, Jacques Revel dentre outros. Em 1975 a VIª Seção da E.P.H.E., torna-se a École des Hautes Études en Sciences Sociales, com status de universidade e apta a conferir diplomas, ressaltando-se que a disciplina histórica ocupa um lugar central na Instituição, perceptível pelos quadros que a compõem, na sua maior parte de historiadores, que permanecem centralizando o poder intelectual na França.

Os decênios de 1950/60, fase em que Braudel deteve um poder quase absoluto no interior dos Annales, estando só a frente da direção da Revista, é o período em que se assiste ao apogeu dos estruturalismos, quer seja na sua vertente antropológica, funcionalista, ou de certas abordagens marxistas. É a época da euforia do quantitativismo como metodologia para análise de fontes históricas, concomitante com os avanços substanciais na área da informática. Na França, a sofisticação metodológica acabará por levar à extrema especialização da disciplina histórica com ênfase na longa duração.

A década de 1960 assiste à explosão de vários conflitos sociais, envolvendo múltiplos segmentos, os quais pela sua expressão e alcance não poderão ser ignorados pelos intelectuais da época. A partir do final desse decênio e nos que seguem, na esteira das transformações que se processam, os estruturalismos passariam por uma grande crise, quer seja o braudeliano, marxista ou funcionalista. Considere-se que segmentos da própria sociedade, em estado de franca ebulição, deram mostras efetivas de que comportamentos e realidades sociais não poderiam ficar confinados a modelos preestabelecidos. Idéia que finalmente parece ter sido apreendida por aqueles intelectuais que comumente se arvoram à função de pensar a vida dos seres humanos em grupo. Da mesma maneira indaga-se sobre a eficácia dos métodos quantitativos para a análise de fontes históricas, percebendo que se tal metodologia tem o mérito de permitir o estudo dos homens comuns, trazendo as massas para o domínio do trabalho do historiador, em contrapartida ao desconsiderar indivíduos, tomando-os tão somente como elementos de uma série, acabam por retirar-lhes a face humana, individual.

Ressalte-se que a recepção da crise que põe em questão os paradigmas científicos é muito diferenciada pelos historiadores da época. Não se vai discorrer aqui sobre as posturas genericamente designadas como "giro linguístico". Esta opção deve-se à discordância teórica com relação a um segmento que diante das circunstâncias acima descritas acaba por reduzir a história a uma expressão literária, já que parece compreender a falência dos estruturalismos como a débâcle de uma forma de conhecimento que se desenvolve no Ocidente desde o século XVI. Desconsidera-se assim, segundo esta perspectiva, que Marc Bloch, por exemplo, epígono dos Annales, pelos idos de 1940 já comentava sobre a atmosfera mental do seu tempo, propiciada pelos avanços no campo das ciências exatas, que leva à alteração, ou melhor, à flexibilização da própria concepção de ciência.

A atenção deste ensaio estará voltada para aqueles profissionais da história que, malgrado as incertezas que grassam, permanecem entendendo que o saber histórico é passível de ser apreendido como ciência, e no bojo da carência de referenciais buscam alternativas teóricas e metodológicas para a construção do mesmo. Toma lugar então a terceira geração dos Annales ou Nouvelle Nouvelle Histoire, fase de avaliação e reelaboração teórico-metodológica, ou seja, quando os novos historiadores são compelidos a "mudar de pele sob o sopro do vento da história"; todavia, é uma época de significativa pujança em termos de produção, além da permanência da hegemonia nos postos acadêmicos.

O conhecimento histórico efetivamente produzido nesse período acaba por colocar em risco aspectos tidos como centrais para a tradição annaliste. A interdisciplinariedade levada a efeito, em vez de propiciar o alcance de uma história geral e globalizante, acaba pelo contrário por fazê-la fragmentar-se em múltiplos objetos, muitas vezes sem qualquer relação com a totalidade. Além disso, se a aproximação com os cientistas sociais tornou possível e producente o diálogo com os mesmos, dificultou ou até impossibilitou a comunicação entre os historiadores, em virtude da diversidade de concepções e multiplicidade de temas e perspectivas de abordagem. É a história em migalhas de François Dosse. O interesse por acontecimentos imediatos, bem como por personagens individuais, reaparece, além da preocupação com o aspecto literário da escrita da história.

Em contrapartida, Jacques Le Goff afirma que se está vivenciando um dos grandes e marcantes momentos da disciplina histórica, ou seja, depois de uma primeira mutação, que na antiguidade fez a história passar do mito coletivo à procura de um conhecimento desinteressado da pura verdade, ocorre nas décadas de 1970/80 uma segunda mutação, quando os historiadores paulatinamente tomaram consciência de que tudo é digno de história, desde a mais minúscula das tribos, o mais insignificante dos gestos, a personagem mais modesta, ampliando assim ao infinito o domínio desses profissionais. Resulta daí uma "história bulímica", sobre a qual Le Goff está a inquirir se seria capaz de pensar e estruturar a realidade na sua totalidade. Questiona também sobre a possibilidade de alcançar-se uma coerência, uma logicidade no discurso histórico, quer seja, uma síntese. Ao que se poderia responder com uma formulação do próprio historiador mencionado, quer seja, que as histórias plurais situam-se dentro de um domínio histórico cujo horizonte continua sendo o da globalidade, que não é mais buscada principalmente na síntese, mas em objetos, ou melhor, temas de investigação e reflexão histórica de caráter globalizante.

Tendo em vista a alteração substancial dos procedimentos, objetos e problemas característicos da Terceira Geração, indaga-se sobre sua filiação e coerência no que tange às primeiras gerações, e, mais do que isto, de que forma e através de que elementos se estabeleceria a continuidade desta última fase da Revista relativamente às suas antecessoras. Dúvidas que procedem não apenas de adversários da Nouvelle Nouvelle Histoire, mas partem principalmente do interior da corporação dos novos historiadores. O que se evidencia pelo esforço empreendido pelos colaboradores dos Annales a partir de 1988, quando parecem tencionar implementar um processo de revisão de sua situação atual e de avaliação das características essenciais da produção historiográfica contemporânea vinculada à Revista, enfatizando a necessidade de reflexão sobre a mesma, na busca de estabelecer sua coerência com relação ao projeto fundador legado por Bloch, Febvre e Braudel.

Esta reavaliação passa por aspectos que sustentaram todo o projeto da Escola dos Annales. A proposta de transição para uma "nova fase" consta no editorial da Revista n. 2, de março/abril de 1988. Segundo o editorial será possível transcender esta fase de incertezas a partir de alguns procedimentos. Antes de tudo, refletir sobre a continuidade ou ruptura do que tem sido produzido pelos historiadores annalistes, no que diz respeito ao programa fundador, repensando as escalas e/ou dimensões de objetos e temas de pesquisa, as características da escrita da história, além da avaliação de possíveis novas alianças interdisciplinares a serem feitas, sem descartar as já existentes.

Repensar a interdisciplinariedade também é apreendido como fundamental. Considere-se que, na prática, a aliança com outros campos do conhecimento, levou a história à extrema fragmentação, além de terem-se esgotado os modelos explicativos das ciências sociais, que durante muito tempo lhes forneceram suporte teórico-metodológico. As alternativas para esta questão variam desde posições que vêem a prática interdisciplinar como salutar, desde que o historiador não perca sua identidade, melhor dizendo, a partir de uma "adesão crítica" ao "ponto de vista" das ciências sociais. Por outro lado pontifica-se o eventual ressurgimento de uma filosofia da consciência que teria como características essenciais a recusa a determinismos sociais e condicionamentos coletivos, além de trazer à tona a ação consciente dos sujeitos em relação/interação em situações determinadas. Nesta perspectiva a dimensão política da atividade humana recupera sua posição central.

Pode-se traduzir o dilema da Nouvelle Histoire nos seguintes termos: ou se mantém sob influência das ciências sociais em crise ou se aproxima dessa filosofia da consciência renascente, ou talvez combine as duas possibilidades. Reis afirma que o horizonte do conhecimento social não está claro, os desdobramentos destas incertezas ainda estão por vir, e aponta um aspecto elementar: os historiadores concordarão em dialogar com a filosofia, considerando o rechaço desses pela disciplina, uma das raízes fundadoras dos Annales? Ao que o referido autor clama por Febvre, que não rejeitava tal possibilidade em absoluto:

Dois espíritos, bem entendido: o filosófico e o histórico. Dois espíritos irredutíveis. Mas, não se trata de reduzi-los um ao outro. Trata-se de fazer com que, permanecendo um e outro em suas posições, eles não ignorem o vizinho ao ponto de lhe permanecer hostil ou estranho.

Roger Chartier, embora concorde com as possibilidades frutíferas do diálogo entre história e filosofia, não acredita no retorno de uma filosofia da consciência, pontificando que essas mutações estão ligadas a um distanciamento dos princípios de inteligibilidade, que comandavam a nova história desde a sua origem, ou seja, questões como totalidade social, globalidade, recorte territorial, longa duração, ênfase na perspectiva social, são progressivamente abandonadas dando espaço para novas concepções.

A revisão de posição a que os Annales foram obrigados deve-se sobretudo, segundo Reis, ao fato de que na década de 1980 tudo aquilo que eles reprimiram ao longo de sessenta anos voltou com mais força embora sob novas formas, citando-se aqui a narrativa, a biografia e o evento.

No caso da narrativa, deve-se dizer que seu suposto "ressurgimento" obteve bastante repercussão após o artigo de Laurence Stone, o Retorno da Narrativa ou Reflexões sobre uma Nova Velha História. Repercussão esta, na grande parte das vezes, de caráter negativo. Será deveras criticado (Hobsbawn, Ginzburg, etc.) por estar propondo o retorno de uma narrativa tradicional, quando na verdade deixa claro no artigo citado que não é este seu objetivo. Quando expõe suas idéias sobre uma narrativa contemporânea, enfatiza a presença e a necessidade da análise, pautada em problemas e argumentos, dando relevo ao aspecto formal, ou literário do texto histórico. Além do que, propõe a abordagem de "pessoas comuns", onde a investigação de uma personagem ou acontecimento exótico seria pensada a partir da inserção deste ou dessa na historicidade do seu tempo, e como forma de compreensão de um contexto determinado.

A biografia, por seu lado, não deverá ser muito difícil de ser assimilada, visto que muitos historiadores vinculados à Revista desde seu início produziram estudos de caráter biográfico, inclusive Lucien Febvre. Para Levi Giovanni este gênero tem o mérito de pôr em relevo o problema das relações entre a história e as ciências sociais, ou seja os limites da liberdade e da racionalidade humanas. Há também que mencionar que esse gênero historiográfico nos dias atuais pouco se assemelha com aquelas de conotação laudatória elaboradas até o início deste século, considerando ainda que no presente tem-se uma variada tipologia de biografias, desde as prosopográficas até individuais, que, longe de restringirem-se aos personagens eventualmente em foco, permitem a reconstrução dos quadros sociais ou contextos nos quais atuaram os sujeitos, denotando sua exemplaridade ou singularidade com relação à historicidade do seu tempo.

E quanto ao evento? Pode-se afirmar que apesar dos radicalismos de alguns novos historiadores – cite-se Le Roy Ladurie com sua "história imóvel" – o evento não é, no entanto, completamente estranho aos Annales. O conceito de longa duração, por exemplo, proposto por Braudel, integra o evento. Obliterar, deixar de lado o evento seria excluir a experiência vivida na temporalidade. O desafio para a Nouvelle Histoire seria pensar o evento sem recair nas filosofias da história. Reis considera que retornar ao evento, parece-nos, é retornar a Braudel.

Compreende-se que a avaliação empreendida pelos Annales denota sua postura aberta, a ausência de dogmatismos, e o fato de repensar conceitos caros à tradição annaliste não significaria transformar-se em outra coisa, diferente daquilo que sempre foi. Ao contrário, o mundo se modifica, e o retorno do sujeito, do evento, da narração, das nações, da história política, da biografia, que se pensava banidos dos domínios da história, realmente estão, porque aqueles que "ressurgem" pouco têm a ver com os alvos dos combates dos fundadores dos Annales. Acredita-se que a preocupação com os aspectos referidos encontra respaldo nas proposições das primeiras gerações, desde que não se assumam interpretações sectárias. Tem-se hoje na história portanto uma pluralidade de sujeitos produtores de "jogadas", de "eventos", que só poderiam ser apreendidos pela "narração", elementos que estão de volta pelos limites ou perigos postos pelo esquecimento dos processos pelos quais o novo advém. Dosse sintetiza bem essa questão:

a história da escola dos Annales não é uma história imóvel. Bem ao contrário, ela se adapta com sucesso às mutações sucessivas de nossa sociedade no decorrer do século XX e resiste com a mesma vitalidade aos assaltos das ciências sociais vizinhas e concorrentes.


Notas

Professora Assistente do Curso de História, vinculado ao Centro de Ciências Humanas, Educação e Letras, Campus Universitário de Marechal Cândido Rondon. Universidade Estadual do Oeste do Paraná/UNIOESTE. Mestre em História Ibero-Americana pela PUC/RS. Doutoranda em História do Brasil – PUC/RS. Elaboração de Tese de Doutoramento voltada para o estudo de populações indígenas no Oeste do Paraná.

REIS, José Carlos. Annales: A renovação da história. Ouro Preto, UFOP, 1996.

Id.

Como os historiadores ligados aos Annales se autodenominam, visando a marcar a continuidade e sua especificidade com relação às gerações anteriores designadas como Nouvelle Histoire.

REIS, op.cit, pp. 82

DOSSE, François. A história em migalhas: dos Annales à nova história. São Paulo/Campinas, Ensaio/Ed. UNICAMP, 1992.

LE GOFF, Jacques. História e memória. Campinas, Ed. UNICAMP, 1996.

REIS, op.cit.

Id.

FEBVRE, Lucien. Combats pour l’Histoire. Paris, Armand Colin, 1965. Citado por REIS, op.cit.

CHARTIER, Roger. Le monde comme représentation. In: Annales ESC, n. 6, Paris, Armand Colin, 1989. Citado por REIS, op.cit.

REIS, op.cit.

GIOVANNI, Levi. Les usages de la biographie. In: Annales ESC, n. 6, Paris, Armand Colin,1989. Citado por REIS, op.cit.

REIS, op.cit., pp. 114.

REIS, op.cit.

DOSSE, op.cit., pp. 249.
REVISTA DE HISTÓRIA REGIONAL 5(2): Inverno 2000

Para que serve a História?

Rogério Rezende Pinto


"Ignorar ... o que aconteceu antes de termos nascido equivale a ser sempre criança." Cícero (106 - 43 a. C.), Do Orador, XXXIV

"O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente." Carlos Drummond de Andrade (1902 - 1987), Mãos dadas IN: Sentimento do Mundo.


Imagine-se surgindo no mundo hoje. Agora, neste instante. Do jeito que você é. Da forma como você pensa. Imagine que ao surgir neste instante no mundo, você pudesse ter uma vida bem parecida com a que você já possui. Você apareceria hoje, agora, pronto do jeitinho que você é. Uma das diferenças básicas seria a de que todos os seus amigos não terem consciência de onde vinham, onde estudaram antes da atual escola, quem são os seus pais (e irmãos e irmãs, e tios e tias, etc.). Que filmes viram na TV ou no cinema, quais as partidas de futebol mais gostaram de assistir no último campeonato. Qual a novela mais engraçada, qual o livro que mais gostou de ler, etc., etc. Ou seja, tudo o que você experimentou antes de estar aqui, agora, lendo este texto, suas experiências pessoais de vida seriam desconsideradas. Seriam inexistentes. Afinal, você acabou de surgir neste mundo!

Você não ficaria curioso para saber quem foi o seu pai e a sua mãe? E os irmãos e irmãs? Você não gostaria de saber como eles são ou como foram quando menores? É claro que isso é impossível de acontecer! Você já deve estar pensando assim. Mas, supondo que algum cientista, atendendo a um pedido seu, resolvesse cloná-lo para que, em uma situação qualquer, você pudesse estar em dois lugares ao mesmo tempo. Será que esse outro você nasceria pensando igualzinho a você? Será que esse novo ser, nascido sem nenhuma experiência de vida, sem vivência, seria realmente um "outro eu"? Biologicamente, fisicamente, talvez sim; mas no caráter e na mentalidade, muito difícil.

Pois então, se no plano pessoal surgiriam essas entre outras milhares de questões, o que pensar, então, quando o assunto gira em torno de se saber sobre a origem, a formação, de uma sociedade inteira? Com certeza as questões que surgiriam seriam bem mais profundas. Bem mais difíceis de responder. Quais as curiosidades que os diversos agrupamentos humanos têm sobre si? Que necessidades têm em fixar o passado? Afinal, se uma pessoa se questionaria tanto sobre como ela é (que é o fruto direto de um processo de como ela foi) o que não será, então, de um grande número de pessoas querendo saber do seu agrupamento social.

A sua história pessoal é a história das transformações vivenciadas por você. Sejam elas no plano pessoal, familiar ou social.

Só quando olhamos para trás, é que percebemos como nós mudamos (sejam mudanças externas ou internas). O mesmo vale para a sociedade (a diferença é de que na sociedade tem-se vários grupos que lutam e defendem o seu ponto de vista. É óbvio que os mais conscientes e organizados acabam por impor a sua forma de pensar e de valorizar a própria sociedade). Ao observarmos algo que mudou e não nos agrada, tentamos impedir que o processo em curso continue. Se nos agrada, procuramos facilitar que o processo continue e tentamos reforçá-lo. Assim é também na(s) sociedade(s). Somente quando nos voltamos para o passado social é que se pode ter a expectativa de entendermos o que somos e por que somos de tal forma. Só assim identificamos o que é necessário mudar e o que é preciso ser reforçado.

Você já deve ter escutado, em certas situações, uma célebre frase que diz aproximadamente assim: "Isso é assim, sempre foi assim, desde que o mundo é mundo. E vai continuar assim. Nunca vai mudar!" Pois é, entretanto, o tempo histórico é diferente do tempo cronológico do nosso dia-a-dia. Se as coisas jamais mudassem, então, estaríamos em uma fase exatamente igual ao do primeiro dia, do primeiro homem do período pré-histórico. Nada realmente teria mudado desde então. Na verdade há mudanças no período histórico que levam anos para ocorrer, outras podem levar algumas décadas, há aquelas que podem levar séculos para se fazerem notar. Outras podem chegar a levar mais de um milênio para se concluírem. Essas mudanças históricas, devido a esses períodos de tempo que, para nós, são demasiados longos, para o homem comum, nem sempre são perceptíveis no cotidiano. Outras mudanças se fazem mais rápidas e radicais (principalmente, nestes tempos em que vivemos).(1) Podem ou provocam modificações e questionamentos quase que imediatos. A clonagem de seres vivos, o transplante de órgãos são acontecimentos que levaram as pessoas a questionarem o mundo que vivem, os seus valores e o que desejam para o seu futuro. Da mesma forma, valem os exemplos do "descobrimento" do Novo Mundo (que modificou, radicalmente, a vida das sociedades presentes em pelo menos três continentes: o americano, o europeu e o africano) ou da Segunda Guerra Mundial. Esses foram responsáveis por mudanças que atingiram a vida quotidiana das pessoas. Transformaram a política, a economia, a cultura, a geografia, a demografia, as próprias sociedades, enfim.

Só o tempo histórico permite e oferece a possibilidade de uma análise da sociedade que se precisa estudar. Para você, para a sua vida, qualquer atividade que demande um tempo de, por exemplo, três meses, será uma enormidade de dias. Para alguém com 50 anos, por exemplo, três meses não será tanto tempo assim. Para a História o que seriam 50 anos no universo do tempo da própria História da Humanidade? Isso para não citarmos os três meses – que para você pode ser tanto tempo.

O tempo histórico não se prende ao calendário diário ou aos ponteiros do relógio. O tempo histórico é o próprio desenvolvimento do percurso que a humanidade fez até o presente momento. Em outras palavras, o tempo histórico é o que chamamos de "processo histórico". É desse processo histórico que podemos obter esclarecimentos sobre a forma de agir e pensar de uma sociedade em um momento histórico específico. Coloquemos isso de outra forma e exemplifiquemos. Você estudará História do Brasil. Se você quer saber sobre a nossa origem, os seus estudos iniciaram-se em 22 de abril de 1500, certo? Não, responderiam alguns. Talvez, diriam outros. Em parte, responderiam mais alguns. Por quê? Porque a História, que hoje nós chamamos de Brasil, está ligada ao desenvolvimento da própria história de Portugal e Espanha, daquele contexto histórico de fins do século XV, do momento vivido pelas pessoas daquela época. O que elas queriam? Pra que precisavam de certas coisas? Como pensavam? Por que agiam ou agiram de uma ou de outra maneira? E, principalmente, quais as consequências do modo de viver da sociedade daquele período? Como se desenrolou? Essas e outras perguntas possibilitam ao estudioso daquele período histórico a compreender o passado e as causas para a construção da futura sociedade e cultura brasileira. Essa situação de investigação do processo histórico, de uma determinada sociedade, em um momento específico, talvez, fique ainda mais claro para você poder compreender o que precisamos transmitir, se fizermos uma comparação simplificada. Se alguém perguntasse a você quando começou a história da sua vida, rapidamente, você pensaria e responderia — No dia em que nasci! ("No dia tal, do mês tal, do ano tal"). Correto!? Será mesmo?! Será que de certo modo a sua história não tem uma estreita ligação com a do seu pai e da sua mãe? A sua história pode até ter começado na data do seu natalício, mas não se pode ignorar, totalmente, a história dos seus pais. Pense nisso!

Nossa! Você responderia, em relação ao exemplo anterior. E diria que assim essa história não teria mais fim. Primeiro iria para a do pai e da mãe, depois para os avós e bisavós e, assim, sucessivamente até chegar a épocas imemoriais. É uma "linha" sem fim. E é isso mesmo. Uma "linha" que se perde em um passado, imensamente, distante e que principia em um infinito desconhecido. Porém, temos que ressaltar que a História não pode ser exatamente exemplificada como se fosse uma linha reta, ligando um passado longínquo à atualidade. A "linha" da História está cheia de "altos e baixos", "idas e vindas", "recuos e avanços", "desvios", "buracos", e até mesmo com rupturas de continuidade (que é, por exemplo, quando uma sociedade necessitou fazer uma mudança radical em sua estrutura para continuar existindo ou mesmo quando foi substituída por uma nova sociedade, uma nova mentalidade). Na verdade, essa "linha" da História inexiste, isto é, ela não existe. É apenas um exemplo didático para melhor compreensão do próprio processo histórico.

A função da História é a de fornecer à sociedade (às pessoas) as explicações de suas origens. Como diz Vavy Pacheco Borges (1986, p.46), a História busca oferecer às pessoas uma explicação genética da sua formação e consolidação.

A história das sociedades é feita pelos próprios homens que vivem naquela sociedade e naquele tempo histórico.

Você não deve e não pode confundir a história do Universo, a história da Natureza, a história da Terra, com a história social. Como você pode perceber, tudo tem uma história, um passado: um processo de transformação. A diferença entre a história do Universo e a história do Brasil é a de que, a do Brasil quem faz são as pessoas que em sua grande maioria vivem em um espaço geográfico denominado de Brasil. É verdade que nem sempre esses agentes históricos (as pessoas) estão atuando de forma consciente. Nem sempre os homens têm a capacidade de saber o que acontecerá se agirem de uma ou de outra maneira. Mas é certo que a reação ou não das outras pessoas ao que fizeram será a continuidade do processo histórico anterior.

Ao estudar o passado, o historiador não busca na verdade encontrar um elemento síntese para explicar toda a história da humanidade. Isso ainda é considerado uma utopia.(2) Não existe homogeneidade na História. Cada povo, cada civilização, cada cultura, de cada tempo e épocas diversas tem sua história própria. Se de dois irmãos criados pelos mesmos pais, em uma família, em uma mesma casa, diz-se que não são iguais, tente imaginar sociedades diferentes em uma mesma época ou em épocas diferentes.

Na verdade, um dos objetivos da História é o de se estudar o passado, buscando as explicações para se entender o tempo histórico presente. E até quem sabe, apontar possíveis tendências para o futuro. Isso se deve pelo fato de que o historiador, além de ser fruto do seu tempo, sabe e tem consciência de que o homem, enquanto indivíduo, vive em um preciso tempo histórico, em um determinado contexto social e num dado espaço físico-geográfico. (É claro que não é só o historiador que porta essa consciência. Existem outros indivíduos que possuem esta visão e que não são necessariamente historiadores). Em síntese, o homem tem consciência de ser um ser histórico, temporal e finito. Ao historiador compete o estudo da forma de interagir desse homem com a natureza e com os outros homens. Ao perguntar: O quê? Quando? Por quê? Como? Para quê? Onde? sobre o período histórico daquele homem (ou sociedade) abordado, o historiador vai entendendo melhor o passado e o seu presente. E que, a partir das suas observações e conclusões, possam apontar diretrizes, planejar melhor o futuro. São por causas dessas – e de outras perguntas ou interesses – que a História é, constantemente reescrita, reelaborada. Isso, porque cada época, cada sociedade histórica tem uma preocupação e questionamentos que a diferem de suas antecessoras.

Ao estudar a História, você vai adquirindo consciência da existência de forças transformadoras e dinâmicas dentro das sociedades. São forças que impedem uma sociedade de ser imutável ("Desde que o mundo é mundo, as coisas sempre foram assim e sempre serão". Lembra-se?). Você verá que tudo se transforma e tudo pode mudar. Seja no plano pessoal ou no coletivo, as pessoas estão sempre buscando a felicidade, a segurança e o bem estar.

É bom você saber que a História não é algo perfeito, pronto e acabado. Ela é produto de um processo que está sempre em desenvolvimento, em construção. É dinâmica! Está, constantemente, sendo reelaborada. Enfim, História é uma ciência que tem preocupação com o homem, com o seu trabalho, com a sua maneira de viver, com o seu relacionamento com os outros homens e com a natureza. Sempre objetivando compreender melhor o presente. É como disse Carlos Drummond de Andrade "O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente." A História é a ação transformadora dos homens em seu espaço social, em seu tempo.

Ao ter consciência histórica, consciência da dinâmica social, você será mais um capacitado a procurar entender o seu tempo, a sua época. Você terá mais condições de entender e participar das transformações da sua sociedade. Da busca de um mundo melhor e mais justo.


Notas

(1) A aldeia global, a globalização, se faz muito presente e forte na atualidade. Graças à presença da imprensa, seja ela jornal, TV ou rádio e mesmo da internet, faz com que rapidamente um acontecimento que ocorra em qualquer ponto do planeta, esteja em sua casa, ao vivo, no mesmo instante em que está se desenrolando.

(2) O termo utopia pode ser entendido como uma situação ideal desejada e que se busca alcançar. É como algo que no momento se apresenta como irrealizável, mas que os objetivos visam tornar um desejo em algo concreto.


Referências

BORGES, Vavy Pacheco. O que é História. 11.ed. São Paulo: Brasiliense, 1986.

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