Até o início do século XX, vigorava entre os historiadores a ideia de que o conhecimento histórico só poderia ser construído pela análise de documentos escritos. Para esses profissionais, não poderia haver história sem fontes escritas. Por isso, o período anterior à escrita foi chamado de Pré-História.
Esse critério,
porém, é muito simplificador, pois desconsidera todos os outros vestígios deixados
pelos seres humanos antes de desenvolver
a escrita, como os artefatos criados e os
registros rupestres.
Com a ampliação dos registros considerados fontes históricas, passou-se a questionar o uso desse termo, visto que os
registros deixados pelos primeiros seres humanos (como objetos de cerâmica e pinturas rupestres) também começaram a
ser considerados históricos.
Por isso, atualmente, prefere-se chamar
o período anterior ao uso da escrita de
história Pré-escrita, em vez de Pré-história.
Feita essa observação, você vai conhecer
a divisão mais tradicional da história antes
da escrita.
Esses questionamentos se refletiram nas propostas de periodização. Até então, a época anterior
ao surgimento da escrita era dividida em dois grandes períodos, que se subdividiam: a Idade da Pedra e a Idade dos Metais.
A Idade da Pedra compreendia o Paleolítico e o Neolítico. A Idade
dos Metais, por sua vez, era subdividida em Idade do Bronze e
Idade do Ferro.
Essas periodizações e as datas às quais elas se referiam diziam respeito à história de alguns povos do continente europeu,
do norte da África e de parte do Oriente Médio. Essa cronologia
desprezava o desenvolvimento tecnológico ocorrido no restante
do mundo, em outras temporalidades. Além disso, esse modo de
classificar os períodos da história sugeria que havia uma evolução entre os povos, como ocorre na biologia.
Existem sociedades atuais, por exemplo, que não têm sistema de escrita nem vivem em cidades. No entanto, sabemos que
isso não significa que elas sejam atrasadas em relação às outras
culturas ou mesmo que não tenham história.
Cada grupo apresenta movimentos próprios de desenvolvimento e isso não o torna superior ou inferior. Dessa forma,
as periodizações foram sendo adaptadas de acordo com a região abordada, já que, em cada parte do mundo, o desenvolvimento de tecnologias ocorreu em ocasiões diferentes. Assim, evita-se criar um julgamento que conceba
a história como um processo evolutivo “rumo
ao progresso”.
A vida dos primeiros seres humanos
Como era a vida dos primeiros seres humanos? De 120 mil a aproximada
mente 12 mil anos atrás, os grupos humanos que foram estudados por arqueólogos e historiadores possuíam algumas características em comum. Vamos
conhecê-las?
Caçadores e coletores: Os primeiros grupos humanos se dedicavam às atividades
de subsistência. Para isso, se concentravam na caça, na pesca e na coleta de frutos,
verduras e outros alimentos. Eles também coletavam diferentes matérias-primas,
como a madeira e diferentes rochas, usadas para a fabricação de ferramentas.
Nômades: grupos que viviam em pequenos bandos, abrigavam-se em cavernas e
deslocavam-se com frequência de um lugar para o outro por causa da escassez de
caça e pesca.
Ferramentas: Os primeiros grupos humanos, em seu dia a dia, quebravam pedras
e as transformavam em instrumentos cortantes, usados, por exemplo, para caçar,
guerrear ou cortar a carne de suas presas. A época em que os seres humanos
desenvolveram essa tecnologia foi chamada pelos pesquisadores de Idade da
Pedra Lascada ou Paleolítico, em referência aos instrumentos feitos de pedra.
Controle do fogo: Esses povos começaram a
controlar o fogo, que era fonte de luz e calor e recurso
para cozinhar alimentos. Com isso, alguns grupos
humanos começaram a se estabelecer por mais tempo
em determinados locais, ou seja, estabeleciam-se
por longos períodos em certos locais, deslocando-se
apenas quando se esgotavam os recursos à sua volta.
Arte rupestre: Os humanos também se expressavam
artisticamente por meio das inscrições (ou pinturas)
rupestres, em rochas e nas paredes e tetos das
cavernas e de outros abrigos. Essas pinturas tinham
como tema cenas do cotidiano, como é o caso da
caça, apresentando figuras humanas, animais e outros
objetos. As tintas e pigmentos eram produzidos com
sangue, minerais, argila, gordura animal e resinas
vegetais, entre outros.
As primeiras sociedades
Ao pesquisar a história das diferentes sociedades humanas que tiveram
origem na África, arqueólogos e outros estudiosos encontram os mais
variados vestígios que demonstram os hábitos e as habilidades desses povos.
Entre esses hábitos e habilidades estão, por exemplo, a invenção das primeiras
tecnologias, o controle do fogo, o desenvolvimento dos idiomas, das expressões artísticas e dos ritos religiosos.
Todas essas transformações culturais,
pioneiramente realizadas por diferentes povos africanos, foram promovendo
mudanças na natureza e na paisagem e nas formas de relacionamento social.
Paleolítico: povos caçadores-coletores
O primeiro marco da divisão da história
Pré-escrita é o Paleolítico, que corresponde
ao período em que os seres humanos usavam instrumentos feitos de pedra lascada,
que já eram empregados havia cerca de 2,5
milhões de anos por outros hominídeos.
O Paleolítico foi um período muito longo da história da humanidade, no qual os seres humanos sobreviveram da caça, da pesca e da coleta de frutas, sementes, raízes e folhas. Por isso, ficaram conhecidos como caçadores e coletores.
Os historiadores dão o nome de Paleolítico ou Idade da Pedra Lascada ao
período mais remoto da história dos seres humanos, quando eles se abrigavam
em cavernas, vestiam-se com peles de animais e faziam instrumentos rudimentares de lascas de pedra, ossos e madeira.
As pesquisas indicam que os primeiros grupos humanos caçavam, pescavam e coletavam grãos, frutos e raízes para se alimentar, mas não cultivavam
plantas nem criavam animais.
Nessa época, os seres humanos eram nômades, ou seja, deslocavam-se
de um lugar para outro em busca de melhores condições de sobrevivência, e
formavam grupos pouco numerosos em que o trabalho era coletivo: a caça, a
pesca e o corte de lenha eram tarefas dos homens; já as mulheres coletavam
frutos, preparavam os alimentos e cuidavam das crianças.
Consumiam alimentos que encontravam na natureza e, quando esses alimentos se tornavam escassos, mudavam-se para outros lugares.
Por isso, foram chamados de caçadores-coletores nômades.
Evidências sugerem que alguns grupos humanos aprenderam a fazer o fogo há
cerca de 1 milhão de anos. Aqueles que dominavam essa técnica apresentavam
vantagem em relação aos demais: as fogueiras serviam para se aquecer, afugentar
animais, iluminar o interior de cavernas, acender tochas e cozinhar alimentos.
Durante os milhões de anos do Paleolítico, nosso planeta passou por intensas mudanças climáticas. Assim, os povos das diferentes regiões do mundo
tiveram que se adaptar a essas mudanças, criando ou aperfeiçoando maneiras de viver
e sobreviver. Nesse período, uma das conquistas mais importantes dos grupos humanos
foi o controle do fogo. Mas como esses grupos aprenderam a controlar o fogo?
Supõe-se que, no princípio, eles procuraram manter aceso o fogo provocado ocasionalmente pela natureza (por exemplo, as chamas nos galhos de uma árvore atingida por
um raio). Depois, descobriram como produzir fogo pelo atrito entre pedaços de madeira
ou lascas de pedra.
O fogo foi utilizado de várias maneiras, por exemplo: para combater o frio intenso; ilu
minar ambientes escuros; afastar animais predadores; cozinhar alimentos em fogueiras.
Esses usos do fogo continuam importantes até hoje. Na iluminação, o fogo foi utilizado
até a invenção da lâmpada elétrica em 1879.
Além do controle do fogo, os seres humanos começaram a construir abrigos utilizando
madeira, peles e ossos. Também passaram a fazer roupas com peles de animais.
Aos poucos, esses grupos humanos desenvolveram os primeiros instrumentos para caçar, pescar, colher plantas comestíveis,
cortar frutos ou mesmo para fazer outros instrumentos, como
lanças, arcos, flechas, arpões, lâminas e anzóis.
Na fabricação
desses instrumentos eram utilizados materiais como madeira,
ossos, chifres e pedras lascadas, motivo que levou esse período a ser chamado de Paleolítico (palaiós = antigo, primitivo;
líthos = pedra), que significa “velha idade da pedra”.
Neolítico: sociedades agrícolas e pastoris
Pesquisas indicam que, por volta de 12 mil anos atrás, alguns grupos humanos aprenderam a domesticar animais e a praticar agricultura. Esse fato diminuiu a necessidade de
deslocamento em busca de comida, tornando-os seminômades.
A partir de 8000 a.C., aproximadamente, em algumas regiões do mundo, parte dos grupos humanos começou a polir
as pedras para confeccionar instrumentos, como facas, foices
e machados.
Esses instrumentos cortavam melhor que os
instrumentos de pedra lascada, utilizada no Paleolítico. Esse
novo período foi classificado como Neolítico (do grego,
neo = novo; líthos = pedra; que significa “nova idade da pedra”).
Além dos instrumentos de pedra polida, considera-se que
uma das principais inovações do Neolítico foi o cultivo de plantas
(agricultura) e a criação de animais (pastoreio). Essas atividades
se tornariam importantes fontes de obtenção de alimento, juntamente à caça, à pesca e à coleta de grãos e frutos silvestres.
Nesse mesmo processo, houve grupos humanos que se tornaram sedentários, ou seja, fixaram-se em um território, formando aldeias. Nesses locais, as
terras e os instrumentos de trabalho eram de uso coletivo.
Os homens fabricavam armas e instrumentos de trabalho com a técnica de polimento de pedras,
ossos e madeira, construíam abrigos e caçavam; já as mulheres cuidavam das
crianças, plantavam, cozinhavam e produziam utensílios de palha e cerâmica.
O desenvolvimento da agricultura e da criação de animais ocorreu em várias regiões
do mundo, mas em diferentes momentos. Por isso, não é possível utilizar uma data exata
de término de um período e início do outro.
Na África (região do atual Egito) e no Oriente
Médio (região do atual Iraque), esse processo teve início por volta de 8000 a.C. (cultivo do
trigo e da cevada e criação de ovelhas, porcos e bois). Na América, alguns pesquisadores
acreditam que o processo teve início por volta de 6000 a.C. (cultivo de milho, abacate,
pimenta, tomate, abóbora, feijão e criação de patos e perus).
Sedentarização e produção de alimentos
Durante o período Neolítico, a agricultura e a criação de
animais forneceram alimentos para as comunidades humanas. No entanto, outra parte dos alimentos continuou vindo
da coleta de frutos, da caça e da pesca.
As novas atividades de produção levaram certos
grupos a morar por mais tempo nas terras que cultivavam. Criou-se, assim, um novo modo de vida, chamado
sedentarismo, ou seja, certos povos passaram a habitar
um mesmo local de forma prolongada em função, por
exemplo, da agricultura.
Os cultivos agrícolas desse período variaram de região
para região, destacando-se os de trigo, centeio, cevada,
milho, batata, mandioca e arroz. As criações mais comuns
eram de carneiros, cabras, bois e porcos.
Aos poucos, com o domínio de técnicas agrícolas e pastoris, muitos grupos foram armazenando alimentos e se
organizando em aldeias.
Apesar do enorme avanço tecnológico atual, é possível
dizer que a maioria dos alimentos consumidos pela humanidade no século XXI derivam de plantas que foram domesticadas entre 8000 a.C. e 3500 a.C., como trigo, milho, batata,
feijão, arroz, centeio, cevada, entre outras. Isso demonstra
nossos vínculos com os conhecimentos agrícolas e pastoris
dos tempos neolíticos.
Inovações técnicas do Neolítico
Além da agricultura, da criação de animais e da sedentarização, outras transformações importantes aconteceram no
período Neolítico. Muitas delas estavam ligadas a inovações
técnicas na:
• cerâmica – diversos grupos humanos começaram a
produzir utensílios de cerâmica, modelando a argila e
aquecendo-a no fogo. Supõe-se que foi a necessidade
de cozinhar e de armazenar os alimentos que levou à
confecção desses utensílios;
• tecelagem – vários povos começaram a fiar e a tecer,
utilizando as pelagens de animais e as fibras vegetais.
Surgiram, então, as primeiras roupas de lã, linho e
algodão. Antes disso, as vestimentas eram feitas principalmente do couro e de peles de animais;
• moradia – os grupos humanos também começaram
a construir casas mais duradouras, feitas de madeira,
barro, pedra e folhagem seca. A edificação desses
tipos de moradia está relacionada ao processo de
sedentarização.
Aldeias e primeiras cidades
As primeiras aldeias sedentárias foram surgindo à medida que as comunidades
neolíticas se fixavam em um território. Essas comunidades dedicavam-se principalmente
à criação de animais e ao cultivo agrícola.
De modo geral, estudiosos supõem que em muitas comunidades os homens mais
jovens praticavam a caça e a pesca. Já as mulheres cuidavam da agricultura, cozinhavam
os alimentos, produziam utensílios de cerâmica, teciam roupas e cuidavam das crianças.
Aos poucos, a divisão das tarefas se tornou mais especializada e as aldeias foram se
organizando de maneira mais complexa. Isso teria contribuído para o surgimento das primeiras vilas e cidades. Estas incorporaram à sua organização social novos elementos: por
exemplo, uma muralha protetora, um templo para cultuar um deus, grupos de sacerdotes:
armazéns para guardar os alimentos, guerreiros para cuidar da defesa etc.
No Oriente Médio, surgiram algumas das primeiras sociedades urbanas. Entre as cidades
mais antigas do mundo, podemos citar: Jericó, na região da atual Palestina; Beidha, na
atual Jordânia; e Çatal Hüyük, na atual Turquia. Elas se desenvolveram das vilas agrícolas
entre 8000 a.C. e 7000 a.C.
Metalurgia e desenvolvimento técnico
Ao final do período Neolítico, em cerca de 4000 a.C., em algumas das primeiras cidades do mundo, surgiu a metalurgia, técnica que permite a transformação de metais em objetos variados. Essa inovação costuma ser considerada um
importante marco do desenvolvimento tecnológico humano.
Em geral, os metais são tão resistentes quanto as pedras, mas
oferecem mais possibilidades de modelagem. Quando derretidos
pela ação do calor (fusão), os metais assumem as formas mais
variadas. No desenvolvimento inicial da metalurgia, foram utilizados três tipos de metal.
O primeiro metal a ser empregado em grande quantidade foi o
cobre. Da mistura do cobre com o estanho, foi obtido o bronze. Por
ser mais resistente que o cobre, o bronze tornou-se matéria-prima para
a fabricação de espadas, escudos, lanças e martelos.
Por volta de 1500 a.C., povos que viviam na Ásia Menor ( região
que atualmente pertence à Turquia) começaram a utilizar o ferro.
Os instrumentos feitos de ferro, por sua maior resistência, favoreceram o aumento da produção agrícola e artesanal.
Os artesãos metalúrgicos foram capazes de produzir diversos tipos
de objetos e instrumentos, como panelas, vasos, enxadas, machados, pregos,
facas e lanças de metal. Instrumentos de pedra, como pontas de flechas e raspadeiras, continuaram sendo utilizados.
Arte, crenças e invenções das primeiras sociedades humanas
No longo período da Pré-História, os
seres humanos criaram diferentes for
mas de expressar seu cotidiano e suas
crenças, e desenvolveram conhecimentos que os ajudaram a sobreviver.
Os humanos pré-históricos fizeram
inúmeras pinturas dentro de cavernas,
utilizando restos de carvão e tinta produzida com folhas, sangue, urina e terra.
Esses desenhos, chamados de arte rupestre, revelam o modo de vida de nossos ancestrais, com cenas de caça, guerra e coleta.
Outra manifestação cultural da Pré-História são as estatuetas femininas, esculpidas em pedra ou osso, encontradas em diversas partes do mundo.
A função das pinturas rupestres e estatuetas não era decorativa. Elas são
consideradas manifestações artísticas do período e geralmente representam
aspectos do cotidiano. Foram encontrados indícios de que os primeiros grupos
humanos também costumavam enterrar os mortos em cavernas ou túmulos
coletivos, que eram demarcados por grandes blocos de pedra.
No Período Neolítico, a invenção da roda e de embarcações tornou mais
rápida a locomoção para lugares distantes. A agricultura gerou a necessidade de novos objetos, como potes de cerâmica, usados para armazenar os
grãos e cozinhar os alimentos. O arado com tração animal, as pás,
as enxadas e as foices facilitaram o trabalho de plantio e de
colheita.
Entre 5 000 a.C. e 4 000 a.C., algumas sociedades neolíticas desenvolveram técnicas de fundição de metais. Inicialmente, fundiam o cobre e
o empregavam na manufatura de vários objetos;
depois, passaram a usar o bronze e o ferro, materiais
mais resistentes, com os quais faziam instrumentos de
trabalho, utensílios e armas.
Existem muitas técnicas e métodos para estudar a cultura material
dos povos da Pré-história. Por exemplo, os estudiosos fazem comparações entre esses povos e as sociedades ágrafas do presente. Porém,
nem todos os pesquisadores consideram válidas essas comparações,
pois afirmam que aspectos formais parecidos entre duas culturas
podem ter significados bastante diferentes. Por essa razão, advertem
que é preciso cautela para não transferir conhecimentos de um tempo
para outro e de uma cultura para outra, como se as culturas ágrafas
fossem todas iguais ou tivessem ficado “congeladas” no tempo.
Apesar das críticas ao método comparativo, algumas características
parecem ser recorrentes nas sociedades sem escrita. Uma delas é o modo
de tratar os idosos. Diferentemente do que acontece nas sociedades
industriais de hoje, em que os idosos muitas vezes são considerados
“improdutivos” e chegam até mesmo a ser abandonados pela família,
nas sociedades ágrafas, eles assumem funções importantes, como a
de conselheiros e guardiões da sabedoria dos antepassados.